Open-access Comer, brincar, morar: reflexões acerca do cotidiano de crianças refugiadas

Comer, jugar, vivir: reflexiones sobre el cotidiano de niños refugiados

Resumo

Esta pesquisa investigou as perspectivas de crianças em situação de refúgio sobre o cotidiano a partir do comer, do brincar e do morar. Participaram 14 crianças afegãs, em situação de refúgio e acolhidas em uma instituição no interior do estado de São Paulo, Brasil. Os resultados foram produzidos a partir do registro em diário de campo, fotografias e desenhos realizados pelas crianças e analisados por meio da análise de conteúdo temática. Ao morar, as crianças associaram elementos como avião; casas afegãs e brasileiras; e, principalmente, pessoas, apresentando o humano enquanto espaço de habitação. Ao comer, as crianças exploraram as comidas brasileira e afegã; e ao brincar, relacionaram encontros coletivos entre seus pares. A pesquisa revelou elementos sobre o cotidiano de crianças em situação de refúgio a partir de suas próprias narrativas, contribuindo, ainda, com novas questões a serem investigadas.

Palavras-chave
Infância; Refugiados; Crianças refugiadas; Cotidiano


Abstract

This research investigated the perspectives of children in refugee situations on the daily lives, based on eating, playing and living. Fourteen Afghan refugee children, housed in an institution in the interior of São Paulo state, Brazil, participated. The results were produced from field journal records, photographs, and drawings made by the children and analyzed through thematic content analysis. Regarding living, the children associated elements such as airplanes, Afghan and Brazilian homes, and mainly people, presenting the human as a living space. Regarding eating, the children explored Brazilian and Afghan foods, and regarding playing, they related to collective encounters with their peers. The research revealed elements about the daily lives of refugee children from their own narratives, while also raising new matters to be investigated.

Keywords
Childhood; Refugees; Refugee children; Daily life


Resumen

Esta investigación estudió las perspectivas de niños en situación de refugio sobre lo cotidiano, a partir del comer, del jugar y del vivir. Participaron 14 niños afganos, en situación de refugiados, acogidos en una institución en el interior del estado de São Paulo, Brasil. Los resultados se produjeron a partir del registro en diario de campo, fotografías y dibujos realizados por los niños y analizados por medio del análisis de contenido temático. Con el vivir, los niños asociaron elementos tales como avión, casas afganas, y brasileñas y principalmente, personas, presentando lo humano como espacio de vivienda. Con relación al comer, los niños exploraron las comidas brasileña y afgana y con el jugar relacionaron encuentros colectivos entre sus pares. La investigación reveló elementos sobre el cotidiano de niños en situación de refugio a partir de sus propias narrativas, contribuyendo también con nuevas cuestiones para investigación.

Palabras clave
Infancia; Refugiados; Niños refugiados; Cotidiano


Introdução

Neste trabalho, dirigimo-nos às crianças em situação de refúgio enquanto sujeitos atuantes no mundo, considerando suas singularidades e os contextos socioculturais nos quais estão inseridas. Conforme Paraguassu1, uma criança, antes de ser refugiada, é uma criança, e deve assim ser reconhecida, nisto incluindo sua singularidade. Este entendimento envolve “(...) honrar os direitos de a criança participar sem ignorar a nossa responsabilidade de protegê-la”2 (p. 861).

O Alto Comissariado das Nações Unidas (ACNUR) entende como refugiadas as pessoas que estão:

[...] fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos e conflitos armados3.

O ACNUR apresenta a situação dos refugiados como a maior crise humanitária de todos os tempos, estimando haver 35,3 milhões de refugiados no mundo. Entre as 50.355 mil pessoas solicitantes de refúgio no Brasil, estima-se que 15.084 mil sejam menores de 15 anos de idade, população reconhecida como a mais vulnerável, o que exige atenção dos promotores de políticas públicas, principalmente nos âmbitos da saúde, assistência social e educação4.

O Ministério da Saúde5 publicou a cartilha de promoção da saúde mental de crianças e adolescentes em contextos migratórios, a qual ancora-se na Convenção Internacional dos Direitos da Criança de 1989 e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990 para revelar que o acesso ao cuidado em saúde mental de crianças refugiadas é inegociável.

