Avaliação ultrassonográfica do complexo médio-intimal das carótidas comuns em crianças eutróficas e portadoras de sobrepeso/obesidade

Jorge Garcia Augusto César Garcia Saab Benedeti Simone Helena Caixe Francisco Mauad Filho Carlos Alberto Nogueira-de-Almeida Sobre os autores

Resumo

Contexto

A obesidade é uma epidemia global, inclusive entre as crianças. Diante desse perfil, torna-se necessário identificar precocemente alterações cardiovasculares presentes em crianças com sobrepeso/obesidade. A ultrassonografia no modo B das carótidas comuns avalia, com precisão e em tempo real, as alterações precoces na medição da espessura do complexo médio-intimal (CMI), podendo detectar o início do processo de aterosclerose.

Objetivos

O presente estudo comparou a espessura do CMI entre crianças escolares com e sem sobrepeso/obesidade.

Métodos

Foram incluídas 59 crianças de ambos os sexos, entre 7 e 10 anos de idade, oriundas de centros de saúde de São Paulo. As crianças foram caracterizadas de acordo com o escore z do índice de massa corporal (IMC) em dois grupos, com e sem sobrepeso/obesidade. Os grupos foram comparados em relação à espessura do CMI.

Resultados

Os grupos foram homogêneos em idade e sexo. A medida média do CMI no grupo com sobrepeso/obesidade foi de 0,49 (± 0,07) mm; no grupo não sobrepeso/obeso, foi de 0,41 (± 0,05) mm (p < 0,01). Essas diferenças se mantiveram quando os grupos com e sem sobrepeso/obesidade foram comparados separadamente por sexo e pelos lados direito e esquerdo. O coeficiente de correlação entre a medida do CMI e o escore z do IMC foi de 0,61 (intervalo de confiança de 95% = 0,42-0,75). Dentro do mesmo estado nutricional, não houve diferença entre os gêneros, nem entre os lados direito e esquerdo.

Conclusões

A espessura do CMI de crianças com sobrepeso/obesidade foi maior e diretamente proporcional ao escore z do IMC, denotando maior risco cardiovascular nesse grupo.

Palavras-chave:
ultrassonografia; carótida comum; obesidade; complexo médio-intimal

Abstract

Background

Obesity is a global epidemic, including among children. It is therefore necessary to identify cardiovascular changes in overweight/obese children as early as possible. Mode B ultrasonography of the common carotids can be used to precisely evaluate in real time early changes in the thickness of the intima-media complex (IMC), which can detect onset of the atherosclerosis process.

Objectives

This study compared IMC thickness between schoolchildren with and without overweight/obesity.

Methods

A sample of 59 children of both sexes, aged 7 to 10 years, were recruited from health centers in São Paulo, Brazil. Children were classified by z scores for body mass index (BMI) into two groups, with or without overweight/obesity. These groups were then compared in terms of IMC thickness.

Results

The groups were homogenous for age and sex. The mean IMC measurement in the group with overweight/obesity was 0.49 (± 0.07) mm, whereas in the group free from overweight/obesity it was 0.41 (± 0.05) mm (p < 0.01). These differences were maintained when groups with and without overweight/obesity were compared separately by sex and for right and left sides. The coefficient for the correlation between IMC measurement and BMI z score was 0.61 (95% confidence interval = 0.42-0.75). Within the same nutritional status group, there were no differences between sexes or between right and left sides.

Conclusions

Intima-media thickness was greater among children with overweight/obesity and was directly proportional to BMI z score, denoting increased cardiovascular risk in this group.

Keywords:
ultrasonography; common carotid; obesity; intima-media complex

INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, a obesidade infantil vem sendo considerada uma epidemia global e um dos principais desafios de saúde pública tanto nos países de primeiro mundo como nos países em desenvolvimento11 Han JC, Lawlor DA, Kimm SYS. Childhood obesity. Lancet. 2010;375(9727):1737-48. http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(10)60171-7. PMid:20451244.
http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(10)...

