Exame de ressonância sobre "paciência" e desenvolvimento local endógeno em subsolo teológico

Resonancias sobre la "paciencia" y el desarrollo local endogeno en subsolo teologico

Considerations about "patience" and endogenous local development and some theological underground

Quelques considerations regardant la "patience" et la resonance théologique sur le développement local endogène

Resumos

Este texto relaciona o conceito de "paciência" com aspectos do Desenvolvimento Local Endógeno, ressaltando atenção ao mundo metafórico oriundo da linguagem teológica, uma das primeiras articuladoras históricas do imaginário do desenvolvimento. A tese proposta é a do Agente de Desenvolvimento Local como mediador entre os tempos da comunidade (dimensão coletiva) e do indivíduo (dimensão particular). Essa idéia é precedida de um enunciado sobre tensão entre a teoria social e a dimensão teológica da cultura, seguido de dois exemplos da tarefa do Agente de Desenvolvimento Local: a noção de diagnóstico e a de pecado.

Teoría del Desarrollo Local; Desarrollo Local Endógeno; Paciencia Histórica


Este texto relaciona el concepto de "paciencia" con aspectos del Desarrollo Local Endógeno, resaltando la atención al mundo metafórico oriundo del lenguaje teológico, uno de los primeros articuladores históricos del imaginário del desarrollo. La tesis propuesta es la del Agente de Desarrollo Local como mediador entre los tiempos de la comunidad (dimensión coletiva) y del individuo (dimensión particular). Esa idea es precedida por un enunciado sobre la tensión entre la teoria social y la dimensión teológica de la cultura, seguida de dos ejemplos de la tarea social del Agente de Desarrollo Local: la noción de diagnóstico y la de pecado.

Teoría del Desarrollo Local; Desarrollo Local Endógeno; Paciencia Histórica


This text joins the concept of "patience" with some aspects of Endogenous Local Development, with special attention to the metaphoric world originated in theological language, one of the first and main historical matrixes of the imaginary of development. The proposition advanced is that the Local Development Agent is a mediator between the times of the community (collective dimension) and that of the individual (private dimension). This idea is prepared by a previous reflection about the tension between social theory and the theological dimension of culture, and is followed by two illustrations of the task of the Local Development Agent: the notion of diagnostics and that of sin.

Local Development Theory; Endogenous Local Development; Historic Patience


Le but de ce texte est celui de rapporter le concept de "patience" avec des aspects du Dévéloppement Local Endogène, ayant attention spéciale sur le monde métaphorique issu du langage théologique, qui a étée une des premières articulatrices de l´immaginaire du dévéloppement. On propose ici l´idée que l´Agent du Dévéloppement Local est un médiateur entre le temps de la communauté (la dimension collective) et celui de l´individu (dimension particulière). Cette idée vient précedée par quelques considerations sur la tension entre la théorie sociale et la dimension théologique de la culture. Deux exemples du travail de l´Agent de Dévéloppement Local sont présentés: la notion de diagnostique et celle de pêché.

Théorie du Développement Local; Développement Local Endogéne; Patience Historique


ARTIGOS

Exame de ressonância sobre "paciência" e desenvolvimento local endógeno em subsolo teológico

Considerations about "patience" and endogenous local development and some theological underground

Quelques considerations regardant la "patience" et la resonance théologique sur le développement local endogène

Resonancias sobre la "paciencia" y el desarrollo local endogeno en subsolo teologico

Josemar de Campos Maciel

Licenciado em Filosofia pelas Faculdades Unidas Católicas de Mato Grosso (FUCMT); Bacharel e Mestre em Teologia pela Pontifícia Università Gregoriana de Roma; Mestre em Psicologia pela Universidade Católica Dom Bosco-UCDB; Doutor em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas-PUCAMP/SP. Atualmente, professor dos cursos de graduação (Psicologia e Filosofia) da Universidade Católica Dom Bosco-UCDB e docente do Programa de Pós-Graduação - Mestrado em Desenvolvimento Local. E-mail: maciel50334@yahoo.com.br

RESUMO

Este texto relaciona o conceito de "paciência" com aspectos do Desenvolvimento Local Endógeno, ressaltando atenção ao mundo metafórico oriundo da linguagem teológica, uma das primeiras articuladoras históricas do imaginário do desenvolvimento. A tese proposta é a do Agente de Desenvolvimento Local como mediador entre os tempos da comunidade (dimensão coletiva) e do indivíduo (dimensão particular). Essa idéia é precedida de um enunciado sobre tensão entre a teoria social e a dimensão teológica da cultura, seguido de dois exemplos da tarefa do Agente de Desenvolvimento Local: a noção de diagnóstico e a de pecado.

Palavras-chave: Teoria do Desenvolvimento Local. Desenvolvimento Local Endógeno. Paciência Histórica.

ABSTRACT

This text joins the concept of "patience" with some aspects of Endogenous Local Development, with special attention to the metaphoric world originated in theological language, one of the first and main historical matrixes of the imaginary of development. The proposition advanced is that the Local Development Agent is a mediator between the times of the community (collective dimension) and that of the individual (private dimension). This idea is prepared by a previous reflection about the tension between social theory and the theological dimension of culture, and is followed by two illustrations of the task of the Local Development Agent: the notion of diagnostics and that of sin.

