UMA VISÃO FILOSÓFICA DO SER: A VIDA DOS ANIMAIS E O CONTO “THE GLASS ABATTOIR”, DE JM COETZEE

A PHILOSOPHICAL VISION ABOUT BEING: THE LIVES OF ANIMALS AND THE SHORT STORY “THE GLASS ABATTOIR”, BY JM COETZEE

Marilia Fatima de Oliveira Sobre o autor

Resumo

Este artigo analisa “The glass abattoir”, um dos contos de Moral tales (COETZEE, no prelo b), entendido como uma sequência de A vida dos animais (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. Contos morais [título provisório]. São Paulo: Companhia das Letras, no prelo a.), ambos escritos por JM Coetzee. Buscaremos compreender o movimento do autor na direção da ética em favor do direito à vida dos animais, questionando os códigos morais que justificam o consumo de carne. Coetzee transita pelo discurso filosófico em ambas as obras, refutando a existência de uma superioridade humana sobre esses animais. Em ambos os textos, a personagem principal é Elizabeth Costello, considerada alter ego de Coetzee. No conto, ela assume o inconformismo do autor com relação à forma que nós, indivíduos onívoros, tratamos os animais que comemos e estabelecemos um “equilíbrio ecológico” ao decidir quais, como e quando morrem. Mostramos que, em “The glass abattoir”, a personagem rompe com os discursos e planeja tornar fisicamente visível o que ocorre dentro dos abatedouros.

Palavras-chave
Direitos dos animais; JM Coetzee; Literatura

Abstract

This article analyzes “The glass abattoir”, one of the tales of Moral tales (COETZEE, no prelo bCOETZEE, J. M. Moral tales [título provisório]. [S.l.]: [s.n.], no prelo b.), understood as a sequence of The lives of animals (COETZEE, 1999aCOETZEE, J. M. The lives of animals. Princeton: Princeton University Press, 1999a.), both written by JM Coetzee. We aim to understand the author’s movement towards ethics in favor of the animals’ right to life, questioning the moral codes that justify meat consumption. Coetzee moves through philosophical discourse in both works, refuting the existence of human superiority over these animals. Both texts’ main character, Elizabeth Costello, is considered Coetzee’s alter ego. In the short stories, she assumes the author’s nonconformity regarding the way that we, omnivorous individuals, treat the animals we eat and establish an “ecological balance” when deciding which, how and when they die. We intend to show that, in “The glass abattoir”, the character aims to break up with speeches, and plans to make physically visible what happens inside the slaughterhouses.

Keywords
Animal rights; JM Coetzee; Literature

1. Introdução

Desde seus primeiros romances, JM Coetzee1 1 Autor sul-africano que atualmente vive em Adelaide, Austrália. transitou entre filosofia, historicismo e política, utilizando intrincadas narrativas históricas e sociais como pano de fundo ou motivação para sua escrita. Em seu primeiro livro, Dusklands2 2 A obra foi traduzida para o português sob o título Terra das sombras (COETZEE, 1997b), pela editora Best Seller. (COETZEE, 1974COETZEE, J. M. Dusklands. Harmondsworth: Penguin Books, 1974.), retrata algumas das consequências da Guerra do Vietnã nos combatentes americanos e a caçada aos Bushmen na África do Sul colonial. Seu segundo livro, In the heart of the country3 3 A obra foi traduzida para o português sob o título No coração do país (COETZEE, 1997a). (COETZEE, 1977COETZEE, J. M. In the heart of the country. Londres: Penguin Books, 1977.), é indiretamente permeado pelo Apartheid e pelas condições de exclusão social vividas pelas mulheres brancas num país dominado pelo racismo, pela segregação e pelo medo da miscigenação. Waiting for the barbarians4 4 A obra foi traduzida para o português sob o título À espera dos bárbaros (COETZEE, 2006), pela editora Companhia das Letras. (COETZEE, 1999bCOETZEE, J. M. Waiting for the barbarians. Londres: Penguin Books, 1999b.), seu terceiro romance, aborda questões como tortura, discursos de poder e preconceito, enquanto o Magistrado se percebe velho e decadente. Em seu mais polêmico romance escrito após o Apartheid, Disgrace5 5 A obra foi traduzida para o português sob o título Desonra (COETZEE, 2000a), pela editora Companhia das Letras. (COETZEE, 2000bCOETZEE, J. M. Disgrace. Harmondsworth: Penquin Books, 2000b.), o protagonista David Lurie, professor universitário branco, tenta sobreviver em um mundo onde os códigos de conduta estão em transição e sua cor não mais lhe confere poder, enquanto sua boa aparência se esvai com a chegada da velhice. Nessa obra, Coetzee aborda temas delicados como estupro, miscigenação e a troca de poderes com suas consequências.

Para além dos textos permeados pela história, como apontaram Anton LeistLEIST, A.; SINGER, P. Coetzee and ethics: philosophical perspectives on literature. Nova Iorque: Columbia University Press, 2010. e Peter Singer na introdução “JM Coetzee and ethics: philosophical perspectives on literature” (2010), conflitos éticos também permeiam praticamente todas as narrativas do autor. O questionamento do que é moral e ético – ou a tentativa de ajudar o leitor a formular, desmascarar ou repensar comportamentos – é uma constante em sua obra. Em seus 25 livros publicados até o momento – ficcionais e não ficcionais –, Coetzee não facilita a vida de seus leitores, muitas vezes causando desconforto, inquietude e até rejeição de alguns deles, em parte em decorrência da exposição da hipocrisia que cerca certos hábitos e ações humanas.

O autor sul-africano cria situações conflituosas, quase sempre deixadas em aberto, colocando em debate – ou apenas sugerindo – as possíveis consequências e motivações (falsas ou verdadeiras) das ações das personagens. Seus romances e obras não ficcionais, muitas vezes, denunciam os princípios que regem os códigos e as práticas aceitas por grupos sociais – e também alguns de seus tabus – como atos hipócritas e/ou criminosos. Coetzee descortina a plasticidade dos códigos morais quando a preservação do grupo ou do poder estão sob ameaça. Nessas ocasiões, não raro o discurso difundido é apenas uma fachada para ações que, segundo o autor, são imorais, mas são aceitas com naturalidade por indivíduos ou grupos sociais. Assim, mesmo quando determinadas atitudes vão de encontro ao que é aceito moralmente, há discursos que promovem sua aceitação social como instrumento de proteção do status quo. É por conta desse mesmo mecanismo que, em Waiting for the barbarians (COETZEE, 1999bCOETZEE, J. M. Waiting for the barbarians. Londres: Penguin Books, 1999b.), os moradores de um vilarejo abrem mão de seu código moral e aceitam atos abomináveis contra os “bárbaros”. Com a justificativa do Estado de que poderia haver uma invasão, os “bárbaros” são torturados e mortos com conivência da população.

Um dos maiores desconfortos causados pelas narrativas coetzeeanas, no entanto, é não fornecer respostas para esses temas complexos e, em especial, causar inquietude ao explorar os recantos mais escuros da alma humana. Como afirma Attridge (2004), seguindo muitas vezes por caminhos que fogem ao tradicional, a prosa de Coetzee incomoda porque trata uma multiplicidade de temas sob pontos de vista desconcertantes, exigindo do leitor um pensamento livre de amarras e deixando de lado paradigmas cristalizados para se abrir ao novo, ao pensamento inusitado. É por isso que o crítico (ATTRIDGE, 2004ATTRIDGE, D. JM Coetzee and the ethics of reading: literature in the event. Londres: The University of Chicago Press, 2004.) vê Coetzee como um escritor que expõe questões de importância central nos debates atuais, tanto nos estudos literários quanto no campo da ética.

Em suas obras, Coetzee explora os conflitos morais a que somos expostos diariamente – pequenos e grandes –, reconhecendo a hipocrisia escondida em muitas de nossas atitudes, e consegue como resultado fazer seu leitor repensar seu lugar no mundo e nossas responsabilidades com os outros – humanos ou não. Em suas narrativas, as personagens são expostas a situações nas quais as relações interpessoais e entre seres não humanos ocupam espaço relevante e demandam ações e reflexões que colocam à prova ideias cristalizadas. Em Disgrace (COETZEE, 2000bCOETZEE, J. M. Disgrace. Harmondsworth: Penquin Books, 2000b.), por exemplo, as relações entre humanos e não humanos questionam nossa própria humanidade e o que consideramos barbárie. Embora Disgrace (COETZEE, 2000bCOETZEE, J. M. Disgrace. Harmondsworth: Penquin Books, 2000b.) não seja dotado de um discurso abertamente ecológico ou voltado ao direito dos animais, certamente as dinâmicas e soluções sociais e ecológicas apresentadas em uma suposta hegemonia do humano são incômodas – inclusive porque essa hegemonia é insuficientemente questionada por nossos códigos morais. Em “Voiceless6 6 Voiceless é também o nome de uma organização não governamental australiana que atua na defesa dos direitos dos “animais não humanos”. Essa instituição é patrocinada por Coetzee. , Carrol Clarkson (CLARKSON, 2009CLARKSON, C. Voiceless. In: CLARKSON, C. J. M. Coetzee: countervoices. Londres: Palgrave Macmillan UK, 2009. p. 106-132.) analisa Disgrace (COETZEE, 2000bCOETZEE, J. M. Disgrace. Harmondsworth: Penquin Books, 2000b.) e questiona as bases da relação entre humanos e não humanos a partir do fato de que estes não podem nos responder em uma linguagem compreensível e aceita em nossos termos linguísticos. Em termos morais, portanto, os “animais não humanos” não possuem voz. Clarkson (2009) questiona como nós, falantes inteligentes e racionais, podemos ser justos e éticos com esses seres cujas formas de expressão são incompreensíveis em termos humanos, interditando diálogos, debates e autodefesa. As implicações desses questionamentos ganham mais força em Elizabeth Costello (COETZEE, 2004COETZEE, J. M. Elizabeth Costello. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.) e “The glass abattoir” (COETZEE, no prelo b), em que a (falha) ética dessas relações é diretamente questionada.

