Open-access Orientações sobre alimentação e aleitamento materno no pré-natal sob a ótica de puérperas em maternidade do Rio de Janeiro, Brasil

Guidance on diet and breastfeeding during prenatal care from the perspective of puerperal women in a maternity facility in Rio de Janeiro, Brazil

Orientaciones sobre alimentación y lactancia materna en el prenatal desde el punto de vista de puérperas en una maternidad de Rio de Janeiro, Brasil

Resumo

O objetivo do estudo foi conhecer as percepções de puérperas sobre aspectos do período gestacional relacionados à alimentação, ao aleitamento materno e às orientações nutricionais recebidas, por meio de uma pesquisa qualitativa. Como técnica de pesquisa, utilizaram-se entrevistas semiestruturadas analisadas segundo a análise de conteúdo e interpretadas pelo referencial teórico da hermenêutica-dialética. Foram identificadas três categorias de análise, como orientações sobre alimentação e aleitamento materno no pré-natal; hábitos alimentares maternos e a importância da alimentação para a saúde do bebê; e aleitamento materno: significados, expectativas e a rede de apoio à mulher. Nove puérperas receberam orientações sobre aleitamento materno no pré-natal, mas a maioria relatou não ter sido orientada sobre isso. O estudo ratifica a importância da orientação nutricional durante o pré-natal, apontando a necessidade de conhecer a visão da mulher sobre esse período.

Palavras-chave
Pesquisa qualitativa; Aleitamento materno; Gestação; Pré-natal; Alimentação materna


Abstract

The aim of this study was to understand postpartum women’s perceptions of diet, breastfeeding and nutritional advice received during pregnancy. We conducted a qualitative study using semi-structured interviews, which were analyzed using content analysis and interpreted using a theoretical framework based on dialectical hermeneutics. Three categories of analysis were identified: guidance on diet and breastfeeding during prenatal care; maternal eating habits and the importance of diet for the baby's health; and breastfeeding - meanings, expectations and the women's support network. Nine puerperal women received guidance on breastfeeding during prenatal care, but the majority of participants reported that they had not received any guidance on breastfeeding. The findings of this study confirm the importance of nutritional guidance during prenatal care, highlighting the importance of understanding women's views on this period.

Keywords
Qualitative research; Breastfeeding; Pregnancy; Prenatal care; Maternal nutrition


Resumen

El objetivo del estudio fue conocer las percepciones de puérperas sobre aspectos del período gestacional relacionados con la alimentación, la lactancia materna y las orientaciones nutricionales recibidas, por medio de una investigación cualitativa. Como técnica de investigación se utilizaron las entrevistas semiestructuradas analizadas según el análisis de contenido e interpretadas utilizando el referencial teórico de la hermenéutica-dialéctica. Se identificaron tres categorías de análisis: orientaciones sobre alimentación y lactancia materna en el prenatal; hábitos de alimentación maternos y la importancia de la alimentación para la salud del bebé; y lactancia materna: significados, expectativas y red de apoyo para la mujer. Nueve puérperas recibieron orientaciones sobre lactancia materna en el prenatal, pero la mayoría declaró que no habían sido orientadas sobre la lactancia materna. El estudio ratifica la importancia de la orientación nutricional durante el prenatal, señalando la importancia de conocer la visión de la mujer sobre este período..

Palabras clave
Investigación cualitativa; Lactancia materna; Gestación; prenatal; Alimentación materna


Introdução

Na gestação, no puerpério e na lactação, a mulher está suscetível a mudanças fisiológicas e emocionais inerentes a esses períodos1, mas também ocorrem novas concepções, novos saberes e crenças oriundos de fontes familiares e culturais, bem como da assistência à saúde, que refletem no seu comportamento, nas suas escolhas e nos hábitos alimentares2.

