Open-access Educação Física em cenários de desastres ambientais: lições a partir da enchente de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, RS, Brasil

Physical education in an environmental disaster setting: lessons from the May 2024 floods in Rio Grande do Sul, RS, Brazil

La educación física en escenarios de desastres ambientales: lecciones a partir de la inundación de mayo de 2024 en Rio Grande do Sul, RS, Brasil

Resumo

As inundações no Rio Grande do Sul em maio de 2024, especialmente em Canoas, provocaram um grave desastre. Este relato descreve as práticas pedagógicas interdisciplinares realizadas em um abrigo humanitário do município, destacando o impacto das atividades lúdicas na promoção do bem-estar e resiliência das crianças. Baseando-se na sistematização de experiências, a metodologia incluiu registros e observações diretas para análise crítica. As atividades lúdicas, como brincadeiras livres e oficinas corporais, foram essenciais para mitigar os impactos emocionais, promovendo vínculos afetivos entre crianças e voluntários. A ausência de protocolos claros foi um desafio significativo, o que indica a necessidade de desenvolver estratégias concretas para sua superação. A interdisciplinaridade, a formação contínua e o brincar emergiram como elementos centrais para intervenções eficazes. O relato reafirma o papel transformador da Educação Física como promotora de saúde e cidadania em contextos de emergência.

Palavras-chave
Brincar; Emergência humanitária; Enchente; Interdisciplinaridade


Abstract

The floods in Rio Grande do Sul in May 2024, especially in Canoas, caused a major disaster. This paper describes the use of interdisciplinary pedagogical practices in a municipal humanitarian shelter, highlighting the role played by game-based learning in promoting children's well-being and resilience. Based on systematization of experiences, the methodology used in this study included record keeping and direct observation for critical analysis. Game-based learning activities, such as free play and body workshops, were essential in mitigating emotional impacts and promoting the establishment of emotional bonds between children and volunteers. The absence of clear protocols was a significant challenge, indicating the need to develop concrete strategies to overcome this problem. Interdisciplinarity, continuous training and play were shown to be central elements of effective interventions. Our findings reaffirm the transformative role of physical education in promoting health and citizenship in emergency contexts.

Keywords
Play; Humanitarian emergency; Floods; Interdisciplinarity


Resumen

Las inundaciones en el Estado de Río Grande do Sul en mayo de 2024, especialmente en Canoas, causaron un grave desastre. Este relato describe las prácticas pedagógicas interdisciplinarias realizadas en un albergue humanitario del municipio, subrayando el impacto de las actividades lúdicas en la promoción del bienestar y de la resiliencia de los niños. Con base en la sistematización de experiencias, la metodología incluyó registros y observaciones directas para un análisis crítico. Las actividades lúdicas, tales como los juegos libres y los talleres corporales, fueron esenciales para mitigar los impactos emocionales, promoviendo vínculos afectivos entre niños y voluntarios. La ausencia de protocolos claros fue un desafío significativo, lo que indica la necesidad de desarrollar estrategias concretas para su superación. La interdisciplinaridad, la formación continua y el jugar surgieron como elementos centrales para intervenciones eficaces. El relato reafirma el papel transformador de la Educación Física como promotora de salud y ciudadanía en contextos de emergencia.

Palabras clave
Jugar; Emergencia humanitaria; Inundación; Interdisciplinariedad


Introdução

A intensificação dos desastres naturais, como inundações provenientes de enchentes, reflete um cenário global de degradação ambiental e avanço do modelo neoliberal, que subordina políticas públicas aos interesses mercantis. Krenak1 adverte sobre a urgência de considerarmos a relação entre humanidade e natureza, criticando o modelo que, ao explorar indiscriminadamente os recursos naturais, desconsidera o impacto sobre as populações mais vulneráveis. No Brasil, os desastres climáticos são resultado não apenas de eventos extremos, mas também de escolhas políticas que priorizam o lucro em detrimento da preservação ambiental e do bem-estar social2.

