Open-access Condicionamento aeróbico em pacientes pós-acidente vascular cerebral: um mapeamento de revisões sistemáticas

RESUMO

A maioria dos profissionais da saúde apresenta uma experiência limitada e pouco conhecimento científico a respeito da programação do exercício aeróbico em vítimas dessa doença. Tais problematizações trazem a necessidade de estudos altamente confiáveis a fim de contribuir na tomada de decisões clínicas. O objetivo deste trabalho é analisar em que contextos e níveis de evidência o condicionamento aeróbico em pacientes pós-AVC tem sido investigado. O estudo consistiu em um mapeamento de revisões sistemáticas, e a estratégia de busca da pesquisa foi realizada nas bases de dados Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica (MedLine) via PubMed, International Prospective Register of Systematic Reviews (Prospero) e Physiotherapy Evidence Database (PEDro). Os instrumentos Prisma e Amstar 2 foram utilizados, respectivamente, para análise e seleção dos estudos e para avaliação metodológica dos artigos selecionados. Foram incluídas 15 revisões sistemáticas que utilizaram múltiplas formas de treinamento aeróbico, relacionando os seus efeitos com benefícios cognitivos, melhora da caminhada, autocuidado, aptidão cardiorrespiratória, mobilidade e neuroplasticidade. Quatro estudos foram classificados em alta e moderada confiabilidade a partir da análise metodológica. Os artigos mais seguros a serem reproduzidos na prática clínica são referentes ao treino aeróbico associado à capacidade funcional, utilizando uma combinação de modalidades terapêuticas; treino cognitivo combinado a exercícios aeróbicos e exercícios aeróbicos associados à melhora na distância de caminhada. Há necessidade de que os profissionais de saúde busquem métodos e saibam distinguir entre eles antes de qualquer tomada de decisão.

Descritores:
Reabilitação Cardíaca; Exercício; Condicionamento Físico, Humano; Revisão Sistemática

ABSTRACT

Most health professionals have limited experience and little scientific knowledge regarding aerobic exercise programming for post-stroke patients. These issues raise the need for highly reliable studies to contribute to clinical decision-making. Thus, this study analyzed in which contexts and levels of evidence aerobic conditioning in post-stroke patients has been investigated. It mapped systematic reviews and the search strategy was applied in the National Library of Medicine (MedLine) via PubMed, International Prospective Register of Systematic Reviews (PROSPERO), and Physiotherapy Evidence Database (PEDro) databases. The PRISMA and Amstar 2 instruments were used for article analysis and selection and methodological evaluation of the selected articles, respectively. In total, 15 systematic reviews that employed multiple forms of aerobic training were included, relating their effects to cognitive benefits, improved walking, self-care, cardiorespiratory fitness, mobility, and neuroplasticity. Of these, four were classified as high and moderately reliable based on the methodological analysis. The safest articles to be reproduced in clinical practice refer to aerobic training associated with functional capacity, using a combination of therapeutic modalities; cognitive training combined with aerobic exercises; and aerobic exercises associated with improved walking distance. Health professionals should seek methods and know how to distinguish them before making any decision.

Keywords:
Cardiac Rehabilitation; Exercise; Physical Conditioning, Human; Systematic Review

RESUMEN

La mayoría de los profesionales de la salud tienen una experiencia limitada y poco conocimiento científico acerca de la programación del ejercicio aeróbico en las víctimas de esta afección. Estas problematizaciones plantean la necesidad de estudios muy confiables con el fin de contribuir a la toma de decisiones clínicas. El objetivo de este trabajo es analizar en qué contextos y niveles de evidencia se evaluó el acondicionamiento aeróbico en pacientes pos-ACV. Este estudio consistió en un mapeo de revisiones sistemáticas, y la estrategia de búsqueda de la investigación se llevó a cabo en Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MedLine) mediante PubMed, International Prospective Register of Systematic Reviews (Prospero) y Physiotherapy Evidence Database (PEDro). Se utilizaron los instrumentos Prisma y Amstar 2, respectivamente en el análisis y selección de estudios, y en la evaluación metodológica de los artículos seleccionados. Se incluyeron 15 revisiones sistemáticas que utilizaron múltiples formas de entrenamiento aeróbico, relacionando sus efectos con beneficios cognitivos, mejora de la marcha, autocuidado, aptitud cardiorrespiratoria, movilidad y neuroplasticidad. Cuatro estudios se clasificaron como de alta y moderada confiabilidad según el análisis metodológico. Los artículos más seguros para reproducir en la práctica clínica están relacionados con el entrenamiento aeróbico asociado a la capacidad funcional, que hicieron uso de una combinación de modalidades terapéuticas; entrenamiento cognitivo combinado con ejercicios aeróbicos y ejercicios aeróbicos asociados a la mejora de la distancia de la marcha. Es necesario que los profesionales de la salud busquen métodos y sepan distinguirlos antes de la toma de decisiones.