Destacamos, no entanto, que analisar a obra de Coetzee somente pelo viés dos códigos morais dissecados seria inapropriado. Suas narrativas inovam também na forma, transitando entre autobiografia, ficção e história – mesmo quando se esperava dele algo mais convencional. Um exemplo disso são as duas palestras ministradas por Coetzee nas Tanner Lectures on Human Values, na Princeton University, em 1999. O autor deveria realizar duas preleções e surpreendeu sua plateia com narrativas ficcionais – mantendo borradas e incertas as já tênues linhas que caracterizam os gêneros narrativos. Intitulados “The philosophers and the animals”7 7 Em português, traduzido como “Os filósofos e os animais” (COETZEE, 2003). e “The poets and the animals”8 8 Em português, traduzido como “Os poetas e os animais” (COETZEE, 2003). , os textos das referidas palestras foram posteriormente publicados em A vida dos animais (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.) e, no ano seguinte, também como capítulos de Elizabeth Costello (COETZEE, 2004COETZEE, J. M. Elizabeth Costello. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.).

A protagonista desses textos é a personagem ficcional Elizabeth Costello9 9 Elizabeth Costello é personagem em quatro obras coetzeeanas: A vida dos animais (COETZEE, 2003), Elizabeth Costello (COETZEE, 2004), Slow man (COETZEE, 2005) e Siete cuentos morales (COETZEE, 2018). , também escritora reconhecida e, à época, quase septuagenária, que é convidada a ministrar duas palestras em uma prestigiosa universidade americana. Nessas apresentações, dialogando com a protagonista, contrapõem-se as vozes de seu filho, John, e sua nora, Norma. Criadas entre 1997 e 1998, essas personagens reaparecem em seu livro mais recente Moral tales10 10 Ao longo deste artigo, faremos referência apenas ao texto da versão em inglês, a partir da qual trabalhamos nossa análise. Há alguns anos, JM Coetzee vem firmando oposição contra a hegemonia e a ditadura das grandes editoras inglesas e americanas, bem como da língua inglesa. Por isso, o autor lançou seu último livro primeiramente em espanhol, na Argentina e na Espanha, com o título Siete cuentos morales (COETZEE, 2018). O autor nos cedeu generosamente a versão em inglês, ainda inédita, que só deverá ser publicada no ano de 2020. (no prelo b), uma coletânea com algumas narrativas já publicadas11 11 Alguns dos contos foram publicados também em revistas literárias como a New York Review of Books e a brasileira Olympio. e outras inéditas. Em Moral tales (COETZEE, no prelo b), Costello é personagem de cinco contos – “Vanity12 12 Em tradução livre para o português, “Vaidade”. , “As a woman grows older13 13 Em tradução livre para o português, “Enquanto uma mulher envelhece”. , “The old woman and the cats14 14 Em português, intitulado “A velha e os gatos”. , “Lies15 15 Em tradução livre para o português, “Mentiras”. e “The glass abattoir” – em um total de sete.

Segundo Clarkson (2009), a opção de Coetzee de apresentar um discurso literário em um evento cujo apelo seria muito mais filosófico revisita uma antiga controvérsia entre filósofos e poetas.

Ela afirma:

A decisão de Coetzee de apresentar um discurso fictício (mesmo antes de entendermos o que é essa ficção) nos leva ao menos a rever a controvérsia de longa data entre os filósofos e os poetas, e eu gostaria de sugerir que questões que dizem respeito à relação entre crítica e ficção, razão e efeito, filosofia e artes criativas nunca estão longe da superfície dos escritos de Coetzee16 16 No original: “Coetzee’s decision to present a fictional discourse (even before we understand what that fiction is about) at the very least prompts us to revisit the longstanding controversy between the philosophers and the poets, and I would go so far as to suggest that questions of the relation between criticism and fiction, reason and effect, philosophy and the creative arts, are never far from the surface of Coetzee’s writing” (CLARKSON, 2009, p. 109).

(CLARKSON, 2009CLARKSON, C. Voiceless. In: CLARKSON, C. J. M. Coetzee: countervoices. Londres: Palgrave Macmillan UK, 2009. p. 106-132., p. 109, minha tradução).

Em Elizabeth Costello (COETZEE, 2004COETZEE, J. M. Elizabeth Costello. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.) e “The glass abattoir” (COETZEE, no prelo b), Coetzee demonstra que, quando o tema é a relação entre a humanidade e os animais, a literatura se contrapõe ao pensamento filosófico, pois tem por base o logos – a razão – e a hegemonia dos humanos sobre os animais, ao passo que a primeira reflete sobre o sentir e os desejos humanos, tendo o poder de mobilizar o leitor. E é justamente esta a força da literatura: usar a estética para falar sobre ética, criando situações em que possamos repensar condutas e códigos. Somente a literatura, portanto, tem o poder de desnaturalizar um comportamento tão comum entre os humanos como o consumo da carne de outros seres vivos criados e mortos brutalmente para compor nossas mesas.

Tendo em mente as questões anteriormente apresentadas, no presente artigo pretendemos nos ater ao conto “The glass abattoir” (COETZEE, no prelo b), escolhido pelo autor para ser lido17 17 Há diversos vídeos dessas leituras disponíveis na internet. em todos os eventos de que participou desde o lançamento de Siete cuentos morales (COETZEE, 2018COETZEE, J. M. Siete cuentos morales. Barcelona/Buenos Aires: Penguim Random House, 2018.), em 2018, e a como esse texto pode ser entendido como uma sequência lógica da obra A vida dos animais (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.), num momento em que Elizabeth Costello se dá conta da ineficiência das palavras e decide passar para a ação.

2. As distinções entre humanos e não humanos e as diferenças entre ética e moral

Em A vida dos animais (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.) e “The glass abattoir” (COETZEE, no prelo b), Coetzee nos coloca frente a frente com problemas reais para os quais não temos ainda respostas satisfatórias e nos leva a questionar especificamente qual é nossa responsabilidade com os outros, entendidos como os diferentes de nós (ATTRIDGE, 2004ATTRIDGE, D. JM Coetzee and the ethics of reading: literature in the event. Londres: The University of Chicago Press, 2004.). Quando Attridge publicou JM Coetzee and the ethics of reading18 18 Em tradução livre para o português, “JM Coetzee e a ética da leitura”. (2004), Coetzee ainda não havia publicado Siete cuentos morales (COETZEE, 2018COETZEE, J. M. Siete cuentos morales. Barcelona/Buenos Aires: Penguim Random House, 2018.), no entanto, ele já publicara A vida dos animais (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.) e Elizabeth Costello (COETZEE, 2004COETZEE, J. M. Elizabeth Costello. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.), nos quais essa alteridade já é explicitada, englobando não somente o humano, mas também a maneira como vemos e tratamos os animais, ou, como prefere o filósofo Peter Singer (2002), as “pessoas não humanas”.

Para Singer (2002), há dois tipos conceituais de “pessoa” em uso na atualidade, o “ser humano” cuja característica primordial é unicamente “ser membro da espécie Homo sapiens”, e um segundo, proposto por John Locke, que englobaria “indicadores de humanidade”, entre eles ter “consciência de si, autocontrole, senso de futuro e passado, capacidade de relacionar-se com os outros, preocupação com os outros, comunicação e curiosidade” (SINGER, 2002SINGER, P. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002., p. 96). Singer, no entanto, afirma que esses conceitos não se equiparam, pois há pessoas pertencentes à espécie Homo sapiens que não possuem tais indicadores de humanidade, como os bebês humanos e sujeitos com deficiências mentais graves, acéfalos etc., e então propõe distinguirmos entre seres “pertencentes à espécie Homo sapiens” e “pessoas”. O primeiro englobaria seres da espécie humana incapazes de apresentar indicadores de humanidade e o segundo, as “pessoas” e “animais não humanos” que apresentassem, em especial, racionalidade e autoconsciência (SINGER, 2002SINGER, P. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.). Partindo dessas premissas, Singer faz sua polêmica proposta de que “alguns animais não humanos são pessoas” (SINGER, 2002SINGER, P. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002., p. 126), pois “são seres racionais e autoconscientes, dotados de consciência de si enquanto entidades distintas que têm um passado e um futuro” (SINGER, 2002SINGER, P. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002., p. 120). Segundo esse filósofo, a gorila Koko19 19 Koko foi uma gorila criada em cativeiro pela Dra. Penny Patterson entre 1971 e 2018, quando a gorila veio a falecer. A Dra. Patterson afirmava que Koko era capaz de usar a língua de sinais americana, tendo aprendido cerca de 1.100 palavras. Há muitas controvérsias sobre as afirmações da Dra. Patterson em decorrência da ausência de outras pesquisas com Koko. , por exemplo, não é da espécie Homo sapiens, mas é capaz de se relacionar com outros e mostrar amor e preocupação por eles. No segundo sentido da expressão “ser humano”, Koko seria mais humana do que Valentina, uma menina nascida acéfala (SINGER, 2002SINGER, P. Ética prática. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.).