As diferentes mudanças relacionadas à alimentação vivenciadas nesses períodos podem interferir nos resultados perinatais e influenciar a saúde da mulher e da criança, como os desfechos negativos associados ao excesso de peso antes ou durante a gestação. Portanto, a atenção adequada nesse período torna possível a vinculação da gestante aos serviços e à equipe conforme as suas necessidades, com vistas a fornecer orientações sobre alimentação saudável, aleitamento materno, dentre outras estratégias para estimular comportamentos e práticas fundamentais para garantir a saúde e o bem-estar da mulher3,4.

No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), as políticas públicas e iniciativas que incentivam, apoiam e protegem a Alimentação Adequada e Saudável (AAS) e o Aleitamento Materno (AM) são: a Política Nacional de Alimentação e Nutrição, a Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil; a Política Nacional de Promoção, Proteção e Apoio ao AM; e a Iniciativa Hospital Amigo da Criança, que tem como propósitos promover a AAS e qualificar o processo de trabalho dos profissionais ao estimular o AM e a prevenção do desmame precoce5-8.

O protocolo de uso do guia alimentar para a população brasileira na orientação da gestante recomenda o consumo predominante de alimentos in natura e minimamente processados, ressaltando os aspectos que interferem diretamente no consumo alimentar durante esse período9. Quanto aos alimentos ultraprocessados, as recomendações são para que se evite o consumo desses alimentos, pois podem contribuir com desfechos negativos durante e após a gestação, como a retenção de peso no pós-parto e bebês grandes para idade gestacional9,10.

Outro material essencial é a Caderneta de Gestante, que documenta o pré-natal e orienta as gestantes sobre alimentação ao destacar os “Dez Passos para uma AAS”, ressaltando a importância do consumo de alimentos predominantemente de origem vegetal que contenham menor processamento industrial11.

A avaliação do consumo alimentar da gestante faz parte dos cuidados no pré-natal, assim como a realização de orientação individualizada que deve ser elaborada valorizando os aspectos econômico, social e cultural, permitindo a compreensão do complexo processo saúde-doença-cuidado12.

A presença de insegurança alimentar é considerada um risco potencial para o curso e o desfecho da gravidez, a produção de leite e a saúde do recém-nascido13. Ainda que marcada por muitos desafios, a lactação é, desde a primeira hora de vida do bebê, uma potente fonte de proteção para a saúde da mulher e da criança. Em longo prazo, o AM é responsável pelo menor risco de excesso de peso nas crianças e de câncer de mama nas mulheres, além da redução da incidência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT)14.

A produção científica relacionada a alimentação e nutrição de gestantes e puérperas contempla estudos quantitativos sobre práticas alimentares e consumo dietético15, estudos qualitativos sobre as percepções do manejo alimentar durante o parto16, de fatores relacionados ao AM14 e do contexto da pandemia17,18. No entanto, há poucos estudos sobre a percepção de puérperas abrangendo ao mesmo tempo questões relacionadas ao pré-natal, à alimentação e ao aleitamento materno. Assim, o objetivo do estudo foi conhecer as percepções de puérperas sobre aspectos do período gestacional relacionados à alimentação, ao aleitamento materno e às orientações nutricionais recebidas.

Métodos

Realizou-se pesquisa qualitativa com puérperas internadas em uma maternidade pública do Rio de Janeiro, aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob o parecer número 4.437.300, conforme a Resolução n. 510/201619.

A coleta de dados foi realizada de março a junho de 2021 e adotada amostragem de conveniência por saturação20. Foram incluídas puérperas adolescentes e adultas e excluídas as que sofreram aborto, aquelas em que os recém-nascidos vieram à óbito e as portadoras de HIV (Human Immunodeficiency Virus).

Como técnica de pesquisa, utilizou-se entrevista semiestruturada conduzida por um roteiro para conhecer as percepções sobre as orientações recebidas durante o pré-natal; a alimentação antes e durante a gestação; bem como as percepções sobre o AM e o desejo de amamentar (Apêndice).

As puérperas foram convidadas a participar da pesquisa em local reservado no ambiente hospitalar, de forma que pudessem se sentir à vontade para falar. As entrevistas foram gravadas e conduzidas mediante o consentimento das participantes e a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, do Termo de Assentimento Livre e Esclarecido e, posteriormente, transcritas para análise. As participantes foram identificadas pela letra do alfabeto P de puérperas e números em ordem crescente na apresentação dos resultados.

