RESUMO
Este artigo analisa criticamente a captura da inteligência humana pela Inteligência Artificial (IA) no contexto da universidade pública brasileira. Por meio de revisão bibliográfica e análise conceitual, problematiza a IA como vetor de controle, plataformização e precarização do saber, vinculada ao capital fictício que compromete autonomia, formação e pensamento crítico. Apresenta sete razões para rejeitar a artificialização do pensamento, incluindo a indução ao pensamento único, perda da criatividade e esvaziamento político do docente. Finaliza ressaltando a insurgência do conhecimento e a importância da resistência ética, defendendo a centralidade humana na produção do saber e a reinvenção da universidade como espaço vivo de escuta e debate.
Palavras-chave
Capital fictício; Educação Superior; Inteligência artificial; Produção de conhecimento; Trabalho docente
ABSTRACT
This article critically analyzes the capture of human intelligence by Artificial Intelligence (AI) in the context of Brazilian public universities. Through a literature review and conceptual analysis, it problematizes AI as a vector of control, platformization, and precariousness of knowledge, linked to fictitious capital that compromises autonomy, education, and critical thinking. It presents seven reasons to reject the artificialization of thought, including the induction of single-minded thinking, loss of creativity, and political emptying of the teaching profession. It concludes by emphasizing the insurgency of knowledge and the importance of ethical resistance, defending the centrality of humans in the production of knowledge and the reinvention of the university as a living space for listening and debate.
Keywords
Artificial intelligence; Fictitious capital; Higher education; Knowledge production; Teaching work
RESUMEN
Este artículo analiza críticamente la captura de la inteligencia humana por parte de la Inteligencia Artificial (IA) en el contexto de la universidad pública brasileña. A través de una revisión bibliográfica y un análisis conceptual, problematiza la IA como vector de control, platformización y precarización del saber, vinculada al capital ficticio que compromete la autonomía, la formación y el pensamiento crítico. Presenta siete razones para rechazar la artificialización del pensamiento, entre ellas la inducción al pensamiento único, la pérdida de creatividad y el vaciamiento político del docente. Concluye destacando la insurgencia del conocimiento y la importancia de la resistencia ética, defendiendo la centralidad humana en la producción del saber y la reinvención de la universidad como espacio vivo de escucha y debate.
Palabras clave
Capital ficticio; Educación superior; Inteligencia artificial; Producción de conocimiento; Trabajo docente
Introdução: A Inteligência como Campo de Disputa
A inteligência, outrora celebrada como expressão criadora do espírito humano, encontra-se hoje submetida às lógicas de racionalização digital que reduzem a experiência formativa a relatórios, índices e planilhas. O presente artigo não tem como objetivo elaborar um panorama tecnicista sobre a Inteligência Artificial (IA) nem tampouco realizar uma descrição de suas aplicações imediatas, mas sim propor uma reflexão crítica sobre os modos como a IA se insere no campo do conhecimento e da educação superior, produzindo efeitos epistemológicos, políticos e sociais que merecem exame cuidadoso.
O que se apresenta não corresponde a uma transição neutra ou inevitável, mas a um processo de captura sistemática que esvazia da universidade sua dimensão crítica e insurgente, convertendo-a em engrenagem funcional recoberta por algoritmos. Nessa perspectiva, a IA deve ser compreendida não apenas como instrumento ou ferramenta didática, mas como vetor de controle e disciplinamento, reconfigurando o tempo da dúvida, sufocando a escuta atenta e condicionando a linguagem a padrões previsíveis que estreitam os horizontes do pensamento.
Ao situar essa análise, a IA é vinculada às dinâmicas do capital fictício e do colonialismo digital, compreendendo-a como parte de um processo mais amplo de reestruturação da produção de saberes e de intensificação da precarização docente. Assim, a crítica aqui desenvolvida busca evidenciar como a universidade pública brasileira, sob a pressão de métricas e dispositivos algorítmicos, é progressivamente convertida em espaço de padronização e submissão, no qual a promessa de modernização encobre a reprodução de desigualdades cognitivas e o silenciamento das formas insurgentes de produção de conhecimento.
Sob a hegemonia do capital fictício (Marx, 2004; Marini, 1973; Paulani, 2008; Fraser; 2022; Prado, 2022; Silva Júnior, 2025), que comercializa futuros para esvaziar o presente, a inteligência artificial atua como vetor privilegiado da domesticação cognitiva. Seu discurso de neutralidade desliza viscoso pelos relatórios de gestão, encobrindo uma essência colonizadora que se esconde sob a promessa de eficiência.
No Brasil essa maquinaria é recebida com um entusiasmo servil, como se a história, o pensamento e a memória fossem descartáveis diante das diretrizes importadas. O que se proclama como modernização pedagógica resulta, na prática, na renovação do colonialismo, agora dissimulado em códigos e interfaces digitais, replicando antigos esquemas de subordinação cultural sob novas aparências.
Como afirma Silva Júnior (2025), a universidade pública brasileira já se encontrava submetida às lógicas da autonomia simulada, da precarização funcional e do produtivismo autoimposto. A IA não inaugura esse processo, mas acelera sua progressão, intensifica seus efeitos e o fixa em estruturas cada vez mais rígidas. Sob sua influência, o professor abdica do espaço reflexivo e se converte em executor de processos, enquanto o estudante substitui a inquietação da pergunta pela exibição de competências pré-fabricadas. Tudo passa a ser mensurado, classificado e transmutado em dados. E quando a totalidade da experiência humana é reduzida a cifras, a vitalidade do pensamento se esvai, dando lugar à repetição maquinal (Han, 2022).
