Lua Nova: Revista de Cultura e Política, Issue: 75, Published: 2008
  • Apresentação

  • Violences from below, violences from above in the russian revolution

    Werth, Nicolas

    Abstract in Portuguese:

    Defensores de uma ideologia que fazia da violência das massas o motor da História, de um projeto político fundado no terror como instrumento primitivo e em uma visão radical e explicativa que legitimava o uso da violência a serviço de um modelo político-militar de construção de uma sociedade nova, os bolcheviques souberam, melhor do que seus adversários, instrumentalizar e canalizar as violências sociais. Porém, a brutalização do corpo social do ex-império russo teve, em contrapartida, um impacto crucial sobre o próprio bolchevismo. Ela fortaleceu certos postulados leninistas sobre a violência como "verdade da política" e ativou a identificação da política e da guerra por meio de uma surpreendente inversão da fórmula de Clausewitz, "a política como continuação da guerra por outros meios". Surgiu, assim, uma verdadeira "cultura política da violência" que se instalou, muito rapidamente, no coração do Estado "sucessor" do ex-império czarista, a URSS.

    Abstract in English:

    Supporters of an ideology which made mass violence the engine of History, and a political project founded on Terror as a primitive tool and a radical view which endorsed violence at the service of a political-military model to a new society, the bolsheviks were able, as no one else, to use and channel social violences. However, the brutalization of the social body of the old Russian empire had a crucial effect on Bolshevism itself. It enhanced some Leninist assumptions on violence as "the truth of politics" and activated the identification of politics and war, surprisingly inverting Clausewitz's words, "politics as the continuation of war through other means". In the end, a true "political culture of violence" emerged within the very heart of the State which replaced the Tzarist Empire, the USSR.
  • The Russian Revolution in historical and comparative perspective

    Florenzano, Modesto

    Abstract in Portuguese:

    Sugere-se uma comparação da Revolução Russa de 1917 com a Revolução Francesa de 1789 e a Revolução Inglesa de 1640. Se uma Revolução tornou-se possível na Inglaterra, na França e na Rússia, foi porque, nos seus antigos regimes, produziu-se uma divisão fatal no establishment, vale dizer, entre classes e/ou frações de classes dominantes e o poder. A difusão e a força do puritanismo, do iluminismo e do socialismo, nas sociedades inglesa, francesa e russa do antigo regime, eram a um só tempo sintoma e conseqüência desse mal-estar espiritual e desse conflito político no interior de suas respectivas classes dominantes (e destas, obviamente, com relação às classes dominadas). Em contrapartida, e como uma espécie de contraprova ao que se está afirmando, nem na Prússia/Alemanha, nem no Piemonte/Itália, em 1848-1849 e em 1918-1919, existiu algo semelhante; daí a impossibilidade de uma revolução nesses dois países e nesses dois momentos cruciais.

    Abstract in English:

    The article suggests a comparative view on the Russian Revolution of 1917, the French Revolution of 1789 and the English Revolution of 1640. It argues that a revolution became possible in England, France and Russia because a fatal split broke the old regime's establishment, that is to say, a divide between classes, and/or fractions of upper classes, and power. The strenght and diffusion of puritanism, enlightenment and socialism througout old regime's English, French and Russian societies, were both the sign and the effect of that spiritual malaise and that political conflict within their respective upper classes (and so, of course, in relation to their subordinate classes). On the other hand, as a counterproof of what it is just said, neither Prussia/Germany nor Piemont/Italy, in 1848-1849 and 1918-1919, had something similar; so that a revolution was impossible in those countries and crucial moments.
  • The Russian Revolution and the international system

    Ricupero, Rubens

    Abstract in Portuguese:

    Tomando-se como ponto de partida a análise de Henry Kissinger sobre o assunto, é concebível, embora raro na prática, distinguir a intensidade revolucionária interna de certo regime da maneira como ele se insere no sistema internacional, dependendo, é claro, de sua maior ou menor tolerância em relação ao elemento revolucionário. É por isso que o exemplo dado por Kissinger de "política exterior revolucionária", isto é, da que põe em causa o sistema mesmo, é o da Alemanha nazista, não o da Rússia da Revolução. Essa constatação contraria a percepção que tinham do papel internacional da Revolução Russa tanto seus autores e herdeiros quanto os contemporâneos e sucessores nas democracias parlamentares européias e nos Estados Unidos e que haveria de se prolongar por toda a duração da Guerra Fria. Vale a pena, assim, explorar os motivos históricos da diferença entre percepção e realidade.

