Resumo
Este estudo investiga como o prolongado fechamento das creches públicas durante a pandemia de Covid-19 foi vivenciado por mulheres de classes populares, considerando a colonialidade do cuidado e um sistema de reprodução estratificada que organiza desigualmente as possibilidades de criar filhos na sociedade brasileira. A pesquisa etnográfica foi conduzida em 2023, sendo baseada em conversas informais e uma roda de conversa realizada em uma creche pública em uma favela da Zona Norte do Rio de Janeiro, complementadas por entrevistas semiestruturadas com mães que tinham filhos matriculados nessa creche no início da pandemia. Analisamos os principais desafios enfrentados por essas mães, predominantemente negras, e como vivenciaram a maternidade nesse contexto crítico. O objetivo é destacar a importância de uma perspectiva analítica interseccional que considere as intersecções entre gênero, raça, classe e território na compreensão da relação entre a pandemia e o cuidado cotidiano das crianças em espaços domésticos.
Palavras-chave:
pandemia; maternidade; classes populares; cuidado
Abstract
This study investigates how the prolonged closure of public daycare centers during the COVID-19 pandemic was experienced by women from lower classes, considering the coloniality of care and a stratified reproduction system that unequally organizes the possibilities of raising children in Brazilian society. The ethnographic research was conducted in 2023, based on informal conversations and a discussion circle at a public daycare center in a favela in the northern zone of Rio de Janeiro, complemented by semi-structured interviews with mothers who had children enrolled in that daycare at the onset of the pandemic. We analyzed the main challenges faced by these predominantly Black mothers and how they experienced motherhood in this critical context. The aim is to highlight the importance of an intersectional analytical perspective that takes into account the interconnections between gender, race, class, and territory in understanding the relationship between the pandemic and the everyday care of children in domestic spaces.
Keywords:
pandemic; motherhood; lower classes; care
O combate à pandemia de Covid-19, uma emergência de saúde pública global, apresentou heterogeneidades em relação às medidas efetivamente implementadas em cada local e mesmo no interior de cada país. Apesar de tais desigualdades, o isolamento social e, com ele, a interrupção das atividades presenciais das instituições de ensino foram ações sanitárias concretizadas em diferentes países e que geraram impactos nas experiências de maternidade e de cuidado de crianças em grande parte do mundo (Green; O’Reilly, 2021).
No Brasil, o fechamento de creches e escolas foi a “primeira e mais homogênea medida de contenção do coronavírus em todo o território nacional” (Cortez, 2022, p. 108). Fomos o quarto país do mundo que mais tempo permaneceu com as escolas fechadas durante a pandemia de Covid-19, segundo o relatório da Organização para Cooperação do Desenvolvimento Econômico divulgado em outubro de 2022 (OECD, 2022). Em março de 2020, todas as instituições de ensino paralisaram suas atividades presenciais e, após sucessivos adiamentos da reabertura escolar, a maioria das instituições privadas retomou as aulas em outubro do mesmo ano, enquanto as creches e escolas públicas começaram a reabrir de maneira lenta e gradual em março do ano seguinte, com retorno integral em outubro de 2021 (Lowenkron, 2022). Ou seja, foi um período de sete meses, no caso das instituições particulares, e mais de um ano e meio, no caso das públicas, em que as famílias não puderam contar plenamente com o suporte das creches e escolas para cuidar de suas crianças.
Como esse fato impactou a vida dessas mulheres? Ou melhor: houve impacto? Para quais mulheres? O prolongado período de interrupção das atividades escolares foi objeto de intenso debate público e de uma polarização entre os que defendiam a determinação por motivos sanitários e aqueles que estariam mais preocupados com as danosas consequências do prolongado fechamento para a vida das crianças e das famílias. Parte dos problemas apontados por alguns grupos que defendiam a reabertura das creches e escolas era a questão do cuidado das crianças no espaço doméstico, em especial por suas mães, já que as mulheres são mais responsabilizadas socialmente pelo trabalho não remunerado de cuidado.
Como evidencia a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) (IBGE, 2022), as mulheres dedicam em média quase o dobro de tempo que os homens aos afazeres domésticos e/ou de cuidado de pessoas (21,3 horas semanais delas contra 11,7 horas deles). Com a pandemia, essa sobrecarga de trabalho feminino não remunerado aumentou a partir do momento em que as medidas de isolamento social foram decretadas e o cuidado passou a se concentrar exclusivamente nos domicílios com o fechamento de creches e escolas. Em pesquisa sobre o trabalho e a vida das mulheres na pandemia no Brasil, 50% das entrevistadas afirmaram que passaram a se responsabilizar pelo cuidado de alguma pessoa em 2020. E, das mulheres que cuidavam de alguém, 72% afirmaram que, durante a pandemia, houve um aumento da necessidade de monitoramento e companhia dentro do domicílio da pessoa com deficiência, idoso ou criança que era cuidada. Ou seja, para além dos cuidados mais específicos como o auxílio na alimentação, essa dimensão ainda mais invisibilizada do cuidado também aumentou (Gênero e Número; Sempreviva Organização Feminista, 2020).
Mas será que essa intensificação do trabalho feminino de cuidado no contexto doméstico durante crise sanitária foi vivenciada por todas as mulheres da mesma maneira? Observamos que nos discursos públicos sobre maternidade na pandemia, especialmente nos materiais que circulavam nas redes sociais sobre cansaço materno ou cuidado de crianças, as experiências de mulheres mães tendiam a ser retratadas de maneira generalizante, sem levar em consideração as profundas desigualdades de classe e raça em nossa sociedade.
Diante do incômodo com a abordagem universalista da categoria “mulher” nos discursos públicos sobre as experiências de maternidade pandêmicas, buscamos nos aproximar do tema do cuidado de crianças durante a pandemia de Covid-19 a partir da perspectiva de mulheres das classes populares, cujas experiências foram especialmente invisibilizadas. Ao longo de pesquisa,1 percebemos que, antes de buscar entender os “efeitos” ou os “impactos” que o prolongado fechamento das creches teria ocasionado na vida dessas mulheres, deveríamos explorar a partir de suas próprias narrativas a relação deste acontecimento extraordinário - a pandemia e o consequente fechamento das creches - com as experiências cotidianas de cuidado de crianças.
Ao utilizar a expressão “classes populares” não pretendemos homogeneizar e nem generalizar a experiência das mulheres que participaram da pesquisa, mas sim compreender algumas singularidades das suas vivências durante a crise sanitária. Nesse sentido é importante deixar claro que não compreendemos classes populares num sentido puramente econômico, mas sim permeado por outras diferenças que se articulam, como as de raça, gênero, escolaridade, estilo de vida, visão de mundo e território (Lopes, 2018).2
Levando em conta que a escassez de vagas em creches públicas é uma experiência ordinária nas classes populares brasileiras (Fernandes, 2021), buscamos compreender o que significou o prolongado fechamento dessas instituições para quem tinha filhos nelas matriculados em um universo social em que grande parte da população não tem acesso a creche. A partir disso, neste artigo discutimos quais foram os principais desafios enfrentados por mães de classes populares, majoritariamente negras, moradoras de uma favela no Rio de Janeiro durante o período do fechamento das creches e como elas vivenciaram suas experiências de maternagem no contexto pandêmico.