A emergência advinda dos desastres climáticos expõe comunidades ao deslocamento forçado e à ruptura de rotinas, como ocorreu durante as enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul (RS), estado localizado ao sul do Brasil. O impacto afetou 476 municípios deste estado, deixando 2.392.686 pessoas diretamente impactadas. Entre elas, 572.781 ficaram desalojadas, enquanto 30.442 buscaram abrigo em instalações providenciais, como escolas e ginásios. Além disso, as enchentes causaram 172 óbitos confirmados e deixaram 41 pessoas desaparecidas. Houve também 806 feridos, muitos deles necessitando de cuidados médicos emergenciais devido às condições extremas enfrentadas. Durante os esforços de resgate, 77.875 pessoas e 12.543 animais foram salvos, evidenciando a gravidade da situação e a escala das operações de salvamento realizadas3.

A dimensão do desastre ressaltou a vulnerabilidade estrutural das comunidades mais pobres, que vivem em áreas de risco sem infraestrutura adequada para resistir a eventos extremos. O grande volume de água, a ausência e descaso político de sistemas eficientes de alerta e evacuação tardia contribuíram para agravar os danos, evidenciando a necessidade de políticas públicas mais eficazes para mitigar os impactos de desastres futuros4.

Diante deste cenário devastador, os abrigos humanitários emergiram como uma solução indispensável para acolher milhares de desabrigados. No entanto, a operação desses espaços enfrentou desafios significativos, como desordem inicial, ausência de protocolos claros e disputas políticas, conforme apontado por Gomes e Cavalcante4. Apesar da sua importância, esses locais foram marcados pela precariedade e pelas incertezas, que afetam profundamente tanto a saúde física quanto o bem-estar emocional dos afetados.

Entre os diversos abrigos estabelecidos, destacaram-se aqueles localizados no município mais severamente impactado pela enchente. Os locais acolheram milhares de pessoas e animais, oferecendo um refúgio essencial em meio à calamidade.

Nesse contexto de ruptura e vulnerabilidade, a ludicidade emergiu como uma estratégia central para mitigar os efeitos do trauma, especialmente entre crianças. O brincar, como defendem Martins et al.5, é mais do que um momento de diversão: trata-se de um direito essencial que promove o desenvolvimento integral, possibilitando a expressão emocional, fortalecendo os vínculos sociais, criando oportunidades para reorganizar experiências traumáticas e contribuindo para a resiliência e recuperação dos indivíduos.

A Educação Física, com sua capacidade de integrar movimento e interação social, desempenha um papel crucial em fomentar ambientes lúdicos que promovem o bem-estar físico e psicológico, mesmo em situações adversas6. Diante disso, o presente relato aborda as práticas interdisciplinares implementadas por estudantes e trabalhadores de Educação Física em um abrigo humanitário localizado no município de Canoas, RS. Tais intervenções, articuladas com outras áreas do conhecimento, buscaram restaurar a dignidade e oferecer momentos de alívio em um cenário de calamidade pública. Inspirados pela pedagogia freiriana, entendemos que a prática educativa deve ser crítica, dialógica e transformadora, mesmo – e talvez principalmente – em contextos de desastre.

A inclusão de estratégias claras para superar a ausência de protocolos é fundamental para aprimorar as intervenções futuras. A necessidade de formulação de protocolos interdisciplinares específicos e de capacitação contínua dos profissionais configura-se como um dos elementos centrais que emergiram a partir da experiência vivida, apontando para princípios e articulações orientadoras da prática pedagógica crítica e transformadora.

Metodologia

Este relato fundamenta-se nos princípios da sistematização de experiências, conforme propostos por Holliday7, que organiza a narrativa em cinco etapas: ponto de partida, perguntas iniciais, recuperação do processo vivido, reflexão de fundo e pontos de chegada. O relato de experiência descreve um abrigo humanitário, em Canoas, suas práticas interdisciplinares e estratégias lúdicas implementadas pelo curso de Educação Física em resposta a um cenário de desastre ambiental.

A sistematização teve início com a identificação do contexto inicial, caracterizado por desordem logística e ausência de protocolos definidos7. Diante dessa situação, os profissionais e estudantes do curso de Educação Física articularam-se com outras áreas, especialmente a Psicologia e Pedagogia, para elaborar estratégias de intervenção. As ações priorizaram o acolhimento das vítimas e a criação de espaços que promovessem alívio emocional e interação social. Nesse momento, a observação das necessidades emergentes e o mapeamento dos recursos disponíveis foram na tentativa de orientar as primeiras decisões.

