RESUMO
Neste artigo, discuto o que considero serem os pressupostos ontológicos da crítica de Nietzsche à metafísica no primeiro livro de Humano, demasiado humano e a natureza da relação estabelecida por ele entre filosofia e ciência. Busco definir sua posição como um realismo científico moderado, que considera que as ciências caminham progressivamente em direção a uma concepção puramente dinâmica do real.
Palavras-chave
Nietzsche; Ontologia; Devir; Ciência; Metafísica
ABSTRACT
In this paper I discuss what I consider to be the ontological assumptions of Nietzsche’s critique of metaphysics in the first book of Human, all too human and the nature of the relation he establishes between philosophy and science. I try to define his position as a moderate scientific realism, as he claims that science progressively moves towards a purely dynamic conception of reality.
Keywords
Nietzsche; Ontology; Becoming; Science; Metaphysics
I
Ao retomar, em 1888, ou seja, dez anos depois de sua publicação, os primeiros aforismos de Humano, demasiado humano, reelaborando parcialmente os textos e trazendo à luz alguns aspectos que antes estavam apenas anunciados nas entrelinhas, Nietzsche caracteriza aquilo que, já no aforismo 1, ele havia chamado de “filosofia histórica” (HH 1), como a “verdadeira filosofia do devir”, uma “filosofia antimetafísica” por excelência, que não crê absolutamente em um “em si” (KSA 14, p. 119). No quadro geral de Humano, esse primeiro aforismo, ao lado do segundo, possui um caráter programático, na medida em que anuncia os elementos principais que perfazem a agenda filosófica endossada por Nietzsche então. O núcleo desta agenda consiste no combate à metafísica tendo em vista suas duas motivações básicas: a motivação teórica e a motivação prática, e suas duas principais vertentes históricas: a doutrina das categorias e a doutrina dos dois mundos.1 A filosofia histórica é concebida ali como o “mais novo dos métodos filosóficos” e pensada em continuidade com a investigação empírica das ciências naturais.
Mas o que justifica essa escolha metodológica? Inserido no contexto dos debates e da polêmica em torno da questão do método que dominaram boa parte da atmosfera intelectual alemã na segunda metade do século XIX, o primeiro aforismo de Humano anuncia uma tomada de posição por parte de Nietzsche contra a tese de uma especificidade metodológica da filosofia, defendida principalmente pelos expoentes da corrente ortodoxa do neokantismo.2 A recusa de Nietzsche se direciona sobretudo à proposição de um método transcendental e a priori de investigação para a descoberta das categorias constitutivas de nossa experiência e para a justificação de seu uso e de sua validade universal e objetiva; mas ela inclui ainda toda concepção do homem e da subjetividade humana que pretenda identificar em nossas estruturas cognitivas e motivacionais qualquer elemento supostamente universal e a-histórico. Isso faz com que o escopo de sua crítica compreenda também aquelas teses que, apesar de não reivindicarem um caráter a priori e se apresentarem como manifestamente empíricas, supõem um conhecimento universal e essencial do homem, como é o caso da doutrina schopenhaueriana da vontade, tanto em sua versão psicológica e antropológica quanto em sua versão propriamente metafísica.
Essa tomada de posição por parte de Nietzsche é certamente um reflexo da influência de Lange, já vastamente debatida na literatura secundária,3 e seus dois alvos mais diretos parecem ser Schopenhauer e Spir. Ao denunciar, no aforismo 2, o “defeito hereditário dos filósofos”, sua crença numa estrutura fixa, universal e a-histórica de nossa subjetividade - seja ela referida a uma dimensão instintiva, pulsional e afetiva, como o faz Schopenhauer,4 seja ela referida à dimensão das condições lógico-formais do conhecimento, como é o caso especialmente de Kant e Spir5 -, ele acusa os filósofos transcendentais de serem incapazes de reconhecer “que o homem veio a ser, e que mesmo a faculdade de cognição veio a ser” (HH 2). Inserido na história, o homem está inexoravelmente imerso no fluxo dos acontecimentos, e nada nele escapa às suas vicissitudes: “tudo veio a ser; não existem fatos eternos: assim como não existem verdades absolutas” (HH 2).
Mas se Nietzsche se inspira no naturalismo metodológico de Lange contra o transcendentalismo ortodoxo (cf. Lopes, 2008, p. 59ss), é preciso notar, em contrapartida, que a “virtude da modéstia” reivindicada por ele, e que certamente se encontra no horizonte da opção langeana pela sobriedade do método empírico em oposição aos devaneios da razão especulativa, não parece ser seguida com todo o rigor no caso da posição nietzscheana. E isso porque, se estivermos corretos em afirmar que a opção de Lange é puramente metodológica, mantendo-se neutra do ponto de vista ontológico, abrindo mão de qualquer perspectiva realista e assumindo, portanto, uma posição estritamente fenomenista no campo das posições epistemológicas (cf. Lopes, 2008, p. 45ss), esse não parece ser o caso no que diz respeito à opção de Nietzsche pelo “mais novo dos métodos filosóficos” (HH 1). A meu ver, o que justifica a escolha pelo método empírico não é apenas sua sobriedade e economia, mas uma tomada de posição no campo da ontologia: a tomada de posição em favor da tese do devir universal. Como argumenta Lopes (2008, p. 276), “Nietzsche apresenta sua tese de que tudo veio a ser em um tom discreto, neutro e sóbrio, bem ao estilo de Humano, demasiado Humano. Esta sobriedade oculta, entretanto, uma aposta de elevado teor especulativo.”6 É com base nessa aposta que Nietzsche extrai as consequências teóricas que lhe permitem recusar os pressupostos das duas grandes vertentes da metafísica combatidas por ele nesse momento. A doutrina das categorias (enquanto teoria transcendental, no sentido forte do termo, acerca das condições a priori do conhecimento) é recusada com base na tese de que não há qualquer elemento de nossa subjetividade que escape à mudança; a doutrina dos dois mundos, por sua vez, é recusada (ou denunciada quanto à sua insustentabilidade teórica) com base na tese análoga de que não há (ou de que não estamos epistemicamente justificados a supor a existência de) qualquer “coisa em si” acima e para além das mudanças constatáveis empiricamente. Em sua formulação mais radical e incisiva, essa tese implica a recusa da própria categoria de “coisa”, como algo numericamente determinável e idêntico a si mesmo (HH 11, 19).
