Open-access Exercícios de pilates nos aspectos emocionais, na ansiedade e depressão de idosos: uma revisão sistemática

RESUMO

Com o aumento da expectativa de vida, a tendência é de que a população idosa aumente nas próximas décadas, trazendo consigo declínios em alguns aspectos de saúde, como nas funções físicas e emocionais. A prática regular de atividade física e exercício vem sendo associada a fatores psicológicos mais positivos da saúde mental e emocional. Visou-se realizar uma busca sistematizada da literatura para analisar os efeitos de protocolos de intervenção com exercícios de pilates sobre o estado emocional dos idosos. Este estudo é uma revisão sistemática que seguiu as recomendações do protocolo PRISMA. A qualidade metodológica dos estudos incluídos foi avaliada pela escala PEDro. As buscas foram realizadas nas bases de dados PubMed, EMBASE, CENTRAL, CINAHL, Web of Science, LILACS, SportDiscus e PEDro, e foram definidas palavras-chave disponíveis no MeSH e DeCS. Foram identificados 318 estudos, dos quais 11 foram incluídos para análise. A avaliação da qualidade metodológica demonstrou que, dos 11 ECRs incluídos nesta revisão, seis foram de alta qualidade (≥ 6 pontos). Os estudos abrangeram um total de 521 indivíduos, a maioria mulheres, com intervenções de pilates solo e em aparelhos, predominantemente de protocolos de 12 semanas, com sessões de 60 minutos. Houve significância a favor do grupo pilates em relação aos grupos-controle e exercícios aeróbios em seis estudos, e em quatro estudos o pilates não se mostrou significativo. Exercícios de pilates parecem melhorar aspectos emocionais, como ansiedade e depressão, em idosos, porém são necessários mais ensaios clínicos controlados e randomizados que investiguem esse desfecho.

Descritores:
Ansiedade; Depressão; Estado Emocional; Exercícios de Pilates; Idosos

ABSTRACT

Introduction: The increase in life expectancy will raise the number of older adults and the declines in some aspects of health (such as physical and emotional functions) even more in the coming decades. The regular practice of physical activity and exercise has been associated with more positive mental and emotional health. Objective: This systematic review aimed to analyze the effects of Pilates protocols on older adults’ emotional state. Methods: This systematic review followed the PRISMA recommendations. The methodological quality of the included articles was assessed by the PEDro scale. The following databases were searched: PubMed, BASIS, CENTRAL, CINAHL, Web of Science, LILACS, SportDiscus, and Pedro. The keywords that were available on MeSH (Pubmed) and DeCS (Health Sciences Descriptors) were used in the search strategy. Results: This review retrieved 318 articles, analyzing 11 of them. Its methodological quality assessment showed that six of the 11 chosen randomized controlled trials had high quality (PEDro score ≥ 6 points). The studies evaluated 521 individuals (most of whom were women) with mats and equipped Pilates interventions. Most articles used 12-week protocols with 60-minute sessions. This review found that, of its 11 randomized controlled trials, six obtained significant results in their Pilates groups vs. control and aerobic groups and four studies found no such relationship. Conclusion: Pilates seems to improve emotional aspects such as anxiety and depression in older adults. However, the scarcity of studies requires further controlled and randomized clinical trials to investigate this outcome.

Keywords:
Anxiety; Depression; Elderly; Emotional State; Pilates Exercises

RESUMEN

Dado un incremento en la esperanza de vida, la población anciana tiende a aumentar en las próximas décadas, lo cual conllevará deterioro en algunos aspectos de la salud, como las funciones físicas y emocionales. La práctica regular de actividad física y de ejercicio viene asociándose con factores psicológicos más positivos para la salud mental y emocional. El objetivo de este estudio fue realizar una búsqueda sistemática de la literatura para analizar los efectos de los protocolos de intervención con ejercicios de pilates sobre el estado emocional de las personas mayores. Este estudio es una revisión sistemática que siguió las recomendaciones del protocolo PRISMA. La calidad metodológica de los estudios incluidos se evaluó mediante la escala PEDro. Las búsquedas se realizaron en las bases de datos PubMed, EMBASE, CENTRAL, CINAHL, Web of Science, LILACS, SportDiscus y PEDro, y se definieron las palabras clave disponibles en MeSH y DeCS. Se identificaron 318 estudios, de los cuales 11 se incluyeron para su análisis. La evaluación de la calidad metodológica demostró que, de los 11 ECR incluidos en esta revisión, seis fueron de alta calidad (≥ 6 puntos). Los estudios abarcaron un total de 521 individuos, en su mayoría mujeres, con intervenciones de pilates en el suelo y con dispositivos, predominantemente protocolos de 12 semanas, con sesiones de 60 minutos. Se constató una significancia a favor del grupo de pilates con relación a los grupos de control y los ejercicios aeróbicos en seis estudios, y en cuatro estudios el pilates no fue significativo. Los ejercicios de pilates parecen mejorar los aspectos emocionales, como la ansiedad y la depresión, en las personas mayores, pero se necesitan ensayos clínicos más controlados y aleatorizados para investigar este resultado.

