“O Fuzzil aqui não mata, recita poesia”: processos de identificação a partir da poesia de Fuzzil* * Agência de financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP

“This Fuzzil does not kill, he recites poetry”: identification processes from Fuzzil poetry

Elisabete Figueroa dos Santos Sobre o autor

Resumo

Este artigo teve por objetivo analisar a literatura do poeta Fuzzil, de modo a identificar em seus textos representações acerca de seus momentos identitários. Para tanto, analisamos trechos de suas três obras, “Um presente para o gueto” (2007), “Caturra” (2012) e “Céu de Agosto” (2013), bem como uma entrevista com o autor. Verificou-se que à medida que o poeta é interpelado pelas artimanhas poéticas e negras de recitais periféricos e de autores e versadores negros, é também convocado a explorar possibilidades para suas articulações enquanto escritor e versador antes apenas timidamente tangenciadas. Constata-se, assim, em Fuzzil, a transformação de realidades massacrantes em poesia, por meio de novos significados, como formas ativas de localizar-se como produtor de si, de localizar-se como sujeito e de subverter a posição de invisibilidade pública e política - e, por que não, poética? - socialmente imposta aos seus antecessores e a muitos pares de sua época.

Palavras-chave:
Fuzzil; poesia; identidade negra; literatura periférica

Abstract

This article aimed to analyze the literature of the poet Fuzzil, in order to identify in his texts representations that announce his identity moments. Therefore, we analyze excerpts of his three works “Um presente para o Gueto” (2007), “Caturra” (2010) and “Céu de Agosto” (2013) and an interview with the author. We verified that when the poet is asked by the poetic and Black wiles of peripherals recitals and Black authors and reciters, he is called to explore possibilities for his joints as a writer and reciter previously only timidly exploited. It appears, thus, to Fuzzil, the processing of punishing realities into poetry, through new meanings, as active ways to locate him as a producer of himself, to be located as a subject and subvert the public and policy invisibility position - and, why not, poetic? - socially imposed on its predecessors and on many pairs of his time.

Keywords:
Fuzzil; poetry; black identity; peripheral literature

Introdução

A exclusão constitui um atentado à identidade dos sujeitos. Contudo, do conflito com a realidade da subalternidade e da não aceitação num sistema de privilégios de poucos, como se pode depreender do cenário das relações étnico-raciais no Brasil, os sujeitos excluídos simbólica e/ou concretamente, forjam tentativas de positivar sua situação e, consequentemente, de estabelecer novas bases, nas quais suas identidades sejam preservadas. De acordo com Deschamps e Moliner (2009DESCHAMPS, Jean Claude; MOLINER, Pascal. A identidade em psicologia social: dos processos identitários às representações sociais. Tradução de Lúcia M. Endlich Orth. Petrópolis: Vozes, 2009., p. 43):

A “ameaça à identidade” é antes de tudo considerada como decorrente da inferioridade de um agente social numa dada situação. Os agentes sociais que tomam a iniciativa da diferenciação, da inovação, seriam aqueles que são negados por aqueles que lhe são superiores, aqueles que ocupam uma posição irremediavelmente inferior nas dimensões da comparação. Esta posição numa escala social colocaria em questão sua identidade e induziria, por isso mesmo, tentativas de “desmarcar-se” daqueles aos quais se comparam, de criar novos critérios de comparação em função dos quais eles são diferentes e, deste modo, tornam-se incomparáveis e escapam de sua inferioridade.

Os atores sociais não são, portanto, passivos diante da condição de inferiorização. Pelo contrário, tecem variadas formas para ressignificar sua situação, seu lugar social e sua identidade.

Essas questões são tornadas visíveis nos discursos literários, nos quais o negro é tomado como objeto e evidenciam-se as formas pelas quais eles são representados. Na literatura corrente, o negro é visto a partir de uma ótica eurocentrada, vindo à tona os estereótipos: negro pervertido, escravo demônio, negro infantilizado, negro vítima, escravo nobre, entre outros, como aponta Proença Filho (2004)PROENÇA FILHO, Domício. A trajetória do negro na literatura brasileira. Estudos Avançados, São Paulo, v. 18, n. 50, p. 161-193, 2004. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142004000100017
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. Contudo, o negro é deslocado da posição de objeto para uma posição de sujeito, numa perspectiva mais ativa e comprometida, a partir de um tipo de discurso que brota justamente das margens, a literatura periférica. Esta literatura pode ser entendida como uma proposta de agenciamento político que tensiona o estabelecido. É uma produção dada no interstício entre a oralidade e a norma culta.

Silva (2011SILVA, Mário Augusto Medeiros da. A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960-2000). 2011. 448 f. Tese (Doutorado em Sociologia) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, São Paulo, 2011. Disponível em: Disponível em: http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/280297 . Acesso em: 27 set. 2020.
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) propõe a aproximação entre as ideias de literatura negra e literatura periférica a partir de uma intersecção histórica, espacial e política, uma vez que ambas apontam para manifestações essencialmente mobilizadoras rumo a um projeto de produção de novos discursos e representações e, portanto, de ressignificação.

