Open-access Marias Quilombolas Marajoaras, Malungas Iyalodês de Salvaterra - Pará

Marias quilombolas marajoaras, malungas iyalodês from Salvaterra - Pará

Marías quilombolas marajoaras, malungas iyalodês de Salvaterra - Pará

Resumo:

Este texto provém de partes dos resultados da pesquisa de doutoramento que resultou na tese Resistências malungas: agências sociopolíticas das mulheres quilombolas de Salvaterra, Arquipélago do Marajó, Pará. Assim, trazemos reflexões entretecidas com 22 mulheres malungas e coautoras da pesquisa, durante a escrevivência plurivocal e afrocentrada do estudo. Porém, a análise detém-se apenas na trajetória de vida de quatro “Marias”: Tia Conci, Zeca, Tia Noca e Páscoa, enfocando nossas ações e práticas enquanto ativistas quilombolas de Salvaterra, Pará. Concluímos o texto destacando a existência de uma agência e resistência malunga frente aos desafios impostos pela luta em defesa do território de existência do povo quilombola salvaterrense, concretizada em ações enquanto Cuidadoras e Guardiãs da Vida, atuando em áreas como educação, saúde, meio ambiente, economia, política, história social e cultura. São vozes-potências criadoras e recriadoras de mundos, engendradoras de resistências malungas cotidianas diante dos obstáculos as nossas vidas-liberdades.

Palavras-chave:
Quilombolas; Salvaterra; Malungas Iyalodês; Agência malunga; Resistência malunga

Abstract:

This text comes from parts of the results of the doctoral research that resulted in the thesis Resistências malungas: agências sociopolíticas das mulheres quilombolas de Salvaterra, Arquipélago do Marajó, Pará, so we bring reflections interwoven with 22 women co-authors of the research and malungas during the plurivocal and Afrocentric writing of the study. However, the analysis only focuses on the life trajectories of four “Marias”: Tia Conci, Zeca, Tia Noca and Pascoa, focusing on our actions and practices as quilombola activists in Salvaterra, Pará. We conclude that there is Malunga agency and resistance in the face of the challenges posed by the struggle to defend the territory of existence of the Salvaterra quilombola people, which takes the form of actions as Carers and Guardians of Life, working in areas such as education, health, the environment, economics, politics, social history and culture. They are voices-powers that create and recreate worlds, engendering daily malunga resistance in the face of challenges or obstacles to our lives-liberties.

Keywords:
Quilombolas; Salvaterra; Malungas Iyalodês; Malunga agency; Malunga resistance

Resumen:

Este texto proviene de partes de los resultados de la investigación doctoral que resultó en la tesis Resistências malungas: agências sociopolíticas das mulheres quilombolas de Salvaterra, Arquipélago do Marajó, Pará, y por lo tanto trae reflexiones entrelazadas con 22 mujeres coautoras de la investigación y malungas durante la escrevivênciaplurivocal y afrocéntrica del estudio. Sin embargo, el análisis sólo se centra en las trayectorias de vida de cuatro «Marías»: Tia Conci, Zeca, Tia Noca y Páscoa, centrándose en nuestras acciones y prácticas como activistas quilombolas en Salvaterra, Pará. Concluimos que hay agencia y resistencia malunga frente a los desafíos que plantea la lucha por la defensa del territorio de existencia del pueblo quilombola de Salvaterra, que se concreta en acciones como Cuidadores y Guardianes de la Vida, actuando en áreas como la educación, la salud, el medio ambiente, la economía, la política, la historia social y la cultura. Son voces-poderes que crean y recrean mundos, engendrando resistencia malunga cotidiana frente a los desafíos u obstáculos a nuestras vidas-libertades.

Palabras clave:
Quilombolas; Salvaterra; Malungas Iyalodês; Agencia Malunga; Resistencia Malunga

Introdução

A voz de minha filha
recorre todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem - o hoje - o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir
a ressonância
o eco da vida-liberdade.
(Conceição Evaristo - Poema Vozes-Mulheres)

Este artigo é composto de partes dos resultados da pesquisa de doutoramento que resultou na tese Resistências malungas: agências sociopolíticas das mulheres quilombolas de Salvaterra, Arquipélago do Marajó, Pará. Assim, compartilhamos reflexões entretecidas com 22 mulheres coautoras que estiveram malungas (companheiras e irmãs de reexistências) durante a escrevivência1 (Evaristo 2020) plurivocal e afrocentrada2 deste estudo. Compartilhamos experiências e ciências desde o chão do quilombo!

Iniciamos com um trecho do poema Vozes-Mulheres de Conceição Evaristo (2008) para exprimir as poéticas das vozes-mulheres que escrevivem este texto desde o quilombo em Marajó. São vozes-potências criadoras e recriadoras de mundos, engendrando reexistências diante de cada obstáculo às nossas vidas-liberdades. Vozes que cantam, comemoram, rememoram, protestam, defendem, esbravejam, lamentam e calam. Mas, mesmo emudecidas, contam muito. Contam de nossas existências e resistências diante de um adversário onipresente, transmorfo, mas em essência sempre o mesmo, como revela-nos a malunga Zélia Amador de Deus (2019): o racismo.

Racismo que, enquanto fenômeno estruturante da sociedade e Estado brasileiro (Almeida 2019), atinge perversamente as pessoas negras, com particular ênfase sobre as mulheres, cujas vidas são atravessadas pelas correlações interseccionais entre raça/cor/etnia, gênero, classe, localização, como destacam Lélia Gonzalez (1988), Patrícia H. Collins (2017a ; 2017b), bell hooks (2013; 2014), Sueli Carneiro (2003) e outras intelectuais negras que têm pensado as interseccionalidades dos sistemas de opressão -, colocando-nos e mantendo-nos nos extratos sociais mais baixos e em vulnerabilidade em todas as regiões do país.

No nosso caso, mulheres quilombolas que habitam as periferias das periferias, vivendo em lugares onde o Estado e representantes de grupos hegemônicos (empresários, fazendeiros, mineradoras etc.) produzem estratégias de espoliação bastante eficazes, e que se expressam na falta de quase tudo - inclusive na ausência (até o Censo 2022) de informações sobre nossa existência nos dados oficiais. Consequentemente, vivenciamos a inexistência de políticas públicas que garantam nossas vidas enquanto cidadãs plenas e convivemos com a negligência e negação histórica de direitos socioterritoriais, políticos, econômicos, ambientais e culturais.

Em Salvaterra, município da Ilha do Marajó que tem dezenove (19) territórios quilombolas autorreconhecidos, e onde 15 das 19 das lideranças são mulheres, a realidade não difere do contexto nacional: uma batalha contínua frente às violências que afetam o povo quilombola e conflitos agrários acirrados em consequência de problemas estruturais históricos, decorrentes de séculos de ausência do Estado, abandonos e explorações de sua população, dos quais padecem todos os municípios do Arquipélago do Marajó. Aqui, a lentidão nos processos de titulação junto ao INCRA-PA/SR13 configura-se como o principal vetor de conflitos que atingem diretamente as mulheres, triplamente afetadas quando as violências se direcionam aos seus familiares.

Ponderamos que, desde 1998, as mulheres realizam cotidianamente os aquilombamentos (Sousa 2020; 2022a; 2022b), mas as pesquisas que abordam o quilombo em Salvaterra4 não enfocaram a agência feminina, referindo os/as agentes das ações sociopolíticas e territorialidade de forma genérica. Portanto, é salutar emergir essa peculiaridade dos aquilombamentos marajoaras, isto é, a proeminente agência malunga.

O estudo coautoral (Sousa, 2022 b ), informa que nas lutas coletivas destacam-se nomes de mulheres, como: Luzia Betânia, Lina, Conceição, Maria José, Noemi, Ivete, Tereza, Ivana, Cristina, Maria das Graças, Ana Raimunda, Eliana, Eloisa, Jaqueline, Joelma, Valéria, Elieide, Elianete, dentre outras, tais como as parentas e amigos5 que se dispuseram a “fazer o movimento quilombola”. Tais mulheres apoiaram-se em outras de “fora”, como as professoras Rosa Acevedo, Zélia Amador de Deus, Cristiane Nogueira, Eliana Teles, Maria do Socorro dos Santos - pesquisadoras-ativistas que afetaram e foram afetadas (Favret-Saada 1977) pelo aquilombamento salvaterrense.

Escrevivemos as agências das malungas iyalodês em defesa de nossos territórios e no amparo da(o)s quilombolas para garantir as existências de toda(o)s, porém, a análise detém-se na trajetória de vida (Bourdieu 2006) de quatro “Marias”: a) Maria da Conceição Sarmento dos Santos, Tia Conci , 86 anos; b) Noemi Maria Barbosa, Tia Noca , 56 anos; c) Maria José Alcântara Carneiro, Zeca , 52 anos; em diálogos com d) Maria Páscoa Sarmento, 48 anos, enfatizando nossas agências sociopolíticas.

Mulheres quilombolas, malungas iyalodês: agentes de resistências malungas

No estudo acima mencionado, Sousa (2022 b ), ao refletir sobre as agências sociopolíticas das mulheres quilombolas de Salvaterra, definiu a malunga quilombola:

Pensando assim, e diante das várias experiências de resistências femininas coletivas que tenho vivido e observado em nossos TQ, compreendemos a malunga quilombola como aquela pessoa socialmente percebida como mulher (em termos anatômicos e biológicos) que age no interior e no exterior dos territórios exercendo de alguma maneira o papel social de liderança em alguma área da organização coletiva (saúde, educação, religiosidade, economia/produção, meio ambiente, cura, artesanias etc.), algumas vezes alcançando ocupar espaços de poder (real ou simbólico) e autoridade nos lugares por onde transita e/ou habita. Como iyalodê é detentora de uma potência enunciadora respeitada pela(o)s pares, usando este poder de fala para sustentar a defesa da(o)s demais frente à sociedade e ao Estado. Sendo que suas agências são/estão permeadas e profundamente marcadas por sentidos de solidariedade, cooperação e compartilhamento: ela é um coletivo (Sousa 2022 b :311-312).