Key words: Local Development Theory. Endogenous Local Development. Historic Patience.

RÉSUMÉ

Le but de ce texte est celui de rapporter le concept de "patience" avec des aspects du Dévéloppement Local Endogène, ayant attention spéciale sur le monde métaphorique issu du langage théologique, qui a étée une des premières articulatrices de l´immaginaire du dévéloppement. On propose ici l´idée que l´Agent du Dévéloppement Local est un médiateur entre le temps de la communauté (la dimension collective) et celui de l´individu (dimension particulière). Cette idée vient précedée par quelques considerations sur la tension entre la théorie sociale et la dimension théologique de la culture. Deux exemples du travail de l´Agent de Dévéloppement Local sont présentés: la notion de diagnostique et celle de pêché.

Mots-clés: Théorie du Développement Local. Développement Local Endogéne. Patience Historique.

RESUMEN

Este texto relaciona el concepto de "paciencia" con aspectos del Desarrollo Local Endógeno, resaltando la atención al mundo metafórico oriundo del lenguaje teológico, uno de los primeros articuladores históricos del imaginário del desarrollo. La tesis propuesta es la del Agente de Desarrollo Local como mediador entre los tiempos de la comunidad (dimensión coletiva) y del individuo (dimensión particular). Esa idea es precedida por un enunciado sobre la tensión entre la teoria social y la dimensión teológica de la cultura, seguida de dos ejemplos de la tarea social del Agente de Desarrollo Local: la noción de diagnóstico y la de pecado.

Palabras-clave: Teoría del Desarrollo Local. Desarrollo Local Endógeno. Paciencia Histórica.

Todos os erros humanos são fruto da impaciência, interrupção prematura de um processo ordenado, obstáculo artificial erguido ao redor de uma realidade artificial (KAFKA. Considerações acerca do pecado.)

Observações iniciais

Como veremos logo à frente, todo este texto guarda relação direta com o que aqui se convencionou denominar ensaio-base, sobre "PACIÊNCIA", CAPITALISMO, SOCIALISMO E DESENVOLVIMENTO LOCAL ENDÓGENO, de autoria do Prof. Vicente Fideles de Ávila, disponibilizado para publicação em subsídio à disciplina Teoria do Desenvolvimento Local, do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Local da Universidade Católica Dom Bosco-UCDB.

Essa relação direta se configurou, em primeiro lugar, porque a motivação para a sistematização das reflexões aqui apresentadas aflorou da própria leitura analítica do mencionado ensaio, quando ainda recebendo contribuições aprimoradoras. Em segundo lugar, por se ter entendido, já naquele momento, que este EXAME DE ESSONÂNCIA SOBRE "PACIÊNCIA" E DESENVOLVIMENTO LOCAL ENDÓGENO EM SUBSOLO TEOLÓGICO se constituiria uma dessas contribuições, até certo ponto inusitada por estender a compreensão de Desenvolvimento e "Paciência" a horizontes culturais mais abrangentes, como a exploração dos fatos religioso e teológico subjacentes às pontuações temáticas que se seguem.

Em verdade, todo este ensaio-de-contribuição ao mencionado ensaio-base acabou se concretizando em dois momentos sucessivos: o do primeiro esboço de colaboração, enviado por correio eletrônico ao Prof. Vicente Fideles de Ávila em 14 de outubro de 2007, e o que veio depois, justamente ampliando e aprofundando análises (as posicionadas a partir do próximo subtítulo) concernentes às principais referências já destacadas no primeiro esboço. Por conseguinte, esse primeiro esboço acabou se tornando espécie de resumo-expandido do detalhamento de abordagens que vieram depois. Assim sendo, parece lógico que conhecer previamente o teor de seus termos originais seja de alguma valia à compreensão das posteriormente ampliadas e aprofundadas análises. Eis, pois, a transcrição ipsis litteris dos seguintes comentários do mencionado esboço (destacados apenas por entrelinhamento simples), de fato tecendo considerações sobre o ensaio-base:

  • Professor, eu penso que o

    estilo do seu texto merece um comentário. Não é um relato de experiência puro, mas passa perto, enquanto discute aspectos de experiências que aconteceram durante atividades da disciplina

    Teoria do DL. Não é um artigo científico do tipo

    validação de hipótese, porque a hipótese surge ao fim:

    isso funciona! Mas, na minha opinião, o seu texto é valoroso se for lido lado a lado com um outro estilo consagrado na literatura "científica" – no sentido de ter sido literatura que ajudou a construir a auto-imagem do Ocidente sobre si mesmo, no Renascimento e um pouco além. São as famosas

    Orationes. Penso, por exemplo, na bela

    De hominis dignitate oratio, de Pico Della Mirandola (1480/2008), escrita como uma carta aos seus leitores/ouvintes. É uma meditação, espontânea e sem medo de errar. Dela nasceu, posteriormente, a versão moderna do gênero que hoje denominamos

    ensaio... Daí que, na minha opinião, o senhor escreveu uma carta, uma epístola (no sentido de um Sêneca, de um Cícero, ou seja, uma coisa séria e íntima ao mesmo tempo), e isso deve ser enfatizado, mesmo porque penso que o texto deve ser publicado, e já. Ele ajuda a "cercar" muito bem alguns temas da disciplina. Abaixo vou escrevendo mais algumas sugestões, na medida em que a leitura do seu texto me sugere.