2 Mutangadura G. World Health Report 2002: Reducing Risks, Promoting Healthy Life World Health Organization, Geneva, 2002, 250 pages, US$ 13.50, ISBN 9-2415-6207-2. Agric Econ. 2004;30(2):170-2. http://dx.doi.org/10.1016/j.agecon.2003.11.006.
http://dx.doi.org/10.1016/j.agecon.2003....
-33 Wang Y, Lobstein T. Worldwide trends in childhood overweight and obesity. Int J Pediatr Obes. 2006;1(1):11-25. http://dx.doi.org/10.1080/17477160600586747. PMid:17902211.
http://dx.doi.org/10.1080/17477160600586...
. Estudos têm evidenciado um aumento expressivo da obesidade, cuja prevalência triplicou em países como Austrália, Brasil, Canadá, Chile, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Japão e Reino Unido e Estados Unidos, no período compreendido entre os primeiros anos da década de 1970 e os últimos anos da década de 199011 Han JC, Lawlor DA, Kimm SYS. Childhood obesity. Lancet. 2010;375(9727):1737-48. http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(10)60171-7. PMid:20451244.
http://dx.doi.org/10.1016/S0140-6736(10)...
,33 Wang Y, Lobstein T. Worldwide trends in childhood overweight and obesity. Int J Pediatr Obes. 2006;1(1):11-25. http://dx.doi.org/10.1080/17477160600586747. PMid:17902211.
http://dx.doi.org/10.1080/17477160600586...
.

Vive-se hoje, nos países em desenvolvimento e no Brasil, uma transição epidemiológica, com predominância de doenças crônicas não transmissíveis em relação às transmissíveis, associada à transição nutricional, com aumento progressivo da obesidade no lugar da desnutrição44 Sociedade Brasileira de Pediatria. Obesidade na infância e adolescência: manual de orientação. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento de Nutrologia São Paulo; 2008.. Além disso, alguns estudos sugerem que a manutenção da obesidade está diretamente associada à morbimortalidade por doenças cardiovasculares55 Caixe SH, Benedeti ACGS, Garcia J, et al. Evaluation of echocardiography as a marker of cardiovascular risk in obese children and adolescents. International Journal of Clinical Pediatrics. 2014;3(3):72-8. http://dx.doi.org/10.14740/ijcp164w.
http://dx.doi.org/10.14740/ijcp164w...

6 Cercato C, Silva S, Sato A, Mancini M, Halpern A. Risco cardiovascular em uma população de obesos. Arq Bras Endocrinol Metabol. 2000;44(1):45-8. http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27302000000100008.
http://dx.doi.org/10.1590/S0004-27302000...

7 Costa KCM, Ciampo LAD, Silva PS, Lima JC, Martins WP, Nogueira-de-Almeida CA. Ultrasonographic markers of cardiovascular disease risk in obese children. Rev Paul Pediatr. 2018;36(2):171-175.

8 Marchi-Alves LM, Yagui CM, Rodrigues CS, Mazzo A, Rangel EML, Girão FB. Obesidade infantil ontem e hoje: importância da avaliação antropométrica pelo enfermeiro. Esc Anna Nery. 2011;15(2):238-44. http://dx.doi.org/10.1590/S1414-81452011000200004.
http://dx.doi.org/10.1590/S1414-81452011...
-99 Nogueira-de-Almeida CA, Mello ED. Correlation of body mass index Z-scores with glucose and lipid profiles among overweight and obese children and adolescents. J Pediatr (Rio J). 2018;94(3):308-12. http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2017.06.012. PMid:28881179.
http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2017.06...
.

