Capacidade para o trabalho e saúde: o que pensam as trabalhadoras da indústria de vestuário

Capacidad para el trabajo y salud: que piensan las trabajadoras de la industria de vestimenta

Viviane Gontijo Augusto Rosana Ferreira Sampaio Lorena Magda Ferreira Renata Noce Kirkwood Sobre os autores

Resumos

Este estudo objetivou conhecer como as mulheres que atuam na indústria do vestuário em Divinópolis, Minas Gerais, entendem e relacionam os constructos capacidade para o trabalho e saúde. Utilizou-se metodologia qualitativa com análise dos depoimentos ancorada na teoria das representações sociais. Os resultados apontaram que a capacidade para o trabalho depende de fatores como capacitação, suporte social, exercício da profissão a domicilio, satisfação com o trabalho, saúde e envelhecimento. Além disso, ela sofre muitas influências externas ao trabalhador, que, por sua vez, precisa constantemente se adaptar às mudanças ocorridas. Os resultados evidenciaram a necessidade de reflexão sobre o papel das condições de trabalho e emprego, da rigidez organizacional e da perda de controle sobre o trabalho, na saúde e na capacidade para o trabalho das mulheres atuantes na indústria do vestuário.

mulheres; saúde do trabalhador; indústria têxtil


Este estudio buscó conocer como las mujeres que actúan en la industria de la vestimenta en Divinópolis, Minas Gerais, entienden y relacionan los constructos capacidad para el trabajo y salud. Se utilizó metodología cualitativa con análisis de las declaraciones apoyado en la teoría de las representaciones sociales. Los resultados señalaron que la capacidad para el trabajo depende de factores como capacitación, soporte social, ejercicio de la profesión a domicilio, satisfacción con el trabajo, salud y envejecimiento. Además de eso, ella sufre muchas influencias externas al trabajador, que, a su vez, precisa constantemente adaptarse a los cambios ocurridos. Los resultados evidenciaron la necesidad de reflexión sobre el papel de las condiciones de trabajo y empleo, de la rigidez organizacional y de la pérdida de control sobre el trabajo, en la salud y en la capacidad para el trabajo de las mujeres actuantes en la industria de la vestimenta.

mujeres; salud del trabajador; industria textil


This study investigated how women operating the garment industry in Divinópolis, Minas Gerais, understand and relate to the perception of work ability and health. We applied qualitative methodology to analyze their statements on the basis of social representations theory. The results suggested that work ability depends on factors such as training, social support, profession at home, job satisfaction, health and aging. Furthermore, it is affected by many influences external to the worker, who in turn, must constantly adapt to changes. The results highlighted the need for reflection on the role of working conditions and employment, organizational rigidity and loss of control over work, in health and work ability of operators in the garment industry.

women; occupational health; textile industry


PESQUISAS ORIGINAIS

Capacidade para o trabalho e saúde: o que pensam as trabalhadoras da indústria de vestuário

Capacidad para el trabajo y salud: que piensan las trabajadoras de la industria de vestimenta

Viviane Gontijo AugustoI,III; Rosana Ferreira SampaioII,V; Lorena Magda FerreiraIII; Renata Noce KirkwoodIV,V

IUniversidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – Belo Horizonte (MG), Brasil

IIUniversitat Autònoma de Barcelona (UAB) – Barcelona, Espanha

IIIFundação Educacional de Divinópolis da UEMG – Divinópolis (MG), Brasil

IVQueen's University – Kingston, Canadá

VPrograma de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação da UFMG – Belo Horizonte (MG), Brasil

Endereço para correspondência

RESUMO

Este estudo objetivou conhecer como as mulheres que atuam na indústria do vestuário em Divinópolis, Minas Gerais, entendem e relacionam os constructos capacidade para o trabalho e saúde. Utilizou-se metodologia qualitativa com análise dos depoimentos ancorada na teoria das representações sociais. Os resultados apontaram que a capacidade para o trabalho depende de fatores como capacitação, suporte social, exercício da profissão a domicilio, satisfação com o trabalho, saúde e envelhecimento. Além disso, ela sofre muitas influências externas ao trabalhador, que, por sua vez, precisa constantemente se adaptar às mudanças ocorridas. Os resultados evidenciaram a necessidade de reflexão sobre o papel das condições de trabalho e emprego, da rigidez organizacional e da perda de controle sobre o trabalho, na saúde e na capacidade para o trabalho das mulheres atuantes na indústria do vestuário.

