Open-access Jovens, participação e pertencimento: o uso de tecnologias sociais por meio de uma intervenção na escola pública

Youth, participation and belonging: using social technologies in an intervention in a public school

Jóvenes, participación y pertenencia: el uso de tecnologías sociales a partir de una intervención en la escuela pública

Resumo

Este estudo tem como objetivo central discutir parte de uma intervenção desenvolvida com jovens de uma escola pública, mediada pelo uso de tecnologias sociais. Trata-se, portanto, de um relato de experiência produzido mediante Oficinas de Atividades, Dinâmicas e Projetos, tecnologia social da Terapia Ocupacional social; as análises decorrem dos registros realizados por meio de diários de campo. A intervenção ocorreu entre agosto e dezembro de 2023 e tomou o grafite como recurso central para seu desenvolvimento, balizando a relação de pertencimento com a escola e com o território, produzindo efeitos de participação. Percebeu-se, portanto, que houve uma ampliação significativa do repertório de possibilidades desses jovens, a experimentação do fazer e agir coletivo, além de apropriações mais críticas sobre a realidade vivenciada por eles.

Palavras-chave
Juventude; Oficinas de atividades; Terapia ocupacional social; Ação coletiva


Abstract

The central aim of this study was to discuss part of an intervention mediated by social technologies developed with youth attending a public school. This experience report was produced using workshops of activities, dynamics and projects in social occupational therapy based on the analysis of field diary entries. The intervention was developed between August and December 2023 using graffiti as the main resource, circumscribing the sense of belonging to the school and territory and promoting participation. The findings reveal that there was a significant expansion of the youth’s repertoire of possibilities, experimentation with doing and acting collectively, and a more critical appropriation of their reality.

Keywords
Youth; Activity workshops; Social occupational therapy; Collective action


Resumen

El objetivo central de este estudio es discutir parte de una intervención desarrollada con jóvenes de una escuela pública, mediada por el uso de tecnologías sociales. Por lo tanto, se trata de un relato de experiencia producido a partir de Talleres de Actividades, Dinámicas y Proyectos, tecnología social de la terapia ocupacional social, y los análisis provienen de los registros realizados por medio de diario de campo. La intervención tuvo lugar entre agosto y diciembre de 2023, y tomó el grafite como recurso central para su desarrollo, delimitando la relación de pertenencia con la escuela y con el territorio, produciendo efectos de participación. Se percibió, por lo tanto, que hubo una ampliación significativa del repertorio de posibilidades de esos jóvenes, la experimentación del hacer y el actuar colectivo, además de apropiaciones más críticas sobre la realidad vivida por ellos.

Palabras clave
Juventud; Talleres de actividades; Terapia ocupacional social; Acción colectiva


Introdução

As vivências de jovens marcados pelas desigualdades sociais são produzidas no interior de uma trama complexa, balizada por dimensões históricas, políticas, culturais e econômicas que impactam nas múltiplas formas de pertencimento e participação social no âmbito da vida cotidiana.

Nesse contexto, a escola pública e as políticas educacionais são fundamentais, dada a centralidade da educação formal na nossa organização social e, ainda, pelo fato de constituírem as principais e poucas políticas públicas focalizadas nesse público1,2. Elas, no entanto, são insuficientes se desarticuladas de outras políticas públicas, como assistência social, saúde ou cultura, tendo em vista que os estudantes vivem em condição de desvantagem social3.

A Terapia Ocupacional social vem, historicamente, desenvolvendo práticas e pesquisas que colocam a juventude e a escola pública como centro de suas produções, com metodologias e recursos para atuar em uma direção de ampliação do repertório de possibilidades de participação na vida social, com centralidade no fortalecimento das redes sociais de suporte, sob uma perspectiva de indissociabilidade entre a ação técnica, a ética e a política1,3-5.

Constituir intervenções no âmbito dessa indissociabilidade se coloca como um grande desafio quanto à formação, tendo em vista a mobilização de múltiplos atores, políticas públicas, equipamentos e, sobretudo, a compreensão da realidade local com enfoque na operacionalização das vivências cotidianas dos sujeitos com os quais trabalhamos perante as dinâmicas que articulam o macro e o microssocial1,2,6.