Por meio desta literatura, os negros periféricos trazem para a página suas histórias, seus relatos, seus cotidianos de desigualdades e enfrentamentos, bem como seu anseio pela própria afirmação. A designação como literatura negra vincula-se ao significado restrito e emerge no bojo de uma situação histórica dada, configuradora da reivindicação pelos negros de determinados valores caracterizadores de uma identidade própria. Essa identidade e sua presença forjadora e aglutinadora da comunidade em que o grupo étnico se situa seriam elementos decisivos na luta pela eliminação das discriminações e pela conquista do lugar que lhes pertence de direito e que o grupo dominante insiste em negar ostensiva ou disfarçadamente (PROENÇA FILHO, 2004PROENÇA FILHO, Domício. A trajetória do negro na literatura brasileira. Estudos Avançados, São Paulo, v. 18, n. 50, p. 161-193, 2004. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142004000100017
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).

Segundo Silva (2011SILVA, Mário Augusto Medeiros da. A descoberta do insólito: literatura negra e literatura periférica no Brasil (1960-2000). 2011. 448 f. Tese (Doutorado em Sociologia) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, São Paulo, 2011. Disponível em: Disponível em: http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/280297 . Acesso em: 27 set. 2020.
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, p. 104),

A literatura opera como uma arma contra o esquecimento. No caso dessa nova configuração da ideia de marginalidade, a operação da memória coletiva, aliada a um espaço geográfico e a grupos sociais ocupantes desse espaço, trata da condição marginal como elemento identitário inalienável. A matéria-prima literária e o que uniria esses escritores, portanto, estaria dada a partir de seu lugar de enunciação, do qual não poderia ou não deveria abrir mão.

A literatura produzida nas margens está, intimamente, atrelada ao lugar social do sujeito que produz tal manifestação, tanto quanto é produto de sua identidade social. Logo, a literatura periférica é uma produção que se dá nos entremeios sociais, primando por problemáticas, tipos de discurso, estéticas e modelos de produção e divulgação distintos daqueles que são praticados pelos padrões valorizados socialmente e que circulam nos grandes circuitos. Essa literatura relata e produz novas formas de se ver e pensar a vivência nas margens. Se, por um lado, a realidade periférica passa a ser acessada por aqueles que estão longe das periferias, por outro, aqueles que partilham do cotidiano periférico veem o seu dia a dia relatado nos livros, o que pode repercutir positivamente tanto pela possibilidade de esses sujeitos enxergarem-se nas páginas que estão sendo produzidas quanto pela identificação com aqueles que assumem outras posições e identidades: os autores, editores, poetas, etc. Atribui-se, assim, outros significados aos espaços e práticas periféricos.

Ao problematizar questões próprias às periferias, é bastante incidente o recurso às temáticas raciais. Dessa forma, os preconceitos, os escárnios, as lutas, vitórias e manifestações negras são postas em questão. Das margens, aventam-se estratégias para estabelecer um novo cenário para a periferia, destituindo-a do contraponto em relação ao centro, como sobras das cidades e projetos inacabados. Essas e tantas questões de carência de meios de vivência e sobrevivência são relatadas e denunciadas. A partir daí, somam-se a criatividade, a capacidade, a astúcia que habita os bairros que estão à margem. Essas demandas são expressas nos textos que são produzidos pelos autores periféricos, bem como por qualquer indivíduo que queira partilhar seus escritos nos saraus. Os saraus tornaram-se, portanto, estímulo e fortalecimento para que o movimento se avultasse e proliferasse.

Segundo Oliveira, Souza e Silva (2009OLIVEIRA, Marina Barbosa; SOUZA, Patrícia Silva de; SILVA, Vivian Karina da. Gênero, arte e subjetividade: o olhar ético-estético da Psicologia Social. Revista de Psicologia da UNESP, v. 8, n. 2, p. 31-38, 2009. Disponível em: Disponível em: https://seer.assis.unesp.br/index.php/psicologia/article/view/938 . Acesso em: 10 out. 2016.
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), podemos entender a arte através de ação do pensamento, com a intenção de criar multiplicidades, de novas e várias formas de enxergar e se posicionar no mundo, cuja ideia da criação artística se dá por meio de afetos, percepções e sensações que podem ser inseridas sob uma perspectiva crítica acerca da sociedade e de uma visão histórico-social da humanidade.

Diante de tais apontamentos, este artigo tem por objetivo analisar a literatura de Fuzzil, poeta negro e periférico, traçando um paralelo entre os momentos de seu fazer poético e seu processo de identificação como negro. Pretende-se, especificamente, identificar nos textos de Fuzzil representações que anunciem seus momentos identitários. Para tanto, analisamos trechos de suas três obras, Um presente para o gueto (FUZZIL, 2007FUZZIL. Um presente para o gueto. São Paulo: Toró, 2007.), Caturra (FUZZIL, 2012FUZZIL. Caturra. São Paulo: Elo da Corrente, 2012.) e Céu de Agosto (FUZZIL, 2013FUZZIL. Céu de agosto. São Paulo: APL, 2013.), bem como apresentamos uma análise de conteúdo (BARDIN, 1977BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.) de uma entrevista realizada com o autor.

