Resumo
Os estudos epidemiológicos sobre o número de casos de suicídio entre adolescentes e jovens negros/as têm revelado um aumento significativo no cenário nacional e internacional. Para compreendermos esse fenômeno, vamos traçar um caminho que considera uma compreensão social e psíquica para afirmar que o suicídio é uma patologia social decorrente do neoliberalismo, juntamente com a fase da adolescência em que alguns jovens negros se encontram no período da vida. Entendemos que o discurso neoliberal e as questões intrapsíquicas apontam o ato suicida como uma resposta extrema dessas forças (social e psíquica) que se justapõem, produzindo uma angústia entre jovens e adolescentes negros/as, levando-os/as à ação suicidária. A partir de vários autores do campo da sociologia, da teoria social e da psicanálise e da questão racial, apresentaremos os efeitos do discurso neoliberal sobre as vidas e seus desdobramentos nas novas formas de vínculo social no mundo contemporâneo, tendo o suicídio como resposta sintomática dessa nova ordem social.
Palavras-chave:
suicídio; neoliberalismo; adolescência; psicanálise; patologias do social
Abstract
Epidemiological studies on the number of suicide cases among black adolescents and young people have revealed a significant increase both nationally and internationally. To understand this phenomenon, we will bring a path that considers both social and psychological understanding, stating that suicide is a social pathology derived from neoliberalism, combined with the adolescent stage that some young black people experience. We understand that the neoliberal discourse and intrapsychic problems signal the suicidal act as an extreme response to these yuxtapuestas (social and psychological) forces, generating anguish among young people and black teenagers and leading them to suicidal action. Based on several authors from the fields of sociology, social theory, psychoanalysis and racial concerns, we will present the effects of neoliberal discourse on lives and its development in new forms of social bonding in the contemporary world, considering suicide as a symptomatic response to this new social order.
Keywords:
suicide; neoliberalism; adolescence; psychoanalysis; pathologies of the social
Resumen
Los estudios epidemiológicos sobre el número de casos de suicidio entre adolescentes y jóvenes negros han revelado un aumento significativo tanto a nivel nacional como internacional. Para comprender este fenómeno, trazaremos un camino que considere tanto la comprensión social como la psicológica, afirmando que el suicidio es una patología social derivada del neoliberalismo, sumada a la etapa adolescente que experimentan algunos jóvenes negros. Entendemos que el discurso neoliberal y los problemas intrapsíquicos señalan el acto suicida como una respuesta extrema a estas fuerzas yuxtapuestas (sociales y psicológicas), generando angustia entre los jóvenes y adolescentes negros y llevándolos a la acción suicida. Con base en diversos autores de los campos de la sociología, la teoría social, el psicoanálisis y las cuestiones raciales, presentaremos los efectos del discurso neoliberal en las vidas y su desarrollo en nuevas formas de vinculación social en el mundo contemporáneo, considerando el suicidio como una respuesta sintomática a este nuevo orden social.
Palabras clave:
suicidio; neoliberalismo; adolescencia; psicoanálisis; patologías de lo social
Introdução
Estamos vivenciando um aumento dos números de ideações suicidas e de suicídios entre adolescentes e jovens negros/as no Brasil e no mundo. Dados obtidos por várias pesquisas apontam o suicídio como a segunda maior causa de morte entre jovens (OMS, 2000). Em relatórios epidemiológicos, o Ministério da Saúde analisou dados sobre mortes por suicídio e apontou que os resultados, entre os anos de 2011 e 2017, tiveram aumento de 10% na taxa de mortalidade por morte autoprovocada na população de 15 a 29 anos (Brasil, 2019).
Os dados desse relatório apontam algumas características que são consideradas fatores de risco de suicídio. O perfil dos jovens de 15 a 29 anos que se suicidaram no período de 2011 a 2017 era majoritariamente do sexo masculino (79,0%), negros/as (54,9%) e com 4 a 11 anos de estudo (58,2%). O relatório não aponta dados sobre renda familiar ou classe social desses jovens, porém, se considerarmos a escolarização como um aspecto que circunda as desigualdades sociais, percebemos que a maioria dos óbitos se deu entre jovens que não concluíram o ensino médio, sendo que 27,6% não havia concluído nem mesmo o ensino fundamental (Brasil, 2019).
Chama a atenção os dados sobre tentativas de suicídio e violência autoprovocada, que apresentam diferenças significativas no perfil das pessoas. No período de 2011 a 2018, 45,4% das notificações dos casos de violência autoprovocada ocorreram na faixa etária de 15 a 29 anos, sendo 67,3% de mulheres e 32,7% de homens. Dentre essas notificações, 34% dos casos puderam ser classificados como tentativas de suicídio; violência de repetição foi identificada em 32% das ocorrências, com maior frequência entre mulheres (33,6%), em comparação com os homens (28,6%) (Brasil, 2019).
Com isso, pretendemos demonstrar neste artigo que existe uma relação do suicídio com situações sociais degradadas e novas formas de vínculo social estabelecidas na realidade social. O aumento dos números de tentativas de suicídio direciona a investigação no sentido de tentarmos compreender esse fenômeno para além do determinismo biológico, levando em consideração as questões sociais e psíquicas que contribuem para o agravamento desse quadro.
Entendemos o sofrimento mental e o ato suicidário como o epicentro dos conflitos sociais e psíquicos na contemporaneidade. Devemos considerar os contextos sociais, as instituições e as várias dimensões da sociedade (vínculo social e as práticas discursivas), investigando como tudo isso afeta as pessoas e reflete nos números alarmantes da atualidade. De acordo com os dados levantados, fatores como raça, classe e gênero estão impactando as ações suicidas. Portanto, os levantamentos teóricos feitos aqui advêm, em grande medida, de produções das ciências sociais em diálogo com a teoria política. Utilizaremos esses vários campos do saber porque entendemos a complexidade do ato suicida e consideramos que as razões para o aumento observado, chegando ao estatuto de uma questão epidemiológica e de uma patologia social, são de múltiplas ordens.