Palabras clave:
Rehabilitación Cardíaca; Ejercicio; Acondicionamiento Físico Humano; Revisión Sistemática

INTRODUÇÃO

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o acidente vascular cerebral (AVC) é uma síndrome clínica de origem vascular, que leva a um comprometimento encefálico focal, ocasionado pela interrupção do fornecimento sanguíneo ao encéfalo devido à ruptura ou obstrução de um ou mais vasos sanguíneos, de início rápido e com duração maior que 24 horas1-3. Essa doença pode ser classificada em AVC isquêmico ou hemorrágico, de acordo com sua etiologia4-7. A injúria isquêmica é caracterizada pela obstrução de um vaso sanguíneo, correspondendo a 87% dos casos. A injúria hemorrágica representa 13% dos casos e consiste na ruptura de um vaso sanguíneo responsável pela perfusão cerebral, culminando em acúmulo de sangue no espaço intraparenquimatoso ou subaracnóideo3-5.

O AVC tem etiologia mais comumente decorrente de doenças cardiovasculares, como o infarto do miocárdio, valvulopatias, arritmias, doenças cardíacas congênitas e doenças sistêmicas que podem produzir êmbolos sépticos, gordurosos ou de ar, promovendo um tamponamento total ou parcial, o que afeta a circulação cerebral7,8. Ambos os mecanismos de lesão podem resultar em necrose do tecido cerebral, que implicam sintomas agudos como perda da função neurológica, paresia e coma4,9.

As deficiências e incapacidades causadas pelo AVC ocorrem por consequência da morte neuronal e pela falta ou alteração da conexão entre o sistema nervoso central (SNC) e os órgãos efetores. Entre as limitações imediatas mais comuns estão a dificuldade para marcha, os déficits no controle postural e na propriocepção, a fadiga e a redução da resistência aeróbica10,11. Essas limitações podem ser seriamente incapacitantes, interferindo de forma drástica na execução das atividades de vida diária (AVD) e, portanto, na independência funcional e socialização do indivíduo, o que altera negativamente sua qualidade de vida4,11-14.

Segundo Clinical Practice Guidelines For Managing Stroke In Rehabilitation15, há fortes recomendações de que a terapia de reabilitação pós-AVC seja iniciada assim que alcançada a estabilidade médica, por estar fortemente associada a melhores resultados funcionais. Pensando na reabilitação desses indivíduos, essa mesma diretriz indica que a reabilitação deve ter como prioridades a prevenção da recorrência da doença e de complicações secundárias, a recuperação da funcionalidade e o controle das comorbidades.

Corroborando as prioridades dessa recomendação, achados revelam que o condicionamento aeróbico interfere de forma positiva nos fatores de risco cardiovasculares, ajudando a reduzir a pressão arterial sistêmica (PA), o peso e o LDL (lipoproteína de baixa densidade). Esses benefícios auxiliam na minimização de sequelas, promovendo a independência e recuperação de danos funcionais. Todas essas mudanças podem melhorar as funções fisiológicas e metabólicas do paciente, aumentando o HDL (lipoproteína de alta densidade) e a tolerância aos esforços, com melhora no desempenho da marcha e das propriedades sanguíneas. Esses efeitos, por sua vez, auxiliam na diminuição do risco de recidivas, configurando-se como um recurso importante para o manejo das diversas comorbidades frequentemente encontradas em sobreviventes de AVC7,15,16.

A maioria dos profissionais da saúde tem limitada experiência e pouco conhecimento científico a respeito da programação do exercício aeróbico em vítimas de AVC. Tais problematizações trazem a necessidade de estudos altamente confiáveis para obtenção de conhecimentos, a fim de contribuir na tomada de decisões clínicas e políticas. Para tal, são utilizadas diretrizes de estudos de intervenções de saúde, que advêm de revisões sistemáticas (RS), publicadas na intenção de serem amplamente utilizadas durante a prática clínica17.

As RS oferecem uma ferramenta valiosa para embasar decisões com base em resumos precisos, sucintos, confiáveis e abrangentes das melhores evidências disponíveis sobre um tópico. Elas auxiliam na atualização do conhecimento e no fornecimento de informações concretas, para que os formuladores de políticas avaliem riscos, benefícios e potenciais danos de comportamentos e intervenções de saúde. Além disso, contribuem ao reunir e sintetizar pesquisas relevantes para pacientes e cuidadores, servindo como um ponto de partida para desenvolvedores de diretrizes de prática clínica e oferecendo uma base estruturada que permite que os financiadores identifiquem lacunas e definam prioridades para novos investimentos na pesquisa16,18-20.

No entanto, apesar do rigor dos protocolos com que as RS são conduzidas, elas podem diferir em qualidade e rendimento. Como resultado, leitores de revisões sistemáticas devem ser críticos e avaliar cuidadosamente a qualidade metodológica das revisões19,20, pois ela é um pré-requisito para a interpretação válida e adequada dos resultados de uma revisão.

De acordo com as informações supracitadas, agregar evidência de pesquisa para guiar a prática clínica é uma das principais razões para se desenvolverem estudos que sintetizam a literatura. Partindo dessas importantes questões, o objetivo principal deste estudo foi analisar em que contextos e níveis de evidência o condicionamento aeróbico em pacientes pós-AVC tem sido investigado.

METODOLOGIA

Este estudo consistiu em um mapeamento de revisões sistemáticas e cumpriu criteriosamente as seguintes etapas: seleção de questão norteadora; definição das características das pesquisas da amostra; seleção das pesquisas que compuseram a amostra da revisão; análise dos achados das revisões sistemáticas incluídas na revisão; interpretação dos resultados; e relato da revisão proporcionando um exame crítico dos achados.