Descritores: mulheres; saúde do trabalhador; indústria têxtil.

RESUMEN

Este estudio buscó conocer como las mujeres que actúan en la industria de la vestimenta en Divinópolis, Minas Gerais, entienden y relacionan los constructos capacidad para el trabajo y salud. Se utilizó metodología cualitativa con análisis de las declaraciones apoyado en la teoría de las representaciones sociales. Los resultados señalaron que la capacidad para el trabajo depende de factores como capacitación, soporte social, ejercicio de la profesión a domicilio, satisfacción con el trabajo, salud y envejecimiento. Además de eso, ella sufre muchas influencias externas al trabajador, que, a su vez, precisa constantemente adaptarse a los cambios ocurridos. Los resultados evidenciaron la necesidad de reflexión sobre el papel de las condiciones de trabajo y empleo, de la rigidez organizacional y de la pérdida de control sobre el trabajo, en la salud y en la capacidad para el trabajo de las mujeres actuantes en la industria de la vestimenta.

Palabras clave: mujeres; salud del trabajador; industria textil.

INTRODUÇÃO

O número de mulheres no mercado de trabalho segue aumentando, e já atinge 40% da classe trabalhadora em diversos países. O trabalho feminino é, com frequência, restrito a atividades manuais, repetitivas e monótonas, o que demonstra que esta fatia da população é incorporada ao mercado de maneira desigual, o que decorre da divisão social e sexual do trabalho1.

No Brasil, um setor ocupado quase que exclusivamente por mulheres é a indústria do vestuário, que se destaca na economia do país por estar presente em quase todos os estados gerando emprego e renda2. Parte das mulheres que trabalham na indústria do vestuário, conhecidas como faccionistas, são subcontratadas, prestam serviço em seu próprio domicílio e são remuneradas por produção. Esta configuração de emprego precário foi uma estratégia adotada por diversas empresas para reduzir custos ao contornar obrigações tributárias e trabalhistas3.

Seguindo uma tendência nacional, o número de empresas de médio e grande porte reduziu. Em 2008, na região Centro-Oeste de Minas Gerais, havia mais de 3 mil empresas de micro e pequeno porte, sendo que cerca de 600 delas se instalaram em Divinópolis, que passou a ser reconhecida como polo confeccionista. O grande número de indústrias do vestuário na cidade favoreceu à inserção da mulher no mercado, porém de maneira precária, marcada por baixos salários e pela intensificação do ritmo de trabalho, levando mais facilmente ao adoecimento destas trabalhadoras4.

Estudos recentes procuram esclarecer os fatores relacionados ao trabalho e ao contexto econômico que poderiam ser causas do adoecimento e da redução da capacidade para o trabalho (CT). Na saúde ocupacional, CT resulta do equilíbrio entre recursos pessoais e ambientais, não podendo ser separada da vida fora do trabalho, pois pode variar em função de fatores como cuidados domésticos e com a família, principalmente entre as mulheres5-7.

O objetivo deste estudo foi investigar o sentido do constructo CT e a sua relação com a saúde, na perspectiva das mulheres trabalhadoras da indústria do vestuário do município de Divinópolis, em Minas Gerais.

Este trabalho está ancorado na teoria das representações sociais, que são modalidades de conhecimento cuja função é a produção de comportamentos e a comunicação de indivíduos. O conhecimento é elaborado a partir de um conteúdo simbólico e prático e, para ser considerado representação social, deve fazer parte da vida cotidiana das pessoas por meio do senso comum8.

METODOLOGIA

Foram realizadas entrevistas abertas no período de outubro de 2010 a maio de 2011 tendo como base o tema "Para você, o que é capacidade para o trabalho e que relações apresenta com a sua saúde?", que serviu de eixo para a interlocução.

A seleção das participantes foi feita a partir de informantes-chave e o número de entrevistas foi definido pelo critério de saturação das informações. Considerou-se saturação a constatação do momento de se interromper a coleta de dados tendo em vista que novas informações tornaram-se raras9.