É diante dessa necropolítica da inteligência que este artigo se insurge. Recusamos a lógica dos painéis de controle como horizonte do pensamento e reafirmamos, com a fúria que indigna e a ternura que escuta, que a inteligência é relacional, marcada pelo tempo lento das vivências encarnadas. Pensar não se reduz a produzir respostas imediatas, mas se afirma como o gesto de elaborar perguntas que perfuram a superfície. A universidade, nessa travessia, só encontra sentido quando se constitui como espaço de escuta, de tempo partilhado, de criação insurgente. É desse ponto que partimos, não com a pretensão de encerrar um diagnóstico, mas com a certeza de que a inteligência, embora cercada, ainda resiste, ainda pulsa, ainda se recusa a ser mercadoria.
Capital Fictício e o Espectro do Futuro
Sob o domínio do capital fictício, não se vive, antecipa-se. A IA, nesse cenário, assume o papel de profetisa disfarçada, prometendo um futuro funcional enquanto corrói, de forma silenciosa, as possibilidades do presente. O valor deixa de residir no que existe para se converter em expectativa de rendimento, alimentando uma contabilidade imaginária que dilui o tempo da educação em projeções mercantis. A IA não aprimora a formação, ao contrário, aprisiona-a em roteiros de metas, painéis de controle e promessas de eficiência. O que se apresenta como avanço tecnológico encobre uma fraude temporal, na qual o futuro é vendido como progresso, mas esvazia o presente de sua potência formadora.
Como expõe Harvey (2013), o capital fictício apenas se valoriza quando alimenta o delírio do amanhã. A IA, ao estruturar a educação como espetáculo de previsibilidade, age como amplificadora desse processo, reverberando suas exigências em cada gesto pedagógico. O presente, diante dessa lógica, é esvaziado, desidratado, relegado ao esquecimento. A escuta cede lugar ao desempenho mecânico, a dúvida é substituída por respostas automáticas, o tempo da reflexão passa a ser tratado como atraso; o improviso é lido como falha, o silêncio, como erro. Aquilo que constituía a carne viva da experiência docente é agora interpretado como entrave a uma suposta eficiência educacional, dissolvendo a riqueza do encontro em protocolos e planilhas.
Na universidade a aula é deslocada pelo gráfico, o encontro é substituído pela planilha. A IA, revestida por uma aparência de neutralidade, reorganiza o tempo como mercadoria de fluxo contínuo, esvaziando-o de sua espessura reflexiva. O espaço para o imprevisto, para a deriva do pensamento e para o lapso criativo é comprimido até desaparecer. O professor é convertido em executor de demandas mecânicas, submetido a um dispositivo cego que exige resultados quantificáveis em detrimento dos processos formativos. Como alerta Silva Júnior (2025), o tempo acadêmico, ao ser absorvido por essa lógica, é destituído de sua densidade política e reduzido a insumo para a produção de capital simbólico. Cada tarefa é monitorada, cada silêncio se torna objeto de desconfiança, cada hesitação é sancionada como falha a ser corrigida.
Essa reconfiguração do tempo não é um desdobramento técnico secundário, mas um projeto político meticulosamente arquitetado. O objetivo é suprimir da universidade aquilo que não se submete à lógica produtiva, ou seja, o próprio tempo do pensamento. Celebra-se a velocidade em detrimento da elaboração, a quantificação mecânica em lugar da construção de sentido. O que se dissipa nesse percurso é a própria possibilidade de formar sujeitos autônomos, pois ninguém se forma no atropelo da urgência. Pensar exige demora, exige um tempo que resiste à compressão; e educar, em sua essência, é um ato de desobediência aos algoritmos da pressa.
É necessário nomear com precisão que a IA, ao se infiltrar no cotidiano universitário, não se apresenta como mero instrumento, mas assume o papel de doutrina disfarçada de funcionalidade. Essa doutrina atua esvaziando o significado simbólico e anulando o tempo ético, convertendo a formação em um automatismo de rotinas repetitivas. Por essa razão, a recusa não se configura como uma escolha estilística, mas como um gesto de preservação existencial. Defender o tempo da aula, da escuta atenta, da criação sem amarras temporais constitui hoje uma forma radical de insurgência, um ato de resistência contra a lógica que pretende converter a universidade em uma máquina de produção controlada.
Diante do espectro de um futuro artificialmente fabricado, reivindicamos o corpo encarnado do presente como território de resistência. Reafirmamos o direito de ensinar sem roteiro pré-definido, de pensar sem a tutela de índices e de existir sem a prisão da previsibilidade. Como adverte Han (2022), a aceleração imposta pelo culto à eficiência esvazia o tempo do agora, dissolvendo a experiência em um contínuo de produção sem reflexão. É precisamente nesse gesto de lentidão consciente que se desenha a única forma possível de resistência frente à captura algorítmica da vida intelectual.