Deste modo, nós nutrimos este debate com nossos corpos-territórios, epistemologias e ciências. Estudos anteriores (Sousa 2020; 2022a; 2022b) mostram que a palavra malunga começa a circular entre nós a partir da criação da Coordenação das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombos do Estado do Pará - MALUNGU.6 Quando o termo malungu foi explicado aos/às quilombolas paraenses como sinônimo de “companheiro”, daí que a mulherada começou a dizer-se ‘malunga’, o equivalente feminino de ‘malungu’.

Quanto à etimologia de ‘malungu’, Robert Slenes (1992) explica tratar-se de um termo africano de origem controversa, provavelmente proveniente de línguas do tronco bantu e/ou semi bantu, aqui retomado como significando companheiro, parente/irmão em kimbundu e umbumdu (Slenes, 1992). Slenes compreende, a partir de Oscar Ribas, a existência de “espíritos simpatizantes” ou espíritos ancestrais na região de Luanda, podendo comunicar-se com pessoas espontaneamente “ou “evocados em práticas divinatórias”. O nome desses espíritos, derivados de m’akua-lunga, relativo aos do além, “é malunga” (Slenes 1992:55). Deste modo, depreende palavras ressignificadas na Diáspora Transatlântica. Em sua opinião,

Percebem-se agora os significados mais amplos de “malungu” para os escravos falantes de kigongo, kimbundu e umbundu, cujos conceitos cosmológicos eram semelhantes, como também para cativos de culturas relacionadas. “Malungo” significava não apenas “barco”, ou “camarada de embarcação”, mas companheiro de travessia da vida para a morte (branca), e possível volta para o mundo (preto) dos vivos. A história de “malungu” encapsula um processo pelo qual escravos, falantes de línguas bantus diferentes, provindos de diversos grupos de origem, começaram a descobrir-se como irmãos. E ilustra, também, como a África permaneceu coberta para os senhores, mesmo quando estes pareciam compartilhar com os africanos o mesmo campo discursivo (Slenes 1992:8).

Assim, para Slenes (1992), a palavra malunga, juntando-se aos significados de malungu, atravessou ressignificações, passando a designar “companheiros” de sofrimento na travessia, logo retomado como feminino de malungu. Em A Sul. O Sombreiro, do escritor angolano Pepetela, aparece um episódio com presença de malunga no Fortim da Muxima: “São sabedorias antigas, este lugar tem força. Algumas pessoas são apoderadas pelos espíritos, outras, não. É um lugar muuuito forte. Tem malunga” (Pepetela 2011:169).

No movimento quilombola, malunga emprega-se neste sentido ressemantizado de almas irmãs/irmãs de almas (souls sisters) e companheiras de jornadas, para designar mulheres que compartilham origens e destinos presumidos como comuns (Weber 2004), irmanadas enquanto membros de um grupo étnico-racial em aquilombamentos e enquanto gênero (Sousa 2022 a ). Ialodês (Werneck 2009), que rompem o silêncio com suas vozes há muito obliteradas (Evaristo 2020). Aquelas coletivas-individuais que traduzem o ser-mulher em aquilombamentos múltiplos na Amazônia (Sousa, 2022a; 2022b).

Em outros textos (Sousa 2020; 2022a), destacamos as origens da palavra ialodês(s)/iyalodê(s) pois, segundo Jurema Werneck, “atualmente, ialodê é termo apropriado pelo movimento social de mulheres negras brasileiro, para nomear organizações e atributos de liderança e representação” (2009:79). Werneck observa uma ressignificação desta palavra na Diáspora Transatlântica, pois antes, ela se referia às mulheres de cidades iorubas pré-coloniais na África, responsáveis por falar nos organismos decisórios públicos coletivos, como também designava a associação de mulheres nestes contextos. No Brasil, a mesma palavra refere-se também às ayabás Nanã, Yemanjá, Oxum e Oyá, na tradição do Candomblé, e, em Salvaterra, constitui-se em qualitativo para as malungas.

Nos quilombos salvaterrenses, deparamo-nos com várias malungas iyalodês, em sua maioria, anciãs marcadas por extensa trajetória no movimento. Mas também jovens que, seguindo os passos das ancestrais e malungas do presente, arrojam-se na tarefa de ser resistência, em agenciamentos vários - igrejas, terreiros, escolas, postos de saúde, universidades, associações e em seus lares (Sousa 2022 b ).

Questões suscitadas na pesquisa de doutoramento acerca da significativa presença da mulherada nos aquilombamentos em Salvaterra no século XXI (Sousa 2020; 2022b), revelaram imbricações com a cosmovisão circular da qual Antônio Nêgo Bispo dos Santos (2015; 2022) menciona, ao afirmar que, no contexto dos quilombos, “Somos começo, meio e começo” - explicando, na Carta da Geração Avó para a Geração Neta, “Que a vida é começo, meio e começo, ou seja: geração avó começo, geração mãe meio e a geração neta começo de novo… assim como a semente é o começo, a árvore é o meio e a semente é o começo novamente…” (Santos 2020: 253).

Assim, as respostas remetem às ações pretéritas contra-coloniais (Santos 2015) de outras malungas, realizadoras de feitos que orientam nossas ações nos presentes. A exemplo das co-criadoras dos quilombos Rosário, Mangueiras, Deus me Ajude, Barro Alto, Paixão e Salvar, ainda no período imperial; malungas que organizaram irmandades ‘marianas’7 em Mangueiras, Barro Alto, Caldeirão, Paixão; que fundaram clubes de mães e/ou associações de mulheres e associações comunitárias em São João, Deus me Ajude, Bacabal, Campina/Vila União, Barro Alto, Bacabal; cofundadoras de escolas e primeiras professoras em seus povoados; e, além, mulheres diaspóricas como nossas tataravós e outras negras e indígenas que aquilombaram, mais ou menos, em meados do século XIX no Marajó, sendo a organização por gênero uma tradição de longa duração nestes territórios (Sousa 2022 b ; Acevedo Marin 2004, 2005, 2006).

Isso é atestado pela Conhecedora-Griôte8Tereza Santos do Nascimento - Dona Teté (79 anos), professora aposentada e liderança do quilombo Bacabal, que afirma, orgulhosa, ter sido a 1ª mulher a fundar uma associação de moradores em sua comunidade, na década de 1980. Teresa Santos do Nascimento esteve à frente das reivindicações para implantação de turma do Movimento Brasileiro de Alfabetização - MOBRAL e da educação pré-escolar, o antigo Casulo9 tornando-se alfabetizadora da maioria das pessoas dali. Ela anuncia agências malungas iyalodês:

Aí, na comunidade eu fui zeladora da igreja, eu fui convocada a ser zeladora, eu fui dirigente, eu fui tudo. Aí, aqui no Colégio Vasconcelos, naquela época, tinha aquela prova do Candidato Estranho e fui uma delas no meio pra fazer e consegui meu certificado do Primário. Aí, eu continuei na batalha na comunidade e fui convidada a participar do MOBRAL, aí eu ensinei o MOBRAL na comunidade. Através deste ensino do MOBRAL eu me dei muito com o Raimundo Brito, conhecido Olho de Gato. Aí eu participei, foi que eu conquistei a conseguir me escolherem pra ser a presidente da comunidade de Bacabal. Aí, eu fiz uma reunião lá e o Olho de Gato foi lá comigo e se prontificou a adquirir a documentação toda pra nós, registrou a documentação toda. Ai, eu fiquei naquela luta. A primeira presidente comunitária fui eu, de Bacabal. […] Era uma associação comunitária. Foi feito uma reunião com uma assembleia geral com toda a comunidade lá na sede. […] Daí, foi indo, foi indo… E E eu fui acrescentando cada vez mais às minhas possibilidades, né!? (Sra. Tereza Santos do Nascimento - Quilombo Bacabal 2022).

Vê-se que as quilombolas, junto com os homens, já possuíam “experiências” no que diz respeito à organização social e mobilização política em torno de demandas comuns, tais como reivindicações pela construção de escolas e oferta de educação, implantação de postos de saúde, construção de centros comunitários, melhoria de estradas, transporte coletivo. Nos diálogos, evidencia-se que foi com essa experiência que as mulheres acolheram as ideias do movimento quilombola, em 1998.

A principal bandeira de luta é a titulação dos territórios, e, neste sentido, os agenciamentos são múltiplos e vão desde a teimosia em permanecer nas terras de herança, passando pela organização dos grupos de mulheres quilombolas e pela criação e manutenção de associações de remanescentes de quilombos (ARQ), a partir de 2000, até a participação em reuniões, ocupações de órgãos públicos e organizações de eventos afirmadores da identidade quilombola, tais como os Encontros de Mulheres Negras Quilombolas do Pará, os Jogos de Identidade Quilombola e outras resistências.10.

Avançamos este debate ao propormos uma agência e resistência malunga no nos processos de aquilombamentos contemporâneos em Marajó, pois estes advém das agências de mulheres que organizam as lutas coletivas em defesa dos seus TQ e de suas existências.

Era dotada de atividade”: aspectos da agência sociopolítica das quilombolas em Salvaterra

A fala de Luiz Gama, poeta, advogado e abolicionista, em referência à sua mãe, Luíza Mahim , celebrada pelo movimento negro como ativista abolicionista e representante de quilombismos (Nascimento 2009) e amefricanidades11 no século XIX, ao participar da Revolta dos Malês e da Sabinada na Bahia, evoca características da agência das mulheres africanas diante do sistema colonial e da colonialidade organizadora da Diáspora Negra e de suas sequelas perversas. Nos termos de Gama (1880 apud Mott 1988), a imagem desta pessoa dotada de atividade:

Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina (Nagô de Nação) de nome Luíza Mahim, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa. Dava-se ao comércio - era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreições de escravas, que não tiveram efeito. Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do Dr. Sabino, na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro, e nunca mais voltou. Procurei-a em 1847, em 1856 e 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar. Em 1862, soube por uns pretos Minas, que conheciam-na e que deram-me sinais certos que ela, acompanhada com malungos desordeiros, em uma ‘casa de dar fortunas’ em 1838, fôra posta em prisão; e que tanto ela como seus companheiros desapareceram. Era opinião dos meus informantes que esses ‘amotinados’ fossem mandados pôr fora pelo governo, que, esse tempo, tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores (Gama 1880 apud Mott 1988:51). (Grifos nossos)

Mas o que implicaria ser uma mulher africana DOTADA de ATIVIDADE em meados dos oitocentos? Luíza é uma africana livre, pagã e trabalhadora - dava-se ao comércio, era quitandeira muito laboriosa -, mas também uma insurrecta e amotinada -, presa por suspeita de participar em insurreição de escravizadas, provavelmente envolvida na Sabinada, associava-se a malungus desordeiros, presa numa ‘casa de dar fortunas’ -, além de abolicionista.

