Open-access Notas sobre a gestão do comércio, da casa e do sangue no Haiti central*

Notes on the management of trade, household and blood in central Haiti

Apuntes sobre la gestión del comercio, la casa y la sangre en Haití central

Resumo:

No Haiti, diversas estratégias são usadas para evitar que o dinheiro seja “comido” ou “estrague” (ambas expressões comuns no crioulo haitiano). Há uma concepção particular do dinheiro enquanto um bem perecível que, caso não se reproduza a tempo, logo entrará em processo de decomposição. O dinheiro aparece como uma substância cujos fluxos estão diretamente relacionados a oscilações de vitalidade, que precisa ser gerida [jere] com habilidade e conhecimento para que floresçam (assim como o sangue). O trabalho investiga o gênero da atividade comercial no Haiti, articulando a gestão do capital e mercadorias no âmbito do comércio, por um lado, às formas de gestão dos recursos e pessoas da casa, por outro. A relação entre a gestão das provisões (os recursos da casa) e de empreitadas comerciais revela elementos fundamentais sobre a posição ocupadas pelas mulheres nesse universo.

Palavras-chave:
Haiti; comércio; casa; maternidade

Abstract:

In Haiti, several strategies are used to prevent money from being “eaten” or “spoiled” (both common expressions in Haitian Creole). Money is conceived as a perishable good that, if not properly reproduced, will soon decompose. Money appears as a substance, and its flows are directly related to oscillations in vitality. It needs to be managed [jere] with skill and knowledge to flourish (just like blood). We will investigate the gender of commercial activity in Haiti, articulating the management of capital and goods in commercial dealings, on one hand, to the management of resources and people at home, on the other. The relationship between the management of household resources and of commercial enterprises reveals fundamental elements about women’s position in this universe.

Keywords:
Haiti; commerce; house; maternity

Resumen:

En Haití, se utilizan varias estrategias para evitar que el dinero sea “comido” o “estropeado” (ambas expresiones comunes en criollo haitiano). El dinero es concebido como un bien perecedero que, si no se reproduce adecuadamente, pronto se descompondrá. El dinero aparece como una sustancia, y sus flujos están directamente relacionados con las oscilaciones de vitalidad. Necesita ser administrado [jere] con habilidad y conocimiento para florecer (al igual que la sangre). Investigaremos el género de la actividad comercial en Haití, articulando la gestión del capital y de los bienes en las transacciones comerciales, por un lado, con la gestión de los recursos y de las personas en el hogar, por el otro. La relación entre la gestión de los recursos del hogar y de las empresas comerciales revela elementos fundamentales sobre la posición de las mujeres en este universo.

Palabras clave:
Haití; comércio; casa; maternidad

Introdução

O presente texto parte de uma pesquisa etnográfica sobre mulheres comerciantes numa vizinhança rural, localizada no Plateau Central do Haiti, próxima à fronteira com a República Dominicana (doravante abreviada como RD), com o propósito de examinar conexões entre atividades comerciais e redes de relacionalidade, em particular de parentesco e vizinhança, nas quais estão enredadas as comerciantes. Partimos de um ponto de vista associado a personagens específicas, tendo como base a casa de Jacqueline, principal interlocutora da pesquisa durante o trabalho de campo (quatro diferentes períodos entre 2015 e 2017, que somam cerca de quinze meses - morei em sua residência durante os dois últimos períodos, que, somados, completam nove meses). Sua casa - à época, entre adultos e crianças, coabitavam quatorze pessoas, quinze contando comigo - me situou na vizinhança. Partindo daí, frequentei sistematicamente mercados da região, com maior regularidade os mercados de Kwa Fè, Beladère e Carrizal, e fiz visitas eventuais a mercados mais distantes, como Roy Sèk e Lascahobas. Minha movimentação entre esses locais acompanhou as andanças de pessoas da vizinhança envolvidas em diferentes modalidades de comércio (Mapa 1).

Mapa 1:
Mapa indicando os principais locais em que se deu a pesquisa de campo. A imagem em miniatura acima indica a posição da área detalhada no mapa da ilha inteira (compreendendo o Haiti e a República Dominicana).

Essa é uma pesquisa que trata de um ofício e de um sistema de mercados, com uma entrada etnográfica mais íntima, no nível da família, que oferece uma perspectiva para refletir sobre relações de gênero e de conjugalidade, sistemas de compartilhamento e noções de propriedade, organização e distribuição dos cuidados com as crianças, expectativas intergeracionais, composição das unidades domésticas, e os usos e significados do dinheiro. Assim, este trabalho se insere em um campo mais amplo de pesquisa sobre comércio feito por mulheres negras em estudos no Caribe, tratando de articulações entre independência financeira e a circulação das mulheres vendedoras, tomando a mobilidade como constitutiva da atividade comercial - (nesse ponto, convergindo com a pesquisa de Samara Freire (2024) com mulheres palenqueras na Colômbia). Na maior parte do artigo, trataremos desses assuntos ancorados na concretude da escrita etnográfica; mas, antes, são necessárias algumas coordenadas gerais a respeito do sistema de comércio haitiano a fim de situar as descrições etnográficas por vir.

O sistema de comércio haitiano

Seguindo autores como Mintz (1971) e Anglade (1982), partimos aqui de uma distinção primordial entre circuitos comerciais de exportação e o circuito do comércio interno. Não trataremos dos circuitos exportadores neste texto. Nosso foco é o comércio interno que constitui a economia popular haitiana, cujo dinamismo vem sendo descrito por numerosos estudos, tanto em suas vertentes camponesas quanto urbanas.1

Autores como Mintz e Anglade sugeriram que os mercados haitianos compõem um sistema coerente de distribuição de bens que, com suas ramificações, alcança virtualmente todos os pontos do território do Haiti, canalizando o fluxo dos produtos da terra: integra desde estreitos sendeiros e veredas que só podem ser percorridos a pé, passando por caminhos cada vez mais largos, até chegar a estradas onde caminhões fazem a conexão direta com “a cidade” [lavil] (ou seja, Porto Príncipe). A cada um desses tipos de caminhos correspondem personagens específicas. Há, nesse sentido, uma complexa nomenclatura para diferentes posições no sistema de comércio, dentre as quais explicitaremos apenas duas.

Machann é a palavra mais comum para “comerciante”, de uso abrangente, sendo também comuns os termos compostos ti machann [“pequena comerciante”] e ti komès [“pequeno comércio”]. Já o termo madanm sara diz respeito a um comércio que envolve distâncias mais longas, em geral fretando caminhões, classicamente entre as províncias e Porto Príncipe, no circuito de alimentos para consumo interno. Também pode ser usado para rotas de comércio internacional, mas minhas interlocutoras geralmente restringiam seu uso ao sentido mais tradicional, do comércio dos frutos da terra. As madanm sara são personagens centrais no sistema de comércio haitiano (Mintz 1964; Murray & Alvarez 1975; Plotkin 1989; Stam 2013, entre outros). O termo também costuma ser usado como verbo, “fazer sara” [fè sara].

Muitas das machann que tive como interlocutoras afirmam não fazer sara por não terem dinheiro o bastante para investir nos circuitos de maior distância, entendendo sua própria posição como inferior à das madanm sara (Figura 1) para quem vendem, e de quem compram. A ordem de grandeza do capital com o qual elas operam é menor, sua posição no sistema de comércio é mais precária que a das madanm sara.

O ti komès é responsável pelo grosso do abastecimento de bens básicos para a população local. Ele chega a movimentar quantias ínfimas, num processo de subdivisão que chega a uma barra de sabão cortada em quatro lascas vendidas separadamente, a saquinhos com dez fósforos cada, à venda de uma colher (de sal) de sabão em pó.

Figura 1:
Machann cortando barra de sabão em quatro partes. [com inserções para resguardar o anonimato]

Nesse sentido, o ti komès é realmente pequeno. Por outro lado, no número de pessoas envolvidas, o universo do ti komès é gigantesco. Se o comércio engaja pessoas de todas as classes sociais, o ti komès está para o sistema de comércio interno haitiano assim como as pessoas que vivem em situação de pobreza estão para a população em geral - menores em termos de prestígio (inclusive na literatura etnográfica), mas amplamente majoritários numericamente.2

Essas não são categorias fixas - quem passou a vida como machann e, em um dado momento, tem acesso a uma maior quantia de dinheiro, pode arriscar investi-lo em “fazer sara”, aventura que pode se sustentar lucrativamente durante anos a fio, assim como pode dar errado e “estragar o dinheiro”. Igualmente, uma mulher que atuou boa parte de sua vida como madanm sara pode, seja por dificuldades financeiras, seja por cansaço de viajar, deixar essa atividade, desmobilizando o capital aí investido para usá-lo de outra forma.