Assim, este manuscrito tem como proposta central discutir uma experiência de intervenção com base em referenciais teórico-metodológicos da Terapia Ocupacional social no âmbito da articulação entre ensino e extensão, com jovens em vulnerabilidade social de uma cidade do Rio Grande do Sul.

Metodologia

Trata-se de um relato de experiência que concentra seus esforços analíticos sobre uma intervenção em Terapia Ocupacional social construída no âmbito da articulação entre a extensão e o ensino com jovens em vulnerabilidade social. Parte, portanto, de Oficinas de Atividades, Dinâmicas e Projetos e seus desdobramentos. Para apreensão e sistematização dos dados foram construídos diários de campo tomando a sistematização da experiência7 como aporte, sobretudo por sua perspectiva transformadora da realidade, subsidiando a interpretação crítica do processo descrito.

As intervenções foram elaboradas com ações desenvolvidas pelo Estágio Supervisionado em Terapia Ocupacional no Campo Social e pelo projeto de extensão Juventudes, Vulnerabilidades, Desigualdade e Diferença: tecendo caminhos. Assim, tomando o Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) como ponto de partida, acessamos jovens que frequentavam uma escola de Ensino Fundamental da região de abrangência do equipamento. Essas intervenções ocorrem desde setembro de 2022 e mobilizam diferentes tecnologias sociais da Terapia Ocupacional social, a saber: Oficinas de Atividades, Dinâmicas e Projetos; Acompanhamentos Singulares e Territoriais; Articulação de Recursos do Campo; e Dinamização da Rede de Atenção6,8. Nessa direção, semanalmente, são propostas Oficinas de Atividades com vistas à produção de espaços de troca e compartilhamento para a ampliação do repertório de possibilidades no âmbito da vida cotidiana.

O recorte aqui apresentado diz respeito às experiências decorrentes das Oficinas de Atividades, Dinâmicas e Projetos realizadas entre agosto e dezembro de 2023. As Oficinas de Atividades são entendidas como espaços coletivos de experimentação e aprendizagem, e compreendem cada participante como ser ativo no processo de construção de subjetividade, um ser da práxis, da ação e da reflexão4. A construção de relações interpessoais e a produção do vínculo se colocam como possibilidades potentes pelo uso das atividades, considerando que elas devem ser entendidas em suas dimensões sociais, culturais, políticas e econômicas, sem perder de vista a complexidade das realidades de vida dos sujeitos com os quais se encontram8,9.

Para além disso, as dinâmicas e os projetos também se compõem como parte do escopo dessa tecnologia social6,8, oferecendo os fios que se tecem na trama da intervenção.

Considerando essas ferramentas, foram iniciadas as Oficinas de Atividades com jovens de 14 a 18 anos, estudantes do Ensino Fundamental II, residentes em bairros populares de uma cidade do sul do país que, na experiência escolar, demarcam suas impossibilidades de participação tanto nesse cenário quanto em outras cenas da vida cotidiana. Os encontros ocorriam uma vez por semana durante o horário letivo, com duração média de duas horas e turmas de 7º, 8º e 9º anos, somando em torno de 25 a 30 estudantes.

A entrada da Terapia Ocupacional na sala de aula deu-se, em um primeiro momento, com a organização do cronograma de atividades semanais feito pela coordenação pedagógica e a predominância para os turnos em que se alocam a disciplina de projetos de vida e as aulas de Educação Física.

É importante apresentar o contexto no qual as práticas aqui descritas se localizam. Trata-se de uma região que, devido à proximidade dos trilhos que atravessam a cidade e ao declínio dos serviços ferroviários, perdeu sua relevância econômica e cultural10 no âmbito da dinâmica urbana.

Há alto percentual de pessoas com baixa renda nessa região, sendo marcada também pela incidência de crimes vinculados ao tráfico de drogas e com o maior número de crianças e adolescentes em vulnerabilidade social11.