  • Sobre

    Paciência.

    Pati, patio, significa em latim "capacidade para sofrer", no sentido de capacidade ou aptidão para carregar, tomar sobre si, fazer-se responsável por... Daí que me parece que a palavra, apesar de ter uma conotação bastante interessante na pena de escritores socialistas e do próprio Marx (que defende a revolução, contra os pensamentos reformistas em geral), merece um pouco de atenção como uma condição de espera. Ou seja, como uma condição de aptidão, de capacidade de dilação, de adiamento da gratificação, ou do ataque, ou da resolução de algum problema. Na Bíblia se diz que o Salvador nasceu "Na plenitude dos tempos". Antes da plenitude dos tempos foi o tempo, exatamente, da paciência de Deus. Essa figura, de fortes ressonâncias semíticas, alia a idéia de sabedoria do Rei/Legislador/da Divindade à idéia de senso de oportunidade. Aliás, no

    corpus dos escritos sapienciais, da Bíblia, essa idéia é retomada à exaustão. O impaciente aborta processos históricos e perde a oportunidade, exatamente porque aqui trata-se de encontrar a sintonia entre dois tempos: o tempo do homem individual, do que critica ou avalia a situação, e o tempo da história, o tempo do acontecimento. Sintonia entre o tempo do indivíduo e o tempo mais amplo do grupo, da natureza ou de Deus, é

    Kairos, instante de chegada da iluminação... Há um tempo para cada coisa debaixo do sol... (Sir. c.2.).

  • Nesse contexto, acima, pode-se entender um pouco que a comunidade desabrocha enquanto ela encontra a própria sintonia, o próprio ritmo. E o pretenso agente de DL deve ser um facilitador da sintonia dos tempos, não um impositor de idéias. Neste sentido, o que há a fazer é escutar, e escutar, sintetizar, ler e reler, fazer sentido..., implica uma profunda paciência, que será sempre um profundo sentido de oportunidade.

  • Algumas figuras super tradicionais de

    paciência da nossa cultura: o pescador que tem que saber esperar os sinais do peixe; o caçador de onças antigo, que caçava numa rede chamada de

    espera. Se se apressasse, morria ele; o tocador de carros de bois. Se tocar os bois rápido demais, cansa a junta e perde a mercadoria.

  • Uma observação etimológica sobre

    diagnose [focada na 1ª QUESTÃO: SOBRE

    "PACIÊNCIA" EM DESENVOLVIMENTO LOCAL do

    ensaio-base]. Em Hipócrates, pai da medicina e rei do diagnóstico (nos

    Aforismos, mas também nos

    Lugares), aparece um cuidado excessivo com o diagnóstico das doenças. Segundo ele, o médico (o cuidador, o

    Therapeutés) deverá escutar atentissimamente a todos os sinais, porque cada sinal (

    semeion) deve amadurecer até se encaixar numa experiência de conhecimento profundo do que é a doença em causa. Para ele, o estado natural dos organismos é o de equilíbrio (

    Krásis), e a doença corresponde a um estado de desequilíbrio (

    diskrasía) em um ou mais pontos do arranjo de que se compõe o organismo humano. Daí que

    diagnóstico é uma tarefa seríssima que também envolve paciência. O diagnosticador, o estudioso dos sinais, deve esperar até que eles se juntem numa figura que faça sentido, pois diagnóstico significa conhecer (

    gnosis) através (

    diá). Diagóstico é um

    conhecimento que atravessa, que vai além, que permite fazer inferências e deitar projeções. Isso está bem longe da idéia de simulações estatísticas ou suposições recheadas de gráficos para esconder a falta de... paciência.

  • Sobre a noção de pecado [terceiro parágrafo da 2ª QUESTÃO - ABRANGENDO CAPITALISMO, SOCIALISMO E DESENVOLVIMENTO LOCAL do

    ensaio-base]: é interessante notar como o Ocidente nem sempre é ignorante da importância dessa noção. Pecado é uma palavra até hoje muito usada pelos gregos com o sentido mais primitivo. Em grego a palavra é

    amartía e significa, simplesmente, algo próximo ao que os italianos denominam

    disagio. Não estar à vontade, não ir às vias de fato, não acertar na mosca ou, simplesmente, errar o alvo. Há uma cantora grega contemporânea, Eleutheria (Eleftheria) Arvanitaki, que canta um grande sucesso desde o final dos anos 1980, que pode ilustrar bem a idéia. O nome da música e o refrão contêm a expressão

    Historía mou, amartía mou... A moça canta para um homem amado ou ex-amado, e a canção fala de um grande amor que não se resolveu, que deixou traços de dor. Para coroar esse sofrimento, esse mal-estar ou má-consciência, a moça afirma que o seu homem é a sua história (positivo), mas também o seu erro (negativo).

  • [Quinto parágrafo e seguintes da supra-referida 2ª Questão] Seus comentários sobre o comunismo estão brilhantes. É a parte mais documentada do texto.