Estas definições ajudam-nos a perceber a agência de uma negra dotada de atividades que existiu na era escravagista no Brasil oitocentista. Luíza Mahim era africana livre, mas, antes dela e de coetâneas suas, outras negras escravizadas também foram sujeitas dotadas de atividade, a exemplo de Dandara, Aqualtune, Acotirene, em Alagoas; Tereza de Quariterê, em Mato Grosso; no Rio de Janeiro, Antonica, Marcelina e Luisa, referências no Campinho da Independência (Gusmão 1994); em Pernambuco, destacam-se: Francisca Ferreira, Mendencha Ferreira e Francisca Presidente, criadoras do quilombo Conceição das Crioulas (Silva 2012). No Pará, Maria Felipa Aranha e Maria Luíza Piriá/Piriçá, lideranças do Mola em Cametá (Pinto 2007); Olímpia, amasia do Conde Coma Mello, legou o TQ Abacatal, em Ananindeua (Acevedo Marin e Castro 2004), assim com as tataravós de Conceição e Páscoa, Ana Teixeira e Augusta Dias, Cordolina Souza (a Primeira), tataravó de Noemi, em Mangueiras e Honorata Toloza Bandeira (a Segunda), em Deus me Ajude. Mulheres que, de variadas maneiras, ousaram aquilombar no município de Monsarás, na Ilha Grande dos Iuioanas.

Uma agência individual-coletiva de negras (livres ou escravizadas), que é social, enquanto únicas mulheres trabalhadoras - no ambiente urbano: ganhadoras, quitandeiras, taieiras/talheiras, domésticas, mucamas, babás, damas de companhia, prostitutas; no ambiente rural: ocupadas em toda sorte de trabalho em fazendas, lavouras, pesqueiros, roças - ao longo de mais de 380 anos neste país e, ainda, bases do sistema enquanto procriadoras, especialmente após a proibição do tráfico transatlântico; mas é, também, iminentemente política, pois suas atividades implicam em resistências aos poderes institucionalizados, sendo elas sublevadas, abolicionistas, camponesas, parteiras, pajés, feiticeiras, ou seja, dotadas de atividade. Eram Nanny12 (Gonzalez 1988). Situação inolvidável ao tratarmos das agências das descendentes destas mulheres no contemporâneo, porque permanecemos dotadas de atividade.

Portanto, essa agência africana e amefricana das mulheres precisa ser abordada enquanto continuidade histórica, como advoga Beatriz Nascimento (2006), pois mulheres subalternizadas, a exemplo de Luíza Mahin, ao longo dos tempos-lugares nos quais precisamos existir, seguem em resistências malungas, sublevando-se diante do projeto colonial/neocolonial. Reimaginam-se, reidentificam-se, aquilombam-se frente às ameaças as suas existências.

Enfatizamos, em Re-existências malungas: agência sociopolítica de mulheres quilombolas no Marajó (Sousa 2022 a ), a reflexão sobre os papéis reservados às mulheres na sociedade e quais imagens foram e são selecionadas para representar a mulher negra no Brasil. Dizíamos que, em termos gerais, as feministas brancas chamavam atenção para a imagem, quase universal, das mulheres atrelada ao papel de esposas e à naturalização da maternidade e dos cuidados com a família nuclear. “Mas e quanto à mulher negra? Como fomos pensadas no âmbito do feminismo euroamericano branco? Afinal, como indagou Sojourner Truth: Ain’t I a woman? E seguimos perguntando: E não somos nós mulheres? ” (Sousa 2022a:20).

No cenário norte-americano, bell hooks (2014) evidencia a mulher negra como trabalhadora (cativa ou livre) desde o período colonial, ao fazer emergir as vozes de Sojourner Truth pronunciadas em 1851 durante a Convenção de Direitos das Mulheres em Ohio - uma denúncia as falácias do movimento feminista branco que desconsiderava a raça em suas reflexões, pensando a mulher universal, ignorando as idiossincrasias que cada contexto e situação social cria nos diversos lugares onde as mulheres estão localizadas. A voz de Sueli Carneiro (2003) reverbera, no Brasil, a discussão sobre a agência sociopolítica da mulher negra, pois o mito da fragilidade feminina nunca se aplicou a elas, posto que sexismo e racismo impuseram-se violentamente sobre essas mulheres racializadas:

Quando falamos do mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a proteção paternalista dos homens sobre as mulheres, de que mulheres estamos falando? Nós, mulheres negras, fazemos parte de um contingente de mulheres, provavelmente majoritário, que nunca reconheceram em si mesmas esse mito, porque nunca fomos tratadas como frágeis. Fazemos parte de um contingente de mulheres que trabalharam durante séculos como escravas nas lavouras ou nas ruas, como vendedoras, quituteiras, prostitutas… Mulheres que não entenderam nada quando as feministas disseram que as mulheres deveriam ganhar as ruas e trabalhar! Fazemos parte de um contingente de mulheres com identidade de objeto. Ontem, a serviço de frágeis sinhazinhas e de senhores de engenho tarados, Hoje, empregadas domésticas de mulheres liberadas e dondocas, ou mulatas tipo exportação (Carneiro 2003:50).

Carneiro reitera as mulheres negras trabalhando ‘dentro’ e ‘fora’ de casa desde os tempos coloniais, mas também sendo vistas no imaginário nacional como corpos-objetos, seja como domésticas ou exercendo outros ofícios considerados inferiores, seja como seres hipersexualizados e exotizados, as ‘mulatas tipo exportação’ (Sousa 2020).

As mulheres brancas do Norte Global fizeram-se feministas, nos séculos XIX e XX, reivindicando emprego/trabalho, respeito e cidadania, mas as negras, na colonialidade, já estavam há séculos no mundo do trabalho, sempre de forma compulsória, coagidas pelos sistemas e poderes vigentes. Primeiro como escravas/servas/nativas colonizadas e, posteriormente, impelidas pela necessidade de reexistir em sociedades que não foram preparadas para recebê-las como cidadãs (Sousa 2002a; 2002b), posto serem mulheres habitantes de não-lugares.

Em outro texto (Sousa 2020), afirmamos que a cidadania da mulher negra brasileira é de quarta ordem (Silva 2013), logo, como pessoas historicamente situadas e estigmatizadas pela raça, pelo gênero e pela classe (Davis 1982), enquanto corpos negros, vitimados pelo racismo (Fanon 1968) e, considerando-se os ambientes patriarcais, sexistas, racistas e desiguais nos quais precisamos viver e reproduzir-nos, inventamos maneiras de enfrentar as adversidades. Umas delas é a ação sociopolítica, tornando-nos malungas iyalodês em nossos grupos e além deles.

Refletindo a partir desta asserção, percebemos que as negras ancestrais, dentre famosas e anônimas, de formas distintas e variadas, são malungas iyalodês em suas épocas e lugares. Ontem, hoje, amanhã… Suas vozes ressoam por nós e em nós, porque ousaram quebrar a “tirania do silêncio” imposta pelo patriarcado racista e transformaram o silêncio em linguagem e ação (Lorde 1984).

O escrutínio perpassa por perceber-nos parte de grupos que possuem regras tradicionais de reprodução social, verdadeiras constituições locais (Cardoso 2008 a ) arraigadas em pretéritos imbricados em fortes componentes míticos. Neste sentido, observamos as mulheres quilombolas como agentes de mudanças (e de permanências) sociopolíticas, econômicas, culturais e religiosas. Os diálogos evidenciam discursos assemelhados em torno de práticas individuais no universo familiar, indicadoras que o campo semântico-político do aquilombamento espraia-se para outros recantos da vida, repercutindo na sociedade mais ampla.

Assim o dizem malungas quilombolas, cujas enunciações escrevivemos aqui. Individualmente, contabilizamos mais de 20 anos de aquilombamentos e evocamos os desafios do aquilombar no cotidiano, bem como o uso em nossas batalhas pessoais e coletivas de estratégias analisadas enquanto agências e resistências malungas (Sousa 2022 b ), e sobre o significado simbólico-concreto disso em nossas vidas. Nossas vivências como mulheres quilombolas são observadas pelo viés da antropologia política, no sentido de compreender as agências como sujeitos políticos, ou como sujeitos que se constituem na experiência. Isso porque “Contra a ideia de um “sujeito da experiência” já plenamente constituído, a quem as “experiências acontecem”, a experiência é o lugar da formação do sujeito” (Brah 2006:360).

Entre nós compartilhamos parentescos, amizades e malungagens no campo escurecido do quilombo. Maria da Conceição é tia de Maria Páscoa, e uma referência no movimento quilombola local; mana Maria José é vizinha e amiga, constitui-se como exemplo de liderança em âmbito local e estadual, tendo participado da formação da Malungu; Noemi Maria é malunga de resistências de todas nós, sendo nossa representante no Conselho Diretor da Malungu ao longo de mais de 8 anos; Maria Páscoa , a narradora-griôte destas escrevivências, desempenha liderança no campo educacional e defesa dos quilombolas em termos nacionais via Coletivo de Educação da CONAQ e em outros espaços.

Tia Conci: “Eu sou o tipo da pessoa que, até hoje, eu não faço as coisas por mim, eu faço as coisas pensando na coletividade, nas gerações futuras que vem aí”.