Apartheid Cognitivo e Colonialismo Digital no Brasil
Chamam de inovação, mas o que se executa é a atualização de um mecanismo antigo de exclusão. Sob a camada tecnológica, a IA no ensino básico brasileiro não representa avanço, mas a intensificação de desigualdades já estruturais. O discurso progressista que a apresenta como democratização encobre a instalação de dispositivos de controle que ampliam a distância entre sujeitos e territórios. A promessa de inclusão se converte em expropriação, pois a IA ergue barreiras invisíveis e cada vez mais sofisticadas, delimitando quem pode criar e quem será apenas condicionado a obedecer. A retórica da modernização funciona como legitimadora de um projeto empresarial que confunde vigilância com progresso, simulando horizontes emancipatórios enquanto consolida a submissão.
Para uma minoria a inteligência artificial surge como ferramenta criativa, abrindo margens para a experimentação. Para a vasta maioria, porém, converte-se em coleira digital, restringindo a autonomia e condicionando condutas, instaurando uma pedagogia do adestramento disfarçada de modernização. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep, 2023) revelam que mais de 80% dos estudantes brasileiros estão matriculados em escolas públicas que não dispõem sequer da infraestrutura básica necessária para um uso significativo de tecnologias, evidenciando o abismo entre o discurso de inovação e a realidade concreta das salas de aula.
O que se oferece sob o pretexto de avanço tecnológico é, na verdade, precariedade automatizada. Sem bibliotecas, sem acesso à internet estável, sem equipamentos adequados, as escolas públicas são empurradas para plataformas digitais impostas de maneira verticalizada. A IA chega a territórios onde nem mesmo a energia elétrica é garantida, escancarando o grau de distorção dessa política. Como adverte Silveira (2017), as tecnologias digitais, quando implementadas sem enfrentar as assimetrias de infraestrutura e poder, não promovem inclusão, mas aprofundam dispositivos de controle e expropriação. O que se apresenta como inteligência artificial é, nesse contexto, uma entidade descorporificada, desenhada para um país em frangalhos, onde o brilho da modernização encobre o desmonte das condições materiais mais elementares.
Enquanto as escolas privadas das grandes capitais orientam seus jovens para programar, questionar e explorar a inteligência artificial como ferramenta criadora, as redes públicas empurram seus estudantes para um adestramento repetitivo de cliques. Não se aprende a dialogar com a máquina, mas a obedecer a seus limites, naturalizando a submissão como se fosse aprendizagem. A desigualdade educacional alcança aqui sua face mais perversa: não como acidente, mas como método deliberado de exclusão cognitiva. O que deveria ser formação converte-se em condicionamento, no qual a obediência é disfarçada de competência e o gesto mecânico de manipular plataformas digitais é promovido à categoria de currículo, ainda que esvaziado de sentido. Como advertiu Freire (2011), uma educação incapaz de problematizar o mundo não emancipa, mas aprisiona, e nas escolas públicas o que se dissemina é a pedagogia da docilidade travestida de modernização tecnológica.
Essa assimetria brutal não decorre de falhas técnicas, mas revela um projeto deliberado. As plataformas digitais utilizadas nas escolas foram desenhadas à distância das realidades locais, concebidas por conglomerados empresariais que desconsideram a diversidade linguística e cultural do Brasil. A IA oferece comandos, mas não escuta; quantifica, mas não compreende; aplica padrões, mas não estabelece diálogo. O que se instaura é uma colonização epistêmica, na qual o país consome inteligências fabricadas externamente e terceiriza sua soberania cognitiva. Como alertava Marini (1973), a dependência contemporânea não se limita à esfera econômica, estendendo-se ao plano intelectual, pois passamos a pensar com ferramentas que não controlamos e a aprender por meio de lógicas que não formulamos.
Esse colonialismo digital atravessa o chão da escola, infiltrando-se nos cotidianos com a força silenciosa das tecnologias que não se explicam. Os alunos deixam de ser sujeitos de conhecimento para se converterem em unidades de dado, enquanto os professores veem sua autoria esvaziada, sendo reduzidos a tutores de sistemas automatizados. O processo pedagógico é vigiado, tabelado, parametrizado em padrões que desconsideram a complexidade da relação educativa.
Qualquer tentativa de escapar a essa lógica é lida como anomalia. A dúvida é tratada como ruído, o erro é transformado em falha técnica, a experimentação é rebaixada à condição de ineficiência. O que permanece é a planilha, fria e implacável, incapaz de sorrir, hesitar ou esperar. A dominação epistêmica dos dispositivos digitais reduz a pluralidade dos saberes à monocultura da quantificação, sufocando a riqueza das epistemologias do Sul sob o peso de uma racionalidade instrumental proveniente de outras hegemonias, especialmente econômicas.
Diante desse cenário, este trabalho não reivindica regulamentações cosméticas, mas clama por ruptura. A IA, nos termos em que foi imposta, não pode ser suavizada ou corrigida, exige ser rejeitada com veemência. Enfrentar a segregação cognitiva demanda soberania tecnológica, justiça epistêmica e, sobretudo, coragem política. É necessário afirmar o não, um não decidido à submissão automatizada, um não contundente ao culto da eficiência sem pensamento, um não firme à transformação da escola em campo de adestramento. Mas também é necessário afirmar um sim, um sim insurgente e criador, à reinvenção da inteligência como território de escuta, de invenção e de liberdade concreta.
Como argumentam Dardot e Laval (2017), o Comum não é um dado natural, mas uma construção contínua, tecida no tempo, no vínculo e na presença encarnada dos sujeitos. Nenhum algoritmo é capaz de substituir a alegria de aprender em comunidade, o direito de errar com dignidade ou o prazer de ensinar sem a tirania da pressa. O futuro da educação brasileira, se pretende ser justo, precisará romper com a lógica algorítmica e reinventar o presente a partir da potência de sua própria inteligência coletiva, forjada nas práticas e nos saberes que emergem das experiências partilhadas.