  • Sobre

    Metodologia processual [alínea

    b concernente a diferenciações entre Desenvolvimento Local e socialismo marxista, ainda no contexto da mencionada 2ª Questão]. Acredito que os processos revolucionários, como enfatizou bem Merleau-Ponty, se não me engano, têm o grande pecado (

    hamartía!) de serem exógenos, impostos a um grande número de pessoas em nome de idéias reguladoras por uma minoria que se legitima sempre a partir de metanarrativas utópicas, coletivas, mas com benefícios não tão coletivos. Daí que os processos começam animados e terminam recolhendo cadáveres e traindo os próprios princípios. Não se pode obrigar a massa a sonhar um sonho que já está pronto. Por outro lado, um processo de DL é um processo de potenciação de possibilidades efetivas, que podem ser encontradas e resgatadas ou tematizadas – a partir da experiência real do que as pessoas ou comunidades efetivamente pensam e fazem. No caso das revoluções, as massas nem sequer são ouvidas. Elas são mobilizadas para fazer justiça a uma causa, que lhes é mais ou menos violentamente imposta como uma narrativa soteriológica. No caso das iniciativas de DL, as comunidades não têm uma causa imposta a si; elas

    são a causa. O processo é maiêutico, e facilita o nascimento da comunidade enquanto essência de participação e de troca dinâmica.

  • A parte final [logo após a supra-aludida alínea

    b] que contém a história do movimento ou da causa do DL e algumas aplicações... tentei, mas não tenho nada a retocar. [...]. Eu só comentaria, no primeiro e segundo corolários que, na verdade, entender a importância do que está acontecendo com as pequenas e pobres comunidades que estão se dando ao processo de DL, é entender um momento histórico fundamental: quem sabe não estamos diante de uma das maiores chances que a democracia está tendo para se tornar

    um sistema realmente representativo, enquanto estamos assistindo ao nascimento de um modelo de sociedade civil mais participativo e mais produtivo, em grande escala, a partir de modelos pluralistas e sempre comunitários, superando assim o individualismo (neo-)liberal ...

Agora, encerrando estas OBSERVAÇÕES INICIAIS, enfatiza-se que todas as pontuações e respectivas análises, tanto do ensaio-base como deste ensaio-de-ressonância, são frutos de colaboração acerca de preocupação comum ao corpo docente do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Local da Universidade Católica Dom Bosco. E a essência dessa preocupação não poderia ser outra que a de constituir, na medida do possível, um corpo teórico próprio, em diálogo com tendências teóricas atuais e clássicas, na área das discussões sobre Desenvolvimento (em geral) e Desenvolvimento Local (com delimitação conceitual específica).

Isso esclarecido, passemos às anteriormente referidas análises ampliadas e aprofundadas, esmiuçando o preliminar esboço de contribuições acima reproduzido.

A dialética do teológico na análise da cultura

Na bibliografia sobre desenvolvimento enfatizou-se, nos anos 1980, o papel da cultura, até o ponto em que ele se tornou uma conquista aparentemente indisputada (CROLL, E.; PARKIN, 1992). Mas nem sempre o que é discutido em teoria pode ser posto em prática com facilidade. Cada vez mais é reafirmado em tese como lugar comum a importância da cultura, por um lado enquanto, por outro, vai ficando cada vez mais distante uma definição de cultura (ABRAM; WALDREN, 1998). Com isso, ou a partir disso, este texto começa com a ambição específica de identificar uma das matrizes que se liga ao imaginário para contribuir com a gênese da idéia de cultura no ocidente. Cultura de desenvolvimento, bem entendido.

A tese central que regulará estas considerações é a de que existe um elemento teológico imaginário subjacente à formação da idéia de cultura, imaginário este que precisa ser desencavado, para que a idéia de cultura possa fluir em seu amplo significado (MILBANK, 1989) e para que, também, e principalmente, o agente de desenvolvimento local tenha acesso à experiência real de seus pares, interlocutores, ou solicitantes, caso se trate ele de um prestador de serviços, de um membro em uma comunidade, como solidário, ou um teórico, estudioso de um fenômeno. Ou seja, as reflexões que aqui se propõem estão num nível formal, mas pretendem atingir um recorte da experiência humana de base que constitui a noção de cultura.

No entanto, afirmar que existe um elemento teológico imaginário subjacente à construção da noção de cultura não significa advogar a primazia dele. Significa apenas afirmar a sua existência, e apontar para a sua recuperação como tarefa necessária no campo das discussões sobre desenvolvimento em geral, e desenvolvimento local em particular – pelo potencial mobilizador que sabidamente subjaz às experiências ou retóricas que envolvam o teológico. Noutros termos, o teológico parte do que Ricoeur denomina dimensão simbólica da experiência subjetiva. E o simbólico não administrado, ou mal administrado, pode se tornar selvagem. Juntamente com o desejo de vida e de morte, com a criatividade, com a experiência estésica, isto é, da sensibilidade como categoria formadora de uma visão de mundo desejante (FISETTE, 2007).

Existe, de princípio, um dilema, que encontra o seu campo de prova no efeito rebote que vem sendo apresentado em fenômenos como o fundamentalismo, a preocupação excessiva com poder em movimentos religiosos revolucionários, e ainda outros, que têm matriz original religiosa, mas que se descontextualizam dela e acabam apresentando grandes problemas de manejo, para a sociedade como um todo – podem mesmo tornar-se potencialmente destrutivos.

