Open-access Riscos ergonômicos e sintomas osteomusculares em docentes de uma instituição federal de educação*

RESUMO

Os transtornos mentais e musculoesqueléticos são as principais formas de adoecimento entre os docentes. O objetivo deste estudo é avaliar os sintomas osteomusculares e os riscos ergonômicos nas salas de aula e sala dos docentes nos campi do Instituto Federal Catarinense (IFC). Para isso, 112 docentes responderam um questionário online sobre informações sociodemográficas, tarefas, ambiente de trabalho e dor musculoesquelética. Os dados foram analisados por meio de regressão logística binária, separadamente para cada desfecho. A prevalência de dor foi de 93,7% e as regiões mais frequentes foram pescoço, coluna lombar e ombro direito. Os principais riscos ergonômicos foram: estresse, quina viva, mesa de trabalho, monitor e encosto da cadeira inadequados. Observou-se associação entre dor na coluna e lombar, estresse, uso do datashow, sobrepeso/obesidade, altura inadequada do monitor e cadeira sem regulagem de altura. Houve associação entre dor no pescoço, estresse, não realização de atividade física, monitor e encosto da cadeira inadequados. Foi encontrada relação entre dor no ombro direito, estresse, uso da lousa e postura em pé em sala de aula. Os resultados propõem a adaptação do trabalho para os docentes a fim de prevenir a dor e melhorar a qualidade de vida e do ensino.

Descritores:
Professor; Ergonomia; Dor Musculoesquelética; Saúde do Trabalhador

ABSTRACT

Mental and musculoskeletal disorders are the main forms of illness among teachers. This study aimed to evaluate musculoskeletal symptoms and ergonomic risk factors in classrooms and staff rooms across the campuses of the Instituto Federal Catarinense (IFC). A total of 112 teachers answered an online questionnaire about sociodemographic information, tasks, work environment, and musculoskeletal pain. Data were analyzed using separate binary logistic regression models for each outcome. The prevalence of pain was 93.7%, and the most frequent regions were the neck, low back, and right shoulder. The main workplace ergonomic risk factors were stress, sharp edges, and a poorly adjusted desk, monitor, and chair backrest. An association was observed between low back pain, stress, the use of a data projector, overweight/obesity, inadequate monitor height, and a non-adjustable chair. There was an association between neck pain, stress, lack of physical activity, and an inadequate monitor and backrest. A relationship was found between right shoulder pain, stress, blackboard use, and standing posture during teaching. Conclusions: the results support adapting the work environment for teachers to prevent pain, improving both quality of life and teaching.

Keywords:
Faculty; Ergonomics; Musculoskeletal Pain; Occupational Health

RESUMEN

Los trastornos mentales y musculoesqueléticos son las principales causas de enfermedad entre los docentes. El objetivo de este estudio es evaluar los síntomas musculoesqueléticos y los riesgos ergonómicos en las aulas y en salas de los profesores en los campus del Instituto Federal de Santa Catarina (IFC). Para ello, 112 docentes respondieron un cuestionario en línea con preguntas sobre información sociodemográfica, tareas, entorno laboral y dolor musculoesquelético. Los datos se analizaron mediante regresión logística binaria, por separado para cada resultado. La prevalencia de dolor fue del 93,7%, y las regiones más frecuentes fueron cuello, columna lumbar y hombro derecho. Los principales riesgos ergonómicos fueron estrés, borde afilado, mesa de trabajo, monitor y respaldo de la silla inadecuados. Se observó una asociación entre dolor de espalda y lumbar, estrés, uso del datashow, sobrepeso/obesidad, altura inadecuada del monitor y de la silla sin ajuste de altura. Hubo una asociación entre el dolor de cuello, estrés, falta de actividad física e inadecuados monitor y respaldo de la silla. Se encontró una relación entre el dolor en el hombro derecho, el estrés, el uso de la pizarra y la postura de pie en el aula. Los resultados proponen adaptar el trabajo para los docentes con el fin de prevenir el dolor y mejorar la calidad de vida y la enseñanza.