Dentro das precariedades que atravessam a realidade da região e do bairro, está a insuficiência da infraestrutura urbana, que conta com um número elevado de ocupações clandestinas e domicílios com problemas infraestruturais, além da falta ou insuficiência de saneamento básico11,12. Também se destaca a carência de espaços de lazer, sociabilidade e circulação, que acaba por limitar as possibilidades dos moradores, em especial dos jovens, de se relacionarem entre si e com esse território12.

O ponto de partida...

As primeiras Oficinas de Atividades se compuseram como um espaço que favoreceu a compreensão sobre os cotidianos dos jovens, com destaque para os impactos da fragilidade no acesso a recursos e serviços e as possibilidades de circulação em determinados espaços das dinâmicas urbanas. Ainda foi possível conhecer um pouco da relação que se estabelece com a escola e com o território. Esses aspectos são fortemente atravessados pelas disputas internas, pela individualização, pela competitividade e pela construção/manutenção de desejos pautados na lógica do consumo, amparados pela racionalidade neoliberal13.

As condições socioeconômicas dos jovens demarcavam precariedade no acesso a bens e serviços, bem como a determinados espaços da cidade. O bairro possui poucos espaços seguros de sociabilidade, lazer e prática de esportes. Boa parte dos jovens tinha familiares presos por envolvimento com o tráfico de drogas ou, ainda, que não possuíam emprego formal. O acesso a atividades culturais era uma demanda colocada durante as oficinas, com destaque para a preferência por atividades que pudessem ser desenvolvidas fora da sala de aula.

No contexto da escola, a sobrecarga dos professores, da gestão escolar e a ausência de recursos humanos e materiais também são fatores que se evidenciam na relação que se estabelece com os jovens. A direção trazia questões relacionadas à recorrência de situações de violência; a relação de alguns desses jovens com o circuito do tráfico e facções locais; a ausência de recursos para o desenvolvimento de atividades diversas; a “falta de interesse” dos estudantes na escola; entre outras.

Já os jovens compartilhavam certo desinteresse pela escola sob a justificativa de que se sentiam pouco ouvidos quanto às suas demandas individuais e coletivas. Destacavam as mudanças constantes na rotina escolar, como a inserção de alguma nova atividade que, muitas vezes, não dialogava com seus desejos ou, ainda, nas negociações quanto ao uso da quadra ou do pátio em momentos em que não havia aula.

Muito tempo era dedicado às disputas internas que existiam entre estudantes, quem tinha o melhor aparelho celular, as melhores vestimentas, quem era mais popular na turma e na relação com professores, quem era mais subversivo às regras e normas da escola. As narrativas que marcavam essas disputas apontavam uma lógica de certo “empreendimento de si”, lida, sob as lentes da racionalidade neoliberal, como uma forma de gestão do capital humano por meio de uma produção discursiva.

Consumo, educação, capacitação e escolha de parceiros são configurados como práticas de investimento em si mesmo, sendo o “si mesmo” uma empresa individual; e tanto o trabalho quanto a cidadania aparecem como modos de pertencimento à (equipe da) empresa na qual se trabalha ou à nação da qual se é membro13. (p. 6)

Aspectos como a individualização, a competitividade e a busca por um lugar de destaque, por qualquer motivo, também eram elementos importantes que se apresentavam durante as trocas nas oficinas. No contexto da escola, assim como nas empresas, percebe-se, de maneira direta ou indireta, o estímulo a práticas que tornem o sujeito apto a concorrer em detrimento do estímulo a experiências de formação para a democracia e a cidadania. Não se trata apenas de compreender a influência dos princípios neoliberais mediante uma lógica interna que se impõe sobre a escola, mas de um processo, aparentemente espontâneo, que se constitui nas relações da própria escola14 (p. 203) e, ainda, nas concepções que os sujeitos têm de si e da sociedade em que vivem. Essa racionalidade aponta a acentuação da concorrência e da competitividade que aniquila e corrói qualquer pretensão democrática de coletividade e de espaços comuns15.