Neste ponto, talvez pudéssemos nos colocar duas questões: em primeiro lugar, dado o vínculo tradicionalmente estabelecido e historicamente determinante entre ontologia (enquanto “doutrina do ser”) e metafísica, estaríamos corretos em interpretar os pressupostos da opção metodológica de Nietzsche nesse momento em termos de uma ontologia? E, se sim, deveríamos dizer que sua teoria do devir constitui uma metafísica? Em segundo lugar, se estivermos corretos em afirmar que a opção metodológica se dá em função de um pressuposto ontológico, o que justificaria, do ponto de vista do método, essa opção prévia pelo devir no campo da ontologia? Ou seja, se a tomada de posição ontológica é logicamente anterior à opção metodológica, como podemos avaliar a correção dessa posição no que diz respeito ao método empregado para se chegar a ela? Essa questão é de fundamental importância se levarmos em conta que uma das principais estratégias adotadas por Nietzsche, nesse momento, para destituir a metafísica de sua credibilidade epistêmica é a demonstração de que as crenças metafísicas se formaram a partir dos piores métodos cognitivos (HH 9). Apesar da importância crucial desse segundo ponto, me limitarei, neste artigo, a discutir apenas a primeira questão.7
II
Eduardo Nasser dedica a introdução de seu recente estudo monográfico sobre uma possível ontologia do vir-a-ser em Nietzsche a uma breve análise da literatura em torno do problema se estamos ou não autorizados a atribuir ao filósofo uma posição propriamente ontológica ou uma reflexão consistente sobre o ser (Nasser, 2015, p. 14ss.). Essa análise do status quaestionis funciona como preâmbulo para a defesa de sua tese principal: a de que podemos sim identificar uma ontologia em Nietzsche, que se desenvolve a partir da tese de que o tempo é um elemento constitutivo da realidade e que esta é, essencialmente e em sua totalidade, temporal. Concordo com a tese principal de Nasser,8 mas pretend tentar responder à primeira pergunta colocada acima em diálogo com alguns intérpretes não citados por ele em sua introdução: Peter Heller (1972), John Richardson (1996), Rogério Lopes (2008) e Mathew Meyer (2014). Outro ponto que gostaria de destacar é a delimitação de meu objeto de análise: este estudo está circunscrito à relação entre a opção metodológica assumida por Nietzsche, em 1878, como estratégia de crítica à metafísica, e os pressupostos ontológicos dessa crítica. O trabalho de Nasser atravessa toda a obra do autor, mas Humano, demasiado humano em particular - a obra em que o filósofo traz a público pela primeira vez, de forma clara, os contornos de sua posição ontológica - recebe pouca atenção em seu estudo.9
O livro de Heller: Von den ersten und letzten Dingen (1972), dedicado inteiramente ao primeiro capítulo de Humano, é o primeiro longo e exaustivo estudo sobre esta obra comparativamente pouco comentada de Nietzsche. No capítulo em que analisa em detalhe as afirmações do primeiro aforismo acerca de como algo pode se originar a partir de seu oposto, Heller traz à tona aquilo que se convencionou chamar de o “heraclitismo” de Nietzsche e se pergunta se não estaríamos aqui diante de uma “metafísica do devir” (Heller, 1972, p. 19). A resposta a essa pergunta depende obviamente de uma resposta prévia à questão acerca do que entendemos por “metafísica”. Tendo em vista que a solução da “filosofia histórica” apresentada nesse aforismo para o problema da origem a partir dos opostos é claramente contraposta à solução da filosofia metafísica, o primeiro passo para responder àquela pergunta é compreender que essa filosofia do devir (esse heraclitismo) certamente não constitui uma metafísica no sentido em que Nietzsche compreende a metafísica nesse contexto (a não ser que queiramos acusá-lo de uma inconsistência grosseira).
Masoque Nietzscheentendepormetafísicaali? Jáodissemosanteriormente, acompanhando a leitura de Lopes (2008): a doutrina transcendental das categorias e a doutrina dos dois mundos; ou, em outros termos: a metafísica crítica e a metafísica dogmática. O primeiro aforismo se confronta mais especificamente com a metafísica enquanto doutrina dos dois mundos. Ela figura ali como horizonte teórico fundacional para a determinação de uma hierarquia dos valores. Sua tese principal é que as coisas consideradas de mais alto valor não podem ter sua origem no mundo empírico, a partir das coisas mais desprezadas, de modo que seria preciso recorrer à tese de uma “origem miraculosa, diretamente do âmago e da essência da ‘coisa em si’.” (HH 1) O dualismo dos mundos é concebido aqui como contraparte ontológica da crença na oposição dos valores. Afilosofia histórica, por sua vez, partindo de um diálogo constante com as ciências naturais, pretende dissolver toda forma de dualismo em um contínuo que comporta apenas distinções de grau (Lopes, 2008, p. 273). Ao recusar a tese de que há oposições absolutas, compreendendo toda oposição como meramente relativa e gradativa, Nietzsche está em condições de afirmar de modo consistente a origem a partir dos opostos. O movimento de um polo ao outro da suposta oposição se dá num processo entendido em analogia com o processo químico da sublimação: o que temos é uma transformação análoga à transformação química de um substrato material bruto e sólido numa forma mais sutil, na qual o elemento básico de volatilizou, mas ainda se mantém e pode ser percebido pelo olhar atento. É a partir deste procedimento analítico que a filosofia histórica pretende desmascarar as pretensões fundacionistas da metafísica, ao universalizar a tese do devir e entender todo existente como produto de um processo que deve ser investigado empiricamente, isto é, com base nos métodos mais recentes das ciências da natureza.