No Brasil, segundo os planos de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis do Ministério de Saúde (2011-2022), a prevalência de sobrepeso em crianças na faixa etária de cinco a nove anos de idade atingiu 33,5%, enquanto a obesidade, nessa mesma faixa etária, chegou a 14,3% (IBGE)1010 IBGE. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009: Antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE; 2010.,1111 Malta DC, Morais Neto OL, Silva JB Jr. Apresentação do plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil, 2011 a 2022. Epidemiol Serv Saude. 2011;20(4):425-38. http://dx.doi.org/10.5123/S1679-49742011000400002.
http://dx.doi.org/10.5123/S1679-49742011...
. Nos indivíduos da faixa etária de 10 a 19 anos, a prevalência de sobrepeso foi de 20% nos adolescentes, enquanto a prevalência de obesidade foi de 4% nas meninas e de 5,9% nos meninos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)1010 IBGE. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009: Antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE; 2010.. Além disso, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008-2009), nas regiões Sul e Sudeste ocorreram as maiores taxas de sobrepeso e obesidade em todas as faixas etárias estudadas para ambos os sexos (IBGE)1010 IBGE. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009: Antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE; 2010.. Na faixa etária entre 5 e 9 anos, houve incremento ainda mais significativo de sobrepeso e obesidade (IBGE)1010 IBGE. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009: Antropometria e estado nutricional de crianças, adolescentes e adultos no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE; 2010..

Evidências indicam que a aterosclerose começa na infância com acúmulo de lipídios na íntima das artérias77 Costa KCM, Ciampo LAD, Silva PS, Lima JC, Martins WP, Nogueira-de-Almeida CA. Ultrasonographic markers of cardiovascular disease risk in obese children. Rev Paul Pediatr. 2018;36(2):171-175., o que estabelece uma relação estreita entre obesidade e doença cardiovascular1212 McGill HC Jr. George Lyman Duff memorial lecture. Persistent problems in the pathogenesis of atherosclerosis. Arterioscler Thromb Vasc Biol. 1984;4(5):443-51. PMid:6089724.. Em estudos longitudinais, têm-se mostrado associação entre o excesso de peso nas primeiras décadas de vida e a alta taxa de morbimortalidade na vida adulta por doenças cardiovasculares1313 Must A, Jacques PF, Dallal GE, Bajema CJ, Dietz WH. Long-Term morbidity and mortality of overweight adolescents. N Engl J Med. 1992;327(19):1350-5. http://dx.doi.org/10.1056/NEJM199211053271904. PMid:1406836.
http://dx.doi.org/10.1056/NEJM1992110532...
,1414 Oliveira CL, Mello MT, Cintra IP, Fisberg M. Obesidade e síndrome metabólica na infância e adolescência. Rev Nutr. 2004;17(2):237-45. http://dx.doi.org/10.1590/S1415-52732004000200010.
http://dx.doi.org/10.1590/S1415-52732004...
. O aumento da espessura do complexo médio-intimal (CMI) é constituído histologicamente pela hipertrofia das camadas média (muscular) e íntima (endotélio) da parede arterial e é considerado marcador não invasivo e precoce da aterosclerose. Pode refletir o aumento do risco cardiovascular, sendo associado a maior risco de infarto agudo do miocárdio e/ou de acidente vascular cerebral1515 Touboul PJ, Hennerici MG, Meairs S, et al. Mannheim carotid intima-media thickness consensus (2004-2006). Cerebrovasc Dis. 2006;23(1):75-80. http://dx.doi.org/10.1159/000097034. PMid:17108679.
http://dx.doi.org/10.1159/000097034...
.