A Universidade Pública como Plataforma de Reputação
Já não se atravessa uma sala de professores sem escutar, entre o cansaço e a ironia, a pergunta sufocada sobre quantos pontos determinada atividade renderá. A universidade estatal pública brasileira parece estar engolida por uma lógica de reputação que a desfigura em sua essência. A IA não suaviza essa captura, ao contrário, intensifica-a como catalisadora simbólica da obediência, acelerando os processos de conversão do tempo formativo em mera contabilidade de prestígio. O que deveria ser espaço de pensamento reflexivo é reduzido a mecanismo de cálculo – em que a universidade já não pensa, apenas soma.
Termos como resultado mensurável, objetivo quantificável, hierarquização institucional, rendimento compulsório e exposição midiática converteram-se nas verdadeiras disciplinas obrigatórias dos cursos superiores, deslocando o sentido da formação para o campo da estatística e da mercadoria simbólica. A IA não dialoga com o pensamento, mas foi incorporada como dispositivo de vigilância e antecipação de condutas, submetendo a universidade ao imperativo da previsibilidade. Sob seu domínio, o conhecimento é rebaixado à utilidade, mensurabilidade e exportabilidade, enquanto a excelência passa a ser reinterpretada como conformidade absoluta aos parâmetros algorítmicos.
Lyotard (2009), ao analisar a condição pós-moderna, já advertia para a transformação do saber em informação performática, avaliada pelo critério de eficiência e não pela busca da verdade. Nesse contexto, pensar devagar, hesitar e experimentar sem garantias converte-se em gesto marginalizado, pois o sistema, governado por métricas e painéis de controle, não reconhece o silêncio, rejeita o inacabado e anula a potência criadora do erro como parte constitutiva da aprendizagem.
Como argumenta Silva Júnior (2025), a universidade inacabada é aquela que foi capturada pelo valor simbólico como mercadoria, vendida em cotas de reputação para agências avaliadoras e bancos de dados internacionais. A IA, nesse processo, funciona como régua silenciosa de padronização. Ela não apenas monitora; ela instrui a conformidade. Cada citação conta, cada submissão é registrada, cada silêncio é penalizado. A universidade, nesse cenário, não é mais território de pensamento, é vitrine de desempenho.
O que se impõe é a conversão da docência em uma gestão de si. O professor, empurrado pela lógica das plataformas, passa a atuar como uma microempresa de produção simbólica, encarregado de administrar prazos, editais, indexações e relatórios. A IA, nesse modelo, não se apresenta como suporte, mas como instância de comando, cobrando rendimento com a frieza de um protocolo e sancionando a ausência de dados com o isolamento institucional. O docente deixa de ser um intelectual para assumir a condição de executor de tarefas previamente delimitadas por algoritmos, deslocando sua prática da reflexão para a manutenção de procedimentos.
Essa lógica devora a pluralidade epistêmica. Áreas do saber que não se ajustam às exigências mercantis, que recusam a submissão a padrões internacionais ou que ousam dialogar com territórios invisibilizados são tratadas como desvios incômodos. A inteligência artificial, ao ser erigida como critério de validação, fabrica uma hierarquia brutal entre conhecimentos autorizados e conhecimentos empurrados para o esquecimento. Não é uma marginalização tímida, mas uma ofensiva implacável contra a ousadia do pensamento, contra toda forma de criação que insiste em escapar às grades da planilha.
E talvez o mais perigoso seja o apagamento da política. A IA, travestida de objetividade, substitui o debate pela simulação. Substitui a deliberação colegiada por relatórios gerenciais. Aquilo que outrora foi espaço de dissenso é convertido em administração de consensos artificiais. A universidade abandona sua condição de território de conflitos criadores para ser reconfigurada como um dispositivo de previsibilidade, onde o pensamento é reduzido a procedimentos padronizados.
A lógica da reputação, ao infiltrar-se no cotidiano universitário, destrói aquilo que a constituía como espaço de formação verdadeira, como o tempo dedicado ao aprendizado, o direito de errar com dignidade e a construção coletiva do conhecimento. A IA, nesse contexto, não se restringe a processar comandos, mas redefine silenciosamente os contornos do que é permitido pensar. Giroux (1987) alerta que a universidade, quando capturada pela tecnocracia, perde sua função como esfera pública de resistência cultural. Interromper essa marcha silenciosa não significa rejeitar a tecnologia, mas afirmar um compromisso com a universidade como espaço de vida intelectual, onde o pensamento não seja reduzido a mera entrega e a inteligência ainda encontre espaço para respirar livremente.
O Tempo Docente sob Vigilância Algorítmica
O tempo do professor não se acomoda em linhas ou quadrículas de uma tabela, porque não nasce da regularidade mecânica, mas da densidade imprevisível da vida. Ele pulsa em silêncios que abrem espaço para a palavra alheia, em desvios que inauguram caminhos inesperados, em pausas que se tornam mais eloquentes do que longas explicações. Esse tempo se ergue em encontros fortuitos, em fracassos que educam, em improvisos que surpreendem, em hesitações que se convertem em aprendizado. No entanto, essa temporalidade indócil encontra-se sob ataque, sendo dilacerada e comprimida pelos mecanismos frios da produtividade digital, que contabilizam segundos e transformam a experiência docente em simples sequência de entregas quantificáveis.