As trabalhadoras foram contatadas por telefone ou pessoalmente a partir da indicação de colegas. As entrevistadas aconteceram em domicílio após elas serem informadas sobre os objetivos e métodos usados na pesquisa. Todas as entrevistas foram gravadas, transcritas e enviadas para confirmação posterior. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Fundação Educacional de Divinópolis da Universidade Estadual de Minas Gerais (FUNEDI/UEMG) sob parecer nº 30/2010, e as participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

A análise teve iniciou com uma imersão no conjunto de informações coletadas, procurando deixar aflorar os sentidos, sem encapsular os dados em categorias ou tematizações a priori. Em seguida, foram criados mapas de associações de ideias com a definição de categorias gerais que refletiam as representações sociais das trabalhadoras sobre CT e sua relação com a saúde.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Caracterização das participantes

Participaram do estudo 17 trabalhadoras com idade entre 19 e 54 anos, sendo nove delas casadas e com pelo menos um filho. Cinco mulheres haviam concluído o ensino fundamental e o restante tinha ensino médio completo ou incompleto. Dez participantes trabalhavam em 3 empresas e 7 em seu domicilio, e o tempo de atuação no setor de vestuário variou de 1 a 30 anos.

Após a análise inicial dos depoimentos, as categorias identificadas foram divididas nos cinco temas, discutidos com base na literatura e nas falas das participantes que receberam nomes fictícios para preservar suas identidades.

Capacitação/qualificação

Para as mulheres deste estudo, o sentido de CT está ligado à capacitação da trabalhadora para executar sua tarefa e a qualidade do serviço prestado.

Ah! Eu acho que capacidade é assim: a gente tem que tá procurando saber mais, mais informação, pra ter mais capacidade; precisa fazer cursos. (Janice, 26 anos).

Em um primeiro momento, o que se mostra é o entendimento do constructo "capacidade para o trabalho" apoiado nas competências e habilidades profissionais e afastado de aspectos biológicos. Ainda que tenha sido apontado o impacto negativo da idade, há o reconhecimento de que pode ser amenizado pela experiência profissional.

A gente vai com o tempo perdendo a capacidade. Eu já não acompanho mais a mocidade, tipo assim: uma menina de 25 anos com a energia que ela tem. Mas em matéria de fazer a perfeição, eu não tenho medo, eu acho que eu acompanho qualquer uma. Eu acho assim: se fulano deu conta de fazer, eu também dou. (Bernadete, 47 anos).

A capacidade para o trabalho não depende somente de características individuais, tais como idade ou saúde, mas também do tipo de atividade executado. Estudos relacionados à CT têm demonstrado que apesar de a idade ser um aspecto importante na sua redução, isto pode ser modificado por outros fatores, como a atividade exercida e a experiência profissional8,9.

A participante do estudo Ana explicita o reconhecimento de que a oportunidade de se capacitar é um forte preditor para sustentar a CT e que o tempo de profissão é importante para aprender, evoluir e melhorar a capacidade para o trabalho.

Capacidade para o trabalho é evolução, né? Por que eu tô sempre evoluindo através do tempo de serviço que tenho... e eu tenho muitos anos de profissão. (Ana, 37 anos).

Assim, a avaliação da CT envolve capacidades objetivas e subjetivas, sendo que a subjetiva consiste na concepção do próprio trabalhador sobre o seu desempenho nas tarefas do trabalho, ou seja, a crença do trabalhador no que ele pode fazer exerce influência no uso do seu potencial de capacidade objetiva, como força ou resistência física10.

Sabe-se que no processo de industrialização o trabalhador perdeu o controle sobre as suas atividades, as solicitações de seu corpo, o tempo e as condições de execução das tarefas, restando apenas a sua qualificação e experiência no desenvolvimento da atividade para diferenciá-lo11. Levando esta afirmação em conta, pode-se considerar que existe inconsistência com relação ao foco das intervenções para a manutenção da CT, já que este quase sempre é dirigido para a melhora da capacidade funcional individual, desconsiderando fatores relativos ao trabalho e às relações interpessoais.

Suporte social

As costureiras destacaram que o relacionamento no trabalho pode refletir de maneira positiva ou negativa na CT dependendo de como estas relações interpessoais são estabelecidas.

Eu pedi conta porque eu não suportei, eu não suportei alguns funcionários lá dentro, algumas costureiras. Achei errado demais o jeito da chefe tratar as pessoas lá dentro. Sabe como ela falava: 'se vocês não estão satisfeitas aqui, vaza! Se manda! Vão se ferrar!' Isso é um absurdo! (Bernadete, 47 anos).