O dilema consiste na dificuldade de as ciências sociais manejarem adequadamente a complexidade de categorias teológicas que estão à base de experiências humanas, com as quais elas precisam trabalhar de forma pragmática. Se trabalham rápida e apressadamente, elas terminam fornecendo combustível legitimador para práticas extremamente perigosas; se penetram na experiência, como que empaticamente, em primeira pessoa, descobrem-se desaparelhadas para manipular categorias que vêm de um passado portador de uma visão de mundo, prática, ideais humanos etc., muito diferente do atual, ou do que se chama de atual. Em outras palavras, as ciências sociais estão sendo empurradas de volta a um diálogo com a teologia, para não cair no que estou denominando de postura criptoteológica, modificando um pouco a idéia de Milbank (1989) de paródia ou simulacro de posições teológicas (Conforme também LONG, 2000).

Uma breve explicação tentando dar conta do fenômeno

As ciências da sociedade são obrigadas a dialogar com a cultura. Para se poder falar em desenvolvimento, é necessário escutar a cultura, entendida aqui em sentido muito largo como os sistemas de gestão mais ou menos simbólica dos significados das relações entre o ser humano e o seu ambiente, para saber dela quais os seus padrões e expectativas de desenvolvimento. A cultura é a articulação do desejo humano convencionado e socialmente aceito, como que a articulação do sonho, seja ele utópico, ou distópico. Sem o sonho do local, o próprio local não existe como experiência. Sem o local, ou seja, sem a sua articulação simbólica na forma de desejo discursado efetivamente, não é possível o desenvolvimento local, apenas a retórica do desenvolvimento –o desenvolvimento alheio, trazido de fora para o local – imposto; ou o desenvolvimento vicário: trazido de fora, e plantado no local. E aqui entra, justamente, a noção de cultura: na matriz geradora do sonho enquanto ele se articula como ideal, ou proposta de horizonte ou tarefa civilizatória. Como se verá, afirmo em seguida que, ainda mais no coração deste sonho, existe o fator, ou dimensão, teológica.

Uma chance de estabelecer um diálogo fecundo com a cultura é a importância do conhecimento imponderável na geração de matrizes culturais que, por sua vez, vão estar à base de grandes narrativas de progresso.

A consideração séria das relações entre ideários de desenvolvimento ainda em andamento e suas respectivas situações genéticas pode ser fecunda para desconstruir a lógica desses projetos, gerando, talvez, ferramentas para poder colocar em diálogo setores da sociedade que partem de matrizes diferentes. Neste sentido é que se propõe, nestas reflexões, como um dilema desafio lógico do qual não se pode escapar se não se apanhar o dilema "pelos cornos" - de diálogo entre as ciências sociais e o aspecto teológico presente na matriz geradora da cultura. Se é implantado um diálogo, então decompõe-se a matriz, e ela pode ser estudada, mas de forma a que se respeite a sua especificidade; se não é implantado, se não se leva em consideração, ou não se implementa uma metodologia de escuta dessas experiências, a ciência social corre o risco de cair num discurso que estou, aqui, denominando como criptoteológico, modificando algumas posições teóricas às quais já aludi logo acima.

Esse discurso é uma forma de paródia de um discurso teológico, mas sem a chancela do sagrado. Não se trata apenas de um discurso ideológico em sentido neutro, como que uma discussão de idéias diferentes, sustentadas por contendores, portadores ou defensores de visões de mundo opostas e conflitantes. Na base de opiniões conflitantes, compondo o peso que é a definição principal do pender que caracteriza a opinião, está o explicandum, sem resolução: a experiência do inenarrável, do desejo, que foi articulada em primeiro lugar na experiência mítica e que, sucessivamente, recebeu uma articulação sistemática nas teologias. Nem se trata, necessariamente, de uma volta ao ideológico como entendido na tradição marxista, como uso de legitimação econômica de uso de recursos alheios. Trata-se de um cinismo mais arrebatador. É o roubo do sonho. Uma lesão e um desvio das matrizes formadoras do material axiológico da cultura. Se ele se impõe, pode acabar forçando para baixo o nível de expectativa da população em relação a padrões morais de existência e de enraizamento. O que significa, no mínimo, fragilizar as instituições em relação a expectativas de contato.

Elementos subjacentes

Existem elementos religiosos na cultura. Se são levados em conta, implanta-se um diálogo com a teologia; se não, corre-se o risco de cair em um discurso criptoteológico, que fragiliza a própria matriz geradora da cultura, que é a experiência humana como tal. Naturalmente estas idéias são incoativas, merecem revisão e críticas, mas querem exemplificar uma relação genética que deve dar a pensar, a respeito das raízes de uma questão aparentemente tão pragmática que nem mereceria uma atenção genética. Que isso é um engano crasso deverá ficar pelo menos inicialmente claro: como proposta, não como qualquer pretensão de conclusividade. A seguir, comentarei alguns casos muito importantes em que idéias do mundo econômico ou social podem ter um fundo religioso ou, neste caso, teológico, ou seja, podem ser ricamente exploradas para um diálogo mais explícito com matrizes da cultura.