Metodologia
Para investigar se e como a ausência do suporte institucional para o cuidado de crianças foi vivenciado como um “evento crítico” (Das, 2020) que reconfigurou, ainda que temporariamente, as experiências de maternidade de mulheres de classes populares, buscamos ouvi-las diretamente, através de conversas informais, uma roda de conversa e entrevistas semiestruturadas.
As conversas informais foram realizadas por Leticia ao longo de quatro meses, no segundo semestre de 2022, na porta de uma creche pública municipal, localizada em uma favela com cerca de 2200 habitantes (IBGE, 2022), de um bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. A instituição, com acesso por sorteio gerenciado pela prefeitura, atende crianças de 4 meses aos 4 anos (turmas de berçário e maternal), contemplando majoritariamente famílias da comunidade em que está inserida, mas também alguns moradores de classe média da região próxima. Os filhos dessa pesquisadora estudaram no local, o que facilitou o acesso às interlocutoras e à direção institucional.
Foram abordadas nessa fase exploratória da pesquisa cerca de dez mulheres quando estas levavam ou buscavam seus filhos, com perguntas simples a respeito da pandemia e do cuidado com as crianças. Em geral, eram conversas rápidas e, algumas vezes, podiam ser complementadas em outro dia. Utilizamos, como corte de idade para a pesquisa, famílias com crianças que tinham durante os dois primeiros anos da pandemia entre 0 e 6 anos, considerada a “primeira infância”, período em que o trabalho de cuidado é considerado mais intensivo.
Em março de 2023, Leticia e Laura conduziram conjuntamente uma roda de conversa dentro da creche, no turno da manhã, com duração de cerca de 40 minutos. A atividade contou com a presença de aproximadamente 15 pessoas, sendo a maioria mulheres negras que, após deixarem seus filhos em sala de aula, permaneceram no hall de entrada, atendendo ao nosso convite e aos chamados da direção da creche, que não só autorizou como cooperou com a organização da roda de conversa. As duas autoras fizeram uma breve introdução sobre o tema do cuidado e a pandemia e, a partir de então, as mulheres puderam compartilhar suas experiências e impressões. A atividade foi rica e muitas das falas, que foram gravadas (com autorização das interlocutoras), geraram parte do conteúdo exposto neste artigo.
Algumas das mulheres presentes na roda de conversa aceitaram passar por entrevistas semiestruturadas, através das quais foi possível oferecer um espaço de maior escuta para desenvolver de forma mais aprofundada algumas questões. Foram realizadas um total de cinco entrevistas, conduzidas por Leticia entre dezembro de 2023 e fevereiro de 2024, com duração que variou de 30 minutos a duas horas e em locais diversos, a critério das interlocutoras, sendo a maioria presencial e uma via WhatsApp. Entre as entrevistadas, três eram negras e quatro eram moradoras da comunidade em que a creche está inserida. Todo o material foi gravado, transcrito e posteriormente analisado conjuntamente por ambas as autoras.
Os critérios utilizados para organizar e interpretar os materiais empíricos buscaram alcançar a heterogeneidade e a complexidade de que trata Hill Collins (2019) a respeito da maternidade negra. Além disso, desde a elaboração das perguntas até a seleção dos trechos das falas das interlocutoras, procuramos apreender não só narrativas sobre as experiências dessas mulheres durante a pandemia, mas também relatos sobre a vida cotidiana daquelas famílias; a relação entre o ordinário e o extraordinário (Das, 2020). Ancoramos nossa análise na perspectiva interseccional, proposta pelas feministas negras (Akotirene, 2020; Hill Collins; Bilge, 2020), para a compreensão da relação entre o evento crítico da pandemia e o cuidado cotidiano de crianças nos espaços domésticos.
Gênero, raça e classe no debate sobre as maternidades pandêmicas
Nos debates públicos sobre o prolongado fechamento das creches e escolas, notamos uma ausência das vozes de mulheres de classes populares sobre suas experiências e reivindicações. Ao analisar alguns dos primeiros estudos publicados sobre o tema das maternidades e cuidado de crianças durante a pandemia (Carneiro; Muller, 2020; Dorna, 2021; Zanello et al., 2022), encontramos majoritariamente pesquisas realizadas a partir de questionários online que, ainda que de maneira involuntária, abordaram predominantemente as experiências e perspectivas de mulheres brancas e de camadas médias. Nesses estudos, pouco foi levada em conta a visão de famílias de classes populares vinculadas às creches públicas, que permaneceram fechadas por muitos meses a mais que as privadas.
Especialistas e instituições, apesar de se pronunciarem a respeito de mulheres das camadas mais pobres da sociedade, não deixaram de dar um caráter universalizante às recomendações e aos manuais. Ou seja, a questão do cuidado das crianças era tratada nos documentos sem levar em conta de forma aprofundada as desigualdades entre as famílias. Não apenas as desigualdades na vivência da extraordinariedade da pandemia, mas principalmente as desigualdades que já vinham de antes, as desigualdades ordinárias.
Em novembro de 2020, por exemplo, um grupo de pediatras lançou um movimento que reivindicava imediatas ações para preparar a reabertura escolar. Ainda que timidamente, o texto de seu manifesto citava as mulheres trabalhadoras: “E as famílias, especialmente as mulheres, precisam que as crianças retornem às atividades escolares para que possam trabalhar e sobreviver” (Lugar […], 2020). Mas a preocupação principal do movimento não era com essas mulheres, mas com as “crianças vulneráveis”:
As nossas crianças mais vulneráveis, que vivem nas periferias e bairros pobres do país, estão submetidas a sérios riscos para sua saúde. Estão sendo colocadas em creches clandestinas, sem regulamentação; expostas à violência doméstica e urbana, a acidentes de trânsito ou domésticos; com sua segurança alimentar ameaçada; sem estímulo, perdendo janelas importantes para seu aprendizado, desenvolvimento cognitivo e psicomotor, e em risco para transtornos emocionais, como depressão e outros (Lugar […], 2020).
O trecho do manifesto dos pediatras trata das crianças que estariam passando por riscos advindos da suspensão das aulas presenciais durante a pandemia de Covid-19. Mas poderia estar falando das mais de 36 mil crianças que em 2019 estavam na lista de espera por uma vaga em creche pública no Rio de Janeiro, 90% das quais habitavam as zonas Oeste e Norte, regiões marcadamente mais pobres da cidade (Morais, 2019). Ou seja, exatamente as “nossas crianças mais vulneráveis” citadas no manifesto são aquelas para as quais a falta de creche, especificamente causada pela pandemia, fez menos diferença em relação ao cotidiano, uma vez que a maior parte delas já vem “perdendo as janelas importantes para seu aprendizado” todos os dias, em função da precariedade e insuficiência da oferta de serviços públicos. O que queremos destacar aqui, portanto, é o caráter universalizante da análise desses especialistas que, ao sublinhar as precariedades do extraordinário, não leva em conta antes a realidade ordinária dessa camada da população.