O que em discursos entusiasmados sobre inteligência artificial é enaltecido como otimização revela-se, na experiência concreta do magistério, como asfixia silenciosa. O que se perde não é apenas o compasso cronológico, mas a dignidade de viver o tempo com liberdade, de cultivar a lentidão necessária para que o pensamento floresça, sem ser esmagado por métricas impessoais e prazos implacáveis.
A retórica oficial anuncia que a inteligência artificial libertaria o docente da burocracia. É falsidade. O que se instaura é a troca da lentidão institucional por uma máquina de vigilância incessante, que não concede trégua nem esquecimento. O professor já não habita o espaço da reflexão, mas o da alimentação contínua de sistemas que devoram seu tempo e reduzem sua ação ao fornecimento de dados. O acompanhamento da vida acadêmica deixa de ser diálogo ou partilha e passa a ser codificado em relatórios, submetido a filtros automáticos que registram cada gesto, arquivam cada falha e convertem ausências em faltas morais.
Nesse regime, a docência perde sua respiração própria: o intervalo do silêncio que permitia a dúvida, a demora que acolhia o improviso, o vazio fértil em que surgia a invenção. O tempo que outrora se abria à escuta agora se vê colonizado por relógios digitais e alarmes que apitam como se cada aula fosse um contrato a ser cumprido. O que era encontro torna-se tarefa, o que era pensamento converte-se em item numerado, o que era formação desdobra-se em protocolo rígido. A violência não se manifesta em gritos, mas em planilhas que ditam, com frieza matemática, os limites da experiência humana.
Aqui a tradição filosófica da temporalidade revela sua atualidade; Chronos, o tempo que mede, calcula e comprime, sobrepõe-se a Kairós, o tempo da ocasião, da abertura singular que permite o surgimento do inesperado. Quando a docência é subordinada a Chronos, ela se torna repetição mecânica, sucessão de números e relatórios. Quando encontra espaço em Kairós, revela-se como experiência formadora, como instante propício em que o aprender e o ensinar coincidem na criação de sentido. A inteligência artificial, ao capturar a vida acadêmica em algoritmos de medição, anula o tempo do acontecimento, interditando a irrupção do novo e substituindo-o por uma cadência de entregas. Resistir significa, portanto, reivindicar o direito de ensinar sob a temporalidade de Kairós, em que a lentidão não é falha, mas condição de pensamento, e onde o presente se abre como campo de liberdade e criação.
Como aponta Han (2022), vivemos sob o império da transparência coercitiva, onde a vigilância é vendida como clareza e o controle, como eficiência. A IA não precisa emitir ordens explícitas, pois sussurra metas invisíveis. O professor passa a se autopoliciar, antecipar parâmetros e padronizar sua fala. A liberdade se esvai não por decreto, mas por meio de planilhas que monitoram cada gesto. Isso transcende a técnica e revela uma forma de poder que transforma o corpo docente em um coletivo exausto, ansioso e culpabilizado por não cumprir métricas que jamais ajudou a definir.
Os dados do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes Sindicato Nacional, 2023) revelam um aumento preocupante da insônia, do esgotamento emocional e da sensação de inutilidade entre os docentes. A IA não alivia esse sofrimento, ao contrário, intensifica-o. Ao automatizar o tempo, desumaniza a experiência pedagógica, apaga a dúvida, despreza o improviso e elimina o intervalo indispensável à reflexão. Sua linguagem não reconhece o gesto do cuidado nem a hesitação da palavra que ainda busca forma. Impõe respostas prontas quando o pensamento ainda está em processo de germinação. Essa violência silenciosa pode ser compreendida como tirania algorítmica da produtividade, um regime que mutila a temporalidade própria do ensino e transforma a criação em mera execução.
É urgente resgatar o tempo não produtivo como fundamento da docência. Não por romantismo, mas por sobrevivência subjetiva. Ensinar exige espaço interior, exige demora, exige escuta. Não se forma ninguém no atropelo. Não se pensa sob vigilância. Não se cria em regime de compliance. Defender o tempo docente é, hoje, um ato de insubmissão. Um gesto político. Uma recusa à mutilação do presente.
Enquanto o tempo permanecer aprisionado à cronologia rígida de indicadores e plataformas, o Chronos que mede e controla cada instante, o ensino continuará reduzido a uma performance vazia e mecanicista. Torna-se indispensável interromper esse fluxo contínuo que suprime o instante oportuno, o Kairós, momento de abertura e oportunidade singular no qual o aprender e o ensinar se fazem possíveis.
É necessário desligar essa máquina que engole o tempo, reivindicar o tempo como direito fundamental e reafirmar que nenhuma tecnologia pode substituir o corpo presente de quem ensina e o tempo vivido e encarnado de quem aprende. A inteligência, para se tornar verdadeiramente comum, exige lentidão e, para se fazer lenta, requer liberdade que transcende o relógio e a planilha.
A Inteligência Comum como Horizonte de Reinvenção
A IA é capaz de escrever, prever, indexar e simular, mas jamais pode hesitar. Não pode arrepender-se de uma frase, nem experimentar a vergonha diante de uma ideia. Não consegue rir de si mesma ao errar uma palavra ou emocionar-se ao ser tocada por um texto. A inteligência comum, por sua vez, nasce desses excessos, dessas falhas inevitáveis, desses momentos em que a linguagem transcende o cumprimento de uma tarefa para se tornar veículo de partilha da existência.
