Open-access Desigualdade de gênero na educação médica: barreiras enfrentadas pelas estudantes e profissionais brasileiras

Desigualdad de género en la educación médica: barreras enfrentadas por las estudiantes y profesionales brasileñas

Resumo

A Discriminação Baseada no Gênero (DBG) na Medicina gera desigualdade salarial, sobrecarga, desvalorização em especialidades e assédio sexual. Com o aumento de mulheres na área, mais profissionais enfrentam esses desafios. Esta revisão sistemática analisou cinco estudos, totalizando 2.135 participantes, para avaliar os impactos da DBG na carreira de médicas e estudantes. Os resultados mostram que a DBG afeta a satisfação pessoal, influencia a escolha da especialidade e prejudica a Saúde Mental. O medo de retaliação e a descrença na eficácia das denúncias dificultam a busca por justiça. Além disso, falhas nos mecanismos de proteção agravam o problema. As barreiras estruturais e culturais persistem, exigindo estratégias eficazes de apoio. Apesar das evidências encontradas, há uma lacuna na literatura sobre o tema, reforçando a necessidade de mais pesquisas para aprofundar essa discussão.

Palavras-chave
Estudantes de medicina; Papel de gênero; Sexismo; Equidade de gênero na saúde


Resumen

La Discriminación Basada en el Género (DBG) en la medicina genera desigualdad salarial, sobrecarga, desvalorización en especialidades y acoso sexual. Con el aumento de mujeres en el área, más profesionales enfrentan esos desafíos. Esta revisión sistemática analizó cinco estudios, totalizando 2.135 participantes, para evaluar los impactos de la DBG en la carrera de médicas y estudiantes. Los resultados muestran que la DBG afecta la satisfacción personal, influye en la elección de la especialidad y perjudica la salud mental. El miedo a las represalias y la falta de fe en los mecanismos de protección agravan el problema. Las barreras estructurales y culturales persisten, exigiendo estrategias eficaces de apoyo. A pesar de las evidencias encontradas, hay una laguna en la literatura sobre el tema, reforzando la necesidad de más investigaciones para profundizarse en esa discusión.

Palabras clave
Estudiantes de medicina; Papel de género; Sexismo; Equidad de género en la salud


Introdução

O sexo consiste em um determinante biológico de homens e mulheres por meio da distinção de órgãos específicos. Por outro lado, o gênero é uma construção social baseada no sexo biológico, distinguindo feminino e masculino e levando à categorização de atividades e atitudes esperadas e socialmente cobradas aos indivíduos, sendo baseadas no sexo biológico. Segundo a construção social fundamentada no gênero, pode ocorrer a valorização de um gênero em detrimento do outro, ou outros, configurando uma desigualdade de gênero1.

No Brasil, a desigualdade de gênero ocorre por meio de uma construção histórica. Desde o período colonial, a figura feminina foi associada aos cuidados domésticos, sendo afastada da educação formal e de cargos de poder. Tal fato é refletido atualmente por meio da banalização da violência contra a mulher, feminização da pobreza, ocupação laboral de mulheres em cargos iniciais e menos valorizados, assim como baixos salários2.

A desigualdade de gênero prejudica significativamente a Saúde Mental, o desempenho acadêmico e até a estrutura e o funcionamento do córtex cerebral. Além disso, atitudes preconceituosas contra as mulheres geram impactos econômicos relevantes, criando ambientes hostis em locais de trabalho, cargos públicos e instituições educacionais. No ensino superior, as universidades reproduzem essa desigualdade ao reforçar exigências sociais associadas ao papel feminino, tais como responsabilidades domésticas e matrimoniais. Consequentemente, a sociedade vincula mulheres, especialmente mães, a uma suposta menor produtividade comparada à de homens, resultando em menos oportunidades de contratação e ascensão profissional3.

Em 1879, as mulheres ainda eram proibidas de ingressar em escolas de Medicina no Brasil, fato que só mudou em 1887 com a formação da primeira médica do país4. Atualmente, observa-se o fenômeno de “feminização da medicina”, com mulheres constituindo a maioria dos recém-formados que ingressa no mercado. Contudo, a superação da barreira educacional não eliminou os obstáculos profissionais: persistem o sexismo, o assédio sexual, a falta de reconhecimento, a desigualdade salarial e a baixa progressão na carreira5.