Para análise das características maternas, foi realizada revisão do prontuário. Quanto à caracterização sociodemográfica e às condições de saúde, as informações coletadas foram: idade materna, cor da pele, estado civil, nível de escolaridade, ocupação, inserção em programa social do governo, número de filhos, vínculo empregatício e presença de comorbidades durante a gestação.

Quanto aos aspectos relacionados ao estado nutricional, utilizou-se o Índice de Massa Corporal (IMC) pré-gestacional, conforme documentado no cartão do pré-natal. O diagnóstico nutricional foi realizado segundo a classificação sugerida pela Organização Mundial da Saúde21, sem distinguir adultas de adolescentes, como orienta o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional22.

A análise das entrevistas teve como referencial teórico a análise de conteúdo na versão temática. Após a transcrição das entrevistas na íntegra e a leitura exaustiva, o material empírico foi analisado em três etapas consecutivas: descrição, análise e interpretação das falas23,24.

O referencial teórico-metodológico adotado foi a hermenêutica dialética, que analisa e interpreta o empirismo por meio da síntese entre os processos compreensivos e críticos. Interpretar as falas pela articulação entre as perspectivas da hermenêutica e da dialética permite interpretar os sentidos buscando a lógica dos fatos, relatos e observações; contextualizar os relatos por meio do olhar dos atores e sintetizar o relato dos fatos de forma que os atores nele se reconheçam25.

Resultados e discussão

Caracterização das participantes

Participaram do estudo 14 puérperas, sendo 11 adultas (20 a 39 anos) e três adolescentes (12 a 19 anos). A maioria era primípara (oito), solteira (12), tendo Ensino Fundamental (cinco) e Ensino Médio incompleto (cinco) como escolaridade. Quanto à ocupação, cinco relataram não possuir trabalho remunerado e se declararam responsáveis pelos serviços domésticos, enquanto seis puérperas possuíam ocupação e apenas uma tinha emprego formal. Sete puérperas eram beneficiadas pelo Programa Bolsa Família (Quadro 1).

Quadro 1
Caracterização sociodemográfica das puérperas internadas na maternidade pública do Rio de janeiro no período de janeiro a abril de 2021.

A análise do estado nutricional por meio da antropometria demonstrou que nove puérperas apresentaram IMC na faixa de normalidade e cinco, na faixa de sobrepeso21. Em relação ao estado de saúde, quatro puérperas apresentaram comorbidades durante a gestação (sífilis, anemia ferropriva e infecção do trato urinário) (Quadro 2).

Quadro 2
Caracterização do estado nutricional e da condição de saúde das puérperas internadas na maternidade pública do Rio de janeiro no período de janeiro a abril de 2021.

A perspectiva das puérperas

Após leitura exaustiva das entrevistas com base no referencial teórico de análise, emergiram das falas três categorias empíricas para análise e discussão dos resultados: orientações sobre alimentação e AM no pré-natal; hábitos alimentares maternos e a importância da alimentação para a saúde do bebê; AM – significados, expectativas; e a Rede de Apoio (RA) para a mulher.

A articulação entre a hermenêutica e a dialética na interpretação das entrevistas nos permitiu contextualizar as falas das puérperas, compreender seus significados e contradições, ultrapassando a análise das palavras em si25.

Orientações sobre alimentação e AM no pré-natal

De acordo com as entrevistas, nove puérperas relataram ter recebido orientações sobre alimentação durante o pré-natal. Conforme os depoimentos, as orientações recebidas foram superficiais e não específicas.

O médico deixava eu comer de tudo. Só quando as crianças nasciam que eles falavam que não podia comer tanta coisa. (P1)

Recebi orientações do meu médico mesmo. Eu perguntei tudo sobre como seria minha alimentação por causa do neném. (P2)

Eu recebi orientações sobre alimentação. Não tão especificamente. Foi a médica que me passou. Evitar gordura, sal demais, essas coisas. (P10)

Já são conhecidos os desfechos para a saúde do feto quando a gestante possui uma AAS. Portanto, o acesso ao cuidado nutricional no serviço de saúde contribui para uma melhor qualidade da alimentação da gestante, para o ganho de peso adequado e a menor prevalência de desmame precoce26.