Apesar da distinção entre os “animais não humanos”, “pessoas”, “pessoas não humanas” e “seres pertencentes à espécie humana” proposta por Singer (2002), ele não compactua com as opiniões emitidas por Costello em suas palestras sobre a igualdade de direitos entre homens e animais, afirmando que “o valor que se perde quando alguma coisa é esvaziada depende do que ali existia quando estava cheia, e a existência humana é mais rica do que a de um morcego, por exemplo” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 108). Singer defende, portanto, que o pertencimento a uma ou outra espécie pode implicar diferenças morais importantes, mesmo afirmando que “dor é dor, independentemente da espécie que a está sentindo” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 104).

Uma vez que essas distinções são pertinentes à esfera da ética e da moral, faz-se necessário delimitar aqui, também, as diferenças entre ambas no âmbito da filosofia. Para essa ciência, a ética está associada aos princípios, códigos e valores morais que orientam o comportamento humano em sociedade, enquanto a moral são os costumes, regras, tabus e convenções estabelecidas por cada sociedade. Ética e moral diferem também na origem etimológica: “ética” vem do grego “ethos”, que significa “modo de ser” ou “caráter”; enquanto “moral” vem do latim “morales”, que significa “relativo aos costumes”. Assim, ética pode ser compreendida como uma reflexão sobre a moral, ou seja, é a área do conhecimento que analisa e estuda os elementos e os princípios que regem os códigos morais dentro do convívio em sociedade, tentando fundamentar, de forma racional e teórica, as regras morais de uma determinada sociedade ou época.

Na prática, no entanto, não é fácil distinguir uma da outra, pois têm finalidades semelhantes. Ambas visam guiar a conduta do homem, seu caráter e suas virtudes, tornando-se a base para determinar o que é certo ou errado, bom ou mau, moral ou imoral. Um comportamento antiético, por princípio, rompe com os costumes e códigos aceitos em determinado grupo social. Determinar qual comportamento é moral ou ético está intrinsecamente ligado ao que uma determinada sociedade considera aceitável. O que é imoral para algumas sociedades poderá não o ser para outra. Nas sociedades ocidentais, matar humanos é considerado um comportamento imoral e um crime. Esses mesmos códigos morais e nossa ética são permissivos quanto a matar animais criados para consumo, ainda que isso seja feito às escondidas, sem tornar essas mortes visíveis.

3. Elizabeth Costello

Em ambas as palestras20 20 As duas palestras intituladas “Os filósofos e os animais” e “Os poetas e os animais” foram publicadas primeiramente na obra A vida dos animais (COETZEE, 2003) e, posteriormente, como capítulos no livro Elizabeth Costello (COETZEE, 2004). Em A vida dos animais, há uma parte adicional contendo textos que discutem ambas as palestras, escritos, respectivamente, pela crítica literária Marjorie Garber, pelo filósofo Peter Singer, pela professora de religião Wendy Doniger e pela primatologista Barbara Smuts. de A vida dos animais (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.), a personagem principal é Elizabeth Costello, que se tornou uma celebridade literária desde o lançamento de seu quarto romance, The house on Eccles Street – uma reescritura de Ulisses (JOYCE, 1922JOYCE, J. Ulisses. [S.l.]: [s.n.], 1922.), de Joyce, recontada sob a perspectiva de Molly Bloom, companheira do protagonista. Como autora premiada, na obra homônima (COETZEE, 2004COETZEE, J. M. Elizabeth Costello. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.) Costello é convidada a proferir palestras em vários locais do mundo e aproveita essas oportunidades para questionar certezas e abordar questões variadas como religião, a veneração por Jesus em agonia, os gregos e o conceito de beleza (discutidos com sua irmã, Blanche), a escrita ficcional “realista”, o mal que habita os homens e o perigo de narrá-lo, os direitos dos animais à vida e à compaixão, dentre outros. Sem medo de transitar pelos gêneros narrativos, Coetzee constrói uma personagem que produz textos variados, englobando desde memórias da juventude até discussões sobre o fazer literário e as obrigações impostas pelo mercado aos autores-estrela.

A personagem de Costello é construída como uma mulher contraditória, pois todas as suas falas se transformam e se multiplicam em outros pensamentos e vozes. Como intelectual, ela questiona a si mesma, não aceitando pensamentos cristalizados nem mesmo quando é solicitada a proferir crenças: “Sou escritora. (...) Minha profissão não é acreditar, é só escrever” (COETZEE, 2004COETZEE, J. M. Elizabeth Costello. São Paulo: Companhia das Letras, 2004., p. 215). Também de maneira contraditória, é uma escritora que acredita que alguns temas relativos aos traços sombrios da alma humana devem ficar fora da literatura, mas compreende a necessidade de se preservar as memórias para que atrocidades outrora cometidas não se repitam jamais. Ainda, a personagem se percebe a caminho do envelhecimento, mas nem por isso se torna menos audaciosa em seus pensamentos e conjecturas. As contradições são muitas e profundas.

Alguns anos se passaram para a personagem Costello entre Elizabeth Costello (COETZEE, 2004COETZEE, J. M. Elizabeth Costello. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.) e “The glass abattoir” (COETZEE, no prelo b). Da mulher sexagenária, porém energética, pouco restou. A Costello de “The glass abattoir” é uma mulher alquebrada, uma velha-velha21 21 A gerontologia atual divide os idosos entre jovens-velhos (idosos cujas mentes e corpos ainda conseguem manter independência) e velhos-velhos (aqueles cujas mentes e corpos necessitam de amparo e ajuda, perdendo independência e razão). – terminologia da gerontologia contemporânea, conforme Barnes (2011)BARNES, S. F. Fourth age: the final years of adulthood. California Booming, 2011. Disponivel em: <http://calbooming.sdsu.edu/documents/TheFourthAge.pdf>. Acesso em: junho 2020.
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–, cujas lembranças e memórias estão esmaecendo. Ela tem ataques de pânico ao imaginar que pode amanhecer morta e seus escritos podem ser jogados fora, mas encara a possibilidade concreta da morte e tem consciência de estar deixando de ser ela mesma. A personagem envelhece ao mesmo tempo em que seu criador, JM Coetzee, que completou oitenta anos em 2020.

Em 2017, em uma palestra proferida no Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires22 22 O vídeo dessa leitura está disponível em: https://www.malba.org.ar/evento/lectura-el-matadero-de-cristal. , na Argentina, Coetzee afirmou que a Elizabeth Costello de “The glass abattoir” (COETZEE, no prelo b) passa simultaneamente por uma crise moral, por conhecer o mundo onde vive e as coisas que aqui acontecem; e uma crise psicológica, em que se questiona se está certa por pensar como pensa ou se vive em um permanente estado de delírio, vendo coisas que outros não veem. Enquanto mulher combativa, ela deseja, ainda segundo Coetzee, que suas ideias não sejam apagadas após sua morte. Por ela ser vegetariana e defensora dos direitos dos animais, acreditamos que Costello atua como alter ego de Coetzee (também vegetariano). Como o autor, a personagem usa sua voz em favor dos direitos dos animais, contra a criação de animais para a morte e, em especial, contra o que ocorre nos abatedouros – o que ambos consideram uma crueldade. Ela deseja dar voz, portanto, aos que não podem se defender por não falarem a linguagem dos humanos.

Em ambos os capítulos de A vida dos animais (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.), Elizabeth Costello tem por contraponto seu filho John, professor de física e astronomia no Appleton College, e sua nora Norma, PhD em filosofia. John respeita a mãe – até mesmo a admira –, mas sofre constantes constrangimentos por suas posições radicais, em especial a postura contra o hábito de comer carne, considerada por ele extremista. Norma, sua nora, se opõe a ela mais diretamente, pois vê a sogra como egocêntrica, muitas vezes irascível – alguém com quem preferiria não ter que lidar. A filósofa Norma vê a sogra como a encarnação da radicalização do hábito alimentar que extrapola e torna penoso o convívio social.

Segundo o próprio Coetzee, em entrevista para sua editora na Espanha, Soledad Constantini (IN CONVERSATION, 2019IN CONVERSATION. Produção: Entrevistadora: Soledad Constantini. Entrevistado: JM Coetzee. [S.l.]: [s.n.]. 29 maio 2019. 1 vídeo. Disponível em: https://youtu.be/4VNk52t-YPM. Acesso em: 15 nov 2019.
https://youtu.be/4VNk52t-YPM...
), Costello é arrogante, intratável e obstinada – uma pessoa de difícil convivência, pois não abre mão de suas convicções –, o que de certa forma valida as impressões de Norma, que se contrapõe a Costello sempre que esta coloca argumentos humanitários ao discutir a relação entre humanos e animais, para Norma facilmente objetáveis pelo uso da razão (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.). O filósofo Peter Singer, convidado a elaborar uma réplica às palestras, em especial a “Os filósofos e os animais”, afirma que não se pode culpar Coetzee pelo que dizem seus personagens (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.). Elizabeth Costello, portanto, seria uma estratégia ficcional que o distancia das opiniões emitidas, e Norma teria a função de lançar todas as objeções óbvias e necessárias ao raciocínio de Costello. Ironicamente, em sua resposta, o filósofo Singer faz uso de estratégias literárias, refutando Coetzee em sua própria esfera e mostrando que pode haver “literatura” na defesa de pressupostos filosóficos.

Na palestra “Os filósofos e os animais” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.), a protagonista questiona por que não sentimos ultraje com a morte de bilhões de animais, retomando várias analogias usadas para narrar os horrores do holocausto judeu, como “marcharam como carneiros para o matadouro” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 25), “mortos por açougueiros nazistas” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 25), “morreram como animais” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 25) etc. Ao afirmar que o crime do Terceiro Reich foi tratar homens como animais – não humanos –, Costello nos remete a questões de poder. Só foi possível que os alemães matassem os judeus porque os alemães mantinham o poder. Só podemos matar os animais porque temos o controle do que ela denomina “indústrias da morte” – um empreendimento interminável, que se autorreproduz com a criação e o abate de animais. A banalização da morte industrializada se distingue, então, daquela praticada em situações extremas, em que visamos à sobrevivência.