Após o desenvolvimento de algumas oficinas que, majoritariamente, se teciam no debate alocado nas impossibilidades e insatisfações que se faziam presentes na relação com a escola e nas possibilidades diante delas, foi compartilhada a vontade de pintar o muro da escola, o que resultou em um projeto. O projeto, nesse contexto metodológico, configura-se como uma consequência do processo de intervenção, sobretudo pela idealização dele como uma construção conjunta com vistas ao fazer coletivo8. Esse debate surgiu durante atividade de uma disciplina e foi levado para a oficina. Ao serem questionados sobre as motivações para a intervenção no muro, foram trazidas diversas narrativas que apontavam o desejo pelo “protagonismo” na escola ou, ainda, para que ela tivesse “a cara” dos jovens que estudavam ali. Mas o anúncio desse desejo aparecia acompanhado da descrença, percebida em falas como: “Ia ser muito legal poder pintar o muro da escola, né?”; “Será que deixariam a gente fazer um desenho nosso?”; ou, ainda, “Duvido que a gente ia se entender e conseguir entrar num consenso sobre isso, ia ter muita briga”.

O desejo de pintar o muro, as motivações e a excitação quando esse desejo passa a ganhar contornos de possibilidade anunciam, dentre outras, as repercussões da ausência de direito à cidade. O direito à cidade não é um direito individual exclusivo, mas um direito coletivo concentrado16, caracterizado pelo direito de reconstruir e recriar espaços diferentes, uma cidade diferente17. Nesse sentido, o direito à cidade na experiência desses jovens não se traduz como o direito de criar outras possibilidades a esse território, sendo a escola parte dele.

Muitas foram as trocas disparadas por perguntas como: “Por que queremos pintar o muro?”; “O que queremos contar sobre a escola, para o bairro, a partir desta pintura?”; “Qual é o objetivo desta pintura?”; “Como queremos aproveitar esse momento?”; “De que maneira podemos fazer?”; “O que é necessário?”.

Foi mobilizada a articulação de recursos no campo como uma das tecnologias sociais que mediaram a intervenção. Essa estratégia aciona diferentes níveis de atenção em torno de objetivos comuns, visando a utilização de recursos possíveis, compreendidos como dispositivos financeiros, materiais, relacionais, afetivos, para compor as intervenções com base na Terapia Ocupacional social6,8.

Assim, mediamos as dinâmicas que envolviam negociações dos jovens com a direção da escola, visando colaborar com o projeto que se tecia por meio das Oficinas de Atividades. As dinâmicas, nesse sentido, são entendidas como momentos e atividades específicas que podem favorecer as trocas, a autovalorização, a convivência, as negociações, a promoção do pertencimento, o acesso a materiais, a ampliação de repertório, entre outros8.

Além disso, fizemos um levantamento dos espaços, projetos e coletivos que desenvolviam atividades com os jovens da região. Foi identificado um coletivo que desenvolve intervenções artísticas em uma ocupação urbana de luta por moradia. Contactamos dois grafiteiros que, com a terapeuta ocupacional, os estagiários e extensionistas, construíram as oficinas que relatamos a seguir.

“O que queremos contar com a pintura no muro?”

Na primeira oficina de atividades, os jovens do 8° ano foram instigados, pela produção de um mural, a refletir coletivamente sobre: (1) as motivações para a pintura do muro; (2) o que significava, diante da escola e da comunidade, criar uma pintura que ficasse exposta no muro externo da escola; e (3) como seriam realizadas as pactuações sobre o que seria pintado.

Tal oficina resultou em um conjunto de discussões quanto aos temas escolhidos, frases, desenhos, cores, que representariam a turma e, posteriormente, poderiam ser desenhadas e pintadas no muro. O debate que suscitou essas elaborações tinha como objetivo resgatar algumas oficinas em que foram discutidas a relação deles com a escola, as experiências coletivas, os desejos, entre outros. A atividade, nesse sentido, mediou uma reflexão a respeito do que a escola significava para a turma, quais as memórias, os aprendizados, projetos individuais e coletivos que ela possibilitou ou deveria possibilitar, além da crítica sobre as dificuldades que permeavam seus cotidianos dentro e fora da escola. Isso buscou ir na direção da compreensão de que a “cotidianidade, marcada pela sociabilidade capitalista e múltiplas opressões, é tomada pela pseudoconcreticidade, enevoando a compreensão da realidade concreta, para a manutenção do cotidiano alienado”4 (p. 5), visando criar apropriações sobre os entraves que se colocavam na manutenção da vida cotidiana e as fissuras para refletir sobre eles.