A escrita, quando viva, é corpo. Escrever implica escutar o peso de cada palavra, tropeçar na sintaxe, retroceder, reescrever até que o pensamento se materialize com dignidade. A IA gera frases, mas não experimenta a vertigem de nomear o que ainda carece de nome. Não vacila diante do inesperado, não se comove com a precisão súbita, não escuta o que ainda está por vir. Por essa razão, não cria, apenas organiza. E pensar, como sabemos, transcende o simples ato de ordenar. Consiste em arriscar-se na desordem do sentido.
A inteligência comum é aquela que se constrói a muitas mãos, em voz baixa, com tempo. Ela se faz em assembleias, em grupos de estudo, em salas onde cabem silêncio e desacordo. É lenta, é situada, é afetiva. Não se presta à repetição nem à performance. Exige vínculo, exige escuta, exige presença. Ela não cabe no relatório nem na rubrica do edital. Seu critério é distinto, voltado para a transformação do mundo sem a necessidade de conivência com sua brutalidade.
É essa inteligência que a IA ameaça destruir. Não com violência aberta, mas com sedução gerencial. Prometendo eficiência, ela nos rouba o intervalo. Prometendo praticidade, ela nos disciplina. Prometendo personalização, ela nos isola. E quando percebemos, o que resta é o automatismo do gesto, o protocolo da linguagem, a simulação da escuta.
Recusar a IA, nesse contexto, não configura um fetiche, mas uma defesa daquilo que permanece indomável. É a afirmação de que o conhecimento precisa de espaço para respirar, tropeçar e resistir. É a declaração de que a universidade não deve ser reduzida a um mero entreposto de entregas, mas se conservar como lugar em que a inteligência possa ser vivida com alegria genuína. Essa alegria, que escapa à automatização, constitui também uma forma de insurgência.
Como propõem Dardot e Laval (2017), o Comum é uma construção política, não um dado natural, produzida nas relações, nas práticas e nas escolhas coletivas. Essa produção demanda tempo, uma temporalidade que a IA busca eliminar. Por essa razão, reivindicar a inteligência comum vai além da crítica e se configura como um projeto concreto, um projeto de reinvenção da universidade, da docência e da própria concepção de pensar.
Almejamos uma inteligência que erre, que divague, que não saiba exatamente o que dizer, mas que fale, pois confia no processo aberto da construção do saber. Uma inteligência que brote da escuta atenta dos territórios, das vozes subterrâneas, dos saberes que escapam à homologação oficial. Uma inteligência que seja, acima de tudo, humana em sua lentidão e indisciplina, pois, como aponta Fraser (2022), a justiça social verdadeira só se alcança por meio da resistência às formas dominantes de racionalidade, recuperando a pluralidade e a diversidade como fundamentos essenciais. Somente essa inteligência poderá nos restituir o presente que nos foi usurpado.
Sete Razões para Rejeitar a Artificialização do Pensamento
Ao delegar às máquinas a tarefa de pensar por nós, aceitamos o risco de legitimar a indução ao pensamento único disfarçado de pluralidade. A IA, ao prometer eficiência, agilidade e produtividade, infiltra-se nos processos mais íntimos da leitura, da escrita e da formação intelectual, instaurando um condicionamento que restringe a imaginação e reduz a experiência ao previsível. O que se apresenta como avanço técnico resulta, na realidade, em uma homogeneização cultural que corrói a singularidade e dissolve a aura das experiências. Como advertiu Benjamin (2012), a técnica, quando convertida em critério absoluto, anula a densidade das vivências e converte o novo em simples repetição.
Esse fenômeno não se restringe às ideias, mas alcança a própria forma de expressão, apresentação e conclusão. A IA produz textos como se todo pensamento fosse uma síntese final e resolutiva. Ela exclui o tropeço, o inacabado, a hesitação – justamente os momentos em que a verdade pode surgir. Utilizar IA nesse cenário equivale a colaborar com a erosão da dúvida, condição indispensável para a reflexão profunda e a criatividade autêntica.
Contudo, não cabe imaginar a interdição absoluta da inteligência artificial, tampouco fingir desconhecer sua presença difusa como expressão do tempo histórico. O que permanece irrenunciável é a ética do encontro, a exigência do corpo que se faz presença, do olhar que se cruza com o olhar do outro, da palavra que rompe a lógica da contagem. É nesse face a face, nesse espaço de vulnerabilidade partilhada e de escuta não programada, que a inteligência humana encontra seu lugar mais fecundo, resistindo à domesticação algorítmica e afirmando-se como potência que escapa ao cálculo.
A análise que segue apresenta sete razões contundentes para rejeitar a artificialização do pensamento, um processo que ameaça corroer os fundamentos da experiência intelectual e pedagógica. Em consonância com esse propósito, optamos por não mencionar ao longo do texto os nomes das empresas de IA mais conhecidas, pois elas já se tornaram lamentavelmente mais familiares às crianças do que os recursos didáticos tradicionais que envolvem a palpação, o cheiro e o tato do livro.
Essas mesmas crianças, provavelmente, estão mais manipuladas por telas de celulares do que por materiais como giz de cera, lápis de cor e argila, instrumentos que a pedagogia tradicional nos ensina a sentir, tocar, olhar e movimentar. Essa exclusão intencional busca centrar o debate na lógica da artificialização, dissociando-o da promoção ou crítica de marcas específicas, enquanto evidencia a perda progressiva da dimensão sensorial e corpórea na constituição do conhecimento.