A formulação da pergunta de pesquisa foi descrita através da estratégia Pico (P: população/pacientes; I: intervenção; C: comparação/controle; O: desfecho/outcome), de acordo com o Quadro 1.

Quadro 1
Estratégia Pico para formulação da questão de pesquisa

A questão norteadora do estudo foi: em quais contextos e níveis de evidências o condicionamento aeróbico em pacientes pós-AVC tem sido investigado nas revisões sistemáticas?

A estratégia de busca da pesquisa foi realizada nas seguintes bases de dados: Sistema Online de Busca e Análise de Literatura Médica (MedLine) via PubMed, International Prospective Register of Systematic Reviews (Prospero) e Physiotherapy Evidence Database (PEDro). Foram utilizados os descritores e correlatos encontrados no vocabulário estruturado Medical Subject Heading (MeSH): “Rehabilitation stroke”, “Exercise”, “Physical Conditioning” e “Systematic Review ”; assim como descritores e termos correlatos encontrados no vocabulário controlado de descritores em ciência da saúde (DeCS): “Reabilitação de Acidente Vascular Encefálico”, “Exercício”, “Condicionamento Físico, Humano”, “Revisão Sistemática [Tipo de Publicação]”.

Os termos foram combinados entre si por meio dos operadores booleanos “AND” e “OR”, conforme a estratégia de busca na MedLine via PubMed, PEDro e na Prospero. Todo o processo de busca nas bases de dados foi realizado por meio de estratégias de busca avançada e pesquisa em texto completo, visando evitar a perda de potenciais estudos. Os seguintes filtros foram utilizados: tempo de publicação (2010-2022), tipo de estudo (revisões sistemáticas) e idioma (inglês e português).

O processo de identificação dos estudos foi segmentado em fases:

  • Fase 1 - Identificação: consistiu na busca nas bases de dados utilizando os descritores e os filtros. Para serem incluídos nessa fase, as publicações deveriam estar disponíveis em português ou inglês e acessíveis para leitura na íntegra. Os trabalhos relevantes foram encontrados nas referências dos artigos selecionados. Foram eliminados os artigos duplicados.

  • Fase 2 - Seleção: consistiu na leitura dos títulos e resumos, que foram analisados de maneira minuciosa para garantir que atendessem aos critérios definidos previamente. Foram excluídos estudos que tratassem de intervenções não relacionadas ao condicionamento aeróbico, como treinamento resistido, uso de medicamentos ou outras abordagens de reabilitação pós-AVC. Revisões narrativas, estudos de caso, comentários, cartas ao editor e outros artigos com delineamento inadequado foram desconsiderados. As questões principais foram registradas em tabela própria, assim como as características dos artigos selecionados, os motivos e a identificação dos artigos excluídos.

  • Fase 3 - Elegibilidade: consistiu na seleção de estudos incluídos na fase 2 a partir da leitura completa e detalhada dos textos na íntegra, garantindo uma avaliação baseada nos critérios de inclusão estabelecidos. Nessa fase, foram excluídos os artigos que não apresentaram claramente os desfechos relacionados ao condicionamento aeróbico, estudos cujo público-alvo incluísse outras condições além do AVC ou que não fossem específicos para essa população.

  • Fase 4 - Inclusão: os dados foram extraídos por desfechos e separados por estudo. As características relevantes de cada artigo foram discriminadas: autores, ano, número amostral, objetivo do estudo e principais resultados dos estudos, descritos em uma planilha específica determinada para essa etapa.

O software online Rayyan QCRI, do Instituto de Pesquisa em Computação do Catar para Análise de Dados, foi utilizado nas fases 1 e 2 para remover duplicatas e leitura dos títulos e resumos. Dois pesquisadores identificaram os estudos e fizeram a seleção de maneira independente. Cada pesquisador realizou a análise dos títulos e resumos separadamente, categorizando os estudos como “inclusão”, “exclusão” ou “em dúvida”. Em situações de discordância, foi solicitada a avaliação de um terceiro avaliador, responsável por determinar a inclusão ou exclusão do artigo. As decisões finais foram devidamente registradas no software.

RESULTADO DOS ESTUDOS

A busca foi realizada entre 5 de janeiro e 20 de fevereiro do ano de 2022. Foram identificados 483 artigos nas bases de dados. Durante a análise, foram identificadas e excluídas 53 duplicatas, e 383 artigos foram descartados a partir da leitura do título e resumo, por não atenderem aos critérios de inclusão previamente estabelecidos. Por fim, restaram 30 estudos para a leitura completa, dos quais 15 foram incluídos por cumprirem todos os critérios de inclusão.

A revisão seguiu a lista de verificação do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (Prisma) de 27 itens. A descrição detalhada dos estudos identificados nas buscas está apresentada no fluxograma conforme método Prisma (Figura 1).

Figura 1
Fluxograma Prisma

Risco de viés e qualidade metodológica

O Assessing the Methodological Quality of Systematic Reviews (Amstar) é um instrumento de avaliação da qualidade de revisões sistemáticas. O Amstar original foi publicado em 2007, construído a partir da análise e da atualização de outros instrumentos, empiricamente validado, além de ser genérico, ou seja, se presta a avaliar RS de todas as áreas21. Em sua primeira versão, o instrumento possuía 37 itens e, a partir de uma análise fatorial, 29 itens foram selecionados, compreendendo 11 fatores. O Amstar passou por mais uma modificação, sendo intitulado Amstar 2. Tal alteração foi realizada por um grupo de especialistas com a perspectiva de aumentar o valor do Amstar como um amplo instrumento de avaliação crítica projetado, principalmente, para revisões sistemáticas de estudos de intervenções em saúde. A versão final foi validada externamente, tendo um bom desempenho em relação aos julgamentos globais de um painel de especialistas no conteúdo17.