O diálogo que Costello mantém com sua nora, filósofa, e o filho, cientista, reproduz as contraposições entre filosofia (logos) e ciência (considerada aqui pelo viés da mecanização da morte) que Coetzee demonstra em toda a narrativa. Nesses diálogos, Costello percebe e explicita como os discursos e a arte – em especial a literatura – sofrem com o esvaziamento do sentido das palavras e perdem o poder de transformar a sociedade. Clarkson (2009) aponta que Coetzee dá aos pensamentos filosóficos levantados por Costello um tratamento literário, pois eles demandam uma receptividade diferenciada, para além do pensamento racional proposto pela filosofia.

Apesar de afirmar no início de sua palestra que não deseja tratar do assunto por meio da racionalização da filosofia, Costello faz uso desta para demonstrar quão ineficiente e perigoso é o pensamento filosófico quando se trata dos direitos dos animais e, o pior, o quanto este pensamento ignora a dimensão do não humano, seja ele um animal ou outro ser vivo. Costello discorda de todos os filósofos que pregam o predomínio da razão, pois, para ela, esta é tão somente uma das tendências do pensamento humano. Diz ela que Tomás de Aquino afirmava que “posto que o homem é feito à imagem de Deus, e participa da essência de Deus, o modo como tratamos os animais não tem nenhuma importância salvo na medida em que ser cruel com os animais pode nos acostumar a ser cruel com os homens” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 28). Para ela, também Platão e Descartes – cada um à sua maneira – defenderam a supremacia do homem e da razão: para eles, assim como para Aquino, o universo é construído sobre a razão e, portanto, Deus é razão, e sendo o homem um ser racional, é o único que está próximo de Deus (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.). Costello se sente traída até mesmo por Kant, para quem “razão pode não ser o ser do universo, mas apenas o ser do cérebro humano” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 29), deixando de lado o comportamento dos “animais não humanos”. Usando a voz de Costello, Coetzee mostra as consequências de uma ética fundamentada em um discurso filosófico cujas bases são a racionalização e a naturalização da hierarquia entre humanos e “animais não humanos” e também demonstra como o texto literário pode enfatizar o sofrimento dos “animais não humanos” ou, como colocou Clarkson (2009, p. 119, minha tradução), ao analisar o personagem David Lurie de Disgrace (COETZEE, 2000bCOETZEE, J. M. Disgrace. Harmondsworth: Penquin Books, 2000b.), o autor explicitou como a literatura “tenta dar sentido ao luto pelas mortes de criaturas que são alheias ao conceito de luto”23 23 No original: “tries to make sense of (...) mourning the deaths of creatures who themselves are oblivious to the concept of mourning” (CLARKSON, 2009, p. 119). .

Em “The glass abattoir” (COETZEE, no prelo b), Costello retoma uma personagem de KafkaKAFKA, F. A report to an academy. Der Jude, Berlin, n. 2, 1917. no texto “A report to an academy” (1917), o macaco Pedro Rubro, para, de certa forma, ridicularizar a razão. Ela questiona, igualmente, a maneira como cientistas mensuram a capacidade de raciocinar dos animais, relatando para a plateia as experiências feitas com o macaco Sultão pelo psicólogo Wolfgang Köhler, cujas pesquisas foram publicadas sob o título The mentality of apes24 24 Em tradução livre para o português, “A mentalidade dos macacos”. (KÖHLER, 1925KÖHLER, W. The mentality of apes. Oxford: Harcour, 1925.). Para ela, a capacidade dos animais foi mensurada por terem ou não pensamentos simples, instrumentais ou práticos sem que outras possibilidades de percepção dos animais tenham sido sequer consideradas.

De fato, o pensamento filosófico tem raízes na valorização da razão e do pensamento humano, deixando de lado não só aqueles seres vivos que pertencem a outras espécies que não a nossa, mas também outros humanos julgados inferiores por um grupo rival. A hierarquização entre diferentes não é assunto novo para a humanidade. AristótelesARISTÓTELES. Política. 3. ed. Brasília: UnB, 1997. já justificava o uso de escravos (1997) e, mais recentemente, assistimos ao extermínio de judeus, armênios e ruandeses – para citar apenas alguns povos – em nome de uma superioridade racial ou étnica. Todos esses eventos foram criticados e geraram filmes e documentários nos quais a condenação a tais atos está evidenciada. Na esfera da moral, ainda se discute o aborto e a eutanásia – ou seja, a proibição da morte tanto para quem a deseja como para quem ainda nem nasceu. Criar outros seres vivos para a morte ainda não nos espanta na mesma medida, por isso nossa relação com os animais não é tão controversa.

Costello também perpassa esse tema em sua segunda palestra, “Os poetas e os animais” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.), afirmando que o ser humano, por julgar conhecer o que ela chama de “dança das espécies” – ou o ecossistema –, comporta-se como gerente das vidas não humanas do planeta, decidindo qual animal deve morrer, como e quando. Dessa forma, controlamos as espécies por meio da morte, mesmo que consideremos errado matar humanos. Ela faz referência a SwiftSWIFT, J. A modest proposal: for preventing the children of poor people from being a burden to their parents or country, anf for making them beneficial to the publick. [S.l.]: [s.n.], 2008. E-book. Disponível em: http://www.gutenberg.org/files/1080/1080-h/1080-h.htm. Acesso em: 15 nov. 2019.
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e sua obra, A modest proposal25 25 Texto satírico publicado originalmente em 1729. Em tradução livre para o português, “Uma proposta modesta”. (2008), na qual o escritor sugere que os irlandeses poderiam ganhar a vida criando bebês irlandeses para serem servidos nas mesas de seus mestres, os ingleses. Apesar de a crítica tender a crer que Swift não quis dizer o que disse, Costello afirma que “os ingleses, em certo sentido, já estão matando bebês humanos, deixando-os morrer de fome” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 67), certamente se referindo ao que ocorreu no período da Grande Fome no século XIX. Costello continua: “se é atroz matar e comer bebês humanos, por que não é atroz matar e comer leitões?” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 67). Costello, porém, não desperta a simpatia de sua plateia – um sintoma da pouca importância dada às palavras quando o tema é a preservação da vida dos animais. Seu discurso é considerado utópico e radical, desconectado da realidade. Outro sintoma ainda mais grave dessa desvalorização das palavras e do discurso de preservação da vida dos animais é apresentado nos trechos de manuscritos e artigos abandonados por Costello e que a personagem envia a seu filho em “The glass abattoir” (COETZEE, no prelo b). Entre outros temas, Costello explicita como os grupos de proteção aos animais são ridicularizados pelos funcionários de abatedouros que os consideram não como pessoas boas e éticas, mas como fracas e impressionáveis. Os discursos de defesa do direito à vida dos animais – tentando dar visibilidade e voz a eles – são tão desvalorizados que quem fala sobre o assunto chega a ser ridicularizado.

A maneira como lidamos com os animais, segundo Costello (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.), tange o pensamento ético – entendido aqui como o pensamento que analisa e gera ideias visando à melhor vivência e convivência nas sociedades – e os preceitos morais que o regem – aqui compreendidos como o conjunto de regras, tabus, convenções e costumes que regem as sociedades. Em “Os poetas e os animais” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.), ela trabalha, entre outras coisas, o conceito de animal como ele aparece em poemas de Rilke26 26 Elizabeth Costello se refere ao poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926) e a um de seus mais célebres poemas, “A pantera”. e o que ela chama de primitivismo em Hughes27 27 Elizabeth Costello se refere ao poeta Ted Hughes (1930-1998) e aos poemas “O jaguar” e “Um segundo olhar para o jaguar”. . Nesse ponto, uma voz da plateia relembra que Hughes possuía uma fazenda de carneiros – e, portanto, criava animais para o abate –, não sendo um bom exemplo a favor da preservação da vida dos animais. Costello, porém, não confunde a obra com o autor, afirmando que os escritores nos ensinam muito mais do que sabem e que Hughes mostrou em seus poemas que é possível para o humano alcançar a dimensão divina do animal pelo método da invenção poética – pois, por meio dela, o autor acessou a ideia de jaguar, ou salmão, ou outro “animal não humano” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.). Costello defende que nosso olhar está focado na criatura em si e nossa mente crítica, no sistema de interações de que ela é a encarnação terrena e material, enquanto o poeta acessa uma ideia platônica – o olhar perpassa o animal e alcança uma dimensão superior, a ideia perfeita do animal.

A capacidade de perceber o mundo como os animais nos permitiria, então, compreender suas naturezas e, por meio disso, suas dores (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.) –, pois nenhum animal morre sem sofrer, mesmo nos abatedouros considerados “humanizados”. Por detrás desse discurso de Costello, entendemos que se encontra a capacidade de sentir “o outro” – mesmo que esse outro seja um ser diferente de nós, pessoas humanas, com reações e modos de “pensar” que fogem à nossa compreensão. Ao nos permitirmos ampliar nossa percepção – estética e humana –, nos aproximaríamos do sentido do mote utilizado pela organização não governamental patrocinada por Coetzee, Voiceless, em uma exibição de arte realizada em 22 de fevereiro de 2017 na Sherman Gallery, em Sidney: “I feel therefore I am28 28 Em tradução livre para o português, “Eu sinto, portanto, eu sou”. .