A Discriminação Baseada no Gênero (DBG) é caracterizada por comportamentos e atitudes que desfavorecem indivíduos com base em seu gênero, afetando negativamente o desempenho acadêmico e a Saúde Mental6. Esse tema vem sendo mais discutido na contemporaneidade devido aos seus impactos significativos em diversas áreas, como no bem-estar dos estudantes de Medicina.

É comum que estudantes de Medicina do sexo feminino frequentemente relatem experiências de discriminação e assédio, que contribuem para níveis mais elevados de ansiedade, estresse e burnout (síndrome do esgotamento profissional) quando comparados aos de seus colegas do sexo masculino. A DBG prejudica a Saúde Mental dos indivíduos e, além disso, cria um ambiente de medo e impunidade que desestimula a denúncia desses comportamentos7.

Dessa maneira, o objetivo deste estudo é avaliar como a discriminação de gênero impacta os sonhos de carreira profissional, a Saúde Mental e a empatia das futuras médicas no Brasil de acordo com a análise da literatura dos últimos cinco anos.

Método

Este estudo qualiquantitativo e retrospectivo consiste em uma revisão sistemática da literatura, a qual seguiu a declaração dos Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses 2020 (PRISMA 2020)8, sendo inicialmente registrado no PROSPERO sob o número CRD42024569145.

Foram incluídos na pesquisa todos os estudos primários publicados, integralmente em inglês, português e espanhol entre os anos de 2019 e 2024, que investigassem a influência da discriminação de gênero na Saúde Mental, na aspiração de carreira e na escolha de especialização de graduandas de Medicina e médicas formadas. Como critério de exclusão, foram removidos todos os trabalhos científicos que não fossem estudos primários, bem como estudos que abordassem outros cursos diferentes de Medicina. As buscas foram realizadas nas bases de dados BVS, PubMed, Cochrane Library e Web of Science, no período de 17 a 18 de agosto de 2024.

O desenho do estudo foi baseado na estratégia PICo9 (P – população; I – Fenômeno de interesse; Co – contexto). Dessa maneira, o norteamento do estudo partiu da seguinte premissa: Como a discriminação baseada no gênero impacta a carreira profissional e a Saúde Mental de estudantes e profissionais médicas do sexo feminino no Brasil?

Para a estratégia de busca, os descritores utilizados foram aqueles contidos no Descritor em Ciência da Saúde (DeCS), Medical Subject Headings (MeSH), com todos os seus termos alternativos adaptados para cada base de dados: “Students, Medical” e “Women” foram agrupados pelo operador booleano AND, juntamente com os termos-chave de diversos aspectos, agrupados pelo operador booleano OR: “Androcentrism”, “Sexism”, “Career Choice”, “Academic Performance”, “Gender Equity”, “Personal Satisfaction”. Todos os termos alternativos foram associados pelo operador booleano OR. Para seleção dos estudos identificados nas bases de dados, utilizou-se o checklist PRISMA Statement®, o qual se estrutura em três etapas: identificação, triagem e inclusão.

Os registros duplicados foram removidos com auxílio do aplicativo de web Rayyan da Qatar Computing Research Institute. Para as etapas posteriores, realizou-se a leitura de título e do resumo dos estudos por dois revisores com a ferramenta cega ativada do Rayyan, sendo os conflitos resolvidos por um terceiro revisor. Os registros elegíveis foram lidos completamente e decidida sua inclusão.

A avaliação da qualidade metodológica dos estudos incluídos na revisão foi realizada utilizando a ferramenta Newcastle-Ottawa Scale (NOS), sendo essa apropriada para avaliar estudos observacionais de coorte e caso-controle e adaptada para avaliação de estudos transversais, tendo em vista que a adaptação foi feita por meio da diferença de temporalidade que é analisada em um único momento nos estudos transversais; a amostra e a seleção dela não exigem uma comparabilidade ao longo do tempo, e a comparabilidade não será avaliada em momentos distintos.

Assim, utilizou-se um sistema de pontuação em estrelas para avaliar os estudos nos seguintes domínios: seleção, comparabilidade e exposição/desfecho. O critério de seleção avalia a representatividade da amostra, o método utilizado para a seleção e os critérios de inclusão dela. Já o critério de comparabilidade analisa principalmente o controle e o ajuste de fatores de confusão; por fim, o critério de exposição/desfecho considera as medidas do desfecho. Dessa forma, os escores mais altos representam estudos com melhor qualidade e menor risco de viés. Logo, os estudos foram classificados em boa qualidade/baixo risco de viés (9 a 6), razoável qualidade (5) e baixa qualidade/alto risco de viés (<5), de acordo com a pontuação atribuída pelo sistema estelar10.