As lembranças que guardo de Maria da Conceição Sarmento dos Santos não são como tia, mas como professora do Casulo, por volta de 1983. Relembro, vagamente, a forma como alfabetizava-nos na sala da casa de vovó, onde funcionava o Casulo, de manhã, e aos jovens, adultos e idosos na E. E. de 1º Grau de Barro Alto, à noite. Professora, ela entrou em minha vida, e é como permanece até hoje: as primeiras letras chegaram-me por sua voz e com ela sigo aprendendo lições sobre ser quilombola. Herdeira dos fundadores do TQ Barro Alto e professora por 32 anos no ensino de 1º Grau,13 atividade que realizava, concomitantemente, aos trabalhos de pesca e agricultura com seus familiares. Tia Conci aposentou-se, mas não parou de trabalhar, atuando como Agente Comunitária de Saúde, ação permeada por ciências de benzedeira/rezadeira, profissão desempenhada até 2012, quando se elegeu vereadora (após concorrer pela terceira vez), tornando-se a 7ª mulher e a 1ª primeira quilombola a ocupar essa função pública em Salvaterra. Todas essas agências são explicadas a seguir.

Aos 80 anos, e enquanto “primeira professora profissional de Barro Alto”, que, orgulhosa, rememorou sua trajetória de vida: do desafio de tornar-se, aos 16 anos, a primeira professora do povoado, em 1954; da ‘fuga’ para casar-se; da ‘luta’ para trabalhar, estudar e criar 9 filhos e muitos netos; a entrada no movimento quilombola até a sua atuação político-partidária. Através de suas palavras vislumbramos suas agências sociopolíticas e os desafios do aquilombar-se:

Bom, eu fui uma das pessoas que me empenhei muito, desde quando surgiu a lei dando o direito ao povo negro, né… Eu me interessei devido a discriminação da nossa classe, em participar de reuniões, em ser lideranças nas comunidades e até mesmo na igreja, né. Até mesmo na igreja, eu sofri muitas barreiras quando eu fui dirigente, né. Quando eu dirigia a Igreja muitas das pessoas, quando sabiam que eu ia dirigir o culto, eles não vinham. Inclusive, depois, agora há pouco tempo, duas pessoas chegaram a dizer pra mim… Uma pessoa chegou a dizer pra mim que ela não gostava, assim, quando eu me posicionava a tomar conta das coisas, dirigir as coisas e essa pessoa falou pra mim: “Olha, eu era uma destas pessoas que não acreditava, assim, na Tia Conci, mas, depois de muito tempo, eu fui entendendo que o que a Tia Conci falava e desejava era bom pra comunidade, né, era bom para o povo da comunidade”. E outra pessoa, também, há pouco tempo tornou a me falar, né, que não gostava de eu tomar a frente das coisas, né, e que não me apoiava, mas depois, então, ela se sentiu, assim, que deixou até de participar, por orgulho, né. […] Mas depois ela reconheceu que tudo aquilo que eu estava fazendo não era pra mim, mas sim era em prol de uma coletividade (Tia Conci - TQ Barro Alto 2018).

Fruto das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), mas herdeira também do catolicismo popular, sua formação e agência sociopolítica articulam-se entre as atividades eclesiais e a educação pública. Aqui, Tia Conceição reporta-se à discriminação racial e de gênero, implícitos na palavra classe, como motivação de sua agência sociopolítica e na elaboração de sua etno-identidade. Além de informar a busca por reconhecimento social, que, ao longo do processo, foi acumulado na forma de capital político do tipo notável (Bourdieu 2000), ao obter até mesmo o respeito daqueles que não acreditavam nela e não apoiavam suas lutas. Fala assim de seus aquilombamentos, apontando o fato de sua comunidade não dispor de terras:

Quando eu soube que nós tínhamos direito, com a lei, e que nós tínhamos este direito, eu comecei a correr atrás, mesmo porque nós, aqui no Barro Alto, nós não temos terra. Todas as minhas falas em reuniões e quando tocavam no assunto as autoridades que falavam sobre isso, que tinha que trabalhar, que tinha que progredir, eu sempre colocava isso: que nós aqui no Barro Alto estávamos sofrendo uma dificuldade, como estamos até hoje. Hoje é ainda pior, né, por causa de terra. Nós não temos terra pra nada… O que nós temos, no Barro Alto, são quintais, que hoje já estão a nossa casa, devido nós não termos terras para os nossos filhos fazerem suas casas, que nós estamos fazendo no quintal da nossa casa, né. Hoje, só aqui nos meus 22 metros, eu tenho uma, duas, eu tenho três, quatro [casas de filhos]! Só nos meus 22 metros.

Então, esta foi a minha luta, que eu lutava pra que nós adquiríssemos terra das pessoas aqui, dos proprietários que nos cercam, né. Na época que começou era o Americano,14 mas mesmo assim, ele ainda autorizava a gente roçar. Hoje nós não roçamos nada! Hoje nós não plantamos mais nada! Depois que ela foi vendida… Que o Americano vendeu, nós não temos mais direito a nada… Nem de passar para as roças que nós tínhamos. Nem para ir ali na Mata do Taxi tirar uma vara… A mesma coisa com a EMBRAPA, que é nossa vizinha, pior ainda, que até segurança armada tem na estrada, né… Então, esta é a minha luta, desde quando começou, que eu ia nos Encontros das Mulheres em Mangueiras, Deus Ajude, por toda parte eu ia, para que nós também tivéssemos este direito de adquirir mais terras para nós, né! (Tia Conci - TQ Barro Alto 2018).

Tia Conci destaca o protagonismo das mulheres como fruto das malungagens da mulherada de Salvaterra e das ativistas do movimento negro que trouxeram a notícia dos direitos relacionados à etnicidade. Em sua percepção, a preocupação das mulheres é consequência de uma predisposição em lutar pela sobrevivência física, individual e coletiva, e por direitos sociais:

Eu sempre digo assim, né, que hoje, as mulheres são, elas estão mais ativas para lutarem, pelos seus direitos. Se tu fores numa igreja quem tu vê mais é mulher, se tu for numa reunião de escola, quem tu vê mais é mulher. Então, as mulheres, elas estão, assim, tomando espaço, né. Por quê? Eu não sei, mas a mulher tem mais uma visão de sobreviver, pra mostrar, pra fazer um meio pra sobreviver. É lutando pelos seus ideais! (Tia Conci - TQ Barro Alto 2018).

A agência de Conceição perpassou oposições e práticas que considerava “erradas” na organização da ARQBA, instituição político-organizativa que ajudou a fundar. Em sua percepção, houve problemas na gestão devido a não “legalização” e, por isso, ela interveio no processo, usando seu capital político notável para solucionar o problema:

Quando a professora Rosa fez a pesquisa e encontrou remanescentes aqui, que nós somos remanescentes de negros escravos, foi feita uma reunião e criada uma Diretoria, onde o seu Fulano foi eleito o Presidente. Em 2003… 2004. Só que na gestão do seu Fulano ele não legalizou a associação, precisava de CNPJ, estas coisas… Aí passou-se, aí terminou o mandato dele e ele não reuniu pra fazer uma outra eleição, pra ele ser reeleito ou então outra pessoa se eleger. Aí, eu comecei a dar em cima, comecei a conversar com a comunidade, conversar com a comunidade: “Vamos cobrar do seu Fulano, vamos cobrar!”. E marcamos uma reunião e ele não compareceu, né. Aí, eu falei lá, pras pessoas que estavam lá, que íamos marcar uma outra e se ele não comparecesse que nós íamos fazer, de vontade própria, a nossa parte. E assim foi feito: Nós reunimos e resolvemos fazer uma nova eleição, aí foi quando eu fui candidata e ganhei. Fui eu e a Rita, concorremos e eu ganhei e daí eu comecei a trabalhar (Tia Conci - TQ Barro Alto 2018).

Após a assumir a direção da ARQBA, ela regularizou a associação para requerer a titulação coletiva do quilombo, bem como realizou outras ações:

Comecei a trabalhar, eu legalizei a associação, viajei pra Belém, fiz carta comunicando pro INCRA e também pra Fundação Palmares, né, até que nós ganhamos a carta [refere-se a Certidão da FCP], né. E foi na minha gestão. […] Na minha gestão eu também fiz o pedido de titulação do território, mas, até hoje, nada, infelizmente! […] Nessa minha gestão eu criei o aniversário da associação, dia 08 de agosto, mesmo pra comemorar o aniversário do seu Zampa neste dia, como uma pessoa da comunidade esforçada e que merecia, né, uma lembrança, pelo menos no aniversário. […] Aí, foi quando houve a eleição pra prefeitura, em 2012, aí eu me candidatei [a vereadora] e ganhei. Aí como eu não podia exercer, aí foi que fizemos uma reunião e passei a gestão pra Maria do Carmo, Primeira Secretária, passei pra ela e desde aí eu me afastei. Mas, mesmo afastada, eu nunca deixei de participar, de lutar, de orientar, de conversar… Sempre cobrando, cobrando as coisas (Tia Conci - TQ Barro Alto 2018).

Na época, confrontou-se com moradores que se opunham à etnicidade quilombola - inclusive parentes, que não entendiam o sentido de “ser quilombola” no século XXI. Em especial, havia uma incompreensão quanto a como a etno-identidade quilombola poderia assegurar direitos socioterritoriais:

Uma vez, quando eu fui fazer o recadastramento das pessoas que aceitavam ser quilombolas e as que não aceitavam, no meu tempo de gestão, quando eu cheguei na casa da Dona Graça ela disse: “Olha, Tia Conci, tu és a primeira pessoa daqui do Barro Alto que está brigando por causa de terra”. Eu disse: “Olha, Graça, eu vou te dizer uma coisa, eu não estou aqui brigando por causa de terra, eu estou lutando aqui pelo direito do povo da comunidade. E Graça, eu já estou nesta idade, eu tenho a minha casa, tu está na tua idade, tens a tua casa, mas e os teus netos? Então, se nós não lutarmos, e estamos com oportunidades de adquirirmos aquilo pros nossos filhos, pros nossos netos, que vão ser deles?” “Ah, eles que se virem!” “Graça, nós já sabemos quem nós somos. Tu já tens teus benefícios, eu tenho os meus, mas nós não sabemos o futuro dos nossos filhos. Nós vamos morrer! Agora, se nós não fizermos alguma coisa pra essas nossas gerações passarem a mão [herdaram], o que vai ser deles? Pra quê que nós colocamos eles [no mundo]? (Tia Conci - TQ Barro Alto 2018).