A utilização da atividade possibilita o aprendizado e o reconhecimento de necessidades dos sujeitos, além do desenvolvimento da capacidade deles para buscar soluções próprias e criativas para suas questões6,8. Assim,

a oficina pode tornar possível o encontro intersubjetivo, com a finalidade de articular a busca de ampliação de reconhecimento social do sujeito ou grupos, voltando-se para suas necessidades em nível micro e macrossocial. Ademais, é espaço de convivência, experimentação, constituição subjetiva, do encontro, do fazer junto, a partir de atividades, dinâmicas e projetos que proporcionam um momento de quefazer – ação e reflexão, que se voltem para a vida dos sujeitos, para pensar sua atuação5. (p. 1351)

No mural puderam escrever palavras, frases, sentimentos que gostariam de representar na pintura do muro. Surgiram palavras como “respeito”, “união”, as coisas que gostavam na escola como o “lanche” e a “quadra”, como também o que achavam importante no cotidiano da escola, como músicas, atividades audiovisuais e jogos. Ainda foram desenhadas silhuetas de corpos, partituras, árvores, passarinhos, palavras/frases e trechos de músicas.

Uma memória importante foi resgatada: a perda de um colega da escola que foi assassinado, segundo eles, pelo envolvimento com o tráfico de drogas. A discussão sobre fazer uma homenagem ao colega na pintura do muro da escola deu espaço ao acolhimento e à escuta em relação a como aquela perda os atravessava, além de muitos afirmarem que tinham receio de que as pessoas da comunidade e professores da escola achassem que todos “eram como ele”. Após as discussões, que passavam pela reflexão sobre caminhos alternativos ao mercado do tráfico de drogas, combinaram de prestar uma homenagem ao colega no muro.

Além disso, foi possível disparar debates sobre a importância do contato com atividades artísticas, sobre possibilidades de acesso a outros espaços do território e de como a pintura do muro poderia se compor como uma oportunidade de conhecer artistas locais que pudessem auxiliar na execução da atividade, compartilhando técnicas de grafite, pintura e desenho, além do uso dos recursos.

Outro aspecto importante de ser mencionado foi o trabalho e as negociações coletivas, de modo que a turma pudesse se sentir engajada com a construção, a manutenção e a decisão sobre o uso do espaço, a divisão de tarefas de acordo com as potencialidades e os desejos de cada um, a criação de estratégias para que todos pudessem colaborar, e a experimentação de novas formas de produção coletiva e cooperativa.

Descobrindo o universo do grafite

Nesse momento, o objetivo era estimular as trocas no âmbito dos conhecimentos gerais e específicos sobre o grafite considerando a dimensão técnica, mas também a dimensão político-cultural de seu uso. A arte pode, portanto, ser entendida como elemento que desperta novas perspectivas para a elaboração subjetiva das experiências, instrumentalizando a leitura e a escrita da realidade18,19. A atividade disparadora desse debate foi a apreciação coletiva do documentário “Caminhos do grafiti”(f), que conta, com base na narrativa de grafiteiros, a realização de ações artísticas, reivindicatórias e pedagógicas com abordagens temáticas, tornando-se referência de leitura da cidade por meio da expressão artística.