Resultados

Após a aplicação da estratégia de busca nas bases de dados, foram identificados 3.348 estudos. Desses, 2.709 foram removidos após a aplicação dos filtros automáticos das bases de dados por não atenderem aos critérios de inclusão desta pesquisa. Além disso, 135 estudos duplicados foram removidos com o auxílio do aplicativo de web Rayyan, restando 504 pesquisas. Desses, 498 registros foram excluídos após a leitura do título e do resumo. Por fim, após a leitura integral dos seis estudos restantes, apenas um foi removido por se tratar de um artigo duplicado, embora tivesse título diferente no Rayyan. Assim, apenas cinco artigos foram considerados elegíveis para a inclusão, conforme a Figura 1.

Figura 1
Fluxograma PRISMA.

Após aplicação da avaliação da qualidade metodológica dos estudos usando a escala Newcastle-Ottawa Scale (NOS), os cinco artigos restantes foram classificados como baixo risco de viés, conforme Quadro 1.

Quadro 1
Avaliação da qualidade metodológica dos estudos pela Newcastle-Ottawa Scale (NOS).

Em relação ao número de mulheres avaliadas, a amostra total foi de 2.135 participantes, somando todas as pesquisas, incluindo estudantes de Medicina e graduadas, com idades variando de 18 a 62 anos, provenientes de todas as regiões do Brasil. A amostra foi dividida nos ciclos curriculares: básico (1º ao 4º semestre), clínico (5º ao 8º semestre) e internato (9º ao 12º semestre), com alunas matriculadas em todos os ciclos da faculdade de Medicina. Foi possível identificar o ciclo de estudo em 1.080 das participantes (50,6%), sendo 420 alunas no ciclo básico (19,7%), 436 no ciclo clínico (20,5%), 211 no internato (9,8%) e 13 formadas (0,6%). Para as demais 1.055 participantes (49,4%) não existia a informação sobre o ciclo/ano do curso.

Os principais resultados dos estudos avaliados por esta revisão estão representados no Quadro 2. Individualmente, um estudo transversal conduzido por Gerk et al.12 contou com uma amostra de 953 pessoas, sendo 748 do sexo feminino, e utilizou como método analítico a aplicação de um questionário. Este estudo indicou que cerca de 66% (n = 625) de todos os entrevistados sofreram DBG, sendo as mulheres vítimas de 92% (n = 575) do total de casos12.

Quadro 2
Principais resultados dos estudos analisados.

Farias e colaboradores (2023), em outro estudo transversal que também utilizou questionário como método analítico, evidenciaram que 77% (n = 574) das estudantes do sexo feminino experimentaram situações de DBG em comparação a 22% (n = 42) dos estudantes do sexo masculino11.

A DBG influencia também nas trocas verbais negativas de professores e/ou de colegas de turma, na quantidade de elogios/agradecimentos que as estudantes recebem por realizar a mesma tarefa que alguém do outro gênero e na percepção de que os pacientes e/ou suas famílias possuem menos confiança no aluno com base no gênero11. Essas experiências de discriminação afetam as alunas de diferentes maneiras, sobretudo na sua autoconfiança, como apresentada no estudo realizado em escolas médicas brasileiras, o qual evidenciou que cerca de 68% (n = 426) das alunas referem que sua autoconfiança foi influenciada de forma negativa após vivenciarem DBG12.

O estudo qualitativo conduzido por Santana et al.14 evidencia que os impactos da DBG podem afetar a percepção de mulheres sobre a carreira médica, uma vez que cerca de 20% das estudantes de Medicina entrevistadas afirmam que a DBG influencia na carreira profissional, incluindo a escolha de especialidade de atuação após a formatura12,14.

Dois estudos avaliaram a relação entre a ocorrência de denúncias e as consequências da discriminação11,14. Um deles11 revela a ausência de mecanismos eficazes de denúncia para casos de DBG, destacando que, dos 953 estudantes questionados, 526 (55,2%) disseram não saber se sua instituição possuía um mecanismo formal para relatar DBG. Além disso, a pesquisa constatou que os estudantes que sofreram DBG possuíam menos conhecimento sobre o procedimento necessário para formalizar a queixa do que os que não haviam sofrido e, entre aqueles que sabiam que sua instituição tinha um mecanismo de relato, apenas 6% (7 de 113) afirmaram já ter utilizado esse mecanismo11.