Vamos, agora, traçar um caminho que propõe pensar a questão suicida a partir da noção de patologia social, como concebida pelo sociólogo Émile Durkheim e corroborada por Karl Marx. No caminho traçado por esses autores, pretendemos demonstrar que os vínculos sociais se fundam a partir de estruturas de afetos que definem as estruturas normativas da organização social (Safatle; Silva Junior; Dunker, 2018, p. 8), apontando que a tese durkheimiana e marxiana ainda podem ser utilizadas, na atualidade, no contexto do discurso neoliberal.
Suicídio como fenômeno social
A percepção de que o suicídio deve ser tratado como um fenômeno social foi inicialmente estabelecida por Émile Durkheim. Com o objetivo de fundar uma ciência da sociedade, o pensador acaba demonstrando como os aspectos individuais constituem e são constituídos pelo coletivo. A consciência individual é moldada no interior das representações comuns da sociedade, de modo que estas só adquirem sentido dentro daquele corpo social em particular (Durkheim, 1893/1999).
Na busca por definir métodos para a Sociologia, Durkheim trata da importância de definir o que é normal e o que é patológico quando se analisa uma sociedade. Assim como em outros conceitos propostos pelo sociólogo, a ideia de patologia é importada das ciências biológicas, que é utilizada para definir doenças que afetam, de algum modo, os sistemas fisiológicos. Porém, para uma ciência das sociedades, há particularidades, visto que uma doença (um vírus, uma bactéria, células cancerígenas, etc.) afeta corpos de forma a gerar sintomas semelhantes em qualquer indivíduo da mesma espécie e em qualquer período histórico. Porém, quando se trata de uma sociedade, um fenômeno atinge cada grupo social de forma distinta, de modo que algo só pode ser considerado uma patologia social a partir dos estudos e análises específicos daquela sociedade.
Com esse pressuposto, em As regras do método sociológico, Durkheim (1895/2007) estabelece outros pontos metodológicos para definir sociologicamente se algo é uma patologia social. Quando se observa que, em um determinado fenômeno social, há uma generalidade, ou seja, algo que ocorre em toda a sociedade, esse fato social é considerado normal; quando se trata de um desvio ou de uma mudança repentina na organização que não encontra coro moral no corpo social, considera-se que se trata de uma patologia. São chamados de normais os fatos mais gerais, e de patológicos os desvios dessa generalidade, que são submetidos aos jugos jurídicos ou morais pelo grupo. Também se considera que um fato social se torna patológico quando adquire grandes dimensões e ameaça o equilíbrio do organismo social.
Assim posto, o suicídio não pode ser considerado patológico pelo ato em si, porém, ao sofrer grandes variações em seus números ou ao acarretar consequências nocivas à estabilidade de determinada sociedade, passa a ser analisado como uma patologia social. “A enchente de mortes voluntárias não atesta a glória crescente de nossa civilização, mas um estado de crise e perturbação que, se persistir, pode vir a representar um grave perigo” (Durkheim, 1897/2002, p. 406).
Congruente à ideia de patologia social, outro conceito fundamental estabelecido por Durkheim foi o de “anomia”. O termo aparece pela primeira vez em sua tese de doutorado, Da divisão do trabalho social (Durkheim, 1893/1999). Se o fato social é compreendido por Durkheim como um conjunto de forças que se justapõem, o aparecimento da lógica do capital, que tem como consequência o individualismo e o esvaziamento das formas coletivas de vínculo social, a anomia vai se dar pela ausência de uma resposta coletiva para esse novo fato social. Aqui é importante destacar as mudanças produzidas no seio do corpo social pelo advento do capitalismo. Ou seja, a anomia é uma patologia social oriunda de transformações sociais, com efeito patológico gerado pela perda da normatividade moral e que se manifesta no ambiente social. Quando ocorre de forma crônica em uma sociedade, é por consequência da indeterminação normativa e social, que leva a atmosfera social ao adoecimento e essa sociedade à condição anômica.
Durkheim volta a tratar do conceito de anomia em O suicídio (1897/2002). A partir da análise de dados quantitativos sobre suicídio em países da Europa, constata que não se trata de ocorrências isoladas, mas de um fenômeno social:
Com efeito, se em vez de enxergá-los [os casos de suicídio] apenas como acontecimentos particulares [...] considerarmos o conjunto dos suicídios cometidos em uma determinada sociedade durante uma dada unidade de tempo, constataremos que o total assim obtido não será uma simples soma de unidades independentes [...] mas constituirá por si um fato novo e sui generis, que possui uma unidade e a sua individualidade, por conseguinte a sua natureza própria, e que, além disso, tal natureza é eminentemente social (Durkheim, 1897/2002, p. 17).
Esse trabalho se torna, assim, um marco no entendimento sobre o suicídio, ao buscar demonstrá-lo para além de ocorrências casuais ou, menos ainda, como decorrentes de desejos individuais. Durkheim (1897/2002) estabelece definitivamente o suicídio como um fenômeno social e um fato social, elucidando como nossas ações, pensamentos, sentimentos e desejos individuais encontram suas causas no coletivo e, ainda, como isso fará com que cada sociedade tenha uma aptidão definida para o suicídio que não pode ser explicada apenas por características do meio físico ou experiências individuais.
Nessa obra, o sociólogo classificou os tipos de mortes voluntárias de acordo com suas características. A última apresentada é o “suicídio anômico”. Encaixam-se nessa categoria as mortes ocorridas em contextos de intensas rupturas sociais, ou seja, em momentos de anomia social. Em geral, essas mortes são observadas em épocas de crise econômica, mas o autor observou que, em períodos de prosperidade econômica, as taxas de suicídio também tendem a crescer da mesma forma. Ocorre que, nas sociedades modernas, “a anomia é um fator regular e específico de suicídios; é uma das causas do contingente anual” (Durkheim, 1897/2002, p. 279), e esse estado constante de anomia é consequência da forma de organização dessas sociedades e dos modos frouxos de regulação, o que leva ao sofrimento e, em alguns casos, à morte voluntária.
