Open-access DAS, Veena. 2023. Aflição: saúde, doença, pobreza. Trad. Bruno Gambarotto. São Paulo: Unifesp. 296 pp.

DAS, Veena. 2023. Aflição: saúde, doença, pobreza. . Gambarotto, Bruno. São Paulo: Unifesp, 296

Quase uma década depois da sua publicação original, a tradução de Aflição: saúde, doença, pobreza, da autora Veena Das, chega ao Brasil graças aos esforços da Editora Unifesp, que também traduziu o Vida e Palavras (2020) e o Texturas do Ordinário (2023), ambos os mais famosos livros da antropóloga indiana. Aqueles que acompanham a extensa produção intelectual e autobiográfica da autora sabem que o mundo ordinário e a vida cotidiana ganham forma em seus textos de uma maneira quase sempre sublime e, ao mesmo tempo, feroz. Não é diferente em Aflição, um livro que, nas palavras de Das, busca desvelar "um mundo em que a vida pulse com as batidas do sofrimento e também com os pequenos prazeres da vida cotidiana" (:17).

Fruto dos quatorze anos de trabalho com o Instituto de Pesquisa Socioeconômica em Desenvolvimento e Democracia da Universidade de Delhi, o livro é resultado de uma pesquisa que utilizou métodos mistos de pesquisas com famílias pobres da Índia. Apesar de ser um conceito devidamente trabalhado ao longo do livro, já nas primeiras páginas a aflição é descrita pela autora como uma espécie de “corrosão da vida cotidiana” (:18) que ultrapassa uma mera condição de sensação, mas é, antes, uma forma própria à vida. Em diálogo com Simone Weil (2021), a antropóloga utiliza a metáfora da aflição como um “parasita” (:19) colado ao corpo: um medo tão sutil que aparece em lapsos, ou por assim dizer, uma pedra no sapato que insiste em não ir embora. Justamente por se tratar de um sofrimento tão comum e “ordinário, que não é dramático o suficiente para chamar a atenção” (:20), se torna ainda mais difícil teorizar sobre ele.

Nos seus primeiros capítulos, vemos a doença como "algo" que além do físico é também social: a ordinariedade do cotidiano faz com que, ao mesmo tempo, doenças sejam percebidas e intrincadas no mundo e nas relações institucionais, de parentesco e de vizinhança. Neste sentido, ao narrar sobre "a natureza dramática da doença"(:52), Das ressalta a não existência de categorias transcendentais acima da aflição, mas sim, a sua fragilidade e vulnerabilidade diante da vida diária. Assim, experienciar a doença é também viver um ordinário corroído e sufocado em meio ao desassossego e à sensação persistente de estar no limiar da vida. Paralelo ao conceito de habitar a “devastação” proposto no seu livro Vida e Palavras (2020:27), a antropóloga se pergunta como, em meio à aflição, as pessoas podem "tornar a vida habitável" (:18) ou viver suas vidas na contínua sensação de que a vida pode entrar em colapso a qualquer momento (:62).

Em um forte diálogo com Michel Foucault (1999) e sua noção de biopoder, no capítulo 1, a antropóloga nos convida a conhecer a história de Meena, interlocutora subdiagnosticada com uma forma resistente de tuberculose que morreu pouco tempo depois do primeiro contato etnográfico. Sem querer procurar os verdadeiros culpados pela sua morte, Veena Das tenta mostrar que Meena experimentou, ao mesmo tempo, períodos de negligência e cuidado, imbricados e embebidos na vida cotidiana. Numa contínua oscilação entre desespero e esperança, tanto a sua família quanto a vizinhança e as instituições (estatais ou não) se tornaram importantes agentes na experiência da doença e no "deixar morrer" exercido pelo biopoder (:73-74). Foi também em sua história que nós vimos que, por vezes, dentro da experiência da doença e de todas as relações que estão em jogo, o alívio de sintomas se torna mais importante do que o tratamento. Afinal, é importante pensar em tudo aquilo que existe para além do diagnóstico.

Pensando nisso, a moral existente no limite da vida cotidiana aparece como basilar para a compreensão da experiência da doença. Assim, no capítulo seguinte, um dos mais emocionantes e desafiadores do livro, nós conhecemos a história da doença de Meena a partir da narrativa do seu filho Mikesh. Com ele, Veena Das escuta atentamente a sua forma de testemunhar e aprendemos que a experiência da doença molda o mundo. Mikesh, com sagacidade, contrapõe a ideia de que crianças são tábulas rasas e "rouba" linguagens outras para a construção de seu próprio mundo de compreensão da doença da mãe (:82-83). A oscilação de desespero e esperança de Meena também é sentida pelo próprio Mikesh, que se vê diante da ambivalência de intervir e sofrer pela mãe, estando disposto a "pagar o preço"(:99) da sua necessidade crítica de um cuidado que é desentendido pelos adultos. Neste sentido, por meio dos testemunhos de Mikesh, Das aponta brilhantemente os limiares quase sempre turvos entre adultos e crianças diante de uma aflição ordinária. Para finalizar o capítulo, Das mostra o lamento de Mikesh no dia da morte de sua mãe por meio da citação de uma narrativa no mínimo angustiante: "(Eu te) mostrei que tinha notas altas, não foi? Mas não consegui mostrar para ela quão bem eu tinha ido" (:101).