Evidência estrutural de aterosclerose precoce é comumente encontrada em adolescentes e adultos jovens quando suas artérias são examinadas em autópsias. Nesses casos, observa-se um aumento da extensão das lesões conforme o aumento da idade e o número e agravamento dos tradicionais fatores de risco cardiovascular1616 AMA. Relationship of atherosclerosis in young men to serum lipoprotein cholesterol concentrations and smoking. JAMA. 1990;264(23):3018-24. http://dx.doi.org/10.1001/jama.1990.03450230054029. PMid:2243430.
http://dx.doi.org/10.1001/jama.1990.0345...
,1717 McGill HC Jr, McMahan CA, Herderick EE, et al. Effects of coronary heart disease risk factors on atherosclerosis of selected regions of the aorta and right coronary artery. Arterioscler Thromb Vasc Biol. 2000;20(3):836-45. http://dx.doi.org/10.1161/01.ATV.20.3.836. PMid:10712411.
http://dx.doi.org/10.1161/01.ATV.20.3.83...
.

A obesidade está associada à aterosclerose e pode cursar com alterações cardiovasculares1818 Nogueira-de-Almeida CA, Caixe SH, Benedeti ACGS, Garcia J. Echocardiography evaluation as a marker of cardiovascular risk on obese children and adolescents. The FASEB Journal. 2016;30(1): 1163-165. que precisam ser precocemente avaliadas. A ultrassonografia das carótidas comuns realiza essa avaliação de forma adequada e segura, através da medida da espessura do CMI, marcador subclínico precoce da aterogênese que pode ser comparado entre crianças e adolescentes saudáveis, obesos e não obesos. O presente estudo buscou avaliar a espessura do CMI de carótidas comuns, através do método ultrassonográfico, em crianças com sobrepeso/obesidade em comparação com um grupo eutrófico equivalente.

MATERIAIS E MÉTODOS

Este estudo observacional, transversal, comparativo de dois grupos, foi realizado com 59 crianças de ambos os sexos, estratificadas de acordo com o estado nutricional em dois grupos: eutróficos e portadores de sobrepeso/obesidade, sem comorbidades associadas. A amostra foi composta por indivíduos originários das unidades básicas de saúde da população de São Paulo e de diferentes cidades da região. A coleta foi realizada no período de maio de 2013 a outubro de 2014.

A casuística consistiu em 59 crianças, de ambos os sexos, com idades entre 7 e 10 anos (média de 8,8 anos), distribuídas em dois grupos conforme a presença ou não de sobrepeso/obesidade. Para avaliação de sobrepeso/obesidade, foram realizadas medidas de peso e estatura e foi calculado o índice de massa corporal (IMC) de acordo com as recomendações internacionais1919 Sellen D. Physical Status: The use and interpretation of Anthropometry. Report of a WHO Expert Committee. WHO Technical Report Series No. 854. Pp. 452. (WHO, Geneva, 1995.) Swiss Fr 71.00. J Biosoc Sci. 1998;30(1):135-44. http://dx.doi.org/10.1017/S0021932098261359.
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,2020 de Almeida CAN, Ricco RG. Avaliação do estado nutricional com ênfase à antropometria. Pediatria. 1998;20:385-98.. A classificação da condição nutricional foi efetuada pela determinação da posição em relação ao escore z do IMC. Valores entre -2 e +1 significam eutrofia; entre +1 e +2, sobrepeso; e acima de +2, obesidade44 Sociedade Brasileira de Pediatria. Obesidade na infância e adolescência: manual de orientação. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento de Nutrologia São Paulo; 2008.,1919 Sellen D. Physical Status: The use and interpretation of Anthropometry. Report of a WHO Expert Committee. WHO Technical Report Series No. 854. Pp. 452. (WHO, Geneva, 1995.) Swiss Fr 71.00. J Biosoc Sci. 1998;30(1):135-44. http://dx.doi.org/10.1017/S0021932098261359.
http://dx.doi.org/10.1017/S0021932098261...
. Os grupos sobrepeso e obesidade foram considerados em conjunto. Participaram do estudo apenas aqueles com escore z do IMC acima de -2, avaliados através do programa de computador WHO AnthroPlus, usando curvas de referência da Organização Mundial da Saúde (WHO)1919 Sellen D. Physical Status: The use and interpretation of Anthropometry. Report of a WHO Expert Committee. WHO Technical Report Series No. 854. Pp. 452. (WHO, Geneva, 1995.) Swiss Fr 71.00. J Biosoc Sci. 1998;30(1):135-44. http://dx.doi.org/10.1017/S0021932098261359.
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,2121 WHO. WHO Anthro for personal computers, version 3.2. 2, 2011: software for assessing growth and development of the world’s children. Geneva: WHO; 2010..