Nessa nova atualização, os domínios receberam uma cobertura mais detalhada, passando a abranger: seleção de estudos duplicados, extração de dados, fontes de financiamento e risco de viés. A versão final da escala foi composta por 16 itens. Os itens compreendem requisitos mínimos de uma revisão sistemática: (1) as questões de pesquisa e os critérios de inclusão para a revisão incluíram os componentes do Pico?; (2) o relatório da revisão continha uma declaração explícita de que os métodos de revisão foram estabelecidos antes da realização da revisão e o relatório justificava quaisquer desvios significativos do protocolo?; (3) os autores da revisão explicaram sua seleção dos desenhos de estudo para inclusão na revisão?; (4) os autores da revisão explicaram sua seleção dos desenhos de estudo para inclusão na revisão?; (5) os autores da revisão realizaram a seleção dos estudos em duplicata?; (6) os autores da revisão realizaram a extração de dados em duplicata?; (7) os autores da revisão forneceram uma lista de estudos excluídos e justificaram as exclusões?; (8) os autores da revisão descreveram os estudos incluídos com detalhes adequados?; (9) os autores da revisão usaram uma técnica satisfatória para avaliar o risco de viés (RoB) em estudos individuais que foram incluídos na revisão?; (10) os autores da revisão informaram sobre as fontes de financiamento dos estudos incluídos na revisão?; (11) se a metanálise foi realizada, os autores da revisão usaram métodos apropriados para combinação estatística de resultados?; (12) se a metanálise foi realizada, os autores da revisão avaliaram o impacto potencial da RoB em estudos individuais sobre os resultados da metanálise ou outra síntese de evidências?; (13) os autores da revisão consideraram RoB em estudos individuais ao interpretar/discutir os resultados da revisão?; (14) os autores da revisão forneceram uma explicação satisfatória e discussão de qualquer heterogeneidade observada nos resultados da revisão?; (15) se eles realizaram síntese quantitativa, fizeram também uma investigação adequada do viés de publicação (viés de estudo pequeno) e discutiram seu provável impacto nos resultados da revisão?; e (16) os autores da revisão relataram quaisquer fontes potenciais de conflito de interesse, incluindo qualquer financiamento que receberam para conduzir a revisão?

Para cada item do instrumento, há as seguintes opções de resposta: (1) “sim”, caso a revisão contemple explicitamente o critério; (2) “não”, caso não contemple; e (3) “parcialmente sim”, em casos de adesão parcial ao padrão. As respostas aos itens do Amstar 2 não são utilizadas para obter uma pontuação geral, pois, de acordo com os especialistas, pontuações podem disfarçar pontos fracos críticos que devem diminuir a confiança nos resultados de uma revisão sistemática. Portanto, a avaliação realizada com esse instrumento deve seguir um processo de classificação com base na identificação de domínios críticos17.

RESULTADOS

Os estudos incluídos neste mapeamento utilizaram múltiplas formas de treinamento aeróbico, relacionando os seus efeitos com benefícios cognitivos, melhora da caminhada, autocuidado, aptidão cardiorrespiratória, mobilidade e neuroplasticidade.

Os estudos de Hasan et al.22 e Aguilar et al.23 analisaram o efeito das intervenções aeróbicas relacionadas a melhorias nas funções cognitivas após o AVC. Os resultados de Hasan et al.22 foram referentes a efeitos benéficos em relação à memória de trabalho, memória espacial e função executiva quando o exercício aeróbico (EA) era realizado em baixa e moderada intensidade, enquanto os de Aguilar et al.23 obtiveram respostas cognitivas positivas durante a caminhada, demonstrando boas pontuações em testes cognitivos.

De acordo com a avaliação metodológica dos pontos críticos e não críticos da revisão, o estudo de Hasan et al.22 cumpriu seis dos 16 itens, o que corresponde a apenas 37,5% das questões do instrumento Amstar 2. Dos dez itens não selecionados, quatro foram desconsiderados, pois a revisão não se trata de metanálise. O estudo desconsiderou itens que atendem aos critérios dos componentes Pico, risco de viés, justificativa para exclusão de artigos, descrição satisfatória em detalhes dos estudos, fontes de financiamento e técnicas satisfatórias para avaliar o risco de viés. Três desses itens correspondem a domínios não críticos, e os outros três a domínios críticos. Sendo assim, a classificação geral da confiança do estudo de Hasan et al.22 é considerada criticamente baixa, por ter mais de uma falha crítica, tendo reduzida confiabilidade por não fornecer um resumo abrangente dos estudos disponíveis.

O estudo de Aguilar et al.23 cumpriu 12 itens do checklist, cerca de 75%. A não observância de três dos quatro itens restantes não impacta a análise crítica, uma vez que tais questões são específicas para metanálises, procedimento que não foi realizado neste estudo, de modo que esses itens não são aplicáveis. O item não considerado pelos autores corresponde a um domínio não crítico. Assim, a classificação geral de confiança na revisão é alta, uma vez que ela oferece uma análise precisa e resumo abrangente dos resultados dos estudos disponíveis que abordam a questão de interesse.