Palabras clave:
Ansiedad; Depresión; Estado Emocional; Ejercicios de Pilates; Ancianos

INTRODUÇÃO

Com o aumento da expectativa de vida no mundo todo, a tendência nas próximas décadas é de que a população idosa cresça cada vez mais. No Brasil, cerca de 13% da população tem 60 anos ou mais, e esse percentual tende a dobrar1. O processo de envelhecimento humano é universal, onipresente e inevitável, no qual cada função fisiológica está sendo continuamente diminuída, e será intimamente influenciado por experiências e comportamentos ao longo da vida, em particular por um estilo de vida saudável2.

Visto que o envelhecimento é um processo fisiológico, ele traz consigo declínios em alguns aspectos da saúde, como diminuição da função muscular, aptidão cardiorrespiratória e incapacidades. Além dos aspectos físicos, o estado cognitivo e mental também pode sofrer déficits (memória, raciocínio e atenção), e doenças como ansiedade e depressão podem surgir na população mais velha3),(4.

A prática regular de atividade física e exercício vem sendo associada a fatores psicológicos mais positivos e menor prevalência de sintomas depressivos, sendo observados efeitos benéficos em diversas condições de saúde mental2),(5. Além disso, o exercício físico apresenta tanta eficácia quanto o tratamento farmacológico, sobre o qual é importante destacar que o uso de medicamentos (antidepressivos, ansiolíticos etc.) podem estar associados a eventos adversos como quedas, fraturas, delírios e piora do comprometimento cognitivo2. Desse modo, há fortes evidências que comprovam que o treinamento físico é eficaz no manejo da saúde física e mental2-6.

Essas melhorias se dão pelo efeito fisiológico do exercício físico no organismo, visto que este atua como regulador do sistema imunológico. Durante e após a prática de atividade física são liberadas citocinas pró e anti-inflamatórias, aumentando a circulação de linfócitos, bem como o recrutamento celular, o que pode levar a inúmeras mudanças interdependentes no cérebro para produzir um ambiente protetor contra a depressão7.

Os idosos (65 anos ou mais) devem realizar atividade física regularmente, de 150 a 300 minutos de atividade física aeróbica de intensidade moderada, ou pelo menos 75 a 150 minutos de atividade física aeróbica de intensidade vigorosa, ou, ainda, uma combinação equivalente de intensidade moderada e vigorosa durante a semana. Ademais, é mais recomendável o incremento de atividade física multicomponente variada, que enfatize o equilíbrio e treino de força muscular, em intensidade moderada ou vigorosa, em três dias ou mais durante a semana8.

Dentre as diversas opções de exercício físico, o pilates é uma das formas de condicionamento físico/reabilitação que se tornou popular nos últimos anos. No Brasil, ao lado de Yoga, ginásticas e alongamentos, o pilates é a 6ª atividade física mais praticada, independentemente da idade, ficando em 2º lugar quando considerados apenas praticantes acima de 60 anos9. Trata-se de uma modalidade que trabalha o corpo como um todo, e tem como benefício a melhora de força, resistência muscular, coordenação, equilíbrio, flexibilidade e aumento da densidade mineral óssea10-11.

Em um estudo, foi demonstrado que um protocolo utilizando exercícios de pilates por 12 semanas associados à estimulação mental (dupla tarefa com memória, fala, fluência verbal, estímulos visuais e auditivos, atenção e inibição) apresentou melhorias significativas em diversos aspectos cognitivos12. Uma metanálise recente13 evidenciou que a prática regular de atividade física promove uma redução significativa dos sintomas de ansiedade em idosos, estando este método entre as intervenções utilizadas nos ensaios clínicos. Ainda em relação aos exercícios de pilates, alguns resultados individuais de ensaios clínicos14),(15 mostraram que essa modalidade é uma possibilidade de exercícios para alguns aspectos mentais. Entretanto, seus protocolos são diversos, o que dificulta uma padronização dessa intervenção.