Contudo, o aspecto que se destaca na obra de Durkheim é a contradição aparente de que, mesmo em períodos de prosperidade econômica, as taxas de suicídio não apenas não diminuem, mas podem até aumentar. Este fenômeno pode parecer paradoxal, uma vez que a prosperidade é geralmente associada ao bem-estar geral e à estabilidade social. No entanto, Durkheim argumenta que as sociedades modernas estão imersas em uma constante anomia - um estado de normatividade frouxa que, paradoxalmente, pode coexistir com crescimento econômico.
Os outros tipos de suicídios apresentados pelo sociólogo são o “suicídio egoísta” e o “suicídio altruísta”. Essas duas formas também se dão a partir de como o indivíduo se vê inserido na sociedade em que vive. O suicídio altruísta provém do fato de a justificação de sua existência individual parecer estar fora da própria vida. Isso ocorre quando os membros de uma sociedade se encontram demasiado integrados ao corpo social, fazendo com que sua existência faça sentido apenas e unicamente no coletivo; nesse caso, há a ausência de um sentimento de individualidade. Durkheim (1897/2002) afirma que esse tipo é comum às sociedades mais simples e cita como exemplos: suicídio dos que chegam ao limite da senilidade ou são atingidos pela doença, ou seja, quando os membros perdem utilidade para o grupo.
O suicídio egoísta deriva do fato de as pessoas não encontrarem uma justificativa para a vida; nesse caso, a sociedade se encontra ausente, não sendo capaz de estabelecer sentidos de existência e pertencimento. Como exemplo o autor utiliza as religiões. Ao discutir os dados estatísticos sobre religiões e suicídio, constata que as mortes variam independentemente do tipo de culto religioso em si, mas vão se relacionar ao modo com que tal grupo religioso está inserido na sociedade e ao modo como instaura certa moralidade religiosa. Por exemplo, cultos menos numerosos precisam se afirmar e exercer sobre os membros maior controle, excluindo os movimentos individuais e demandando subserviência; portanto, essa suposta proteção contra o suicídio “não é porque ela [a religião] lhe pregue, com argumentos sui generis, o respeito por si próprio; é porque se trata de uma sociedade” (Durkheim, 1897/2002, p. 172).
Para Durkheim (1897/2002), o suicídio é uma patologia social que começa a ter um estatuto diferente com a entrada na modernidade. A excessiva individualização, a ausência de laços sociais fortes, a ausência de regulamentação jurídica ou moral, as mudanças bruscas na organização social, que são características da modernidade, são também situações que podem levar indivíduos à morte voluntária.
Algumas décadas antes do sociólogo francês, Karl Marx havia escrito um pequeno texto, intitulado Sobre o suicídio (1846/2006), no qual aproxima as noções de suicídio e de patologia social. Nesse texto as concepções marxistas sobre o tema giram em torno de uma crítica radical à sociedade burguesa e ao moralismo da época. Para o autor, “o número anual dos suicídios, aquele que entre nós é tido como uma média normal e periódica, deve ser considerado um sintoma da organização deficiente da nossa sociedade” (Marx, 1846/2006, p. 24). Ele relaciona esse aumento com o cenário da industrialização, demonstrando que, nesse caso, o sintoma do suicídio assume um caráter epidêmico. Esse ambiente industrial foi promissor em termos de oportunidades, mas também gerou uma fragmentação das relações sociais. Com a migração em massa para os centros urbanos, os laços comunitários foram enfraquecidos, resultando em um senso de solidão e impotência. Marx, assim como Durkheim, argumenta que as condições socioeconômicas geradas pela industrialização não apenas criam vulnerabilidades econômicas, mas também desestabilizam as estruturas normativas que sustentam o bem-estar emocional e psicológico dos indivíduos. Desse modo, ao estudar a obra do jurista Jacques Peuchet (1758-1830), responsável pela guarda dos arquivos da polícia parisiense após a queda de Napoleão, Marx caminha de mãos dadas com o pai da sociologia, Émile Durkheim.
Assim como o presente artigo propõe um debate sobre o suicídio entre adolescentes e jovens negros(as) na sociedade brasileira, Marx, já naquela época, intersecciona a questão do suicídio a um recorte de gênero e à juventude, embora pareça que a questão racial não tenha sido relevante naquele momento. Desse modo, além de trazer o caráter epidêmico do suicídio, juntamente com as questões que o articulam à noção de patologia social, Marx apresenta três casos exemplares, sendo que dois desses são de jovens mulheres.
O discurso neoliberal e a descartabilidade
Neoliberalismo é o nome adotado para teorias e políticas de Estado liberais que surgiram na segunda metade do século XX, como contraposição ao Keynesianismo. Sua principal característica consiste em uma oposição teórica e política contra o Estado intervencionista, combatendo fortemente qualquer forma de planejamento estatal da economia e ações do Estado que limitem os mecanismos de mercado, utilizando como artifício o discurso do ideal de liberdade extrema, não somente econômica, mas também política. De acordo com seus defensores, “a razão é incapaz de reconstruir a ordem social, portanto, o uso de qualquer forma de planejamento na economia seria consequência de um equívoco teórico, devendo-se permitir que a ordem espontânea do mercado se manifeste livremente” (Rizzotto, 2009). O neoliberalismo aparece como um discurso que altera a organização social, afetando a vida dos indivíduos. A produtividade se torna cada vez mais ligada ao empreendimento da construção de uma identidade, de uma imagem de si, voltada para o individualismo, na qual sujeitos interpretam os outros como concorrentes.
Para compreendermos o neoliberalismo no âmbito da noção de discurso, vamos percorrer as construções de alguns autores contemporâneos, a fim de descrever como o modelo neoliberal ultrapassa políticas econômicas, afetando os corpos a partir de um discurso que tem consequências no comportamento dos sujeitos.