Entretanto, atualmente destacam-se a escassez na produção científica acerca de crianças refugiadas e a ausência de pesquisas debruçadas sobre o cotidiano delas. Observa-se ainda que as pesquisas realizadas nesta temática raramente utilizam metodologias participativas no objetivo de produzir conhecimento com as crianças a partir de suas próprias perspectivas e vivências.

O deslocamento forçado carrega consigo potenciais rupturas familiares e culturais, as quais impõem às crianças o sentimento de solidão e promovem, na língua, uma barreira para a inserção social2. Tais rupturas dialogam com apontamentos feitos por Hannah Arendt6 durante a Segunda Guerra Mundial. Para ela, as pessoas refugiadas são banidas de seus mundos.

Arendt6 entende as ocupações enquanto inscrição humana no mundo; e a casa, enquanto familiaridade da vida cotidiana. Além disso, enumera as perdas vividas na solidão de ser banido de seu mundo:

Perdemos a nossa casa o que significa a familiaridade da vida quotidiana. Perdemos a nossa ocupação o que significa a confiança de que tínhamos algum uso neste mundo. Perdemos a nossa língua o que significa a naturalidade das reações, a simplicidade dos gestos, a expressão impassível dos sentimentos. Deixamos os nossos familiares nos guetos polacos e os nossos melhores amigos foram mortos em campos de concentração e tal significa a ruptura das nossas vidas privadas6. (p. 8)

Apesar das mudanças que atravessam a vida cotidiana, sua estrutura não pode ser suprimida7. Isso significa que, mesmo diante de situações-limites, o cotidiano não se encerra. “Enquanto o sujeito existir, haverá também o cotidiano e porque o sujeito existe, o cotidiano não pode ser suprimido”8 (p. 40).

Para a Terapia Ocupacional, o cotidiano é preenchido por ações significativas para o sujeito e “(...) são as atividades que instrumentalizam a criação de espaços de saúde para construções na vida cotidiana”9 (p. 648). Essa noção fornece às atividades lugar central na perspectiva da Terapia Ocupacional, que, ancorada pelo Método Terapia Ocupacional Dinâmica (MTOD), busca ampliar o cotidiano de pessoas que vivenciam sua ruptura9,10.

Na situação de refúgio, temos o comprometimento das experiências que possibilitam ao sujeito habitar o mundo8, o que dialoga com Kujawski11 quando escreve acerca da crise do século XX como a crise do que é fundamental para a vida.

Kujawski11 expõe cinco apresentações elementares da vida, as quais, para ele, resumem o cotidiano humano e são principalmente atacadas na crise do cotidiano: habitar, trabalhar, conversar, passear e comer. Este autor afirma que:

Cotidiano significa, etimologicamente, “cada dia”; é a unidade de medida da sucessão da vida humana, feita de um dia após o outro. É o dia a dia, conceito que apreende melhor o caráter fluido, sucessivo e continuado do cotidiano11. (p. 35)

Neste estudo, elegemos explorar com as crianças o morar, como expressão do habitar, o comer e o brincar. O brincar possibilita às crianças constituírem sua humanidade12 e é aqui incluído considerando sua relevância nas experiências infantis. Pensamos que essas três categorias possibilitam acessar o cotidiano das crianças refugiadas, apresentando-se como conjugações do viver.

Kujawski11 reflete sobre a culinária como uma arte conservadora e, paradoxalmente, não reacionária, que envolve continuidade e inovações, cuja vivência enquanto rotina contribui para a absorção humana no cotidiano. Nesse sentido, percebe-se que o comer ultrapassa a necessidade de sobrevivência.

Escolher o que comer é influenciado fortemente pelo convívio social cotidiano, incluindo as relações humanas em diferentes contextos e locais de circulação, os quais possibilitam trocas e contribuem para a construção do sistema alimentar13.

Comida é “(...) o alimento transformado pelas representações sociais e culturais”13 (p. 511); associa-se à construção de indivíduos e coletivos; e está ligada à identidade. Por isso, propomos a compreensão da comida associada ao prazer e conectada aos sentidos afetivos, culturais e relacionais que envolvem o coexistir no mundo.

Aproximado a isso está o entendimento do brincar enquanto algo relacionado a diversos modos do fazer humano, ligado à cultura e que se configura enquanto linguagem abrangente da experiência de vida12. Essa experiência é capaz de acolher a diversidade e produzir bem-estar e autonomia na criança, possibilitando a expressão da singularidade, existência e presença no mundo14.