Artimanha poética: com a palavra, Fuzzil

Fuzzil é o pseudônimo assumido por Levi de Souza, poeta negro nascido no ano de 1976, na cidade de São Paulo/SP. Morador do bairro Capão Redondo - zona sul -, Fuzzil foi alfabetizado já adolescente, quase adulto, pela irmã mais velha. Engajou-se em diversas atividades profissionais; trabalhou como manobrista, serralheiro, segurança, vendedor de água e refrigerante em frente aos estádios, ajudante de pedreiro, entre outras, até começar a atuar como rapper e arte-educador em projetos sociais e em outras iniciativas. Por volta do ano de 2005, o rapper e poeta se insere no circuito dos saraus periféricos. Em 2007, publica seu primeiro livro de poesia,Um presente para o gueto, editado pelas Edições Toró. Lançou seu segundo livro,Caturra, pelo selo Elo da Corrente Edições. Em 2013, publicou o terceiro:Céu de agosto, e em 2017, sua quarta obra, Um abrigo contra a tempestade, ambos pela A.P.L. (Academia Periférica de Letras).

Sua aproximação da cultura hip hop lhe trouxe elementos de pertencimento e inspiração para posicionar suas pautas. Como diz o poeta, “o hip hop me despertou para outras coisas. Comecei a prestar atenção no que eles ‘tavam’ falando. Comecei a pensar que aquilo tinha a ver comigo... era igual na minha história” (Entrevista com o autor).

Essa inspiração, tanto quanto aquela advinda do seu trânsito pelo sarau da Cooperifa - entre outros saraus periféricos -, vai resultar na publicação do seu primeiro livro, o Um presente para o gueto (2007). Esta obra incorpora para o autor um marco em seu processo de afirmação, superando as adversidades de uma não alfabetização formal, mas que aconteceu com letramentos outros: articulados pela irmã e por sua inserção no universo das poesias. A poesia, seja no movimento Rap, seja nas declamações dos saraus periféricos, desloca o poeta de um não-lugar no mundo das letras e o situa no lugar na autoria, de sujeito que articula as palavras para dar novos significados a suas práticas e alcances.

Sua primeira obra é, portanto, fundamental para marcar uma posição como autor periférico, tanto que Fuzzil a dedica à escola em que se formou: o gueto. Em Um presente para o gueto, Fuzzil (2007) expressa suas influências estilísticas até então e demarca a intenção de exploração das rimas, dos versos.

Na verdade, eu comecei tipo fazendo rima, a ideia era brincar com as palavras, sabe... catar... viajar bem... nesse sentido de brincar com as palavras. Não tinha um foco ou temática, tal... Então, a ideia aí era esta: brincar com as palavras. E eu brinco mesmo. Inclusive tem o caso da “Revolta”, que é uma poesia em que eu quero brincar mesmo com a palavra: ‘Revolta. Re-vol-ta. Rê, volta porque te amo.’ Então, tipo, a ideia sempre foi querer abusar disto, entendeu? (Entrevista com o autor).

Neste livro, então, o autor confirma que a discussão racial é apenas tangenciada. Essa ausência seria, segundo o autor, devida ao entendimento de que afirmar-se negro ou marcar deliberadamente o debate racial implicaria ofender o branco. Este receio está atrelado tanto ao silenciamento aprendido como à dificuldade de entender-se como sujeito de direitos e protagonista de seus discursos.

A questão do negro e tal... Até então, no começo, eu não tinha. Inclusive no Um presente para o gueto... ele até sai [dessa discussão]. Tem uma poesia que fala... mas, meio que tímido, meio com medo. Não assumia, não tinha aquela coisa... de bater no peito: “nós somos!” Eu tinha vergonha... no sentido de ofender um amigo branco... Sabe? Nós brincávamos muito de falar, mas tínhamos o cuidado pra não ofender o branco e tal. Era esta a minha preocupação e ia fazendo meu trampo... Eu tinha esta visão porque foi o que foi passado pra mim... que eu aprendi... (Entrevista com o autor).

A ruptura do horizonte simbólico africano, advinda do sistema escravocrata, é um fato de grande relevância que pode nos auxiliar na reflexão sobre como a subjetividade de afrobrasileiros é construída a partir das vivências e confrontos com as representações sobre a negritude. As formas opressivas que foram imprimidas, a partir da prática escravocrata, sobre a população negra geraram um redirecionamento na constituição de suas subjetividades. A essa parcela da população eram impostas ações condizentes com o cotidiano do colonizador, de acordo com o padrão normativo das relações cotidianas, direcionando o escravizado a formatar-se conforme os valores brancos (ANDRÉ, 2007ANDRÉ, Maria da Consolação. Processos de subjetivação em afro-brasileiros: anotações para um estudo. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 23, n. 2, p. 159-167, 2007. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-37722007000200006
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).

Cabe considerar que a vinda dos escravizados para os países da diáspora negra - bem como o contato com “outros” territórios, culturas, sujeitos, etc., dada a estrutura racial hierárquica vigente - operou uma desestabilização tal nas identidades culturais de africanos e seus descendentes que colocou em causa as possibilidades de edificações de identidades estáveis e integradas.

Por isso, os silenciamentos de Fuzzil no início de sua produção autoral. Por isso também o receio de “ofender o branco” ao afirmar-se negro.

Minha vivência é outra. Eu, por exemplo, na escola não tinha isso. Não tinha uma base no círculo familiar... Não tinha ninguém que trabalhava essa questão comigo. E, aí, a gente vem sofrendo desde pequeno. Desde pequeno eu não tive uma orientação. Eu vim descobrir essas coisas através do movimento, participando de sarau... e até mesmo dentro do hip hop, porque eu venho do hip hop. Entendeu? Eu não tive acesso a nenhuma informação sobre isso, aquilo, tal. Sofria pra caramba calado, entendeu? É triste... coisa demais, piadinhas... né? (Entrevista com o autor).