O pré-natal é o momento ideal para esclarecer questões que dizem respeito ao ciclo gravídico da mulher. No entanto, poucos estudos avaliaram a assistência nutricional durante esse período, demonstrando que a escassez desse componente na assistência pré-natal dificulta o diagnóstico precoce de fatores de risco para a saúde da gestante e do bebê12. Há fragilidades nas orientações sobre a gestação, a importância e as técnicas para o AM, bem como sobre cuidados básicos com o recém-nascido27. Um estudo com gestantes brasileiras atendidas pelo SUS avaliou a qualidade da atenção pré-natal na rede básica de saúde e identificou que apenas 60% delas receberam as orientações devidas durante o pré-natal28.

A percepção de que as orientações feitas por profissionais de saúde foram superficiais e não específicas pode gerar insegurança e dúvidas sobre a real influência da alimentação para a saúde das puérperas e de seus filhos. Orientações vagas e imprecisas podem deixar as mulheres suscetíveis a informações equivocadas veiculadas pela mídia ou até mesmo por amigos e familiares. Vale ressaltar que há um calendário previsto que preconiza no mínimo quatro consultas com o nutricionista durante o pré-natal, visando garantir assistência nutricional qualificada29.

A maioria das entrevistadas relatou não ter recebido orientação sobre AM durante o pré-natal, mas sim de familiares e amigos. Contudo, isso não foi um impeditivo para o AM, considerando que elas pretendiam amamentar e reconheciam a sua importância, como pode ser verificado nas narrativas.

Não recebi orientação sobre amamentação no pré-natal. Mas como eu falei, [...], como eu trabalho com o público, então eu sempre conheço alguém da área médica. Então eu sempre recebi orientação de uma pessoa ou de outra, e assim vai. (P3)

Não recebi orientação no pré-natal sobre amamentação. Sempre falam que é para dar bastante peito. Mas teve uma amiga minha que falou que não era para deixar ficar no peito não. (P4)

As informações oriundas das falas reforçam a importante influência que a família exerce, principalmente das mulheres que possuem experiências prévias com o ato e o processo de amamentar. Por outro lado, ainda que não observado neste estudo, pode haver também uma influência cultural negativa da família com alegações de que o leite materno é fraco ou insuficiente para suprir as necessidades da criança, podendo interferir e induzir o desmame precoce30.

As orientações sobre AM fazem parte da assistência pré-natal na rede básica de saúde, sendo esse o momento mais oportuno para o desenvolvimento de ações educativas favorecendo o sucesso do AM. Vale ressaltar que a falta de orientações sobre o AM durante o pré-natal pode levar ao desmame precoce, situação não tão desconhecida no Brasil31.

Segundo dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani), a prevalência de crianças menores de 6 meses amamentadas exclusivamente foi de 45,8%, demonstrando que houve um avanço importante nos indicadores de AM exclusivo e AM continuado no segundo ano de vida no Brasil32.

Considerando que a decisão de amamentar pode ocorrer ainda durante a gestação, as orientações e o incentivo para o AM, realizados durante o pré-natal, podem contribuir de forma positiva para a decisão da mulher em amamentar e por quanto tempo manter o AM33. Estudos têm verificado associação entre consultas de pré-natal e orientação sobre a prática do AM em puérperas. Alves e colaboradores34 identificaram, entre as puérperas que fizeram pré-natal, que 49,3% delas relataram que foram orientadas sobre a prática do AM. Outro estudo que objetivou caracterizar o conhecimento das puérperas acerca do AM verificou que 51,7% delas não receberam nenhum tipo de informação durante o pré-natal. Os autores constataram a existência de um conhecimento superficial sobre a prática e os resultados benéficos do aleitamento para o binômio mãe-bebê35.