O brincar é uma forma cultural fundamental produzida pelas crianças e configura-se como um patrimônio transmitido de geração em geração por meio delas, o qual escapa à intervenção adulta e possibilita às crianças resistirem à colonização que busca homogeneizar suas infâncias15.

A análise das gramáticas das culturas da infância permite-nos interpretar o jogo simbólico como um processo ativo de interpretação, compreensão e intervenção na realidade social. Esse processo é o responsável pela capacidade de resistência ao horror que frequentemente são projetadas na vida das crianças15. (p. 15)

Com relação ao morar, entendemos a importância do habitar considerando que “(...) é essencial à vida humana, para possuir-se a si mesma, instalar-se nesse alvéolo absorvente que é a casa”11 (p. 43).

Saraceno16 diferencia habitar de estar, afirmando que, para habitar, o sujeito precisa apropriar-se do espaço no qual se encontra, o qual acolhe sua singularidade; enquanto para estar, basta ao indivíduo existir em algum lugar sem dele se apropriar. Kujawski11 afirma que “estar é mal-estar” (p. 45) e, para Bachelard17, “(...) todo espaço realmente habitado traz a essência da noção de casa” (p. 25).

Casa é o nosso “canto no mundo”17 (p. 24), espaço que primeiro nos acolhe e abriga. Por isso, deve ser tomada como espaço de habitação sem o qual “o homem seria um ser disperso”17 (p. 26). Ela nos dá “conselhos de resistência”17 (p. 62) e não se limita ao concreto, uma vez que “o espaço habitado transcende o espaço geométrico”17 (p. 62).

Como moram e habitam aqueles de quem foram tomadas, abrupta e repentinamente, suas casas e cidades? Como fica, a partir de suas próprias experiências, a vida cotidiana das crianças que perderam seu mundo? Como seu cotidiano se expressa a partir de mudanças e rupturas que, embora radicais, não são capazes de suprimir suas experiências ou suas histórias – e o que isso pode nos ensinar?

Os dados atuais sobre pessoas refugiadas revelam a quantidade cada vez maior de pessoas banidas de seus mundos6, enquanto a produção científica nesta temática, especificamente em se tratando da população infantil, é escassa. Conforme nos desenvolvemos enquanto sociedade, adquirimos problemas para os quais somos capazes de propor soluções e, portanto, temos o dever ético de fazê-lo18. Diante disso, propomos o presente estudo.

Objetivo

Investigar as perspectivas de crianças em situação de refúgio sobre o cotidiano, a partir do comer, do brincar e do morar.

Metodologia

Trata-se de uma pesquisa qualitativa de caráter exploratório, na qual foram utilizados procedimentos técnicos da pesquisa participante visando que a produção dos dados fosse “(...) uma alternativa solidária de criação de conhecimento social”19 (p. 29), privilegiando o pesquisar com as crianças refugiadas – em vez de “sobre” elas.

Foi utilizada a elucidação gráfica, método criativo e participativo que acolhe as necessidades visuais para construir uma narrativa ampliada20. Nossa principal ferramenta metodológica foi a imersão no campo de pesquisa, o que possibilitou a uma das pesquisadoras compartilhar o cotidiano por 15 dias consecutivos com as participantes da pesquisa, período no qual foi utilizado o diário de campo, instrumento de intervenção que ampara a implicação de quem pesquisa com o campo no qual está inserido, possibilitando reflexões importantes para o desenvolvimento da pesquisa21.

A aproximação com as participantes da pesquisa se deu por meio de momentos espontâneos; a comunicação foi estabelecida por meio de atividades e de traduções realizadas pelas crianças que falavam português. Uma câmera fotográfica foi oferecida e elas fotografaram durante o período da imersão. Em três momentos específicos proporcionados pela pesquisa, as crianças utilizaram materiais previamente selecionados, lúdicos e expressivos para criarem produtos com os quais ficaram.

Os dados foram analisados considerando a técnica de análise temática de Bardin22. Uma análise preliminar foi realizada com as participantes, a partir de seus comentários acerca das categorias investigadas e da confecção de três cartazes relacionados às categorias. As atividades das participantes eram impressas ao longo da imersão e eram feitas perguntas relacionadas às atividades. As percepções da pesquisadora eram levadas até as participantes, de modo a privilegiar suas perspectivas no processo de análise.