Mais do que invisibilizadas, as mulheres negras e pobres, como um forte símbolo do que estamos falando, foram lembradas ao longo da pandemia não pelas suas próprias demandas ou por seu papel de exercer cotidianamente o trabalho de cuidado de seu entorno ou família. Elas foram lembradas, ao contrário, justamente pelo papel que elas deixaram de cumprir a partir do momento de recrudescimento do isolamento social. Trata-se das babás e empregadas domésticas, algumas das quais foram dispensadas (de forma remunerada ou não) e, temporariamente, perderam o papel historicamente imposto a elas, desde as mucamas e as mães pretas - figuras tão bem descritas por Lélia Gonzalez (1984) - deixando as mulheres que tinham uma “possibilidade de terceirização de parte dos trabalhos de cuidado” (Cortez, 2022, p. 116) sem poder contar com esse suporte.
Podemos, também, citar dois trágicos exemplos que simbolizam esse papel central no cuidado dos outros, historicamente atribuído às mulheres negras, que, embora minimizado, não foi necessariamente suspenso durante a pandemia: Cleonice Gonçalves, uma mulher negra, de 63 anos, que trabalhava como doméstica na zona nobre do Rio de Janeiro, contaminou-se na casa dos patrões que haviam voltado da Itália e foi a primeira vítima fatal de Covid-19 no estado fluminense (Lacerda, 2022). Lembramos também da trágica morte do menino Miguel, filho de Mirtes Renata, empregada doméstica do prefeito de uma cidade pernambucana. Sem ter com quem deixar o filho durante a suspensão das aulas na creche, a mãe levou o filho para o trabalho. Enquanto Mirtes desceu para passear com os cachorros da patroa, esta, de forma completamente displicente, deixou o menino de apenas 5 anos pegar o elevador sozinho para procurar a mãe, e a criança acabou caindo do 9º andar do prédio.
Ambos os casos evidenciam os efeitos da longa duração da colonialidade do cuidado (Passos, 2023) na sociedade brasileira, que se ancora na histórica apropriação do trabalho precarizado das mulheres negras no ciclo reprodutivo das famílias brancas. Trazemos os trágicos exemplos dessas duas empregadas domésticas para ilustrar as enormes diferenças que podemos encontrar dependendo da perspectiva da qual se reflete acerca do evento extraordinário da pandemia de Covid-19 e sua relação com o trabalho cotidiano de cuidado exercido majoritariamente por mulheres. Como já amplamente discutido em diversos estudos, a pandemia desnudou graves desigualdades sociais preexistentes no Brasil, aprofundando-as e perpetuando-as. Analisar e debater a repercussão do fechamento das creches públicas na vida das famílias de classes populares com crianças pequenas ajuda a refletir mais profundamente, a partir de um recorte de gênero, mas também de classe, raça e território, sobre tais desigualdades.
Encarando e driblando a escassez ordinária e extraordinária
Afinal, o que encontramos no discurso dessas mulheres ao serem perguntadas sobre a Covid-19 e o fechamento da creche? Um dos temas mais frequentes nessas narrativas foi a questão das dificuldades financeiras impostas pela crise sanitária e social da pandemia. A maioria das interlocutoras que participaram da pesquisa não estava trabalhando ou parou de trabalhar no período pandêmico (o que já revela muito sobre a ordinariedade de suas condições de vida, marcadas por empregos instáveis ou vínculos informais). Portanto, o que sobressaiu nos relatos não foram os desafios decorrentes da maternidade e da intensificação do cuidado de crianças no espaço doméstico, mas os problemas econômicos e as formas de amenizá-los.
O meu principal medo era não ter o dinheiro da comida. Porque do aluguel já tinha faltado. Eu falava assim: a gente tem que escolher se vai ter um lugar para morar ou ter o que comer (Entrevista presencial, 12/12/2023).
Com esse relato, Carolina, mãe de três filhos, que é confeiteira e viu seu rendimento ser afetado pela pandemia, tratou os temas da moradia e alimentação durante a pandemia como preocupações prioritárias relacionadas ao conceito de cuidado vinculado à sustentabilidade da vida (Tronto, 1998).
O tema da insegurança alimentar durante a pandemia esteve muito presente em análises de especialistas. O já citado manifesto dos pediatras tratava sobre os riscos alimentares que as crianças corriam decorrentes do fechamento das creches e escolas. Documentos da Fiocruz (Brasil, 2020, 2021) citavam o tema como um dos problemas a serem mitigados a partir do isolamento social. Dados divulgados pela Fundação Getúlio Vargas, em relatório produzido em 2022, revelam que a insegurança alimentar, ou seja, a parcela das pessoas que nos últimos 12 meses não teve em algum momento dinheiro para alimentar a si ou a sua família, aumentou no Brasil durante a crise sanitária: saltou de 30% em 2019 para 36% em 2021. Os dados apontam marcadores de classe e de gênero nesse processo. Nos 20% mais pobres da população, a taxa de insegurança alimentar sofreu um acréscimo importante, de 53% em 2019 para 75% em 2021. Além disso, enquanto entre 2019 e 2021 a taxa entre homens diminuiu um ponto percentual (de 27 para 26%), entre as mulheres houve um acréscimo significativo: de 33 para 47% (Neri, 2022).
E como, então, foi garantida a sustentatibilidade material das famílias de nossas interlocutoras? Um dos suportes materiais mais citados por elas para garantir a alimentação e moradia foi o Auxílio Brasil do governo federal. Algumas mencionaram também o auxílio-alimentação que foi ofertado pela prefeitura em substituição à merenda escolar. Os auxílios foram descritos como “ajudas” importantes para aliviar as dificuldades econômicas no contexto da crise sanitária. Apesar de fundamentais, as políticas assistenciais governamentais não eram sempre suficientes. Ao mais autêntico estilo “é nós por nós”, expressão popularizada pelo rapper, cantor e compositor Emicida, as classes populares criaram formas de se organizar e se ajudar durante o período mais difícil da pandemia de Covid-19. Renata, uma mulher negra alta, com longas tranças no cabelo e voz imponente, produtora cultural, nos contou, na roda de conversa, o processo pelo qual passou:
A gente ficou dependendo de cesta básica mesmo. E a gente faz parte de um coletivo de sambistas e tal, então, a gente se ajudou, né? Fizemos uma grande rede de apoio. Cheguei a ajudar também aqui na creche com alguma coisa na época. E recebia o leite daqui, né? O cartão chegou a recarregar um tempo, depois parou, mas aí, quando parou eu já tava mais tranquila, porque meu marido começou a poder viajar. Ele tocava em São Gonçalo numa segunda-feira, ele ia em São Gonçalo, tocava e vinha. É um dinheirinho que a gente fazia a semana. O dono do nosso apartamento, que a gente junta todo mundo pra pagar o aluguel, ele deixou a gente morar sem pagar, ele entendeu e foi muita sorte, muita sorte mesmo. Então aí ficamos vivendo (Roda de conversa, 31/03/2023).
