RESUMO
Durante a pandemia de covid-19 foi implantado o isolamento social, o que pode ter acentuado a inatividade física em indivíduos com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e, consequentemente, piorado o estado de saúde, funcional e de realização das atividades de vida diária (AVDs). Neste estudo pretende-se avaliar o estado de saúde e funcional de indivíduos com DPOC durante a pandemia, além de verificar a associação do estado de saúde com o estado funcional e com a realização de AVDs. Trata-se de um estudo longitudinal que avaliou o estado de saúde por meio do questionário COPD Assessment Test (CAT) e o estado funcional pela escala London Chest Activity of Daily Living (LCADL) durante o isolamento social rigoroso (visita 1) e após a flexibilização das restrições (visita 2). Mudanças na realização das AVDs entre as visitas foram registradas por um questionário elaborado pelos autores. Foram estudados 30 indivíduos com DPOC, com idade média de 69±7 anos. No geral, entre as visitas, não houve diferença estatisticamente significante do estado de saúde (15[8-22] versus 13[7-20]pts; P=0,58) e do estado funcional (LCADL total: 17[15-21] versus 17[15-21]pts; P=0,85). Entretanto, 15 indivíduos (50%) apresentaram piora do estado de saúde (11[6-25] versus 19[12-29]pts, P=0,0001; delta: 5[2-6]pts), não se correlacionando com o estado funcional na visita 2 (LCADL cuidado pessoal: P³0,41), mas associada à redução na frequência de realização de tarefas domésticas no dia a dia (Fisher=9,09; P=0,006). No geral, os indivíduos não apresentaram mudanças no estado de saúde e funcional. No entanto, metade sofreu uma piora em seu estado de saúde, associando-se à redução na frequência da realização de tarefas domésticas cotidianas.
Descritores:
Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica; Covid-19; Avaliação de Sintomas.
ABSTRACT
During the COVID-19 pandemic, social isolation measures were implemented, which may have intensified physical inactivity among individuals with chronic obstructive pulmonary disease (COPD). Such inactivity potentially affected their health and functional status and performance of activities of daily living (ADL). This study aimed to evaluate the health and functional status of individuals with COPD during the pandemic and to examine the association between health status, functional status, and ADL performance. This longitudinal study assessed health status using the COPD Assessment Test (CAT) and functional status using the London Chest Activity of Daily Living (LCADL) scale during strict social isolation (visit 1) and after the relaxation of restrictions (visit 2). Changes in ADL performance between visits were recorded using a questionnaire developed by the authors. A total of 30 individuals with COPD were included (mean age: 69±7 years). Overall, no statistically significant differences were observed between visits in health status (15 [8-22] versus 13 [7-20] points; p=0.58) or functional status (LCADL total score: 17 [15-21] versus 17 [15-21] points; p=0.85). However, 15 individuals (50%) showed worsening health status (11 [6-25] versus 19 [12-29] points, p=0.0001; delta: 5 [2-6] points). This worsening was not correlated with functional status at visit 2 (LCADL personal care: p≥0.41) but was associated with a reduced frequency of performing household tasks on a daily basis (Fisher’s exact test=9.09; p=0.006). Overall, individuals with COPD showed no changes in health and functional status. However, half of the participants experienced worsening health status, which was associated with a reduced frequency of performing household tasks.
Keywords:
Chronic Obstructive Pulmonary Disease; COVID-19; Symptom Assessment
RESUMEN
Durante la pandemia de la covid-19 se implementó el aislamiento social, que pudo haber acentuado la inactividad física en individuos con enfermedad pulmonar obstructiva crónica (EPOC) y, en consecuencia, pudo haber empeorado el estado de salud, funcional y de realización de actividades de la vida diaria (AVD). Este estudio tiene como objetivo evaluar el estado de salud y funcional de las personas con EPOC durante la pandemia, además de verificar la asociación del estado de salud con el estado funcional y con la realización de las AVD. Se trata de un estudio longitudinal que evaluó el estado de salud a partir del cuestionario COPD Assessment Test (CAT) y el estado funcional con la escala London Chest Activity of Daily Living (LCADL) durante el aislamiento social estricto (visita 1) y después de la flexibilización de las restricciones (visita 2). Los cambios en la realización de las AVD entre las visitas se registraron mediante un cuestionario preparado por los autores. Participaron treinta individuos con EPOC, con una edad media de 69±7 años. En general, entre las visitas no hubo diferencias estadísticamente significativas en el estado de salud (15[8-22] versus 13[7-20]pts; P=0,58) y el estado funcional (LCADL total: 17[15-21] versus 17[15-21]pts; P=0,85). Sin embargo, 15 individuos (50%) presentaron empeoramiento del estado de salud (11[6-25] versus 19[12-29]pts, P=0,0001; delta: 5[2-6]pts), no correlacionándose con el estado funcional en la visita 2 (LCADL cuidado personal: P³0,41), pero asociado con una reducción en la frecuencia de la realización de tareas domésticas a diario (Fisher=9,09; P=0,006). En general, los individuos no mostraron cambios en la salud y el estado funcional. Sin embargo, la mitad sufrió un empeoramiento en su estado de salud, que estuvo asociado con una reducción en la frecuencia de la realización de tareas domésticas diarias.