    Abstract in English:

    Out of Henry Kissinger's analysis about the subject, it is conceivable, though rare in practice, to distinguish the internal revolutionary intensity of a country's political rule from the way it finds a room in the international system - depending, of course, on the level of flexibility that the system itself affords to the revolutionary element. That is why Kissinger gives Nazi Germany as an instance of "revolutionary external policy", and not revolutionary Russia. That contradicts the perception of their own protagonists and heirs as well as the contemporary observers, and their successors, of the European parlamentary democracies and the United States - a view resilient enough to persist along all the Cold War era. So that it is worthwhile to explore the historical reasons of the break between perception and reality.
  • The rise and fall of Soviet Union: the empire of nations

    Suny, Ronald Grigor

    Abstract in Portuguese:

    A URSS foi o primeiro Estado na história a organizar-se como uma federação de nações soberanas ostensivamente iguais, ainda que de fato se assemelhasse mais a um império com uma metrópole dominante governando uma periferia multinacional. A intenção original dos líderes soviéticos no sentido de ultrapassar o nacionalismo acabou ensejando a criação de nações coerentes e conscientes em algumas das repúblicas soviéticas e, uma vez desintegrado o centro, sob Gorbatchov, a união também se desintegrou. Este artigo explora os objetivos, práticas e contradições da política soviética a respeito de nacionalidade, de Lenin a Stalin e até a Gorbatchov, para se entender tanto o poder como a fragilidade da federação socialista soviética.

    Abstract in English:

    The USSR was the first State in history to organize itself as a federation of ostensibly equal sovereign nations, yet in its actuality it was more like an empire with a dominant metropole ruling over a multinational periphery. The original intentions of the Soviet leaders to move beyond nationalism ultimately gave way to the creation of coherent and conscious nations in some of the Soviet republics, and once the center disintegrated under Gorbachev, the union did as well. This paper explores the aims, practices, and contradictions of Soviet nationality policy from Lenin to Stalin and on to Gorbachev to understand both the power and the fragility of the Soviet socialist federation.
  • Empire, state and ideology in stalinist USSR

    Pons, Silvio

    Abstract in Portuguese:

    Muito aproximativos são os atuais conhecimentos sobre os processos de decisão e as estratégias que sustentaram a ascensão da potência soviética sob a liderança de Stalin, um legado irremovível quase até o fim. Vários documentos de arquivo permanecem fora do alcance dos investigadores, a começar por uma parte essencial das cartas pessoais de Stalin. Contudo, insistir na decision making pode ser um equívoco, pois o problema parece ser mais amplo: ele é resultado da dificuldade de se obter uma síntese interpretativa e um consenso historiográfico em torno das motivações profundas da política e da perspectiva imperial, dos elementos culturais e ideológicos que tinham prioridade nas estratégias de Stalin, das motivações e dos objetivos dessas mesmas estratégias. O presente artigo faz uma reflexão em torno dessa dificuldade.

    Abstract in English:

    Too much aproximate indeed is the present understanding of the decision-making processes and strategies that gave support to the rise of the Soviet power under the leadership of Stalin, an insurmountable legacy almost to the end. Many archive sources are still out of reach, an essential part of Stalin's personal letters to begin with. However, to insist on decision making may be a mistake, because the problem seems wider: the difficulty of achieving an interpretative synthesis and historiographical consensus about the deep motivations underlying the imperial perspective and policies, the cultural and ideological elements of Stalin's strategies and their own motivations and objectives. This article is a reflection on that difficulty.
  • Communism in the Twentieth-Century history

    Groppo, Bruno

    Abstract in Portuguese:

    O comunismo do século XX teve, desde seu início, uma dimensão dupla: o movimento revolucionário, por um lado; o sistema de poder estatal, por outro. Os dois aspectos são indissociáveis. A história do comunismo como movimento revolucionário em escala mundial está estreitamente ligada à história da Rússia e, em seguida, à da União Soviética. E o sistema soviético, na configuração definitiva que lhe foi impressa pelo stalinismo, foi ao longo de muitas décadas o modelo de referência para o conjunto do mundo comunista. Em outras palavras, o comunismo do século XX identifica-se primordialmente com a experiência histórica do poder soviético. Os demais comunismos, heréticos ou dissidentes em relação à ortodoxia stalinista, desempenharam um papel menos importante, freqüentemente marginal.