Renata não foi a única a falar sobre a questão do aluguel. Carolina também citou que havia ficado três meses sem pagar e quitou as dívidas com os recursos do Auxílio Brasil. A compreensão do dono da casa foi vista como sorte, mas poderia ser entendida também como parte da rede de solidariedade necessária para sobreviver a todas as dificuldades impostas pela pandemia àquelas famílias. Sobre as medidas auto-organizadas nas favelas, Béhague e Ortega (2021) desenvolvem o conceito de “ajuda mútua” como uma forma de cuidado coletivo local que cresceu na pandemia. Guimarães e Vieira (2020), entretanto, deixam claro que este tipo de “ajuda” comunitária não se restringe a esse contexto extraordinário, fazendo parte de um circuito de cuidado cotidiano nas classes populares, mesmo que não seja chamada assim ou reconhecida por esse caráter.
Observamos a partir do relato de nossas interlocutoras que, apesar da rede de vizinhança ter sido menos presente no cuidado de crianças na pandemia, as “ajudas” ou o cuidado comunitário mantiveram-se ativos e até se fortaleceram nesse período, assumindo mais esse caráter de suporte financeiro, como suspensão da cobrança de aluguéis e cestas básicas. Ficou evidente durante a pesquisa que as políticas assistenciais e as medidas organizadas por uma “rede de apoio” comunitária foram fundamentais para a manutenção da vida durante a pandemia.
Os relatos sobre as preocupações econômicas demonstram como à escassez cotidiana se somou outra, extraordinária, decorrente daquela emergência sanitária, que diminuiu as já poucas oportunidades de renda para as classes populares. Ao mesmo tempo, revelam como a pandemia também ofereceu mecanismos capazes de diminuir a escassez extraordinária, como as cestas básicas organizadas pela própria comunidade, o perdão pelo atraso no aluguel e os benefícios governamentais, como os cartões-alimentação e o Auxílio Brasil.
Sobre este último, um diálogo simples e curto evidencia a relação entre o ordinário e extraordinário que procuramos enfatizar neste artigo. “- E o auxílio emergencial, ajudou? - Ajudou. Ajuda até hoje.” Ou seja, o benefício extraordinário não é tão extraordinário assim. Se “ajuda até hoje”, é porque também a escassez não é exceção. Assim como não o é a necessidade de auto-organização comunitária para se manter. Mais uma vez, é possível perceber, através da extraordinariedade da pandemia, características da vida cotidiana das classes populares, tanto no que diz respeito às vulnerabilidades e precariedades quanto nos mecanismos capazes de buscar amortecer tais dificuldades.
Arranjos de cuidado e experiências de maternagem de mulheres de classes populares na pandemia
Outro tema que apareceu com destaque nas entrevistas foi o medo do coronavírus, o qual se manifestou inclusive na pouca adesão das famílias da comunidade ao retorno presencial da creche em 2021. Nas palavras de Rita, jovem negra de 19 anos, com três filhos, quando perguntada qual teria sido sua maior preocupação durante o período do fechamento das creches:
O que mais me preocupava mesmo era eles pegar a doença só isso mesmo […] achei que foi bom sim ter fechado porque só assim as crianças não pegaram nada né porque se tivesse aberto [a creche] com certeza eles teriam pegado (Entrevista via WhatsApp, 01/12/2023).
Leila, 26 anos, parda, moradora da comunidade, dona de casa, também se manifestou nesse mesmo sentido:
Eu acho que o medo fala mais alto do que a educação na escola. Eu sei que tem muitos pais que precisam trabalhar, mas em um momento tão delicado de algo desconhecido, eu acho que até o pai mais liberal não enviaria o seu filho, se ele ama de fato os seus filhos, mesmo com o filho dele de máscara. Até porque crianças de 2 anos não tinha condições de usar máscaras. Eles espirram um no outro, têm contato um com o outro, babam nas coisas (Entrevista presencial, 2/2/2024).
Essas falas evidenciam o caráter de preconceito de classe e racista da ideia de que na favela ninguém se cuidava. Se é verdade que existiam os “bailes da Covid”, como nossas próprias interlocutoras relataram, também vemos que uma parte da população mais pobre não só se preocupava com a pandemia, como, sabendo das insuficiências dos serviços públicos de saúde, tinham ainda mais medo de contrair a Covid-19 e não ter o suporte necessário.
E quando questionadas sobre o que sentiram mais falta da creche na pandemia, a primeira resposta em geral girava em torno do estímulo ao “desenvolvimento” das crianças, ou da sua educação. Vimos, então, que no discurso sobre as dificuldades em maternar na pandemia, as mulheres tratavam predominantemente das precariedades materiais, do medo de contrair a Covid-19 e da preocupação em relação ao desenvolvimento de suas crianças. Não aparecia, pelo menos não tanto como esperávamos, o tema do suporte cotidiano no cuidado que a creche proporciona.
Para compreender o nosso “estranhamento” de não haver um sentimento de urgência e nem uma reivindicação dessas mulheres em relação à reabertura das creches públicas no contexto da pandemia - como encontramos nas redes de mulheres de camadas médias (Lowenkron; Hastenreiter, 2024) e no manifesto dos pediatras - consideramos importante analisar como essas mulheres vivenciaram nesse período a prática de cuidado de crianças e da maternagem.
O que mais nos chamou atenção ao longo da pesquisa foi que, na maioria das falas das mulheres, seja na roda de conversa ou nas entrevistas, apesar da reconhecida intensificação da sobrecarga de trabalho feminino de cuidado, as narrativas sobre a maternidade na pandemia não a apresentavam como uma causa de angústia. Vale destacar que nenhuma das mães que participaram da pesquisa estava em home office ou trabalhando fora, de modo que não apareceu entre essas mulheres a narrativa de falta de tempo para cuidar das crianças durante a pandemia ou de que o cuidado disputava o tempo do trabalho remunerado naquele período, embora o retorno à creche fosse visto por muitas como oportunidade de voltar a procurar trabalho.
Em relação às experiências de maternidade pandêmicas, algumas falas foram marcantes por exemplificarem narrativas sobre o ato de cuidar de crianças durante a pandemia que fogem ao padrão de maternidade pandêmica como “fardo” ou fonte de sofrimento. O processo pelo qual Carolina passou ilustra muito bem essa observação. Carolina é uma jovem moradora da comunidade, branca, e foi mãe pela primeira vez aos 17 anos. Ela ficou grávida do terceiro filho com o novo parceiro durante a pandemia e decidiu deixar seus dois filhos mais velhos na casa da sua mãe durante sete meses para ter uma gestação mais tranquila e proteger os filhos dos riscos de contaminação por Covid. A avó das crianças trabalhava há 18 anos numa casa como empregada doméstica e, durante a pandemia foi afastada do trabalho pela patroa, sem suspensão da remuneração. Isso permitiu que ela tivesse tempo extra para cuidar dos netos e protegê-los do vírus, já que o marido da filha era mais exposto como entregador de pizza e o casal morava na parte mais alta da comunidade, onde havia rumores sobre a existência de “bailes da Covid”.