Palabras clave:
Docente; Ergonomía; Dolor musculoesquelético; Salud Ocupacional

INTRODUÇÃO

As inovações tecnológicas e as atuais maneiras de organização do trabalho trouxeram como consequências o surgimento de diversas formas de adoecimento, proporcionando uma maior sobrecarga emocional e musculoesquelética ao trabalhador. Estas são apontadas como as principais causas das doenças ocupacionais, consideradas um dos maiores problemas de saúde pública no mundo1. Entre os professores não é diferente, uma vez que as principais formas de adoecimento são os transtornos mentais e comportamentais, os distúrbios da voz, os distúrbios musculoesqueléticos (DME) e os problemas cardiológicos2. Em estudo com 6.510 professores da Educação Básica, a prevalência de afastamentos do trabalho por DME foi de 14,7%3, o que evidencia a importância da realização de estudos sobre as causas, repercussões e medidas de prevenção das DMEs entre os docentes.

Os distúrbios musculoesqueléticos têm causa multifatorial, e os aspectos sociodemográficos, as características individuais, o estilo de vida e as condições de trabalho são fatores que podem contribuir para o desenvolvimento ou agravamento da dor4. Os fatores de risco dos distúrbios musculoesqueléticos relacionados ao trabalho (DORT) são: compressão mecânica, força excessiva, movimentos repetitivos, duração do trabalho, posturas inadequadas e fatores individuais, como tabagismo, obesidade, fatores organizacionais e psicossociais5. Nesse sentido, observa-se que alguns desses fatores de risco podem estar associados ao comprometimento da saúde dos docentes, uma vez que, durante o trabalho, realizam movimentos repetitivos para escrever na lousa e permanecem em pé por longos períodos, além de desempenharem tarefas repetitivas, como a correção de provas e exercícios e o uso diário do computador2,6.

Nesse contexto, é necessário aprofundar o conhecimento sobre a dor musculoesquelética nos professores, explorando os mecanismos ergonômicos, ocupacionais e psicossociais do trabalho7, a fim de buscar estratégias que melhorem as condições de trabalho, prevenindo os agravos à saúde e repercutindo em melhorias na qualidade da educação8. Ações no sentido de apoiar os docentes, bem como compreender a situação problemática inserida em um contexto social, devem ser gerenciadas pela escola e por setores governamentais, promovendo o fortalecimento do professor. Dessa forma, a partir da identificação dos riscos ergonômicos e da prevalência de dor musculoesquelética, é possível adotar medidas para a adaptação dos postos de trabalho para os docentes, a fim de prevenir os sintomas de dor e melhorar a qualidade de vida e do ensino9.

Diante do exposto, verifica-se que há poucas pesquisas sobre os riscos ocupacionais e a saúde dos docentes da educação profissional, científica e tecnológica9,10. Assim, é relevante conhecer os riscos e a prevalência de dor musculoesquelética entre estes, visto que os docentes apresentam algumas características diferentes de atuação em relação aos professores do Ensino Básico e superior, pois lecionam para cursos de qualificação profissional, cursos técnicos de nível médio e na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA), cursos superiores e de pós-graduação, além de realizar atividades administrativas, de pesquisa e extensão. Desse modo, o objetivo da pesquisa foi avaliar os sintomas osteomusculares e os riscos ergonômicos nas salas de aula e na sala dos docentes nos campi do Instituto Federal Catarinense (IFC).

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo com abordagem analítica, exploratória e quantitativa, que foi realizado em 2022. A população foi composta pelos 1.006 docentes do IFC. Os critérios de exclusão foram estar afastado do trabalho e ter regime de trabalho de 20 horas, uma vez que essa menor carga horária de trabalho, restrita a um número insuficiente de docentes para ser incluída nas análises, poderia influenciar nos resultados. Os critérios de inclusão foram ser docente e assinar o termo de consentimento livre esclarecido. A seleção da amostra foi por conveniência e composta pelos 112 docentes do IFC que responderam ao questionário online, elaborado por meio do Google Forms, com perguntas sociodemográficas sobre as tarefas, os ambientes de trabalho (salas de aulas e sala dos professores) e sintomas osteomusculares. Ainda, foram incluídas figuras ilustrativas, obtidas na internet, associadas às questões relacionadas ao ambiente de trabalho, para facilitar o entendimento do questionário pelos voluntários.

Após o desenvolvimento do questionário, foi realizado um pré-teste online via Google Forms, com a participação de dez docentes do IFC campus São Bento do Sul, que foram orientados a responder o instrumento e informar os aspectos que geraram dificuldades de compreensão. Depois do retorno dos participantes, a equipe da pesquisa fez os ajustes, e a versão final do instrumento foi validada pelos respondentes do pré-teste. Em seguida, a Coordenação-Geral de Comunicação do IFC enviou por e-mail o link do questionário para todos os docentes da instituição.