A pesquisa foi realizada em uma instituição religiosa responsável por acolher pessoas refugiadas e apoiá-las em sua permanência no Brasil que era composta exclusivamente por afegãos quando a pesquisa foi realizada.

Participaram desta pesquisa 14 crianças afegãs – nove meninas e cinco meninos – que chegaram à instituição, onde viviam com suas famílias, entre dezembro de 2022 e março de 2023. Foi adotado como critério de inclusão crianças com idade entre cinco e dez anos cujos pais autorizaram a participação e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Este público está entre os 50,4% dos solicitantes de refúgio no Brasil4; e uma das pesquisadoras possuía maior experiência profissional com esta faixa etária.

Este projeto foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos, expresso pelo CAAE 64901222.0.0000.5504. Os participantes desta pesquisa assinaram o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido.

Resultados e discussão

Sobre o comer

Figura 1
Cartaz sobre o comer. Primeira colagem realizada pelos participantes da pesquisa.

Nesta colagem, as crianças relacionaram ao comer 19 imagens, entre as quais observamos: nove alimentos preparados pelos afegãos, nove festas afegãs, seis momentos diários na instituição e uma planta colhida na instituição.

As crianças relacionaram ao comer a culinária tanto afegã quanto culinária brasileira, o que pode sinalizar a modificação da cultura alimentar e corroborar a apresentação de Kujawski11 do comer conservador e não reacionário. Foram relacionados ao comer momentos cotidianos nos quais realizam suas refeições na instituição e momentos festivos, permitindo considerar uma alimentação diversa, plural, ordinária e extraordinária, realizada sobretudo em coletivo, considerando ainda o que a própria natureza oferece.

Esses dados revelam sua importância diante da ameaça imposta pelo deslocamento forçado, que compromete a segurança alimentar e nutricional de quem o vivencia, prejudicando o direito de acessar alimentos de qualidade em quantidade necessária regularmente23.

A aparente modificação na alimentação das crianças evidencia o processo de aculturação, comumente experimentado por pessoas em situação de refúgio, no qual o indivíduo modifica sua própria cultura diante do contato com outra e para o qual crianças e adolescentes são mais vulneráveis23.

A experiência aqui narrada evidencia um caminho no qual o contato intercultural pareceu proteger a segurança alimentar e nutricional da população em questão, uma vez que proporcionou a ela os alimentos de que necessitava ao mesmo tempo que se adequou às questões culturais específicas desse grupo.

Diante do exposto, impera-se a necessidade de que pessoas em situação de refúgio exerçam suas singulares culinárias e estejam protegidas contra a insegurança alimentar e nutricional. Indicamos que outros estudos se debrucem sobre a questão da alimentação de crianças refugiadas, considerando a vulnerabilidade por elas experimentada e a relevância do comer para a absorção humana ao cotidiano11.

Sobre o brincar

Figura 2
Cartaz sobre o brincar. Segunda colagem realizada pelos participantes da pesquisa.
Figura 3
Verso do cartaz sobre o brincar. Verso da segunda colagem realizada pelos participantes da pesquisa.

Nesta colagem, as crianças utilizaram 44 imagens. Entre elas, observamos dez imagens de aula, quatro de espaços de lazer, seis momentos festivos, sete momentos espontâneos na rotina e 17 momentos proporcionados pela pesquisa, sendo que todos se deram na instituição.

As 17 imagens de momentos proporcionados pela pesquisa revelam que o brincar foi um aspecto importante no desenvolvimento desta. Os trechos a seguir, retirados do diário de campo, relacionam-se a esse aspecto:

As meninas me ensinaram um jogo com as mãos onde quem perde tem as bochechas seguradas e ganha um tapinha na testa. Perdi algumas vezes a brincadeira e ganhei os tapas. Me achei vencedora por ganhar os olhinhos curiosos das crianças sorrindo ousadamente por dar um tapa sutil na tia. Ganhei em outras e os tapinhas desajeitados transformaram-se em risadas... é uma espécie de pedra papel e tesoura enriquecido pela cultura afegã.

Houve um dia em que busquei um espaço onde acontecem fogueiras na instituição para apreciar a vista e ler. Me vendo ir para um lugar mais afastado, a menina sonhadora e suas irmãs me acompanham animadas, querendo brincar [...] Ela olha para o céu e encontra desenhos nas nuvens, eu achei poético. [...] Não me lembrava a última vez que olhava para o céu assim. Às vezes, precisamos dos olhos das crianças. Acho que a menina sonhadora me emprestou os dela por alguns momentos e me mostrou que, às vezes, para brincar, basta ter as nuvens e o olhar...