A própria idéia de progresso é uma idéia criptoteológica . Isso significa, basicamente, uma idéia ou concepção teológica, aqui de base eminentemente cristã (na Índia ou no Japão far-se-ia naturalmente outro discurso) naturalizada e usada sem levar em consideração alguns dados relevantes de suas matrizes teológicas. O progresso é uma concepção soteriológica, ou seja, uma concepção de salvação da espécie humana (RIST, 1996), salvação da miséria, do isolamento, da ignorância, que implica a crença em diversas matrizes da relação entre Deus e um povo eleito, seja ele o de Israel, no caso do Ocidente cristão, ou outro povo.

Nos discursos sobre progresso, a conexão com doutrinas da salvação, no Centro-Oeste brasileiro, fica muito claro, se se assinala a conexão histórica importante entre D. Francisco de Aquino Corrêa e Getúlio Vargas, até a década de 1950. Dom Aquino, então Arcebispo de Cuiabá, em seus discursos, prolongava a tradição da parênese, ou seja, da exortação moral à conversão, que dentro do ideário salesiano da primeira metade do século XX significava, basicamente, extirpar os vícios que impediam um trabalho adequado, e meter as mãos à obra, em uma ocupação produtiva e relevante para o reino de Deus (CORRÊA, 1927). Ora, esse tipo de discurso, de mobilização para a ação, tem profundas raízes no pensamento ocidental, mas raras vezes se enfatiza a conexão dessas raízes com a experiência teológica. Não se trata de discursos científicos modernos (newtonianos, pode-se dizer) do tipo validação de hipótese, porque a hipótese surge ao fim do trabalho, quando este mostra que a postura ou atitude proposta e mobilizada a partir do discurso funciona na prática.

Na verdade, parte importante da literatura que ajudou a construir a auto-imagem do Ocidente sobre si mesmo, no Renascimento e um pouco além, atravessa as assim chamadas Orationes. Pense-se, por exemplo, no belo Discurso sobre a dignidade do homem, de Pico Della Mirandola (2006), escrita como uma carta aos seus leitores/ouvintes. É uma meditação, espontânea e sem medo de errar. Dela nasceu, posteriormente, a versão moderna do gênero que hoje denominamos ensaio.... e que teve um papel importante na mobilização de agentes que propuseram ou que levaram adiante propostas de desenvolvimento na região. As articulações deste tipo de trabalho com a tecnologia e a propaganda posteriores, ficam ainda por explorar. Mas a ligação entre a mobilização de forças morais e o trabalho do desenvolvimento, que era o que se queria ressaltar, deve ter ficado clara a este ponto. Mas, um outro tema profundamente teológico, que articula outros campos de investigação, ainda merece ser destacado. Refiro-me à articulação entre o grande tema da PACIÊNCIA, com o do diagnóstico da realidade e o pecado.

Articulações entre "paciência", diagnóstico e pecado

Três temas que possuem uma raiz profunda na história da experiência religiosa e na reflexão teológica do ocidente são o da paciência, do diagnóstico e do pecado. Se articulados, eles podem ajudar a mostrar um pouco mais a fecundidade das relações entre o agente de Desenvolvimento Local e as suas raízes, ou o enraizamento do seu trabalho. Obviamente que no espaço de um artigo esses temas podem ser apenas esboçados, de forma programática, que é apenas o que aqui pretendo fazer.

Sobre "paciência", ou seja, sincronia

Sobre Paciência. Pati, patio, significa em latim "capacidade para sofrer", no sentido de capacidade ou aptidão para carregar, tomar sobre si, fazer-se responsável por... Daí me parecer que a palavra, apesar de ter uma conotação bastante interessante na pena de escritores socialistas e do próprio Marx (que defende a revolução, contra as reformas), merece um pouco de atenção como uma condição de espera.

Ou seja, a paciência aparece como uma condição de aptidão, de capacidade de dilação, de adiamento da gratificação, ou do ataque, ou da resolução de algum problema. Nas Escrituras se diz que o Salvador nasceu "Na plenitude dos tempos". Antes da plenitude dos tempos foi o tempo, exatamente, da paciência de Deus – tempo no qual os profetas, como Jonas, erram por impaciência, ou pregam a capacidade de ler os sinais para não apressar o curso de acontecimentos que estão além da capacidade humana comum, de analisar o universo, como é o caso de Jó.

A figura do servo que sofre, obediente, mas que termina recompensado, alia a idéia de sabedoria do Rei/Legislador/da Divindade à idéia de senso de oportunidade das pessoas empobrecidas. Aliás, no corpus dos escritos sapienciais, da Bíblia, essa idéia é retomada à exaustão. O impaciente aborta processos históricos e perde a oportunidade, exatamente porque aqui trata-se de encontrar a sintonia entre dois tempos: o tempo do homem individual, do que critica ou avalia a situação, e o tempo da história, o tempo do acontecimento. Sintonia entre o tempo do indivíduo e o tempo mais amplo do grupo, da natureza ou de Deus, é Kairos, instante de chegada da iluminação... Há um tempo para cada coisa debaixo do sol... (Ecle. 3, 1-15).

Nesse contexto, acima, pode-se entender um pouco que a comunidade desabrocha enquanto ela encontra a própria sintonia, o próprio ritmo. E o pretenso agente de DL deve ser um facilitador da sintonia dos tempos, não um impositor de idéias. Neste sentido, o que há a fazer é escutar, e escutar, sintetizar, ler e reler, fazer sentido..., implica uma profunda paciência, que será sempre um profundo sentido de oportunidade.