Este diálogo evidencia as dificuldades do entendimento entre mulheres que compartilham parentesco e histórias de vida em comum, mas trajetórias e experiências diferentes. Devido sua inserção em lutas de classe e movimento quilombola, Conceição compreende a necessidade de pensar o futuro das gerações presentes e vindouras, pois entende os riscos aos quais estão expostas diante dos avanços do agronegócio sobre o território. O mesmo não acontece com sua interlocutora, que em razão de experiências com o uso comum assegurado dos espaços, não via sentido em “brigar por terras”. O hoje revela o quanto Tia Conci tem razão! Ademais, suas falas acerca do acesso à terra e dos conflitos reportam-se, com frequência, às batalhas travadas, utilizando seu capital político notável para intervir nos processos políticos locais, mesmo fora da ARQBA:

Quando aconteceu a chegada deste homem aí, da Forquilha, o seu Francisco,15 eu não era mais presidente, já era a Maria do Carmo. Quando foi um dia, eu fui e falei com ela: “Maria do Carmo, olha o que está acontecendo, Maria do Carmo, esse senhor, eu já soube que ele foi no Valentim, foi no Pau Furado e porque não foi Barro Alto?” E ele já tinha notícia da Dona Conci. Já tinham passado que tinha uma dona Conci, né. Aí ele queria saber quem era a Dona Maria da Conceição, mas nunca veio aqui. Aí eu disse: “Olha Chiquita, desde o momento que ele já foi nas outras comunidades e não veio no Barro Alto, chama ele. Vai na associação, faz um ofício, e convida ele pra uma reunião”. E aí tá, passou-se, passou-se e aí: “Chiquita, tu fizestes?”. “Eu não tenho tempo, porque torna…”. “E cadê teu vice, se tu não tens tempo, cadê o teu vice, se não tem vice, cadê teu secretário?”. Ficou calada. […] Aí, eu já falei com ele porque, um dia, eu estava em Salvaterra, na casa de seu Juca. Aí conversa vai, conversa vem, já puxamos o assunto quilombola. […] Aí, ele falou pro seu Juca que tinha doado essa parte daí do posto de saúde, aquela bola que fica entre as estradas, tinha doado pra Prefeitura. Eu disse: “Olhe, seu Francisco, o senhor me desculpe, mas o senhor fez errado”. “Eu fiz errado, porque, Dona Conceição?” “Porque o senhor devia ter doado pra comunidade, porque, se o senhor não sabe, seu Francisco, a Forquilha é nosso confinante, Forquilha, EMBRAPA, são nossos confinantes do nosso território. Porque o nosso território quilombola pega do Camará até o rio Paracauari, a Forquilha e a EMBRAPA são nossos confinantes, vocês estão dentro do nosso território. Então, o senhor deveria ter doado esta terra para a comunidade, procurado saber, que eu acho que o senhor soube e sabe que nós somos uma comunidade quilombola. E, outra coisa que vou dizer pro senhor, seu Francisco, que a comunidade quilombola ela é diferente de outras comunidades que não são quilombolas. A comunidade quilombola, ela tem uma lei. A lei da comunidade quilombola é que não se vende terra, não se vende terra quilombola”. Calado estava. “E o senhor tinha primeiro que procurar conversar, ir na comunidade ver como era nossa convivência com o proprietário anterior.” Não era o certo? “Olha, eu vim aqui na comunidade saber como era a convivência de vocês com o Americano”. Aí nós íamos falar pra ele: “Olha, o americano nos dava, nos autorizava nós a fazer nossa plantação, nossa roça, nunca nos impediu”. Aí, ele ia dizer pra nós que ele também ia dar ou ele não ia dar e não fazer o que já tem feito, coisas aí perigosas, esse homem (Tia Conci - TQ Barro Alto 2018).

Em outra fala, mostra-se decepcionada com os rumos do movimento quilombola em seu quilombo e nos demais, reputando isso ao “comodismo” das lideranças das ARQs. Entretanto, estabelece conexão entre a situação local e o contexto macro relacionado aos rumos da política estadual e nacional.

Que sempre eu digo, se hoje nós somos chamados de quilombolas é por causa do meu esforço e eu sinto muito do jeito que está. Pra mim, o que eu vejo é comodismo. Comodismo. Porque quando você aceita a ser uma presidência, seja lá alguma coisa, tomar conta dum órgão, você primeiro… Eu vou me analisar, eu não vou esperar que as pessoas me analisem. “Poxa, eu ganhei. A minha cultura dá para eu exercer este cargo? Eu tenho filhos pequenos que me impede? O meu esposo, como é minha família, eu tenho condições de sair de casa e deixar minha família? Eu tenho também disponibilidade pra fazer isso”, né. Mas eu não vou empatar o desenvolvimento de uma entidade, de uma coisa que eu queira ver progredir. E, então, é isso é o que eu vejo. As pessoas que assumem este compromisso, que são votadas e que depois vem a desculpa de dizer: “Não, eu não vou porque eu não tenho tempo, porque eu tô ocupada, porque eu tenho filho ainda na escola, porque pe, pe, pe, pe…” Isso não me enche, isso não me convence. E aí as coisas deixam de acontecer. E, se não acompanha o tempo, nós vamos ficando para trás. Porque, se tem chamado ali, a presidente da associação não vai… Poxa, vai crescer? Aí, não anda. Aí, o tempo passa e não se tem nada. No tempo que eram do PT. Que tinha a Maria do Carmo, que era a governadora, aí o INCRA estava de vento em popa lá, aí só o PSDB ganhar não vai nada, porque eles todos são os donos da fazenda, amigos dos donos da fazenda e os processos não caminha… Entram com contra processos, contra laudos, eles contestam os laudos das comunidades (Tia Conci - TQ Barro Alto 2018).

Neste sentido, ela ainda elabora explicações para a suposta desmobilização quilombola: relata como era o “começo” e o “hoje”. Rememorando um episódio ocorrido, evidencia a percepção de que, hoje, “Não tem luta!”. Mas exclui-se da questão, afirmando que apenas os/as “presidentes” acomodaram-se, culpando-os pela desmobilização.

Teve uma reunião em Boa Vista que era para irem só os presidentes, eu não era presidente, mas eu fui na cara de pau. Aí o rapaz lá de Belém perguntou o que a gente achava do começo, quando foi começado o movimento quilombola pra hoje. Aí eu peguei e disse que eu achava muita diferença porque quando começou, que tinha a Malungu, que a MALUNGU tomou conta, que cuidava, foi criado um grupo dos presidentes das associações [Akin Akelô], não sei se era de dois em dois meses ou se era de um em um mês, se reunia em cada uma comunidade… Que era para eles falarem das suas necessidades, das suas dificuldades e, então, ia tudo muito bem. […]. As associações estavam tudo em dia, porque a Malungu cobrava. Terminava um mandato eles tinham que fazer nova eleição, tinha que estar pagando suas atas nos cartórios e estava tudo andando! …Porque, eu te pergunto: qual é o direito que esta associação, que está aí andando, tem? Muitos ela tem, mas não está organizada. Porque, o quê o presidente é? Ele é um RE-PRE-SEN-TAN-TE do povo. Porque, se eles fossem aquelas pessoas lutadoras, se reuniam os presidentes e “Vamos colocar um representante pra nos representar lá, vamos custear esta ida desta pessoa, já que nós não podemos ir, nós vamos custear”. Não tem luta! (Tia Conci - TQ Barro Alto 2018).

Tia Conci denuncia o recrudescimento dos conflitos, alertando sobre os problemas socioeconômicos decorrentes disso para os quilombolas e para outra(o)s que compartilham o espaço, revelando práticas de resistência malunga para acessar à terra e outros recursos florestais. Lamentando a perda dos espaços ancestrais de plantio:

Só está trabalhando na terra [da antiga fazenda Forquilha] quem comprou. Ninguém está fazendo roça, nadinha, nadinha. Ninguém tem roça. Nós tínhamos as nossas roças. Por isso que eu te digo: ficou pior! Ainda veio fazer a casa bem aí na estrada das roças [referindo-se ao Sr. Francisco]. Então, tínhamos esta estrada aí, pra encurtar viagem pro Bom Jardim, ele veio fazer a casa bem aí na estrada. Na terra da EMBRAPA nunca permitiu roça. Quando a EMBRAPA entrou, ela proibiu. Nós fazíamos roça quando era o tempo do Ministério [da Agricultura], o gerente era o Dr. Mário Teixeira, no Bom Jesus, Campina, em todos estes lugares nós tínhamos [roças], até lá pelo Fundo do Saco tinha roça, estrada da Campinha, todinha, Bom Jesus, todo mundo tinha roça, cabeceiras destes igarapés do Livramento, Areia, tudo tinha roça. Mas depois que a EMBRAPA entrou, acabou. Ninguém tira um palmo [de roça], uma vara… Só tiram escondido. Escondido, tiram (Tia Conci - TQ Barro Alto 2018).

Aqui se encerraram os diálogos com Maria da Conceição , que se diz sempre disposta à luta quilombola, atividade que mobilizou os últimos 20 anos de sua vida e está intimamente relacionada às batalhas ancestrais, mas que, ao mesmo tempo, a conectam ao futuro, às novas gerações que são os objetos de suas preocupações presentes. Depreende-se, assim, da cosmovisão circular ou sankofiar, onde passado e futuro coadunam-se para estruturar o presente. Somos começo, meio e começo…

Pra mim, participar [do movimento quilombola] foi mais um cumprimento de um dever meu, como pessoa que sempre gostou de ver as coisas acontecerem, as coisas progredirem, porque eu nunca pensei em mim, né! Eu sou o tipo da pessoa que, até hoje, eu não faço as coisas por mim, eu faço as coisas pensando na coletividade, nas gerações futuras que vem aí. […] Pra mim, foi um cumprimento de dever! E eu, até hoje, apesar dessa minha idade, passando por problemas de saúde, mas se eu tiver uma oportunidade pra ajudar eu tô dentro: na educação, na saúde, no movimento quilombola (Tia Conci - TQ Barro Alto 2018).