Brincamos de cantar. Pedi que cantassem músicas do Afeganistão também, pensando nas músicas infantis que pudesse haver por lá, mas elas cantam a hino nacional com a mão no peito. Eu fiquei emocionadíssima quando percebi. Uma vendo a outra cantar juntava sua voz à outra e levava a mão ao peito com muita honra e, ao mesmo tempo, sensibilidade. Em seguida, elas pediram que cantássemos o hino do Brasil e se emocionaram ao escutar brasileiros cantando [a essa altura outros trabalhadores se juntaram a nós]. Foi um momento muito bonito esse no refeitório, tendo como pano de fundo a chuva que caía certeira lá fora.

Faz parte da cultura afegã tomar chá em tapetes ao ar livre e fui com algumas voluntárias fazer isso no dia da minha partida... fomos tomar chá e comer bombons com algumas pequenas afegãs. Jogamos jogos que eu absolutamente não sou capaz de explicar [porque não entendi e não sei, até agora, quem ganhou]. Brincamos de “Vítima, detetive e assassino”, mas a brincadeira falhou porque eu tinha lido meu papel errado. Rimos muito e tomamos chá. Um delicioso chá afegão. Após um tempo fui circular pela instituição e ir me despedindo das pessoas e do espaço... fui chamada para jogar bola com as crianças na quadra e aproveitei o tempinho ali com elas!

(Trechos do diário de campo, 2023)

No contexto do deslocamento forçado, o brincar resiste; crianças refugiadas brincam. Por meio do brincar simples, coletivo, espontâneo e relacional, as crianças elaboram, comunicam, divertem-se e criam relações. Brincar se apresentou como via de conexão entre pesquisadora e participantes da pesquisa, bem como o meio a partir do qual uma pesquisa com crianças pode ser realizada.

Em consonância está o revelado por Pastore24 em seu estudo com crianças moçambicanas, no qual a pesquisadora também brincou com as crianças.

Nesta pesquisa, os encontros com as crianças tinham o potencial de se tornar encontros para brincar; brincando, participaram da pesquisa, inclusive nos momentos em que se utilizaram da câmera fotográfica. Por meio das fotografias e das colagens realizadas durante a pesquisa, as crianças puderam comunicar seus pontos de vista de modo expressivo e brincante.

Nesse sentido, “a câmera fotográfica foi (...) instrumento de comunicação e de construção comum do olhar sobre o mundo da experiência significativa”24 (p. 5). Por isso, Pastore24 sinaliza a importância de retornar as fotografias para as participantes, com vistas ao favorecimento da relação, promoção de vínculo e reciprocidade entre elas. Isso também foi percebido no desenvolvimento desta pesquisa, o que motivou o fato de as fotos feitas pelas crianças terem sido reveladas e devolvidas a elas.

A abertura ao encontro com as crianças – sem abafar suas vozes, mas seguindo os seus movimentos inventivos, criativos e brincantes – favorece a realização de pesquisas com elas25. O adulto envolvido na relação de brincar com as crianças experimenta “(...) estados inaugurais do pensamento, da invenção”25. Possibilitar às crianças a criação do próprio espaço de vida, afirmar suas ações e favorecer nelas a sensação de que podem construir seus próprios territórios requer daqueles que as cercam a “(...) construção de um estado de invenção coletivo”25.

Diante do exposto, é possível afirmar que nós, adultos ocidentais, temos muito a aprender ao brincar com as crianças afegãs. Elas podem nos ensinar acerca do estar no coletivo; do relacionar-se com o outro; e do manter aberta posturas inventivas e de valorização ao que é simples, sensível e espontâneo.

Sobre o morar

Figura 4
Cartaz sobre o morar. Quarta colagem realizada pelos participantes da pesquisa.
Figura 5
Verso do cartaz sobre o morar. Verso da quarta colagem feita pelos participantes da pesquisa.

Nesta colagem, foram utilizadas 61 imagens, por meio das quais as crianças conjugaram o verbo “morar” em 29 imagens de pessoas. Nesse conjunto, há sete pessoas se abraçando, sendo quatro em fotos de paisagem; nove desenhos de casas brasileiras; quatro desenhos de casas afegãs; e cinco casas desenhadas sem localização específica. Por fim, há também a figura de um avião de papel feito por um participante da pesquisa.