    Abstract in English:

    Twentieth-century communism had, since the beginning, a double dimension: the revolutionary movement, on the one hand; the state power system, on the other. Both sides are inseparable. The history of communism as a revolutionary movement in world scale is intimately linked to the Russian and then Soviet history. And the Soviet system, in the final configuration stalinism gave to it, was a model to the whole communist world along many decades. So that twentieth-century communism is primordially identical with the historical experience of the Soviet power. Other brands of communism, heretical or dissident to Stalinist ortodoxy, performed a less important, often marginal, role.
  • On the intellectual prehistory of equalitarist totalitarianism

    Fausto, Ruy

    Abstract in Portuguese:

    O artigo visa a estudar algumas das condições lógico-históricas do totalitarismo "de esquerda", denominado "totalitarismo igualitarista". A primeira parte procura mostrar como há um ponto cego no marxismo - teoria hegemônica na esquerda no século XX - no que se refere à democracia, e como esse ponto cego criou condições favoráveis à emergência do totalitarismo e da sua ideologia. A segunda parte traça uma gênese do totalitarismo igualitarista. A referência primeira é o bolchevismo como ideologia e prática pré-totalitárias. A partir dele, faz-se um duplo movimento lógico: 1) regressivo, mostrando como, para aquém do marxismo, o bolchevismo retoma a política do jacobinismo e como vai fundir essa herança jacobina com diferentes elementos que o marxismo herda de tradições anteriores; 2) progressivo, analisando a passagem do neojacobinismo bolchevique à ideologia e prática do neodespotismo stalinista.

    Abstract in English:

    The article aims at some logical-historical conditions of "left-wing" totalitarianism, or "equalitarist totalitarianism". The first part intends to show that there is a blind spot in marxism - the twentieth-century hegemonic theory on the left - about democracy, and how that same blind spot gave favorable conditions to the rise of totalitarianism and its ideology. The second part traces a genesis of equalitarist totalitarianism. The outstanding reference is bolshevism as pretotalitarian ideology and practice. From that point, the article makes a double logical move: a regressive one, showing how, below marxism, bolshevism rescues the jacobinist politics and how it is going to fuse the jacobinist legacy with the previous traditions blended in marxism itself; and a progressive one, analysing the passage from bolshevik neojacobinism to the ideology and practice of stalinist neodespotism.
  • Revolution 2008-?

    Dunn, John

    Abstract in Portuguese:

    Por dois séculos, a experiência da França em 1789 transformou a relativamente anódina categoria da revolução num eixo obrigatório do juízo político em todo o mundo. Nessa longa travessia, ela serviu mais insistente e efetivamente para definir a lealdade e a antipatia políticas do que para dirigir a agência política para fins bem definidos e politicamente acessíveis. O que a equipou para fazer isso foi uma imagem das exigências imperiosas e abrangentes da razão humana no interior da vida coletiva. Mas é duvidoso hoje que tais pretensões sejam capazes de oferecer uma base massiva de solidariedade para reconstruir a sociedade e a política, depois do colapso ou derrubada de um regime.

    Abstract in English:

    For two full centuries the experience of France in 1789 turned the relatively anodyne category of revolution into a mandatory axis of political judgment across the world. Throughout that long traverse it served more insistently and effectively to define political allegiance than to direct political agency towards well defined and potentially accessible ends. What equipped it to do this was a picture of the comprehensive and imperious requirements of human reason within the collective life. But it is dubious today that those claims are still able to offer a massive basis of solidarity for reconstructing society and polity in the aftermath of regime collapse or overthrow.
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