Foi utilizada regressão logística binária separadamente para cada desfecho, tendo como variáveis dependentes as dores no pescoço, ombro direito e coluna lombar. Foi calculado o poder da amostra à posteriori por meio do software GPower 3.1, chegando a um β de 0,80 e um effect size de 0,50. Os dados foram analisados via software SPSS 22.0, e para todas as análises foi adotada significância de 5% (p≤0,05).

RESULTADOS

Os docentes da instituição de educação profissional, científica e tecnológica realizam aulas presenciais, além de atividades administrativas, de pesquisa e/ou extensão. Participaram da pesquisa 112 professores com média de idade de 43,8±7,5 anos. Os demais dados se encontram na Tabela 1.

Tabela 1
Estatística descritiva em frequência absoluta e relativa

A prevalência de dor foi 93,7% e a distribuição dos sintomas é apresentada na Figura 1.

Figura 1
Prevalência de dor para os sujeitos estudados (n=112)

As regiões com maior prevalência de dor foram relacionadas com as variáveis do questionário para análise estatística, e as que apresentaram relação significativa se encontram na Tabela 2.

Tabela 2
Modelos de regressão logística bruta e ajustada para as variáveis de dor no pescoço, ombro direito e coluna lombar.

DISCUSSÃO

A prevalência de dor foi de 93,7% entre os docentes. Esse resultado corrobora outras pesquisas com professores, em que foi encontrada a presença de DME em 91%11 e 82%12. As regiões com as maiores prevalências foram a coluna lombar (60,7%), o pescoço (57,1%) e o ombro direito (52,7%). Esse resultado foi semelhante ao do estudo realizado com professores universitários, em que a maior frequência de dor foi no pescoço (70%) e na região lombar (64%)13, e com docentes do ensino técnico, que apresentaram maior ocorrência de dor na coluna lombar (60%), no pescoço (56%) e nos ombros (48%)10. Com relação ao gênero, a maior ocorrência foi entre as mulheres, pois todas apresentaram DME, o que corrobora a literatura14,15 e pode ser justificado pelo fato de as mulheres assumirem a maior parte das tarefas domésticas e o cuidado com os filhos.

O estresse, a altura inadequada do monitor (borda superior do monitor não estava ao mesmo nível dos olhos dos docentes), a mesa de trabalho inadequada (mesa mais alta ou mais baixa que o nível do cotovelo), o encosto inadequado da cadeira e a quina viva foram os principais riscos ergonômicos encontrados. Esse resultado é semelhante ao da pesquisa de Kraemer et al.10, em que os principais riscos ergonômicos encontrados entre os docentes foram a presença de cantos vivos nas mesas de trabalho, o uso do touchpad do notebook e a altura inadequada da tela do computador. Com relação ao estresse, outras pesquisas também encontraram esse fator de risco entre os docentes2,9, que pode ser causado por elevada sobrecarga de trabalho, falta de controle sobre o tempo, problemas comportamentais dos estudantes, burocracia excessiva, falta de reconhecimento, implantação de novos modelos pedagógicos e dificuldade de relacionamento com os supervisores16.

A dor na coluna lombar apresentou relação positiva com os docentes que apresentaram estresse, uso do datashow, sobrepeso/obesidade, altura inadequada do monitor e cadeira sem regulagem de altura. Esse resultado corrobora a literatura que relaciona dor lombar com sobrepeso e obesidade5 e estresse17. Com relação ao uso do datashow, este pode estar relacionado ao maior tempo na postura sentada utilizando o computador para preparar as aulas, uma vez que permanecer sentado durante tempo prolongado é um dos fatores de risco para dores na coluna lombar18, pois essa posição leva à sustentação prolongada da flexão lombar e à redução da lordose nessa região, gerando sobrecarga estática nos tecidos osteomusculares da coluna, fatores que estão ligados ao desenvolvimento da dor lombar19. Outras pesquisas apontam a relação entre inadequações ergonômicas de equipamentos e mobiliários com dor na coluna lombar dos professores9,10.