Diante disso e de acordo com as elucidações de Souza, N. (1983SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: as vicissitudes do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro : Graal, 1983.), é possível entender como, para o negro, pensar sobre a identidade negra redunda em sofrimento psicológico, devido às representações pejorativas difundidas socialmente. Nessa medida, as funções simbólicas do negro encontrar-se-iam, sob dadas circunstâncias, forçadas a não representar a identidade de modo a aglutinar a ela signos negros. Há a alterização das características que remetam ao negro, rechaçando para si o contato com tais elementos.

Belgrave et al. (2002BELGRAVE, Faye Z. et al. Racial identity and self-esteem among Black Brazilian men: Race matters in Brazil too! Cultural Diversity and Ethnic Minority Psychology, v. 8, n. 2, p. 157-169, 2002. https://doi.org/10.1037/1099-9809.8.2.157
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) relatam quão difícil é para o negro assumir-se como vítima de preconceito, sugerindo haver no Brasil um acordo pelo silenciamento: as relações raciais estão imersas numa atmosfera em que as evidências de contradição são subsumidas ao mito da democracia racial. Todos dizem conhecer alguém que foi vítima de racismo ou que é racista, mas ninguém se admite racista e há uma terrível dificuldade de assumir-se vítima de preconceito racial.

As distorções e negações relativas àquilo que remeta ao negro e sua cultura, pautadas no silenciamento e na invisibilização, portanto, na repressão de objetos e significados relativos, criam uma zona estanque, quase inacessível, mas continuamente alimentada pelas práticas sociais. Remete-se àquilo que “não deve ser dito”, seja pela dificuldade de acessar esses conteúdos, seja pela sua relação com o politicamente incorreto. Isso faz com que se torne dificultoso o debate sobre o racismo, por exemplo. Pois as pessoas veem, mas não enxergam as disparidades raciais. Ou, quando enxergam, remetem-nas a toda e qualquer circunstância que não o racismo. Isto se dá em função do abafamento provocado pelo mito da democracia racial: que organiza a sociedade a praticar e receber o racismo sem deflagrá-lo ao certo; além disso, a crença na ideia de estarmos vivendo uma democracia das raças paralisa as possibilidades de se pensar sobre as relações que realmente estão na base do racismo e das desigualdades raciais.

Não é à toa que o meu apelido veio do preconceito. Não é por acaso que eu sou arma de fogo! [...] Eles, eles queriam me chamar de fusível, “Ô fusível queimado!” Mas não falavam ‘fusível’, falavam ‘fuzil’. “E aí fuzil queimado”? Só que eu fui amadurecendo, eu fui pensando... Eu fui transformando numa coisa positiva. Como já tá bem arraigado esse apelido, já faz tempo que eu carrego ele, vou usar pro lado bom... Daquilo que eles chamam “fusil” querendo dizer “fusível”, eu vou usar como “fuzzil” mesmo, vou usar como uma arma, mas que a minha arma seja a caneta, seja o caderno, sejam os livros, entendeu? (Entrevista com o autor).

Sobre esta questão, Fuzzil fala em seu poema “O vulgo”:

Muitas pessoas me perguntam/ O porquê do apelido/ Uns acham engraçado/ Outros acham esquisito./ Na verdade esse vulgo/ Vem da minha infância/ Vem do preconceito/ De pessoas ignorantes./ Já fui muito criticado/ Também discriminado/ Hoje aclamado/ Pelo trabalho que faço./ Sempre de cabeça erguida/ Passando por cima de obstáculos/ Posso dizer que sou um vencedor/ Um verdadeiro guerreiro nato./ O que passou, passou/ Hoje é outra fita./ O Fuzzil aqui não mata,/ Declama poesia (FUZZIL, 2012FUZZIL. Caturra. São Paulo: Elo da Corrente, 2012., p. 9).

A ressignificação observada tanto na literatura do Fuzzil quanto no seu modo de colocar-se sujeito no mundo partiu, portanto, da própria necessidade de entender-se como sujeito. De “fusível queimado” para Fuzzil, de arma de fogo, para poeta, escritor, declamador de poesia. Há, portanto, uma primeira fase de suas vivências pautada pela discriminação, pelo receio de travar o embate; o que está relacionado com uma produção literária também menos combativa. Contudo, ao assumir a posição de versador, Fuzzil associa outros significados à sua identidade: não mais pela via da negação, pelo estereótipo, mas dizendo-se poeta e fazendo de si e de suas marcações identitárias poesia e vice-versa. Além disso, sua articulação nos espaços culturais, saraus, etc. ampliou suas apreensões sobre suas possibilidades não só no fazer poético, mas também como sujeito de direitos.