A recusa do pressuposto metafísico de que há oposições absolutas, que resulta numa compreensão do real em termos de um continuum de gradações, faz da filosofia histórica proposta por Nietzsche uma versão moderna do heraclitismo em seus dois aspectos centrais, tal como apresentado em A filosofia na época trágica dos gregos (FTG §5): a tese da mudança ininterrupta e a tese da copresença dos opostos. Essas duas teses estão diretamente associadas às duas negações que Nietzsche atribui a Heráclito: a negação da dualidade dos mundos e a negação do ser. Ademais, a tese da mudança ininterrupta rejeita a noção de identidade diacrônica; a tese da copresença dos opostos, por sua vez, rejeita a noção de identidade sincrônica e implica igualmente uma recusa da formulação aristotélica do princípio de não contradição, cuja versão ontológica é o que fundamenta a elaboração de seu conceito de substância no livro IV da Metafísica. É justamente a partir deste ponto que Meyer (2014) interpreta o aforismo 1 de Humano como proponente de uma “ontologia relacional” que retoma os traços mais fundamentais da doutrina do devir de Heráclito, razão pela qual ele considera, seguindo as sugestões de Heller (1972) e Glatzeder (2000), que o texto sobre os filósofos trágicos é um texto-chave para compreender o problema dos opostos. Este problema figura em HH 1 como o problema principal da história da filosofia ocidental, entendida em termos de uma tradição metafísica. Enquanto Anaximandro teria introduzido o problema dos opostos e da procedência do devir, instaurando um dualismo metafísico e reconduzindo a explicação a uma interpretação moral do mundo segundo as categorias de culpa e expiação (FTG §4) - uma leitura elaborada por Nietzsche claramente através das lentes do pessimismo de Schopenhauer -, Heráclito e Parmênides representariam duas alternativas distintas e mutuamente excludentes para solucionar o problema: o primeiro corresponderia àquilo que Nietzsche chamará de filosofia histórica, ao passo que o segundo representaria a proposta da filosofia metafísica (Meyer, 2014, p. 7; cf. ainda Glatzeder, 2000, p. 87ss).
De fundamental importância aqui é ainda a crítica de Nietzsche à tese, presente tanto em Aristóteles quanto em Parmênides, de que o exame da linguagem e da forma lógica da proposição seria capaz de nos fornecer os critérios para a descoberta das determinações universais do ser. Trata-se do princípio geral do suposto isomorfismo entre pensamento e ser (Meyer, 2014, p. 91), criticado por ele especificamente em sua versão parmenídica no texto sobre os filósofos trágicos (FTG §11, 12). Outro ponto importante é a semelhança entre o modo de apresentação da questão da gênese a partir dos opostos em HH 1 e a forma como esse problema é colocado por Aristóteles, na Metafísica, como possível justificativa para a defesa da tese da coexistência dos opostos entre os pré-socráticos (Meyer, 2014, p. 104). Para ele, os pré-socráticos recusavam o princípio de não contradição porque a única forma de compreender como algo pode se originar de seu oposto é assumindo que os opostos estão copresentes no objeto.10 O aforismo 1 de Humano responde a essa pergunta com base na tese de que uma coisa se origina a partir de seu “oposto” por um processo de “sublimação”. Mas a afirmação de um tal processo instaura imediatamente o princípio de continuidade como princípio fundamental da teoria do devir, de modo que, ao se afirmar a origem de uma coisa a partir de seu oposto, ao mesmo tempo é negada a hipóstase da oposição, enquanto oposição absoluta, e esta é reconhecida como um erro da razão.11 No limite, podemos dizer que os opostos estão unidos em cada “coisa” ou fenômeno, e que o que muda é sempre o grau de domínio de um sobre o outro, assim como, nas palavras do Heráclito de Nietzsche: “em cada instante há luz e escuridão, amargo e doce, um junto ao outro e presos entre si, como dois lutadores dos quais ora um, ora outro adquire hegemonia”; em suma: “Todo vir-a-ser surge da guerra dos opostos: as qualidades determinadas, que se nos aparecem como sendo duradouras, exprimem tão só a prevalência momentânea de um dos combatentes, mas, com isso, a guerra não chega a seu termo, a luta segue pela eternidade” (FTG §5).
Se partirmos, a princípio, do aforismo 1 e daquilo que ele recupera do texto de juventude sobre os filósofos trágicos, devemos dizer que, ao recusar a tese das oposições e o dualismo dos mundos, a teoria do devir endossada por Nietzsche aqui não constitui uma metafísica no sentido em que ele a compreende.12 Para responder positivamente à pergunta colocada por Heller (se podemos compreender o heraclitismo de Nietzsche como uma “metafísica do devir”, cf. Heller, 1972, p. 9), teríamos então que adotar uma outra definição de metafísica. A sugestão de Heller é que compreendamos por metafísica não apenas a metafísica dos dois mundos ou do além-mundo, que postula um “em-si” absolutamente transcendente, mas qualquer afirmação acerca da “essência” do mundo (Heller, 1972, p. 19). Resistirei à tentação, à qual sucumbe o comentador, de vincular diretamente a teoria do devir de Humano à concepção das vontades de poder e do perspectivismo da obra madura. Não acredito que essa seja uma opção interpretativa promissora. Nada no modo como Nietzsche apresenta sua teoria do devir em Humano nos permite pensá- lo como uma dinâmica de forças cuja relação deve ser descrita em termos intencionais, isto é, a partir de um vocabulário mentalista, com base nas noções de perspectiva e interpretação. A estratégia de Nietzsche, nesse momento, está muito mais próxima de um reducionismo, fato reconhecido explicitamente por Heller (1972, p. 9s). O princípio metodológico de sua nova abordagem dos problemas filosóficos é a redução de todos os conceitos e representações e dos assim chamados sentimentos de valor superiores a processos que devem ser descritos historicamente, psicologicamente, fisiologicamente, quimicamente; em suma, no quadro de uma grande física descritiva (Glatzeder, 2000, p. 36). Com essa redução, as coisas consideradas de mais alto valor devem poder ser descritas, do ponto de vista de sua gênese, como formas complexas e altamente desenvolvidas de certos fenômenos humanos resultantes de um processo de sublimação a partir dos materiais mais baixos e desprezados. Nesse sentido, a noção de química pode ser tomada também no sentido literal, como modelo descritivo das transformações da matéria: com ela, devemos poder mostrar como algo se origina a partir de seu oposto.13
Assim, o método reducionista desta química geral, enquanto teoria das transformações, parece estar vinculado a uma concepção acerca do real: trata-se de uma realidade que deve ser descrita, em todos os seus aspectos, como processual, como uma realidade em constante devir. É exatamente essa perspectiva que caracteriza a filosofia de Nietzsche como uma filosofia histórica, a verdadeira filosofia do devir, e a insere no quadro de uma grande “ciência filosófica” (HH 27). Nesse sentido, o reducionismo científico proposto por Nietzsche poderia ser lido como uma teoria acerca do caráter dinâmico-energético da essência das coisas. Enquanto tal, ele constituiria uma metafísica no segundo sentido apontado por Heller.