Conforme as figuras de pessoas e os desenhos ilustrando a presença de familiares sinalizam, as crianças associam pessoas ao morar. O afeto demonstrado por elas aos seus irmãos foi presente durante toda pesquisa, o que aparece nos trechos a seguir, retirados do diário de campo.

Moram com suas famílias, a maioria acompanhada por seus pais e irmãos. E o fato de terem muitos irmãos é motivo de muita alegria, se sensibilizam quando ouvem que alguns brasileiros são filhos únicos ou que têm poucos irmãos. Isso é motivo de lamentar, enquanto o ter muitos irmãos os alegra.

Quiseram ver fotos da minha família e me contaram das suas. Elas falarem de suas famílias enquanto conversávamos sobre suas casas e a experiência de morar aqui reforça aquilo que elas demonstraram na colagem: casa é gente, morar é pertencer, família é lar. Ainda que as casas materiais se percam[,] há algo que permanece, serve de morada e refúgio.

Casa me pareceu ser coletivo, união, não foi incomum aparecerem mais de uma criança na foto da casa. Teve uma menina que desenhou sua casa e seus irmãos ao lado da mesma, não se fazendo no desenho, mas fazendo seus irmãos. Elas demonstraram que casa era esse espaço coletivo com pessoas a quem se ama.

(Diário de pesquisa, 2023)

Durante esta pesquisa, desenhos de casa foram insistentemente realizados pelas participantes. Isso permite pensar que a casa, materialmente, é importante para a noção do morar, uma vez que possibilita o habitar, que, por sua vez, permite a vida humana “(...) possuir-se a si mesma”11 (p. 43). Portanto, ao observar que é possível morar em pessoas, não se deve reduzir o valor da casa enquanto espaço de habitação, mas elevá-lo ao preenchê-la por quem se tem afeto.

Na perspectiva das crianças, a casa pode ser compreendida como um espaço material capaz de abrigar aqueles que nela se encontram, ao lhes oferecer espaço de acolhimento e ponto de ancoragem em meio à imensidão do mundo, corroborando a noção de habitar presente em Kujawski11.

A presença das casas de outrora no desenho das crianças refugiadas revela que a casa perdida não foi esquecida por elas. Apesar de sua imaterialidade no tempo presente, na vivência das crianças refugiadas, as casas deixadas não pereceram. Para Bachelard17, “(...) é exatamente porque as lembranças das antigas moradas são revividas como devaneios que as moradas do passado são imperecíveis dentro de nós” (p. 26).

Desenhar a casa deixada e apresentá-la como existente permitiu às crianças revivê-las e fortalecê-las. A casa, para Bachelard17, tem o seu maior benefício no fato de proteger sonho e sonhador. Nesse sentido, os valores de sonho estabelecidos na casa natal permanecem mesmo quando essa casa deixa de existir concretamente:

[...] por essa infância permanente, preservamos a poesia do passado. Habitar oniricamente a casa natal é mais que habitá-la pela lembrança, é viver na casa desaparecida tal como ali sonhamos um dia17. (p. 35)

Compreender o morar enquanto possibilidade de habitar e o habitar como a “(...) ligação apaixonada entre o nosso corpo que não esquece e a casa inolvidável”17 (p. 34) explica a casa ser sinônima do morar. Ao dizer que a instituição é casa, as crianças estão dizendo que nela é possível morar, habitar; nela houve conexões apaixonadas entre corpo e espaço. Nela, não houve o “mal-estar” mencionado por Kujawski11 acerca dos espaços onde se está sem habitar.

A casa é uma força capaz de integrar pensamentos, lembranças e sonhos; dá contorno e impede o espalhamento do sujeito; sustenta o sujeito em meio a tempestade; é corpo e alma; e sua imagem é associada à resistência17.

Apesar da poesia que oferece acolhimento por meio da dimensão material da casa, esta precisa ser preenchida do humano para constituir o morar; é o que demonstram as crianças participantes desta pesquisa por meio das fotografias de pessoas relacionadas a esse cartaz. A casa que abriga parece dialogar com os que são por ela abrigados, ao passo que é preenchida pelas relações afetuosas que se estabelecem ali.