Eu sofri várias coisas. Não debatia, não sabia dos meus direitos, assim... Por exemplo, eu fui convidado pra fazer um recital numa escola, por uma professora. A professora perguntou pros alunos qual a referência de uma pessoa que faz cultura, faz arte na quebrada e me indicaram. Esta professora veio me convidar pra ir lá e fui. Coração aberto! Porque eu gosto de participar, dar atenção pras pessoas, tal... Só que eu fui barrado pela diretora. Ela não deixou eu entrar. Não deixou! Falou que eu não ia entrar! E eu não sabia brigar por isso. Eu não brigava, aceitava, abaixava a cabeça e ia embora. Já passei por várias... Hoje não! Hoje a gente vai debater... A gente vai bater de frente, vai falar: sei os meus direitos e é isso! Eu tô mais confiante. Eu não tenho medo de estar numa faculdade, de falar pra vários... Hoje, eu vou de cabeça erguida! Falo com mais firmeza mesmo. E... eu acredito que os livros, eles me dão essa energia também, porque eles me deixam mais forte, entendeu? [...] (Entrevista com o autor).

Em Um presente para o gueto (2007), Fuzzil apresenta poemas que tratam especificamente da questão racial, como é o caso do poema “De A a Z”, em que o autor elenca palavras iniciadas por cada uma das letras do alfabeto que remetem às culturas africana e afro-brasileira. Há também o “Preto do gueto”, em que o autor se afirma “preto do gueto” e solicita que não o chamem ou denominem por meio de subterfúgios. O que se percebe, contudo, é que estes poemas são oásis, eles brotam isolados em meio a uma vastidão de poemas que problematizam as questões social, periférica, amorosa, entre outras temáticas.

Neste contexto, é declarado o papel que a literatura, os saraus e os debates sobre relações raciais desempenharam para a produção de outro Fuzzil: mais afirmativo, mais seguro e assertivo. Tais posicionamentos também reverberam nos poemas e textos do autor. Essas questões são explicitadas em seu poema “Resistência” (FUZZIL, 2012FUZZIL. Caturra. São Paulo: Elo da Corrente, 2012., p. 79-80):

Meu poema é ousado/ Sou guerreiro de Palmares/ Faço parte deste quilombo/ Sou um negro em liberdade/ Sou a voz que não se cala/ Sou o eco da senzala/ Sou a flecha no caminho/ A chama que não se apaga/ Sou filho escravizado/ Sangue, suor e lágrima/ Oriundo da mãe África/ Sou Enilda, Benedita e Anastácia/ Sou o Afrika Bambaataa/ Acredito no que faço/ Sou Lumumba, Ganga Zumba/ Evaristo e Nelson Maca/ Sou Junior Black Power/ PosseMente até a alma/ Sou King, Malcom X/ Sou a revolta da chibata/ Sou Oswaldo de Camargo/ Sou Cuti, Clementina/ Sou Dandara, Ivone Lara/ Elizandra e Pixinguinha/ Sou Zumbi, Grande Otelo/ Jovelina Pérola Negra/ Sou Curtis Brown/ James Brown/ Sou Nelson Mandela/ Sou Ângela Davis/ Marcos Murimbal/ Sou Solano Trindade/ Mumia Abu-Jamal/ Sou 20 de Novembro/ Negro em movimento/ Sou aquele sofredor/ Lutando por meus direitos/ Sou Thaide, Mano Brown/ Paula Lima, Negro Rauls/ Jofrinho Fúria Negra/ Sou um golpe fatal/ Sou Akins, João do Pulo/ Carnaval, Capoeira/ Sou GOG, Preto Ghóez/ Sou Resistência Negra.

Quando eu comecei, não entendia o que é, ou seja... o pensamento era: “Aí pô, vamos fazer umas poesias, que eu quero fazer com que as pessoas entendam, as pessoas da comunidade”. Porque eu não tenho uma formação de berço e tal... Minha formação é a rua. Assim eu consegui passar a minha poesia, essa minha vivência, do meu jeito, da gíria, essas coisas... Mas a poesia pra mim é algo inexplicável, muito loco! E ela vem me mostrando... Me levando pra outros lugares. Imagina eu ser convidado pra fazer, pra mostrar um trabalho nas escolas, em vários eventos. Estive participando da virada cultural, a convite do coletivo Elo da Corrente, sabe?! É... ela me tira daqui, desse mundo... E é a melhor coisa poder viajar. Até sem sair do lugar. Mas também viajando saindo do lugar, por que eu vou pra vários lugares com essa danada da poesia! (Entrevista com o autor).

Os discursos produzidos e compartilhados no âmbito dos saraus e das articulações artistícas periféricas convocam Fuzzil a pensar e propor uma forma outra de fazer arte, prosa, poesia e de posicionar-se enquanto poeta, versador e ativista. Neste contexto, a literatura é representada como meio de alçar novas formas de identificação, mas também de alcançar outros espaços e posições sociais. Nisto, os saraus desempenham importante papel na divulgação das ideias e poesias.