O filósofo Byung-Chul Han, no livro Sociedade do cansaço (2010/2017), aponta que no século XXI, no Ocidente, a enfermidade fundamental são as doenças neuronais (depressão, TDAH, Síndrome de Burnout, ansiedade) provocadas pelo excesso de positividade. A positividade é uma violência que resulta dos exageros, do excesso das coisas, da superprodução, autodesempenho ou super comunicação, vivenciadas e produzidas no interior do sistema social e econômico capitalista e imanentes a ele. Segundo o autor, a mudança dessa perspectiva ocorre como efeito do discurso neoliberal, que afeta as formas de comportamento, levando os indivíduos a maximizar a produção: “Para elevar a produtividade, o paradigma da disciplina é substituído pelo paradigma do desempenho [...] a positividade do poder é bem mais eficiente que a negatividade do dever” (Han, 2010/2017, p. 25). Além disso, “Quem fracassa na sociedade de desempenho, em vez de questionar a sociedade ou o sistema, considera a si mesmo como responsável e se envergonha por isso” (Han, 2014/2020, p. 16), o que causa depressão e esgotamento como traços enfermos da sociedade atual. A economia controla a vida de tal forma que consegue assimilar as formas capitalistas de vida econômica e sua capacidade de integrar o eu em seus próprios imperativos funcionais.
Podemos dizer que a utilização do substantivo “cansaço” para referir-se a um momento histórico não é infundada, pois entendemos que o pensador sul-coreano faz um diagnóstico de uma época, apontando as consequências do imperativo do desempenho, produzido pelo discurso neoliberal, sobre o comportamento. Queremos aqui defender a ideia de que o discurso neoliberal afeta, no nível intrapsíquico, os sonhos, os pensamentos e as fantasias, impelindo os corpos a uma produção incansável, de maneira a atender a lógica do capital e uma temporalidade virtual, levando a razão a um imperativo de produtividade insuportável.
O imperativo do desempenho, que se impõe “como um novo mandato da sociedade pós-moderna do trabalho” (Han, 2010/2017. p. 27), passa a reger as ações individuais e coletivas, construindo essa sociedade superprodutiva e cansada. Sobre essa sociedade, é importante destacar que, mesmo deixando de ser disciplinar, ainda há o controle sobre os indivíduos - a sociedade do desempenho não é uma sociedade livre. Nesse sentido, observamos um deslocamento do panóptico, um controle que teria um ponto cego em seu funcionamento, para o “pan-ótico” digital, um controle em que todos controlam todos, sem ponto cego.
As modificações nas estruturas econômicas e políticas trouxeram novas formas de coerção. O controle não é propriamente externo e punitivo, ele se manifesta no interior dos sujeitos de desempenho que, alimentados pelo seu ego (narcisismo) e busca pelo sucesso, acabam por se supervisionar em seu trabalho, sendo exploradores de si mesmos. Assim, na sociedade do trabalho, “o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho” (Han, 2010/2017, p. 47), e os sujeitos são colocados sob o dever de serem empreendedores de si. Suas máximas são liberdade e boa vontade. Com tudo isso, a sociedade do desempenho produz sujeitos cansados, depressivos e fracassados.
O sujeito do desempenho, por crer servir somente a si, se julga livre de qualquer coação, mas na verdade a sua própria ideia de liberdade é o que provoca coerções. O neoliberalismo explora exatamente as supostas expressões da liberdade. O capital cria a noção de liberdade individual e a torna uma liberdade indispensável; os indivíduos se percebem isolados e imperiosamente necessitados de competir livremente uns contra os outros, e é dessa competição que o capital se alimenta e se fortalece: “O capital explora a liberdade do indivíduo para se reproduzir” (Han, 2014/2020, p. 13). Por meio desse discurso de liberdade e competição individual constante, cria-se um crescente isolamento dos sujeitos - um isolamento total produzido pelo regime neoliberal que, na prática, não os torna verdadeiramente livres (Han, 2010/2017). Afinal, é justamente por meio desses processos que surgem as possibilidades de coerção e exploração do sujeito de desempenho.
Pierre Dardot e Christian Laval (2009/2016), ao discutirem a condição de produção de um sujeito individual pelos procedimentos neoliberais, defendem a tese de que o neoliberalismo, para além de uma ideologia ou política econômica, é uma forma de racionalidade que vai estruturar e organizar tanto as ações dos governantes quanto a conduta dos governados. Para os autores, “O neoliberalismo é a razão do capitalismo contemporâneo” ( Dardot; Laval, 2016, p. 17), e produz um conjunto de discursos, práticas e dispositivos que compõem um estado de governo gestado pelo princípio da concorrência. Essa razão vai ser incorporada não só pelos organismos públicos, mas também pelos sujeitos que vivem sob seus desmandos.
Com o neoliberalismo, os cidadãos são vistos como consumidores de bens e serviços provenientes do governo e do Estado. A lógica que rege esse governo é gestada pela economia de dores e prazeres e pela vigilância de todos por todos. A partir disso, fabrica-se o novo sujeito neoliberal, as técnicas de coerção e docilização dos corpos são substituídas pela nova gestão do sujeito, a fim de que ele se veja como um empreendedor de si, ou seja, ele trabalha para a empresa como se trabalhasse para si mesmo. A principal consequência disso é a imposição, ao sujeito, de um trabalho interior constante, e, desse modo, a economia é transformada em disciplina pessoal, na gestão de si mesmo, que é avaliada através do comprometimento subjetivo com o trabalho.
A ascensão do neoliberalismo tem como meta aquilo que Michel Foucault (1979/2008, p. 87) nos ensinou no curso de 1979: “governar para o mercado”. Esse axioma passa a ser o imperativo dessa nova ordem social, que adota a competição e o livre mercado como agentes de regulação de seu funcionamento. Esse novo funcionamento social cria regras e leis que transformam o indivíduo em uma empresa, ou melhor, uma microempresa de novos indivíduos competindo consigo mesmos e com os outros, tornando-se empresários de si mesmos. No Brasil, temos a criação da figura jurídica do MEI (microempreendedor individual), em meados dos anos 2000, e a linguagem do empreendedorismo entre os jovens substituiu algumas outras nomeações que apareciam com mais frequência até então; ativistas, revolucionários e companheiros foram substituídos por performance, desempenho, produtividade, investimentos e outras.
É importante destacar que, a partir do discurso neoliberal, a dimensão coletiva começa a se esvaziar, enquanto questões individuais e competitivas ganham destaque. Os jovens passam a se ver mais como rivais do que como companheiros de luta por uma transformação social e política. As questões individuais vão se sobrepondo às coletivas e comunitárias, influenciando comportamentos, sonhos, fantasias e corpos.