Essa oficina possibilitou o debate sobre os usos do grafite balizados por suas dimensões histórica, cultural, geográfica e política, alinhando-se à perspectiva de que as atividades devem ser incorporadas como elemento que promove o encontro e o diálogo entre o sujeito, seu grupo social, seu tempo histórico, sua tradição cultural6. Nesse sentido, foi possível observar as potências político-culturais do grafite, as artes que existem em espaços do bairro/cidade, os artistas locais, a necessidade de se conhecer as técnicas e os materiais, assim como a importância do planejamento e do diálogo para que possam executar a atividade alinhada aos objetivos. Além disso, também foi possível pensar o que esses usos poderiam significar naquela realidade, a relação entre grafite e pichação e as lógicas que tal disputa esconde, estigmatiza, entre outros.

Assim, foi criada uma lista sobre o que precisaria ser mobilizado para a pintura do muro, com itens como materiais, possíveis artistas locais que poderiam ser contactados, escolha do lugar do muro que seria pintado, quem poderia participar.

Apesar da grande vontade de executar a atividade, uma parte dos jovens nunca tinha entrado em contato com essa possibilidade, enquanto uma pequena parte possuía certa aproximação com desenhos. Esses, inicialmente, mostravam suas produções de maneira um tanto tímida, que eram realizadas em momentos diversos como “passatempo”, amparados por vídeos da internet. A oportunidade de aproximação com os artistas locais, arte, cultura e técnicas do grafite levou a possibilidades de ampliar o lugar do desenho na vida dos jovens.

A falta de valorização em relação às produções que eles realizavam acabava por circunscrever a relação que muitos deles tinham com a arte, suprimindo suas potências e possibilidades de criação, expressão, crítica e contato validado com o aparato. Esse apontamento remonta à discussão de que as condições materiais para que todo objeto tido como obra de arte não contenha puramente em si características que o configurem como tal, mas vem a ser assim classificado por condições sociais, momento histórico de sua produção e lugar social de quem a produz18,19.

Com a movimentação que as Oficinas de Atividades suscitaram na escola, estudantes de outras turmas também nos procuraram perguntando se poderiam participar. Após avaliação da turma que trouxe a demanda sobre essa possibilidade, as outras foram convidadas a participar das oficinas ampliando o debate para o que seria representativo dos alunos da escola, e não somente da turma que lançou a ideia.

“Eu quero ser artista!”

Após o contato com os artistas locais que trabalhavam com grafite, dois deles se dispuseram a ir até a escola compor as oficinas com apresentação das técnicas, seus usos e de como o grafite impactou suas vidas. Assim, com eles, foi construído o seguinte planejamento das oficinas de atividades que se seguem: 1) A história do grafite no percurso de vida deles; 2) Técnicas: “pixo”, “bomb” e “tag”; 3) Personagens; 4) Proporção/Planejamento.

As turmas puderam desenvolver mais ideias para a pintura do muro da escola por meio da interação com os artistas, tomando como baliza suas experiências/produções artísticas, bem como o aprendizado das técnicas. O contato com essas experiências também provocou diversos desdobramentos, desde o reconhecimento do que alguns produziam como arte, a valorização das produções pelos pares, a descoberta de novos interesses e talentos, a descoberta e o compartilhamento de espaços de produção artística na cidade, e de novas formas e ferramentas para essa produção, além da identificação com a história e os contextos de vida dos grafiteiros. Sobre esse último item, destacamos que tal identificação criava uma dinâmica de acolhimento, sobretudo quando eram realizadas trocas no sentido de demarcar as dificuldades cotidianas desses grafiteiros no exercício da própria arte, os impactos do estigma, as estratégias construídas para a manutenção da relação com a cidade, o manejo de determinados vocabulários, entre outros. As oficinas eram abertas para aqueles que demonstraram interesse, mas também foram criados outros espaços concomitantes para aqueles que não tinham interesse em participar, mobilizados por seus desejos e sugestões, tais como esporte, jogos e rodas de conversa, permitindo que outros fazeres surgissem e ganhassem espaço no cotidiano da escola. Isso também foi balizado por negociações com a escola, sobretudo pelos usos do espaço e pela gestão do tempo.

Nas Oficinas de Atividades, o contato com os materiais, a possibilidade de experimentar as técnicas e de traduzir em arte aquilo que desejavam comunicar parecia se compor, para muitos deles, como uma descoberta e, para outros, como a reelaboração dos sentidos daquilo que já produziam, mas não era valorizado, sobretudo pelos adultos com os quais conviviam.