A diversidade interna entre as comerciantes corresponde a circuitos específicos a determinados tipos de mercadoria, dentre os quais predomina, em primeiro lugar, o comércio de gêneros alimentícios e insumos usados na preparação de alimentos (como óleo, sal, fósforos, temperos), bens costumeiramente reunidos sob a rubrica da “provisão” [pwovizyon]. Tais itens são comprados com frequência maior que quaisquer outros (que, em comparação, configuram gastos excepcionais e de ritmo instável).

Considerado “a coluna vertebral da economia haitiana” (Giraud 1978), o comércio de víveres seguramente é o que emprega o maior número de pessoas na vizinhança. Ademais, esse é um ramo do comércio dominado, de forma virtual, exclusivamente por mulheres, fato amplamente reconhecido na literatura. Por exemplo, Neptune-Anglade afirma “a amplitude, a onipresença, a dominância da mulher no comércio interno de víveres. Podemos dizer que o comércio interno de víveres, os circuitos de sua comercialização, os lugares de transação, os agentes de sua distribuição… são assuntos de mulheres”3 (apud N’Zengou-Tayo 1986:19).

Depois dos alimentos básicos, o segundo maior nicho é o comércio de pèpè, termo que se aplica a produtos têxteis de segunda mão, principalmente roupas, mas incluindo também calçados, toalhas de mesa, cortinas, entre outros. Os pèpè vêm principalmente dos Estados Unidos e do Canadá, e chegam ao Haiti em caixas densamente preenchidas, compactadas, medidas em quilos.4 Uma vez que os grandes pacotes são desmembrados, as peças que saem deles entram num circuito comercial próprio. Além de movimentar um mercado atualmente responsável pela esmagadora maioria das vestimentas usadas e comercializadas no Haiti, os pèpè também são em parte reexportados para a RD, comércio internacional cuja legalidade é dúbia e oscilante (Bourgeois 2016).

No comércio de pèpè, as mulheres provavelmente configuram a maioria, mas também existem muitos homens. Em contraste com o mercado de alimentos, domínio das mulheres, vender pèpè não causa embaraço nem afeta a dignidade dos homens. Parece significativo que os circuitos comerciais mais marcadamente dominados pelo gênero masculino (como o de animais de grande porte ou de produtos eletrônicos) tendam a ser mais lucrativos, com transações de valores maiores, enquanto, por outro lado, o mais feminino dos circuitos tem as menores margens de lucro e se encarrega daquilo que é mais básico e indispensável ao cotidiano. Já os pèpè, que transitam bem entre o luxo e a necessidade, formam um dos segmentos mais neutros em termos de gênero.

Tendo essas coordenadas gerais estabelecidas, passamos às descrições etnográficas, começando por uma breve cena a respeito da circulação de roupas.

Sistemas de compartilhamento no âmbito da casa

Após uma ausência de onze dias viajando entre Porto Príncipe e Las Matas de Farfán (pequena cidade dominicana próxima à fronteira com o Haiti), Jacqueline volta para casa trazendo uma mala e uma sacola contendo presentes para seus sete filhos e cinco netos. O mais velho ganha um sapato, alguns recebem uma camisa, alguns recebem duas, os menores ganham shorts e bermudas.

Em Porto Príncipe, ela compra pèpè, principalmente roupas, mochilas e bolsas. As peças tiveram outros donos antes, mas além de sua cuidadosa seleção (decisiva para o sucesso ou fracasso da empreitada comercial), elas passam por pequenas reformas e consertos, processo ao fim do qual ficam “melhores do que as novas”, opinião que ela garante ser compartilhada por seus clientes dominicanos. Por vezes, ela revende as peças uma a uma, no mercado de Las Matas, mas quando não quer ou não pode perder tanto tempo, vende lotes inteiros, de uma vez, a alguma comerciante dominicana (há três delas com quem Jacqueline mantém relações comerciais razoavelmente estáveis), que revenderá as peças individualmente aos consumidores finais. A venda em bloco rende menos dinheiro, mas permite que ela retorne em seguida a Porto Príncipe para comprar mais, e repetir o processo - o tempo é uma contrapartida importante.

Quando possui capital disponível, ela compra e transporta um grande volume de pèpè. A maioria das peças é revendida na RD, mas nem todas. O grosso do vestuário dela, de seu marido, de seus sete filhos e cinco netos, além de duas outras crianças que vivem sob os seus cuidados, provém de peças obtidas nessas viagens, que foram retiradas dos estoques para revenda.

A separação entre mercadorias para revenda e objetos para uso próprio existe e é normativa, mas, na prática, é bastante porosa. Com frequência, uns são convertidos nos outros, e vice-versa, ou seja, além da retirada de mercadorias para consumo próprio, todo objeto de uso pessoal tem um potencial vendível; é normal vendê-los quando há a necessidade de levantar dinheiro (isso não é considerado “fazer comércio”, expressão restrita à operação de comprar para revender com lucro).

Na trajetória desses objetos, não existe um fluxo unidirecional, no qual sua fase de mercadoria esteja finalizada quando ele chega ao consumidor final, em uma substituição do valor de troca pelo valor de uso. Há conversões nos dois sentidos. Um mesmo objeto pode entrar e sair de circuitos comerciais diversas vezes, assim como, ao longo de sua trajetória, o mesmo objeto também poderá se movimentar por outros caminhos não-monetizados.

Jacqueline considera uma vantagem que todos os seus filhos sejam do mesmo pai, seu marido, argumentando que as mães que possuem filhos de diferentes relações vivem um equilíbrio mais instável e difícil de ser mantido. Elas precisam presentear todas as crianças ao mesmo tempo para evitar ciúmes e melindres, para que os filhos de um pai não se sintam preteridos frente aos filhos de outro, sempre atentas para que não se alimentem conflitos entre eles. Já ela pode trazer o que puder para uns, mesmo que não tenha para todos. Eles não se sentirão usurpados caso um irmão seja presenteado antes, e não se sentirão impelidos a manter uma contabilidade precisa de quem ganhou o que.

As indicações dela sobre quais peças estão destinadas a quais pessoas têm uma importância relativa, pois, vivendo sob o mesmo teto, o regime de propriedade sobre os bens não é unívoco. Se perguntadas, as pessoas geralmente saberão dizer o que pertence a quem, mas é como uma propriedade vagamente privada. A pessoa reconhecida como dona pode reivindicar para si, dizer “me dá essa blusa, ela é minha”, mas isso não significa de forma alguma que ela será a única a usar aquela peça (não garante sequer que ela vá necessariamente ser atendida em seu pedido, quando for o caso). Existe uma intensa circulação de roupas entre moradores de uma mesma casa, inclusive de roupas íntimas e calçados, e até mesmo quando o tamanho da roupa em questão não é adequado ao tamanho do corpo que o está vestindo. Assim, as mesmas roupas passam por vários moradores da casa, o que diminui a vida útil de cada peça (e atribui um caráter mais contínuo aos gastos com roupas, uma vez que é preciso renová-las constantemente, o que acontece mais no nível da casa como um todo, do conjunto de moradores de uma mesma casa, do que em relação a cada indivíduo), mas garante uma boa variedade de opções disponíveis.

Nessa vizinhança, não existem armários nas casas. Malas são usadas para esse fim, atribuídas a donos específicos, nem sempre individuais. Na casa de Jacqueline, por exemplo, havia sete malas em uso para catorze moradores. Mesmo que houvesse uma mala por pessoa, nada garante que a mesma roupa será guardada sempre na mesma mala. Pelo contrário, a circulação de roupas entre diferentes malas é a regra, e quando alguém buscava uma peça específica, não era incomum que tivesse que passar por duas, três, quatro malas diferentes até encontrá-la (via de regra, reclamando ao longo do processo).

Se determinada peça de roupa fosse retirada desse regime de uso comum, seria preciso guardá-la longe dos olhos dos outros moradores da casa. Esconderijos são usados com frequência, para roupas, mas também para outras coisas (desde comestíveis, passando por cadernos, canetas, brinquedos, pilhas, até telefones celulares) que um morador queira manter fora do regime de compartilhamento. É tacitamente aceito que todas as pessoas podem acessar as coisas que estiverem na casa. Nem sempre é pacífico, o dono original pode reclamar e tentar evitar que os outros usem suas coisas, mas tais esforços costumam ser em vão. A circulação de roupas indica um sistema de compartilhamento no qual a propriedade de itens específicos é atribuída a pessoas particulares, sem que essa noção de propriedade implique numa prerrogativa de exclusividade, nem em uma necessidade de autorização prévia, especialmente entre pessoas habitando a mesma casa.