Uma alternativa a essa leitura seria compreender o heraclitismo e seu apelo ao reducionismo como uma hipótese que nos fornece o modelo descritivo mais abrangente e econômico do mundo fenomênico, sem qualquer compromisso com uma posição realista (Heller, 1972, p. 19). Essa leitura aproximaria Nietzsche do fenomenismo de Lange e, caso esteja correta, refutaria a interpretação que propus, segundo a qual a opção metodológica deriva de uma tomada de posição ontológica. Lopes (2008) argumenta que, se tivermos em vista o percurso intelectual de Nietzsche, essa seria de fato a forma mais correta de interpretar a relação entre suas reflexões epistemológicas (que envolvem uma decisão metodológica em favor das ciências empíricas) e suas posições no campo da ontologia. A leitura de Lopes se baseia numa argumentação muito sofisticada, que parte de uma análise comparativa entre Nietzsche e o pirronismo antigo, em especial no que tange ao vínculo entre o ceticismo de Enesidemo e o heraclitismo (cf. Brochard, 2009, p. 278ss), paralelamente a uma análise genética dos textos de juventude sobre os filósofos pré-socráticos, buscando compreender o desenvolvimento de suas posições epistemológicas à luz de sua trajetória filosófica. Mesmo reconhecendo “a incontestável anterioridade lógica do devir nas reflexões epistemológicas de Nietzsche”, Lopes defende que isso “não deve nos cegar para o fato de que, do ponto de vista de seu percurso intelectual, a opção pelo devir deve ser vista como um resultado de sua conversão prévia ao ceticismo epistemológico de cunho fenomenista” (Lopes, 2008, p. 225).14
Este não é o lugar para uma discussão mais detida desta tese interpretativa.15 Vale destacar, contudo, que ela sugere uma leitura ontologicamente deflacionada do reducionismo proposto por Nietzsche aqui, num sentido muito próximo da segunda alternativa apresentada por Heller para a compreensão do heraclitismo nietzscheano. Tratar-se-ia, nesse caso, de uma estratégia argumentativa que “não pretende reduzir complexos afetivos a seus constituintes ontológicos elementares, sejam eles químicos ou físicos, mas simplesmente mostrar que a reivindicação metafísica de uma origem transcendente para determinados afetos ignora que eles resultaram de um processo de sublimação de um mesmo fenômeno demasiado humano” (Lopes, 2008, p. 274). Contra essa leitura deflacionista falam alguns fragmentos póstumos em que Nietzsche demonstra clara inclinação a uma tese reducionista mais robusta. O fragmento mais importante nesse contexto talvez seja o 23[9] de 1876, onde ele sugere a possibilidade de reduzir tudo aquilo que recai sob o conceito de “impulso” a “leis químicas e mecânicas”.16
Mas há também outros problemas aqui. Além de Nietzsche se valer ainda com bastante frequência das noções de “impulso” e “instinto”, ele nega, como veremos em mais detalhes na sequência, qualquer correspondência entre nossos conceitos de identidade (em especial os conceitos de “coisa”, “matéria”, “átomo” etc.) e a realidade, razão pela qual ele certamente não pode assumir uma realidade estruturada essencialmente segundo o modelo mecânico, ao qual tudo pudesse ser reduzido. Por si só, porém, esse último argumento não significa que ele não esteja disposto a assumir a possibilidade de uma redução de todo fenômeno a um conjunto relacional de forças segundo o modelo de uma física dinâmica, não comprometida com a ontologia de base do mecanicismo tradicional, marcadamente atomista e materialista.17 Mas não nos ocuparemos desse problema específico no momento.
Retornemos então à nossa questão principal acerca da possibilidade de caracterizarmos o heraclitismo de Nietzsche como uma posição metafísica, tendo em vista que se trataria de uma teoria acerca da essência das coisas, como afirma Heller. Essa interpretação é sugerida igualmente por Richardson (1996, p. 74), que compreende as teses nietzscheanas sobre o devir como uma ontologia ou metafísica, não se importando em fazer uma distinção entre esses dois conceitos. Segundo ele, apesar de a teoria do devir atacar claramente a ontologia tradicional, isto é, a forma como os filósofos tradicionalmente encararam a questão, dando prioridade à ideia de “ser”, ela ainda assim envolve um conjunto de teses sobre o ser ou a essência, sobre aquilo que as coisas são.
A teoria do devir é uma teoria sobre a realidade e, enquanto tal, constitui uma ontologia ou uma metafísica não tradicional.