Durante os meses de afastamento dos filhos, Carolina os visitava na casa de sua mãe, embora a avó não gostasse pelos riscos de contaminação, exigindo dela um ritual de higienização para entrar em contato com as crianças. Da mesma forma, Carolina exigia o mesmo de seu companheiro, que era motoboy, para entrar em casa. No final da gestação, quando ela não conseguia mais se locomover entre sua casa e a da mãe com tanta facilidade, resolveu trazer os filhos de volta para morar com ela:
Eu ia todos os dias visitá-los e minha mãe reclamava que não era para eu ir. Ela me fazia trocar de roupa aqui embaixo também, ahahahaaha. Eu tinha que tomar banho na área. Tinha toda uma esterilização antes, mas eu ia sempre porque eu era teimosa, não conseguia ficar longe deles. Eu passava a tarde e voltava para a casa para dormir. Tinha dias que eu não conseguia vir, porque estava passando mal. Está vendo lá no final? Aquelas últimas casinhas bem estreitas? Eu mal conseguia passar ali. Comecei a me sentir pior, a barriga cresceu muito e, por isso, acabava ficando uns dois ou quatro dias sem descer. A partir disso, comecei a ficar muito tempo longe deles. Eu não aguentei e falei com a minha mãe que ia pegar meus filhos de volta. Ela disse: “Não, deixa eles aqui, não sei o quê.” Eu disse [que] eu não conseguia ficar longe deles. É muito estranho ficar longe deles! A casa fica vazia (Entrevista presencial, 12/12/2023).
Além disso, ela contou que se sentia mal com a ideia de que os filhos poderiam achar que ela os trocou porque ia ter outro bebê, porque o atual companheiro não era o pai deles: “Eu fiquei muito com isso na cabeça, a sensação de que eu tinha os trocado porque tinha casado e ia ter outro filho.”
Carolina falou ainda do medo de os filhos se apegarem demais à avó, evidenciando que a circulação de crianças, tão comum na gestão dos cuidados nas classes populares brasileiras (Fonseca, 1995), ao mesmo tempo que constitui uma rede de apoio fundamental para as mulheres na criação dos filhos, carrega consigo uma dimensão agonística, de disputa de poder entre mulheres pela maternagem e apego das crianças, além do fantasma e estigma de se tornar uma “mãe abandonante” (Fernandes, 2021).
Assim, quando a situação mais apontava para dificuldades e cansaço de cuidar de um recém-nascido junto com outras duas crianças pequenas, ela optou por cuidar de três crianças durante o isolamento social. Carolina narra suas memórias do período pandêmico sem sofrimento, em tom leve e bem-humorado. Ela conta que ficou evidentemente muito cansada, mas também amadureceu e curtiu seus filhos, seus momentos em família e aprendeu a “ter mais paciência” com as crianças. Ela valoriza esses pontos ao mesmo tempo que reconhece que cuidar de três crianças não teria sido possível sem o apoio do parceiro e dos seus pais, porque, nas palavras dela, “é muito puxado emocionalmente”, pois “a mãe, por mais que ela faça muito, a gente sempre acha que tá faltando alguma coisa. A gente se cobra coisa demais”.
Já Renata, a produtora cultural de rodas de samba, contou, durante a roda de conversa, que a maior culpa veio não durante a pandemia, mas após a reabertura da creche, quando ela entendeu que estimulou “demais” seu filho, o que o teria levado a uma dificuldade de readaptação à instituição de educação infantil. No primeiro ano da pandemia, com a suspensão dos eventos e também da creche, ela pesquisava na internet atividades pedagógicas para fazer em casa com o filho, que tinha um ano e meio quando começou a pandemia. Mas em vez de narrar essa intensificação da maternagem durante o isolamento domiciliar como sacrifício, ela dizia: “Ainda bem que tinha o Pedro, porque senão eu acho que a gente ia surtar.”
Cristiane, uma mulher branca que trabalhava no McDonald’s e estava grávida no início da pandemia, conta que foi afastada do trabalho por ser do “grupo de risco”. Mas após usufruir do afastamento e da licença-maternidade, ela pediu para ser demitida, porque sentia que estava “perdendo muito a criação do filho”. Em nenhum momento ela define a sua prática de maternagem como um fardo, um estorvo, uma fonte de exaustão. O que aparece como massacrante é o trabalho remunerado e as longas distâncias percorridas na cidade.
Para outras interlocutoras, a interrupção do trabalho remunerado ou a impossibilidade de trabalhar fora para cuidar dos filhos também não foram experiências narradas com carga de sofrimento ou sacrifício. Leila, mulher de 26 anos, moradora daquela comunidade, parda, sustentada pelo marido, respondeu prontamente (e quase que de forma orgulhosa) à pergunta sobre profissão: “Dona de casa.” O que parecia predominar era o sentimento de que ela tinha sorte de poder sobreviver sem depender de um trabalho remunerado.
Se, para as mulheres brancas das camadas médias, a casa é o local em que se concretiza o cansaço, a exaustão materna e o fracasso da maternidade como um projeto individual (Carneiro, 2021), para as famílias negras empobrecidas, seguindo bell hooks (2019), o lar é um espaço de humanização e resistência à dominação da supremacia branca.3
Seria certo exagero sugerir que nossas interlocutoras encaravam o trabalho não remunerado de maternagem como uma forma de resistência, mas o faziam ao menos como uma forma de agência, no sentido de Mahmood (2019), isto é, como uma possibilidade de “habitar uma norma” de gênero atravessada por ideais de “boa maternidade” que, ao mesmo tempo que é imposta como obrigação para algumas mulheres, para outras é um direito historicamente negado (Passos, 2023).
Desumanizadas a partir da “colonialidade do gênero” (Lugones, 2014), “as mulheres negras pariam, mas não tinham a oportunidade de serem mães” (Santiago, 2021, p. 57) e até hoje são “impedidas de criar os filhos em ambientes seguros e saudáveis, livres de violência por parte de indivíduos ou do Estado” (Ross, 2017, tradução nossa). Diversas pesquisas dão destaque ao “não lugar” das maternidades negras nas políticas reprodutivas. Segundo Fernandes (2021), mulheres pobres racializadas são moralmente acusadas de “fazerem filhos demais” e sobrecarregar políticas públicas. A partir desse imaginário estigmatizante racializado, se tornam alvos privilegiados de políticas controlistas e de esterilizações compulsórias (Alves, 2017), de coerção contraceptiva (Brandão; Cabral, 2021) ou, ainda, de retirada compulsória de bebês (Alves, 2020), vítimas de violência e racismo obstétrico (Araujo, 2024; Davis, 2020; Tempesta, 2022), além de terem seus filhos assassinados por agentes do Estado (Eilbaum; Medeiros, 2016; Passos, 2023; Vianna; Farias, 2011).