Zeca: “Mesmo não fazendo parte mais do movimento hoje, eu me sinto dentro dele, eu vivo isso no dia a dia ”.

Daqui, Maria José Alcântara Carneiro, a malunga Zeca, conversa conosco. Outra das “Marias” quilombolas, é graduada em Licenciatura em Etnodesenvolvimento, curso pensado pelos movimentos sociais amazônicos. É mulher que vive o movimento ao qual dedicou “direto, direto”, mais de 11 anos de sua vida, sacrificando seu primeiro casamento no processo, e do qual diz estar “afastada”, mas que, na verdade, “só deu um tempo”. É sócia-fundadora e foi presidenta da ARQ de Pau Furado, bem como esteve na fundação da ARQ de Bacabal. Desde 2018, atua para manter o Centro de Ciências e Saberes Quilombolas Teodoro Lalor de Lima e Raimunda Corrêa Carneiro.

Antes de reencontrar-nos, o que eu sabia de Zeca resumia-se em: “nasceu em Bacabal, e mora em Pau Furado; é neta do seu Domingos e da Dona Diquinha; é ativista do movimento quilombola; tem três filhos”. Apesar de regularmos a mesma idade e nos conhecermos da vizinhança, pouco nos vimos na juventude. Isso porque estudávamos em municípios diferentes. Enquanto Zeca ingressava no universo da resistência quilombola, em 1998, eu estava na Universidade aprendendo teorias da linguagem.

Nossos caminhos recruzaram-se em 2003, quando, trabalhando em Barro Alto como alfabetizadora de jovens e adultos, soube que o povoado aquilombava-se. Ocorriam ali, pesquisas sobre os “remanescentes de quilombos”, e jovens de outras comunidades atuavam como auxiliares de pesquisa das “professoras” do CEDENPA.16 Indagando, soube que Rita, Lina, Alcemira, Beth, Zeca e Cristina, eram acompanhantes da “professora Rosa”.17 Meu aquilombamento ocorre neste contexto e ao nos reencontrarmos, não nos perdemos mais de vista. Ela se diz “pessoa que ama ser quilombola” e resumimos, aqui, sua mundivisão, construída nas experiências e agências malungas, acerca de si e do movimento etnopolítico que vivencia.

Bom, pra eu começar no movimento foi com a chegada do CEDENPA para algumas comunidades, e uma destas comunidades foi Bacabal e, na época, eu residia com minha mãe lá. E aí, né, eu achei interessante este trabalho, até porque foi um meio da gente estar se descobrindo como quilombola. A identidade quilombola pra gente é nova, né, acho que, a partir de 99, que eu me autodefini como quilombola. Porque, antes, eu só estudava pelo livro, mas em pedaços, só um pouco da história, né. E, aí, com a chegada do CEDENPA, da Universidade na comunidade, eu tive todo este entendimento e foi daí que eu comecei a me interessar, descobrir a nossa história, os nossos direitos que nós tínhamos, né, mas estava só em papel… Nós não tínhamos conhecimento e isso me levou a fazer parte do movimento (Zeca - TQ Pau Furado 2018).

Assim como Tia Conci, Maria José confirma a agência do CEDENPA nos processos de aquilombamento, mas reputa o interesse ao aspecto étnico, numa interação dinâmica entre os novos conhecimentos acerca dos direitos e os sentidos de pertença do grupo em relação à história e ao território. Ademais, ratifica a primazia das mulheres no movimento, atribuindo às mulheres o papel de “guerreiras” - uma afirmação ouvida de outras malungas, pois somos nós que estamos nos fronts em defesa dos demais:

Pois é, né! Por que as mulheres? Eu fico me perguntando. Bom, eu acho que, não sei se foi o interesse mais das mulheres do que dos homens. Mas, eu vejo assim, que as mulheres, aqui no Marajó, têm mais, assim, têm mais garra pra encarar esta luta como liderança. Tem mais mulheres do que homens. Agora estão vindo os homens, eu acho que agora, de uns anos pra cá, estão fazendo parte, mas antes era, assim, só liderança mulher, né. Olha, eu acho que é porque nós somos guerreiras mesmo (Zeca - TQ Pau Fuarado 2018).

Fala, ademais, sobre seu ativismo no movimento quilombola, pois hoje se encontra “um pouco afastada” por questões internas ao coletivo, mas justifica-se dizendo que continua em malungagens cotidianas, “indiretamente” vivenciando a “luta”:

Hoje estou um pouco, assim, afastada. Não estou, assim, diretamente, mas indiretamente. Quando as pessoas me procuram ou quando eu vejo que eu tenho que realmente intervir em algumas situações, eu estou fazendo meu papel, né. E já teve várias ocasiões em que eu tive que, mesmo não tomando parte do movimento, mas como quilombola, eu tive que, sem querer querendo, entrar na luta. Mas não desisti totalmente, só dei um tempo, né, mas a luta continua. Continuo na luta, não só aqui no meu município, Salvaterra, mas em outros lugares onde eu vou e eu sei que tem esta história, a luta da mulher, o direito das mulheres, não só as mulheres quilombolas, mas todas as mulheres, mas da mulher em si, eu faço isso diariamente, aonde quer que eu vá eu continuo esta luta. Independente de eu estar no meu lugar de origem ou não, eu estou fazendo (Zeca - TQ Pau Furado 2018).

O “afastamento do movimento” é notável nas vozes de Maria da Conceição e Maria José, significando que não se percebem, atualmente, como “lideranças formais” quilombolas, mas sim das “margens”. Lutam, portanto, de outras formas, fora das ARQs ou da Malungu, reafirmando seus compromissos e o “dever” com a luta. Este “estar de fora” implica práticas classificadas como resistência malunga, pois engendra maneiras de participar “cutucando” as lideranças, participando de eventos, confluindo com antigas e novas malungas:

Aí o pessoal diz: “Volta Zeca, volta!”. E penso: puxa, cadê os resultados de tantas lutas que fizemos, tanta luta que nós já enfrentamos, na época que eu fazia parte. Cadê? Porque era pra hoje a gente estar, sabe, com resultados bons, positivos e, hoje, não, não vejo. Então, isso me entristece, eu queria poder, sabe, “porque tu não toma a frente?” Porque eu não posso passar por cima de ninguém, eu sei que a luta é nossa. Não é uma luta só minha, não posso dizer esta luta é minha, é nossa, mas também não posso passar por cima de outras pessoas que estão na frente. Não posso fazer isso. Mas estar cutucando ali uma liderança ou outra, isso eu faço, mas infelizmente, hoje eu não me sinto feliz, por causa da luta que estamos enfrentando hoje, com os resultados que nós temos hoje. O que eu vejo, não me sinto feliz. Puxa, eu lutei em vão? Mas não! Não foi uma luta em vão, porque tivemos alguns avanços, mas eu queria que tivesse melhor hoje, mas infelizmente, não está como eu sonhei, como eu sonho, não está. Mas quem sabe no futuro, né, no futuro melhora, porque também não vamos desistir assim (Zeca,TQ Pau Furado, 2018).

Estar em movimento significou ganhos em termos de capital social e político para Maria José via aprendizagens no campo da política em mobilizações étnicas e no âmbito profissional, pois hoje é professora em seu município onde segue em defesa da Educação Escolar Quilombola. Contudo, também houve perdas na esfera familiar, as quais ela diz ter superado para continuar a luta coletiva:

Eu aprendi muito nestes 10, 11 anos de movimento. Eu aprendi muito mesmo e deu vontade de estudar de novo, né. Estudei de novo, graças a deus, terminei a faculdade e fiz uma pós-graduação. Mas, mesmo não fazendo parte mais do movimento hoje, eu me sinto dentro dele, eu vivo isso no dia a dia. Então, foi, assim, uma carreira, um tempo que eu passei, assim, da minha vida. Mas não reclamo, não, e vejo resultados de algumas lutas da gente. Resultados positivos para as comunidades, que a gente conseguiu, na época: a luz pra algumas comunidades; a água e isso foi uma luta nossa. Na educação, algumas coisas melhorou, algumas coisas… Na minha época não tinha o transporte, mas graças a Deus, hoje já temos um transporte, não é aquele que desejávamos ter, mas tem. Hoje tem a escola. Na saúde não avançou, eu acho, talvez um pouquinho, mas precisa melhorar muito (Zeca - TQ Pau Furado 2018).

Neste processo, mana Zeca obrigou-se a pôr fim ao primeiro casamento para poder prosseguir, pois como ela diz:

Perdi meu marido em função da luta. Meu primeiro marido perdi assim, porque eu vivia viajando, vivia na luta. Só que isso não me desanimou, não me deixou pra baixo, não! Sofri, sim! Todo mundo sofre, né! Mas isso não fez eu desistir, não foi por isso, né. Mas, assim, eu via realmente que eu estava deixando meus filhos, muito, minha família, sabe, só em função do movimento. Vivia em função do movimento, vivia pro movimento, na verdade (Zeca - TQ Pau Furado 2018).

À época, encontrava-se preocupada com o movimento quilombola salvaterrense, entendendo que “fraquejou”, podendo o sentido do “fraquejar” ser entendido como uma percepção de desmobilização do movimento, porque as lutas foram “individualizadas” nos TQ:

E está vendo que hoje nós estamos vivendo com muitos riscos em relação ao território, né. Muitas ameaças, o desmatamento, as pessoas invadindo os quilombos pra construir, que não é quilombola, mas estão invadindo algumas comunidades… Então, eu acho que, hoje, em relação ao território, depois de tanto trabalho que nós tivemos na época, que foi para informar cada comunidade da importância de nós termos um território, né, titulado, e, hoje, o que eu não aceito é separar. Na época, nós fizemos o estudo do território, pra ser titulado o território e eu estou vendo assim, pedacinhos. Bacabal vai ter um título, Pau Furado vai um título, Barro Alto vai ter um título. No meu entendimento, o que eu achava melhor era: porque não dar um título do território que todos nós que utilizamos a área de pesca, a área de caça, a área de apanha do açaí, colher o bacuri, tirar a palha, enfim, os recursos necessários para sobreviver. Então, por que não só um título pra este território todo? Um liga ao outro, um liga o outro… […] Hoje é um pequeno grupo que não lutam por todos, eu acho, esta é a minha visão, hoje. Eu acho que na época eram mais pessoas, o grupo era maior, a gente formou uma coordenação municipal [Akin Akelô], hoje esta coordenação não existe18 (Zeca - TQ Pau Furado 2018).