Isso não quer dizer que, de um ponto de vista sistemático, não possamos encarar a questão com base numa definição tradicional. A definição aristotélica é um bom ponto de partida e, mesmo que esse expediente argumentativo possa parecer anacrônico num primeiro momento, ele não é ilegítimo, uma vez que Aristóteles é uma das personagens que figuram nas primeiras reflexões de Nietzsche sobre os primórdios da metafísica e da ontologia entre os gregos. O recurso a Aristóteles é ainda, como vimos, um ponto importante da leitura que faz Meyer (2014) das posições de Nietzsche. Ora, se a metafísica é, segundo Aristóteles, a ciência do ente enquanto ente (ou do ser enquanto ser), e se compete a uma e à mesma ciência estudar a negação ou privação daquilo que constitui seu objeto, “porque, de ambos os modos, estuda-se uma só coisa, da qual é a negação ou a privação” (Met. 1004a 9), então uma teoria que nega o ser é ainda uma teoria “sobre o ser” e, enquanto tal, uma ontologia ou metafísica. Não é sem razão, portanto, que o estagirita se confronta com as teorias de Heráclito e dos heracliteanos em sua discussão sobre o princípio primeiro da ciência do ser em geral: o princípio de não contradição; e essa discussão é explicitamente referida por Nietzsche em sua própria apresentação de Heráclito em A filosofia na era trágica dos gregos: ante a formulação da tese da coexistência dos contrários, de que “tudo possui sempre o contrário em si”, “Aristóteles lhe imputa, diante do tribunal da razão, o mais alto delito, a saber, o de ter pecado contra o princípio de contradição” (FTG §5).18
III
Minha leitura acata essas sugestões, ainda que, para a caracterização da posição nietzscheana, eu prefira me valer apenas do termo “ontologia” e evitar o termo “metafísica”, uma vez que, como vimos, a noção de metafísica é um operador conceitual importante no texto de Nietzsche e indica diretamente o objeto de sua crítica, não seus pressupostos. Sob o conceito de metafísica, tal como o filósofo a entende, devemos compreender, em primeiro lugar, uma doutrina que afirma a existência de qualquer tipo de instância transcendente na qual nosso conceito mais geral de “substância” possa ser instanciado. Seguindo as indicações de Spir, ele tende a vincular a noção de substância às noções de ser, de identidade, incondicionado, coisa em si e essência (HH 1, 9, 10, 16, 18, 19), compreendendo-a como uma categoria subjetiva que serve de base para a organização e estruturação da experiência e que responde a demandas relativas à adaptação dos organismos ao meio, tendo assim uma função vital. Ela remonta, portanto, às fases mais arcaicas de nosso desenvolvimento enquanto seres orgânicos, cuja elucidação é tarefa daquele ramo da ciência filosófica denominado por ele de “história da gênese do pensamento” (HH 16, 18) ou “história da evolução dos organismos e dos conceitos” (HH 10).19
Por “metafísica”, ele entende ainda todas as concepções que pressupõem um acesso àquela dimensão transcendente pelas vias de algum tipo de intuição ou sentimento, em especial no campo das experiências morais, religiosas e estéticas (HH 4, 10, 37, 131). Seus alvos principais continuam sendo os filósofos transcendentais, em especial Schopenhauer e Spir.20 Sua crítica se direciona às teses de cunho intuicionista que apostam em alguma forma de intuição ou sentimento supostamente capaz de nos colocar em contato com o absoluto ou a coisa em si. Entre as verdades científicas, diligentemente alcançadas segundo métodos rigorosos, e os pressentimentos da verdade aludidos na moral, na arte e na religião, há uma profunda diferença: estes últimos não possuem qualquer valor cognitivo, carecendo do mínimo de rigor metódico. A intuição não constitui qualquer forma de conhecimento num sentido epistemicamente relevante: trata-se meramente da expressão de uma necessidade psicológica, que tem uma origem histórica e que pode ser eliminada.
Mas não é somente a metafísica que se funda na crença de uma correspondência entre nossa categoria de substância e uma dimensão objetiva ontologicamente autônoma.Ametafísica é apenas a expressão mais clara e radical dessa crença: ao constatar a desarmonia entre nosso conceito de substância, por um lado, que pressupõe identidade incondicionada e permanência absoluta, e o caráter transitório e contraditório do mundo empírico, por outro, ela supõe, por inferência, a existência de uma dimensão para além do âmbito sensível na qual este conceito poderia ser instanciado. É isso que está por trás da afirmação de Nietzsche de que nossa imagem sensível do mundo é radicalmente “distinta da essência inferida do mundo” (HH 10).21 Esse argumento, que remonta aos primórdios da ontologia no pensamento de Parmênides (FTG §11), é retomado por Nietzsche igualmente de Spir.22
Como dito, porém, a crença na existência de substâncias, ou seja, numa correspondência entre nossos conceitos e a realidade, não é exclusividade da filosofia metafísica. Além de ser natural ao realismo do senso comum, a própria ciência depende desta crença, sobretudo do ponto de vista de sua gênese e de seu desenvolvimento (HH 11). No caso da ciência, porém, talvez possamos dizer que se trata de uma noção metafisicamente deflacionada de substância, um tanto mais liberal e, portanto, capaz de acomodar um determinado grau de transitoriedade, ao menos no que diz respeito às suas qualidades e às suas relações com outras substâncias, compreendidas em termos de causalidade. Estamos falando de nosso conceito geral de “coisa”, que depende igualmente da ideia de unidade, identidade numérica, permanência no tempo e autonomia ontológica. A lógica por trás da elaboração das teorias científicas tem algum parentesco com a metafísica na medida em que supõe um mundo de coisas estáveis e idênticas. Essa é uma crença que está na base da própria linguagem, com a qual “o homem estabeleceu um mundo próprio ao lado do outro, um lugar que ele considerou firme o bastante para, a partir dele, tirar dos eixos o mundo restante e se tornar seu senhor” (HH 11). A tese central de Nietzsche no aforismo 11 é a de que o desenvolvimento da ciência só foi possível a partir do estabelecimento da linguagem e de sua crença de base. Nesse sentido, em consonância com toda sua crítica tardia à linguagem, este aforismo 11 já apresenta a tese de uma concepção metafísica sendo contrabandeada para o interior de nossas visões de mundo através das estruturas da linguagem e de sua crença subjacente. A linguagem é um instrumento indispensável em nossa lida com o mundo e, ao fornecer o arcabouço estrutural para o desenvolvimento da ciência, ela torna possível tudo aquilo que chamamos hoje de conhecimento metódico e rigoroso. Contudo, em sua crença na linguagem, os homens “propagaram um erro monstruoso”; um erro que somente agora, após termos alcançado um grau elevado no desenvolvimento da ciência, pode ser reconhecido enquanto tal: a linguagem, assim como a lógica, a matemática e a ciência em geral, se baseia em “pressupostos que não têm correspondência no mundo real; por exemplo, na pressuposição da igualdade das coisas, da identidade de uma mesma coisa em diferentes pontos do tempo” (HH 11).23