Seguindo a célebre proposta de Carsten & Hugh-Jones (1995), mas também e, ao mesmo tempo, as formulações de minhas interlocutoras em campo, não resta dúvida de que a casa e seus habitantes devem ser pensados no mesmo quadro analítico.5 Mas nem todos a habitam da mesma forma. O coletivo formado pelos moradores de uma mesma casa é altamente hierarquizado, com direitos e deveres que variam conforme a geração, o gênero e a faixa etária. Entre as atividades necessárias para a manutenção da casa, ir ao mercado fazer a provisão é uma das responsabilidades mais marcadamente atribuídas às mulheres. A provisão é um estoque geral da casa, principalmente de comida, que deve suprir todos os seus moradores.

A questão do abastecimento da casa nos remete ao fato significativo de que, no Haiti rural, cozinhar é um trabalho menos prestigioso do que separar a comida - fato também notado por Karen Richman (2005). Fazer comida é algo que pode ser delegado a crianças, não se dá muita importância a sutilezas no preparo. Já a separação da comida em porções designadas especificamente para esta e para aquela pessoa, requer alguém com maior legitimidade para executá-la. Isso não se reduz à questão da legitimidade - a separação implica em uma gestão complexa dos recursos, na mensuração das necessidades de cada morador, sendo necessário nutrir a todos na medida certa, sem causar frustrações em nenhuma parte, tarefa que se dificulta conforme a escassez da quantidade de alimento. A distribuição da comida expressa distinções; adultos recebem porções maiores que crianças, quem passou o dia trabalhando no campo recebe porções maiores do que quem ficou sentado/a, e há uma tendência a dar mais aos homens do que às mulheres. Mas a definição de quem comerá quanto, através da separação em porções individuais, cabe à dona da casa. Em nenhuma hipótese, a qualidade de dono do jaden [unidade de cultivo/plantação] que originou o produto autorizaria alguém a sequer tentar influenciar em sua distribuição. Como diz o provérbio, manje kwit pa gen mèt [“alimento cozido não tem dono”].

Enquanto valor monetário, os frutos da terra são atribuídos de forma individual. Se alguém planta uma bananeira e vende as bananas que cultivou, o dinheiro lhe pertencerá integralmente. Mas a produção de comida está sujeita a outra lógica, na qual tanto laços consanguíneos quanto a coabitação são fundamentais. A casa é a unidade de consumo de comida, incluindo moradores e eventuais visitas e hóspedes. Para fazer comida, não há necessidade de pedir, o consentimento prévio para a colheita está dado de saída.

Quando estão comendo, muitas vezes as pessoas sabem do jaden de quem saiu tal banana ou tal inhame. Esse reconhecimento de origem não afeta em nada os direitos sobre o alimento preparado. Seria ofensivo se uma pessoa reivindicasse direitos exclusivos ou mesmo qualquer tipo de prioridade sobre alimentos já cozidos com o argumento de que vieram do seu jaden. Ninguém faz isso. Quando o alimento perde seu potencial de venda para ser consumido em casa, todos os presentes o comerão, sem qualquer distinção motivada pela origem.

Essa dicotomia entre a propriedade de recursos com valor de venda, cujas receitas geradas são de posse marcadamente individual, e recursos destinados ao uso sob um regime semelhante a uma propriedade coletiva, bem como a flexibilidade com que bens destinados à venda são convertidos para o uso próprio e vice-versa, se manifesta em diversos níveis.

A perecibilidade dos alimentos cozidos reforça e acentua o direito coletivo sobre o consumo, uma vez que a diferença entre produtos com potencial de venda e os mesmos produtos quando direcionados para o consumo da casa se relaciona às condições infraestruturais. Não existem geladeiras em funcionamento na vizinhança, o ponto mais próximo por onde passa a rede de energia elétrica fica a alguns quilômetros. Assim, não se guarda comida de um dia para outro, tudo deve ser consumido no mesmo dia (havendo sobras ao fim do dia, serão dadas aos animais). Segundo Jacqueline, existem, inclusive, restrições bíblicas proibindo que se guarde comida para o dia seguinte.

Há, portanto, uma correlação entre os regimes de propriedade e as condições materiais, embora não sejam redutíveis entre si. Algo análogo ocorre com bens muito menos perecíveis. Além das roupas e dos frutos da terra, trataremos de três outros tipos de bens que também exibem essa duplicidade, isto é, uma de direito individual enquanto mercadorias, mas tornados coletivos em seu valor de uso: motos, smartphones e animais.

Começando pelos últimos, é comum a criação de animais “úteis” [itil] na vizinhança, termo que designa aqueles que têm valor de mercado (em oposição aos “inúteis” [pa itil], que não valem um gourde, como cachorros e insetos). Como propriedade individual, seu dono decide quando e por quanto vendê-lo, e o dinheiro resultante lhe pertence integralmente. O destino de animais como porcos, galinhas, cabras e bois geralmente é a venda, mas se, por qualquer razão, ele for consumido em casa, sua carne será consumida por todos os moradores do entorno, e não só por quem habita a mesma residência. Exceto se o animal em questão for muito pequeno, ao preparar sua carne, também serão enviadas, enquanto presentes, porções da carne cozida a outras moradias.

Esse envio de comida preparada entre casas é um marcador importante das relações de proximidade e de estima. Relações de troca entre diferentes residências funcionam através de envios (geralmente levados por crianças) de fartas porções sempre que um animal é cozido. Há algo festivo nesse compartilhamento, não é todo dia que se come carne.6 Esse cálculo leva em consideração o número de pessoas que, imagina-se, estarão presentes na outra casa. Enquanto preparava um envio de carne de bode para sua amiga Madame Dodo, calculando que, provavelmente, haveria entre doze e quinze pessoas lá, Jacqueline me explicou que seria ofensivo mandar para a casa dela uma porção de comida tão pequena que pudesse servir apenas a ela, excluindo seus filhos, ou que alimentasse apenas alguns deles, deixando os outros com fome - “é preciso pensar em todos”.

Antes, uma pessoa era dona exclusiva do animal vivo. O mesmo animal, quando acontece o abate e o preparo, deixa de ser posse individual para prover coletivos cuja definição é mutável, ocasional. Uma definição política, que não cabe ao ex-dono do animal abatido, mas sim (a princípio) à figura feminina dominante na casa onde o alimento foi preparado.

No caso dos animais de carga, o ponto fica ainda mais evidente. Cada cavalo, cada burro, cada jumento pertence a um(a) dono(a) individual. O cuidado com o animal, contudo, é delegado a outras pessoas com frequência, principalmente às crianças para chanje bèt (atividade realizada algumas vezes por dia, que consiste em mudar o local onde o animal está amarrado para que ele tenha pasto, água e sombra). Quando um animal de carga passar por um vizinho carregando algo pesado, a força do animal só não será oferecida para auxiliá-lo caso sua carga já esteja no limite máximo. Oferecer carona é comum quando se monta o animal. É comum haver empréstimos em ocasiões em que o animal será útil, por exemplo, para transportar a colheita de amigos. Também os bois, enquanto animais de tração, são habitualmente emprestados, puxando arado de terreno em terreno, segundo a necessidade.

Algo similar ocorre, ainda, com as motos. São propriedades individuais, mas seus usos práticos são pouco individualizados, não só porque dar carona é um costume generalizado (seja para levar carga, seja para levar gente), mas também porque os rapazes (neste caso, são quase exclusivamente homens) emprestam com frequência as motos uns aos outros, seja quando um amigo precisa ir a algum lugar, quando deseja sair com uma garota ou para fazer mototáxi se há urgência de dinheiro. Potencialmente, todas as motos são destinadas tanto ao uso particular quanto ao mototáxi, alternadamente. É difícil que haja uma moto que nunca tenha entrado nesse circuito do transporte pago em um momento ou outro (ainda que esse uso possa não ser o seu principal), assim como não há mototáxi que além dos percursos pessoais, independente de passageiros, também não ofereça eventuais caronas para os seus conhecidos.

Telefones celulares também estão sujeitos a dinâmicas análogas. Não só passam de mão em mão, sendo um objeto de empréstimos frequentes, mas mesmo quando estão em poder de seu dono, seu uso nunca é exclusivo. Telefones não são entendidos como objetos íntimos, como bens privados e pessoais. Entre pessoas que coabitam, quando uma tem um telefone, as outras usarão o mesmo aparelho, assim como os telefones recebem cotidianamente ligações, mensagens de áudio e de texto que não são endereçadas a seu dono, por vezes sequer a moradores da mesma casa, mas também recados a serem repassados a vizinhos (em casos raros, isso pode ser feito como um serviço pago, mas costuma ser um favor gratuito). Assim como ocorre com as roupas, esses telefones, passando de mão em mão, têm vida útil curta, são, portanto, trocados constantemente. No entanto, ao mesmo tempo, a rotatividade de aparelhos sustenta um sistema de recados bastante eficiente e rápido, que permite a comunicação à distância com qualquer pessoa na vizinhança, ainda que haja muito menos telefones do que pessoas.