Quatro revisões sistemáticas avaliaram o efeito do EA na capacidade funcional. O estudo de Luo et al.24 teve resultados favoráveis em relação à melhora do VO2 pico utilizando exercício aeróbico de alta intensidade. O aumento da aptidão cardiorrespiratória ocorreu a partir de oito semanas de treinamento, variando de 70% a 85% de intensidade. Em relação à avaliação da qualidade metodológica, o estudo compreendeu 11 de 16 itens do checklist, abrangendo 68,7% dos itens. Tal artigo não obedeceu a quatro itens relativos à seleção dos desenhos de estudo, estratégias de pesquisa, fontes de financiamento e risco de viés. Entre os itens não contemplados, dois são considerados itens críticos e dois não críticos, classificando o estudo como de baixa confiança, o que indica um elevado risco de viés.

A revisão de Marsden et al.25 obteve como resultados a melhora do VO2 pico de 10% a 15% comparado à linha de base quando o exercício aeróbico é realizado em programas de mais de três meses de duração. Tal revisão obedeceu a apenas oito dos 16 itens do Amstar 2, totalizando 50% de itens aplicáveis. Os que não foram cumpridos têm relação com componente Pico, desenho do estudo, descrição em detalhes dos estudos incluídos, risco de viés, fontes de financiamento e métodos apropriados para combinação estatística. Desses, quatro itens são considerados críticos, e quatro não críticos. De acordo com instrumento utilizado, a revisão de Marsden et al.25 pode ser considerada com confiança criticamente baixa.

Tratando-se, ainda, do efeito do EA na capacidade funcional, o estudo de Lee et al.26 analisou EA realizados por mais de 12 semanas, o que resultou em uma capacidade cardiorrespiratória significativamente maior durante as atividades diárias. Na revisão de Campo et al.27, o EA realizado com cicloergômetro não teve resultados significativos em relação a melhora do VO2 pico de pacientes pós-AVC.

Quadro 2
Características dos estudos selecionados

A revisão de Lee et al.26 atendeu a 13 dos 16 itens do Amstar 2, correspondendo a aproximadamente 81,2%. Os itens infringidos foram seleção dos desenhos de estudo, extração de dados em duplicata e fontes de financiamento; entretanto, tais itens não correspondem a domínios críticos. Dessa forma, a revisão pode ser classificada como de confiabilidade moderada, uma vez que, entre os itens não cumpridos, apresenta apenas três domínios não críticos e nenhum domínio crítico. Por sua vez, a revisão de Campo et al.27 destacou-se como uma das duas revisões que cumpriram rigorosamente os itens do instrumento, demonstrando alta confiabilidade. Essa revisão obedeceu 15 dos 16 itens do checklist, totalizando 93,7% dos itens, deixando de considerar apenas um item relativo às fontes de financiamento dos estudos incluídos, o qual não é considerado um domínio crítico. Portanto, a revisão pode ser considerada de alta confiança de acordo com o Amstar 2.

Cinco estudos executaram revisões abrangendo os efeitos de treinamentos de caminhada, com resultados positivos envolvendo competência de marcha, distância de caminhada, taxa de VO2 pico, velocidade de marcha e comprimento da passada em exercícios realizados com moderada à alta intensidade em caminhadas na esteira ou solo. No estudo de Tshiswaka et al.34, o treinamento melhorou o desempenho de caminhada quando realizado por 30 minutos no solo ou esteira com suporte de peso corporal, usando também biofeedback, que resultou em melhorias de função, ciclo da marcha e fase de balanço. Quando realizados em alta intensidade, melhoraram a marcha e a taxa de VO2 pico em pacientes pós-AVC.

De acordo com a avaliação metodológica, o estudo cumpriu apenas 56,2% dos itens, desconsiderando nove dos 16 itens, que compreendem métodos de revisão, avaliação de risco de viés, seleção dos estudos em duplicata, fontes de financiamento e avaliação de heterogeneidade. Desses nove itens, três não foram considerados, pois a revisão não se trata de metanálise. Pode-se constatar, então, que o estudo de Tshiswaka et al.34 pode apresentar confiança criticamente baixa, por possuir três itens críticos e três itens não críticos entre os itens não correspondidos.

Outro estudo envolvendo a competência de caminhada em pacientes pós-AVC foi o de Luo et al.35, com resultados positivos para caminhada de alta intensidade em esteira com duração maior que 12 semanas por pelo menos seis meses após o AVC, melhorando a distância percorrida, velocidade de marcha e aumento no comprimento da passada. Tratando-se da avaliação da qualidade metodológica, o estudo cumpriu 12 itens do Amstar 2, cerca de 75%. Os parâmetros não comtemplados foram a fonte de financiamento, o impacto do risco de viés e o conflito de interesses. Dos itens não preenchidos, três são considerados não críticos e um é considerado crítico, portanto o estudo pode ser considerado de baixa confiabilidade.