O psicológico da gente, porque quando a gente fica de férias 30 dias em casa a gente fica doida pra voltar a trabalhar, pra conversar com as colegas, pra saber como anda, porque uma vai e conta caso da família, conta seus problemas, então a gente conforma com muita coisa, as experiências que a gente vai ganhando, adquirindo e isso ajuda muito na vida gente. (Regina, 46 anos).

O suporte parece funcionar como agente protetor frente ao risco de doenças induzidas por estresse12. Por outro lado, a percepção de falta de suporte no ambiente de trabalho tem sido apontada como forte preditor de afastamento por doença. Vale mencionar que a maneira como o trabalhador percebe o suporte organizacional é influenciada pela frequência, intensidade e sinceridade das expressões de elogios, além do enriquecimento das tarefas e da possiblidade de interferência nas políticas da organização13.

As relações que se estabelecem no trabalho moldam as percepções dos empregados acerca do tratamento a eles dispensado e são fundamentais para sustentar, ou não, a noção de que o suporte no trabalho pode contribuir para promover o bem-estar. Deste modo, o suporte social aparece como mediador na proteção à saúde, e isto foi reafirmado pelas trabalhadoras entrevistadas. No entanto, cabe ressaltar que o grau de associação entre saúde e suporte social não pode ser analisado de forma isolada, pois depende das circunstâncias, da população estudada e das medidas usadas para avaliar este indicador13.

Satisfação com o trabalho

As percepções e experiências do operário podem influenciar a saúde, o desempenho e a satisfação com o trabalho, que, por sua vez, é um fenômeno complexo, de difícil definição, variável entre pessoas, circunstâncias e ao longo do tempo, e ainda está sujeita a influências de fatores internos e externos ao trabalho13.

Neste estudo, a satisfação com o trabalho está associada às diferenças entre a atuação em domicílio e nas empresas. Assim, as faccionistas tendem a não se sentirem satisfeitas devido à sazonalidade da oferta de serviço:

Ah! Eu não dou muita importância pro meu trabalho, não. Porque agora tá muito fraco, quase num tá tendo serviço, tá tendo muitas concorrentes, tanto é que tô querendo mudar de profissão. (Ana, 37 anos).

Por outro lado, entre as trabalhadoras que estão nas empresas, a causa de não satisfação parece ser a rigidez da organização, principalmente o controle sobre o tempo e postura.

As coisas que mais me incomodam é ficar o dia inteiro sentada, não ter como sair. (Marina, 20 anos).

A satisfação de uma pessoa com o seu trabalho depende do sentido que ela encontra na função exercida e do sentimento de responsabilidade em relação ao seu desempenho. Este, por sua vez, está relacionado à maneira como a organização oferece mecanismos de feedback. Na situação analisada, eles parecem se limitar à compensação salarial. Ainda que fundamental para a sobrevivência, a questão financeira só contribui para a satisfação se vier acompanhada de reconhecimento profissional14.

Eu gosto de fazer coisas bonitas assim (trabalhar com moda). Gosto de coisa nova. Cada dia você descobre uma coisa nova, uma maneira nova de fazer. Eu já trabalhei em uma fábrica e era muito cansativo, só no jeans, só presponto e pregar bolso, muito cansativo...

Lá é um serviço diferenciado. Cê nunca faz um modelo só. Sempre tem que fazer modelos diferentes, então isto é trabalhoso, mas o patrão compensa no salário, ninguém reclama. A gente gosta do que faz e é satisfeita. (Regina, 46 anos).

As trabalhadoras também consideraram como preditores de boa CT o desenvolvimento de habilidades e o prazer associado à atividade laboral. Neste caso, habilidade pode ser entendida como capacidade de realizar uma tarefa ou um conjunto de tarefas em conformidade com os padrões exigidos pela organização e caracterizada pelo saber adquirido, aprendido e transmitido.

Trabalho em domicílio

As sete mulheres entrevistadas que trabalham como faccionistas já estiveram formalmente vinculadas a uma empresa. Os principais motivos que as levaram a deixar o emprego formal foram a vontade de trabalhar sozinhas e o cuidado com a família.