Os estudantes também se aproximaram de modo mais intenso dos artistas, buscando trocar informações e experiências, conhecer suas trajetórias, o que, muitas vezes, os levava a se reconhecer nelas ou em parte delas. Também começaram a segui-los nas redes sociais como forma de acompanhar seus projetos pela cidade, o que reverberou em diálogos que traziam o reconhecimento e o desejo em “também ser artista”.

O uso de letras e/ou personagens foram sendo explorados, mobilizando e apoiando a ampliação do repertório para a composição do desenho coletivo e a discussão sobre o que seria representativo de suas vivências. As discussões ora eram contornadas pelas negociações quanto ao que se queria contar, ora pela valorização das capacidades que se apresentavam como possibilidade de colaboração para a produção artística. Também foram discutidos os elementos do cotidiano que gostariam de representar na pintura, demarcando o reconhecimento de suas realidades, mas também a necessidade da construção de algo que anunciasse mais suas potencialidades que seus desafios, entendidos no grupo como aspectos que os negativavam socialmente.

Ainda que o envolvimento com a atividade não tenha sido percebido em relação a todos os jovens, em maior ou em menor grau, todos participaram, sobretudo no dia da pintura do muro que se transformou em uma atividade que movimentou fortemente a escola, envolvendo jovens de outras turmas e turnos, artistas locais e pessoas da comunidade que, ao final, em alguma medida, apresentaram o desejo de colaborar.

A pintura do muro e seus desdobramentos

Dos personagens construídos pelas oficinas, três foram escolhidos pelo grupo para compor o muro. Além disso, também fez parte da escolha dos jovens pintar o nome da escola, o que oferece algumas pistas na direção da produção de certo pertencimento. A pintura foi composta também por grafites dos grafiteiros que estiveram nas oficinas e outros artistas locais, a fim de apoiar os jovens na pintura, principalmente na dimensão técnica que envolvia passar as ideias previamente construídas para o espaço do muro.

Dada a necessidade de mais de um turno para a conclusão da pintura do muro, foram realizadas negociações com a gestão da escola e, com isso, mutas outras turmas puderam participar, experimentar o uso dos materiais, opinar, trocar, o que se compôs como um momento de sociabilidade na escola.

A atividade também extravasou os muros da escola e produziu um momento de interação com a comunidade, que parava, observava, perguntava, opinava, e também percebia as potências daqueles jovens.

A reflexão e a construção coletiva foram elementos centrais para que as turmas pudessem se engajar na pintura do muro; além disso, a possibilidade de experimentação dos materiais levou alguns estudantes a escolher roupas que pudessem tingir com as tintas para personalizar suas camisetas com a ajuda dos colegas, extrapolando os limites da atividade e abrindo espaço para a criatividade, para a prática colaborativa, a descoberta, e para a experiência coletiva de compartilhar e construir conjuntamente, com base nas reflexões sobre o cotidiano e sobre os elementos que permeiam suas vivências na escola e no território, com destaque para o reconhecimento das potências e do pertencimento, e a crítica sobre as estruturas que delineiam as (im)possibilidades cotidianas. Entendemos que esses aspectos se alinham a uma perspectiva terapêutico-ocupacional que “alargue as possibilidades de humanização de sujeitos que carregam marcas importantes da opressão cotidiana, em prol de autonomia, inserção social e fortalecimento de vidas que consigam achar/abrir caminhos individuais-coletivos”4 (p. 5).

Cada estudante colaborou e participou a seu modo, até mesmo aqueles que não haviam se identificado com as técnicas em momentos anteriores ficaram à vontade para colaborar; outros ficavam fotografando/registrando o processo e escolhendo as músicas que tocavam nos turnos da atividade, enquanto também compartilhavam um lanche coletivo.