A pergunta “quem tem direito a querer ter/ser mãe?”, lançada por Ariana Alves (2020), explicita que nem todas as mulheres têm conseguido exercer o direito/desejo de ser mãe em nosso país ( Solaterrar; Lowenkron, 2025). Diante disso, é necessário refletir a respeito de como os modelos de maternidade que as mulheres de classe média são pressionadas a seguir chegam às mulheres de classes populares e racializadas.
Possivelmente, há outros modelos a serem seguidos, talvez menos individualistas. Na literatura sobre cuidado em classes populares (Fernandes, 2021; Moreno, 2019) e sobre maternagem entre mulheres negras (Hill Collins, 2019; hooks, 2019), é possível notar um ideário mais coletivizado de maternagem, um projeto menos autocentrado de bom cuidado materno. Mas isso não significa dizer que não há um modelo a ser alcançado.
Foi possível notar nas falas das nossas interlocutoras os próprios ideários de bom cuidado materno, em trechos como “ter paciência”, “estimular o desenvolvimento do filho”, “parar de trabalhar para ter tempo para brincar com os filhos”, etc.… Nesse sentido, é possível que os ideários de maternidade intensiva das redes sociais, ainda que originários e moldados para camadas médias, penetrem também em algum grau nas classes populares. Ao performá-los, as mulheres que participaram da pesquisa parecem buscar valorizar moralmente suas próprias experiências de maternidade durante a pandemia e, assim, negociar lugares socialmente menos inferiorizados nas “hierarquias reprodutivas” (Mattar; Diniz, 2012).
Porém, enquanto a literatura acadêmica sobre mulheres de camadas médias retrata a maternidade intensiva veiculada em livros, sites, blogs e Instagram como fonte de exaustão e adoecimento materno (Carneiro, 2021; Zanello et al., 2022), notamos, ao ouvir mulheres de classes populares, que estar em casa sem trabalho remunerado não aparece como um grande fardo, um sacrifício. Trata-se antes de uma circunstância da qual, sendo possível administrar financeiramente, é possível tirar alguma vantagem.
Um fator que pode pesar nesse sentido é de que, provavelmente, as ocupações remuneradas dessas mulheres eram trabalhos precários ou informais, com salários baixos e sem perspectiva de ascensão profissional. A pandemia e o fechamento da creche não teria levado à interrupção de uma carreira promissora, o que potencialmente seria gerador de frustração, como podemos ver entre mulheres das classes médias (Lowenkron; Fernandes, 2025; Lowenkron; Hastenreiter, 2024).
Nota-se o fato de que, em vários casos, quem “optou” por parar de trabalhar foi a mulher e não o homem. Apesar de grandes mudanças estruturais em relação à presença feminina no mercado de trabalho remunerado, é ainda hegemônica a concepção do cuidado como atividade feminina e maternal, enquanto a paternidade é culturalmente associada mais ao dever de sustento material do que ao cuidado cotidiano. Em um contexto atual em que muitas famílias têm como principal provedora a mulher e amplamente marcado pelas “ausências” masculinas (Fernandes, 2020), ter em casa um homem provedor parece ser para algumas mulheres de classes populares uma distinção moralmente valorizada. Citamos esses casos não para romantizar a maternidade de classes populares, mas para sinalizar diferentes narrativas em torno das experiências de maternagem e maternidade pandêmicas.
Considerações finais
De que maternidades estamos falando quando nos referimos a mulheres de classes populares, moradoras de favela? São as maternidades negras, ou quase brancas, quase pretas de tão pobres, como ensina Gilberto Gil. São essas mulheres que têm seus filhos assassinados e encarcerados em massa pelo Estado, são elas que têm seus filhos destituídos também por agentes de Estado, são elas que mais sofrem violências no contexto obstétrico e estão entre os maiores índices de mortalidade materna.
Estamos falando de uma maternidade que habita uma zona de “não ser” (Fanon, 2008; Passos, 2023) na sociedade brasileira, aquela que não é desejada pelo Estado, aquela que é alvo de uma política sexual e reprodutiva na qual a sexualidade e a fecundidade são vistas como problemáticas e precisam ser vigiadas, controladas, disciplinadas. Aquelas cuja reprodução é associada a “problemas sociais”, corpos concebidos como “fábrica de marginais” (Vianna; Farias, 2011), responsabilizadas por mazelas sociais, vistas como mães incapazes de cuidar de suas famílias e “dependentes do Estado” (Lowenkron; Fernandes, 2025).
Ao mesmo tempo que são muitas vezes consideradas incapazes de cuidar de seus próprios filhos, são paradoxalmente as mulheres negras que historicamente mais cuidam dos filhos das famílias brancas. Seja como “mãe preta”, “babá”, “empregada doméstica”, a mulher negra é a “verdadeira mãe”, segundo Lélia Gonzalez (1984), aquela que materna efetivamente as crianças de famílias brancas, embora sejam impossibilitadas de maternar seus filhos. Assim, desigualdades sociais racializadas sustentam e são reproduzidas por um sistema de reprodução estratificada (Colen, 1995) que distribui desigualmente as possibilidades econômicas, políticas e sociais de ter e criar filhos.
Mas se numa visão hegemônica, ou a partir do olhar dos grupos dominantes, a maternidade negra é representada de maneira negativa e socialmente desvalorizada, o feminismo negro nos oferece perspectivas alternativas, contribuindo para pluralizar as formas clássicas de teorizar família e maternidade. Então, para concluir este texto, propomos nos aproximar do pensamento feminista negro (Hill Collins, 2019) para compreender as experiências de maternagem de mulheres de classes populares durante a pandemia.
Embora tenhamos optado por apresentar menos uma perspectiva comparativa e focar neste artigo nas maternidades que foram menos visibilizadas nos debates públicos e acadêmicos sobre a pandemia, recuperamos brevemente um dado curioso da parte da pesquisa junto a mulheres de camadas médias desenvolvida em outro artigo (Lowenkron; Hastenreiter, 2024) que pode ser interessante para iluminar alguns dos nossos argumentos. Naquele contexto, vimos que essas mulheres, geralmente em home office, embora também não possam ser caracterizadas como um grupo homogêneo em relação aos arranjos de cuidado e experiências de maternidade, sentiram-se frequentemente frustradas por não conseguirem dar atenção suficiente aos filhos em casa, transgredindo as normas idealizadas de parentalidade pandêmica intensiva prescrita pelos especialistas nas redes sociais. A única entrevistada de camada média que relatou uma experiência positiva de reaproximação com o filho nesse período era uma mulher negra, que, por ser profissional de saúde, manteve separado o espaço de trabalho remunerado, com jornada reduzida, e o espaço doméstico, e contou ainda com o auxílio de sua mãe (avó da criança), nos cuidados com a casa e o filho.
Coincidentemente ou não, a única mulher negra entrevistada na parte da pesquisa junto a mães de classe média com filhos matriculados em uma creche privada, cujos dados foram analisados em outros trabalhos (Lowenkron; Fernandes, 2025; Lowenkron; Hastenreiter, 2024), relatou uma experiência de maternidade pandêmica distinta das mulheres brancas, mas que se aproxima das narrativas das mulheres de classes populares, majoritariamente negras, que enfocamos neste artigo. A possibilidade de maternar os próprios filhos (e não os filhos de pessoas brancas) tem sido vista por muitas mulheres negras, como vimos, não como opressão (como para feministas brancas), mas como oportunidade de “constituir um lar” como uma forma de resistência (hooks, 2019).