A partir desse contexto inicial, foram formuladas perguntas orientadoras que guiaram o processo reflexivo7, tais como: de que forma as atividades lúdicas podem atender às necessidades emocionais e sociais dos abrigados? Como integrar práticas interdisciplinares de maneira eficaz? Entendemos que tais questões possibilitaram direcionar as intervenções e estabelecer critérios para avaliar a efetividade das ações realizadas.

A etapa de recuperação do processo vivido envolveu o registro sistemático das atividades por meio de diários de campo e observações diretas7.

A reflexão de fundo baseou-se na análise crítica dos dados coletados, destacando as limitações e potencialidades das ações realizadas. A ausência de um protocolo específico foi identificada como um obstáculo significativo, mas a experiência também evidenciou o impacto positivo das práticas pedagógicas em promover cidadania, saúde e bem-estar em contextos de desastres. Esse momento de análise dialogou com fundamentos teóricos, como os de Freire8, reforçando a importância de uma prática educativa crítica e transformadora.

Por fim, os pontos de chegada sintetizam as lições aprendidas e propostas para futuras intervenções7. A experiência demonstrou a relevância de protocolos interdisciplinares claros, da capacitação prévia dos envolvidos e da valorização do brincar como eixo central em situações de emergência.

Resultados

O ponto de partida

Este relato de experiência se inicia em um cenário marcado pelo caos, resultado da falta de um protocolo estruturado e da desorganização nas ações de resposta ao desastre. Entre os principais desafios enfrentados estavam a distribuição desigual de doações, tensões políticas locais e até mesmo episódios de saques, revelando a fragilidade das estratégias de acolhimento emergencial. No entanto, um esforço coletivo emergiu, unindo voluntários, profissionais e estudantes de diversas áreas, como Educação Física, Nutrição, Psicologia e Fisioterapia, em busca de soluções para minimizar os impactos do desastre.

A Educação Física desempenhou um papel central ao propor a criação de uma brinquedoteca, espaço fundamentado nos princípios do brincar livre, como defendido por Kishimoto9. Esse ambiente foi projetado para acolher crianças e adolescentes, reconhecendo-os não apenas como vítimas, mas também como sujeitos de direitos com necessidades específicas que, muitas vezes, são invisibilizadas nesses cenários5. Nesse sentido, o brincar emergiu como uma estratégia essencial, proporcionando não apenas diversão, mas também uma oportunidade para a expressão emocional e o fortalecimento de vínculos sociais, alinhando-se às reflexões de Winnicott10 sobre o brincar como elemento terapêutico e estruturante na infância.

É importante destacar que crianças e adolescentes, frequentemente negligenciados em situações de crise, necessitam de abordagens que respeitem suas singularidades. É possível pensar que os processos cognitivos e emocionais desses grupos diferem significativamente dos adultos11, exigindo práticas pedagógicas sensíveis que priorizem o acolhimento e a segurança emocional. A brinquedoteca, nesse contexto, tornou-se um espaço de ressignificação, oferecendo atividades que iam desde desenhos e jogos populares até teatro e sessões de filmes. Essas ações promoveram um ambiente de acolhimento, no qual o respeito às especificidades das crianças e dos adolescentes foi colocado como prioridade, em consonância com a Declaração dos Direitos da Criança12.

As perguntas iniciais

Conforme proposto por Holliday7, a sistematização de experiências deve partir de um ponto de partida claro, estabelecendo perguntas iniciais que orientem o processo de análise crítica. Nesse contexto, este estudo propõe sistematizar a experiência vivenciada em um abrigo humanitário localizado no município de Canoas, RS, durante as enchentes de maio de 2024. O foco recai sobre as práticas pedagógicas interdisciplinares realizadas por profissionais e estudantes de Educação Física, com ênfase nas atividades lúdicas e corporais voltadas ao acolhimento infantil, visando mitigar os impactos emocionais causados pela situação de emergência.

Holliday7 destaca que a definição de um eixo de sistematização é fundamental para garantir coerência ao processo reflexivo. Dessa forma, o eixo central dessa sistematização concentra-se na análise das práticas lúdicas e pedagógicas implementadas no contexto da enchente, destacando os desafios enfrentados — em especial, a ausência de protocolos interdisciplinares voltados à organização do acolhimento, da logística e das ações educativas nos abrigos — e as estratégias adotadas para promover o bem-estar infantil. A partir de uma perspectiva interdisciplinar que articula conhecimentos da Educação Física, Psicologia e Pedagogia, busca-se compreender como o brincar e as atividades físicas podem contribuir para a resiliência das crianças e para o fortalecimento dos vínculos sociais em situações de vulnerabilidade.