No estudo de Silva e colaboradores33, apesar de todos os profissionais de saúde afirmarem fornecer informações sobre AM, algumas gestantes mencionaram não ter recebido orientações, e as que receberam ainda permaneceram com dúvidas sobre o entendimento do manejo do AM. Sabe-se que há associação positiva entre mulheres que recebem orientação sobre a importância do leite materno e a manutenção do AM exclusivo por seis meses36.

O pré-natal é um momento ímpar para que os profissionais conversem com a mulher sobre os fatores que podem fragilizar e interferir no sucesso do AM. Dúvidas e inseguranças podem ser minimizadas e uma intenção inicialmente negativa de amamentar pode ser revertida. Dessa forma, ressalta-se a importância das orientações voltadas para incentivo à AAS e ao estímulo ao AM exclusivo feitas pelos profissionais de saúde que prestam assistência no pré-natal, no parto e no puerpério31,37.

As puérperas demonstraram ter conhecimento prévio sobre alimentação e AM por meio da cultura de compartilhamento de informações e conhecimentos dentro da RA de familiares e amigos. Revelaram ambiguidade de significados uma vez que as orientações informais recebidas, originadas do senso comum, pareceram suprir a falta (ou a insuficiência) de orientações profissionais, mas ao mesmo tempo demonstraram criar um sentimento de dúvidas sobre a veracidade das informações recebidas pela RA.

Hábitos alimentares maternos durante a gestação e a importância da alimentação para a saúde do bebê

Conforme as narrativas, foi possível identificar o consumo de alimentos ultraprocessados durante a gravidez inseridos no hábito alimentar das entrevistadas, como descrito a seguir:

Eu comia muita besteira, como hambúrguer, açaí, refrigerantes, sucos, cachorro-quente, principalmente aos finais de semana. Eu comia muita besteira. Danone e hambúrguer direto, açaí então, comia todos os dias. (P1)

Acho que a minha alimentação só piorou durante a gestação. Eu comia muita besteira. Na verdade, eu comia cachorro-quente, pé de galinha, caranguejo e ainda bebi refrigerante a gestação toda. Fiquei num estado que só bebia refrigerante e não água e por isso fiquei com infecção urinária. (P8)

Estudos têm demonstrado que o consumo de ultraprocessados pode repercutir de forma negativa na saúde das populações38. Dessa forma, a alimentação das gestantes deve ser constituída de alimentos variados, utilizando os guias alimentares como material de referência para uma alimentação mais saudável9,10.

Apesar de a alimentação de grande parte das puérperas ser composta por alimentos de baixo valor nutricional e ultraprocessados, a maioria, segundo seus relatos, apresentou IMC pré-gestacional correspondente a eutrofia. Todavia, o IMC é um indicador nutricional que, mesmo apontando normalidade, não é indicado para avaliar a existência de carências nutricionais específicas.

As falas das puérperas adolescentes demonstraram padrões de consumo alimentar diferentes das adultas, em consonância com o estudo de Pereira e colaboradores39, que observaram menor consumo de alimentos minimamente processados em gestantes jovens e entre as que não possuíam trabalho remunerado.

Sámano e colaboradores40 identificaram que hábitos alimentares não saudáveis são frequentes em gestantes adolescentes, em especial a ingestão excessiva de alimentos de origem animal, açúcar e bebidas açucaradas, em detrimento do consumo de legumes e verduras40.

Por outro lado, identificou-se que ter uma alimentação saudável era importante para as puérperas. Em suas falas, percebeu-se que algumas tinham a intenção de mudar a alimentação durante o AM em prol da saúde do bebê, evidenciando a relação do que consumiam com a qualidade do leite produzido, como descrito a seguir:

Eu mudei minha alimentação por causa do leite. Porque falaram que se sua alimentação for correta, vai gerar mais leite e é mais benéfico para a criança. (P2)

Eu pretendo mudar minha alimentação por causa do bebê, porque tudo vai para o leite, até o que for ruim. Não vou aguentar ver minha filha sentindo cólica ou chorando por causa de alguma coisa que eu comi. Ela não tem culpa. (P3)

A predominância do consumo de alimentos ultraprocessados, relatada pelas mulheres deste estudo, não é corroborada pelos dados da Pesquisa de Orçamento Familiar, que identificou consumo de alimentos in natura ou minimamente processados pela maioria das gestantes brasileiras, havendo menor consumo de ultraprocessados em comparação com as não gestantes41.