Desse modo, há conversões frequentes entre o “valor de troca” e “valor de uso”, em ambos os sentidos (e entre bens coletivos e individuais, como argumentamos). Se um dado legume ou tubérculo originalmente orientado para a venda passar por uma transformação qualquer que torne seu preço desvantajoso, ele acabará sendo comido em casa. O mesmo acontecerá com um animal que quebre um osso, ou com alguma outra condição que desvalorize seu valor de mercado. No sentido contrário, se as circunstâncias incentivarem, itens de uso pessoal podem rapidamente ser disponibilizados como mercadorias para venda, o que ocorre amiúde com roupas, calçados, telefones e motos.

Essa flexibilidade configura entendimentos e práticas culturalmente específicas ao manejo dos recursos econômicos e do que pode ser legitimamente reivindicado por indivíduos ou grupos; é parte de uma estratégia de gestão que dialoga diretamente com a severa escassez de dinheiro, permitindo lidar com problemas e urgências que, sem tal dinâmica, talvez fossem insolúveis. Ressaltamos a importância da distribuição de recursos a partir da perspectiva da casa, do seu abastecimento, de sua manutenção e nutrição, como uma responsabilidade de cuidado coletivo, geralmente a cargo da figura feminina dominante. Dentro dos lares vigora um sistema de compartilhamento generalizado, com entendimentos particulares a respeito da propriedade, limitando o caráter individualizado das posses pessoais, argumento que foi apresentado a partir de descrições etnográficas sobre a circulação de roupas e outros bens cuja posse (e, principalmente, o dinheiro resultante de uma eventual venda) é entendida como individual, mas cujos direitos de uso estão longe de serem exclusivos. Daí o argumento de que, no que diz respeito ao consumo, a casa é uma unidade de análise mais relevante do que os indivíduos.

Nessa gestão coletiva, criticamente no que diz respeito ao abastecimento, as mulheres são as principais responsáveis, tanto pelo ato da compra das provisões no mercado, quanto pela divisão do alimento cozido entre os membros da casa. Fazer a provisão da casa é algo que homens evitam, não apenas pela conveniência de transferir o trabalho às mulheres, mas porque há, para eles, algo humilhante, como se essa atividade em si fosse feminilizante. Existem na vizinhança homens responsáveis por casas nas quais não há uma mulher adulta coabitando - mesmo nesses casos, procura-se outra mulher na família ou na vizinhança disposta a ajudar, tentando, sempre que possível, evitar o constrangimento de ter que realizar ele mesmo a provisão. O controle feminino do mercado de alimentos é amplo, tanto na gerência de estoques para consumo da casa quanto na gerência de pequenos comércios de retalho.

Passamos agora dessa gestão no âmbito doméstico para tratar da gestão dos comércios de minhas interlocutoras em campo.

Gerindo comércio

Como vimos, há um sistema de compartilhamento no interior da casa, uma comunidade de uso e de acesso aos mesmos bens, com um estoque comum que deve atender a cada pessoa segundo a sua necessidade. Por outro lado, quando os objetos circulam como mercadorias, seu valor de mercado é estritamente individual. Há, nesse ponto, um equilíbrio instável entre tendências individualistas e igualitárias, de um lado, e hierarquizantes e coletivistas, de outro.

Passamos agora ao âmbito do comércio, no qual as mesmas personagens, como gestoras de seu capital próprio, devem separar cuidadosamente as suas mercadorias do consumo da casa. Como mencionamos, na vizinhança em que se deu a pesquisa, o ramo que emprega o maior número de pessoas - nesse caso, exclusivamente mulheres - é o retalho de gêneros básicos de subsistência, comércio pequeno no valor de cada transação e no tamanho das porções vendidas, mas colossal no tamanho das multidões que mobiliza. A ponta da cadeia de subdivisão, de unidades maiores em unidades menores, é uma das posições mais duras e de pior remuneração no sistema de comércio haitiano.

Uma interlocutora importante da pesquisa, que acompanhei em muitas jornadas, chamada Madame Dodo, opera nesse nicho dos itens básicos. A maioria dos produtos que ela vende são comestíveis (as principais exceções são caixas de fósforo, sabão em barra e sabão em pó). Em seu comércio, Madame Dodo vende grãos como arroz, açúcar, feijão, sal e farinhas, entre outros, que ela mede com uma vasilha chamada gode.7 Trata-se de um objeto bastante difundido, um instrumento básico de trabalho. Toda machann tem um. O gode é a principal unidade de medida para sólidos.

Existe uma operação padrão para certos produtos, generalizada principalmente no caso dos grãos importados; sacos grandes (vão até 50 kg, sendo que o de 25kg é o mais comum) são comprados em “lojas” [magazen] que ficam dentro da área dos mercados, e que também funcionam como depósitos e armazéns. Estruturas menos estáveis se aglomeram ao seu redor, bancas e mesas improvisadas, sob a sombra de um labirinto de panos pendurados amarrados por cordas, uma configuração que a cada dia de mercado é montada e desmontada. Os sacos grandes estocados nessas lojas são vendidos a crédito para comerciantes que os revendem “na medida do gode”, por vezes a poucos metros da magazen onde o compraram (Figura 2).

Figura 2:
Vista da estrutura de panos amarrados sobre as machann no mercado de Kwa Fè.

Há um jogo entre recipientes concretos e medidas abstratas característico dos mercados haitianos. Boa parte dos produtos que, para o consumidor final, essas mulheres comerciantes vendem na medida do gode (uma medida de volume), elas compram em grandes sacos, medidos em quilos (medida de peso). Isso introduz um elemento de imprevisibilidade nas contas, pois sacos de 25 quilos não darão sempre o mesmo volume na medida do gode. A margem de variação é menor no caso de grãos como o arroz. Num saco de 25 kg, é difícil que a diferença ultrapasse dois ou três gode. Mas no caso de produtos mais suscetíveis à compactação, como o sabão em pó, a variação pode chegar até a uma mamit (ou seja, sete gode).8 Essas diferenças são significativas. A margem de lucro envolvida nesse processo de fracionamento é tão pequena que, quando se tem o azar de pegar um saco com tantos gode ou uma mamit a menos, existe o risco real de sair no zero a zero ou até mesmo no prejuízo.

É notável a competência das machann para calcular volumes e para transitar entre diferentes escalas numéricas.9 Madame Dodo, que nunca frequentou a escola, não aprendeu a ler nem a escrever, só de olhar sabe calcular com precisão quantas mamit e quantos gode cabem neste ou naquele saco. Quando eu lhe perguntei quanto é a diferença de preço entre um saco inteiro de arroz (25 kg) e o mesmo saco após ser fracionado em pequenas porções, esperava receber uma resposta em valor monetário, mas ela disse “ao todo, dá uns cinco gode, mas o que fica para mim, individualmente, fica em torno de dois gode e meio por saco”. Ela compra o arroz a crédito, e o valor que ela devolve à loja é “dois gode e meio” maior do que o valor que eles originalmente lhe emprestaram, ou seja, metade do lucro fica com ela, a outra metade é pagamento de juros pelo empréstimo.10 Como tantas outras ti machann, Madame Dodo costuma calcular seus gastos e lucros nessas medidas de volume, tornando posterior o cálculo monetário. O cálculo em volume é a corrente para controlar entradas e saídas de mercadorias, enquanto empréstimos em espécie, por outro lado, são calculados em termos de dinheiro propriamente dito.

Apesar de sua baixa integração no sistema bancário formal, é comum (e frequentemente inevitável) que as pequenas comerciantes operem com um capital composto por variadas modalidades de empréstimos e de crédito. Entre as mais comuns, temos os grupos de crédito rotativo (sòl e sabotay), os adiantamentos (empréstimos em mercadoria) feitos pelos donos de armazéns e depósitos, e um sistema de curtíssimo prazo com cambistas na fronteira, que, principalmente no trato com mulheres comerciantes, mantém a prática de emprestar um valor em uma moeda de manhã, para receber em uma moeda diferente no fim da tarde.

Os negócios de Madame Dodo são profundamente dependentes de adiantamentos em mercadorias e de empréstimos em dinheiro, situação que ela considera lamentável. Um dos efeitos práticos mais sensíveis da dependência do crédito é a falta de margem temporal. Madame Dodo, já idosa, entende estar sempre correndo e não poder parar, não importa quão cansada esteja; reiterando, ainda, que todas as mercadorias em seu comércio são “emprestadas”, “não são minhas”.