A literatura reforça a relevância do brincar em contextos de crise. Kishimoto9 aponta que o brincar não é apenas um momento de lazer, mas também um direito fundamental da criança, sendo especialmente importante para lidar com situações adversas. Winnicott10 complementa ao afirmar que o brincar desempenha um papel terapêutico essencial na reorganização psíquica das crianças, promovendo segurança emocional e resiliência. Martins et al.5 também ressaltam que o brincar possibilita a expressão emocional e fortalece os laços sociais, características fundamentais em cenários de vulnerabilidade.

Ainda, a prática pedagógica em situações de desastre requer uma abordagem que integre múltiplas áreas do conhecimento, como defendido por Freire8, para que as intervenções sejam críticas e dialógicas. A Educação Física, nesse contexto, ganha centralidade por sua capacidade de integrar movimento e interação social, promovendo espaços lúdicos que contribuem para o bem-estar físico e psicológico6.

Assim, ao dialogar com as reflexões de Holliday7 e demais referências teóricas, essa sistematização busca não apenas documentar as práticas desenvolvidas, mas também oferecer subsídios para futuras intervenções pedagógicas em cenários de desastre. A construção de protocolos interdisciplinares que contemplem o brincar como eixo central das práticas pedagógicas poderá garantir um acolhimento mais efetivo e humanizado, especialmente para crianças em situações de vulnerabilidade extrema.

Recuperação do processo vivido

As atividades realizadas na brinquedoteca mostraram-se importantes instrumentos para criar um ambiente acolhedor para as crianças. Brincadeiras como circuitos com desafios corporais; jogos populares como “ovo choco” e “pega estátua”; e jogos cooperativos que exigiam a superação de desafios coletivos proporcionaram oportunidades de interação social, expressão emocional e desenvolvimento de habilidades motoras13. Além disso, oficinas ministradas por voluntários especializados em modalidades como judô e jiu-jitsu ampliaram as possibilidades de vivências corporais, despertando o interesse e a curiosidade das crianças por novas experiências.

A presença constante dos mesmos voluntários na brinquedoteca favoreceu a formação de vínculos afetivos entre as crianças e os monitores, bem como entre as próprias crianças14. Esses laços se tornaram fundamentais para criar um espaço de segurança emocional, que, segundo Winnicott10, é essencial para o desenvolvimento saudável na infância. A continuidade nas relações permitiu que as crianças se sentissem vistas, ouvidas e acolhidas, condições indispensáveis para a ressignificação das vivências traumáticas.

A pedagogia do brincar, como discutida por Kishimoto9, foi o eixo central das práticas realizadas, reconhecendo o brincar como um direito das crianças e como uma ferramenta indispensável para sua recuperação emocional e social. O brincar não apenas promoveu momentos de alívio em meio ao desastre, mas também possibilitou a reorganização psíquica, uma vez que o lúdico cria oportunidades para expressar emoções e ressignificar experiências traumáticas5,14.

Além disso, voluntárias da área da Pedagogia, vinculadas à Rede La Salle de Educação, ofereceram suporte qualificado aos monitores, implementando práticas que enriqueciam os atendimentos. Entre essas contribuições, destaca-se a criação de um espaço de escuta para os próprios voluntários, reconhecendo que o trabalho em cenários de desastre também demanda apoio emocional e reflexivo. Essa abordagem dialoga com as reflexões de Freire8 sobre a importância do diálogo e da escuta como práticas que humanizam as relações e potencializam os processos educativos.

Apesar dos resultados positivos, o processo revelou a invisibilidade histórica das necessidades específicas das crianças em cenários de desastres4. As políticas de assistência emergencial frequentemente negligenciam esses sujeitos, tratando-os de forma genérica e não considerando sua vulnerabilidade e direitos específicos. A experiência reforçou a importância de práticas interdisciplinares que priorizem o olhar atento às crianças, conforme Bento et al.2, que destacam que o respeito à singularidade infantil é um imperativo em qualquer ação educativa ou social.