É notável que, dentre as pessoas que presenciaram a ocorrência de DBG, 81% (616 de 761) preferiram não relatar o ocorrido11, sendo os três principais motivos dessa subnotificação: (1) medo das repercussões pessoais/profissionais, (2) crença da impunidade do agressor e (3) temor de retaliação contra a vítima ou testemunha11. Ambos os estudos identificaram preceptores/professores como principais autores de DBG11,14, com o estudo qualitativo revelando que 69,2% (n = 9) das entrevistadas sofreram DBG por docentes de suas instituições, incluindo comentários sobre aparência, convites para encontros, favores profissionais/acadêmicos e contatos físicos não consentidos14.

Dois artigos tratam da Saúde Mental das estudantes de Medicina no contexto da Graduação12,15. Nesse contexto, apesar de as estudantes mulheres apresentarem altas taxas de empatia com o paciente, bem-estar, tolerância e altruísmo, elas sofrem com maiores níveis de estresse, ansiedade e burnout em relação aos estudantes de Medicina do sexo masculino. Observou-se que, ao longo dos ciclos do currículo de Medicina, houve variação nesses itens15.

Ao analisar minuciosamente os estudos, nota-se que as diferentes formas de DBG relacionadas à Medicina no Brasil são majoritariamente sofridas pelo sexo feminino11-13. As diferentes formas de DBG percebidas e sofridas pelos estudantes de Medicina cisgênero avaliados pelos estudos estão representados na Figura 2.

Figura 2
Diferentes percepções sobre DBG em estudantes de Medicina cisgênero dos sexos masculino e feminino.

Em um dos estudos foi possível identificar que as futuras médicas, durante o ciclo básico e o clínico da faculdade, apresentavam níveis mais altos de empatia em relação aos estudantes do sexo masculino; porém, na fase do internato foi possível observar que elas tinham níveis mais baixos de empatia, ansiedade e estresse, concomitantes a níveis mais altos de qualidade de vida e bem-estar nas etapas finais do curso12-15.

Outro tópico importante explorado por três estudos é o do impacto que a DBG possui sobre a escolha da especialidade médica12-14. Um deles relata que a satisfação profissional sofre um impacto de moderado a grave para as mulheres que vivenciam DBG (250 de um total de 624)12. Além disso, outro estudo revela que a qualidade de vida é um fator importante na escolha da especialidade médica, uma vez que essa escolha pode ser influenciada por estereótipos de gênero14. Perpetuante a essa tendência, há a predominância da preferência dos homens pela área cirúrgica, como é retratado no estudo transversal demonstrando que 15% do total de estudantes do sexo masculino prefere a área cirúrgica, enquanto cerca de 10% das estudantes do sexo feminino possuem essa preferência13.

Discussão

Diferentes faces da discriminação baseada em gênero

Sem dúvida, existem disparidades de tratamento entre homens e mulheres especialmente evidenciadas na área médica, na qual as mulheres enfrentam desafios transgeracionais que impactam negativamente suas carreiras acadêmicas e profissionais. Um dos aspectos mais preocupantes é o fenômeno da discriminação de gênero que inclui o assédio sexual, uma realidade dolorosa, mas subnotificada durante a formação acadêmica tanto na Graduação quanto na Especialização16,17.

Um estudo no estado do Piauí, Brasil, envolvendo 211 estudantes de Medicina, revelou que mais da metade das entrevistadas relatou ter experimentado assédio sexual, porém a esmagadora maioria optou por não denunciar devido a sentimentos de vergonha, medo de retaliação e culpa17. Esses achados corroboram as conclusões dos estudos presentes nesta pesquisa11,15.

Lamentavelmente, a problemática da discriminação de gênero transcende o ambiente acadêmico, afetando significativamente a vida profissional das mulheres médicas, influenciando suas relações com colegas e superiores. Um estudo prospectivo longitudinal com 518 médicos, sendo mais da metade mulheres, destacou que elas demonstram um elevado comprometimento profissional e habilidades interpessoais notáveis, mas frequentemente são designadas a papéis menos prestigiosos por conta da DBG18. Esses resultados evidenciam a contínua prevalência da discriminação de gênero no campo da Medicina, ilustrando os impactos adversos significativos que essa prática tem exercido sobre as profissionais dessa área11.