Esse modelo neoliberal propõe que as práticas de trabalho sejam realizadas de forma não linear. Sennett (2006, p. 123) descreve que, numa lógica meritocrática, cada vez mais individualista, algumas pessoas são reconhecidas como verdadeiramente talentosas, e os restantes são relegados à dimensão de uma massa descartável. O mito do vencedor e do perdedor ganha uma grande proporção; os que perdem passam a se ver como sujeitos que não têm nenhuma função social. A relevância, para se compreender o impacto do discurso neoliberal, é que ele implica a fusão de estruturas sociais (raça, classe e gênero) de desigualdade e as relações intersubjetivas que socializam o ego (performance, rendimento e produção).
Neste ponto é importante trazer os dados das pesquisas mencionadas no início do artigo, que apontam para uma relação entre raça, classe e gênero com a ação suicida. Esses dados revelam que uma parcela significativa de um determinado grupo social está mais vulnerável a cometer suicídios: jovens, negros, do sexo masculino, com baixa escolaridade (Brasil, 2019); são esses, pela lógica do discurso liberal, a parte significativa da população que compõe uma massa de sujeitos descartáveis.
Os pertencentes a essa massa sentem que só podem culpar a si mesmos por não serem especiais e vitoriosos. Sem que se perceba a ação da estrutura social, o resultado aparece simplesmente como fruto de mérito individual. Sennett (2006, p. 54) considera que uma consequência importante para a psicologia individual é que as pessoas se sentem ansiosas não tanto pelo fracasso, mas por serem consideradas inúteis, redundantes e dispensáveis.
Os impactos do discurso neoliberal manifestam uma lógica contraditória de não reconhecimento de diversos grupos sociais, relegando-os à condição de resíduos sociais. O individualismo promovido pelo neoliberalismo se distancia cada vez mais das dinâmicas sociais, gerando uma crise de empatia e de responsabilidade coletiva. Esse individualismo se apresenta como uma forma dominante de reconfiguração do espaço social, resultando em uma coletividade de “Eus”. Essa situação levou a uma redução significativa da solidariedade social, com uma considerável parte da população - como negros/as, moradores/as de periferias, LGBTQI e pessoas consideradas loucas - sendo frequentemente vista como uma ameaça. Esses grupos são, muitas vezes, criminalizados ou excluídos de qualquer perspectiva de reconhecimento e inclusão, manifestando forças que se interseccionam.
É importante destacar que os desafios de saúde mental ligados ao capitalismo neoliberal têm se tornado cada vez maiores. A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou o relatório Social Determinants of Mental Health (WHO, 2014, p. 98), no qual aponta que jovens e adolescentes negros, com menor poder aquisitivo, apresentam maior tendência a desenvolver problemas de saúde mental. O relatório também constatou que nos últimos anos houve um aumento desses problemas entre jovens negros desempregados, sem expectativas e sem vínculos sociais. Questões como perda de emprego, falta de perspectiva e ausência de sentido na vida têm contribuído para o crescimento dos transtornos mentais. Além disso, as tentativas de suicídio entre adolescentes negros cresceram 73% entre 1991 e 2017 (Zeira, 2021, p. 56), um dado que revela o caráter epidêmico desse fenômeno.
Com esses dados, conseguimos abordar a questão da patologia social, como trabalhada por Axel Honneth (2014), a partir do discurso neoliberal. O autor alemão faz uma leitura aprofundada desse discurso, propondo pensar a patologia social a partir dos seguintes aspectos: invisibilização, racionalização instrumental, reificação e autorrealização organizada. Em relação ao primeiro aspecto, o filósofo chama a atenção para como a invisibilidade expõe mecanismos sociais que perpetuam padrões amplamente compartilhados de reconhecimento social. Ele contrasta a visibilidade e o reconhecimento com a invisibilidade e o não reconhecimento, evidenciando como essa invisibilidade oculta os mecanismos de distúrbios de não reconhecimento. Isso resulta em membros da sociedade sendo cobertos por um verniz social, onde padrões naturalizados de classes e grupos diferenciados reproduzem práticas hegemônicas.
Para o autor, para não reproduzirmos os efeitos de invisibilidade, devemos perceber a presença física e psicológica do outro como diferente, a partir do mecanismo de intersubjetividade - por exemplo, porque eles são sujeitos em seu campo visual, e é preciso criar alguma forma elementar de identificação individual deles como um indivíduo, adotando posturas positivas de sua identidade e de seu comportamento. Honneth (2014, p. 157) diz que podemos falar de patologias sociais quando há uma “deterioração das capacidades racionais de membros da sociedade ao participar da cooperação social de maneira competente”. Isso ocorre quando os membros da sociedade não compreendem os significados das práticas e normas que regem a lógica neoliberal podemos falar de uma “patologia social”. A inabilidade das práticas e das gramáticas normativas de visibilidade no neoliberalismo é decorrente desta patologia.
Para Honneth (2014), a interação com o outro, por meio de práticas de reconhecimento que atendem às questões intersubjetivas (atenção, olhar e toque), constitui meios possíveis de produção de visibilidades, instituindo práticas performáticas de relacionamento com o outro, reconhecendo a validade social desse outro. Nesta medida, as patologias sociais se apresentam como uma resposta à não assimilação da gramática normativa social (Honneth, 2014 p. 209). A incapacidade do indivíduo de se situar no meio social para poder agir é um dos aspectos da patologia social que gera invisibilidade. Essa hipótese de Honneth sobre a invisibilidade produzida pelo discurso neoliberal tem como consequência problemas de adoecimento psíquico, que são determinantes para pensarmos a ação suicida a partir da noção de patologia social.
3 Adolescentes e jovens negros
Para a psicanálise, a adolescência é uma fase subjetiva, em que ocorrem mudanças nos níveis corporal, sexual e relacional, dando origem a uma escolha exogâmica à medida que se desenvolve um desinvestimento libidinal em relação aos objetos de amor endogâmicos, adotando-se, assim, uma posição sexual específica. Freud (1905/1996), em “Metamorfoses da Puberdade”, dirá que a puberdade produz “o desapego da autoridade parental, criando uma oposição tão importante para o progresso da cultura, entre a nova e a velha geração” (1905/1996, p. 135).