Os estudos de Peurala et al.30 e Charalambos et al.32 também abordaram intervenções aeróbicas na melhora da caminhada de pacientes pós-AVC. O artigo de Peurala et al.29 é referente à avaliação de estudos que utilizavam treinamento de caminhada comparado a nenhum tratamento e treinamento de caminhada comparado à fisioterapia geral em pacientes na fase crônica de AVC. Os resultados relacionados ao treino de caminhada versus nenhum treinamento mostraram-se benéficos, com o aumento da distância percorrida pelos pacientes, tendo sido realizadas entre 12 e 18 sessões, cada uma com duração de 30 a 60 minutos. O estudo de Charalambos et al.32 obteve como resultado a melhora da velocidade de caminhada quando as intervenções foram realizadas em até 16 sessões.

Em relação à qualidade metodológica, o estudo de Peurala et al.29 cumpriu 11 itens, que equivalem a 68,7% do total, desconsiderando fontes de financiamento, avaliação de viés em estudos individuais, discussão de heterogeneidade observada, investigação do viés de publicação e conflito de interesses, sendo considerado, portanto, um estudo de confiança criticamente baixa, por possuir três itens críticos e dois itens não críticos entre os não obedecidos.

Charalambos et al.32 atenderam a 12 itens do checklist, correspondendo a cerca de 75%. Contudo, não contemplaram aspectos como a extração de dados em duplicata, a apresentação da lista de estudos excluídos com suas justificativas, as fontes de financiamento e a avaliação do impacto do risco de viés nos estudos individuais sobre os resultados. Dessa forma, a confiança na revisão foi avaliada como criticamente baixa, uma vez que dois dos itens não cumpridos são considerados críticos, enquanto outros dois são não críticos.

No que diz respeito à melhora das funções de caminhada, a revisão de Polese et al.28 teve como objetivo avaliar a eficácia do treinamento em esteira para promover melhorias imediatas na velocidade e na distância da caminhada. Os resultados indicaram um aumento médio na velocidade de caminhada de 0,14m/s e um incremento de 40 metros na distância percorrida, sem diferenças significativas entre o treinamento em solo e o realizado na esteira.

Quanto à avaliação metodológica, o estudo atendeu a 10 dos 16 itens do Amstar 2, correspondendo a 62,5%. Os itens não cumpridos incluíram a extração de dados em duplicata, as fontes de financiamento e o conflito de interesses. Os demais três itens não se aplicaram, pois o estudo não realizou metanálise. Dessa forma, a revisão pode ser classificada como de confiabilidade moderada, uma vez que não há domínios críticos entre os itens não cumpridos.

Duas revisões sistemáticas incluídas abrangem efeitos do EA na neuroplasticidade e reparo cerebrais pós-AVC. O primeiro estudo, de Ploughman et al.30, teve como resultados o aumento de fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), fator de crescimento tipo insulina I (IGF-I), fator de crescimento nervoso (NGF) e sinaptogênese em várias regiões do cérebro, quando realizados exercícios em moderada ou alta intensidade. Na avaliação metodológica, esse artigo abrangeu quatro dos 16 itens, o equivalente a apenas 25% do total. Os assuntos não contornados têm relação com componentes Pico, métodos de revisão, seleção de desenhos de estudo, justificativa para exclusão de artigos, características detalhadas dos estudos incluídos, utilização de técnica satisfatória para avaliar o risco de viés, fontes de financiamento, heterogeneidade e itens não aplicáveis por não se tratar de metanálise. Os outros três itens não selecionados são relativos a metanálises, por isso, não foram considerados. Pode-se sugerir que tal artigo possui um nível de confiança criticamente baixo, pois dentre os itens não realizados, estão cinco não críticos e quatro itens críticos.

Outro estudo relativo à neuroplasticidade é o de Limaye et al.36, que analisou programas de EA que tiveram como resultado a diminuição significativa no escore de alteração do BDNF (biomarcadores séricos) após 36 sessões de tratamento contínuo realizadas por 30 minutos em intensidade moderada na bicicleta ergométrica. Além disso, um programa de EA feito em bicicleta ergométrica por 24 sessões, realizado até 45 minutos, também provou aumentar significativamente a pontuação de alteração do BDNF. O IGF-I e o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF) tiveram aumento na pontuação em estudos que compararam grupos diferentes de EA, com 20 minutos de exercício feitos em esteira, com intensidade moderada.

Tratando-se de revisão da qualidade metodológica, o artigo obedeceu cerca de 50% das questões, apenas oito dos 16 itens. As questões desconsideradas envolvem os desenhos de estudo, fontes de financiamento, discussão do impacto de viés em estudos individuais, e relato de conflitos de interesses. Quatro dos itens não correspondidos são específicos para metanálises e, portanto, foram desconsiderados, uma vez que o artigo não realizou metanálise. De acordo com o Amstar 2, o estudo de Limaye et al.36 pode ser considerado de baixa confiança, por possuir três itens não críticos e um item crítico entre os não obedecidos.

As RS de Francica et al.31 e Kendall et al.33, que analisaram protocolos de EA pós-AVC, envolviam tratamentos realizados com esteira e cicloergômetro. Ambos investigaram estudos cujos resultados foram a melhora da capacidade cardiorrespiratória, velocidade de caminhada e melhora funcional global.