Ao final da manhã, enquanto boa parte da pintura já tomava forma, uma das estudantes comenta: “Ficou parecido com os muros lá de São Paulo”. Alguém respondeu: “Você já esteve em São Paulo?”, ao que ela complementou: “Não, lembrei das imagens do filme [documentário] que vimos juntos”. Tal diálogo remonta à importância da escolha das estratégias e dos materiais das oficinas na direção de ampliar o acesso a diferentes repertórios que apoiem o reconhecimento das possibilidades em uma articulação entre o local e o global, sem perder de vista os sujeitos históricos3 no processo de aproximação, reflexão e no fazer coletivo, mediados pela elaboração de sentidos e significados mediante a realidade desses jovens, e de como determinados aparatos podem se colocar diante dos seus cotidianos e condições concretas de manutenção da vida e elaboração de espaços de novos e inventivos fazeres.

A liberdade criativa, o espaço para reflexão e a possibilidade de se sentirem autores do que se construía no muro da escola foram uma experiência completamente nova para muitos daqueles jovens, mediando a produção de pertencimento e participação.

Pelas oficinas de atividades, dinâmicas e projetos, foi realizado o acompanhamento singular e territorial de um dos jovens, com vistas à mediação de espaços e possibilidades de desenvolvimento e manutenção de práticas relacionadas à produção artística. Para tal, foram mobilizados atores, equipamentos e serviços, bem como recursos diversos. Também como resultante das oficinas, os grafiteiros que participaram se sentiram mobilizados a construir novas possibilidades com suas produções, e construíram um projeto social para jovens de escolas públicas.

Considerações finais

A experiência de jovens das camadas populares quanto às possibilidades de acessos materiais e simbólicos acompanha consequências de múltiplas ordens, que vão exigindo dos diversos atores o investimento na elaboração de práticas e intervenções que subsidie esse enfrentamento.

A construção da prática discutida anuncia a necessidade de elaborações complexas que articulem o macro e o microssocial, o individual e o coletivo, o local e o global, tanto naquilo que diz respeito às lógicas de manutenção dos lugares sociais quanto na mobilização de metodologias, para ir ao encontro das necessidades concretas dos sujeitos, tecendo diálogos e lançando mão de estratégias que colaborem na produção de possibilidades com eles.

Nesse sentido, a proposição de Oficinas de Atividades, dinâmicas e projetos e articulações de recursos no campo – tecnologias sociais da Terapia Ocupacional social que se colocaram como centrais nessa intervenção –, que tinha o grafite como elemento balizador, favoreceu o reconhecimento dessas necessidades por meio das apropriações mais críticas sobre a realidade vivenciada. Essas apropriações envolveram o reconhecimento de ferramentas/recursos disponíveis no território, o reconhecimento sobre direitos e sobre as construções sociais que impactavam nas suas formas de participação, pertencimento, mobilização de múltiplos atores, entre outros. Ainda possibilitou o fazer coletivo, o alargamento de possibilidades mediante a situação de precariedade, o fortalecimento social, revelando “a riqueza escondida nessa dimensão da vida para acessar o extraordinário do ordinário”4 (p. 5).

  • Silva KMA, Junior LCF, Larré HL, Silva PA, Melo KMM. Jovens, participação e pertencimento: o uso de tecnologias sociais por meio de uma intervenção na escola pública. Interface (Botucatu). 2025; 29: e240247 https://doi.org/10.1590/interface.240247
  • (f)
    O projeto foi realizado pela Associação Londrinense de Circo, Cap Style de Circo em conjunto com a Fábrica Rede Popular de Cultura, com apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). Em conjunto, foi produzido, pelo jornalista Luciano Paschoal da Vertigo Filmes, o documentário que retrata todo o processo de pintura dos pontilhões. Algumas imagens foram feitas por adolescentes que eram atendidos no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculo da Casa das Artes da Zona Sul de Londrina-PR, onde pela primeira vez esses jovens tiveram a oportunidade de conhecer na prática a produção audiovisual.

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Editado por

  • Editora
    Denise Martin Coviello
  • Editora associada
    Flavia Liberman

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    23 Maio 2024
  • Aceito
    25 Out 2024
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