No entanto, a relação do autor com os saraus, como ele próprio declara, é determinante, porém fluida: Fuzzil circula por vários saraus por meio de sua poesia. Os universos que se abrem a Fuzzil e sua poesia a partir de suas artimanhas poéticas, ao reconhecerem Fuzzil como referência literária e periférica, reforçam para sua própria comunidade a relevância de que os significados e debates propostos por Fuzzil, por meio de sua poesia, sejam audíveis e apropriados pelos jovens e adolescentes de suas comunidades, sobretudo aqueles cujas trajetórias de lutas e superações encontrem algum paralelo nas experiências descritas e problematizadas por Fuzzil. Como salientam os relatos posteriores:

Então, isto também é pra mostrar pra muitos dentro do bairro que há possibilidade, que tem como a gente se envolver com arte, cultura... Geralmente o pessoal da comunidade, da periferia mesmo, favela... que se espelham em quem tá mais próximo... e a molecada tem o crime, essas coisas. Eu venho quebrando essa barreira, mostrando que é possível fazer uma coisa, subir, crescer na vida, culturalmente mesmo... sempre adquirir informação. Como que eu falo que a poesia é mágica? Eu fiz um ano de faculdade. Um ano de Letras. Tranquei por motivos de emprego. Mas, depois que eu saí da faculdade, fui convidado pra fazer palestra, pra falar do meu trabalho, da minha caminhada, das coletâneas, de prêmios, essas coisas que a gente ganha... troféu, homenagem, essas coisas... Pô... jornalista veio fazer uma matéria comigo no bairro! E o pessoal viu isso! Vê que... o cara está no caminho certo... Eu tenho contato com todo mundo, entro em becos e vielas, conheço toda a quebrada, e tenho respeito. Eles me respeitam em qualquer lugar, a qualquer hora, né?! [...] (Entrevista com o autor).

Eu sempre trabalhei com a linguagem do gueto, da quebrada... falando ali da pipa... de jogar bola. Teve essa preocupação. Sempre teve. E, entre essas pessoas de quem eu falo, a maioria é negra. Entendeu? Então, tá junto. Não que seja cem porcento a chave do rolê! Eu vou continuar brincando com as palavras, tratando de outras coisas também... Falar da mulher, falar da quebrada... Entendeu? Mas agora tô esperto. E quando eu vou fazer até mesmo letra de rap, tem que ter a questão, tem que falar do negro, tem que valorizar a nossa imagem, história, tal... E eu tô preocupado assim... É favela! Tudo entra nos meus textos, entendeu? Eu conto o que mais sinto, da minha área, o que eu me identifico... Que é a minha cara, o que eu vejo no dia a dia na rua... Então, vou continuar falando do meu povo, de quem eu sou. [...] (Entrevista com o autor).

Fuzzil afirma que sua poesia é dada a partir de seu universo: daquilo que vive, do que vê, do que experiencia em seu trânsito pelos locais de referência, pelas pessoas da “quebrada”, suas paisagens, afetos e memórias. Logo, quando Fuzzil afirma tratar de suas demandas imediatas, falar de si e do que lhe compõe como sujeito e como poeta, o autor está também afirmando que sua poesia é marcada pelas representações de sua identidade, por suas posições enquanto poeta, sujeito e ativista. À medida que trata do que integra seu universo, ao mesmo tempo em que narra as formas como suas poesias foram se inovando e incorporando a preocupação com outras temáticas e estéticas, Fuzzil também pontua se tais preocupações são incorporadas à sua poesia, mas não a limitam... O poeta continua pautando questões outras, que podem por vezes estar interceptadas pelas demandas étnico-raciais, mas não se tornou imposição.

Percebe-se que Céu de agosto (FUZZIL, 2013FUZZIL. Céu de agosto. São Paulo: APL, 2013.), mais recente livro do autor, segue a esteira de Caturra (FUZZIL, 2012FUZZIL. Caturra. São Paulo: Elo da Corrente, 2012.), com poesias incisivas que tratam da temática racial e questionam as desigualdades que colocam os negros em desvantagem. Exemplo disso é a poesia “Pente quente”:

Tá aqui o pente/ Tá aqui o pente/ Taque o pente/ No lixo./ Esse pente/ Não me penteia/ Esse pente/ Não nos penteia./ Em outrora/ O ferro feria/ Prendia meu povo/ Na noite fria./ Muitos/ Brutalmente/ Marcados a ferro quente./ Esse pente/ Queima o couro/ Queima o fio/ Queima o povo./ Meu cabelo crespo/ Armado, escuro/ Meu cabelo Black/ Black’tude./ Tá aqui o pente/ Tá aqui o pente/ Taque o pente/ No lixo (FUZZIL, 2013FUZZIL. Céu de agosto. São Paulo: APL, 2013., p. 55-56).

Fuzzil aponta outros autores de literatura negra com os quais dialoga, cujas produções literárias o interpelam e às quais em diversos momentos suas poesias respondem:

Inclusive, tem a poesia “O pente” em que eu falo da questão do pente, né... que esse pente, que é um pente de ferro, não nos penteia... Tem uma sobre resistência, que cita alguns nomes, escritores negros, alguns dos artistas que eu conheço e eu estou mais confiante, sabe?! Eu falo mais, com mais autonomia e seguro a bronca! Passei a fazer pesquisa, conhecer outros escritores, tal... ler Oswaldo de Camargo... Carlos Assumpção, Michel Yakini, os caras assim... Eu vejo que a literatura dos caras é essa pegada: assume e é isso mesmo! Eu estou tentando seguir esse passo. É um processo, né? Eu estou aprendendo, tô me dedicando, valorizando mais. Mas a ideia é essa: mostrar pra outros que a gente tem que falar sim da nossa raíz, falar sobre a história... (Entrevista com o autor).