É importante destacar que a feminização de especialidades médicas tradicionalmente consideradas “masculinas” gera uma percepção de inferioridade e desvalorização dessas áreas. Esse fenômeno (feminização seguida de depreciação) desencoraja a participação masculina e perpetua estereótipos de gênero19, evidenciando a complexidade da discriminação no setor11.

Aspectos da fragilidade dos mecanismos formais de denúncias

Tanto para os casos de assédio quanto para a discriminação, os mecanismos formais de denúncia precisam garantir que as queixas prestadas sejam recebidas com a atenção adequada e as medidas sejam tomadas de forma ágil, além de garantir a segurança do denunciante20.

Apesar disso, os aspectos da fragilidade dos mecanismos formais de denúncia evidenciam que fatores emocionais, como vergonha e culpa associadas à socialização feminina que desencoraja a expressão de sofrimentos, influenciam decisivamente a subnotificação de discriminação em ambientes acadêmicos/profissionais21. Essa dinâmica do silêncio, na qual vítimas e testemunhas se calam mesmo diante de DBG, corrobora dados desta revisão que apontam altos índices de omissão11.

Outra fragilidade dos mecanismos de denúncia consiste no déficit de conhecimento operacional: mesmo cientes de instrumentos como a Lei Maria da Penha, os indivíduos desconhecem seus procedimentos práticos22. Essa realidade se repete no ambiente acadêmico, no qual profissionais e estudantes ignoram as especificidades desses mecanismos11. Essa lacuna evidencia a necessidade urgente de capacitação contínua sobre o funcionamento, os benefícios e impactos das denúncias para reduzir a Discriminação Baseada em Gênero (DBG) entre futuras trabalhadoras da saúde22.

Impactos negativos da DBG na Saúde Mental

Os impactos negativos da Discriminação Baseada em Gênero (DBG) na Saúde Mental manifestam-se de forma alarmante entre estudantes de Medicina, grupo que enfrenta crescente deterioração psicológica. A idealização social da profissão (que pressupõe prestígio automático aos médicos) contrasta radicalmente com a realidade acadêmica, gerando frustração intensa quando os estudantes confrontam as complexidades da prática médica23.

Essa crise é agravada pelo fator gênero: as mulheres experimentam frustração exacerbada ao conciliar expectativas profissionais com demandas desproporcionais de responsabilidades domésticas, maternais e sociais24. O resultado é uma epidemia silenciosa de ansiedade, depressão e burnout que atinge níveis críticos entre as médicas em formação11,12, refletindo a urgência de políticas de apoio mental específicas para a população feminina em escolas médicas.

Ao se considerar a qualidade de vida dos estudantes de Medicina, os dados revelam um cenário preocupante, pois todos os participantes relataram uma deterioração na qualidade de vida ao ingressar no curso de Medicina, sendo os principais preditores os longos anos de estudo e a intensa pressão acadêmica e social enfrentada durante esse período24,25. Lamentavelmente, estudantes nos estágios finais do curso afirmaram que essa situação não melhora ao longo da Graduação. Além disso, a revisão destacou que esse dilema tende a ser ainda mais acentuado para as mulheres. As estudantes de Medicina incluídas na pesquisa apresentaram índices significativamente mais baixos em relação à qualidade de vida, à saúde física e mental quando comparados aos dos homens investigados25. Esses dados corroboram os achados expostos pelos artigos selecionados nesta pesquisa que demandam intervenções urgentes11,12.

Influência na escolha da especialidade médica

Um estudo com mais de setenta médicas que decidiram não seguir a carreira cirúrgica revelou que, embora a maioria tenha considerado inicialmente essa especialidade, fatores como plantões exaustivos, jornadas extensas e alta pressão profissional foram decisivos em suas escolhas. Esses elementos limitaram significativamente suas prioridades pessoais, como constituição familiar e equilíbrio vida-trabalho26. Tais achados se alinham aos desta revisão11-13 e expõem a complexidade das decisões profissionais femininas na Medicina: além de desafios individuais, barreiras estruturais e culturais persistentes direcionam as mulheres para especialidades socialmente “feminizadas”, evitando ambientes percebidos como hostis à equidade de gênero26.