Considerando a problemática apresentada e a escassez de informações robustas sobre estudos de revisões sistemáticas que analisam os resultados de intervenções com pilates no estado emocional de idosos, este estudo se faz necessário. Seu objetivo é promover a análise combinada das evidências existentes sobre a prática regular de pilates e seus potenciais benefícios na melhoria ou não de aspectos emocionais, como ansiedade e depressão.

Embora a literatura sobre os efeitos do pilates em idosos seja vasta, a maioria das revisões sistemáticas foca principalmente em aspectos físicos, como força, equilíbrio e flexibilidade. Assim, este estudo se distingue ao direcionar sua análise para os efeitos dos exercícios de pilates no estado emocional dos idosos, apresentando uma dimensão frequentemente negligenciada.

Além disso, o estudo se destaca pelo rigor metodológico, incluindo o registro prévio no PROSPERO, a adoção do protocolo PRISMA e uma busca abrangente em bases de dados nacionais e internacionais. Sendo assim, o objetivo é realizar uma busca sistematizada da literatura para analisar os efeitos de protocolos de intervenção com exercícios de pilates sobre o estado emocional de idosos, especificamente em níveis de ansiedade, sintomas depressivos, alterações de humor e qualidade de vida relacionada à saúde mental.

METODOLOGIA

Esta pesquisa se caracteriza como revisão sistemática, sob o registro no PROSPERO (International Prospective Register of Systematic Review) CRD42023474250. Para a realização deste estudo, foram seguidas as recomendações do protocolo PRISMA16. Para estruturação da pergunta de estudo e consequentes definições de critérios de inclusão, estruturação da busca bibliográfica, seleção dos estudos e extração dos dados foi utilizado o método PICO17 (Quadro 1). Foram considerados elegíveis estudos que tenham utilizado como intervenção exercícios de pilates e que tiveram como desfecho a avaliação dos efeitos destes no estado emocional, na ansiedade e depressão de idosos.

Quadro 1
Estratégia PICO

Critérios de inclusão e exclusão

Critérios de inclusão: (1) Ensaios Controlado e Randomizado (ECRs) que investigaram os efeitos dos exercícios de pilates sobre o estado emocional de idosos acima de 60 anos; (2) estudos em que o treinamento de pilates ocorreu por intermédio de equipamentos, acessórios ou solo; e (3) trabalhos que tiveram como desfecho primário e/ou secundário a avaliação do estado emocional de idosos. Os critérios de exclusão foram: (1) estudos com informações duplicadas em outro ECR; (2) exercícios de pilates não associados ao desfecho do estado emocional; (3) participantes que apresentavam quadro patológico grave; e (4) estudos em que os participantes não eram idosos acima de 60 anos.

Bases de dados e estratégia de busca

As buscas dos registros foram realizadas em julho de 2023 e abarcaram as seguintes bases de dados: PubMed, EMBASE, CENTRAL, CINAHL, Web of Science, LILACS, SportDiscus e PEDro. Para a estratégia de busca, foram definidas palavras-chave disponíveis no MeSH (Pubmed) e DeCS (Descritores em Ciências da Saúde), levando em consideração a estratégia PICO.

A estratégia de busca foi composta pelas seguintes palavras-chave: (“aged” OR “aging” OR “elderly” OR “elderly men” OR “elderly women” OR “older” OR “older adults” OR “older men” OR “older women” OR “older people” OR “senior”) AND (“clinical Pilates” OR “clinic Pilates” OR “equipment-based Pilates” OR “mat-based Pilates” OR “mat Pilates” OR “Pilates” OR “Pilates-based exercise” OR “Pilates exercise” OR “Pilates method” OR “Pilates training”) AND (“anxiety” OR “depression” OR “emotional state” OR “mental health” OR “psychological state” OR “well-being”) AND (“allocation “ OR “control” OR “control group” OR “controlled trial” OR “clinical trial” OR “controlled clinical trial” OR “group” OR “groups” OR “placebo” OR “randomized” OR “randomized allocation” OR “random process” OR “randomized trial” OR “randomized controlled trial” OR “study”).