Essa lembrança constante ressalta a importância de separar o dinheiro do comércio do dinheiro pessoal, função que exige uma disciplina dura. Madame Dodo repassa quantias consideráveis de variados gêneros alimentícios diariamente, sendo que as mercadorias que ela vende são os mesmos itens básicos que ela compra para alimentar as pessoas na sua casa. No final de cada dia de mercado, ela guarda sem desfalque sacos de arroz e de outros grãos, farinhas, feijões, açúcar, leite enlatado, salame, macarrão, mesmo quando a comida em sua casa foi pouca para as pessoas que lá estavam. É tentador trazer uma mamit aqui, outra acolá, daquilo que se precisa para comer em casa. Com isso, porém, a conta não fecha. O lucro que haveria já foi comido.

Na ponta da cadeia de distribuição, os lucros são tão pequenos que o desafio é não “comer o dinheiro” [manje lajan]. Para Jaklin, esse comércio de retalho é uma correria incessante e mal paga, um comércio no qual “não tem nada, só preocupação”. Sua crítica fala da dificuldade que é operar e cumprir prazos com margens curtas, do quanto um dinheiro tão exíguo exige de sua dona para não se dispersar, para não “estragar” nem ser “comido”, e de como eventos fortuitos, como ter uma carga roubada, podem botar tudo a perder.11 Segundo ela, só compensa fazer comércio dentro do Haiti se for para “fazer sara” - comprar grandes carregamentos direto com os produtores, fretar um caminhão, pagar gente no caminho (de subornos para guardas até a compra obrigatória da proteção vendida por máfias), mas isso só é possível para quem tem dinheiro. A preferência por sempre pagar à vista é uma opinião amplamente compartilhada entre essas mulheres, pois depender de empréstimos é uma sina tão triste quanto inevitável para quem não possui um capital decente para investir.

Na complexa arte de gerir um comércio no Haiti, a maioria dessas comerciantes de pequena escala opera com grande autonomia individual. Apesar das formas de associação comuns na vizinhança, como os sòl (grupos de crédito rotativo), o capital empregado no comércio é de responsabilidade fortemente individual. Por isso, certo individualismo foi atribuído às comerciantes haitianas por autores como Mintz (1961; 1964) e Plotkin (1989).

Trata-se, em primeiro lugar, da responsabilidade pela gestão do capital que cada comerciante faz por sua própria conta e risco. Ao contrário do que acontece com os frutos da terra, aos quais esposo e esposa possuem direitos iguais, o dinheiro empregado no comércio fica a cargo da mulher, havendo pouco espaço para que o marido (ou qualquer outro homem) possa opinar sobre o que fazer ou deixar de fazer com esse dinheiro, já que homens não têm competência para navegar nesses circuitos dominados pelas mulheres. Sidney Mintz compara, da seguinte forma, a situação no Haiti com a de mulheres comerciantes Afikpo, na Nigéria:

… enquanto mulheres Afikpo são restringidas pelo costume e pela autoridade de seus maridos de aumentar seus ganhos no comércio com viagens de longa distância, as mulheres comerciantes haitianas viajam de forma constante e ampla para conduzir suas operações. (…) homens não estão preparados para insistir que suas esposas ou concubinas renunciem às suas atividades no comércio, apenas para cumprir suas obrigações domésticas. Embora as mulheres comerciantes usem seus ganhos para a manutenção da casa, para a educação dos filhos, para pagamentos cerimoniais no vodu e de outras formas, seus maridos não têm direito a qualquer reivindicação legítima sobre o seu capital. (1971:256-57).12

O dinheiro empregado no comércio é marcado de forma a atribuir a alguém responsabilidade exclusiva por sua gestão - nesse sentido, é um dinheiro individual e individualizante. Mesmo que a proliferação de dívidas relativize a autonomia dessas mulheres, e que o campo de possibilidades seja circunscrito (muitas vezes, severamente circunscrito) pelas relações pessoais e pela disponibilidade de dinheiro, a escolha do que e onde comprar, onde estocar, onde vender e a que preços, cabe inteiramente a elas. No que diz respeito à gestão do dinheiro do comércio, ninguém as dirige. Quem empresta tem o direito de exigir seu dinheiro de volta no prazo combinado, mas não tem legitimidade para se meter em nada do que foi feito com esse dinheiro no meio tempo. Cada uma busca descobrir onde e com o que pode obter mais lucro. Como resultado, o sistema de distribuição é menos um ordenamento planejado de cima para baixo, e mais resultado da sagacidade de cada empreendedora individual de levar e trazer a cada lugar, aquilo de que as pessoas precisam e podem pagar. Assim, uma rede de extrema capilaridade torna possível, mesmo nos interiores mais ermos, o abastecimento de bens básicos.

Se as mulheres no Haiti rural, pela via do comércio, gozam de uma considerável autonomia individual - como notado por Mintz (1971) e N’Zengou-Tayo (1998) -, há contrapontos importantes. Autoras como Legerman (1961) e Hossein (2014) mostram o comércio como um ofício que passa de mãe para filha. De fato, é comum que crianças (mais frequentemente meninas do que meninos) acompanhem as jornadas de suas mães nos mercados. Além da mera necessidade de cuidado, existe um processo pedagógico em andamento. Crianças mais novas apenas se sentam próximas às suas mães para passar o dia com elas. À medida que crescem, começam a ajudar em tarefas com graus crescentes de complexidade; a embalagem (a separação do conteúdo de mercadorias formando novas unidades, estas a medida da revenda), transmitir e receber recados, caminhar pelo mercado vendendo balas, doces e biscoitos em cestas levadas à mão ou sobre a cabeça, levar e trazer dinheiro, comprar algo que a mãe lhe encomende, ajudar a guardar as mercadorias no depósito no fim do dia, e tomar conta da banca e fazer as vendas nos momentos em que a mãe não estiver presente. Boa parte das comerciantes aprendeu o ofício acompanhando suas próprias mães, ou madrinhas, ao mercado.13

Contudo, muitas comerciantes não querem que suas filhas tenham o mesmo destino que elas. Há uma expectativa de ascensão projetada para o futuro, sintetizada na ideia de avanço [avans], que tem na educação dos filhos sua mola fundamental. É frequente a afirmação sobre a destinação do dinheiro do comércio para os pagamentos escolares anuais aos filhos, tomando esse gasto específico de forma metonímica. Assim, uma revendedora de cachaça afirma, batendo a mão no galão: “essa cachaça que você está vendo aqui, ela é a educação dos meus filhos”. Desse modo, é significativa a evocação reiterada desse investimento enquanto destino do dinheiro, bem como ressaltam-se seus destinatários, quase sempre filhos e filhas.

Como símbolo legitimador dos esforços, os gastos menores, de ritmo cotidiano e contínuo, estão numa posição diametralmente oposta à educação dos filhos. Do mesmo modo em que não é possível se esquivar dos gastos com comida, eles são a síntese do dinheiro que não constrói nada. Esse é o sentido da expressão “comer dinheiro” [manje lajan]. Não significa que o dinheiro tenha sido necessariamente gasto com comida, a comida, nesse caso, também é uma imagem metonímica, que abrange qualquer outro gasto que seja igualmente improdutivo. Uma expressão sinônima é gate lajan [“estragar dinheiro”].

Aqui se revela uma concepção particular do dinheiro enquanto bem perecível que, caso não se reproduza, se decompõe, se descaracteriza, perde suas feições originais. A quantia é uma variante fundamental, um montante de 10.000 dolà reunidos não é igual a 100 parcelas de 100 dolà. O que é possível fazer com o primeiro não é possível fazer com o segundo (daí a importância dos grupos de crédito rotativo). Estragar dinheiro, assim como comê-lo, é afirmar que ele foi disperso em gastos irrelevantes.

Desperdiçar os poderes reprodutivos do dinheiro, gastar um montante de dinheiro grande o bastante para funcionar como capital sem adquirir nada que vá produzir mais, pode ser visto como incompetência, burrice ou preguiça. Os poderes reprodutivos do capital são diretamente dependentes de sua ordem de grandeza.