O protocolo de coleta de dados compreendeu medida de peso e altura. Uma balança eletrônica da marca Kratos-Cas foi utilizada para aferição do peso e um antropômetro portátil Kratos-Cas para aferição da altura.

Para a realização das avaliações ultrassonográficas no modo B do CMI das carótidas comuns, utilizou-se um equipamento da marca ESAOTE Healthcare, modelo My Lab 70 XVG, com transdutor plano (linear) de frequência variável de 7,5 e 12 Mhz e uso de gel aquoso não iônico. O equipamento é provido de sistema analítico de alta resolução de imagem (escala de cinza).

A ultrassonografia no modo B foi realizada sem conhecimento prévio do estado nutricional das crianças. Somente após terem sido coletados e tabulados os dados, as crianças foram estratificadas de acordo com o estado nutricional em dois grupos: eutróficas (escore z do IMC entre -2 e +1) e sobrepeso/obesas (escore z do IMC superior a +1). A avaliação estatística foi conduzida a fim de verificar se os grupos eram homogêneos ou heterogêneos em relação à distribuição etária, ao sexo e à presença ou ausência de sobrepeso/obesidade. Para aquisição das imagens, as crianças foram examinadas na posição supina, com extensão do pescoço e rotação lateral da cabeça de 45 graus para o lado contrário à artéria examinada (sem travesseiro) e o examinador posicionado atrás da cabeça do paciente1515 Touboul PJ, Hennerici MG, Meairs S, et al. Mannheim carotid intima-media thickness consensus (2004-2006). Cerebrovasc Dis. 2006;23(1):75-80. http://dx.doi.org/10.1159/000097034. PMid:17108679.
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.

A mensuração do CMI das artérias carótidas comuns foi realizada no modo B por um único observador, no seu 1/3 distal até chegar a 2 cm da bifurcação, com ângulo de insonação de 90º, na parede posterior da imagem da carótida1515 Touboul PJ, Hennerici MG, Meairs S, et al. Mannheim carotid intima-media thickness consensus (2004-2006). Cerebrovasc Dis. 2006;23(1):75-80. http://dx.doi.org/10.1159/000097034. PMid:17108679.
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. A medição do CMI foi definida como a distância entre duas linhas ecogênicas, a interface lúmen-íntima e média-adventícia. Foram realizadas três medições manuais das carótidas comuns, conforme pode ser visto na Figura 1, permitindo o cálculo da média1515 Touboul PJ, Hennerici MG, Meairs S, et al. Mannheim carotid intima-media thickness consensus (2004-2006). Cerebrovasc Dis. 2006;23(1):75-80. http://dx.doi.org/10.1159/000097034. PMid:17108679.
http://dx.doi.org/10.1159/000097034...
,2222 Pignoli P, Tremoli E, Poli A, Oreste P, Paoletti R. Intimal plus medial thickness of the arterial wall: a direct measurement with ultrasound imaging. Circulation. 1986;74(6):1399-406. http://dx.doi.org/10.1161/01.CIR.74.6.1399. PMid:3536154.
http://dx.doi.org/10.1161/01.CIR.74.6.13...
.

Figura 1
Quantificação do complexo médio-intimal de artéria carótida comum (marcador eletrônico +). Complexo médio-intimal da carótida comum (setas).

Os dados estão apresentados como média ± desvio padrão. Foi utilizado o modelo de regressão linear com efeitos mistos2323 Schall R. Estimation in generalized linear models with random effects. Biometrika. 1991;78(4):719-27. http://dx.doi.org/10.1093/biomet/78.4.719.
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. O projeto de pesquisa foi devidamente aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa envolvendo seres humanos, com parecer número 215.788.