Seleção dos estudos

Um revisor (LCO) realizou a estratégia inicial de pesquisa nas bases de dados, extraindo os títulos e resumos. Posteriormente, a extração das duplicatas, a seleção dos estudos, a avaliação e a extração dos dados foram conduzidas de forma independente por dois autores (BHS e JMP), com base na leitura dos títulos e resumos.

Os artigos potencialmente elegíveis foram lidos integralmente. Na sequência, dois revisores fizeram de forma cega a leitura de títulos e resumos, excluindo os trabalhos que não atendiam aos critérios de inclusão. Foi realizada uma busca manual nas listas de referências de todos os artigos elegíveis, na tentativa de encontrar novas referências.

As divergências, quando não resolvidas entre os dois pesquisadores (BHS e JMP), foram transmitidas ao terceiro (LCO), que decidiu a questão. O mesmo formulário para extração dos dados foi utilizado pelos autores.

Extração dos dados

Após a finalização da seleção dos artigos, estes foram transcritos para um quadro por ordem de publicação dos autores, constando os seguintes dados de cada estudo: (1) nome do primeiro autor e ano da publicação; (2) número de voluntários alocados em cada grupo; (3) média e desvio padrão da idade em cada grupo; (4) intervenção (alongamento estático ou dinâmico); (5) controle da intensidade do exercício; (6) equipamentos utilizados; (7) atividades realizadas por outros grupos de comparação; (8) atividades do grupo-controle; (9) instrumento de avaliação para o estado emocional; e (10) resultados reportados para o efeito do pilates no estado emocional de idosos.

Avaliação da qualidade metodológica dos estudos

A qualidade metodológica foi avaliada por dois revisores independentes utilizando a escala PEDro (Physiotherapy Evidence Database)18, que leva em consideração a validade interna e a suficiência de informações estatísticas dos estudos, e apresenta 11 questões com três itens da escala Jadad e nove itens da lista Delphi. A primeira questão não é pontuada (relacionada à validade externa do estudo), e as outras dez questões são pontuadas. Cada item que atende aos critérios exigidos recebe um ponto, possibilitando classificar cada estudo em qualidade excelente (9-10), boa (6-8), justa (4-5) ou pobre (<4). Estudos com pontuação ≥ 6 são considerados de alta qualidade.

Estado emocional e indicadores

O termo “estado emocional” diz respeito a uma condição afetiva transitória, influenciada por fatores internos, como pensamentos e memórias, e externos, como ambiente ou interações sociais. Ele é frequentemente avaliado por meio de indicadores psicológicos, tais como níveis de ansiedade, sintomas depressivos, oscilações de humor e, em alguns casos, aspectos da qualidade de vida associados à saúde mental19. Esses indicadores foram selecionados por representarem dimensões fundamentais do estado emocional frequentemente comprometidas no processo de envelhecimento, e potencialmente beneficiadas por práticas corporais como o método pilates.

RESULTADOS

Localizamos inicialmente 318 estudos possivelmente relevantes e relacionados ao tema do estudo nas bases de dados. Retiradas as duplicatas (136), foi realizada a leitura de 181 títulos e resumos, dos quais 149 foram excluídos por não atenderem aos critérios de inclusão/exclusão. Após a leitura do texto na íntegra, 18 não atenderam aos critérios de elegibilidade.

Os motivos da exclusão foram: (1) faixa etária (oito estudos); (2) desenho do estudo (quatro estudos); (3) não avaliou estado emocional (dois estudos); e (4) não foi encontrada a versão completa do estudo (dois estudos). Por fim, 11 estudos14),(15),(20-28 foram incluídos na síntese qualitativa desta revisão sistemática. O diagrama de fluxo PRISMA ilustra os eventos de identificação, triagem e inclusão (Figura 1).

Os ensaios clínicos randomizados e controlados incluídos nesta revisão sistemática (Quadro 2) foram publicados entre 2013 e 202223),(15 e abrangem um total de 521 indivíduos, variando entre idosos do sexo feminino e masculino. Somente um estudo incluiu ambos os sexos20, enquanto dez estudos incluíram apenas mulheres em suas amostras14),(15);,(21-28. O estudo contou com quatro autores do Irã15),(22),(25),(26, quatro autores do Brasil22),(24),(25),(26, um autor da Espanha14, um autor de Portugal21 e um outro autor do México20.