Nisto reconhecemos o valor do princípio da unidade familiar previsto pelo direito internacional e pela Constituição Federal, que busca garantir a reunião familiar e a extensão do reconhecimento de refúgio para a família de pessoas refugiadas26.

Morar com quem se tem afeto faz com que as crianças estejam fortalecidas para enfrentar os desafios impostos pelo deslocamento forçado. Em diálogo a isso está a proposta do fortalecimento dos laços familiares e das relações sociais, os quais implicam na construção de ambientes solidários e promotores da saúde mental de crianças em contextos migratórios5.

Relações familiares e interpessoais solidárias, assim como o fortalecimento da identidade e do senso de pertencimento sociocultural, são os pilares para a saúde mental positiva. Assim, intervenções junto às famílias devem fortalecer os vínculos familiares e as relações intergeracionais, baseadas na transmissão de afeto, de conhecimentos, no cuidado e na comunicação não violenta5. (p. 31)

O acima exposto parece justificar o fato de as crianças reconhecerem a instituição onde estão acolhidas como suas casas (conforme disseram e apresentaram em seus desenhos). Isso permite pensar que estarem acompanhadas de seus pares e de suas famílias em lugar não hostil, mas receptivo às culturas que ali se encontram e a elas mesmas, favorece às crianças refugiadas sentirem-se pertencentes, acolhidas e em seus lares.

Morar com quem se tem afeto soma-se à ideia de morar em gente, como é possível observar nas 29 fotos de pessoas coladas no cartaz do morar, o que corrobora a visão de Bachelard17: “(...) nossa alma é uma morada. E, lembrando-nos das ‘casas’, dos ‘aposentos’, aprendemos a ‘morar’ em nós mesmos” (p. 20).

Em diálogo a isso estão diferentes expressões culturais. Por exemplo, em “Casa Pré-Fabricada”, canção de Camelo27, o eu lírico anuncia que fará do sorriso de alguém um abrigo. Em “A Nossa Casa”, de Schneronk et al.28, nota-se que “(...) a nossa casa é onde a gente está/a nossa casa é em todo lugar/a nossa casa é de carne e osso”. Já em “Casa”, canção de Emicida29, declara-se: “O céu é meu pai/A terra, mamãe/E o mundo inteiro é tipo a minha casa”.

Com as expressões culturais citadas, observa-se o morar em casa que é feita de gente, “carne e osso”, e o morar na natureza. Também isso as crianças afirmam ao colar imagens de céu azul, globo terrestre, árvores e espaços sem paredes de concreto no cartaz sobre o morar. Assim, elas expandem a experiência do morar e dialogam com Bachelard17 acerca da transcendência do espaço geométrico habitado.

Morar na natureza e no globo é uma noção capaz de derrubar fronteiras que buscam reduzir a experiência de transitar entre mundos e limitar a construção de casas em todos os lugares. Para Mbembe30, “a função de uma fronteira, na realidade, é ser cruzada”, e isso as crianças afegãs parecem fazer muito bem, considerando a ousadia com a qual reconheceram em cada canto o potencial de morar.

Quando fronteiras nos dividem e buscam impedir a mobilidade humana diversamente motivada, crianças em situação de refúgio fazem coro com os seguintes questionamentos apresentados por Mbembe30:

Com a expansão colonial do ocidente, e de modo mais decisivo com o advento do capitalismo, a raison d’être da fronteira se relaciona a questões-chave como: a quem pertence a terra? Quem tem o direito de reivindicar partes dela e os vários seres que nela habitam? Quem determina sua distribuição ou divisão? Ao enquadrar a questão da fronteira dessa forma, estou tentando mostrar que o poder da fronteira está em sua capacidade de regular as múltiplas distribuições das populações – humanas e não humanas – sobre o corpo da terra, e, assim, afetar as forças vitais de todos os tipos de seres30.

Portanto, morar é o concreto da casa e além. Se podemos morar em gente, qual será a marca de um espaço em que o estrangeiro não se apresenta distante do familiar? Os dados desta colagem revelam que, para as crianças, morar se conjuga, sobretudo, em pessoas. Afirma-se aqui, portanto, o humano enquanto espaço de habitação.

Por fim, cabe ainda uma última reflexão, considerando o que ecoa a partir da ideia de morar no avião. Ao afirmar ser possível morar neste objeto voador responsável por transportar pessoas e objetos, é anunciada a impermanência e o devir como imbricados ao morar, que pode ser fixo, mas nunca rígido.