RESULTADOS

O grupo de sobrepeso/obesidade foi composto por 29 crianças (49,2%), sendo 16 do sexo masculino (55,2%) e 13 do sexo feminino (44,8%). O grupo eutrófico foi composto por 30 crianças (50,8%), sendo 12 do sexo masculino (40,0%) e 18 do sexo feminino (60,0%).

A Tabela 1 apresenta as características gerais dos grupos por sexo, idade e escore z do IMC, de acordo com o estado nutricional. A média de idade foi semelhante nos dois grupos (crianças com sobrepeso/obesidade: 8,9 ± 1,7 anos; crianças eutróficas: 8,7 ± 1,1 anos), assim como o sexo (masculino: 28 e feminino: 31).

Tabela 1
Características gerais dos grupos listadas por sexo, idade e escore z do índice de massa corporal de acordo com o estado nutricional.

A medida da espessura do CMI no lado direito e esquerdo das carótidas comuns foi de 0,5 mm e 0,49 mm respectivamente (média: 0,49 mm) no grupo com sobrepeso/obesidade e de 0,41 mm em ambos os lados (média: 0,41 mm) no grupo eutrófico (Tabelas 2 e 3). Esses dados confirmam que os grupos eram, inicialmente, diferentes apenas em relação ao que se estava testando, ou seja, a sobrepeso/obesidade e o CMI, sendo semelhantes nas demais variáveis pessoais estudadas (idade, sexo, carótida comum nos lados direito e esquerdo).

Tabela 2
Distribuição das variáveis listadas por estado nutricional, sexo e lados direito e esquerdo da carótida comum correlacionados com o complexo médio-intimal.
Tabela 3
Comparação quanto ao complexo médio-intimal por estado nutricional, sexo e lados direito e esquerdo das carótidas comuns.

As estatísticas descritivas para espessura do CMI de carótidas comuns, de ambos os lados, mediadas no grupo com presença ou não de sobrepeso/obesidade, encontram-se expressas na Tabela 2. As crianças classificadas com sobrepeso/obesidade apresentaram CMI de carótidas comuns mais espessas que as do grupo eutrófico, com média de 0,49 mm no grupo sobrepeso/obesidade e 0,41 mm no grupo eutrófico (Tabela 2), com valor de p < 0,01. Não houve diferença entre as medidas do CMI de carótida comum direita e esquerda (p = 0,94). Os valores médios da espessura do CMI das carótidas comuns no grupo com sobrepeso/obesidade foram de 0,49 mm do lado esquerdo e de 0,5 mm do lado direito (p = 0,60), enquanto os valores da espessura do CMI no grupo eutrófico foram de 0,41 mm em ambos os lados (p = 0,67). Ao calcular as médias da espessura do CMI por sexo, os valores foram semelhantes (p = 0,47).

Para analisar a correlação entre o escore z do IMC e o CMI, foi proposto o coeficiente de correlação de Pearson (r), que quantifica a associação entre duas variáveis quantitativas. Observou-se um coeficiente de correlação de Person de 0,61, com significância (p < 0,01) e intervalo de confiança de 95% de 0,42-0,75. A Figura 2 expressa a forte correlação positiva dos sujeitos de pesquisa, de ambos os grupos, por grau de espessura do CMI das carótidas comuns, através de modelo de regressão linear com efeitos mistos2323 Schall R. Estimation in generalized linear models with random effects. Biometrika. 1991;78(4):719-27. http://dx.doi.org/10.1093/biomet/78.4.719.
http://dx.doi.org/10.1093/biomet/78.4.71...
.

Figura 2
Correlação entre escore z do índice de massa corporal (IMC) e complexo médio-intimal (CMI). Coeficiente de correlação de Pearson (r) de 0,61 [intervalo de confiança (IC) de 95% = 0,42-0,75].