Ao afirmar sua não desistência da luta, mas sim categorizá-la como um afastamento temporário, Maria José, implicitamente, afirma sua “continuidade” no movimento, ainda que de forma cautelosa, “preparando-se” para retornar ao centro da ação política, como afirma, emocionada, ao referir-se ao apoio do marido:

E eu até admiro porque são poucos os homens que dão apoio pra mulher, né, e graças a deus, este apoio eu tenho dele aqui em casa. Mas não depende dele, depende de mim e acho que do movimento também, né, fortalecer.[…] Até prometi pra mim mesma que eu não ia desistir, assim, fácil, não por algumas pessoas, por alguns acontecimentos que fez eu me afastar, que eu vou desistir de uma luta que não é só dessas pessoas que me fizeram afastar, tem outras pessoas que dependem. Então, isso me fortalece, mas ao mesmo tempo me faz dar um passinho atrás. Eu dou sempre um passinho atrás antes de tomar dois pra frente, mas eu num vou desistir. A minha mãe19 fala assim… Que acontece muitas coisas boas no movimento, mas também tem uns pontos negativos. “Olha por mim tu não vai não, te afasta, não seio o quê.”. E não é isso que meu coração pede. Mas eu acho que esse tempo, esse tempo que eu me afastei talvez eu esteja me preparando, né, que eu estou aqui quieta em casa, mas eu estou me preparando. Eu acho que este é o primeiro passo que nós temos que fazer, na verdade, que é nos reunir de novo, nos organizar de novo, tomar pra si mesmo uma luta que é nossa, como eu te falo (Zeca - TQ Pau Furado 2018).

O dito acima é confirmado por ela, acerca de suas motivações para agenciar ativismos políticos, ao referir-se à sua relação, naquele momento, com o movimento quilombola, demonstrando insatisfação por estar “fora”, afirmando uma “saudade” e uma “vontade” de “estar mais envolvida na luta”:

Olha o que representa pra mim é, como eu te falei, acho que é tudo pra mim, assim, porque é uma coisa que eu gosto de fazer, de lidar com o público. Foi um momento, pra mim, foi, assim, uma coisa, assim, que me envolveu, que eu me envolvo, que mexe comigo, com meu emocional, né, e, como eu te falei, eu sinto falta, tenho saudades (Zeca - TQ Pau Furado 2018).

Tia Noca: “Eu nunca fui mulher de ficar quieta, né! Eu sempre quis estar em movimento!”

Noemi Maria Barbosa. Mas é Nonoca, Nonô, Tia Noca o jeito como essa malunga é carinhosamente referida entre nós. Ela vem da linhagem dos fundadores do TQ Mangueiras.20 Dotada de atividades, ativista quilombola desde seus 35 anos, viúva, mãe-solo, avó, liderança quilombola do Pará, agente comunitária de saúde, líder da Igreja Católica em seu TQ e artesã. Amiga de ‘antes’ e de agora nos ativismos, nas artesanias e nas danças rituais da Coletiv@ Afro-Cultural Yabás Quilombolas Amazônidas - CACYQA. Juntas, dialogamos sobre suas agências malungas. Em sua voz, o início de seu aquilombamento e, como destaca, sua ação política se iniciam em bases eclesiais:

O meu início é foi, comecei pela igreja, né! Éhh. Eu participava da Igreja, digo participava, mas participo ainda, né? Mas participava, como dirigente da igreja católica e, a partir disso, então, quando o CEDENPA entrou aqui, em Mangueiras, através da Maria do Socorro, eles procuraram o [professor] João Farias e, por eu estar na igreja junto com o João, que também fazia parte, naquela época, da igreja. Então eu comecei a ir com ele, a ouvir, né, tudo o que, para nós, era novidade. Ela veio com essa missão do CEDENPA para saber aonde tinha comunidade quilombola, aqui no Marajó, Salvaterra, né. Então eu comecei a participar com ele, indo com ele e, depois que ele parou, e eu já comecei a ir sozinha. Mas porque, assim, eu nunca fui mulher de ficar quieta, né! Eu sempre quis estar em movimento! [risos] (Tia Noca - TQ Mangueiras 2019).

Como mulher em movimentos, crê, e se faz reexistir, reiterando a luta ancestral por terra e território - como todas nós. Em seus objetivos, deseja melhorar o mundo para si e para as gerações que ainda são um devir. Preocupada, porém sempre acreditando na luta coletiva, agência e resistência malunga para garantir direitos:

Então, este é o nosso processo [demanda nacional por titulação dos TQ], ele já tem muitos anos. Éh, 80, acho que 1996, esse processo já existe no INCRA. Mas o que é que acontece, já andou bastante, né. Nós já tivemos, eh, políticos que se interessaram mais. Mas agora, nós estamos numa conjuntura política muito perigosa, né. Que a gente sabe que, enquanto a gente dorme, eles tão tirando os nossos direitos, né? E a gente sabe, quando amanhece a gente já vê notícias contrárias àquilo que é a nossa luta, né. Direitos adquiridos com muita luta, a gente vê que, se não permanecermos unidos, um segurando na mão do outro, a gente vai perder muito mais, porque ninguém dá nada para a gente gratuitamente. Tem que haver essa luta. Tudo o que a gente tem hoje, agradecemos aos que vieram muito antes de mim e, muitas vezes, nem chegaram a ver, né? Mas, se os espíritos [ancestrais] têm essa possibilidade de ver, tenho certeza que eles estão vendo que não foi em vão, a luta deles, né! Então, a gente se preocupa muito, hoje, com essa… com a luta da titularização. Claro que a gente vai continuar lutando, porque a gente tem que insistir, resistir. Mas, nessa conjuntura política, tanto federal como estadual, a gente tá… Não está fluindo, não. Aí faz a Mesa Quilombola, vai para lá discutir todo mês, de 2 em 2 meses, a mesma coisa, saber o que está acontecendo e continua a mesma coisa. Tem comunidade, né, como Bacabal, que está tão fácil, tão próximo. Tão perto, e parou! Uma alegria tão grande para nós, quando foi feito lá, todo o trabalho, e acredito que Bacabal nem tenha indenização, né (Tia Noca - TQ Mangueiras 2019).

A análise de conjuntura permite ver o quanto essa malunga iyalodê compreende sua agência sociopolítica diante de adversários que estão no próprio corpo do Estado, conforme negritado e sublinhado nos trechos acima. Preocupa-se com o recrudescimento das ameaças contra as vidas das lideranças, ressoando as palavras de mana Zeca e Tia Conci . E para ela,

O que entristece a gente é que a gente vê que estagnou, parou! E a gente tem que lutar, mesmo, né. A gente tem que fazer barulho. Só que muitas vezes as pessoas têm medo de fazer este barulho junto com a gente. E aí, devido às lideranças correrem muito risco, né, de vida, porque a gente sabe que, os fazendeiros, eles não querem isso [a titulação dos TQ], porque muitas vezes, nós estamos num território que, na hora da desapropriação, vai afetar mesmo, né! Como aqui em (Sousa) a gente não tem essa, essa briga por terra, mas porque ainda não chegou a esse ponto, mas um dia, há de chegar… (Tia Noca - TQ Mangueiras 2019).

Além disso, Noemi Maria compreende que, localmente, as pessoas sentem dificuldade em se engajar no ativismo em consequência da política municipal. Isso porque, num contexto de poucos empregos, a Prefeitura é a maior empregadora e algumas funções públicas são “indicações políticas”, uma forma de manter o cabresto. Em sua mundivisão:

Olha, muitas pessoas não entram no movimento porque às vezes, na maioria das vezes, vai de encontro com político, entendeu! Então, a conjuntura política acaba fazendo com que aquela pessoa: “Ah, eu estou empregada. Então eu não vou entrar nessa luta porque eu vou bater de frente com fulano, fulano e eu posso perder o meu emprego”. Então, se acomoda. Por isso que acho importante o concurso público, porque ele te dá mais aquela… aquela. Tu perde o medo de lutar, de bater de frente. Por que bater de frente… A gente fala bater de frente, mas se o outro lado ele conversar, nós também conversamos. É um diálogo, entendeu? Só virão bater de frente se a outra parte não quiser nos ouvir, que a gente também não é aquela coisa de violência, que a gente, também, que a coisa que a gente mais quer é o diálogo, né! Então, o que faz, muitas vezes, muitas pessoas saírem do movimento é a política. Porque tem um receio de ir contra um, contra outro… (Tia Noca - TQ Mangueiras 2019).

Tia Noca revela resistências malungas confluentes (Bispo 2015), apostando na conversa para avançar nas lutas em defesa dos quilombolas salvaterrenses. Afirma não ter medo de agir, pois não depende de políticos locais para manter-se. Mas não nega a estratégia do confronto/constrangimento, se necessário, para garantir espaços de agência na MALUNGU. Ela dá o exemplo de quando, junto com lideranças como Deonata e Anézia, elas reivindicaram o direito à paridade de gênero no Conselho Diretor:

Verdade. E ela continua. Ela está no Conselho Diretor da Malungu e eu também ainda estou, até para o ano, né! Nós conseguimos desmontar, que era mais homens do que mulher, nós conseguimos nessa formação ficar 3 mulheres e 2 homens! Eu, a Deonata e a Dona Anézia. E o Daniel e o Salomão. Que era mais homens no Conselho Diretor. No Conselho Diretor sempre foi mais homens e, nessa formação, a gente conseguiu furar esse… (Tia Noca - TQ Mangueiras 2019).