Após a segunda palestra, John, cético quanto aos resultados obtidos pelos discursos e aulas da mãe, questiona:

– Você acredita mesmo, mãe, que aulas de poesia podem fechar matadouros?

– Não.

– Então para que fazer isso? Você disse que está cansada de discursos inteligentes sobre animais, que provam com silogismos que eles têm ou não têm almas. Mas será que a poesia não é só um outro tipo de discurso inteligente: admirar em versos os músculos dos grandes gatos? O que você disse sobre discurso não é que ele não muda nada? Me parece que o nível de comportamento que você quer mudar é básico demais, fundamental demais para ser modificado pelo discurso

(COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 69).

Atacando a ideia difundida por Costello sobre a imoralidade presente no consumo da carne de “animais não humanos”, John argumenta com o pensamento racional de que comer carne é uma escolha dos seres humanos – e que não respeitamos os não humanos justamente porque eles não se defendem e não reagem à perspectiva da morte. “É disso que quer curar a humanidade?”, pergunta ele (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 71). “John, eu não sei o que quero fazer. Eu só não quero ficar sentada, calada”, rebate Costello (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 71). Esse diálogo é significativo para pensarmos as questões morais – e, portanto, éticas – envolvendo o discurso de Costello. John entende que, sendo este um código de conduta aceito pela maioria dos humanos, o consumo de carne de “animais não humanos” não poderia ser considerado imoral (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.). Para ter sucesso em sua luta, então, Costello deveria alcançar uma mudança nos costumes e preceitos do comportamento humano na relação entre homens e animais. Somente uma mudança nos códigos de conduta da sociedade tornaria errado e não aceito algo que a escritora já considera um crime de proporções inimagináveis: a morte em larga escala de “animais não humanos” e a exposição das provas nas prateleiras dos supermercados.

Ao final do capítulo “Os poetas e os animais” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.), no caminho para o aeroporto, Costello tenta explicar a John seus sentimentos relativos ao consumo de “animais não humanos”, frente aos

(...) cadáveres. Fragmentos de corpos que compraram com dinheiro.

É como se fosse visitar amigos, fizesse algum comentário gentil sobre um abajur da sala e eles respondessem:

“Bonito, não é? Feito de pele judaico-polonesa, é o que há de melhor, pele de jovens virgens judaico-polonesas.”

(...) olho nos seus olhos, nos olhos de Norma, das crianças, e só vejo generosidade e bondade humana. Calma, digo a mim mesma, você está fazendo tempestade em copo d’água. Assim é a vida. Todo mundo se acostuma com isso, por que você não? Por que você não?

(COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 83 – grifo do autor).

É essa personagem cansada e tendo sua sensibilidade constantemente agredida pela naturalização da morte que reaparece em Moral tales (COETZEE, no prelo b). Costello encarna alguém que não consegue simplesmente seguir com a própria vida e decide reagir ao cansaço das palavras com ações. Ela é também uma mulher solitária, já no fim da vida – alguém que aprendeu a duras penas que as palavras não mudam as pessoas, que a literatura não nos torna, necessariamente, melhores. Em todos os contos em que surge na obra em questão (COETZEE, no prelo b), Costello é uma personagem agônica e rebelde, incapaz de conviver com a certeza do ciclo de vida e morte de outros “seres vivos não humanos” que acontece em processos cada vez mais impessoais e industrializados. Não podemos, no entanto, cair no equívoco de pensar que a compaixão e a empatia de Elizabeth Costello são tão somente direcionadas para os animais dentro de um processo de industrialização da morte, pois criar animais para a morte e consumir essa carne são comportamentos que ferem seus sentimentos, não importando o método do abate.

Em Elizabeth Costello (COETZEE, 2004COETZEE, J. M. Elizabeth Costello. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.) e em Moral tales (COETZEE, no prelo b), Costello é retratada por seu filho como alguém envelhecida e cansada, e ela própria se diz velha. Já em A vida dos animais (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.), ela afirmava “Não tenho mais tempo para dizer o que não quero dizer” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 23). Ao se dirigir à plateia, pede que levem suas palavras pelo que são, sem ironias. Diz ela:

Ao falar-lhes sobre a questão dos animais, vou poupá-los da fiada de horrores que vem a ser a vida e a morte deles. Embora nada me leve a crer que vocês tenham plena consciência do que está sendo feito com os animais neste exato momento nas instalações produtivas (...), nos abatedouros, nos barcos pesqueiros, nos laboratórios, no mundo todo, vou admitir que vocês me atribuem a capacidade retórica de evocar esses horrores para apresentá-los aqui com a devida força, sem no entanto prosseguir por esse rumo por ora, lembrando apenas que os horrores que neste momento omito constituem todavia o centro desta palestra

(COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 24).

Até o momento em que proferiu essas palestras, Costello acreditava na capacidade das palavras de mover as pessoas em direção a um mundo mais justo para com todos os seres vivos – humanos e não humanos. Seu argumento para justificar maior compaixão com os animais e seus modos diferentes de ser é de que a natureza da razão humana ou do raciocínio é resultado da estrutura da mente humana – e que os animais têm seu próprio raciocínio, de acordo com as estruturas de suas mentes, mesmo que essas sejam incompreensíveis aos humanos. Norma ridiculariza esse conceito, dizendo tratar-se de um relativismo fácil, que leva à paralisia intelectual (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 56-57). Norma ainda argumenta que anos de estudos e pesquisas não nos levaram a crer que os animais sejam capazes de pensamentos complexos, como prever ou sofrer com a ideia da morte. Esse embate entre a ciência, a filosofia e as artes, também assumido por Peter Singer em sua réplica a Coetzee, aprofunda o debate entre o certo e o errado, o moral e o imoral na relação dos homens com os outros animais.

Apesar disso – e acreditamos ser esse o ponto principal de Coetzee –, tanto em A vida dos animais (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.) quanto em “The glass abattoir” (COETZEE, no prelo b), a questão colocada não é – especialmente – uma comparação entre homem e animal num sentido antropológico, e sim o respeito à diferença, ao “ser não humano” que pode não prever sua morte e sofrer por isso, mas é levado a viver em confinamento, sendo alimentado para a morte – mesmo que uma morte “humanizada”. Costello representa a agonia de alguém inteligente vivendo em permanente dilema numa sociedade cujos hábitos alimentares a insultam.

Em mais uma das contradições presentes em sua obra, Coetzee faz uso da literatura e da criação de imagens com palavras para lançar “The glass abattoir” (COETZEE, no prelo b), que pode ser lido pelo viés do cansaço das palavras, da desilusão do poder da literatura de mudar as pessoas, a versão final do que Costello evitou em seu discurso no Appleton College (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.). Nesse conto mais recente, uma Costello doente, cuja mente começa a falhar, decide agir de maneira mais efetiva. Segundo a personagem:

– Quanto você acha, John, que custaria construir um abatedouro? Não um grande, apenas um modelo, uma demonstração.

– Uma demonstração de quê?

– Uma demonstração do que acontece em um abatedouro. Abate. Me ocorreu que as pessoas toleram o abate de animais somente porque não sabem nada relacionado a isso. Ver, ouvir, cheirar. Me ocorreu que se houvesse um abatedouro operando no meio da cidade, onde todos pudessem ver, cheirar e ouvir o que acontece lá dentro, as pessoas poderiam mudar seus modos.29 29 No original: “– How much do you think it would cost, John, to build an abattoir? Not a big one, just a model, as a demonstration. – A demonstration of what? – A demonstration of what goes on in the abattoir. Slaughter. It occurred to me that people tolerate the slaughter of animals only because they get to see none of it. Get to see, get to hear, get to smell. It occurred to me that if there were an abattoir operating in the middle of the city, where everyone could see and smell and hear what goes inside it, people might change their ways” (COETZEE, no prelo b).

(COETZEE, no prelo b, minha tradução)30 30 O acesso que nos foi concedido pelo autor envolveu apenas a versão eletrônica do texto, ainda sem paginação. .

É por meio do discurso literário que Costello faz seu leitor saber que os abatedouros são locais escondidos por uma razão: esconder das pessoas o processo da morte e seus horrores. Ela imagina que, se as pessoas que comem carne pudessem testemunhar a morte dos animais, ouvir seus gritos e sentir o cheiro de sangue, desistiriam de fazê-lo. É um erro pensarmos, no entanto, que essa ideia surgiu com Coetzee, uma vez que em outras manifestações artísticas a forte imagem do abatedouro de vidro já havia sido utilizada. Em 2009, Paul McCartney participou de um documentário da instituição People for the Ethical Treatment of Animals (Peta) intitulado “Glass walls31 31 Em tradução livre para o português, “Paredes de vidro”. (GLASS WALLS, 2012GLASS WALLS. Produção: People for the Ethical Treatment of Animals. Intérpretes: Paul McCartney. [S.l.]: [s.n.]. 2012. 1 vídeo. Disponível em: https://youtu.be/ql8xkSYvwJs. Acesso em: 15 nov 2019.
https://youtu.be/ql8xkSYvwJs...
) para motivar as pessoas a serem vegetarianas. Veganos e vegetarianos estão familiarizados com a imagem do abatedouro de vidro como uma das maneiras de conscientizar a população sobre o sofrimento dos animais no mundo atual, com a industrialização da morte das espécies que mais agradam o paladar da sociedade. Coetzee usa sua voz e suas habilidades literárias para difundir ao mundo, como o fez Paul McCartney, a imagem de um local onde a morte seria vista, ouvida e cheirada por todos, na tentativa de usar o literário para alcançar o humano em nós.