Palabras clave:
Enfermedad Pulmonar Obstructiva Crónica; Covid-19; Evaluación de Síntomas
INTRODUÇÃO
A doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) é caracterizada por obstrução progressiva do fluxo aéreo e sintomas respiratórios persistentes1. A obstrução brônquica leva à hiperinsuflação, contribuindo para a exacerbação dos sintomas durante o esforço desses indivíduos2),(3.
A interação entre dispneia, descondicionamento físico e fraqueza muscular causa limitações funcionais, levando-os a adotar um estilo de vida sedentário, com redução das atividades de vida diária (AVDs) (4. Esse estilo de vida menos ativo aumenta o descondicionamento físico e a dispneia, gerando um ciclo vicioso da doença5.
Com a chegada no Brasil da síndrome respiratória aguda grave causada pela covid-19, foram implementadas medidas de controle e prevenção, como a prática do isolamento social, o método mais efetivo para evitar a disseminação e achatar a curva de transmissão da doença6),(7. Essa prática implica mudanças no estilo de vida e na saúde mental8, podendo levar a uma redução importante nos níveis de atividade física de intensidade moderada a vigorosa, e no aumento de tempo em comportamento sedentário (CS) (9. Nesse sentido, esses indivíduos que sabidamente adotam um CS foram mais reprimidos pelo isolamento social10.
Após o início do programa de vacinação, houve uma flexibilização do isolamento social, com possibilidade de retorno às atividades cotidianas. No entanto, a inatividade física e o sedentarismo, provavelmente acentuados pelas medidas de restrição, podem ter causado prejuízos sem garantias de melhora no estado funcional e de saúde dessa população, mesmo com a flexibilização das restrições.
A hipótese deste estudo é que esses pacientes foram prejudicados quanto ao estado funcional e de saúde durante o isolamento social, e ainda mais imediatamente após esse período, podendo haver diminuição e abandono de AVDs. Portanto, faz-se importante analisar o quanto esses aspectos foram afetados durante o período de isolamento social. É possível conjecturar também que pacientes com piora do estado de saúde durante o isolamento social apresentam maior queda do estado funcional quando comparados com pacientes sem piora do estado de saúde.
O objetivo deste estudo foi avaliar o estado de saúde e funcional de indivíduos com DPOC durante a pandemia de covid-19, bem como verificar a associação do estado de saúde com o estado funcional e a realização de AVDs desses indivíduos.
METODOLOGIA
Desenho do estudo, população e local
Trata-se de um estudo observacional longitudinal vinculado a um projeto maior aprovado previamente pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Londrina (UEL) em que foram incluídos pacientes com diagnóstico de DPOC. Os indivíduos foram selecionados dentre aqueles que fizeram parte de projetos de pesquisa anteriormente realizados no Laboratório de Pesquisa em Fisioterapia Pulmonar (LFIP), Departamento de Fisioterapia da UEL, Londrina (PR).
Critério de seleção
Os critérios de inclusão foram: diagnóstico clínico de DPOC estabelecido conforme a Global Initiative for Obstructive Lung Disease (GOLD) (1; não ter diagnóstico de doença cardíaca grave e/ou instável; não apresentar alterações osteoneuromusculares que pudessem limitar as atividades cotidianas; não ter tido covid-19; e aceitar participar do estudo. Os critérios de exclusão foram: desejo de deixar o estudo por qualquer motivo; perda de contato com o(a) participante; apresentar alguma condição clínica que interferisse no nível de atividade física na vida diária (AFVD) (cirurgias, disfunções ortopédicas ou neurológicas). Todos os participantes leram e assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Coleta de dados
Os pacientes foram contatados por telefone, mediante interesse em participar do estudo, e foram triados de acordo com os critérios de inclusão. Após declararem verbalmente que aceitavam participar do estudo, os indivíduos receberam uma visita do pesquisador em seu domicílio.
A visita para coleta de dados no domicílio do paciente foi realizada de acordo com protocolo rigoroso de cuidados sanitários, segundo recomendações do Ministério da Saúde2, com uso de equipamentos de proteção individual (EPI), distância de dois metros do paciente durante a visita e higienização de todos os equipamentos.