O compromisso de Noemi com a vida-liberdade de outras quilombolas faz com que ela seja, hoje, co-coordenadora do Grupo de Mulheres Sementes do Quilombo de Mangueiras onde, via artesanias em tecidos afro, viabilizam trabalho e renda para outras malungas, lugar no qual Tia Noca segue em movimento.

Estas vozes-mulheres anunciam o compromisso concreto destas Marias com a titulação dos territórios e defesa intransigente da existência dos/das quilombolas de Salvaterra e do Pará. Configurando-se como uma agência malunga de amefricanas/afropindorâmicas que são Cultivadoras e Cuidadoras da Vida, atuando nas mais diversas áreas da vida vivida nos quilombos marajoaras, perpassando por educação, saúde, economia, meio ambiente, política, história social e cultura.

Considerações Finais

Os diálogos encetados nas vozes-mulheres de quatro entre as várias quilombolas que escrevivem este texto, trazem a dimensão do movimento quilombola de Salvaterra “feito” por nós em mais de 20 anos de ativismo sociopolítico (Sousa 2022b). Essas vozes indicam que dentro e, mesmo “fora”, às margens do movimento, seguimos “lutando” por meio de práticas que analisamos como resistência malunga de mulheres amefricanas (Gonzalez 1988) ou afropindorâmicas (Santos 2015) em aquilombamentos contemporâneos no Marajó.

Esses discursos anunciam agências e resistências malungas, além da atuação no âmbito das ARQs como lideranças formais, que se mostram eficazes nas relações sociais entretecidas nos quilombos e para além deles. Entre essas práticas destacam-se as conversas com as lideranças formais, conselhos, cobranças, enfrentamentos, incentivos e mesmo tomada de decisões à revelia das lideranças formais. Acreditamos, como Carolina Maria de Jesus (1986), que “Ah, comigo o mundo vai modificar-se. Não gosto do mundo como ele é” e movemo-nos para modificá-lo.

Enquanto malungas iyalodês, somos as senhoras da voz e da ação, as donas da enunciação e do discurso, mas também nossos corpos-territórios são ferramentas da ação política (Sousa 2022 a ). Corpo e mente reunidos em agências e resistências malungas frente às batalhas cotidianas, assim podemos nos encontrar na frase de Audre Lorde (2009), que diz muito sobre nós, mulheres quilombolas na Amazônia contemporânea: “Eu nasci Negra e Mulher. Eu estou tentando me tornar a pessoa mais forte. Eu posso voltar a viver a vida que me foi dada e ajudar em mudança efetiva em torno de um futuro viável para esta terra e para minhas crianças”.

Os limites da abordagem estão encerrados no fato de escolher-se para o diálogo apenas quatro representantes do movimento quilombola salvaterrense, em detrimento das demais conhecidas e anônimas mulheres que “fazem” os quilombos naquela região. Optamos assim pelo compartilhamento das cosmovistas destas lideranças, uma vez que a ideia foi trazê-las em vozes-mulheres que representassem as outras. Desse modo, este texto é parcial e limitado, bem como as reflexões entretecidas nestes diálogos.

Encontramo-nos, aqui, no âmbito das políticas de identidade malungueiras, as quais são estratégias usadas por nós em nossa defesa, para assegurar direitos, garantir reconhecimento e acúmulo de capital social e instrumentos para o enfrentamento das mais diversas formas de racismos e outras maneiras de subjugação e negação de nossas existências. Fazemos isso enquanto lideranças em áreas diversas da vida nos quilombos, colocando-nos diante do mundo enquanto malungas iyalodês.

Nós, negras quilombolas, movemo-nos na Amazônia e, nesse mover transgressor, mudamos ordens estabelecidas e naturalizadas. O quilombo no século XXI, como no passado, permanece o lugar da reexistência cotidiana, não mais um valhacouto de negros fugidos dos discursos escravagistas, mas territórios performatizados na dinamicidade do presente, e onde persistem conflitos diversos (Sousa 2020). É sobre isso nosso diálogo polifônico e coautoral. Em Salvaterra, cremos ser possível afirmar que somos as agentes da ação política e aquelas que manejam habilmente as armas/ferramentas necessárias para garantir a existência em nossos territórios. Somos Malungas. Somos Iyalodês, pois “Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer” (Conceição Evaristo).

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Notas

  • 1
    Confluenciamos com Conceição Evaristo (2020), para quem a escrita de pessoas negras personifica-se como escrevivência, agregando a situação social e a perspectiva do corpo, da mente e da alma daquele/a que escreve — isto é, o texto, em qualquer gênero, resulta das interrelações de três elementos: corpo, condição e experiência.
  • 2
    O estudo filia-se aos Estudos Negros, Estudos Africanos ou Africalogia via Paradigma Afrocêntrico proposto por Molefe Keti Asante e Ama Mazama. Assim, o conceito de agência diz respeito ao sentido proposto por Asante (2009 e 2016), uma vez que os estudos afrocêntricos percebem as pessoas negras como agentes com capacidades intelectuais, psicológicas, econômicas e políticas de agir na História em busca de liberdade e justiça social.
  • 3
    A Ação Civil Pública Nº 0032726-45.2013.4.01.3900 condenou a União e o INCRA a indenizarem as/os quilombolas do Marajó que possuem processos de titulação parados há mais de 10 anos.
  • 4
    Vide Acevedo Marin (2004, 2005, 2006, 2009, 2015a, 2015b); Nogueira (2005 e 2008); Cardoso (2008, 2013, 2015); Lima Filho, Silveira e Cardoso (2016); Lima Filho (2016 e 2022); Arêda Oshai, (2018), entre outros.
  • 5
    Lideranças homens: Lair Alcântara, Haroldo Júnior Conceição, Zeferino Gonçalves (Zampa), Hilário Moraes, Aurino Conceição, Irandir Portal, Ademar Angelim (Vavazinho), João do Siricari e outros.
  • 6
    Instituição criada em 2004 que atua para titular os mais de 500 quilombos paraenses.
  • 7
    Irmandades de auxílios mútuos/da boa morte, organizadas em torno de Santas ou Santa Maria em seus diversos títulos devocionais.
  • 8
    Os Conhecedores-Tradicionalistas ou Griôts, que aqui nos referimos como Conhecedora-Griôte, na perspectiva de Hampatê Bá (2010) são as pessoas que, em vários lugares da África, são as responsáveis por, a partir da tradição oral viva, contar as histórias, reportar as tecnologias, epistemologias e filosofias do grupo às novas gerações. São as memórias e bibliotecas vivas das comunidades.
  • 9
    Instituições de ensino pré-escolar instaladas em nossos TQ, na década de 1980.
  • 10
    Na antropologia, James Scott (2004) sustenta a resistência cotidiana como a capacidade dos subordinados enfrentarem, por meio de estratégias diversas, via discursos ocultos ou discursos públicos, os obstáculos às suas sobrevivências individuais e coletivas. Para isso, utilizam a infrapolítica, vista como a luta empreendida pelos grupos dominados, por meio de atitudes que visam confrontar, enfraquecer, pôr em dúvida, ridicularizar os “donos do poder” de forma silenciosa, disfarçada, enganosa, particularmente quando vivenciam situação de dominação extrema (escravidão, servidão, regimes clânicos ou sistemas de castas), de forma a enfrentar estruturas e processos exploratórios e subordinantes, tanto em termos materiais quanto em termos simbólicos.
  • 11
    Lélia Gonzalez (1988) é pioneira da perspectiva afrocentrada ao propor a categoria Amefricanidade (Amefricanity) para explicar as experiências plurais de negros e negras diaspóricas nos diversos tempos/lugares no continente americano ao longo dos últimos 500 anos.
  • 12
    Nanny.
  • 13
    Maria da Conceição é herdeira dos fundadores e fundadoras do TQ Barro Alto, onde nasceu e vive. Em 1958 tornou-se a primeira professora da comunidade aos 16 anos, numa época em que mal se assegurava às mulheres o direito a escolarização.
  • 14
    Trata-se de John Redmond, texano que, na década de 1980, apareceu em Salvaterra afirmando ter comprado às terras das fazendas Forquilha e São Veríssimo. A primeira sobreposta ao TQ Barro Alto e a segunda sobreposta ao TQ Caldeirão e, conforme Acevedo Marin (2025), compras realizadas com documentos com indícios de grilagem.
  • 15
    O Sr. Francisco é um dos intrusos hodiernos do quilombo Barro Alto, à época era o novo proprietário da Fazenda Forquilha, sobreposta ao território desde a década de 1980, conforme exposto por Acevedo Marin (2005) e que vive em conflito com os quilombolas de Pau Furado, Barro Alto e Caldeirão.
  • 16
    O Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará esteve à frente das mobilizações das comunidades remanescentes de quilombos, apoiando suas reivindicações socioterritoriais.
  • 17
    Professora Rosa E. Acevedo Marin, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA/UFPA) e da UNAMAZ, esteve atuando junto aos quilombolas de Salvaterra entre 2002 e 2012, produzindo relatórios etno-históricos que hoje sustentam a reivindicação por titulação dos territórios do município.
  • 18
    A Coordenação das Comunidades Quilombolas de Salvaterra — Akin Akelô foi reorganizada em 2020 durante as lutas pela sobrevivência de nosso povo na Pós-Pandemia de Covid-19.
  • 19
    Malunga Maria José é filha de ativistas quilombolas e lideranças sindicais, bisneta e trineta dos ancestrais fundadores dos TQs Pau Furado e Bacabal.
  • 20
    Malunga Noemi Maria é tetraneta de Luis Antônio de Souza e Cordolina Souza (a Primeira), ancestrais fundadores do TQ Mangueiras, por isso sua luta na defesa intransigente deste território que é sua herança.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editora-Chefe:
    María Elvira Díaz-Benítez
  • Editor Adjunto:
    John Comerford
  • Editor Adjunto:
    Luiz Costa

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    26 Ago 2024
  • Aceito
    20 Mar 2025
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Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social - PPGAS-Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ Quinta da Boa Vista s/n - São Cristóvão, 20940-040 Rio de Janeiro RJ Brazil, Tel.: +55 21 2568-9642, Fax: +55 21 2254-6695 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
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