Alojado em toda parte, mas sem estar preso a lugar algum; essa é a divisa do sonhador de moradas. Na casa final como em minha casa real, o devaneio de habitar se vê logrado. É preciso sempre deixar aberto o devaneio de outro lugar17. (p. 75)

Seriam as crianças refugiadas sonhadoras de moradas?

Considerações finais

Neste trabalho, buscamos considerar as crianças, não colocando a experiência de refúgio à frente de quem elas são, mas olhando-as com interesse em conhecê-las e enxergar o modo como vivem. Ao considerá-las, surpreendemo-nos e somos afetados pela maneira com a qual preenchem os seus dias. Assim, esperamos ter contribuído para a construção de um caminho alternativo ao que rejeita a população refugiada por colocá-la na categoria do estranho e fomentado a redução das diferenças que causam estranhamento e divisão, construindo pontes e promovendo aproximações.

Conforme evidenciado, a crise do cotidiano pode ser agudizada pela experiência do deslocamento forçado e da situação de refúgio, o que requer atenção de diferentes setores da sociedade, bem como campos de atuação.

Este trabalho revela que a experiência das crianças refugiadas, embora possa ser atravessada por dores, sofrimentos e perdas, não pode ser resumida a isso. Crianças refugiadas celebram, brincam, comem, moram e vivem; têm memórias, histórias, singularidades, afetos e coisas a dizer. Portanto, é necessário que suas vozes sejam consideradas e que estudos participativos sejam realizados com elas.

Os participantes desta pesquisa demonstraram que comer é uma experiência aberta aos alimentos da cultura local, mas que eles não substituem os alimentos da cultura de origem. Revelaram que o brincar está para além do que é material e faz parte da vida de crianças que, apesar de arrancadas forçadamente de seus quintais, permanecem brincando. Expuseram que o morar envolve, sobretudo, a presença daqueles por quem se tem afeto – incluindo a casa concretamente, mas não se limitando a ela – e que, para morar, é necessário apropriar-se do local onde se está, habitando nele e o preenchendo de singularidade.

Diante disso, observa-se que as categoriais comer, brincar e morar permitiram acessar o cotidiano das crianças refugiadas. Elas mostraram como realizam essas atividades a partir da situação de refúgio, enquanto comiam, brincavam e moravam de modo compartilhado com uma das pesquisadoras. Sendo assim, comer, brincar e morar foram apresentados como atividades singulares e marcadas pela coletividade.

Entre as contribuições deste trabalho, pensamos que a principal se deva ao fato de este ter sido realizado com crianças acompanhadas por suas famílias, sendo que há poucas produções com este público, bem como ao fato de termos utilizado procedimentos participativos para a produção de seus dados, uma vez que carecemos de estudos baseados na perspectiva das próprias crianças refugiadas.

As limitações desta pesquisa residem no fato de o estudo ter se ocupado com crianças entre cinco e dez anos de idade, quando há uma importante porcentagem de crianças com menos e mais idade dentro da população refugiada; ter sido realizado com crianças recém-chegadas a uma instituição de passagem, quando há a necessidade de se investigar o cotidiano de crianças estabelecidas em outros contextos e residentes no país de acolhimento há mais tempo, entre outras.

Sendo assim, o encerramento desta pesquisa deve ser tido como possibilidade de abertura para que novas pesquisas se façam, seguindo as pistas deixadas pelas crianças neste e em outros estudos e ultrapassando as limitações encontradas até aqui. As crianças nos contam acerca de como vivem, do que precisam e do que desejam, e isto deve nos movimentar a considerá-las em suas singulares formas de vida.

Agradecimentos

Agradecemos à instituição na qual a pesquisa foi realizada.

Nagem JCO, Cid MFB. Comer, brincar, morar: reflexões acerca do cotidiano de crianças refugiadas. Interface (Botucatu). 2025; 29: e240314 https://doi.org/10.1590/interface.240314

Referências

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Correspondência

mariafernanda@ufscar.br

Contribuição das autoras

Ambas as autoras participaram ativamente de todas as etapas de elaboração do manuscrito.

Conflito de interesse

As autoras não têm conflito de interesse a declarar.

Editora

Denise Martin Coviello

Editor associado

Daniel Granada da Silva Ferreira

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    10 Jul 2024
  • Aceito
    28 Nov 2024
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