Para que ocorra um desinvestimento libidinal em relação aos seus objetos endogâmicos, é necessário que o sujeito tenha sido previamente investido, isto é, que suas figuras paternas lhe tenham proporcionado um lugar de amparo. Freud (1995/1906), em “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, já falava sobre a sexualidade da criança e o papel fundamental de seus cuidadores em relação ao cuidado, olhares, carícias, apoio e desejo, que fomentam o desenvolvimento de seu aparelho psíquico. O que acontece, então, na adolescência se os sujeitos não receberam investimento libidinal no início de suas vidas? O que acontece com o desenvolvimento intrapsíquico de alguns jovens negros brasileiro? Ao passarem por este processo de separação, como isso se efetua, se muitos deles não tiveram os referenciais paternos?
No Brasil, há jovens que sofreram abuso sexual na infância ou adolescência, abandono por parte de um cuidador, violência física e emocional. Na maioria dos casos, são negros e representam 65,6% das vítimas de violência sexual, segundo dados do IPEA (Brasil, 2021). Neste ponto, pretendemos trazer à tona a questão da adolescência e do suicídio juntamente com o debate racial.
Com relação à subjetivação da questão do suicídio, é importante lembrar que ele é um ato movido por um afeto que pode se manifestar a partir da culpa ou da vergonha. O desespero que se subjetiva pela ação suicida é um sentimento ou afeto que faz surgir a culpa de maneira avassaladora, e o ato suicida responde à culpa, como uma autopunição. Esse desespero tem origens na lógica do reconhecimento social, psíquico e racial. E aqui construímos a ideia de que a maioria dos sujeitos negros não conseguem efetivar a questão do reconhecimento nestes três níveis: social, psíquico e racial. O que estes sujeitos vivem no nível intrapsíquico é a ruína do eu, com o sentimento de descartabilidade, produzido no nível social do discurso neoliberal. O que vemos é uma dupla segregação: a ausência de referências paternas na adolescência e uma sociedade que os descarta por julgar que eles não têm nenhuma utilidade.
O que se processa é o efeito da culpa, gerado principalmente pela vergonha, que afeta o narcisismo mais profundamente, agravado juntamente com o discurso neoliberal. Existem diversas outras diferenças entre culpa e vergonha (Ciccone; Ferrant, 2015); uma delas reside no fato de elas não terem os mesmos desfechos ou os mesmos tratamentos. A culpa pode ser reprimida (nem sempre), e a vergonha é mais frequentemente enterrada, encapsulada, pressupondo uma estrutura diferente, na qual o que está enterrado é simultaneamente revelado (Ciccone; Ferrant, 2015 p.34).
Em uma roda de conversa, realizada pelos autores deste artigo, um adolescente negro que teve pensamentos suicidas disse o quanto não suportava sua cor de pele. Ele desejava que o confinamento da pandemia durasse para sempre, para nunca ter que sair de casa. A sua pele negra era algo que todos podiam ver e o que fazia sentir-se envergonhado, mas era também, e acima de tudo, a ferida narcisista, que gera um sentimento que pode ser extremamente persecutório e que faz a pessoa querer fugir, se enterrar, desaparecer. O adolescente frequentemente tinha sentimentos de humilhação.
Poderíamos também pensar que esse adolescente está simplesmente mostrando, de forma exacerbada, como muitos adolescentes lidam com sua necessidade de atrair atenção. O compromisso consiste em chamar a atenção para a superfície: a fantasia, o disfarce, o uniforme. Ou, neste caso, a beleza física, estética. O olhar do outro é de fato atraído, o sujeito está de fato no centro da cena, o que lhe permite sentir que existe, mas é um olhar de superfície, o sujeito verdadeiro permanece oculto por trás do disfarce. O disfarce, provocativo e ostentoso, alcança esse compromisso de responder tanto à busca por atenção quanto às ansiedades persecutórias que o olhar dos outros desencadeia.
Vale lembrar que Melanie Klein (1936/1996 p. 45) considerou o suicídio como uma medida protetora para o objeto bom. Se o ato suicida visa o objeto interno mau para proteger o bem externo, podemos também dizer que o suicídio é uma inversão contra si mesmo da violência dirigida ao objeto. O ataque ao corpo é também, em parte, um ataque ao objeto dentro do corpo, o objeto incorporado. O sujeito comete um assassinato do objeto dentro do corpo.
Mas se o ataque suicida envolve atacar o corpo, também envolve atacar a ansiedade e a emoção, silenciando-as, expulsando-as. Um adolescente que se preparava para o suicídio escreveu uma carta na qual dizia: “Não chore, você só me machucaria”. Trata-se, de fato, de se livrar da dor, das lágrimas, exportá-las, triunfar sobre o sofrimento psíquico.
Outro adolescente negro, convencido de que este mundo não é para ele, imagina seu suicídio após sua partida para outra cidade, onde decide viver nas ruas, deixando-se morrer de frio, longe de tudo. Vemos a necessidade de se distanciar da dor, das lágrimas, de congelar as emoções, de silenciar qualquer sentimento experimentado como uma queimadura intolerável.
O suicídio é, portanto, o ato de ruptura por excelência com o Outro simbólico que sustenta o vínculo social e intrapsíquico, e esse ato não é concebido, de uma perspectiva psicanalítica, apenas como uma realidade externa ao sujeito, mas também como interna. Apesar de a passagem ao ato suicida não poder ser entendida sem considerar sua dimensão social e ter indiscutivelmente um aspecto social, para a psicanálise também deve-se levar em conta sua conexão com a subjetividade.