O projeto envolveu dois momentos de avaliação, a saber: visita 1 (outubro a dezembro de 2020), período no qual a recomendação dos governos e órgãos de saúde era o isolamento social, e realizada imediatamente após a aprovação do projeto pelo comitê de ética; e visita 2 (agosto a outubro de 2021), período imediatamente após o relaxamento das medidas restritivas, conforme divulgado pelos órgãos oficiais.
Estado funcional
Para a avaliação do estado funcional, foi utilizada a escala London Chest Activity of Daily Living (LCADL)11, que avalia as limitações das AVDs. A LCADL apresenta 15 itens de AVDs, divididos em quatro domínios. Na pontuação, um subescore é calculado para cada um dos quatro domínios, e um escore total é formado pela soma dos subescores dos quatro domínios.
Estado de saúde
Foi utilizado o questionário COPD Assessment Test (CAT) para avaliar o impacto da doença na qualidade de vida e estado de saúde12. Sua pontuação vai de 0 a 5 para cada um dos oito domínios que o compõem, com uma pontuação total de 0 a 40 pontos.
Realização de tarefas domésticas
Os participantes também foram avaliados quanto a mudanças na frequência de realização de tarefas domésticas durante a pandemia, sendo menor, igual ou maior em comparação ao período pré-pandemia. Para isso, um questionário, contendo também dados demográficos, socioeconômicos e culturais, foi elaborado pelos autores.
Análise/tratamento de dados
Para a tabulação dos dados foi utilizado o software Microsoft Excel, e para a análise estatística foram utilizados os softwares SPSS, versão 21, e GraphPad Prism, versão 9.3. A normalidade na distribuição dos dados foi observada pelo teste de Shapiro-Wilk. Os dados com distribuição normal foram descritos como média ± desvio-padrão, e os dados que apresentaram distribuição não normal como mediana [intervalo interquartílico 25%-75%]. Para a comparação dos diferentes desfechos dessa população ao longo do tempo (visita 1 versus visita 2), utilizou-se o teste de Wilcoxon. Correlações foram estudadas por meio do coeficiente de Spearman. As possíveis associações entre piora do estado de saúde com piora do estado funcional e menor realização de AVDs foram analisadas por meio do teste exato de Fisher. A significância estatística adotada foi P<0,05.
RESULTADOS
Foram contatados para participação do estudo 136 indivíduos, dentre os quais 71 não se encaixavam nos critérios de inclusão do estudo e 33 se recusaram a participar. Portanto, a amostra do estudo foi composta por 34 indivíduos. Foram excluídos dois indivíduos devido a óbito e dois por perda de contato. Com isso, as análises foram conduzidas com 30 participantes, com média de idade de 69±7 anos, prevalência do sexo masculino, VEF1 de 51±18% do predito, e IMC de 27±6kg/m2 (Tabela 1).
Durante o período do estudo, nenhum dos participantes foi contaminado pela covid-19. Quando comparada a visita 1 com a visita 2, o estado funcional (LCADL total: 17[15-21] versus 17[15-21]pts; P=0,85, respectivamente) e o estado de saúde (15[8-22] versus 13[7-20]pts; P=0,58, respectivamente) não apresentaram mudanças, mantendo-se semelhante entre os dois momentos (Figura 1). No geral, o estado de saúde não se correlacionou significantemente com o estado funcional (r=−0,022; P>0,05).
Entretanto, 15 indivíduos (50%) apresentaram piora do estado de saúde, evidenciada pela maior pontuação no questionário CAT (11[6-25] versus 19[12-29]pts; P=0,0001).
A piora no estado de saúde no subgrupo mencionado não se correlacionou com o estado funcional na visita 2 (LCADLcuidado pessoal: r=−0,22; doméstico: r=−0,22; atividade física: r=0,14; lazer: r=−0,19; escore total r=−0,21, P≥0,41 para todos). Porém, observou-se associação entre a piora do estado de saúde e a redução na frequência de realização de tarefas domésticas no dia a dia (Fisher=9,09; P=0,006) (Figura 2).
Associação entre redução da frequência de realização de tarefas domésticas no dia a dia e piora do estado de saúde no subgrupo (50%).
DISCUSSÃO
Este estudo mostrou que pacientes com DPOC que foram acompanhados durante a pandemia de covid-19 não apresentaram diferença em seu estado de saúde e funcional entre o momento de isolamento social (visita 1) e após o relaxamento das medidas restritivas (visita 2). Entretanto, metade dos participantes apresentou piora do estado de saúde sem relação com o estado funcional na visita 2, mas que se associou à redução na frequência de realização de tarefas domésticas no dia a dia, confirmando parcialmente a hipótese inicial dos autores.