Cleonice e Mirtes são mulheres negras que foram vítimas não apenas da uma extraordinária pandemia de Covid-19, mas também das desigualdades estruturais ordinárias que consolidam um sistema de reprodução estratificada na sociedade brasileira segundo o qual mulheres negras são sistematicamente desumanizadas ao serem historicamente responsabilizadas a cuidar das casas, dos filhos, dos idosos e dos animais de famílias brancas, mas cujo direito a cuidar de si, de seus filhos e familiares é sistematicamente negado e violado. Como sintetiza Mirtes, mãe de Miguel, “eu não perdi meu filho pra essa pandemia, mas perder meu filho pro racismo, pra mim foi algo muito pior”. Não é surpreendente que a mãe de Carolina, empregada doméstica que, diferentemente de Cleonice e Mirtes, teve garantido o direito de permanecer em casa durante a pandemia, não tenha vivenciado como fardo, mas sim como uma oportunidade ter condições de permanecer em casa e “ajudar” a filha a cuidar dos netos, garantindo a própria saúde e a de seus familiares nesse momento extraordinário.
Patricia Hill Collins (2019), em Pensamento feminista negro, explica que a maternidade exercida por mulheres negras sempre foi alvo de representações equivocadas. Afirma que o conceito de maternidade nas filosofias afrodescendentes sempre foi central, o que levou a que homens negros criassem uma ideia de mães negras superfortes. A imagem de controle da “mãe negra superforte” é um elogio à resiliência das mulheres negras em uma sociedade que frequentemente as retrata como mães ruins. Ainda assim, para que possam permanecer no pedestal, essas mães negras superfortes devem colocar as necessidades dos outros, especialmente as dos filhos e das filhas, acima das suas (Hill Collins, 2019, p. 293).
A autora descreve algumas características da maternidade entre mulheres negras que não estavam bem representadas nem pelos homens negros, com essa imagem idealizada e romantizada da mãe superforte, nem pela sociedade racista, que desvaloriza simbolicamente e deslegitima tal maternidade, e tampouco pelas feministas brancas das décadas de 1970 e 1980, que tinham uma crítica apenas incompleta às descrições das maternidades negras, sempre tidas como sofridas e precárias. Então, Hill Collins (2019, p. 322) afirma que “a maternidade negra é uma instituição fundamentalmente contraditória”, argumentando que a maternidade nas comunidades afrodescendentes norte-americanas podia também ser vista como uma fonte de empoderamento, status e agência política.
Destacamos a importância de se afastar de representações romantizadas, estigmatizantes ou vitimizantes das maternidades de mulheres negras e de classes populares para focar, como sugere Hill Collins, nos pontos de vista e discursos dessas mulheres sobre suas próprias experiências de maternagem. A partir disso, encontramos relatos sobre experiências de maternagem pandêmicas contraditórias e heterogêneas, atravessadas por precariedades materiais e cansaço, mas que tiveram em comum o fato de não caracterizarem a intensificação do cuidado dos filhos durante a pandemia como fonte de sofrimento ou um fardo. Suas narrativas eram mais direcionadas à falta de emprego ou trabalho e às dificuldades econômicas amenizadas pelas diversas “ajudas” materiais e financeiras.
Outro ponto que merece destaque foi a falta de adesão dessas mulheres ao retorno presencial das atividades da creche pública, que, segundo a própria diretora e profissionais da unidade, sofreu um considerável esvaziamento na retomada durante o segundo ano de pandemia. Embora isso seja um dado que precisaria ser melhor investigado, algumas hipóteses podem ser formuladas. Uma delas é que mães de classes populares, diante da escassez ordinária e da longa espera por vagas, além da incompatibilidade entre suas jornadas de trabalho e horário das creches, já estão habituadas a não contar com esse serviço ou a contar com outros arranjos informais de cuidado e, por isso, não tiveram o mesmo sentimento de urgência no retorno.
Outra explicação possível é o fato de que o trabalho remunerado foi fortemente atingido pela pandemia, principalmente para mulheres (IBGE, 2021). Uma vez em casa, as mulheres conseguiam cuidar de seus filhos, sem a mesma urgência das mulheres de camadas médias que estavam em home office.
Outra possibilidade, enfatizada pelas próprias mulheres da pesquisa, é que a situação sanitária engendrava medo do retorno e do risco de contaminação de seus filhos e famílias pelo vírus. Embora a creche pública da pesquisa tivesse uma boa infraestrutura e salas amplas e com boa ventilação, esse medo é compreensível em um contexto em que as famílias estavam particularmente expostas por serem frequentemente integradas por trabalhadores informais e/ou de serviços essenciais, diante da precarização dos serviços públicos de saúde e de uma doença pouco conhecida, que matou mais de 700 mil brasileiros e atingiu de maneira mais intensa a população mais pobre e racializada.
A baixa adesão ao retorno presencial não significa que as mulheres escutadas na pesquisa não reconhecessem a importância da creche pública. Pelo contrário, elas disseram precisar da creche, a reivindicavam, seja pela necessidade de voltar a trabalhar, seja por reconhecerem a importância da educação infantil no “desenvolvimento” das crianças, revelando em suas perspectivas uma inseparabilidade entre educação e cuidado. Muitas mulheres citaram a entrada ou retorno dos filhos na creche como oportunidade para voltar a procurar emprego e ao mesmo tempo relataram situações em que não foi exatamente a falta da creche durante a pandemia que as fizeram sair ou perder o trabalho remunerado. Nesse sentido, encontramos dificuldade em distinguir o que seria uma questão decorrente apenas daquele contexto extraordinário daquilo que seria fruto das características da vida cotidiana daquelas mulheres.
As creches são importantes? Sim, sempre foram. Ficou mais difícil ter um trabalho remunerado a partir do seu fechamento? Provavelmente. Mas as dificuldades relatadas em relação ao trabalho remunerado durante a pesquisa pareciam mais ligadas ao ordinário dessas mulheres do que exatamente ao evento da pandemia. Volatilidade dos trabalhos, carga horária rígida e extensa quando se trata de trabalho formal, assédios na fábrica… São marcas da precariedade ordinária do trabalho remunerado a que essas mulheres são submetidas, que foram relatadas pelas nossas interlocutoras.
Ao mesmo tempo, temos creches públicas em horário insuficiente e que não suprem por completo as necessidades das mulheres (Guimarães; Hirata; Posthuma, 2020). O resultado dessa equação são configurações familiares diversas, que buscam dar conta do cuidado daquela família, e com mulheres que têm uma relação com o trabalho remunerado distinta daquela que podemos observar em camadas médias da população. Não há uma carreira promissora interrompida pela maternidade. Ou, pelo menos, as mulheres da nossa pesquisa não parecem sentir assim. A pandemia e o fechamento das creches aparecem no discurso como um dificultador a mais para a inserção sólida no mercado de trabalho remunerado daquelas mulheres. Mas não parecem ser o determinante.