As práticas desenvolvidas na brinquedoteca demonstraram que a Educação Física, aliada a outras áreas do conhecimento, pode ser um potente instrumento de promoção de saúde, acolhimento e cidadania em situações de desastre. Esse processo, fundamentado em bases teóricas sólidas e práticas sensíveis, reafirma o papel transformador do brincar como um ato de resistência e reconstrução em meio ao caos.

Reflexão de fundo

Sob uma perspectiva crítica, analisamos as limitações e oportunidades da intervenção pedagógica interdisciplinar realizada no abrigo. A ausência de um protocolo específico para o acolhimento e desenvolvimento de atividades educativas em contextos emergenciais revelou-se uma barreira significativa, evidenciando a necessidade de diretrizes claras para futuros cenárioss. Por outro lado, a experiência ressaltou o potencial transformador da prática pedagógica em contextos de desastre, reafirmando o papel da Educação Física como promotora de cidadania e bem-estar.

Freire8 nos lembra que educar é um ato político. Nesse contexto, as ações realizadas transcenderam o alívio imediato ao criar espaços de ressignificação para as vítimas, especialmente para as crianças, que expressaram emoções por meio de desenhos e brincadeiras. Um desenho em particular, retratando uma casa submersa em águas (figura 1), ilustrou a profundidade do impacto emocional vivido e a importância do brincar como ferramenta de reorganização psíquica.

Figura 1
Desenho elaborado por criança em situação de abrigo temporário representando uma casa sendo levado pelas águas.

Ao garantir espaços que valorizem as vozes e experiências dessas crianças, a intervenção buscou combater a invisibilidade histórica que esses sujeitos enfrentam em políticas de assistência emergencial4. É viável pensar que a criação de ambientes lúdicos e seguros não apenas promoveu a reorganização psíquica e social dos jovens, mas também reforçou a importância de práticas interdisciplinares e humanizadas em cenários de vulnerabilidade.

Pontos de chegada

Embora a continuidade das práticas tenha sido limitada pela redução dos abrigos, a experiência gerou aprendizados que podem servir como base para intervenções mais eficazes no futuro. Esses aprendizados apontam para necessidades cruciais que dialogam com as reflexões de diferentes áreas do conhecimento, especialmente, ao nosso entender, no que diz respeito à elaboração de um protocolo de emergência interdisciplinar; à capacitação contínua de trabalhadores e estudantes para tais cenários; à valorização do brincar como estratégia para o acolhimento emergencial infantil; e à integração contínua com a comunidade.

A ausência de um protocolo claro para a organização do acolhimento, da logística e das ações educativas foi um dos principais desafios enfrentados, evidenciando a importância de estruturas que articulem essas etapas de forma coordenada e integrada. A complexidade das situações exige a conexão efetiva entre diferentes áreas do saber, pois somente a interdisciplinaridade pode abarcar a multiplicidade de demandas em contextos de desastres ambientais15. Assim, um protocolo bem delineado não apenas organiza as ações, mas também fortalece as interações entre profissionais, garantindo respostas ágeis e integradas. Além disso, a clareza nas etapas operacionais pode reduzir a sobrecarga nas equipes e promover maior eficiência no atendimento às populações vulneráveis16.

Diante da constatação da ausência de protocolos claros durante a intervenção, propomos algumas estratégias para aprimorar futuras ações em cenários de emergência humanitária, como o desenvolvimento de protocolos interdisciplinares que articulem as áreas da Educação Física, Psicologia, Pedagogia e Saúde para ações integradas em contextos de emergência. Além disso, é fundamental investir em capacitação contínua, oferecendo formação periódica para profissionais e voluntários, com foco na atuação conjunta e no uso de práticas lúdicas como instrumento de acolhimento. Outro aspecto importante é o mapeamento de recursos locais, desenvolvendo um levantamento prévio das estruturas comunitárias e de profissionais capacitados para atuação imediata. Ainda, é essencial estabelecer um plano de acolhimento infantil que priorize a criação de espaços lúdicos e seguros desde os primeiros momentos da emergência, reconhecendo as crianças como sujeitos prioritários. Por fim, propomos a implementação de monitoramento e avaliação das ações, com indicadores específicos para acompanhar sua eficácia e identificar pontos de melhoria ao longo do processo.