Homens e mulheres desempenham seus afazeres trabalhistas de maneiras diferentes, respeitando suas características físicas e psicológicas. No entanto, essas diferenças não tornam o trabalho de um gênero superior ou mais importante que o do outro, nem incapacitam as mulheres de exercerem as mesmas funções que os homens, apenas refletem a diversidade na realização das atividades27.

A crença cultural de que especialidades como ortopedia e emergência exigem maior aporte físico ainda leva à percepção de que são mais adequadas aos homens, resultando, inclusive, em remuneração inferior para médicas com igual desempenho28. Isso afasta mulheres de áreas ainda masculinizadas, restringe suas escolhas profissionais e impõe um medo indireto de fracasso26-28. Tal cenário revela como o preconceito está enraizado nas instituições hospitalares e na sociedade, perpetuando a desigualdade de gênero e dificultando o sucesso das médicas28. Um dos estudos incluídos nesta revisão abordou esses aspectos, reforçando a urgência de superar tais barreiras para garantir igualdade de oportunidades15.

Medidas institucionais voltadas ao enfrentamento e ao acolhimento dos casos de discriminação baseada no gênero

Além de identificar as influências da DBG na vida dos acadêmicos, torna-se imprescindível que estratégias e ações sejam desenvolvidas para reduzir os impactos da discriminação dentro das escolas médicas criando espaços de ouvidoria e medidas de denúncia eficazes. As referências utilizadas como base para este artigo trouxeram muitos caminhos viáveis para a mitigação eficaz da DBG29-31.

Um exemplo promissor é o projeto “Ouvidoria Acolhidas”, que sugeriu aos canais de escuta institucionais que, além de uma boa escuta, realizassem também um bom acolhimento e trabalhassem mais efetivamente no enfrentamento das violências de gênero em universidades. O objetivo da Ouvidoria Acolhidas é que os mecanismos de escuta sejam acessíveis, humanizados e, principalmente, efetivos30.

Outra proposta relevante apresentada em outro artigo é uma intervenção psicossocial com estudantes universitárias, cujo objetivo era ampliar a compreensão sobre DGB e fortalecer o protagonismo das mulheres no enfrentamento dessas situações. Essas ações podem ser estimuladas no meio médico por rodas de conversa, oficinas temáticas e grupos de apoio, fortalecendo redes de solidariedade e empoderamento feminino no curso de Medicina29.

E para complementar, a implementação de projetos de intervenção educativa que abordem todos os ciclos de formação médica com o objetivo de desconstruir estereótipos e estimular a reflexão crítica sobre papéis de gênero31. A inclusão de estudos sobre desigualdade de gênero, saúde das mulheres e ética na grade de conteúdos do curso de Medicina, por exemplo, pode favorecer a formação de profissionais mais sensíveis e comprometidos com a equidade29,31.

Sendo assim, as medidas institucionais que visem acolhimento, educação, prevenção e responsabilização podem desempenhar um papel importantíssimo na promoção de ambientes acadêmicos mais seguros, inclusivos e igualitários. Cabe às escolas médicas reconhecer e adaptar essas boas práticas à sua realidade institucional, assumindo uma postura ativa na promoção da equidade de gênero.

Limitações do estudo

Dada a proposta deste estudo de avaliar como a DBG influencia as escolhas de carreira profissional, a Saúde Mental e a empatia das estudantes de Medicina no Brasil, utilizando rigorosos critérios de inclusão e priorizando estudos de alta qualidade, a quantidade reduzida de artigos elegíveis evidencia uma lacuna na literatura e reforça a necessidade de novas pesquisas para aprofundar o conhecimento sobre essa temática, uma vez que a generalização das descobertas se torna limitada.

Além disso, o componente quantitativo contou com a amostra de cinco artigos, totalizando uma amostra total de 2.135 participantes, tendo a análise qualitativa consistido em apenas 13 participantes por meio de entrevista semiestruturada14 e o restante (2.122) por questionários. Embora os artigos tenham sido analisados profundamente, o número de artigos compatíveis com os critérios de inclusão e exclusão é pequeno, podendo não refletir completamente a diversidade dos problemas enfrentados pelas futuras médicas.