As desgastantes condições de vida estruturais, as persistentes desigualdades sociais e de gênero, as precariedades do trabalho remunerado e, simultaneamente, as insuficiências dos serviços públicos de suporte, parecem moldar um certo modo de vida construído cotidianamente e uma relação das mulheres com o trabalho remunerado. A extraordinariedade do fechamento da creche pode ter afetado essa relação temporariamente, mas parece ter sido mais no sentido de deixar mais evidentes os fatores que levam a tal modo de vida e não por mudá-lo substancialmente.
Não há como afirmar que não há exaustão materna nas mulheres de classes populares. Mas observamos particularidades em nosso grupo que nos obriga a refletir sobre possíveis causas para que a prática da maternagem nessa população específica pesquisada tenha aparecido como algo mais leve e menos penoso. Para as mulheres da nossa pesquisa, se há possibilidade de poder sair do trabalho remunerado para poder brincar mais com seus filhos, elas simplesmente saem do emprego e, quando for mais conveniente ou a situação financeira exigir, elas tentam voltar ao mercado de trabalho. O fato de que o trabalho remoto foi encontrado apenas como exceção entre nossas interlocutoras, distintamente do que vemos entre mulheres de camadas médias, deve contribuir para as diferenças apontadas, uma vez que em geral as mulheres de classes populares do grupo pesquisado não estavam trabalhando e o tempo do cuidado não disputava o mesmo espaço com o trabalho remunerado.
As mulheres das camadas médias possuem condições de pagar, e pagam, uma rede de apoio remunerada, formada em geral por outras mulheres, estas em sua maioria negras, que cumprem parte das tarefas pelas quais elas são responsabilizadas. Com isso, estatisticamente, elas usam menos tempo de suas vidas para afazeres domésticos e tarefas de cuidado que as de classes populares. Dados da PNAD indicam que as mulheres pretas ou pardas dedicaram 1,6 hora a mais por semana nessas atividades do que as brancas (IBGE, 2022). E, mesmo assim, as últimas costumam mais frequentemente associar a maternagem ao sentimento de exaustão e sobrecarga (Carneiro, 2021; Lowenkron; Hastenreiter, 2024; Zanello et al., 2022).
O que observamos em nossa pesquisa é que a pandemia não levou apenas medo e insegurança para as famílias de classes populares, mas novas possibilidades de “arranjos de cuidado” (Fazzioni, 2018) e “ajudas” (Guimarães; Vieira, 2020). Enquanto mulheres mais ricas perderam suas babás e empregadas domésticas no período de maior isolamento social, a mãe de Carolina, doméstica, parou de trabalhar e pôde ajudar mais ativamente no cuidado de seus netos.
A vida das mulheres das classes populares não era fácil antes da pandemia, não foi durante ela e nunca será. Provavelmente, elas estão cansadas, exaustas e algumas, doentes. Mas a maioria delas não relatou suas experiências de maternagem durante a pandemia conferindo especial ênfase nessas emoções e sentimentos. Entre as entrevistadas, a disponibilidade de tempo para o cuidado de crianças nos arranjos familiares parece ter inclusive aumentado nesse período pela interrupção do trabalho remunerado, reduzindo em alguns casos a ausência masculina no cotidiano da maternagem, pelo menos temporariamente. Embora isso tenha produzido evidentes dificuldades financeiras e preocupações, em um contexto marcado pela colonialidade do cuidado (Passos, 2023) ancorada em um sistema de reprodução estratificada (Colen, 1995), essa maior disponibilidade coletiva de tempo para o cuidado de crianças dentro das próprias famílias nucleares ou extensas, na perspectiva das mulheres de classes populares entrevistadas, foi um aspecto da vivência da maternidade na pandemia que parece ter sido emocionalmente valorizado.
A pesquisa nos levou, portanto, a ter a impressão de que há particularidades na forma com que as mulheres das classes populares analisadas encararam, vivenciaram ou relataram as práticas de maternagem durante a pandemia, se comparadas com os estudos e narrativas centrados nas experiências de mulheres das camadas médias, dando menor ênfase à exaustão materna. É difícil encontrar as explicações precisas para essa suposta particularidade. Mas podemos sugerir que as diferenças nas relações com o trabalho remunerado e na estruturação da rede de apoio que leva a uma maior ou menor coletivização do cuidado de crianças são fatores que devem influenciar. Além disso, analisar como o extraordinário da pandemia e do fechamento das creches se entrelaçou, “com seus tentáculos”, ao cotidiano das mulheres de cada estrato social e penetrou “os recessos do ordinário” (Das, 2020) parece ser também chave para entender essa questão.
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1
A referida pesquisa foi realizada no âmbito do mestrado acadêmico de Leticia Hastenreiter (2024) no Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Medicina Social Hésio Cordeiro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ) e do Projeto “Gênero, família e Estado: governo da infância, pandemia e a gestão da (não) reabertura escolar no Rio de Janeiro” de Laura Lowenkron (Jovem Cientista do Nosso Estado/FAPERJ, processo E-26/201.441/2022), vinculado à mesma instituição.
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2
Segundo o autor, a classe “tem a ver com a condição financeira, o trabalho exercido, o nível educacional e também com o local onde moram e a forma com que se relacionam com ele, as experiências e interesses comuns entre as pessoas. Então, ao citar classes populares, falo preferencialmente daqueles que moram em regiões periféricas, fruto de estilo de urbanização desigual e excludente, que assim compartilham minimamente um modo de vida determinado por diferentes formas de escassez. […] Essa é a classe social da qual participa a maior parte do contingente de negros, mestiços, descendentes de índios, mulheres, grupos sociais que são historicamente inferiorizados e que em suas práticas carregam outras linguagens, outras leituras da vida, outros modos de fazer decorrentes dessa condição” (Lopes, 2018, p. 105).
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3
Nos termos da autora: “Uma vez que o machismo delega às mulheres a tarefa de criar e sustentar um ambiente doméstico, tem sido sobretudo responsabilidade das mulheres negras construir lares como espaços de acolhimento e cuidado face à dura e brutal realidade da opressão racista e da dominação machista. Ao longo da história, as pessoas afro-americanas têm mostrado que a construção de uma casa, ainda que frágil e simples (a cabana dos escravizados, o barraco de madeira), tem uma dimensão política radical. Apesar da brutalidade do apartheid racial, da dominação, o lar de uma pessoa era o único lugar onde ela podia enfrentar livremente a questão da humanização, onde ela podia resistir” (hooks, 2019, p. 105).
Disponibilidade de dados
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
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Fernanda Cruz Rifiotis - https://orcid.org/0000-0002-7307-2254Patrice Schuch - https://orcid.org/0000-0002-0073-3496Fernanda Bittencourt Ribeiro - https://orcid.org/0000-0003-2357-8625Carla Villalta - https://orcid.org/0000-0003-4252-530X