A média de idade variou de 61,47±1,55 a 70,23±5,9 anos15),(23.Quanto às intervenções, houve uma variação de oito 15),(26),(28 a 24 semanas22, sendo 12 semanas a quantidade mais frequente. Sobre os protocolos de pilates, apenas um estudo aderiu além do pilates solo, utilizando os aparelhos Cadillac, Reformer e Chair22.

A frequência semanal para as intervenções variou de duas14),(19),(22),(24),(25),(28 a três20),(15),(23),(24),(26),(27, com tempo mínimo de 30 minutos por sessão21 e máximo de 60 minutos, sendo este tempo observado na maioria dos estudos14),(23-26.

Os estudos analisados relataram a aplicação do método pilates de forma presencial, sendo realizado em grupo e com supervisão profissional. Dois estudos utilizaram outros grupos de intervenções, sendo aula de atividade aeróbica em que a frequência cardíaca era mantida de 60% a 70% e treinamento resistido((27-28. Seis estudos descreveram que o grupo-controle manteve sua rotina habitual15),(20-23),(27. Cinco grupos forneceram outras condutas, sendo elas realização de exercícios de alongamentos estáticos ativos24 e atividades recreativas e cognitivas variadas25. Um grupo preencheu um questionário para participar do programa de treinamento de prevenção de câncer e doenças26, e dois outros estudos realizaram palestras e orientações sobre manter atividades habituais e não realizar atividade física14),(28.

A avaliação do estado emocional contou com a aplicação de questionários que consideravam os aspectos e domínios relacionados ao estado emocional. Dos 11 estudos incluídos, quatro utilizaram o questionário SF-36 e avaliaram o desfecho da qualidade de vida, incluindo saúde mental e aspectos emocionais 22),(24),(25),(28, enquanto dois estudos utilizaram o General Health Questionnaire (GHQ) para avaliar a saúde mental em geral21),(28.

Dois estudos utilizaram a -Escala hospitalar de ansiedade e depressão (HADS), nos quais foi avaliado o índice de ansiedade e depressão14-15. O WHOQOL-BREF esteve presente em dois23-25 estudos, e sua variação, WHOQOL-OLD, foi utilizada por um estudo25. Além desses questionários, foi utilizado Inventário Oxford Happiness.25 e o Beck Depression Inventory26, por meio do qual foi analisado o desfecho felicidade e depressão, bem como o Profile of Mood States (POMS)20, para avaliar o estado de humor, e a Escala de Depressão Geriátrica (GDS)23, usada para a avaliação de depressão.

Quanto aos resultados reportados, cinco estudos obtiveram resultados positivos intergrupo quando comparados exercícios de pilates ao grupo-controle14),(20),(21),(23),(26, ao passo que um estudo apresentou melhora intragrupo a favor do grupo pilates em relação ao grupo que praticou exercícios aeróbicos27. Em outro estudo, o pilates não demonstrou significância quando comparado ao grupo que realizou o treinamento muscular25, e quatro estudos não apresentaram melhora a favor do pilates quando comparado ao grupo-controle15),(22),(24),(28. Por fim, a avaliação da qualidade metodológica (Tabela 1) demonstrou que, dos 11 estudos incluídos na revisão sistemática, seis foram de alta qualidade (escore PEDro ≥ 6 pontos).

Figura 1
Diagrama de Fluxo Prisma, ilustrando as fases de identificação, triagem e inclusão dos estudos na revisão sistemática (Jacarezinho, Paraná, Brasil, 2023)

Quadro 2
Caracterização e resultados dos artigos incluídos na revisão sistemática
Tabela 1
Pontuação dos artigos incluídos na escala PEDro

DISCUSSÃO

O objetivo deste estudo foi verificar os efeitos dos exercícios de pilates sobre o estado emocional de idosos, bem como os protocolos utilizados nos estudos e a efetividade dos resultados. A qualidade metodológica dos 11 estudos presentes nesta revisão variou de 4 a 8, sendo 8 a pontuação máxima atingida, devido ao fato de não ser possível, em estudos envolvendo exercícios físicos, cegar os participantes e o profissional que aplica as intervenções. A qualidade metodológica dos 11 estudos apresentou uma média de 6 pontos na escala PEDro.