O nome que o dinheiro enquanto capital recebe no comércio é significativo do quão naturalizado é o reconhecimento de seus poderes reprodutivos: manmanlajan, literalmente “mamãe-dinheiro” ou “dinheiro-mãe”. Uma comerciante em Belladère me explicou da seguinte forma: “se você tem 5.000 dolà para investir num comércio, então esses 5.000 são o seu manmanlajan. Você compra com esse dinheiro e começa a vender. Se, com tudo o que você comprou, você vender por 8.000 dolà, você se lembra de que 5.000 é o dinheiro-mãe, e os próximos 3.000 serão os filhos dessa mãe.” É preciso marcar a quantia original para que se reconheça quantos filhos aquele dinheiro-mãe deu. O dinheiro aparece como uma substância cujos fluxos estão diretamente relacionados a oscilações de vitalidade, que precisam ser bem geridos [jere] para que floresçam.

Evidentemente, essa gestão do dinheiro-mãe para que reproduza o maior número possível de “filhos” não é uma imagem desconectada de outros âmbitos da vida. O valor da fertilidade, dos poderes reprodutivos, sintetizado no provérbio pitit se richès malere [“os filhos são a riqueza dos pobres”], é reafirmado com frequência. De fato, no mercado, a grande maioria das vendedoras são mães, mesmo as mais jovens. Na metonímia do investimento na educação e além, filhos são citados incessantemente como o motivo último de toda aquela correria (Lowenthal 1987). A busca pela vida é indissociável desses regimes de compartilhamento, tanto de recursos quanto de substância (comida e sangue).

Gerindo o sangue

O sangue que circula dentro do corpo é o mesmo que atravessa gerações. Gerenciá-lo é um trabalho complexo. Há que se escolher bem com quem você (não) quer misturar o seu sangue. O sangue é entendido como uma substância que se mistura através do sexo, cujo compartilhamento máximo se dá via gravidez. Ele é objeto de debates e reflexões frequentes, sobretudo em avaliações da geração mais velha em geral sobre a mais jovem, e especialmente de pais e mães a respeito das escolhas conjugais de seus filhos e filhas, colocadas principalmente em termos morais, menos a respeito do potencial cônjuge, e mais à família da qual ele/a vem - o objeto declarado da avaliação é ‘o sangue’ [san], funcionando nesse contexto como símbolo de uma linhagem (usa-se, no mesmo sentido, a palavra ‘raça’ [ras]).

Uma decorrência relevante da valorização do sangue é que as relações entre mães/pais e filhos/filhas são enfaticamente mais valorizadas do que as relações românticas. Um ditado diz: mariaj se ven, timoun se venteyen [literalmente, “casamento é vinte, criança(s) é(são) vinte e um”], o que significa que, ainda que se estime o casamento, os filhos são mais estimados. Jacqueline gostava de repetir a frase mwen remen san mwen anpil, [“eu gosto muito do meu sangue”]. O sangue, no caso, se refere principalmente aos seus sete filhos e filhas. Depois, ao pai, à mãe e às netas e netos.

Na região da pesquisa, é comum que as mulheres adultas tenham quatro, cinco ou mais filhos. Jacqueline tem sete. Madame Dodo teve dezoito, dos quais catorze estavam vivos durante o trabalho de campo. Um casal da vizinhança, ambos perto dos trinta anos de idade, tinha ‘apenas’ uma filha. Os vizinhos se compadeciam da situação, davam palavras de encorajamento ao mesmo tempo em que especulavam sobre as possíveis causas daquela baixa fertilidade, como uma situação lamentável.

Isso não significa que toda gravidez seja bem-vinda, longe disso. Se ter apenas uma filha é falta de sorte para um casal consolidado que compartilha a casa, quando uma adolescente engravida acidentalmente, especialmente em condições de grave precariedade econômica, o evento pode se tornar uma tragédia familiar.

Controlar a sexualidade da geração mais nova é uma grande preocupação da geração mais velha. Em público e nas igrejas (há diversas pequenas igrejas evangélicas rurais na vizinhança), o preceito bíblico “crescei e multiplicai-vos” é citado com frequência. A prevenção de gravidez indesejada é recomendada pela via da abstinência. Métodos contraceptivos são considerados opostos à vontade de Deus. A mera posse de preservativos, por parte de adolescentes, pode ser motivo de repressão violenta por parte de mães e pais.

Apesar da defesa da fertilidade como consequência da vontade divina, ao entrar mais na intimidade das famílias e tomar parte em um assunto que é principalmente feminino, eu soube de algumas mulheres que foram à cidade em busca de médicos para fazer um implante subcutâneo chamado planin, geralmente na parte interna do braço, que deixa uma marca discreta, relativamente fácil de dissimular. Três delas contaram terem feito sem o conhecimento de seus maridos, que supostamente não aceitariam se soubessem. Todas as mulheres que eu soube que recorreram a esse método eram casadas e já tinham entre três e sete filhos.

Também há práticas abortivas caseiras. O único que acompanhei foi de uma mulher que tinha quatro filhos, grávida de três meses e separada do ex-marido, que a havia agredido fisicamente algumas vezes, incluindo uma coronhada e ameaças com revólver em punho. Sua situação econômica era difícil. Jacqueline a ajudou a fazer o aborto, e sendo também uma pastora evangélica, relatou um sentimento de culpa por ter ajudado no que ela definiu como um pecado. Parte do argumento contra o aborto era o fato de que não se sabia quem viria a ser aquela criança; “Deus a tinha enviado por uma razão que só Ele sabia. Poderia ser justamente essa criança que conseguiria migrar para fora do país e que tiraria sua família da miséria. Que direito tenho eu de intervir nos planos d’Ele?”

O caráter pecaminoso do aborto e das práticas contraceptivas parece consensualmente aceito na vizinhança, ao mesmo tempo em que, apesar de veladas, são práticas comuns. Todos reconhecem que nem sempre é possível ter (mais) uma criança em casa. A despeito da culpa, não foi o primeiro aborto que ela ajudou a fazer, e provavelmente não foi o último.

Um realismo prático flexibiliza, na concretude da vida e no reconhecimento da especificidade de cada situação, a moralidade afirmada em público. Nem sempre é possível proporcionar alimentação, vestimentas e cuidados básicos. A maternidade não é romantizada. Todo mundo sabe que a vida é dura e que as pessoas fazem o que conseguem fazer. Mães não são julgadas por seguirem seus caminhos, afastando-se de seus filhos. Há empatia com o sofrimento decorrente da necessidade de deixar um filho sob os cuidados de terceiros. Mesmo que uma mãe nunca tenha tomado conta do seu filho, este ainda será continuamente lembrado de que a ela lhe deve respeito e gratidão por tê-lo carregado nove meses no ventre.

Vimos que as mulheres que vendem no mercado não têm problemas para levar uma criança, geralmente menina, escolhida pelo seu temperamento, numa relação de ajuda concreta, carregando volumes ou dinheiro, transmitindo mensagens, guardando as coisas no depósito, vendendo durante a ausência da mãe. Simultaneamente, há também uma relação de ensino e aprendizagem em curso, a transmissão de um ofício (relação que também ocorre em outras configurações, como entre madrinha e afilhada). Mas é difícil levar mais de uma criança, o que é o caso na maioria delas. Assim, para todas as outras crianças, é necessário mobilizar uma rede de suporte.

Os cuidados com as crianças são pouco marcados em termos de gênero. Em geral, os pais assumem os cuidados de suas crianças na ausência das mães, mas, por também precisarem trabalhar (possivelmente envolvendo deslocamentos e migração), nem sempre é viável. O suporte necessário pode então vir de parentes ou amigos na vizinhança. Proximidade espacial entre as casas é um fator relevante para mães que saem de manhã cedo para vender no mercado e voltam no fim da tarde, especialmente quando são estadias de curta duração. Há casas que recebem crianças de várias mães diferentes, como creches informais (essas relações não envolvem transações diretas em dinheiro, embora haja outras formas de reciprocidade).

A distribuição dos cuidados com as crianças é de tal ordem que qualquer pessoa mais velha pode repreender toda criança que for vista fazendo algo errado. A sensibilidade de um pai ou mãe não se ofende por ver outro adulto corrigindo seu filho, pelo contrário, as pessoas agradecem quando acontece. Dada a necessidade de distribuição dos cuidados com os bebês e as crianças menores, tudo se passa como se houvesse um pacto que reconhece uma autoridade etária difusa. Muitas vezes, irmãs e irmãos mais velhos cuidam dos mais novos e assumem outros trabalhos domésticos (meninos também cuidam dos menores, cozinham, buscam água e fazem faxina, mas, desde cedo, há uma sobrecarga desproporcional de trabalho sobre as meninas e mulheres haitianas, como notam N’Zengou-Tayo (1998) e Bastien (1961)).