Seguindo um caminho parecido, Frantz Fanon, em seu livro Pele negra, máscaras brancas (2008, p. 180), destaca que Hegel considera que o homem “só é humano na medida em que ele quer se impor a outro homem, a fim de ser reconhecido”. Enquanto ele não é efetivamente reconhecido pelo outro, é esse outro que permanece o tema de sua ação. A partir desse ponto, Fanon demonstra que o lugar do negro está pautado a partir da lógica do reconhecimento, exatamente porque ele não é reconhecido. O que ocorre no discurso neoliberal, a partir da hipótese de descartabilidade e do lugar de resto, é o não reconhecimento da figura do negro, pois os cenários de dominação do discurso neoliberal exigem uma relação consigo mesmo e um autodesempenho de “despersonalização e estranhamento absoluto” (Fanon, 2008, p. 34). O bloqueio que desobstrui o reconhecimento hegeliano do “um pelo outro”, na troca do olhar racial, vem da estrutura especular historicamente específica do racismo, e não de um mecanismo geral de autoidentificação. As implicações políticas desse processo são a segregação de um grupo social que não é reconhecido, e que é produzido pelo discurso neoliberal.
Na mesma obra, Fanon destaca que Hegel considera o “homem na medida em que quer impor a um outro homem, a fim de ser reconhecido” (p. 180). Enquanto ele não é efetivamente reconhecido pelo outro, é este outro que permanece o tema de sua ação. Sob essa concepção, o autor sublinha que os negros antilhanos, ou qualquer raça que tenha sido colonizada, possuem duas grandes escolhas frente ao colonialismo: o embranquecimento ou a inexistência. A linguagem, para o autor, é um instrumento cultural privilegiado para o embranquecimento. O autor aponta que o negro antilhano que domina a língua francesa é um pouco mais próximo do branco, “do homem verdadeiro” (Fanon, 2020, p. 31). Entretanto, nesse caso, ainda que o negro possa se apropriar da língua do colonizador, persiste, na própria linguagem, uma reificação do lugar de objeto. Esse olhar, atravessado pela lógica da branquitude, produz efeitos de desumanização, aproximando-se daquilo que Fanon descreve como a experiência do corpo negro reduzido a objeto sob o regime colonial: um corpo visto antes de ser reconhecido.
A branquitude, como pacto narcísico de autopreservação, opera subjetivando o negro - o outro - como descartável. Como norma silenciosa, ela atua na manutenção de privilégios e na produção de mortes simbólicas e materiais, incidindo diretamente sobre os corpos que são lançados à margem, como os corpos em situação de rua. Não raro, articula-se a uma lógica necropolítica que elege um suposto inimigo e autoriza práticas de exclusão, abandono e extermínio.
Existem pesquisas corroborando que a discriminação racial produz efeitos de depressão, violência e suicídio, entre outros tipos de comportamentos que podem culminar no ato suicida da juventude negra (Hope; Hoggard; Thomas, 2015, p. 34). A discriminação e a invisibilização são um fator de risco para minorias raciais e étnicas, operando como uma força externa que cria transtornos psíquicos na saúde mental dos indivíduos. Os sentimentos de inutilidade e de invisibilidade engendrados pelo não reconhecimento no campo social podem fazer com que os jovens se voltem para si mesmos, produzindo sentimentos de culpabilização e fracasso e levando esses sujeitos ao comportamento suicida (Chance; Kaslow; Summerville; Wood, 1998, p. 56).
Além das questões relacionadas à descartabilidade e à invisibilidade da juventude negra, é importante lembrar que a criminalização e o controle dos/as jovens negros/as existem desde a escola, ou seja, a criminalização e a segregação começam desde cedo, quando se rotula e se expulsa os/as alunos/as negros/as do ambiente escolar. A vigilância constante é realizada nos prédios, bairros, favelas e comunidades onde esses/as jovens vivem e onde são constantemente parados/as e revistados/as, produzindo efeitos de não reconhecimento e de discriminação social.
Conclusão: a dupla segregação e as tentativas de construção de vínculo a partir de políticas de reconhecimento
Com base nos estudos apresentados neste artigo, foi possível comprovar que há uma convergência simbiótica entre o livre mercado capitalista e o pensamento neoliberal, que ou reconhece o cidadão como consumidor ou não o reconhece, excluindo-o como lixo, descartando-o. A partir daí, pudemos elucidar o impacto da economia neoliberal, que se desdobra como discurso, afetando o campo subjetivo, e como essa economia cria um sujeito sem referenciais coletivos, impingindo-lhe o estatuto de resto social. Esse indivíduo não reconhecido, torna-se vulnerável ao ambiente discursivo neoliberal, perdendo-se na dimensão da patologia social que se manifesta, no limite, pelo autoaniquilamento.
Constatamos que nossos pensamentos, assim como nossos comportamentos, sonhos e fantasias, não estão livres do contexto social de nossa época; pelo contrário, existe uma gramática do sofrimento que obedece às formas de controle social e às práticas de normatização. Sobre esse aspecto, pudemos elucidar que o processo de individualização gerado pela industrialização, na modernidade, fortalecido durante a ascensão do consumismo pós-Segunda Guerra Mundial, se manifesta de maneira mais intensa na subjetividade neoliberal e produz um aumento do número de suicídios em meio à juventude negra.
Nesse percurso sócio-histórico, demonstramos que a noção de suicídio pode ser interpretada como uma patologia social. Essa articulação se deve, entre outros fatores, ao discurso de uma época que implantou novas formas de vínculo social e práticas que fomentam comportamentos. Em um primeiro momento, com a crítica social da modernidade de Durkheim (1987/2002) e de Marx (1846/2006), o suicídio aparece como resultado de um processo civilizatório que impactou a subjetividade de cada um, trazendo novas formas de sofrimento e mal-estar. Alguns séculos mais tarde, com o aparecimento da economia liberal, surgem novos modelos de organização social, conformando o discurso neoliberal, cujos efeitos levaram vários autores a apontar que esse discurso produz a segregação, culpabilizando os sujeitos que não assimilam e não se identificam com a lógica individualista e competitiva do empresário de si mesmo. É assim que assistimos a uma parcela significativa de jovens negros/as e com baixa escolaridade cometendo o suicídio - as estatísticas apontaram que o suicídio entre os jovens adolescentes negros é maior do que em outros grupos sociais, consistindo em um problema relacionado a uma patologia social produzida pelo discurso neoliberal.