O abatedouro de vidro que Costello deseja construir é um sonho de organizações não governamentais protetoras dos animais. Infelizmente, no entanto, os governos tendem a resistir a ideias como essa – e John, filho de Costello, expõe à mãe essa impossibilidade (COETZEE, no prelo b). Alguns dias após conhecer esse projeto de sua mãe para a construção do abatedouro, John recebe um pacote com escritos dela. Entre eles, está um diário pessoal no qual ela narra uma visita a Djibouti, na China. Lá, os animais são mortos numa área atrás do mercado central. Nesse lugar, as pedras são vermelho-escuras, quase pretas, resultado do sangue que corre ali. Costello vê um jovem carregando um pequeno bode, mas ela não os segue, pois sabe o que acontecerá.

Ela descreve em detalhes no diário o que ocorrerá com o animal:

Eu não os segui. Eu sei o que acontece lá. (...) o jovem pega a faca (...) e sem preâmbulo corta a garganta da cabra, depois observa enquanto o corpo convulsiona e o sangue da vida se esvai.

Quando o bode finalmente para, ele corta a cabeça, corta o abdome, puxa os órgãos internos para a bacia de estanho (...), passa um fio pelos jarretes, (...) e tira a pele. Então ele o cortará ao meio, longitudinalmente, (...) para o mercado, onde em um bom dia esses restos físicos trarão novecentos francos de Djibuti ou cinco dólares americanos.

(...) o corpo será cortado em pedaços pequenos e assado (...) o que não for considerado comestível (...) será jogado para os cães. E esse é o fim. (...) será como se ele nunca tivesse existido. Ninguém vai se lembrar dele a não ser eu – uma estranha que por acaso o viu32 32 No original: “I do not follow them. I know what happens there. (...) The young man will take the knife (...) and without preamble slit the goat’s throat, then watch while the body convulses and the life-blood pumps out. When the goat is finally still he will chop off his head, slit his abdomen, pull out his inner organs into the tin basin (...), run a wire through his hocks, (...) and peel off his skin. Then he will cut him in half, lengthwise, (...) to the market, where on a good day these physical remains will fetch nine hundred Djiboutian francs or five US dollars. (...) the body will be cut into small pieces and roasted (...) What is not found to be edible (...) will be thrown to the dogs. And that’s the end. (...) it will be as if he had never existed. No one will remember him save myself – a stranger who happened to see him”.

(COETZEE, no prelo b, minha tradução)33 33 O acesso que nos foi concedido pelo autor envolveu apenas a versão eletrônica do texto, ainda sem paginação. .

É importante notar que, no trecho apresentado, em nenhum momento Costello se refere ao bode como “it”, usado para animais e coisas em inglês, mas sim como “he”, pronome usado somente para humanos ou animais de estimação, conferindo ao bode um status de humanidade e afetividade. Costello mantém uma conversa imaginária com o bode, desejando saber o que ele e seus irmãos pensam do acordo feito com os homens por seus antepassados. Eles seriam protegidos de seus inimigos naturais e, em troca, quando chegasse a hora, seriam devorados pelos humanos. Além disso, suas proles, até a milionésima geração e além, compartilhariam o mesmo destino. Ela elabora possibilidades sobre quais seriam os pensamentos do bode e se eles seriam compreensíveis aos humanos. Ela pensa “Se eu fosse uma cabra, eu preferiria me arriscar com os leões e os chacais”34 34 No original: “If I were a goat, I would prefer to take my chance with the lions and the jackals”. .

Costello ainda argumenta que o civilizado mundo ocidental – ela usa o termo “enlightened”35 35 O termo “enlightened” remete a algo originado no pensamento filosófico cartesiano e significa “iluminação”, “erudição”, “inteligência”. (COETZEE, no prelo b), utilizando de ironia com relação à filosofia racionalista do “penso, logo existo” de Descartes contraposto pelo mote da organização não governamental Voiceless “I feel, therefore, I am” – estabeleceu que os animais não pensam ou pressentem, e, assim, os mantemos ignorantes de seu destino o maior tempo possível, evitando que se alarmem até que pisem o chão da morte e enxerguem o estranho com roupas cheias de sangue e uma faca nas mãos. Para ela, os homens preferem que os animais não saibam o que virá a seguir e sejam paralisados pela surpresa – já que suas mentes são incapacitadas – de tal forma e em um momento em que não perceberiam jamais o que está por acontecer (COETZEE, no prelo b). Costello então se pergunta por que tentar evitar a dor da morte se tornou mais importante do que evitar a morte propriamente dita. Este é mais um dilema moral que a literatura nos leva a questionar. Nos grandes abatedouros e criadouros, as estruturas são construídas para que o animal não veja o outro ser morto. É exatamente do que fala Costello quando menciona o ato de evitar a dor da morte, mas não a dor física ou a morte em si.

No texto, fica claro que Costello não compara o bode a um ser humano – ou não lhe confere indicadores de humanidade –, nem pretende conhecer sua natureza. Ela insiste, no entanto, na obrigação ética que deveríamos ter com esses “animais não humanos” – sem apelar para um discurso sentimentalista sobre nossas similaridades com esses animais –, enfatizando que não deveríamos tratá-los como subordinados ou inferiores e que temos o dever de colocá-los como tema de nossos pensamentos éticos – o que nos levaria a uma mudança dos códigos morais. A ideia central, nos parece, é respeitar os animais como “o outro”, o diferente, repensando as identidades dos homens e dos “animais não humanos”, sem hierarquizá-los como “passíveis de serem mortos” ou “não passíveis de serem mortos”.

Em um artigo escrito por Costello e enviado a seu filho John, a escritora questiona a posição de Heidegger sobre os animais em The fundamental concepts of metaphysics: world, finitude, solitude36 36 Trata-se de uma palestra ministrada por Heidegger entre 1929 e 1930, publicada em alemão em 1983 e em inglês em 1995. O título da palestra pode ser traduzido para o português como “Os conceitos fundamentais da metafísica: mundo, finitude e solitude”. (HEIDEGGER, 1995HEIDEGGER, M. The fundamental concepts of metaphysics: world, finitude, solitude. Bloomington: Indiana University Press, 1995.). Entre outros temas, o filósofo sobre os carrapatos, animais cujas experiências de vida ele considera absolutamente pobres, pois só existem em função de seus estímulos sensoriais que os avisam da aproximação do sangue quente para se alimentar. Costello expõe a ironia que existe entre a posição de Heidegger sobre os carrapatos e os instintos do filósofo quando busca por saciedade em seus tórridos romances com Hannah Arendt e outras alunas (COETZEE, no prelo b). Costello questiona se Heidegger não procurava, tanto quanto o carrapato, satisfazer uma necessidade instintiva. Não estaria ele vivenciando seus instintos acima de qualquer racionalidade, atendendo a necessidades não conscientes de repetição e compulsão? Ambos cedem ao desejo impulsivo de obter aquilo de que necessitam: sangue para um e sexo para o outro. No caso do carrapato, a percepção do sangue quente se liga à necessidade de sobrevivência – sendo instintivo e absolutamente necessário. John contesta o argumento justificando Heidegger com a dupla natureza do humano, de acordo com a qual a razão compartilha espaço com os desejos animais (COETZEE, no prelo b). Às vezes, ele afirma, somos tomados por nossos desejos animais, mas logo retornamos à razão. Não convencida pela retórica do filho, Costello aproxima ambas as experiências – de Heidegger e do carrapato –, pois ambos se rendem a esse apetite instintivo e primitivo, sentindo necessidade de agir com base nele (COETZEE, no prelo b). Esse estado gratificante de saciedade seria a constante da experiência do carrapato e de Heidegger, então ela pergunta por que Heidegger considerou as experiências do carrapato pobres. Em mais uma reflexão sobre a hierarquização imposta a outras criaturas vivas e à sua incapacidade de pensamentos complexos e abstratos (de acordo com as bases de julgamento estabelecidas pelos humanos), Coetzee nos mostra o quão contingencial é a valorização dos modos de sentir quando vistos a partir da racionalização humana/filosófica.

A posição de Heidegger é somente parte dos argumentos levantados por Costello de que tendemos a hierarquizar a vida segundo uma lógica da razão que determina que pulgas e carrapatos são menos importantes que cachorros, gatos, vacas e galinhas – que, por sua vez, são menos importantes que os homens. A dupla natureza do humano colocada por John – com alterações entre animalidade e racionalidade – não responde qual seria o lugar do homem nessa hierarquia quando este é tomado por seu instinto animal. Estaria ele no mesmo nível hierárquico da pulga e do carrapato ou das galinhas e das vacas? Poderia, por isso, ser morto, cortado e dado como alimento?

A crítica de Costello encontra eco em Derrida, para quem

(...) apesar, através e para além de todas as suas dissensões, os filósofos sempre, todos os filósofos, julgaram que esse limite era um e indivisível; e que do outro lado desse limite havia um imenso grupo, um só conjunto fundamentalmente homogêneo que se tinha o direito, o direito teórico ou filosófico, de distinguir ou de opor, ou seja, aquele do Animal em geral, do animal no singular genérico. Todo o reino animal com exceção do homem

(DERRIDA, 2002DERRIDA, J. O animal que logo sou. São Paulo: Editora Unesp, 2002., p. 28).

É nas contradições propostas pelo discurso literário que podemos desenvolver a percepção de que em nossa sociedade mesmo que um homem tomado por sua bestialidade tenha matado outros homens ele ainda terá defensores e sua morte – nos lugares onde ela é permitida – deverá passar por um longo processo, com juris e juízes. Por outro lado, os “animais não humanos” que sofrem e sentem dor, do ponto de vista biológico, deveriam poder clamar o mesmo direito caso pudessem falar as línguas dos homens, mas são tranquilamente levados à morte aos bilhões. Costello apela para nossa capacidade de empatia como uma possível solução desse dilema para o qual ela própria não oferece resposta.