Para estadias mais longas, seguindo o vocabulário local, existe tanto o costume de “dar” como de “emprestar” crianças. “Dar” significa uma transferência definitiva para outra família sem expectativa de retorno, como uma adoção, enquanto “emprestar” quer dizer deixar aos cuidados de outrem temporariamente, com a promessa de, num futuro indeterminado (que pode durar vários anos), tomá-la de volta aos seus cuidados. A circulação de crianças entre diferentes casas e famílias é intensa, tanto em caráter provisório como definitivo.14

A centralidade da mãe, nesse ponto, é reduzida, e outras redes assumem os cuidados com as crianças. Depois da mãe, os candidatos preferenciais a assumirem o bebê ou criança são, em ordem, primeiro o pai, depois a avó materna, seguida pela avó paterna. Na prática, muitas variáveis podem levar cada criança numa ou noutra direção, tais como as condições econômicas de cada família, avaliações morais sobre o caráter de candidatos possíveis (principalmente no que diz respeito à forma como tratam as crianças), disponibilidade tanto financeira quanto de tempo, facilidades ou dificuldades de localização próprias a cada casa/vizinhança (como a proximidade de escolas), entre outras.

Nas relações de suporte mútuo na vizinhança, não há maiores problemas em deixar um ou vários filhos em outra(s) casa(s), sob os cuidados de outra família (e, em particular, da mulher à frente de tal família) durante o dia. Mas “emprestar” ou “dar” suas crianças não é um assunto leve. Há vezes em que arranjos são pautados por situações de extrema dificuldade econômica, tendo como situação limite mães e pais impelidos a buscar outros lares para suas crianças, que geralmente vão ocupar uma posição subalterna dentro da família de acolhida, para que tenham o que comer.15

Por outro lado, como ressalta Dalmaso (2018), não se trata de mostrar um cenário de desespero como sendo a origem e a causa da mobilidade das crianças. Pelo contrário, no Haiti, a mobilidade é um componente importante na formação das pessoas, inclusive em termos de educação formal - é comum que, ao atingir níveis de escolaridade mais elevados, o/a aluna/o precise se estabelecer em outra casa, mais próxima de onde houver instituições de ensino onde ela/e possa progredir. A mobilidade é valorizada e cultivada em vários níveis. Como nota Neiburg (2022:15), no Haiti “o movimento é relacional e moralmente produtivo, enquanto a moralidade das relacionalidades é condição de possibilidade e consequência do próprio movimento” - tema também explorado por Montinnard (2019). A mobilidade deve ser vista em sua positividade, como sua potência de abertura a caminhos bastante diversos, relacionados ao comércio, à educação, ao contato com parentes e amigos, a postos de trabalho, entre outros. A circulação de crianças e adolescentes ocorre, portanto, com inúmeras finalidades, mas, em geral, ela tem o sentido de criar condições para que a criança/adolescente possa progredir, que esteja em melhores condições para “buscar a vida”.

Considerações finais

Janet Carsten (2012:28) apontou analogias importantes entre os atributos do dinheiro e do sangue, pois ambos transitam através de, e assim conectam, diferentes esferas que estariam, em algum grau, apartadas umas das outras (fronteiras corporais num caso, esferas de troca no outro), assim como a ambos são atribuídas potências vitais, regenerativas e de fertilidade. Confluindo com essas observações, trouxemos dados etnográficos nos quais dinheiro e sangue aparecem, de forma explícita e recorrente, como substâncias cujos fluxos estão diretamente relacionados com oscilações de vitalidade; fluxos que precisam ser geridos com habilidade e conhecimento para que floresçam.

Assim, a afirmação da importância da consanguinidade torna mais difícil distribuir recursos materiais e financeiros entre um conjunto de filhos que não tenham o mesmo pai, situação em que as suspeitas de tratamento preferencial e a possibilidade de que alguém se sinta injustiçado encontram terreno fértil. É preciso gerir as expectativas e as frustrações alheias, tanto com dinheiro e presentes quanto com conversas e explicações.

Em casa, marido e esposa compartilham a atribuição de disciplinar os seus e gerir o coletivo formado pela co-residência. Há funções especificamente femininas, com destaque para a separação das porções de comida destinadas a cada pessoa e o gerenciamento dos estoques. Decidir o que e quanto cada um comerá é uma responsabilidade séria. Uma gestão feita de maneira inadequada pode dar espaço a frustrações e ressentimentos, deteriorando situações e exigindo esforços maiores para que as coisas não saiam do controle.

O verbo mais usado para dar conta da gestão do capital e do comércio é jere, traduzível como “gerir”. Crianças devem ser geridas por seus responsáveis. Nas relações hierárquicas dentro da casa, um objeto fundamental dessa gestão é a sexualidade dos adolescentes, especialmente do sexo feminino. As frases que usam o verbo jere frequentemente têm um sentido de contenção de danos, e podem abranger os recursos de sua casa, a distribuição da comida, o próprio corpo ou os próprios sentimentos (normalmente, se refere àqueles nocivos, que precisam ser mantidos sob controle), além de dinheiro e dívidas ou situações problemáticas.

A gestão do dinheiro do comércio é continuamente remetida ao investimento na educação de filhos/as. A importância da prole nas falas das mulheres comerciantes foi o principal motivo para tentarmos articular etnograficamente maternidade e comércio, tema que desenvolvemos tomando a ideia de “gerir” [jere] como fio condutor. A amplitude desse conceito de gestão nos oferece um ponto privilegiado para formularmos as articulações entre ser mulher e fazer comércio. Recaem sobre as mulheres atividades essenciais de manutenção da casa, o controle dos estoques de provisão e a sua renovação constante pelas compras feitas no mercado, a alimentação apropriada das pessoas, e a disponibilização de roupas bonitas e limpas. Tudo isso é objeto de uma gestão que pode ser feita do jeito correto ou não.

A capacidade de gerir é desenvolvida por uma formação na qual as atividades próprias ao comércio são fundamentais. É claro que nem todas as mulheres tornam-se comerciantes (embora quase todas frequentem os mercados pelo menos para fazer a provisão). O ponto é que a gestão de capital e de um comércio - no controle de estoques, na administração dos gastos, na efetividade da separação que evita que o dinheiro seja comido ou se estrague, na capacidade de se relacionar com credores e clientes de uma forma que todos se sintam reconhecidos e respeitados - possuem analogias profundas com a gestão da casa. Saber gerir é uma habilidade altamente valorizada nas mulheres, evocada com frequência em avaliações sobre os méritos de cada jovem como potencial companheira/esposa. Há uma reafirmação constante (geralmente de pessoas mais velhas aconselhando as mais novas) de que saber gerir é muito mais importante do que a beleza física.

Reconhecendo essas comerciantes também como mulheres e como mães, trouxemos alguns aspectos sobre a gestão de crianças, da consanguinidade e da comensalidade, ao lado da descrição de usos do dinheiro por parte de comerciantes, explorando algumas das articulações existentes entre casa e mercado enquanto espaços formadores de pessoas. Trata-se de mães que comercializam, se deslocam entre mercados e outros espaços buscando uma vida melhor para os seus, ficando assim afastadas de casa para retornar com o dinheiro que permite o seu sustento. Essa gestão articula, com tensionamentos e dilemas morais, as variadas dimensões da vida dessas mulheres que são acionadas no comércio. Elas são o pilar central, o principal eixo de sustentação de suas casas. A vida que buscam enquanto comerciantes é a vida dos seus, e é, de fato, uma busca. Exige deslocamentos. Assim, elas ocupam a posição peculiar de pilastras que se movem.