Apenas cinco estudos relatam melhorias intergrupos a favor do pilates, quando comparado ao grupo-controle, sendo um para depressão e felicidade, um para depressão e saúde mental em geral, um para ansiedade e depressão e dois apenas para depressão. Em outro estudo, houve melhora a favor do pilates na comparação intragrupo. Nossa hipótese em relação a esses resultados é que alguns estudos possivelmente não tenham cobrado de maneira precisa os princípios dos exercícios de pilates durante as intervenções, sendo este um ponto fundamental para a conexão corpo e mente. Um princípio que se mostra essencial para o controle emocional é o da respiração intencional, visto que ela ativa o controle do ritmo cardíaco, a autoconsciência e a autorregulação das emoções, ajudando no controle de situações de pânico e crises de ansiedade29.

Embora nossos achados sejam modestos, as melhorias observadas são consistentes com os resultados de uma recente metanálise, que buscou analisar a eficácia do pilates em mulheres com sintomas de ansiedade e depressão, e obtiveram efeitos favoráveis na redução desses sintomas. Além disso, os autores concluiram que, quanto maior a duração do treino de pilates, melhores são os efeitos na redução dos sintomas de ansiedade e depressão no sexo feminino30.

Esses achados reforçam as informações de que a prática de exercício físico é fundamental e contribui para a redução de sintomas emocionais negativos, como mostra um estudo31 que argumenta que, além das terapias medicamentosas para melhora da ansiedade e depressão, tem-se sugerido outras formas de tratamento, entre elas a prática regular de exercício físico, que, em vários casos, tem efeitos similares ao uso de remédios e terapias. Em aspectos fisiológicos, temos o aumento no transporte de oxigênio para o cérebro, a síntese e a degradação de neurotransmissores, a liberação de serotonina e a diminuição da viscosidade sanguínea32. De acordo com uma pesquisa33 que buscou verificar o risco de doenças cardiovasculares relacionadas ao estresse, a realização de exercícios físicos pode estar ligada à melhoria de diversos fatores de crescimento, como o fator neurotrófico cerebral (BDNF), que medeia efeitos protetores e terapêuticos da depressão, estabelecendo uma ótima forma de prevenção, além de auxiliar no combate à doença.

Visto que, em uma parcela dos estudos analisados nesta revisão sistemática, o pilates possibilitou melhora dos aspectos emocionais - ansiedade e depressão - dos participantes, é importante destacar essa modalidade de exercício, cujo método contribui diretamente para a manutenção corporal, melhora das capacidades físicas, aperfeiçoamento de habilidades, possibilita trabalhar o corpo de forma global, corrige alterações posturais e realinha a musculatura, desenvolvendo estabilidade corporal, força e equilíbrio postural34. Além disso, melhora o quadro álgico dos pacientes, com impacto positivo na saúde física, mental e na longevidade dos idosos, sendo que no Brasil9, ao lado do Yoga, ginástica e exercícios de alongamentos, o pilates é a 6ª atividade física mais praticada pela população, independentemente da idade, ficando em 2º lugar quando considerados especificamente praticantes acima de 60 anos9.

Ainda, em relação aos efeitos do pilates sobre os aspectos mentais, um estudo sugeriu que o treinamento nessa modalidade poderia melhorar os aspectos emocionais, diminuindo a depressão e a ansiedade15. Isso pode ser explicado devido à liberação e aumento de hormônios elevando os níveis de β-endorfina durante o exercício35. Além de tudo, é importante lembrar que o pilates comumente é praticado em ambiente tranquilo, e geralmente em grupo, o que proporciona contato social e estabelecimento de relacionamentos durante as intervenções, possibilitando uma maior aceitação e adesão da prática e, consequentemente, auxílio para a saúde mental10.

No entanto, quando realizamos a busca sistematizada na literatura por estudos que utilizam pilates com a população idosa, apenas 11 de 180 artigos encontrados avaliaram os aspectos emocionais. Isso mostra que a saúde mental é algo a que poucos profissionais estão atentos ao realizarem um tratamento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente ausência de doença”. Dessa forma, a saúde vai além das questões físicas, envolvendo também aspectos emocionais8.

Estando a saúde envolvida não apenas em questões físicas, é necessário uma avaliação biopsicossocial que busque compreender o paciente de maneira abrangente, considerando diferentes aspectos de sua vida, incluindo o emocional. Essa abordagem integrativa leva em conta fatores biológicos, psicológicos e sociais, permitindo a interação complexa entre essas dimensões. Isso porque fatores como estado emocional, ansiedade e depressão em idosos, embora muitas vezes subestimados e associados ao envelhecimento, têm grande impacto na qualidade de vida dessa população36.