Outros elementos, no entanto, são colocados, complicando o postulado argumentativo de que devemos parar de matar “animais não humanos” para consumo humano. Na já mencionada entrevista dada a Soledad Constantini (IN CONVERSATION, 2019IN CONVERSATION. Produção: Entrevistadora: Soledad Constantini. Entrevistado: JM Coetzee. [S.l.]: [s.n.]. 29 maio 2019. 1 vídeo. Disponível em: https://youtu.be/4VNk52t-YPM. Acesso em: 15 nov 2019.
https://youtu.be/4VNk52t-YPM...
), Coetzee discute Elizabeth Costello, afirmando que ele próprio se vê em uma situação sem resposta. O que seria dos animais se todos parassem de comer carne? Quem alimentaria as milhões de cabeças de gado, galinhas e outros animais criados para a morte? Ele não tem ilusões e acredita que seus criadores, a partir do momento que não pudessem lucrar com suas carnes, deixariam de alimentá-los. Coetzee se pergunta qual seria o melhor destino: morrerem de fome ou terem suas gargantas cortadas em algum abatedouro.

Comparar as duas formas de morrer procurando a “menos ruim” levanta outras questões não relacionadas com os animais, pois, segundo a filosofia, essas abstrações são desconhecidas e dependem de regras morais dos humanos para serem reconhecidas. Dentro da ética vigente, com os códigos morais de nosso século e lugar, matar animais é permitido – e existe uma bilionária indústria da morte cujo funcionamento e cuja existência são mantidos longe de nossos olhares. A visão dos animais já mortos, cortados e prontos para consumo não desperta os mesmos sentimentos que despertariam se os víssemos nascer, crescer, serem mortos e cortados. Além disso, como lidaríamos com a consciência das condições de vida dos animais sabendo que a maioria vive em condições de confinamento por toda uma vida, tendo somente as opções de morrer de fome, caso sejam libertados, ou morrer em abatedouros, caso nada mude? Ambas são alternativas que tão somente falam de morte e não de vida – e em ambas o “animal não humano” é tratado como objeto.

Em “The glass abattoir” (COETZEE, no prelo b), Coetzee toca ainda no tema do uso de animais para experiências científicas. A personagem Costello se recorda de uma palestra de Gary Steiner37 37 Steiner relata o episódio em Descartes as a moral thinker: Christianity, technology, Nihilism (2004). a que teria assistido, onde este narrou uma experiência de Descartes. O filósofo, segundo Steiner, teria aberto o peito de um coelho vivo para poder observar o fluxo sanguíneo e o bombeamento de sangue do coração. Elizabeth recorda ter saído do auditório sentindo-se enjoada, pois precisava ajoelhar-se e pedir perdão a Deus pelo que fez Descartes, por Steiner, por ela própria e toda a “murderous gang”38 38 Em tradução livre para o português, “gangue de matadores”. (COETZEE, no prelo b). Os valores culturais defendidos por Costello reconhecem a vida individual, seja ela de um homem ou um coelho, e demandam de nós um entendimento que vai além do pensamento ético filosófico e engloba a noção da vida como valor absoluto. Coetzee, investido da autoridade que lhe foi conferida como escritor premiado, dá voz aos sem voz por meio de Costello, cuja suscetibilidade torna a própria existência um martírio, pois não consegue conviver com aquilo que considera criminoso e está constantemente em uma luta interna com uma sociedade incapaz de olhar o mundo por seus olhos, formada por pessoas focadas apenas em si mesmas, vivendo em uma ética do sujeito humano pensante que se esquece de outras dimensões que abarcam o não humano. Sua sensibilidade não permite sequer olhar outras pessoas mastigando o que chama de cadáveres, por isso ela tem uma resposta pronta para constranger as pessoas que a questionam sobre seus posicionamentos radicais e seu vegetarianismo: “Eu, de minha parte, fico assombrada de você ser capaz de colocar na boca o corpo de um animal morto, assombrada de você não achar horrendo mascar a carne mutilada e engolir o suco de feridas mortais” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 47).

A personagem reconhece, por outro lado, sua hipocrisia e incoerências, dentre elas ter ido à palestra usando bolsa e sapatos de couro animal, e não encontra explicações para isso (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003., p. 53). Ao mesmo tempo, ela prega que a razão obscurece a simpatia que poderíamos ter se deixássemos de dividir os seres vivos em racionais e irracionais, sendo os últimos passíveis de serem utilizados para benefício dos primeiros, por colocarmos a ausência da razão humana – o logos – como elemento para a distinção de quem merece morrer.

Costello critica o antropocentrismo e a crueldade dos homens para com seus diferentes, os não humanos. De acordo com Maciel (2011), é possível relacionar as posições de Costello às de Montaigne (1980)MONTAIGNE, M. Ensaios. São Paulo: Abril Cultural, 1980. no ensaio XI, “Da crueldade”, e às de Jacques Derrida, em O animal que logo sou (2002). O primeiro aborda a temática da crueldade e os maus tratos contra os animais, defendendo a necessidade da existência de uma relação ética entre as espécies, e o segundo mostra como, desde o Gêneses (A BÍBLIA sagrada, 1993A BÍBLIA sagrada. Tradução: João Ferreira de Almeida. 2. ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.), no Antigo Testamento, o homem se sente autorizado a impor sua superioridade sobre os demais não humanos, tornando-os sua propriedade.

(...) esse “assujeitamento” dos animais, segundo o filósofo, está longe de acabar, perdurando, de diferentes maneiras, até os dias de hoje, quando a caça, o sacrifício, o adestramento e a exploração da energia animal tornaram-se obsoletas diante dos métodos tecnológicos instituídos a serviço do mercado e do “bem-estar” da sociedade de consumo: criação e adestramento massivo, experimentações genéticas, inseminações artificiais indiscriminadas, abates em larga escala nas fazendas industriais, aprisionamento e tratamentos cruéis para porcos e aves nas granjas modernas, etc. A isso Derrida dá o nome de violência

(MACIEL, 2011MACIEL, M. E. A vida dos outros: JM Coetzee e a questão dos animais. Aletria, Belo Horizonte, v. 21, n. 3, p. 91-101, 2011., p. 115).

Afirma ainda Derrida que

Ninguém mais pode negar seriamente e por muito tempo que os homens fazem tudo o que podem para dissimular essa crueldade, para organizar em escala mundial o esquecimento ou o desconhecimento dessa violência que alguns poderiam comparar aos piores genocídios

(DERRIDA, 2002DERRIDA, J. O animal que logo sou. São Paulo: Editora Unesp, 2002., p. 52).

Assim como postulou Derrida, ao almejar e pensar a construção de um abatedouro de vidro, pode-se supor que Costello desejasse despertar nas pessoas não somente a rejeição aos abatedouros, mas a percepção da vida e do direito à vida dos “animais não humanos”, independentemente de suas especificidades biológicas. Para ela, ao compreendermos e compartilharmos a condição de seres viventes, percebendo a vida no corpo do outro, abriremos caminho para o respeito à vida de todos os animais – humanos e não humanos.

4. Considerações finais

Voltando à entrevista dada a Soledad Constantini (IN CONVERSATION, 2019IN CONVERSATION. Produção: Entrevistadora: Soledad Constantini. Entrevistado: JM Coetzee. [S.l.]: [s.n.]. 29 maio 2019. 1 vídeo. Disponível em: https://youtu.be/4VNk52t-YPM. Acesso em: 15 nov 2019.
https://youtu.be/4VNk52t-YPM...
), Coetzee afirma não estar tão preocupado com doutrinar a sociedade, nem oferecer resposta às concretas questões colocadas por sua personagem em “The glass abattoir” (COETZEE, no prelo b), mas sim com expor a luta intelectual e moral de uma pessoa que se opõe às ações descritas tão vividamente por Costello. Apesar dessa colocação, Coetzee é conhecido por dar suporte e ser patrono de várias entidades de direitos dos animais. Uma vez mais, personagem e autor se (con)fundem, pois as elucubrações da velha escritora estão bem próximas daquelas encontradas nas obras não ficcionais do autor e – o mais importante – em suas ações e modo de vida. Costello, de fato, incorpora um discurso e uma posição política e ética do próprio autor, para quem comer carne de “animais não humanos” deveria ser considerado não só imoral, mas um crime.

Apesar de Costello dizer-se cansada das palavras, é por meio delas que Coetzee difunde a imagem do abatedouro de vidro e dá visibilidade e voz aos animais que não podem se defender e são mudos aos olhos dos humanos. Podemos perceber as diferentes esferas de alcance tanto do discurso filosófico quanto do literário, e como ambos possuem diferentes capacidades de mobilização. Poderíamos, ainda, fazer outra analogia. Após décadas defendendo em seus livros o direito à vida para todos os animais, Coetzee, como Costello, se cansa das palavras e lança a imagem – ainda que sugerida com palavras – do abatedouro de vidro como uma forma de impactar seus leitores consumidores de carne de “animais não humanos”. É interessante notar que Coetzee não gasta palavras descrevendo o abatedouro, mas evoca o que ali ocorre vivamente e consegue mobilizar o imaginário do leitor. O objetivo, pode-se supor, é criar, por meio da literatura, uma imagem poderosa o suficiente para conseguir o que nenhum discurso até agora fez: abalar os códigos morais de nossa sociedade, tornando ilegal e imoral a criação, o abate e o consumo de carne de outros seres vivos. Paralelamente, como colocou Clarkson (2009, p. 107, minha tradução), “aborda a questão do papel que as artes (em oposição ao discurso estritamente filosófico) podem ter que desempenhar no pensamento humano sério sobre a nossa relação com os animais”39 39 No original: “broaching a question of the role of the arts (as opposed to strictly philosophical discourse) might have to play in serious human thinking about our relation to other animals” (CLARKSON, 2009, p. 107). , demonstrando o equívoco presente na prioridade dada ao raciocínio filosófico no pensamento humano e a naturalização do consumo de carne animal, possibilitando olharmos o mundo sob uma perspectiva diferenciada e mais humanizada.