A revisão de Francica et al.31 utilizou treinamentos variando entre quatro semanas e seis meses, de três a cinco vezes por semana, utilizando carga progressiva de 50%-80%. Em relação ao checklist Amstar, a revisão considerou sete dos 16 itens, cerca de 43,7%. Os itens não cumpridos abrangem avaliação de risco de viés, inclusão de características detalhadas dos estudos incluídos, técnica satisfatória para avaliar o risco de viés, fontes de financiamento e discussão sobre possíveis heterogeneidades. Três itens não foram considerados, pois o estudo não se trata de uma metanálise. De acordo com a avaliação de confiança, a revisão de Francica et al.31 possui grau criticamente baixo, devido ao fato de haver três itens críticos e três itens não críticos infringidos pelos autores.

Por fim, a pesquisa de Kendall et al.33 avaliou a mobilidade de pacientes pós-AVC submetidos a treinamento aeróbico, observando resultados benéficos quando o tratamento variou entre uma média mínima de seis meses e um máximo de 70 meses após o AVC, com melhorias na capacidade de caminhada e marcha. Conforme a análise de qualidade, a revisão cumpriu apenas 10 dos 16 itens do checklist, correspondendo a 62,5%. Os itens não atendidos referem-se às fontes de financiamento, à discussão sobre o risco de viés em estudos individuais, à análise de possíveis heterogeneidades, além de três itens não aplicáveis, visto que o estudo não realizou metanálise. Dessa forma, o estudo apresenta baixo grau de confiança, uma vez que, entre os itens não cumpridos, há dois não críticos e um crítico.

Quadro 3
Análise dos critérios Amstar 2.

Quadro 4
Classificação geral da confiança nos resultados da revisão.

DISCUSSÃO

Este mapeamento de revisões sistemáticas teve como objetivo analisar em que contextos e níveis de evidência o condicionamento aeróbico em pacientes pós-AVC tem sido investigado. Depois de analisar criticamente os 15 estudos selecionados, os resultados revelaram que mais da metade possui baixa qualidade metodológica. Entre os estudos investigados, somente dois apresentaram alta confiabilidade23,27 e dois apresentaram confiabilidade moderada26,32, de acordo com os critérios do Amstar 2. Os 11 artigos restantes demonstraram possuir confiabilidade baixa ou criticamente baixa.

Uma das revisões sistemáticas com alta confiabilidade foi a de Campo et al.27, que incluiu cinco artigos no estudo. Seu objetivo foi analisar intervenções aeróbicas para melhora de VO2 pico utilizando cicloergômetro comparado à fisioterapia convencional, atividades de alongamento para membros inferiores e séries de exercícios para extremidades superiores. As intervenções foram realizadas em pacientes com AVC crônico, com exercícios aeróbicos de 10 a 40 minutos, utilizando 50% a 70% de intensidade. Tais estudos incluídos na RS totalizaram 188 pacientes, e como resultados pode-se constatar, através do teste de caminhada de seis minutos (TC6), que a intervenção realizada com cicloergômetro não contribuiu para a capacidade funcional quando comparada à outras modalidades terapêuticas. Observou-se também que mudanças benéficas na capacidade funcional podem ser observadas após quatro a 12 semanas de treinamento e dependem do nível inicial de aptidão física de cada indivíduo.

Três revisões também discorrem sobre a relação do exercício aeróbico e capacidade funcional em pacientes pós-AVC. A RS de Lee et al.26, de moderada confiabilidade, avaliou 18 artigos, contendo um total de 602 participantes. Todas as intervenções tiveram um período médio de treinamento de 15 semanas. De acordo com os achados da revisão, após uma série de exercícios aeróbicos, a capacidade cardiorrespiratória dos pacientes aumentou em 12%, demonstrando uma melhora significativamente maior em grupos com idade inferior a 65 anos. Grupos pós-AVC com menos de dois anos de acometimento tiveram um aumento na capacidade cardiorrespiratória quando comparados à indivíduos com mais de dois anos de diagnóstico de AVC. O treinamento por mais de 12 semanas resultou em uma capacidade funcional maior quando realizados em intensidade moderada, de 40% a 60%, com frequência de três vezes por semana, não havendo diferenças entre intervenções supervisionadas e não supervisionadas.

Os estudos de Marsden et al.25 e Luo et al.24 também analisaram a capacidade funcional de indivíduos submetidos a treinamento com exercícios aeróbicos e, comparados aos de Campo et al.27 e Lee et al.26, possuem baixa confiabilidade. De acordo com Luo et al.24, há melhorias na capacidade funcional de pacientes pós-AVC quando o treino aeróbico é realizado em alta intensidade, relatando que não há diferenças significativas entre as fases do AVC, modo e tempo de exercício, contrariando os achados supracitados de Campo et al.27 e Lee et al.26. A revisão de Marsden et al.25 especifica que houve melhora em cerca de 10% a 15% da capacidade funcional após exercício aeróbico misto, porém não deixou claro qual a intensidade, frequência ou duração das intervenções, tendo a confiabilidade considerada criticamente baixa.

Há evidências de que pacientes pós-AVC apresentam diminuição da aptidão cardiorrespiratória devido às limitações físicas e à adoção de um estilo de vida sedentário37. Nesse contexto, o exercício aeróbico tem sido inserido no processo de reabilitação desses indivíduos com objetivo de melhora da capacidade funcional, da marcha e do condicionamento físico. Como os níveis reduzidos de aptidão cardiovascular estão relacionados com o desempenho funcional, é imperativo enfatizar o exercício aeróbico de moderada a alta intensidade nos programas de reabilitação38.