A hipótese que quisemos defender é a de que o suicídio é a ponta do iceberg de uma patologia social, cuja origem está no deslocamento de uma organização social calcada no bem comum e que agora se revela como uma sociedade competitiva, individualista e segregacionista, produzida pelo discurso neoliberal. Esse novo modelo social cria novos vínculos e laços sociais, afetando e criando barreiras entre os processos individuais e intrapsíquicos e o campo social. O suicídio aparece, então, como resultado desse conflito individual e social que encontramos com mais evidência entre os jovens adolescentes.
A questão intrapsíquica também afeta a questão social, uma vez que os jovens adolescentes não encontram uma resposta no campo social em que possam ancorar as suas identidades. Desse modo, temos duas forças que se justapõem, afetando e impelindo os jovens adolescentes a praticarem o ato suicida: a força do discurso neoliberal e as forças intrapsíquicas que caracterizam a vida desses jovens na passagem da vida infantil para a vida adulta.
Neste artigo, tentamos demonstrar que as populações vulneráveis, e mais especificamente a população da juventude negra, no Brasil e no mundo ocidental, constituem o grupo social mais atingido pelo discurso neoliberal. Esse discurso, nos últimos trinta anos, redefiniu o papel do Estado, que sai da posição de garantidor dos direitos e dos acessos básicos para uma posição de defensor do livre mercado e da competição, produzindo uma massa populacional de invisibilizados.
Disponibilidade de dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
Referências
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Perfil epidemiológico dos casos notificados de violência autoprovocada e óbitos por suicídio entre jovens de 15 a 29 anos no Brasil, 2011 a 2018. Boletim Epidemiológico, n. 54, 2019. v. 50.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Perfil epidemiológico dos casos notificados de abuso sexual e violência. 2015 a 2021. Boletim Epidemiológico, n. 21, 2021. v. 51.
- CHANCE, Susan E.; KASLOW, Nadine J.; SUMMERVILLE, Mary B.; WOOD, Keith. Suicidal behavior in African American individuals: current status and future directions. Cultural Diversity and Mental Health, v. 4, n. 1, p. 19-37, 1998.
- CICCONE, Albert; FERRANT, Alain. Honte, culpabilité et traumatisme Paris: Dunod, 2015.
- DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016.
- DURKHEIM, Émile. (1893). Da divisão do trabalho social 2. ed. Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
- DURKHEIM, Émile. (1897). O suicídio Trad. Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2002.
- DURKHEIM, Émile. (1895). As regras do método sociológico 3. ed. Trad. Paulo Neves e Eduardo L. Nogueira. São Paulo: Martins Fontes , 2007.
- FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas Trad. Renato da Silveira. Salvador, BA: EDUFBA, 2008.
- FREUD, Sigmund. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 7, p. 119-229.
- FOUCAULT, Michel. (1979). Nascimento da biopolítica (1978-1979) Trad. Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes , 2008.
- HAN, Byung-Chul. (2010). Sociedade do cansaço Trad. Enio Paulo Giachini. 2. ed. ampl. Petrópolis: Vozes, 2017.
- HAN, Byung-Chul. (2014). Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Trad. Maurício Liesen. 7. ed. Belo Horizonte: Âyiné. 2020.
- HONNETH, Axel. Freedom’s right: the social foundations of democratic life. New York: Columbia University Press, 2014.
- HOPE, Elan C.; HOGGARD, Lori S.; THOMAS, Alvim. Emerging into adulthood in the face of racial discrimination: psychological, and sociopolitical consequences for African American Youth. Translational Issues in Psychological Science, v. 1, n. 4, p. 342 351, 2015.
- KLEIN, Melanie. (1936). O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos. In: BARROS, Elias M. da Rocha; (Org.).Amor, culpa e reparação e outros trabalhos Rio de Janeiro: Imago , 1996. p. 358-412.
- MARX, Karl. (1846). Sobre o suicídio Trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2006.
-
RIZZOTTO, Maria Lúcia Frizzon. Neoliberalismo e saúde. Dicionário da Educação Profissional em Saúde Fundação Oswaldo Cruz, 2009. Disponível em: Disponível em: http://www.sites.epsjv.fiocruz.br/dicionario/verbetes/neosau.html Acesso em: 12 jun. 2024.
» http://www.sites.epsjv.fiocruz.br/dicionario/verbetes/neosau.html - SAFATLE, Vladimir; SILVA JUNIOR, Nelson da; DUNKER, Christian (Org.). Patologias do social: arqueologias do sofrimento psíquico. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.
- SENNETT, Richard. A cultura do novo capitalismo Trad. Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2006.
-
OMS - Organização Mundial da Saúde. Departamento de Saúde Mental. Prevenção do suicídio: manual para professores e educadores. Genebra, 2000. Disponível em: Disponível em: https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/9c9ab292-fa72-46c9-b93a-aec56b841c62/content Acesso em: 21 mar. 2023.
» https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/9c9ab292-fa72-46c9-b93a-aec56b841c62/content -
WHO - World Health Organization. Social Determinants of Mental Health, Geneva, 2014. Disponível em: Disponível em: https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/539fec7f-eadc-43ea-b12a-8dba1793381b/content Acesso em: 22 ago. 2024.
» https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/539fec7f-eadc-43ea-b12a-8dba1793381b/content - ZEIRA, Anna. Mental health challenges related to neoliberal capitalism in the United States. Community Mental Health Journal, v. 58, n. 2, p. 205-212, 2021.
-
Como citar este artigo:
ABNT CASTILHO, Pedro Teixeira; MOURA, Maísa. O suicídio como patologia social: efeitos do discurso neoliberal em adolescentes negros/as na contemporaneidade. Fractal, Rev. Psicol., Niterói, v. 38, e59938, 2026. https://doi.org/10.22409/w193d358 APA Castilho, P. T., & Moura, M. (2026). O suicídio como patologia social: efeitos do discurso neoliberal em adolescentes negros/as na contemporaneidade. Fractal, Rev. Psicol., 38, e59938. https://doi.org/10.22409/w193d358
Editado por
-
Editora responsável pelo processo de avaliação:
Cláudia Castanheira de Figueiredo