A (des)conformação da zona muda sobre as relações raciais é algo que se deve dar numa dimensão psicossocial, articulando representações, práticas e relações sociais. Romper com essa zona muda e desestabilizar um sistema de representações em alguma medida imobilizado não são tarefas simples e imediatas. Isso requer questionar o óbvio, dialogar com os defensores de máximas, seduzir o estabelecido à mudança, recompor as relações e as representações sociais e reivindicar a contemplação da diferença afirmada também na esfera pública. Assim, abrir-se-ia a possibilidade de ressignificação das identidades de brancos e negros.

Conforme apontado por Domingues (2002DOMINGUES, Petrônio José. Negros de almas brancas? A ideologia do branqueamento no interior da comunidade negra em São Paulo, 1915-1930. Estudos Afro-Asiáticos, Rio de Janeiro, v. 24, n. 3, p. 563-600, 2002. https://doi.org/10.1590/S0101-546X2002000300006
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), diante de um quadro de constante atentado à sua identidade, o negro brasileiro apresenta evidentes dificuldades para identificar-se africano. A negação da ancestralidade africana deve ser entendida como um mecanismo simbólico de fuga, de busca por uma autoproteção em relação aos discursos desqualificantes.

É possível, assim, traçar um paralelo entre o processo de desenvolvimento literário de Fuzzil (temas, formas de escrita, inspirações etc.), o processo de construção de sua identidade étnico-racial e a forma como a questão racial é debatida nos seus textos. Conforme se procurou demonstrar, a produção literária de Fuzzil passou por transformações à medida que o autor e poeta tomou contato com conhecimentos, temas e debates que antes lhe foram interditados por práticas discriminatórias, que referendam determinadas formas de conhecimentos em detrimento de outras. Ao ser interpelado pelas artimanhas poéticas e negras de recitais periféricos e de autores e versadores negros, Fuzzil é convocado a explorar possibilidades para suas articulações como escritor e versador, antes apenas timidamente tangenciadas.

A universalidade de enunciações poéticas é, em grande medida, uma aspiração, longe de ser concreta. As produções literárias são sempre marcadas pelas identidades e representações daqueles que as constroem. Diante das referências que passam a inspirar a poesia de Fuzzil, ele passa a aglutinar sua identidade a significados compartilhados sobre a periferia e suas negritudes. O tratamento, a importância e a centralidade dada a tais temáticas seguem o fluxo dos movimentos que perpassam sua identificação: de uma postura não combativa, em que não há enunciação de sua ascendência; do debate ainda tímido sobre a dinâmica racial e sua intersecção com a questão periférica, para o debate mais incisivo. Seu trânsito pelos saraus e coletivos negros afirmativos o convoca a produzir outros discursos.

É possível estabelecermos um paralelo entre esse movimento de resgate de simbologias e significados negros por meio da articulação poética periférica e o que se chamou de movimento de negritude. Esse movimento constituiu-se numa forma de articulação literária voltada à valorização dos signos negros e de problematização e denúncia da dominação cultural e da opressão do capitalismo colonialista. Sua atuação alcançou diversos países e foi incorporado e (re)produzido por importantes escritores, poetas e ativistas de várias regiões, a exemplo de Aimé Césaire. Conforme aponta Domingues (2005DOMINGUES, Petrônio José. Movimento da negritude: uma breve reconstrução histórica. Mediações: Revista de Ciências Sociais, v. 10, n. 1, p. 25-40, 2005. http://dx.doi.org/10.5433/2176-6665.2005v10n1p25
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), no campo ideológico, a negritude pode ser representada como processo de aquisição de consciência racial em meio a todas as empreitadas que pressionam as relações e organizações sociais para a promoção da alienação acerca das implicações da inscrição racial de sujeitos e coletivos. Já na esfera cultural, negritude diz respeito a um movimento de enaltecimento de manifestações culturais de matriz africana. Ferreira (2006FERREIRA, Ligia F. “Negritude”, “Negridade”, “Negrícia”: história e sentidos de três conceitos viajantes. Via Atlântica, n. 9, p. 163-184, 2006. https://doi.org/10.11606/va.v0i9.50048
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, p. 170-171) afirma que “Césaire funda, ao criar a palavra, uma nova poética, e, a partir dali, os primeiros textos da negritude seriam poemas em que o novo signo transitaria de maneira imprecisa”. Domingues (2005)DOMINGUES, Petrônio José. Movimento da negritude: uma breve reconstrução histórica. Mediações: Revista de Ciências Sociais, v. 10, n. 1, p. 25-40, 2005. http://dx.doi.org/10.5433/2176-6665.2005v10n1p25
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propõe que a palavra negritude foi solicitada pelo movimento com o propósito de cunhar e atribuir um significado oposto, uma tentativa de ressignificação com vistas à afirmação e ao estabelecimento do orgulho racial, de modo a edificar novos sentidos para a palavra “negro” e para a própria condição de ser negro.

Fuzzil (2007), a partir de Um presente para o gueto, assume-se como poeta negro e passa a problematizar a realidade de seus iguais de forma mais presente e incisiva. Em Céu de agosto, nota-se um Fuzzil (2013)FUZZIL. Céu de agosto. São Paulo: APL, 2013. que se apropria do debate racial sem, contudo, fazer de seu terceiro livro um manifesto poético pautado unicamente por questões de ordem étnico-racial.