A capacitação contínua emerge como um requisito essencial para preparar equipes para lidar com as particularidades das situações de emergência. Freire8 reforça a ideia de que a formação deve ser dialógica e crítica, capacitando educadores e profissionais para agir com sensibilidade e competência diante das adversidades. Além disso, estudos mostram que o desenvolvimento de habilidades práticas, aliadas a um sólido embasamento teórico, aumenta a eficácia das intervenções em cenários de desastres17. Isso inclui desde técnicas de acolhimento emocional até a execução de atividades específicas, como práticas lúdicas e ações terapêuticas.

O brincar, neste contexto, deve ser reconhecido não apenas como um direito fundamental das crianças, mas também como uma ferramenta indispensável para a reorganização psíquica e emocional em cenários de vulnerabilidade9,10. O lúdico possibilita a expressão de emoções, a criação de vínculos e a ressignificação de traumas, sendo uma prática que transcende o mero entretenimento. Além disso, o brincar, ao ser integrado a abordagens pedagógicas sensíveis, pode fortalecer a resiliência e a recuperação das crianças em contextos de desastre, tornando-se uma estratégia prioritária para intervenções humanitárias5.

A sustentabilidade das ações a longo prazo depende de uma integração efetiva com a comunidade, promovendo uma corresponsabilidade que amplie o impacto das intervenções. A construção de redes comunitárias sólidas fortalece o apoio às populações vulneráveis e cria condições para o desenvolvimento de iniciativas que se perpetuem mesmo após a resolução da crise imediata18,19. Essa integração exige um diálogo constante com os atores locais, respeitando suas especificidades culturais e sociais4.

Dessa forma, as lições aprendidas nesta experiência destacam a importância de práticas interdisciplinares, formação crítica, valorização do brincar e articulação comunitária para construir intervenções mais eficazes e humanizadas em situações de desastres. Tais pressupostos podem não apenas inspirar futuras ações, mas também contribuir para a formulação de políticas públicas mais inclusivas e adaptadas às realidades das populações afetadas por desastres.

Ainda, a experiência relatada demonstra como a Educação Física pode atuar em sinergia com outras disciplinas, contribuindo para a saúde integral das comunidades afetadas. Além disso, reforça a necessidade de trazer temas como emergências humanitárias para os currículos escolares e universitários, preparando futuros profissionais para enfrentar desafios crescentes em um mundo marcado por mudanças climáticas e desigualdades sociais. Contudo, esse campo de atuação não deve se restringir ao âmbito imediato da saúde física ou emocional, precisando estabelecer também um diálogo crítico com questões ambientais, evidenciando como práticas corporais podem fomentar a conscientização e o cuidado com o meio ambiente.

A Educação Física, enquanto área que integra movimento, cultura e interação social, possui um papel estratégico na educação ambiental. Atividades em contato com a natureza, como trilhas, podem potencializar o cuidado com a “casa comum”, criando experiências que sensibilizam os participantes para a importância da preservação ambiental2,5,20. Essas vivências reforçam o valor pedagógico das práticas corporais ao integrar lazer, saúde e sustentabilidade, uma conexão vital em um contexto global de desastre ambiental.

No âmbito das emergências humanitárias, essa relação se torna ainda mais evidente. O uso de espaços naturais e atividades físicas ao ar livre em contextos de acolhimento não apenas promove a saúde dos envolvidos, mas também contribui para uma formação sensível e crítica, como defendem Bahia e Costa21 em suas reflexões sobre a Caravana Educativa de Lazer. Em suas vivências com comunidades na Amazônia, os autores destacam que as práticas corporais realizadas em ambientes naturais proporcionam uma experiência teórico-prática que conecta os participantes à realidade socioambiental em que estão inseridos, ampliando a compreensão sobre o impacto humano no meio ambiente.

Assim, a Educação Física também pode contribuir diretamente para a educação ambiental20, promovendo práticas pedagógicas que desenvolvam a consciência crítica dos participantes. Por meio de atividades de aventura em áreas naturais, como trilhas ou caminhadas em unidades de conservação, é possível explorar questões como biodiversidade, conservação e impactos das mudanças climáticas. Essas práticas, além de promoverem benefícios físicos, estimulam a reflexão sobre a relação entre saúde humana e saúde ambiental20,21.