A primeira razão para nossa recusa, portanto, está na indução ao pensamento único. O mundo sob o domínio do capital fictício já atua pela obliteração das alternativas, pela conversão de todas as diferenças em variações programáveis. A IA intensifica esses processos ao transformar a linguagem em automatismos. Quando textos são produzidos por sistemas treinados em bases de dados majoritariamente normativas, eles tendem a reproduzir a lógica dos dominantes. Esse fenômeno não configura apenas um viés técnico ou estatístico, mas revela um viés estrutural, pois a linguagem treinada é quase sempre a linguagem da ordem. Mesmo quando tenta imitar o dissenso, o faz dentro de um quadro previsível. Onde tudo se apresenta previsível, nada permanece realmente livre.
A segunda razão encontra-se na estética, mas não no sentido superficial do belo, e sim naquele profundo que Lukács (2012) atribui à estética enquanto forma sensível da objetividade social. Para ele, a arte jamais constitui mera ornamentação, mas representa a expressão dialética das contradições históricas objetivas. A forma estética é sempre mediada, saturada de conteúdo social, experiência e tempo. Quando a IA escreve ou pinta, não cria forma, apenas produz variações de padrões. A forma estética autêntica, conforme Lukács (2012), mantém-se sempre irredutível ao esquema. Ela é resultado de um processo, de um mergulho na objetividade concreta do mundo, de um deslocamento ativo do sujeito em direção à totalidade. A IA não pode realizar esse movimento, pois não sofre, não vive, não se aliena e, consequentemente, não possui algo a superar. Sua estética equivale ao simulacro da forma, uma aparência desprovida de vivência, um acabamento sem drama.
Por isso mesmo, a terceira razão é ontológica. A inteligência artificial rompe a possibilidade de distinguir, de modo material e objetivo, o que é criação e o que é epifania. Criação, no sentido pleno, é aquilo que emerge da travessia entre o vivido e o pensado, entre a dor e a forma, entre a hesitação e a decisão. Epifania, por sua vez, é o instante em que o sentido irrompe, não porque foi planejado, mas porque foi conquistado. As melhores frases que já escrevemos não obedeceram a nenhum cálculo. Foram como relâmpagos, surgiram no meio da leitura, da insônia, do luto. Como podemos confiar em uma máquina que não conhece a angústia do tempo? Que não se cala antes de falar? Que não conhece o silêncio que precede a ideia? O uso da IA apaga essa fronteira. Ela torna tudo criação possível, mas nada criação real. Essa é a banalização da epifania, reduzida a uma funcionalidade vazia.
A quarta razão diz respeito ao controle da linguagem e do tempo. Já observamos em outros textos que o tempo acadêmico deixou de pertencer ao pensamento para se submeter à lógica da gestão. A IA reforça essa expropriação ao comprimir o tempo da elaboração para segundos, substituindo a lentidão da escrita pela resposta imediata. Essa transformação acarreta um custo subjetivo significativo. O tempo da leitura, aquele em que nos perdemos nos livros, sublinhamos passagens e rabiscamos margens, desaparece. O tempo da escrita, no qual a frase se arrasta até encontrar sua forma e se reescreve diversas vezes, é substituído por um clique. Isso não configura liberdade, mas captura. A linguagem, por sua vez, deixa de nos pertencer. Os termos são calibrados; as formas de expressão, antecipadas, e o vocabulário se estreita. A IA não amplia a linguagem, ela a domestica.
A quinta razão tem caráter biográfico. Estamos experientes e com certa idade para não renunciar ao ato de ler e escrever, e igualmente tivemos a juventude necessária para aprender com Marx (2004) e Lukács (2012) que escrever significa resistir à alienação. Para nós, a leitura constitui um exercício de emancipação, ainda que doloroso. A escrita configura uma forma de pensar contra o tempo das mercadorias. Ao escrever, não nos limitamos a articular ideias, mas nos reconstruímos internamente. Não escrevemos para produzir um bem simbólico, mas para escapar do entorpecimento. Como poderíamos delegar tal processo a um algoritmo? Cada parágrafo escrito devolve-nos a nós mesmos e promove uma reorganização interna. O texto, quando não automatizado, permanece uma experiência de reapropriação subjetiva, mesmo que não seja lido, mesmo que seja difícil, mesmo que demore.
A sexta razão é política e rejeita a necessidade de acumular pontos. As métricas não definem o valor do que produzimos, assim como o preço não determina o valor da mercadoria, conforme ensinou Marx (2004). O sistema de avaliação baseado em métricas antecede a IA e cumpre a mesma função, que é esvaziar o conteúdo do trabalho, convertendo-o em quantidade. A IA apenas acelera esse processo, oferecendo a promessa de produtividade sem conflito, de texto desprovido de pensamento, e de resultado desvinculado do processo. Como já foi analisado em outros espaços, as métricas eliminam o conteúdo porque não são capazes de medi-lo. Elas medem apenas a presença, a quantidade e a visibilidade superficial. O que se escreve para contabilizar pontos não tem peso no mundo. A IA serve à métrica porque compartilha seu fetichismo, onde o valor reside no que aparece, não no que verdadeiramente significa.