O fato de que o conhecimento possibilitado pela linguagem tenha alcançado um patamar no qual ele é capaz de refletir sobre si mesmo e questionar seus próprios fundamentos comprova o caráter produtivo do erro na evolução da razão em geral e de nossas teorias sobre o mundo em particular. O erro tornou possível a ciência, ao fornecer o impulso para o desenvolvimento das formas da racionalidade científica, da lógica e da matemática. Ou seja, mesmo que Nietzsche reconheça o caráter falsificador da linguagem, na medida em que ela pressupõe igualdade, identidade e permanência, e mesmo que ele critique a ingenuidade daqueles homens de ciência que creem em suas verdades como verdades eternas, ele tem plena consciência de que, sem esses erros, a ciência não seria possível e, sem ciência, tampouco seria possível o conhecimento que temos hoje não só acerca do mundo, como também de nossas formas de interação com o mundo. Após um longo período no qual dominou uma falsa crença em torno da natureza da relação entre linguagem e mundo, a própria linguagem, agora na forma das mais recentes teorias científicas, torna possível uma autorreflexão e o reconhecimento dos próprios limites. Assim, “atribui-se às ciências o papel de depuração [daqueles] erros que atuam na fundação dos processos cognitivos” (Medrado, 2011, p. 298)
Uma das constatações mais importantes por trás da confiança moderada depositada por Nietzsche na capacidade descritiva e explicativa da ciência é a de que ela tende cada vez mais à elaboração de uma concepção inteiramente dinâmica da realidade. Apesar de não ser capaz de se livrar totalmente das grandezas falsas das quais dependem seus cálculos, já que a própria lógica e a própria matemática se baseiam em pressupostos que, de acordo com a teoria do devir, não têm correspondência no mundo real, o espírito científico é impulsionado essencialmente pela vontade de avançar cada vez mais, de forma metódica e rigorosa, em direção ao horizonte da verdade. Esse avanço ocorre sobretudo por meio da sucessão de teorias que se substituem umas às outras pelo critério da falsificação em função de novas evidências. Como argumenta Medrado, a ciência, mesmo sendo ainda uma interpretação do mundo, é “uma interpretação capaz de avançar em objetividade porque atua criticamente em relação às categorias que utiliza e porque colide um grande número de experiências” (Medrado, 2015, p. 47). O aforismo 19 é paradigmático no tocante a esse ponto. Ali, Nietzsche argumenta que o atomismo, num processo de desenvolvimento e reelaboração constante de seus próprios pressupostos, acaba por suprimir a si mesmo ao contestar sua tese mais fundamental: a existência do átomo como unidade última e indivisível da matéria:
Em todas as constatações científicas, calculamos inevitavelmente com algumas grandezas falsas: mas, sendo tais grandezas no mínimo constantes, [...] os resultados da ciência adquirem perfeito rigor e segurança nas suas relações mútuas; podemos continuar a construir em cima deles - até o fim derradeiro em que a hipótese fundamental errônea, os erros constantes, entram em contradição com os resultados, por exemplo, na teoria atômica. Então ainda nos sentimos obrigados a supor uma “coisa” ou “substrato” material que é movido, enquanto todo o procedimento científico perseguiu justamente a tarefa de dissolver em movimento tudo o que tem natureza de coisa (de matéria) (HH 19).24
Nietzsche se refere aqui, em especial, à teoria de Roger Boscovich, que, segundo carta de 20 de março de 1882 ao amigo Köselitz, “pensou a teoria atomística até o fim”,25 estabelecendo um modelo físico no qual o átomo é convertido em ponto inextenso e compreendido como centro dinâmico de forças.26 Ora, se as mais recentes descobertas científicas sugerem que aquilo que era considerado o fundamento da matéria deve ser visto como algo inextenso, isto é, imaterial, chegamos assim a uma compreensão preciosa acerca da validade e dos limites de nossos conceitos científicos, mas ao mesmo tempo, e em certo sentido, a um tipo de ‘conhecimento negativo’ sobre o mundo: não há nada no mundo que corresponda à suposta imutabilidade do átomo.27 Nesse sentido, as mais recentes ciências empíricas apontam para uma confirmação do heraclitismo e da teoria do devir, cuja principal tese é sintetizada na fórmula: “não há nada igual”, “não existe nenhuma ‘coisa’” (HH 19).28
Estamos, portanto, diante da seguinte tese: o progresso científico se dá sobretudo a partir do reconhecimento dos erros das teorias e de sua substituição, o que aumenta gradativamente o grau de verossimilhança ou de probabilidade das hipóteses científicas mediante a comparação de vários fenômenos e de vários modelos de interpretação dos fenômenos; em suma, de vários “erros”. Assim, na medida em que estabelecemos esse tipo de comparação e confrontamos nossas teorias com a multiplicidade dos fenômenos, com novas descobertas e com as hipóteses de teorias concorrentes, avançamos nos “graus” de aparência. Como afirma Lopes, Nietzsche assume a possibilidade de uma hierarquização, do ponto de vista epistemológico, de nossos enunciados sobre a realidade; eles podem conter um maior ou menor grau de probabilidade de erro. As teorias científicas, “na medida em que se aproximam idealmente de uma concepção puramente dinâmica do real, falsificam menos a realidade do que as proposições do senso comum e da metafísica substancialista” (Lopes, 2008, p. 204). Contudo, uma vez que a “intuição do devir” não pode ser adequadamente traduzida nos termos da linguagem conceitual, sempre permanecerá um resíduo do imperscrutável.