Os desastres climáticos e seus impactos evidenciam a urgência de uma Educação Física que transcenda os limites tradicionais do movimento corporal, conectando-se às demandas contemporâneas de sustentabilidade e cuidado com o planeta. Atividades de aventura na natureza, bem como a própria temática dos desastres ambientais, quando inseridas em contextos pedagógicos, tornam-se não apenas práticas de lazer, mas também ferramentas para a transformação social e ambiental, contribuindo para o desenvolvimento de uma ética do cuidado e da preservação.

Considerações finais

Este relato de experiência reafirma a potência da Educação Física como ferramenta de transformação em cenários de desastre. A partir das práticas pedagógicas desenvolvidas em um abrigo humanitário durante a enchente de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, especialmente no município de Canoas, foi possível identificar estratégias que promoveram o bem-estar e a resiliência das crianças por meio de atividades lúdicas e corporais planejadas e executadas por profissionais e estudantes de Educação Física.

Dialogando com perspectivas críticas, como a de Freire8, entendemos que práticas interdisciplinares, quando bem estruturadas, podem não apenas aliviar os impactos imediatos de desastres, mas também semear esperança e reconstrução. Nesse sentido, a ludicidade, quando articulada às práticas pedagógicas, contribui para a reorganização psíquica e emocional das crianças, favorecendo a expressão de sentimentos e o fortalecimento de vínculos sociais, conforme apontado por Kishimoto9 e Winnicott10.

Com a sistematização dos conhecimentos por meio deste estudo, nossa tentativa concentrou-se também na proposição de diretrizes para o desenvolvimento de protocolos interdisciplinares, capazes de orientar intervenções mais eficazes em situações de emergência, especialmente no que se refere ao acolhimento de crianças e adolescentes em espaços de abrigo. A ausência de protocolos claros foi um desafio significativo, mas as práticas desenvolvidas demonstraram que a articulação entre Educação Física, Psicologia e Pedagogia possibilita a criação de espaços humanizados que respeitam as necessidades emocionais e sociais dos afetados.

A partir desta experiência, reafirma-se a necessidade de capacitação contínua dos profissionais envolvidos em intervenções emergenciais, incluindo a formação específica para lidar com situações de vulnerabilidade infantil. As estratégias que valorizaram o brincar como ferramenta central para o acolhimento demonstraram-se eficazes na promoção da resiliência, fortalecendo os vínculos comunitários e garantindo um ambiente de acolhimento emocional seguro.

Além disso, futuras intervenções em cenários de desastre podem considerar a criação de brinquedotecas e espaços lúdicos desde os primeiros momentos do acolhimento emergencial. A inclusão de práticas corporais planejadas e sensíveis ao contexto adverso amplia as possibilidades de cuidado integral, promovendo não apenas a saúde física, mas também a reorganização emocional e social dos indivíduos afetados.

Entendemos que a experiência aqui relatada também ressalta a importância da interdisciplinaridade como fundamento das ações pedagógicas em contextos emergenciais. O trabalho articulado entre profissionais de diferentes áreas possibilita um acolhimento mais completo, garantindo a promoção da cidadania e o fortalecimento dos laços sociais, mesmo em situações adversas.

Ao propormos um legado de reflexões e diretrizes a partir desta experiência, esperamos inspirar outros trabalhadores e instituições a reconhecerem a Educação Física como um campo de ação amplo, transformador e capaz de dialogar com as complexidades do mundo contemporâneo. Promover uma prática pedagógica crítica e interdisciplinar em contextos de desastre é um passo fundamental para garantir respostas mais humanizadas e eficazes, reafirmando o compromisso com a dignidade e o cuidado das populações vulneráveis.

Agradecimentos

Agradecemos à Universidade La Salle pelo apoio institucional e a todos os voluntários, diretos e indiretos, que contribuíram com solidariedade, trabalho e dedicação durante o enfrentamento e a superação dos desafios impostos pela enchente.

  • Gonçalves PS, Nascimento LSF. Educação Física em cenários de desastres ambientais: lições a partir da enchente de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, RS, Brasil. Interface (Botucatu). 2025; 29: e240665 https://doi.org/10.1590/interface.240665

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Editado por

  • Editor
    Roseli Esquerdo Lopes
  • Editora associada
    Késia Maria Maximiano de Melo

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    14 Jan 2025
  • Aceito
    14 Maio 2025
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