O capítulo 3 é uma discussão entre a loucura e a modernidade por meio da fragilidade das relações. Ainda dialogando com o "deixar morrer" do biopoder, Das diz que "o sujeito da loucura é um conjunto de relações, não um indivíduo - então quem ou o que se pode deixar morrer é algo que está dentro do nó de relações em que a própria loucura reside" (:107). No capítulo, Das narra o caso de Swapan e sua família diante da porosidade da trajetória de sua doença mental. Swapan tinha ataques de raiva, espancava a sua irmã e a sua mãe, além de se recusar a tocar na comida feita por ela. Enquanto Das insistia na necessidade de diagnóstico de um médico psiquiatra, a família consultou um exorcista pois compreendia que Swapan estava imerso em um feitiço feito por "alguém" (seus familiares vizinhos que eram lidos como inimigos). A recusa pelo "normal normativo" (:129) proveniente da família os fazia acreditar que a sua doença mental era uma mera condição de resistência, assim, sua condição se deteriorava pelo "cuidado" exercido pela sua família e vizinhança, tal cuidado, entretanto, caminhava por um viés não biomédico e não ideal para seu transtorno mental. Com a história de Swapan, Das mostra a necessidade de "pluralizar" aquilo que chamamos de "doença, saúde, normalidade e patologia" (:137).

Já na história de Billu, interlocutor do capítulo 4, a antropóloga indica as distintas formas que as redes de vizinhança, amizade e parentesco assumem diante da doença. Billu se via em face de uma obrigação ética de cuidar de um irmão doente numa experiência que também o sugava enquanto sujeito moral. Antes impossibilitado financeiramente de construir um futuro para sua família devido à sua dívida moral com a família, diante da morte de seu irmão, Billu sentiu uma mistura de emoções entre fracasso, desamparo e principalmente alívio. Das nos faz ver que a necessidade de cuidar de si é quase sempre deixada para depois, dado o imediatismo presente de cuidar da doença do outro.

O encontro da antropóloga com um curandeiro muçulmano no capítulo 5 evidencia que a saúde não pode ser aqui considerada a partir de um viés canônico, mas sim por sua vida ética e moral. Um adendo a se fazer é que um dos grandes desafios de leitura deste capítulo é justamente o acesso ao contexto indiano e a uma compreensão não ocidentalizada da doença e da cura. Aqui, nós somos os "outros". Por meio de um sonho compartilhado por Das, o curandeiro narra a sua história com um enorme grau de ceticismo em si mesmo. Hafiz Mian não escolheu ser curandeiro, a tarefa foi a ele designada, por conta disso, ele experimenta a própria potencialidade como um fardo. Assim, diante desse fardo em trabalhar com experiências do sofrimento, Das nos faz refletir sobre a própria maneira com a qual nos comportamos em nossos campos de pesquisa e/ou campos de prática médica/de saúde. "O que me aflige?" (:186), pergunta Das. Arrisco a perguntar, também: o quanto estamos preparados para refletir sobre a aflição do outro? Como concebemos a ideia de que o sentimento do outro está diante daquilo que dói? Tais questionamentos são vislumbres dos próximos dois capítulos, que trazem a não separação entre o mercado da biomedicina e a medicina tradicional. Os praticantes, assim intitulados propositalmente por Das para uma categoria que abrange desde médicos como curandeiros ocultistas, podem receitar um antibiótico ao mesmo tempo em que entoam mantras diante do tridente de Shiva, num misto entre prática, simbolismo, eficácias, corpo social e físico.

Os capítulos finais mostram a desigualdade no acesso à saúde ao nos perguntarmos quais são as doenças que verdadeiramente importam e chamam a atenção na saúde global. Das nos informa que medição e precisão são conceitos globalmente estabelecidos que merecem ser discutidos diante da antropologia, afinal, tanto a cura quanto a eficácia dependem de distintos pontos de vista para tomarem forma. A patologia, portanto, "é uma realidade vivida" (:226), fazendo-nos voltar para as primeiras páginas do livro, onde Das apresenta o questionamento: "como a vida pode ser vivida dessa maneira? no entanto, era assim que a vida era vivida" (:19), mostrando que mesmo diante da aflição e seu potencial aniquilador de mundos, as pessoas simplesmente "lutam para garantir a vida cotidiana" (:20).

Assim, a tradução de Aflição é um grande marco para a antropologia brasileira, bem como é, sem dúvida, um modo de expansão da teoria etnográfica de Veena Das para campos localizados para além das Ciências Sociais. Arrisco a dizer que Aflição é um livro que deve ter sua presença obrigatória nos currículos dos cursos de saúde, bem como para todos aqueles interessados nas texturas das relações entre experiências de saúde, doença e pobreza. Em meio ao fino limiar da vida cotidiana, é preciso encarar o desassossego e o incômodo para, por fim, tentarmos uma compreensão - sempre hesitante - sobre o caráter comezinho da aflição.

Agradecimentos

Agradeço ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Brasil (Processo nº 140829/2022-9) pelo financiamento de pesquisa que permitiu a escrita deste texto.

Referências

  • DAS, Veena . 2020. Vida e palavras: a violência e sua descida ao ordinário Trad. Bruno Gambarotto . São Paulo: Unifesp.
  • DAS, Veena . 2023. Texturas do ordinário: fazendo antropologia à luz de wittgenstein Trad. Bruno Gambarotto . São Paulo: Unifesp .
  • FOUCAULT, Michel. 1999. Em Defesa da Sociedade: Curso no Collège de France (1975/ 1976) Trad. Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes.
  • WEIL, Simone. 2021. Waiting for God Londres: Routledge.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editor-Chefe:
    Luiz Costa
  • Editora Adjunta:
    Adriana Vianna
  • Editor Adjunto:
    Carlos Fausto

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    23 Fev 2024
  • Aceito
    01 Ago 2025
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