Como sugerido acima, isso faz com que parte considerável das verdades alcançadas cientificamente sejam de natureza meramente negativa. Um fragmento do ano de 1880 ilustra muito bem essa ideia:
O erro é a base do conhecimento, a aparência. Apenas pela comparação de diversas aparências surge a verossimilhança, graus de aparência, portanto. - Do mesmo modo, a linguagem é supostamente uma base de verdades em que se confia: o ser humano e o animal constróem primeiro um novo mundo de erros e aprimoram esses erros cada vez mais, de modo que incontáveis paradoxos são descobertos e, assim, a quantidade de erros é reduzida [...]. Somente há “verdade” nas coisas que o ser humano inventa, por exemplo, o número. Ele coloca ali alguma coisa e depois a reencontra - esta é a forma da verdade humana. Ademais, a maioria das verdades são, efetivamente, apenas verdades negativas: “isso e aquilo não é aquilo outro” (mesmo que na maioria das vezes elas sejam expressas positivamente). Esta é a fonte de todo progresso do conhecimento. (N 1880, 6[441])
Nessa dimensão da prática científica, na qual se torna claro o caráter produtivo do erro, as verdades alcançadas com método rigoroso serão sempre verdades relativas, e elas devem ser sempre avaliadas sob o pano de fundo da teoria geral da falsificação: nossos conceitos, uma vez que categorizam o mundo incontornavelmente segundo um esquema substancialista, falsificam sistematicamente a realidade do devir. Trata-se de uma teoria filosófica acerca da falsidade geral de nossas crenças quando confrontadas com o horizonte em última instância inapreensível do devir. Neste caso, o horizonte delineado pela tese do devir funciona ainda como motivador teórico fundamental da reserva falibilista que deve acompanhar todas as nossas investigações. Isso não quer dizer, porém, que esta tese tenha meramente o estatuto de formulação hiperbólica do falibilismo, sem qualquer pretensão ontológica.29 Como tenho sugerido, ela tem uma pretensão ontológica e tem, ao mesmo tempo, uma função pragmática do ponto de vista da psicologia da prática científica, pois assume um papel análogo àquele do Deus enganador de Descartes: o de impedir que o investigador conceda assentimento total a um determinado conjunto de hipóteses, mantendo-o assim na investigação. Desse modo, a pesquisa da verdade se mostra, no fim das contas, como um trabalho infinito (HH 637).30
Se o que dissemos até aqui estiver correto, podemos dizer que a posição de Nietzsche se aproxima de um realismo científico moderado, uma vez que a ciência, a despeito de possuir um caráter em grande medida instrumental, é ainda capaz de nos fornecer um vislumbre, mesmo que parcial e limitado, no interior da estrutura última do real, no caráter absoluto do devir. Apesar de não ser capaz de “romper de modo essencial o domínio de hábitos ancestrais” (HH 16) de percepção e pensamento, a ciência pode se aproximar da verdade mediante a construção progressiva de modelos cada vez mais dinâmicos de explicação e descrição do mundo e confrontando constantemente os paradoxos internos de suas teorias. Ela pode, então, “de maneira bastante lenta e gradual, iluminar a história da gênese desse mundo como representação - e, ao menos por instantes, nos elevar acima de todo o evento” (HH 16). É com a ciência, portanto, e não com a religião, a arte e a moral, que o homem chega mais perto “da real essência do mundo e de seu conhecimento” (HH 29).
Dois importantes fragmentos póstumos do período tornam essa tese ainda mais clara e lançam uma boa luz sobre nossa interpretação dessas passagens, uma vez que sintetizam de forma bastante didática um conjunto de teses apresentadas de modo esparso em vários aforismos citados acima (HH 2, 11, 16, 18, 19, 29). O primeiro deles é o fragmento 23[26] de 1876, no qual Nietzsche escreve o seguinte:
Em grau cada vez maior, quanto mais desenvolvido é o ser humano, mais ele percebe o movimento, a impermanência, o processo. Para o ser humano menos desenvolvido, a maioria das coisas parece ser fixa, não apenas opiniões, costumes, mas também fronteiras, terra e mar, montanhas, etc. É apenas de modo lento e gradual que o olho dispõe-se à percepção do movimento. Foi preciso imensos espaços de tempo para apreender o permanente, o aparentemente estável; essa foi sua primeira tarefa, já as plantas talvez a tenham aprendido. Por isso, a crença em “coisas” se tornou no ser humano tão inabalavelmente firme, assim como a crença na matéria. Mas não há coisas, tudo flui - assim julga a intelecção, mas o instinto contradiz a todo momento. (N 1876, 23[26])
Deparamo-nos aqui com uma versão da tese apresentada no aforismo 18 acerca da origem e do caráter cognitivamente incontornável do princípio de identidade como lei orgânica de determinação da experiência, que nos liga aos períodos mais arcaicos de desenvolvimento dos organismos - mas dessa vez contraposta claramente à tese do vir-a-ser universal. Devido ao caráter categórico desta “lei do pensamento”, a crença em coisas e na materialidade do mundo se tornou instintiva e se contrapõe sistematicamente à intelecção cada vez mais consistente que nos é fornecida pela ciência acerca do caráter do mundo enquanto devir.31 Retomemos um trecho do aforismo 18: “Do período dos organismos inferiores o homem herdou a crença de que há coisas iguais (só a experiência cultivada pela mais alta ciência contradiz essa tese)” (HH 18). Ou seja, é somente no interior de uma visão de mundo construída com base nos mais recentes resultados de nossas melhores teorias científicas que poderemos nos distanciar parcial e gradativamente daqueles erros herdados e incorporados.
Voltemo-nos agora ao segundo fragmento póstumo mencionado acima. Trata-se do fragmento 23[150] do mesmo caderno de notas, no qual Nietzsche desmascara as ilusões por trás da reivindicação de que a arte possa dizer alguma coisa sobre a essência do mundo:
ela [a arte] não captura a essência das coisas, pois ela está totalmente atrelada ao olho e ao ouvido. Somente o entendimento dedutivo nos conduz à essência. Ele nos ensina, por exemplo, que a matéria mesma é um preconceito antiquíssimo encarnado em nós, de onde se conclui que o olho vê superfícies especulares e que o órgão tátil humano é muito obtuso: onde se percebe pontos antagônicos, constrói-se involuntariamente planos contínuos antagônicos (que contudo só existem na nossa representação), sob a ilusão habitual do olho especular, que, no fundo, também não passa de um órgão tátil grosseiro. Uma esfera de correntes elétricas, que se invertem em determinados pontos, seria sentida e percebida como algo material, como uma coisa fixa: e o átomo químico é uma tal figura, circunscrita a partir dos pontos limítrofes de diversos movimentos. Estamos habituados a separar o movido e o movimento; mas, com isso, nos encontramos sob influência de antiquíssimos erros de inferência: a coisa movida é inventada, fantasiada, pois nossos órgãos não são suficientemente sutis para perceber o movimento geral, e simulam algo persistente: quando, no fundo, não há “coisa”, não há nada permanente. (N 1876, 23[150])
Como dito, o mérito destes fragmentos póstumos consiste em sintetizar, de uma maneira bastante elucidativa, uma série de reflexões e teses elaboradas muitas vezes implicitamente e de modo esparso e espalhado em vários aforismos do primeiro capítulo de Humano. Aquilo que é referido no primeiro fragmento como a “intelecção” que “julga” (so urtheilt die Einsicht) é apresentado no segundo fragmento como o “entendimento dedutivo” (der schließende Verstand), e não é outra coisa que “a experiência cultivada pela mais alta ciência” (HH 18). A teoria das forças de Boscovich continua sendo o melhor exemplo do que Nietzsche tem em mente aqui.