Ademais, ainda que a maioria dos estudos incluídos nesta revisão não tenha como objetivo principal comparar diferenças regionais, observou-se que os relatos de DBG na Medicina alcançaram diversas partes do Brasil. No entanto, devido à ausência de análises regionais nos estudos originais e à limitação de informações geográficas mais detalhadas, não foi possível realizar uma comparação aprofundada entre os contextos regionais. Mesmo assim, a diversidade geográfica das instituições participantes sugere que a discriminação baseada no gênero é um fenômeno estrutural e amplamente disseminado no cenário da educação médica brasileira.

Apesar das limitações metodológicas, os achados deste estudo constituem uma ferramenta importante no diagnóstico e nos impactos das DBG para as discentes do curso de Medicina no Brasil. Esses resultados podem servir como uma contribuição valiosa, não apenas para o avanço do conhecimento científico sobre o tema, mas também para incentivar iniciativas de políticas e intervenções que fomentem a equidade de gênero. Estudos de intervenção em estudantes já demonstraram os desafios e progressos significativos alcançados com o exercício da ação em diversas esferas, como por meio da conscientização dos estudantes, do acolhimento psicológico às vítimas de DBG e da elaboração de mecanismos de denúncia e representação das vítimas nos órgãos competentes29-31.

Considerações finais

Essa pesquisa teve por objetivo abordar as diversas facetas da DBG enfrentadas pelas mulheres na Medicina. No seu cerne foi abordada a prevalência do assédio sexual durante a Graduação e a vida profissional, que na maioria dos casos não era reportada para o setor jurídico, seja por medo, sentimentos de vergonha seja por receio de retaliação. Também foi discutido como as mulheres, apesar de demonstrarem ampla responsabilidade e comprometimento na profissão, ainda eram destinadas a cargos mais baixos ou afazeres menos valorizados com remunerações divergentes das dos homens.

Outrossim, foi mencionada a feminização de certas especialidades médicas e notou-se a desvalorização das áreas tradicionalmente consideradas masculinas, bem como as consequências desse processo de feminização para a mulher médica. Esses estereótipos de gêneros não só perpetuam a desigualdade como também revelam um impacto ainda atual na Saúde Mental dessas profissionais, que experimentam diariamente altas taxas de ansiedade, burnout e esgotamento em seu meio.

A disparidade salarial também foi tópico dessa discussão, ressaltando a subvalorização das mulheres na Medicina e evidenciando a percepção de desvalorização que a comunidade médica, em especial a masculina, tem sobre as mulheres, denotando a ideia de que certas especialidades exigem atributos considerados mais adequados aos homens. Portanto, é imperativa a implementação de estratégias eficazes para promover a igualdade de gênero na Medicina não apenas para combater a DBG, mas para um ambiente profissional mais harmônico e equitativo para todos.

Embora este estudo tenha encontrado evidências significativas sobre a discriminação baseada em gênero dentro da Medicina, percebe-se a necessidade de mais estudos sobre essa temática, assim será possível ter uma avaliação mais aprofundada acerca dos impactos em longo prazo da discriminação baseada no gênero sobre as escolhas de especialidade, a Saúde Mental e o progresso profissional de mulheres na Medicina. A limitação de artigos encontrados para embasar esta revisão demonstra não só uma lacuna na literatura atual, como reitera a necessidade de mais estudos sobre o tema.

Agradecimentos

À professora Daniela Soares Leite, pela excelente atuação como coordenadora do Programa PET-Saúde/Equidade; às tutoras, preceptoras e discentes integrantes do Grupo de Trabalho 1 (GT-1), pela valiosa contribuição que tornou a vivência no programa mais enriquecedora e significativa.

  • Costa WTA, Jansen RC, Nascimento JS, Paulino KVRM, Paulino MM, Ribeiro HF. Desigualdade de gênero na educação médica: barreiras enfrentadas pelas estudantes e profissionais brasileiras. Interface (Botucatu). 2025; 29: e250172 https://doi.org/10.1590/interface.250172
  • Financiamento
    Esta pesquisa foi parcialmente financiada pelo Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde/Equidade), da Universidade do Estado do Pará (UEPA), Campus VIII, sob o Edital Nº 070/2024, conforme seleção para PET-saúde 2024/2026 do Ministério da Saúde, referente ao Edital SGTES/MS Nº 11.

Disponibilidade de dados

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    28 Mar 2025
  • Aceito
    25 Ago 2025
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