Surgiu um imprevisto, meu menino adoeceu, aí tive que ficar com ele no hospital. Depois fiquei com ele em casa, aí saí da firma, entendeu? (Bernadete, 47 anos).

Uma vez que o trabalho é realizado no próprio domicílio, o espaço doméstico passa a ter dupla significação: local de trabalho e de descanso familiar, sendo que este último não é respeitado pela clientela, que impõe prazos rígidos e faz com que o tempo dedicado ao trabalho invada os horários de refeições, lazer e descanso15. Ainda assim, algumas trabalhadoras encontram vantagens neste tipo de trabalho, como, por exemplo, a falta de horários fixos.

Como eu faço facção, eu posso parar o horário que eu tiver que parar. Eu consigo ter essa mobilidade para sair, voltar à noite... então, não ter horário fixo é o que mais me agrada. (Luana, 28 anos).

Se por um lado o ritmo do trabalho pode ser menos acelerado do que na empresa, uma vez que é a trabalhadora quem faz o controle, por outro, ela tende a prolongar a jornada para cumprir os prazos impostos pelas empresas contratantes, o que acarreta sobrecarga física e emocional.

O tipo de trabalho em questão é definido como a produção de bens ou serviços feita por um indivíduo no seu domicílio, ou em lugar de sua escolha, em troca de salário, sob a especificação de um empregador ou intermediário15. Esta definição enfatiza a subordinação do trabalhador na relação contratante e contratado. O fato é que ainda que a atuação no domicílio ofereça a oportunidade de conciliação entre cuidado com a família e trabalho remunerado, as mulheres reconhecem que ele pode gerar maior desgaste.

Facção desgasta mais. Eu tava trabalhando na facção com a minha irmã e emagreci. Cê vai naquele ritmo e esquece de comer, de beber água. Cê ganha mais, mas trabalha muito mais. Na fábrica, a gente tem horário; na facção, trabalha o triplo. (Maria, 24 anos).

A facção exige muito, exige perfeição! Mas o salário tá defasado, porque aumenta linha, aumenta energia e o valor da facção não aumenta. O valor que eu ganho hoje com a facção é o valor que eu ganhava há seis anos. De seis anos pra cá, energia e linha aumentou quanto? Então é onde cê trabalha... Às vezes os outros falam assim: 'como cê trabalha à noite? Cê num pode trabalhar à noite'. Se você não trabalhar à noite não consegue trabalhar pra pagar a linha que gasta. Porque à noite tá tudo sossegado... ai eu trabalho até às 11 horas da noite! Mas é pra compensar! (Bernadete, 47 anos).

A atuação das faccionistas implica em costurar as peças que já vêm cortadas da indústria na máquina de sua propriedade, e algumas características conformam esta atividade: baixa remuneração, ganho por peça produzida, ausência de seguro social e insegurança no trabalho. Estes atributos, aliados ao compromisso com parte do custo da produção, exigem que as trabalhadoras assumam longas jornadas, aumentando a exposição aos riscos de adoecer e, em alguns casos, resultando em aposentadoria por incapacidade4,15.

Saúde e envelhecimento

As entrevistadas, de alguma maneira, relacionaram a CT à saúde e ao envelhecimento.

Para manter a capacidade cê precisa ficar nova pra sempre, num envelhecer, não adoecer, tá sempre de bem com a vida. Num posso afirmar que tô sempre capaz porque não é todo dia que tô bem. (Maria, 24 anos).

A relação entre saúde e CT ainda vem sendo discutida, pois baixa CT e o afastamento do trabalho não dependem exclusivamente da ocorrência de doenças, mas da percepção que o indivíduo tem sobre sua saúde e de fatores como as demandas do trabalho e as possibilidades de enfrentá-las.

No caso das trabalhadoras indicadas neste estudo, o fato de ter um emprego formal na indústria ou de atuar como faccionista parece interferir na relação entre saúde e CT.

Amanhã se eu cair na cama e aí... 'oh! eu não consigo trabalhar mais pra você esse mês e eu preciso de um remédio'. Não quer nem saber, ali na esquina tem outra faccionista, eu pego outra... Todo dia fecha uma empresa; todo dia tem quatro, cinco, até dez costureiras aí na rua querendo trabalhar por conta própria. Aí aquelas que não sabem tiram o lugar das que sabem porque os donos de fábrica tão procurando é quem faz por um real. Eu não aconselho moça de 18 anos, de 20 anos a trabalhar de faccionista. O que agora tá brotando demais... chega no final, como diz uma amiga minha: vai morrer cega, corcunda e pobre! (Bernadete, 47 anos).