E há, por fim, uma sétima razão, a mais íntima: ler e escrever são, para nós, atividades de fruição. Como abriríamos mão disso? Essa questão ultrapassa o âmbito técnico e alcança a dimensão existencial. Não escrevemos porque somos obrigados. Escrevemos porque não saberíamos viver de outro modo. Cada texto que lemos é um encontro. Cada texto que escrevemos é um reencontro. O gesto de escolher uma palavra, de construir um argumento, de retroceder e recomeçar. Tudo isso nos constitui. O prazer que sentimos ao descobrir uma ideia, ao encontrar uma metáfora, ao perceber conexões entre autores distantes; nada disso pode ser automatizado. A IA não sente prazer, não sente dúvida, não sente nada. Quando a escrita perde a dúvida e o prazer, torna-se apenas função, e não desejamos viver para cumprir funções.
A IA não foi a criadora do esvaziamento da linguagem acadêmica, mas apenas intensificou esse processo. A lógica da quantificação já se encontrava em curso muito antes de seu surgimento. Escrevemos artigos para periódicos que não lemos, seguimos editais que definem antecipadamente o que vale ser pesquisado e submetemos nossos textos a normas de impacto que nada revelam sobre seu conteúdo.
A IA reflete essa universidade vazia, rápida, eficiente e precisa, mas carente da dimensão humana que confere sentido ao saber. Quando as métricas quantificam o valor do trabalho acadêmico com base em sua inserção, visibilidade e adequação, a IA emerge como o dispositivo ideal para satisfazer tais exigências. Ela elimina o tempo da leitura, o custo do pensamento e o risco da hesitação. No entanto, é justamente no risco que reside o valor.
Considerações Finais: Insurgência, Escuta e Ruptura
O tempo da hesitação já não nos pertence. Diante do cerco completo à universidade pública pelo capital fictício, com seu mais recente mecanismo representado pela IA, resta-nos apenas o gesto da recusa. Que essa recusa seja alta, desobediente e irredutível. Recusar o culto à eficiência vazia, rejeitar a substituição da escuta por relatórios e negar a transfiguração da linguagem em algoritmo. Não há mais espaço para acordos.
A IA é apresentada como solução, mas encarna, na realidade, a rendição da universidade à lógica da vigilância. Sob a máscara da inovação, ela vigia; sob o manto da neutralidade, ela silencia; sob o disfarce do futuro, ela sequestra o presente. O que está em curso é a destruição sistemática da experiência universitária enquanto espaço de pensamento vivo. Por essa razão, a resposta necessária não é adaptação, mas ruptura.
A universidade brasileira já não respira, apenas calcula. Já não pensa, apenas performa. Já não escuta, apenas entrega. Vivemos sob um regime de obediência automatizada. Se a inteligência representa o último território da liberdade, é por ela que devemos lutar. Não com ressentimento, mas com coragem. Não com nostalgia, mas com uma fúria lúcida. Não com fórmulas, mas com um pensamento que se recusa a ser reduzido a indicadores.
O tempo docente foi colonizado; a linguagem, parametrizada; a autoria, dissolvida. Contudo, ainda permanece o gesto que rejeita escrever por protocolo, que se recusa a ensinar por roteiro e que não aceita pensar sob o ritmo do cronômetro. Esse gesto carrega a dimensão política e tem sua origem na recusa.
A universidade insurgente não surgirá por edital. Nascerá das margens, dos desvios e das alianças improváveis. Será construída por aqueles que ainda creem que ensinar não equivale a vigiar, que pensar não se reduz a mensurar e que escrever não significa simular. Essa universidade será lenta, inconclusa e desobediente. Porém, será nossa. Por essa razão, ainda existe tempo. Tempo para recusar, para respirar, para pensar além do algoritmo.
O bom docente jamais recua diante da tarefa, mesmo quando ela parece exaurir forças. Quem emancipa não desliga o compromisso ao fechar a porta da sala de aula, mas o sustenta em cada gesto cotidiano, nos encontros inesperados com alunos nos passeios ou nos momentos de descanso que se dissolvem em conversas transformadoras.
A inteligência e o conhecimento não se limitam ao tempo formal de estudo, mas se expandem em toda experiência vivida, permeando até os sonhos, enquanto as sinapses cerebrais percorrem nossos corpos em jornadas silenciosas. Não há algoritmo capaz de substituir a fluidez desses processos internos, nem de antecipar o lampejo que rompe o instante, aquela faísca de compreensão, aquela percepção fugidia que somente a presença humana pode fomentar. Essa presença é a verdadeira potência do ensino, que transcende a mera transmissão e se encarna na relação vivida.
Turing (1936), em sua teoria sobre máquinas computacionais, estabeleceu que toda máquina que busca resolver problemas complexos precisará sempre consultar um oráculo, uma entidade externa que responde perguntas que a máquina não pode processar sozinha. Para ele, esse oráculo é o ser humano, a fonte insubstituível do conhecimento, do juízo e da interpretação.
Essa metáfora é fundamental para compreendermos a relação entre IA e a formação humana, pois jamais a tecnologia poderá substituir o papel do oráculo vivo, aquele que pensa, duvida e cria. A formação humana deve permanecer um território do humano, imune à redução a dados e algoritmos, reafirmando a centralidade do ser humano na produção do saber e recusando o lugar passivo que a IA tenta impor.
Agradecimentos
Não se aplica.
Financiamento
Disponibilidade de Dados de Pesquisa
Todos os dados foram gerados ou analisados nesse estudo.
Referências
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