Essa aparente contradição pode ser justificada pelo momento de realização dessa pesquisa que coincidiu com a pandemia de Covid-19, o que dificultou o acesso à AAS com agravamento da insegurança alimentar e nutricional e de mudanças no padrão de consumo alimentar, principalmente na população que já vivia em vulnerabilidade social.

Esse fato pode ter influenciado a alimentação das puérperas do estudo devido à necessidade de distanciamento social e a incertezas sobre a transmissão do vírus, considerando ainda o contexto de desigualdade social e as condições precárias de habitação e saneamento básico já enfrentadas por elas42.

Além da pandemia e do contexto social, os hábitos alimentares de gestantes também podem ser influenciados por fatores como crenças, tabus, propaganda de alimentos, entre outros. Os significados culturais e simbólicos da alimentação, que atravessam toda a vida das mulheres, influenciam os hábitos que serão adotados também no período gestacional43.

Segundo a perspectiva da hermenêutica dialética24, as contradições e os significados simbólicos da alimentação, evidenciados nas falas das entrevistadas, permitiram compreender a influência da subjetividade nas escolhas alimentares das puérperas e nas modificações que elas identificaram como necessárias para a saúde dos seus bebês.

Aleitamento materno: significados, expectativas e a RA para a mulher

Pela análise das entrevistas, identificou-se que a maioria das puérperas pretendia amamentar e reconhecia a importância do AM como um veículo de criação de vínculo afetivo e por propiciar saúde e bem-estar para ambos. A saúde materna também foi mencionada como um dos benefícios do AM, bem como o contato físico com o recém-nascido, conforme descrito:

Mamadeira não é a mesma coisa que peito não. Todas as vitaminas que têm no peito não têm na mamadeira, então eu prefiro dar peito. (P1)

Eu pretendo amamentar sim, principalmente nos primeiros dias de vida. É importante para mim e para ele, porque eu fico mais apegada a ele sentindo ele no meu colo. É uma sensação muito boa. (P7)

O AM é uma prática complexa permeada por diversas dimensões comportamentais, culturais, sociais e históricas. Além disso, proporciona vínculo, nutrição e proteção para a saúde da mãe e do bebê em curto e em longo prazo44.

A intenção de amamentar e os fatores que influenciam essa decisão foram objeto do estudo realizado por Primo e colaboradores45, identificando que 73,8% das gestantes decidiram amamentar pelo benefício para a saúde da criança, percebido como uma vacina para o bebê que ajuda no ganho de peso e protege contra doenças. O trecho de fala a seguir corrobora essa ideia:

Significa vida, porque na amamentação a gente acaba gerando não dentro da barriga, mas fora, um ser saudável através da amamentação. O bebê quando está doente, só quer mamar e até o leite muda. Nosso corpo trabalha junto com o bebê. (P10)

O desejo da mulher em amamentar é fundamental para o sucesso do AM. A imposição pode ter implicações negativas no processo de produção e liberação do leite que podem impactar e dificultar o ato de amamentar46.

No entanto, a intenção inicial da mulher em amamentar nem sempre representa a realidade no pós-parto, quando diversos novos elementos podem influenciar a sua decisão tanto de amamentar quanto de manter o AM exclusivo pelo período mínimo de seis meses de vida da criança. Nessa ótica, apesar do entendimento que as puérperas têm sobre os benefícios do AM, alguns fatores influenciam no desmame precoce, como a falta de orientação no pré-natal e no pós-parto imediato, a dor nas mamas e a necessidade de retorno ao trabalho47.