DISCUSSÃO

Desde a fase pré-púbere, as crianças com excesso de peso são expostas a fatores de risco cardiovascular, que conduzem à disfunção endotelial e contribuem para o aumento da espessura do CMI da carótida comum2424 Raitakari OT, Juonala M, Kähönen M, et al. Cardiovascular risk factors in childhood and carotid artery intima-media thickness in adulthood. JAMA. 2003;290(17):2277-83. http://dx.doi.org/10.1001/jama.290.17.2277. PMid:14600186.
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. Em 2010, Juonala et al.2525 Juonala M, Magnussen CG, Venn A, et al. Influence of age on associations between childhood risk factors and carotid intima-media thickness in adulthood clinical perspective: the Cardiovascular Risk in Young Finns Study, the Childhood Determinants of Adult Health Study, the Bogalusa Heart Study, and the Muscatine Study for the International Childhood Cardiovascular Cohort (i3C) Consortium. Circulation. 2010;122(24):2514-20. http://dx.doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.110.966465. PMid:21126976.
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apontaram, a partir de análise de dados de quatro grandes estudos populacionais e de coorte (o Muscatine Study, o Cardiovascular Risk in Young Finns Study, o Bogalusa Heart Study e o Childhood Determinants of Adult Health Study), que a exposição aos múltiplos fatores de risco dos noves anos de idade em diante seria preditiva de aterosclerose subclínica na idade adulta. Assim, eles sugerem que esses fatores, diretamente associados à morbimortalidade por doença cardiovascular, sejam mensurados a partir dos nove anos de idade.

A espessura do CMI é um marcador subclínico de aterosclerose bem estabelecido, podendo também indicar futura doença cardiovascular2626 Lorenz MW, Markus HS, Bots ML, Rosvall M, Sitzer M. Prediction of clinical cardiovascular events with carotid intima-media thickness: A systematic review and meta-analysis. Circulation. 2007;115(4):459-67. http://dx.doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.106.628875. PMid:17242284.
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. O presente estudo confirma os achados ultrassonográficos das alterações do CMI em crianças com sobrepeso/obesidade (Tabelas 2 e 3), quando comparadas ao grupo controle, independentemente de sexo e lado direito ou esquerdo de carótidas comuns. Um estudo de caso-controle realizado na Bélgica por Beauloye et al.2727 Beauloye V, Zech F, Tran HT, Clapuyt P, Maes M, Brichard SM. Determinants of early atherosclerosis in obese children and adolescents. J Clin Endocrinol Metab. 2007;92(8):3025-32. http://dx.doi.org/10.1210/jc.2007-0619. PMid:17519311.
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utilizou a ultrassonografia para avaliar a espessura do CMI em indivíduos saudáveis obesos e não obesos, com idade entre 8 e 18 anos (média de 12,7 e 13 anos, respectivamente). A média dos valores de espessura do CMI mostrou diferença estatística de 0,438 mm nos controles para 0,470 mm nos obesos (p = 0,0031). Apesar de a idade média ser superior à do presente estudo, os resultados foram semelhantes no que se refere à diferença significativa da espessura do CMI entre os dois grupos. É importante salientar que, considerando os dois estudos como uma sequência, pode-se observar que as alterações carotídeas se iniciam precocemente e persistem durante a infância e a adolescência. Os resultados são similares aos de outros estudos que relataram espessura do CMI de crianças e adolescentes obesos maior quando comparados ao grupo controle2828 Atabek ME, Pirgon O, Kivrak AS. Evidence for association between insulin resistance and premature carotid atherosclerosis in childhood obesity. Pediatr Res. 2007;61(3):345-9. http://dx.doi.org/10.1203/pdr.0b013e318030d206. PMid:17314695.
http://dx.doi.org/10.1203/pdr.0b013e3180...
,2929 Giannini C, de Giorgis T, Scarinci A, et al. Obese related effects of inflammatory markers and insulin resistance on increased carotid intima media thickness in pre-pubertal children. Atherosclerosis. 2008;197(1):448-56. http://dx.doi.org/10.1016/j.atherosclerosis.2007.06.023. PMid:17681348.
http://dx.doi.org/10.1016/j.atherosclero...
. Fang et al.3030 Fang J, Zhang JP, Luo CX, Yu XM, Lv LQ. Carotid Intima-media thickness in childhood and adolescent obesity relations to abdominal obesity, high triglyceride level and insulin resistance. Int J Med Sci. 7(5):278-83. avaliaram 86 crianças e adolescentes obesos de ambos os sexos distribuídos em dois grupos, sendo 23 crianças obesas com síndrome metabólica (média de idade: 10,9 ± 1,6 anos) e 63 crianças obesas sem síndrome metabólica (média de idade: 10,5 ± 1,6 anos). O grupo controle foi composto por 22 crianças e adolescentes saudáveis não obesos (média de idade: 11,1 ± 2,1 anos). Os grupos de obesos sem síndrome metabólica e com síndrome metabólica apresentaram aumento da espessura do CMI quando comparados ao grupo controle.