Sabe-se que indivíduos brasileiros com DPOC são consideravelmente menos ativos em comparação com idosos saudáveis, passando grande parte do tempo em CS13. Talvez, para esses indivíduos, as medidas de redução do contágio da covid-19 poderiam ter reduzido ainda mais as AVDs14.
Nenhum participante deste estudo contraiu covid-19 até o momento. Chu et al.15 observaram que é provável que a baixa prevalência da doença observada nessa população resulte predominantemente da proteção precoce de pacientes com DPOC em muitos países.
Até o momento de realização deste trabalho, foram encontrados poucos estudos que analisaram diretamente o efeito do isolamento social associado a essas mudanças comportamentais sobre o estado de saúde e funcional do paciente com DPOC. Dentre os estudos encontrados, Kahnet et al.16 tiveram como objetivo monitorar o impacto da pandemia de covid-19 em pacientes com DPOC na Espanha, tendo como resultado ligeiras deteriorações do estado clínico durante o período de isolamento, com adesão alta às medidas de proteção. Scarlata et al.17 observaram que os indivíduos adquiram um quadro clínico clássico associado ao isolamento geriátrico, que levava a uma deterioração das funções cognitivas, independência e níveis de fragilidade durante o período de isolamento na Itália.
Neste estudo, metade dos indivíduos apresentaram piora do estado de saúde, associando-se à redução da frequência de realização de tarefas domésticas. De fato, um estudo prévio mostrou que indivíduos com doenças respiratórias crônicas apresentaram dificuldade no manejo de AVDs durante a pandemia de covid-1918. É possível que a não associação da piora do estado de saúde com o estado funcional seja justificada pelo fato de esse aspecto ter sido avaliado por um instrumento baseado no grau de dispneia relatado para a realização de atividades19. Uma vez que esses indivíduos tenham reduzido suas atividades, a percepção da dispneia ao realizá-las pode ter sido prejudicada.
Embora metade dos indivíduos avaliados tenham sofrido uma piora no estado de saúde, a amostra geral não apresentou mudanças nesse aspecto entre os momentos de avaliação. Durante a pandemia foi observada uma redução das exacerbações respiratórias nos indivíduos com DPOC20, provavelmente resultante da diminuição da exposição a vírus respiratórios devido ao isolamento. Assim, a menor ocorrência de sintomas respiratórios nesse período deve ter se refletido em uma pontuação melhor no CAT.
Neste estudo, os indivíduos não apresentaram diferença em seu estado funcional, o que pode estar relacionado à redução das AVDs ou ao fato de terem apenas mantido a mesma frequência de realização. Além disso, com base em Souza et al.21, indivíduos que já possuam hábitos sedentários podem não relatar a limitação funcional pela inatividade.
Por fim, os achados deste estudo puderam contribuir para a avaliação dos pacientes com DPOC antes e após a liberação das restrições da pandemia, demonstrando que metade dos pacientes evoluiu com piora no estado de saúde, associada à realização de tarefas domésticas com menor frequência. Com esses achados, reforça-se a importância de incluir o uso de questionários específicos para avaliação, já que são de fácil aplicação, baixo custo, e fornecem informações a respeito da quantificação dos sintomas, da progressão da doença e do impacto dos sintomas na doença, conforme a percepção do indivíduo22.
O estudo apresentou algumas limitações, dentre as quais se ressalta a não coleta dos dados antes da pandemia, o que permitiria análises mais aprofundadas entre os diferentes momentos. Além disso, foi realizada uma seleção de amostra de conveniência de um único centro. No entanto, para amenizar o viés de seleção, todos os indivíduos foram aleatorizados, criando-se uma sequência de recrutamento de forma consecutiva. Por fim, o relato de frequência de tarefas domésticas durante a pandemia foi realizado por um questionário elaborado pelos autores sem validação prévia.
CONCLUSÃO
Em geral, indivíduos com DPOC não apresentaram mudanças no estado de saúde e funcional entre o início da pandemia de covid-19 e após o relaxamento das medidas restritivas. No entanto, metade dos indivíduos tiveram uma piora no seu estado de saúde, o que foi associado à redução na frequência da realização de tarefas domésticas cotidianas. Sendo assim, medidas que promovam a melhora do estado geral de saúde e a funcionalidade de indivíduos com DPOC após a pandemia são de suma importância para prevenir um prognóstico pior.
Declaração de Disponibilidade de Dados:
Todo O Conjunto De Dados Que Dá Suporte Aos Resultados Deste Estudo Está Disponível No Corpo Do Artigo.
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