Destacam-se a desvalorização e a insegurança do trabalho informal que conformam o quadro de desigualdades em saúde no país, gerando acesso diferenciado da população aos serviços e cuidados desta área. É consenso que o desemprego e a informalidade estão ligados às piores condições de saúde15.

O envelhecimento tem reflexo na composição etária da população economicamente ativa. A saúde e os indicadores de mobilidade e autonomia são fatores preditivos da permanência na vida ativa em idades mais elevadas. No entanto, o que se observa é que a relação entre CT e saúde é mediada por outros fatores externos ao trabalhador, como o tipo de atividade exercida ou a relação de emprego estabelecida entre empregado e empregador16,17.

No setor do vestuário, as dificuldades enfrentadas pelas trabalhadoras estão relacionadas ao tipo de trabalho executado e somam-se às desigualdades de gênero, idade e escolaridade. Do ponto de vista histórico, pode-se dizer que o trabalho feminino foi tardiamente regulamentado porque havia uma escassa organização das mulheres em sindicatos, além da tradição de resignação e submissão, que favoreceu a permanência de um trabalho não regulamentado por muito tempo18.

CONCLUSÃO

Para as trabalhadoras participantes deste estudo, a CT depende de fatores como capacitação, suporte social, satisfação com o trabalho, desenvolvimento de habilidades, atuação em domicílio, saúde e envelhecimento, que também têm sido evidenciados em pesquisas quantitativas como preditoras de CT.

O conhecimento gerado no cotidiano destas trabalhadoras mostra que a CT sofre influências externas ao indivíduo e que este precisa se adaptar a constantes mudanças. As mulheres em questão parecem buscar maior controle sobre o próprio trabalho e tentam conciliar a atuação em domicilio com os afazeres domésticos, mas as questões de segurança e saúde continuam gerando preocupação.

As experiências cotidianas levaram ao entendimento de que a CT, assim como a saúde, é um contínuo que pode ser modificado para melhor ou pior de acordo com fatores que vão além do indivíduo e estão relacionados ao trabalho, à vida fora do trabalho e, até mesmo, a questões macrossociais, já que mudanças econômicas, por exemplo, podem influenciar as demandas do trabalho e a capacidade do trabalhador de atendê-las.

Os resultados do presente estudo evidenciaram a necessidade de reflexão sobre o impacto das condições de trabalho e emprego, da rigidez organizacional e da perda de controle sobre a atividade laboral, na saúde e na capacidade para a atuação das trabalhadoras da indústria do vestuário. No caso destas indústrias, nas quais a mão-de-obra é predominantemente feminina, deve-se considerar a desigualdade de gênero não só nas formas de acesso ao emprego, mas principalmente nas condições de trabalho, em que as mulheres estão mais expostas às situações precárias.

Esforços para a prevenção de mortes relacionadas ao trabalho, lesões e doenças são importantes tendo em vista o alto custo financeiro e social destes eventos para as empresas, sociedade e indivíduos.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos à Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo financiamento desta pesquisa.

  • Endereço para correspondência:
    Rosana Ferreira Sampaio
    Universidade Federal de Minas Gerais
    Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional
    Avenida Antônio Carlos, 6.627
    CEP: 31270-901 – Belo Horizonte (MG), Brasil
    E-mail:
  • Apresentação: jan. 2013

    Aceito para publicação: ago. 2013

    Fonte de financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)

    Conflito de interesses: nada a declarar

    Parecer de aprovação no Comitê de Ética nº 30/2010.

    Estudo desenvolvido na Fundação Educacional de Divinópolis da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) – Divinópolis (MG), Brasil.

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    Endereço para correspondência: Rosana Ferreira Sampaio Universidade Federal de Minas Gerais Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional Avenida Antônio Carlos, 6.627 CEP: 31270-901 – Belo Horizonte (MG), Brasil E-mail: rosana.sampaio@pq.cnpq.br

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      01 Nov 2013
    • Data do Fascículo
      Set 2013

    Histórico

    • Recebido
      Jan 2013
    • Aceito
      Ago 2013
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