Constata-se, assim, na produção da literatura, a transformação de realidades massacrantes em poesia e a produção de novos significados, como formas ativas de localizar-se como produtor de si, de localizar-se como sujeito e de subverter a posição de invisibilidade pública e política e - por que não? - poética, socialmente imposta aos seus antecessores e a muitos pares de sua época. Advogamos, assim, uma noção de identidade em que o sujeito é protagonista, conforme se pode evidenciar a partir da trajetória de Fuzzil. Diante das representações que são forjadas em seus grupos de referência e dos discursos que o interpelam, o poeta assume posições-de-sujeito de forma ativa.

Considerações finais

As identidades são a chave que posiciona o prisma pelo qual enxergamos os objetos do mundo e que, portanto, nos informa quais objetos nos são plausíveis ou não. Como sugerido anteriormente, por meio da literatura dá-se a conhecer a perspectiva de quem a produz. Não de forma solipsista, mas como resultante dos processos representacionais que compõem e atravessam os sujeitos e suas identidades e, portanto, expressam-se em suas textualidades.

Dominar os meios e modos de produção literária, portanto, configura uma engenhosa estratégia para os sujeitos que são construídos a partir de estereótipos e representações sociais prescritivas. A literatura funciona como veículo para se desvelar tópicos e elementos suprimidos; para salientar outros sentidos cabíveis a objetos cujos significados atribuídos sejam negativos; e para posicionar-se como produtor de conhecimento, uma vez que tradicionalmente as letras têm sido ferramentas de acesso privilegiado para uma elite branca, o que fez com que as margens integrassem essa produção quase que exclusivamente como mote e por meio de distorções. Assentar-se sobre os marcos da marginalidade, constituir e ser constituído pelos pontos de cisão de discursos e representações sociais, são causas para esforços contínuos de contestação e de posicionamentos identitários.

Por meio da análise das três primeiras obras de Fuzzil, bem como de seus relatos e histórias de vida - coletados em entrevista -, pôde-se perceber que a adesão ao movimento poético periférico reverberou na produção de significados outros para sua identidade negra. No contexto dos saraus, os cabelos crespos, origens quilombolas, vinculação com a periferia, etc. passam a ser ganhos simbólicos, o que reforça a ideia de não mais abafar tais características, mas investir em evidenciá-las.

Salientam-se os cabelos, os apelidos, as formas de vestir, as formas de escrita etc. Os saraus intervêm no processo de construção das identidades raciais por meio da edificação de um espaço em que os símbolos, as estéticas e o protagonismo negros são valorizados. Por meio da literatura, da poesia e da arte de maneira geral, negociam-se significados, representações e posições-de-sujeito. Empreendem-se letramentos de reexistência (SOUZA, A., 2009SOUZA, Ana Lúcia Silva. Letramentos de reexistência: culturas e identidades no movimento hip-hop. 2009. 219 f. Tese (Doutorado em Línguística Aplicada) - Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2009.).

A poesia, a arte, a cultura de maneira geral, têm a capacidade de provocar o deslocamento do sistema de representação por meio da sedução e da criatividade embutidas na elaboração artística. Depreende-se, assim, que nem todas as fissuras que corroem as formas de dominação tomam a forma de rompimentos espetaculares, nem se exprimem sempre pela irrupção singular de um discurso de recusa ou de rejeição. Ao contrário, com frequência, elas brotam no interior do próprio consentimento, quando a incorporação da linguagem da dominação encontra-se reempregada para marcar uma resistência.

As poesias e relatos de Fuzzil elucidam um fazer poético que se relaciona às suas identidades através de nuances relativas ao processo de identificação percorrido pelo autor. É possível, portanto, apreender momentos de identificação cristalizados em suas poesias. Inicialmente, Fuzzil esquiva-se, de certo modo, da escrita sobre a temática étnico-racial, posto que sua identidade racial apresentava-se de maneira difusa.

Ainda que o poeta tivesse, desde muito cedo, vivenciado circunstâncias em que foi chamado a responder por ser negro, fica evidente que dessas ocasiões as principais resultantes foram as mazelas e prejuízos por assumir-se como negro numa sociedade racista. O racismo atua nessa dimensão como forma de interdição da capacidade de representar-se negro, seja pela palavra falada, seja pela palavra escrita.

A elaboração de experiências de discriminação racial é suscitada e promovida quando da integração do poeta no circuito de saraus das periferias paulistanas. Nesse contexto, ao ver seus pares questionarem as práticas de discriminação racial e propor outros significados aos quais atrelar as identidades negras, os escritos de Fuzzil, assim como sua identidade, começam a mobilizar-se.

Percebe-se, então, um momento em que o poeta inicia o debate sobre as mazelas raciais em suas poesias. Problematizando a atuação do racismo em suas trajetórias, ele assume posturas ativas no embate ao racismo e às desigualdades dele advindas. Nesse contexto, a literatura é arma, e o poeta passa a produzi-la de maneira também engajada com a causa racial: “O Fuzzil aqui não mata: recita poesia”!

Referências

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  • *
    Agência de financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP

  • 2
    Os dados completos da autora encontram-se ao final do artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jan 2020
  • Data do Fascículo
    Sep-Dec 2020

Histórico

  • Recebido
    11 Out 2016
  • Revisado
    09 Abr 2020
  • Revisado
    04 Ago 2020
  • Aceito
    17 Set 2020
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