O presente estudo apresenta algumas limitações. A principal delas refere-se ao caráter transversal da coleta de dados, que impede o direcionamento dos resultados para relações de causa e efeito. Também o número total de crianças avaliado foi pequeno, apesar de suficiente para as análises estatísticas. Por fim, foi utilizada uma amostra de conveniência, o que impede a extrapolação dos resultados para a população de crianças dessa faixa etária.

Os resultados analisados permitem concluir que as crianças com sobrepeso/obesidade apresentaram CMI das carótidas comuns mais espesso (0,49 ± 0,07 mm) quando comparadas às crianças eutróficas (0,41 ± 0,05 mm) da mesma faixa etária e de ambos os sexos (p < 0,01), resultados também observados por outros autores3131 Gustiene O, Slapikas R, Marcinkeviciene J, et al. Relationship between the metabolic syndrome, endothelial function and intima-media thickness in asymptomatic middle-aged individuals. Medicina. 2005;41(10):825-36. PMid:16272829.

32 Iannuzzi A, Licenziati MR, Acampora C, et al. Increased carotid intima-media thickness and stiffness in obese children. Diabetes Care. 2004;27(10):2506-8. http://dx.doi.org/10.2337/diacare.27.10.2506. PMid:15451928.
http://dx.doi.org/10.2337/diacare.27.10....
-3333 Zhu W, Huang X, He J, Li M, Neubauer H. Arterial intima-media thickening and endothelial dysfunction in obese Chinese children. Eur J Pediatr. 2005;164(6):337-44. http://dx.doi.org/10.1007/s00431-005-1642-y. PMid:15750804.
http://dx.doi.org/10.1007/s00431-005-164...
. A principal contribuição do presente estudo refere-se à faixa etária, uma vez que são muito raros estudos ultrassonográficos do CMI nessa idade. Os resultados apresentados poderão, seguramente, contribuir para o melhor entendimento da evolução do processo aterosclerótico em crianças com excesso de peso.

  • Como citar: Garcia J, Benedeti ACGS, Caixe SH, Mauad Filho F, Nogueira-de-Almeida CA. Avaliação ultrassonográfica do complexo médio-intimal das carótidas comuns em crianças eutróficas e portadoras de sobrepeso/obesidade. J Vasc Bras. 2019;18:e20190003. https://doi.org/10.1590/1677-5449.190003
  • Fonte de financiamento: Nenhuma.
  • O estudo foi realizado na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e na Faculdade de Tecnologia em Saúde de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP, Brasil, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, Brasil.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Out 2019
  • Data do Fascículo
    2019

Histórico

  • Recebido
    04 Jan 2019
  • Aceito
    28 Abr 2019
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