A dor no pescoço estava associada aos professores que apresentaram estresse, não realização de atividade física, altura inadequada do monitor e encosto inadequado da cadeira. Esse resultado é semelhante ao encontrado na literatura, em que foi verificada a relação entre dor no pescoço com transtornos mentais comuns e baixo nível de bem-estar no trabalho7 e estresse9 entre docentes. O estresse altera os períodos de ativação muscular e provoca o aumento da tensão, levando a fadiga e dor no pescoço e ombro20. A altura inadequada do monitor faz com que os professores, durante o uso do computador, permaneçam em flexão cervical para visualizar a tela, o que aumenta a carga gravitacional sobre os músculos extensores cervicais, causando dor na região21. Ainda, a prática regular de atividade física beneficia a preservação da saúde, além de prevenir as dores músculo-esqueléticas, promovendo o bem-estar psicológico e reduzindo o estresse, a ansiedade e a depressão22.

Foi encontrada relação significativa entre dor no ombro direito e o grupo de docentes que relataram estresse, uso da lousa e postura em pé em sala de aula. Outros estudos apontam a relação entre dor no ombro e o estresse5, os transtornos mentais comuns e baixo nível de bem-estar no trabalho7 e o uso da lousa23. Quanto maior o ângulo de elevação e/ou abdução do ombro, maior o desconforto para a escrita na lousa, uma vez que há um aumento na pressão intramuscular nos músculos infraespinhoso e supraespinhoso23,24, o que pode gerar dor no ombro.

Diante desses resultados, sugere-se que a instituição realize ações de prevenção à saúde, aos riscos ergonômicos, aos sintomas de dor musculoesqueléticas e ao estresse, como adaptações ergonômicas dos mobiliários e equipamentos, adoção de posturas adequadas ao escrever na lousa e durante o uso do computador, informações sobre a importância da prática regular de atividades físicas e ações para diminuição do estresse entre os docentes. Dessa forma, acredita-se que a realização dessas ações de prevenção deve ser conduzida por um fisioterapeuta e poderá gerar melhorias na qualidade de vida dos docentes e, consequentemente, na qualidade da educação.

Os resultados desta pesquisa são limitados aos professores do IFC e, portanto, não devem ser generalizados para docentes de outras instituições. Os autores recomendam a realização de mais estudos, que analisem um maior número de professores de outras instituições de ensino.

CONCLUSÃO

Este estudo identificou os riscos ergonômicos presentes nas salas de aula e na sala dos professores do IFC, sendo os mais frequentes estresse, altura inadequada do monitor (borda superior do monitor não estava ao mesmo nível dos olhos dos docentes), mesa de trabalho inadequada (mesa mais alta ou mais baixa que o nível do cotovelo), encosto inadequado e quina viva. Além disso, foi encontrada alta prevalência de dor musculoesquelética e as regiões mais acometidas foram a coluna lombar, o pescoço e os ombros.

A partir de regressão logística binária, foi encontrada associação entre dor na coluna lombar e o grupo de docentes que apresentaram estresse, uso do datashow, sobrepeso/obesidade, altura inadequada do monitor e cadeira sem regulagem de altura. Com relação à dor no pescoço, houve associação com os professores que apresentaram estresse, não realização de atividade física, altura inadequada do monitor e encosto inadequado da cadeira. Por fim, foi encontrada relação entre dor no ombro direito e os docentes que relataram estresse, uso da lousa e postura em pé em sala de aula. Dessa forma, observa-se que o estresse foi a única variável que teve relação com os sintomas de dor nessas três regiões.

Portanto, a partir dos resultados encontrados, recomenda-se que a instituição realize ações de prevenção à saúde, aos riscos ergonômicos, aos sintomas de dor musculoesqueléticas e ao estresse, o que poderá gerar melhorias na qualidade de vida dos docentes e, consequentemente, na qualidade da educação.

AGRADECIMENTOS

Os autores gostariam de agradecer ao IFC por apoiar a realização da pesquisa, aos docentes que participaram e ao IFC campus São Bento do Sul por financiar esta pesquisa com bolsas por meio do edital nº 011/2021.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível no corpo do artigo.

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  • *
    Este estudo foi realizado no Instituto Federal Catarinense (IFC), São Bento do Sul (SC).
  • Fonte de financiamento:
    Instituto Federal Catarinense (IFC)
  • Aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto Federal Catarinense: parecer n. 58473422.6.0000.8049.

Editado por

  • Editor responsável:
    Sônia LP Pacheco de Toledo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    19 Dez 2023
  • Aceito
    24 Set 2024
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