Outra RS que demonstrou ter boa qualidade metodológica foi a de Polese et al.28, que teve como o objetivo analisar a eficácia do treinamento de esteira para melhorar a velocidade e distância de caminhada em indivíduos pós-AVC, abrangendo 275 participantes e fazendo uma comparação entre treinamento em esteira versus nenhuma intervenção. Os resultados mostraram que o treinamento em esteira aumentou a velocidade de caminhada em 0,12m/s. O efeito imediato do treinamento em esteira a uma curta distância aumentou a distância de caminhada em 40 metros quando comparados a intervenções que não utilizaram caminhada. Os pacientes tinham idade entre 50 e 74 anos, com o tempo pós-AVC de 10 a 27 meses. As intervenções tiveram duração variando de três a 26 semanas.

Há evidências de que o desempenho funcional da marcha de indivíduos pós-AVC melhora significativamente em relação ao aumento dos valores da distância percorrida e da velocidade de caminhada em intervenções aeróbicas em esteira realizadas por até 35 sessões, três vezes na semana, com duração de 70 minutos39. Em outro estudo, constatou-se que a combinação de exercícios aeróbicos com treinamento de marcha possui resultados positivos em termos de qualidade de vida, velocidade de marcha, além de melhor desempenho na subida de escadas quando os exercícios são realizados com duração de 60 a 90 minutos, três vezes na semana40.

Em comparação a esses achados, o estudo de Charalambos et al.32 analisou a melhora da capacidade de caminhada de indivíduos pós-AVC com intervenções baseadas em esteira e obteve respostas relacionadas a um aumento da velocidade, naqueles indivíduos que tinham menos de seis meses pós-AVC e que realizaram menos de 30 sessões, porém esse estudo tem confiabilidade criticamente baixa.

De acordo com a RS de Aguilar et al.23, de alta confiabilidade metodológica e na qual houve uma análise das intervenções com exercícios físicos aeróbicos e treinamento cognitivo de pacientes pós-AVC, a intervenção combinada teve melhores resultados, em termos de rotação mental, quando comparada ao treinamento aeróbico exclusivo.

O estudo de Penna et al.41 corrobora que o exercício aeróbico associado ao treinamento cognitivo apresenta resultados benéficos em relação à avaliação cognitiva, promovendo a neuroplasticidade. Outro estudo relata, ainda, que o treinamento aeróbico pode aumentar os níveis séricos de fatores neurotróficos. Em modelos de animais pós-AVC, observou-se essa mudança quando os exercícios eram realizados de moderada a alta intensidade em intervenções a partir de oito semanas de treinamento aeróbico, três vezes por semana, levando a benefícios na cognição, incluindo melhora do aprendizado motor38.

Wen et al.39 relatam em um estudo de amostragem aleatória que há evidências consideráveis de que as principais informações são frequentemente mal relatadas em revisões sistemáticas, diminuindo assim sua utilidade potencial. Por isso, as revisões sistemáticas devem ser relatadas de forma completa e transparente para permitir que os leitores avaliem os pontos fortes e fracos da investigação.

A visão geral apresentada neste mapeamento é fundamental para a prática clínica, uma vez que a maioria dos estudos incluídos não demonstrou alta qualidade metodológica, conforme avaliado pelo checklist Amstar 2. Embora esses estudos estejam publicados e possam servir como referência, sua baixa qualidade pode comprometer a eficácia das intervenções, levando à utilização ineficiente de recursos, à adoção de condutas terapêuticas inadequadas e, principalmente, à ocorrência de desfechos negativos na saúde de pacientes em reabilitação com foco no condicionamento aeróbico pós-AVC.

CONCLUSÃO

A partir deste estudo, conclui-se que o exercício aeróbico representa um recurso promissor a ser incorporado na reabilitação de pacientes pós-AVC. Com base na análise metodológica, os artigos considerados mais confiáveis e seguros para aplicação na prática clínica referem-se ao treinamento aeróbico associado à melhora da capacidade funcional por meio da combinação de diferentes modalidades terapêuticas; ao treino cognitivo combinado com exercícios aeróbicos; e aos exercícios aeróbicos voltados à melhoria da distância de caminhada. Essas revisões demonstraram benefícios relevantes de acordo com as limitações dos indivíduos avaliados, apresentando, conforme os critérios metodológicos, níveis de confiabilidade classificados como moderado e alto. Considerando que as revisões sistemáticas estão sujeitas a vieses, destaca-se a importância de que pesquisadores e profissionais de saúde adotem estratégias rigorosas para identificar e avaliar revisões de alta qualidade, sendo capazes de distingui-las adequadamente antes de embasar qualquer tomada de decisão clínica.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos sinceramente a todos que, de maneira direta ou indireta, contribuíram para a realização deste trabalho, oferecendo apoio intelectual, incentivo e escuta ao longo do processo. Manifestamos, ainda, nossa gratidão à revista Fisioterapia e Pesquisa por acolher e permitir a divulgação de uma temática que tanto nos encanta e nos mobiliza enquanto pesquisadoras e profissionais da área.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível no corpo do artigo.

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  • Fonte de financiamento:
    Nada a declarar

Editado por

  • Editor responsável:
    Sônia LP Pacheco de Toledo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    28 Set 2023
  • Aceito
    05 Ago 2025
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