Notas

  • 1
    Autor sul-africano que atualmente vive em Adelaide, Austrália.
  • 2
    A obra foi traduzida para o português sob o título Terra das sombras (COETZEE, 1997bCOETZEE, J. M. Terra das sombras. São Paulo: Best Seller, 1997b.), pela editora Best Seller.
  • 3
    A obra foi traduzida para o português sob o título No coração do país (COETZEE, 1997aCOETZEE, J. M. No coração do país. Rio de Janeiro: Best Seller, 1997a.).
  • 4
    A obra foi traduzida para o português sob o título À espera dos bárbaros (COETZEE, 2006COETZEE, J. M. À espera dos bárbaros. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.), pela editora Companhia das Letras.
  • 5
    A obra foi traduzida para o português sob o título Desonra (COETZEE, 2000aCOETZEE, J. M. Desonra. São Paulo: Companhia das Letras, 2000a.), pela editora Companhia das Letras.
  • 6
    Voiceless é também o nome de uma organização não governamental australiana que atua na defesa dos direitos dos “animais não humanos”. Essa instituição é patrocinada por Coetzee.
  • 7
    Em português, traduzido como “Os filósofos e os animais” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.).
  • 8
    Em português, traduzido como “Os poetas e os animais” (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.).
  • 9
    Elizabeth Costello é personagem em quatro obras coetzeeanas: A vida dos animais (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.), Elizabeth Costello (COETZEE, 2004COETZEE, J. M. Elizabeth Costello. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.), Slow man (COETZEE, 2005COETZEE, J. M. Slow man. New York: Viking USA, 2005.) e Siete cuentos morales (COETZEE, 2018COETZEE, J. M. Siete cuentos morales. Barcelona/Buenos Aires: Penguim Random House, 2018.).
  • 10
    Ao longo deste artigo, faremos referência apenas ao texto da versão em inglês, a partir da qual trabalhamos nossa análise. Há alguns anos, JM Coetzee vem firmando oposição contra a hegemonia e a ditadura das grandes editoras inglesas e americanas, bem como da língua inglesa. Por isso, o autor lançou seu último livro primeiramente em espanhol, na Argentina e na Espanha, com o título Siete cuentos morales (COETZEE, 2018COETZEE, J. M. Siete cuentos morales. Barcelona/Buenos Aires: Penguim Random House, 2018.). O autor nos cedeu generosamente a versão em inglês, ainda inédita, que só deverá ser publicada no ano de 2020.
  • 11
    Alguns dos contos foram publicados também em revistas literárias como a New York Review of Books e a brasileira Olympio.
  • 12
    Em tradução livre para o português, “Vaidade”.
  • 13
    Em tradução livre para o português, “Enquanto uma mulher envelhece”.
  • 14
    Em português, intitulado “A velha e os gatos”.
  • 15
    Em tradução livre para o português, “Mentiras”.
  • 16
    No original: “Coetzee’s decision to present a fictional discourse (even before we understand what that fiction is about) at the very least prompts us to revisit the longstanding controversy between the philosophers and the poets, and I would go so far as to suggest that questions of the relation between criticism and fiction, reason and effect, philosophy and the creative arts, are never far from the surface of Coetzee’s writing” (CLARKSON, 2009CLARKSON, C. Voiceless. In: CLARKSON, C. J. M. Coetzee: countervoices. Londres: Palgrave Macmillan UK, 2009. p. 106-132., p. 109).
  • 17
    Há diversos vídeos dessas leituras disponíveis na internet.
  • 18
    Em tradução livre para o português, “JM Coetzee e a ética da leitura”.
  • 19
    Koko foi uma gorila criada em cativeiro pela Dra. Penny Patterson entre 1971 e 2018, quando a gorila veio a falecer. A Dra. Patterson afirmava que Koko era capaz de usar a língua de sinais americana, tendo aprendido cerca de 1.100 palavras. Há muitas controvérsias sobre as afirmações da Dra. Patterson em decorrência da ausência de outras pesquisas com Koko.
  • 20
    As duas palestras intituladas “Os filósofos e os animais” e “Os poetas e os animais” foram publicadas primeiramente na obra A vida dos animais (COETZEE, 2003COETZEE, J. M. A vida dos animais. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.) e, posteriormente, como capítulos no livro Elizabeth Costello (COETZEE, 2004COETZEE, J. M. Elizabeth Costello. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.). Em A vida dos animais, há uma parte adicional contendo textos que discutem ambas as palestras, escritos, respectivamente, pela crítica literária Marjorie Garber, pelo filósofo Peter Singer, pela professora de religião Wendy Doniger e pela primatologista Barbara Smuts.
  • 21
    A gerontologia atual divide os idosos entre jovens-velhos (idosos cujas mentes e corpos ainda conseguem manter independência) e velhos-velhos (aqueles cujas mentes e corpos necessitam de amparo e ajuda, perdendo independência e razão).
  • 22
    O vídeo dessa leitura está disponível em: https://www.malba.org.ar/evento/lectura-el-matadero-de-cristal.
  • 23
    No original: “tries to make sense of (...) mourning the deaths of creatures who themselves are oblivious to the concept of mourning” (CLARKSON, 2009CLARKSON, C. Voiceless. In: CLARKSON, C. J. M. Coetzee: countervoices. Londres: Palgrave Macmillan UK, 2009. p. 106-132., p. 119).
  • 24
    Em tradução livre para o português, “A mentalidade dos macacos”.
  • 25
    Texto satírico publicado originalmente em 1729. Em tradução livre para o português, “Uma proposta modesta”.
  • 26
    Elizabeth Costello se refere ao poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926) e a um de seus mais célebres poemas, “A pantera”.
  • 27
    Elizabeth Costello se refere ao poeta Ted Hughes (1930-1998) e aos poemas “O jaguar” e “Um segundo olhar para o jaguar”.
  • 28
    Em tradução livre para o português, “Eu sinto, portanto, eu sou”.
  • 29
    No original:
    – How much do you think it would cost, John, to build an abattoir? Not a big one, just a model, as a demonstration.
    – A demonstration of what?
    – A demonstration of what goes on in the abattoir. Slaughter. It occurred to me that people tolerate the slaughter of animals only because they get to see none of it. Get to see, get to hear, get to smell. It occurred to me that if there were an abattoir operating in the middle of the city, where everyone could see and smell and hear what goes inside it, people might change their ways” (COETZEE, no prelo b).
  • 30
    O acesso que nos foi concedido pelo autor envolveu apenas a versão eletrônica do texto, ainda sem paginação.
  • 31
    Em tradução livre para o português, “Paredes de vidro”.
  • 32
    No original: “I do not follow them. I know what happens there. (...) The young man will take the knife (...) and without preamble slit the goat’s throat, then watch while the body convulses and the life-blood pumps out.
    When the goat is finally still he will chop off his head, slit his abdomen, pull out his inner organs into the tin basin (...), run a wire through his hocks, (...) and peel off his skin. Then he will cut him in half, lengthwise, (...) to the market, where on a good day these physical remains will fetch nine hundred Djiboutian francs or five US dollars.
    (...) the body will be cut into small pieces and roasted (...) What is not found to be edible (...) will be thrown to the dogs. And that’s the end. (...) it will be as if he had never existed. No one will remember him save myself – a stranger who happened to see him”.
  • 33
    O acesso que nos foi concedido pelo autor envolveu apenas a versão eletrônica do texto, ainda sem paginação.
  • 34
    No original: “If I were a goat, I would prefer to take my chance with the lions and the jackals”.
  • 35
    O termo “enlightened” remete a algo originado no pensamento filosófico cartesiano e significa “iluminação”, “erudição”, “inteligência”.
  • 36
    Trata-se de uma palestra ministrada por Heidegger entre 1929 e 1930, publicada em alemão em 1983 e em inglês em 1995. O título da palestra pode ser traduzido para o português como “Os conceitos fundamentais da metafísica: mundo, finitude e solitude”.
  • 37
    Steiner relata o episódio em Descartes as a moral thinker: Christianity, technology, Nihilism (2004).
  • 38
    Em tradução livre para o português, “gangue de matadores”.
  • 39
    No original: “broaching a question of the role of the arts (as opposed to strictly philosophical discourse) might have to play in serious human thinking about our relation to other animals” (CLARKSON, 2009CLARKSON, C. Voiceless. In: CLARKSON, C. J. M. Coetzee: countervoices. Londres: Palgrave Macmillan UK, 2009. p. 106-132., p. 107).

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  • IN CONVERSATION. Produção: Entrevistadora: Soledad Constantini. Entrevistado: JM Coetzee. [S.l.]: [s.n.]. 29 maio 2019. 1 vídeo. Disponível em: https://youtu.be/4VNk52t-YPM Acesso em: 15 nov 2019.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    26 Mar 2021
  • Data do Fascículo
    Jan-Apr 2021

Histórico

  • Recebido
    13 Abr 2020
  • Aceito
    15 Jun 2020
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