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Notas

  • *
    Agradeço à professora Alline Torres e aos/às pareceristas anônimos/as da Mana, pelas importantes contribuições ao texto. Evidentemente, quaisquer infelicidades do artigo são de minha responsabilidade.
  • 1
    Entre os clássicos, destacamos Métraux et al (1951), Mintz (1961, 1964) e Moral (1961), centrados no universo rural. Estudos como Anglade (1982), Murray & Alvarez (1975) e Yarrington (2015) trabalham a articulação campo-cidade, e outros como Locher (1975), Fass (1988) e Neiburg (coord., 2012) em contexto urbano, principalmente Porto Príncipe, além de valiosos relatórios produzidos no contexto das organizações internacionais, como Stam (2012) e Plotkin (1989). Há ainda uma vasta bibliografia que aborda essa economia popular entre a diáspora haitiana em outros países.
  • 2
    Em 1975, Uli Locher estimou que o comércio empregava, apenas em Porto Príncipe, cerca de 1.300 madanm sara e 50.000 machann, contingente maior do que qualquer outra classe profissional na capital à época, com uma proporção de mais de 38 machann para cada madanm sara. Na situação empírica encontrada por mim quase meio século depois, parece razoável estimar que haja algumas dezenas de machann para cada madanm sara.
  • 3
    Tradução livre do trecho original: “l’ampleur, l’omniprésence, la dominance de la femme dans la commercialisation intérieur des vivres. On dirait ... que le commerce intérieur des vivres, les circuits de sa commercialisation, les lieux de transaction, les agents de sa distribution ... sont affaire des femmes”.
  • 4
    Sua história remete aos anos 1960, durante o governo de John Kennedy, quando foi criada a USAID, por meio da qual começaram a chegar ao Haiti doações ‘humanitárias’ de roupas em grande escala (Bourgeois 2016), gênese que deixou sua marca no primeiro nome pelo qual essas roupas recicladas foram chamadas no Haiti, ‘kenedy’ (Shell 2006). Com o tempo, o fluxo estabelecido pela indústria da ajuda cresceu, reduzindo quase a zero o antes tradicional comércio de tecidos (cf. Sergo 2011). O fluxo de doações de roupas pela indústria ainda existe, mas hoje o grosso da importação de pèpè passa por imigrantes haitianos estabelecidos em cidades como Miami, Boston e Fort Lauderdale (Shell 2006), que despacham para portos haitianos como Port-de-Paix, Saint-Marc, Miragoâne e Porto Príncipe (Theodat 1998). Em uma extensão de sentido mais recente, também são chamados de pèpè produtos como baterias, televisões e carros usados remetidos desde a América do Norte.
  • 5
    Em diálogo com a literatura mais recente sobre a antropologia da casa, no Haiti e alhures (Marcelin 1996; Joseph 2020; Dalmaso 2021; Neiburg & L’Estoille 2020; Neiburg 2022; Dumans 2017), nossa referência principal aqui é a casa [kay], termo que se refere à casa enquanto construção física. A pesquisa de Joseph (2020) revela relações e contrastes entre dois tipos de casa, chamadas de “casa local” e “casa diáspora”, com uma rica descrição dos espaços arquitetônicos em Fonds-des-Negres, no Haiti, e Caiena, na Guiana Francesa, que articula redes transnacionais de migração. Há outro termo importante que se refere à moradia, lakou, que corresponde à área externa, ao terreno onde está construída e em oposição ao espaço interno da kay (uso mais comum quando se está no local), ou ao terreno como um todo, englobando a casa construída (uso mais comum quando o falante está longe do local mencionado). Lakou é um conceito denso, com uma longa história de estudos e sentidos que extrapolam essa designação física, referindo-se à ancestralidade de famílias, aos mortos e outros temas complexos que não cabem no escopo do presente texto.
  • 6
    Jacqueline presenciou, em sua infância, o evento conhecido como “massacre dos porcos”, ocorrido no começo dos anos 1980, quando autoridades sanitárias ordenaram o extermínio dos porcos crioulos do Haiti (recentemente analisado por Bulamah 2020). Apesar dos efeitos econômicos catastróficos para a geração mais velha no Haiti rural, a criança que Jacqueline era na época ficou com a memória de um banquete de grandes proporções, pois, ao saberem que não poderiam mais criar seus porcos, as pessoas resolveram comê-los. Ela relatou que nunca tinha visto tanta carne em sua vida, havia em todas as casas, abundância tão memorável quanto efêmera.
  • 7
    Os gode são potes metálicos, de tamanho padronizado, com duas abas laterais, similares a canecas de alumínio esmaltado, só que com menos profundidade e com o diâmetro maior. A capacidade de um gode é de cerca de 400 ml, volume estimado até a altura das bordas, que seria o volume máximo para líquidos. Contudo, para sólidos, da forma como as pessoas de fato o usam, enchendo bem além da altura das bordas, a capacidade é maior e mais difícil de estimar.
  • 8
    Depois do gode, a unidade de medida mais importante para sólidos é a mamit, que equivale a sete gode. Menos que como recipiente físico (que já existiu e foi de uso comum, conforme Métraux et al. 1951 e Mintz 1963), a mamit é usada constantemente como unidade de conta abstrata para tudo o que é mensurável através do gode. Assim, se uma cliente pede três mamit de arroz, a vendedora contará 21 (ou seja, 3 x 7) gode bem cheios. O que estiver sendo medido via gode será despejado num outro recipiente, tipicamente uma sacola plástica, processo que se repetirá 21 vezes. No fim, a sacola portará três mamit.
  • 9
    As multiplicações e divisões por 5 e por 7 são contas automatizadas, são escalas que elas dominam confortavelmente, e usam o tempo inteiro. No caso do dinheiro, vale a escala de 5, pois a moeda usada nas negociações de preços, assim como na grande maioria das conversas cotidianas, é o dólar haitiano, enquanto o dinheiro efetivamente impresso é o gourde. O dola [dólar haitiano] é, hoje, um “dinheiro imaginado” (Neiburg 2016), sem existência física, que vale o mesmo que cinco gourdes. A escala de sete é usada na conversão entre as principais unidades de medida para sólidos, gode e mamit. Há ainda outras conversões e escalas das quais não trataremos aqui, como as que decorrem da multiplicidade monetária onipresente no Haiti, discutidas em Evangelista (2021) e por Federico Neiburg, para quem, no Haiti, “as pessoas crescem virando especialistas em cálculos entre moedas e escalas” (2022:12).
  • 10
    A proporção entre peso e volume varia segundo a mercadoria em questão. Um exemplo; um saco de 25kg de arroz foi estimado por ela como, em média, 7 mamit e 2 gode (7 x 7 = 49 + 2 = total de 51 gode). Com 2 a 3 gode num universo de 51, a taxa de lucro fica entre 4% e 6%. Na época da pesquisa de campo, o gode desse arroz saía de 3 a 4 dólares haitianos (ou seja, 15-20 gourdes), e a mamit custava entre 21 e 23 dólares haitianos (ou seja, 105-115 gourdes, que na cotação da época fica entre U$ 1,69-1,85). Ao revender um saco de 25 quilos, operação que pode levar um dia inteiro, o lucro líquido dela era cerca de um terço do valor da mamit, aprox. 60 centavos de dólar americano.
  • 11
    De forma similar, Simon Fass nota que, nesse “ofício ferozmente competitivo” que é o comércio no Haiti, “any unforeseen event such as illness, political unrest, strikes, or lack of marketing expertise may drive these women out of business within a matter of days or weeks. … [their] most common dificculty . . . was childbirth and illness. . . . A birth meant a brief period out of the market in order to nurse, and a trader’s illness, or that of a trader’s immediate family often had the same effect’ (1990: 80). They would then face dificculty in re-entering the market as ‘they had lost their niche” (Fass 1990: 81 apud N’Zengou-Tauo 1998:126).
  • 12
    Tradução livre do seguinte trecho no original: … whereas Afikpo women are restricted by custom and their husbands’ authority from increasing trade earnings through long-distance trips, Haitian market women travel readily and widely in their operations. (…) men are not prepared to insist that their wives or common-law wives forsake any trading activity, merely in order to fulfill their domestic obligations. Though market women use their profits in domestic upkeep, for the education of their children, for vodoun ceremonial payments and in other ways, their husbands have no recognized claim on their capital.
  • 13
    De forma menos espontânea que o acompanhamento na infância, também há a transmissão de um saber técnico, contábil — ainda que pouco formalizado — para a separação do dinheiro do comércio e do dinheiro para uso próprio, às vezes com o suporte de cadernos, às vezes recorrendo a suportes menos previsíveis, como o pequeno pedaço de papelão que Madame Dodo me mostrou, facilmente confundível com lixo, e que, como tal, tem uma vantagem de camuflagem, permite manter anotações, dificultando que qualquer outra pessoa consiga decifrar seu significado. Dada a dimensão potencialmente competitiva do comércio, há situações em que ocultar o que se sabe é tão importante quanto o saber em si, o que também é um tema importante nesse aprendizado.
  • 14
    Na casa de Jacqueline viviam duas crianças além de seus filhos e netos. Uma das esposas de seu falecido irmão “deu” sua filha Shayra para Jacqueline, que, desde então, a trataria “como uma filha”. Um senhor “emprestara” sua filha Anosi para Jacqueline já havia sete anos, desde a morte de sua esposa, mãe da menina.
  • 15
    Essa circulação foi notada por organizações que combatem o trabalho infantil, sendo denunciada como uma escravidão moderna (caso dos restavèk, a criança que “restou com” outra família), pela exigência de contribuição com os afazeres domésticos. Não podemos entrar no tema no escopo deste texto, mas corroboramos os comentários de Braum, Dalmaso & Neiburg (2014:20).

Editado por

  • Editora-Chefe:
    María Elvira Díaz Benítez
  • Editor Adjunto:
    John Comeford
  • Editor Associado:
    Luiz Costa

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    10 Mar 2023
  • Aceito
    18 Set 2024
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