A prevalência desses transtornos em idosos, principalmente a depressão, ocorre com maior frequência em comparação a outras faixas etárias. De acordo com a Secretaria Nacional da Família, idosos entre 60 e 64 anos representam 13,2% da faixa etária mais afetada pela depressão, enquanto jovens e adultos representavam apenas 5,9%. Muitos idosos enfrentam desafios emocionais, especialmente relacionados às mudanças na saúde, à saída do mercado de trabalho, redução de contato social, perda de entes queridos e solidão, estando predispostos a déficts emocionais, que podem levar à depressão37.

Esses sintomas emocionais e mentais podem estar associados a outras doenças, como mostra uma revisão sistemática com metanálise38 que aponta a correlação entre sarcopenia e depressão, sendo observado que a depressão está relacionada com baixa força e função muscular esquelética; os resultados mostram que a prevalência de depressão foi elevada em pacientes com sarcopenia. Sendo assim, a prática regular de exercícios, além de trazer benefícios para a força muscular de indivíduos com sarcopenia, vem sendo associada a benefícios psicológicos relacionadosà depressão2),(38.

Quanto a esses aspectos emocionais e psicológicos, é importante analisar as escalas avaliativas a fim de identificar quais instrumentos seriam ideiais para tais desfechos. A utilização de escalas ou questionários específicos é um fator importante, pois podem interferir na interpretação dos desfechos. Embora os estudos incluídos nesta revisão sistemática tenham utilizado instrumentos direcionados ao estado emocial, outras escalas estão disponíveis na literatura, como a Perceived Stress Scale (PSS)39 e a Subjective Happiness Scale- SHS40, que investigam níveis de estresse individual e níveis de felicidade subjetiva, respectivamente. Entretanto, apenas a Escala de Depressão Geriátrica (GDS) e WHOQOL OLD são específicas para avaliação do estado emocional em idosos. Desse modo, estudos futuros devem se atentar à utilização desses instrumentos específicos para avaliação da saúde emocional de idosos, bem como na prática clínica, para uma melhor mensuração desse desfecho.

Em resumo, o pilates parece ser uma possibilidade de exercício para redução dos sintomas de ansiedade e depressão por promover efeitos positivos na saúde mental de idosos, ainda que não exista, até o momento, uma padronização da dosagem ideal, ou protocolos de exercícios utilizados para essa finalidade. Assim, os resulados deste estudo devem ser interpretados com cautela, principalmente pelo fato de que essas melhorias foram obervadas em aproximadamente metade dos estudos incluídos nesta revisão (45,5%).

As limitações desta revisão foram a falta de análise do nível de evidência dos estudos, bem como a análise quantitativa de dados. Por outro lado, os pontos fortes deste estudo estão relacionados principalmente à sistematização das buscas, em que não foi utilizado filtro ligado ao idioma nem ao ano de publicação dos ensaios. Outro ponto forte é o fato de ser a única revisão, até o momento, que buscou verificar se os exercícios de pilates podem contribuir para a redução de aspectos emocionais, ansiedade e depressão de idosos, analisando especificamente ensaios controlados e randomizados. Por fim, é importante salientar que os achados deste estudo nos dão a possibilidade de levar os resultados para a prática clínica, o que permite aos profissionais de fisioterapia, enfermagem e professores de educação física potencializar o tratamento de idosos que apresentam comprometimento dos aspectos emocionais.

CONCLUSÃO

Exercícios de pilates parecem melhorar aspectos emocionais em idosos, como ansiedade e depressão, entretanto é preciso ter cautela com essa informação, devido ao baixo número de estudos que buscaram analisar esses desfechos. Dessa forma, sugere-se que mais ensaios controlados e randomizados, com alta qualidade metodológica, sejam realizados, buscando verificar os aspectos emocionais associados ao exercício de pilates e, portanto, contribuir com essa temática.

Declaração de Disponibilidade de Dados:

todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível no corpo do artigo.

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  • Fonte de financiamento:
    nada a declarar
  • 8
    Registro PROSPERO CRD42023474250

Editado por

  • Editor responsável:
    Sônia LP Pacheco de Toledo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Jan 2024
  • Aceito
    03 Jun 2025
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