Na cultura regional do pantanal – estendendo-se para além dele, algumas expressões mostram quanto esse imaginário ainda é recorrente e pode ser interessante, tanto no estudo, quanto no diálogo com a representação que o sujeito se faz e constrói da sua cultura e do seu ambiente. Assim, algumas figuras tradicionais de paciência da cultura local, são:

  • O pescador que aprende a ler e a esperar os sinais do peixe. Um peixe é considerado diferente do outro. Nas narrativas locais, alguns "gostam" de enfrentar o pescador, disputam, precisam ser "cansados", e assim por diante.

  • Antigamente, no contexto da caça de extrativismo, o caçador de onças precisava fabricar uma espécie de armadilha para os felinos, e se postava numa rede chamada de

    espera. Se ele se apressasse e tentasse caçar as onças antes de elas terem comido alguma das iscas, antes de estarem em posição indefesa, ele corria o risco de morrer.

  • Ainda, o antigo transporte da região, de todo o Centro-Oeste foi o carro de bois, por muito tempo. O tocador de carros de bois, se tocasse os bois de maneira excessivamente rápida, cansava os animais e perdia o passo, ou seja, eles podiam desistir. E ele perderia a mercadoria.

  • Recentemente tem-se voltado a enfatizar, por via do

    Tecnoforró, a necessidade de "

    paciência" para preparar um carro de bois que seja adequado às necessidades da região, através da técnica de

    bater o mancá, ou seja, preparar bem as articulações entre as rodas e os eixos. Se a roda não for bem batida, não se fixa o suficiente e não sustenta o peso; se for batida com força excessiva, aperta demais e produz rachaduras (PESSOA, 2002).

Sobre a idéia de diagnóstico como superação dos sinais

Outra formulação que pode ilustrar incoativamente a relação entre conceitos e reflexões teológicas e o desenvolvimento é a idéia de diagnóstico. Esta idéia, usada no imaginário de quem pensa o Desenvolvimento Local, tem mesmo a prerrogativa de superar, em certa medida, aquela anterior, que evoca a sincronia entre dois tempos. Ali, na representação quase teológica do papel ou da vocação do agente de Desenvolvimento Local, para a sua ação bastaria que ele ou ela interpretasse adequadamente, tornando-se uma espécie de facilitador da vontade divina, ou do curso adequado da história, ou das melhores potencialidades de uma região/território, ou tempo.

Aqui, evocando a idéia de diagnóstico, pode-se chamar em causa a idéia de que Hipócrates, quando lê através dos sinais, quando faz um diagnóstico, na verdade está tentando criar uma configuração nova dos elementos de conhecimento que lhe aparecem diante dos olhos. Ou seja, o trabalhador na área do Desenvolvimento Local tem um pouco de intérprete (acima), mas também um pouco de criador, como aqui.

Uma observação etimológica sobre diagnose deve forçosamente conduzir o olhar do leitor a um dos textos que deram origem mesmo a essa palavra, em toda a história da medicina ocidental, a partir da qual a idéia é tomada de empréstimo para as ciências humanas, os seus Lugares no Homem (CRAIK, 1998; NUTTON, 2004). Em uma das suas definições da medicina ele assevera,

44 1. Medicina é questão de equilíbrio. Se a pessoa entende isto, então tem a posse de um princípio seguro, e poderá entender a presença ou ausência de qualidades inerentes, cujo conhecimento está equilibrado na medicina: isto é, que agentes de relaxamento podem se tornar adstringentes e que outras coisas são contrárias, de forma semelhantes; e que as coisas que mais parecem contrárias não são tão contrárias (ou seja, que coisas aparentemente semelhantes podem ser dessemelhantes, assim como coisas opostas podem ser semelhantes) (CRAIK, 1998, p. 81).

Em Hipócrates, pai da medicina e rei do diagnóstico, aparece um cuidado muito grande com o diagnóstico das doenças. Mas, pare ele, diagnosticar é também uma forma de equilibração e de criação de um outro estado. Segundo ele, o médico (o cuidador, o Terapeutés) deverá escutar atentissimamente a todos os sinais, porque cada sinal (semeion) deve amadurecer até se encaixar numa experiência de conhecimento profundo do que é a doença em causa. Para ele, o estado natural dos organismos é o de equilíbrio (Krásis), e a doença corresponde a um estado de desequilíbrio (diskrasía) em um ou mais pontos do arranjo de que se compõe o organismo humano. Daí que diagnóstico é uma tarefa seríssima que também envolve paciência, e que tem como tarefa a restituição de equilíbrio, de uma condição natural que foi perdida por algum motivo.

Aplicando brevemente o raciocínio ao trabalho do Agente de Desenvolvimento Local, pode-se observar a ressonância da idéia na observação ideal de que o diagnosticador, o estudioso dos sinais, deve esperar até que eles se juntem numa figura que faça sentido, pois diagnóstico significa conhecer (gnosis) através (diá). Diagóstico é um conhecimento que atravessa, que vai além, que permite fazer inferências e deitar projeções. Esta tarefa vai além e complementa aquela que vê o diagnóstico como uma leitura de sinais contidos em simulações estatísticas ou modelos matemáticos. Na verdade, a desarticulação entre estas duas formas de diagnóstico, a saber, a humanista (hipocrática) e a estatística esconderia uma verdadeira falta de paciência, que redunda em desfavor da própria tarefa.