IV
Ao afirmar que ao mundo como representação, construído sobre a base de uma série de erros fixados na história evolutiva da espécie (HH 16, 18) como um mundo de coisas estáveis e semanticamente referenciáveis (HH 11, 19), se opõe um mundo caótico de um devir permanente e inapreensível, Nietzsche não estaria se aproximando de uma metafísica dos dois mundos muito semelhante àquela criticada por ele? Julian Young (1992, p. 60s.) sugere essa leitura,32 identificando na “metafísica do devir” de Humano a mesma forma de dualismo presente na relação entre o Uno-primordial e os entes individuados do mundo fenomênico, elaborada no Nascimento da tragédia com base na metafísica de Schopenhauer. A diferença estaria apenas no fato de que, na obra de juventude, sob a insígnia de uma visão romântica do mundo, o acesso àquela dimensão metafísica nos seria concedido pela arte, em especial na figura do gênio, ao passo que em Humano é a ciência que assume esse papel. De fato, o aforismo 29 acima citado dá margem para uma leitura nesse sentido. Acredita-se vulgarmente, diz-nos Nietzsche, que quanto mais o homem se afasta dos animais e se aproxima da genialidade artística, “tanto mais perto chega da real essência do mundo e de seu conhecimento: isso ele realmente faz com a ciência, mas pensa fazê-lo mais ainda com suas religiões e suas artes” (HH 29. Cf. ainda HH 164 e N 1876, 23[173]). A “real essência do mundo”, à qual a ciência nos dá algum acesso, parece ser identificada aqui àquela mesma dimensão que os metafísicos e os entusiastas da teoria romântica do gênio acreditam ver desvendada na arte e na religião. O trecho que se segue, contudo, relativiza bastante essa suposta identificação: “O erro tornou o homem profundo, delicado e inventivo. O puro conhecimento teria sido incapaz disso. Quem nos desvendasse a essência do mundo, nos causaria a todos a mais incômoda desilusão” (HH 29).
O que esse trecho do aforismo nos informa é que a metafísica não apenas estabelece um dualismo dos mundos, como supõe que o mundo metafísico ou suprassensível deve fornecer o critério para a avaliação do mundo da vida, respondendo diretamente a nossas demandas normativas. Lopes apresenta essa ideia nos seguintes termos:
O que confere importância à suposição de um mundo metafísico são justamente os erros, as ilusões, em resumo, o trabalho da imaginação, que projeta no mundo metafísico a riqueza de significados contida no mundo da representação e com isso pretende que o destino do mundo da representação está essencialmente ligado ao que se passa no mundo supra-sensível. (Lopes, 2008, p. 302)
A resposta de Nietzsche a essa forma deturpada de raciocínio é que “não é o mundo da coisa em si, mas o mundo como representação (como erro) que é tão rico em significado” (HH 29). Diante disso, é preciso compreender que, se a ciência nos fornece um conhecimento capaz de romper parcialmente os erros e hábitos de percepção e pensamento herdados, possibilitando um curto sobrevoo para além das formas sensíveis que limitam nossa percepção do mundo como representação, o que ela nos abre com isso não é a imagem de um “outro mundo”, como sugere a leitura dualista de Young. Muito mais acertada me parece a interpretação de Meyer (2014, p. 49), segundo a qual as teorias científicas que nos revelam o mundo do devir não produzem um segundo mundo, como no caso do mundo metafísico, mas sim uma segunda descrição do mesmo mundo que se revela aos nossos sentidos; uma descrição mais profunda, contudo, e que vai de encontro a todas as pressuposições metafísicas tradicionais que projetam nesse mundo algum sentido moral ou autoridade normativa:
Na natureza não há som, ela é muda; não há cores. Também não há formas, pois esta é o resultado de um reflexo da superfície no olho, mas em si não existe nem cima nem baixo, nem dentro nem fora. Se pudéssemos ver de outro modo, não em função do reflexo, não falaríamos de formas, mas talvez víssemos no interior, de modo que o olhar penetrasse gradualmente a coisa. A natureza, tão logo lhe retiremos o sujeito, é algo muito indiferente, desinteressante, não é um fundamento originário misterioso, não é um enigma do mundo revelado; através da ciência, somos capazes de ir de muitas formas além da apreensão dos sentidos, por exemplo, compreender o som como um movimento vibratório; quanto mais desumanizamos a natureza, mais vazia e sem sentido ela se torna para nós. (N 1877, 23[150])33
Esse trecho do fragmento 23[150], já citado anteriormente, lança uma boa luz sobre a interpretação do aforismo 29 e, ao lado dele, do importante e polêmico aforismo 9. Tendo isso em vista, o passo seguinte na interpretação proposta aqui seria uma discussão detida deste último aforismo, no qual Nietzsche propõe qual seria a posição mais racional a ser assumida ante a possibilidade de um mundo metafísico e, em um crescendendum argumentativo em torno da relação entre interesse teórico (epistêmico) e interesse prático (ético ou moral) pelas questões metafísicas - em especial pelo problema da coisa em si -, termina por recusar que a ideia de mundo metafísico seja capaz de continuar exercendo a força normativa que se lhe havia atribuído, como guia para nossas práticas no mundo da vida, em função do lugar ocupado por ela historicamente no seio de nossa cultura moral. Contudo, para não estender este artigo além dos limites propostos, reservarei essa discussão para um trabalho futuro, que se dedicará exclusivamente a este texto.
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