Conviver com mulheres que amamentaram, terem sido elas mesmas amamentadas ou terem amamentado outros filhos foram fatores que influenciaram a decisão de amamentar e de manter o AM exclusivo30.

Pretendo amamentar mais ainda meu filho. A minha filha mais velha eu amamentei até 2 anos e 5 meses. Os outros filhos amamentei por 6 meses e depois comecei a oferecer comidinha. (P9)

Por outro lado, um contexto familiar em que não ocorra o AM pode propiciar que menos mulheres amamentem. A identificação das fragilidades pode ajudar profissionais de saúde a oferecer orientações mais específicas, contribuindo com a RA para estímulo e fortalecimento do AM.

Estudos têm destacado fatores estruturais e sociais como a pouca participação das gestantes nas atividades oferecidas pelas Unidades de Saúde de incentivo ao AM; o pouco conhecimento sobre as vantagens do AM exclusivo e sobre o período adequado para manter o aleitamento; o baixo nível de escolaridade das gestantes; a primiparidade; as dificuldades vivenciadas pela mulher nos primeiros momentos do AM, como fissura nos mamilos; o uso de medicamentos; a volta ao trabalho; o uso de chupeta; e o leite insuficiente30,36,48.

Ações de educação em saúde são fundamentais para minimizar e reverter a baixa adesão ao AM. Além disso, o apoio principalmente da família e do pai é considerado um fortalecedor do AM. O seu sucesso está vinculado à existência de uma RA, sobretudo do companheiro considerado o estímulo mais significativo para que a mulher possa amamentar49.

A fala a seguir reflete essa ideia:

Eu acho importante a presença do pai do meu filho durante a amamentação para ele ver como é bem difícil. Queria que ele estivesse aqui para ver o sofrimento que eu passei. Por ele, eu tinha dado bastante peito para o meu outro filho de 3 anos, porque ele não concorda com negócio de leite artificial. (P7)

Cabe salientar que nesse período a mulher está vivenciando vários momentos de adaptação na relação com o bebê e, portanto, a RA contribui com a assistência das necessidades físicas, emocionais, sociais, culturais e profissionais das mulheres. Essa rede se refere às pessoas que possam incentivar o AM e apoiar as mulheres a permanecer com essa prática. Pode ser composta por profissionais de saúde e familiares, geralmente a mãe da puérpera e o pai do recém-nascido34.

O apoio paterno exerce influência na prevalência do AM exclusivo. Quando o companheiro reconhece a importância do AM e divide com a mulher as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos, ele está promovendo o AM e favorecendo o sucesso dessa prática. Nesse sentido, ainda que o protagonismo do cuidado com a alimentação da criança seja da mulher, independentemente da condição socioeconômica, atualmente há um movimento de transformação nas atitudes de compartilhamento e envolvimento dos homens com os filhos50,51.

Acho importante a presença dele durante a amamentação, porque é um modo dele apoiar essa causa e é tão bonito acompanhar de perto. É importante incluir ele em tudo, porque através do olhar dele, ele pode sentir o que a mãe sente. Poder ver a reação do bebê com aqueles olhinhos olhando para gente enquanto ele mama é muito legal. (P10)

A prevalência do desmame precoce no Brasil pode ser decorrente de fatores como a promoção comercial de fórmulas infantis e a falta de uma RA para a mulher que amamenta. As iniciativas internacionais e nacionais que formam uma grande RA são essenciais para incentivar o aleitamento exclusivo, como a Iniciativa Hospital Amigo da Criança, a Estratégia Amamenta e Alimenta Brasil, os Bancos de Leite Humano e a ação Mulher Trabalhadora que amamenta52. Destaca-se, ainda, o monitoramento da Norma Brasileira para Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância (NBCAL) pela International Baby Food Action Network (IBFAN), além do investimento de recursos públicos para promover o AM no Brasil.

O conhecimento prévio sobre a importância do AM também fica evidente nessa categoria de análise. Os significados do AM foram perpassados por sentimentos contraditórios, de vínculo e de maior responsabilização pela saúde dos filhos. Ainda que os cuidados sejam compartilhados com o parceiro e haja uma RA, é a mulher que sente as dificuldades e é sobre ela que recai a responsabilidade das decisões sobre o cuidado do bebê e o AM.