A relação entre esta noção de diagnóstico como algo entre totalização e criação, típica de Hipócrates, e o contexto da teologia, sobretudo medieval, vai ficar clara em Tomás de Aquino, por exemplo. Mas no reduzido espaço de um artigo não podemos desenvolvê-la. Resta ainda uma noção, mais claramente teológica.

Sobre a noção de pecado e sua fecundidade

O Ocidente é consciente da importância da noção de pecado. Pecado é uma palavra até hoje muito usada pelos gregos com o sentido mais primitivo. Em grego a palavra é amartía e significa, simplesmente, algo próximo ao que os italianos denominam disagio. Não estar à vontade, não ir às vias de fato, não acertar na mosca ou, simplesmente, errar o alvo. Há uma cantora grega contemporânea, Eleftheria Arvanitaki (2007), que canta um grande sucesso desde o final dos anos 1980, que pode ilustrar bem a idéia. O nome da música e o refrão contém a expressão Historía mou, amartía mou... (Tradução: minha história, meu erro [desacerto]).

A moça canta para um homem amado, e a canção fala de um grande amor que não se resolveu, que deixou traços de dor. Para coroar esse sofrimento, esse mal-estar ou má-consciência, a moça afirma que o seu homem é a sua história (positivo), mas também o seu erro (negativo). Uma cópula de termos que simboliza a possibilidade de instauração de uma situação de desequilíbrio. Por um lado, um produto construído; por outro, a avaliação moral da consciência de um erro que se cometeu. Isso, voltando à categoria mais biologizante dos trabalhos hipocráticos, conduziria à noção de doença (exatamente, desequilíbrio, para Hipócrates). Aqui, ao invés, a situação ganha uma qualificação moral. O desequilóbrio instalado é assumido em primeira pessoa, ou seja, o agente assume responsabilidade por ele, e assim abre o flanco a toda a literatura sobre culpa e expiação que tanto fez fama na história do Ocidente, de Freud a Girard. Mas esta primeira relação com a qualidade moral do agente pode ser estendida ao problema da paciência.

Os processos revolucionários, como enfatizou bem Merleau-Ponty (1999), têm o grande pecado (hamartía!) de serem exógenos, impostos a um grande número de pessoas em nome de idéias reguladoras por uma minoria que se legitima sempre a partir de metanarrativas utópicas, coletivas, mas com benefícios que não são coletivos, ou que pelo menos não são vistos assim. Daí que os processos começam aparentemente com grande apoio da massa popular, mas terminam perdendo esse apoio, acusados de traição dos próprios princípios. Esta narrativa é própria de países nos quais o populismo promete e efetua revoluções e milagres econômicos que duram apenas duas ou três décadas, como aconteceu no Brasil e na América Latina (CONNIFF, 1999).

Para recolher brevemente a idéia de pecado de um ponto de vista de uma Teoria do Desenvolvimento Local de base endógena, pode-se dizer que, de um ponto de vista endógeno, não é possível obrigar a sociedade, como um todo, a assimilar um padrão cultural, o que equivale a sonhar um sonho que já está pronto. Não se impõe uma cultura, nem em nome de uma ideologia abertamente soteriológica, do ponto de vista coletivo, na forma de uma narrativa de salvação das massas, nem em nome de uma ideologia veladamente soteriológica, veiculada em nome de uma busca de salvação individual.

Por outro lado, um processo de Desenvolvimento Local é um processo de potenciação de possibilidades efetivas, que podem ser encontradas e resgatadas – ou tematizadas - a partir da experiência real do que as pessoas ou comunidades efetivamente pensam e fazem. No caso das revoluções, as massas nem sequer são ouvidas. Elas são mobilizadas para fazer justiça a uma causa, que lhes é mais ou menos violentamente imposta como uma narrativa soteriológica. No caso das iniciativas de Desenvolvimento Local que nascem e se desenvolvem como um projeto endógeno, as comunidades não têm uma causa imposta a si; elas são a causa, enquanto o processo de desenvolvimento é também, simultaneamente, um processo identitário. O processo é maiêutico, e facilita o nascimento da comunidade enquanto essência de participação e de troca dinâmica (GAMMER, 2004; SHUTTE, 1995).

Na verdade, entender a importância do que está acontecendo com as comunidades que estão se dando ao processo de Desenvolvimento Local, como busca de alternativa diante de um processo histórico de exclusão, pode ser uma chance para dilucidar um momento histórico fundamental. Talvez equivalha à chance, para as ciências humanas, de instaurar um novo diálogo com uma outra forma de sociedade nascente. Um modelo de sociedade civil mais participativo e mais produtivo, em grande escala, a partir de modelos pluralistas e sempre comunitários, superando assim o individualismo (neo)liberal (VELTMEYER, H.; PETRAS, J., 2002).

Referências

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Recebido em 1/12/2007; revisado e aprovado em 4/2/2008; aceito em 20/2/2008.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Abr 2008
  • Data do Fascículo
    Jun 2008

Histórico

  • Revisado
    04 Fev 2008
  • Recebido
    01 Dez 2007
  • Aceito
    20 Fev 2008
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