Considerações finais

De acordo com a percepção das puérperas, as orientações recebidas no pré-natal sobre alimentação foram inespecíficas, sem aprofundamento e direcionamento para o período gestacional. Não houve um espaço para escuta e fala qualificada pelos profissionais sobre a importância da alimentação durante a gestação, o que pode contribuir para a manutenção de hábitos alimentares não saudáveis. Ainda que o estudo tenha identificado predominância de consumo de ultraprocessados, a percepção das puérperas aponta a relação benéfica entre melhores escolhas alimentares e a sua saúde e a do bebê. Na Atenção Primária à Saúde, a orientação alimentar e nutricional é competência de todos os profissionais de saúde, tendo como referência técnica o nutricionista para qualificar a atenção nutricional em todos os ciclos de vida, inclusive no período gestacional.

Mesmo diante da falta de orientação sobre o AM, as puérperas apontaram ser uma prática importante e fundamental, com diversos significados e sentimentos. Para as entrevistadas, os benefícios do leite materno superam as possíveis dificuldades dessa prática, ressaltando a importância da RA, principalmente do pai ou do companheiro como um importante incentivador para o sucesso do AM. Essa percepção foi construída por saberes populares e, mesmo sem o conhecimento técnico-científico, as puérperas pretendiam amamentar e permanecer com o AM exclusivo.

A principal contribuição do estudo foi apresentar a ótica da mulher sobre esse período do ciclo de vida e, por essa visão, os serviços de saúde podem planejar e qualificar suas ações durante o pré-natal e o puerpério de forma mais efetiva em prol da alimentação saudável e do estímulo ao AM. O estudo estimulou uma reflexão sobre as incertezas da transmissão do vírus da Covid-19 (período em que a pesquisa foi realizada), já que as mudanças nos hábitos alimentares e o desejo de amamentar podem ter sido afetados mesmo diante das recomendações dos órgãos competentes, afirmando que não havia transmissão do vírus pelo leite materno. Em adição, a pandemia pode ter aumentado o marketing e a aquisição de alimentos prontos para o consumo, como os ultraprocessados e as fórmulas infantis.

Uma das limitações do estudo refere-se à sua realização em uma maternidade, com entrevistas realizadas após o parto, na presença do bebê, dificultando a concentração e tornando as respostas mais rápidas e objetivas, o que pode ter limitado a captação de informações.

Como existem poucos estudos sobre o AM e a alimentação sob a ótica das mulheres, sugerem-se novas pesquisas que aprofundem essa discussão, propiciando espaço de fala e escuta para que elas expressem suas opiniões, explicitem dúvidas, angústias e expectativas. O estudo ratifica a importância do aconselhamento nutricional durante o pré-natal, o puerpério e a lactação com vistas a incentivar e promover a AAS e o AM, considerando a cultura alimentar, as formas de acesso e as demandas nutricionais para esse período de vida da mulher.

Agradecimentos

À Maternidade Municipal Alzira Reis Vieira Ferreira, pela autorização e apoio à realização deste estudo em suas dependências. À colaboração da equipe técnica e administrativa da instituição, cuja disponibilidade e cujo acolhimento foram fundamentais para o desenvolvimento da pesquisa. A contribuição da maternidade foi essencial para a viabilização do trabalho e para a obtenção dos dados que fundamentaram este estudo.

  • Souza PRD, Henriques P, Fittipaldi ALM. Orientações sobre alimentação e aleitamento materno no pré-natal sob a ótica de puérperas em maternidade do Rio de Janeiro, Brasil. Interface (Botucatu). 2025; 29: e230657 https://doi.org/10.1590/interface.230657

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Editado por

  • Editor
    Antonio Pithon Cyrino
  • Editor associado
    Caroline de Barros Gomes

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    15 Jan 2024
  • Aceito
    20 Maio 2025
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