Paul Preciado é um filósofo nascido na Espanha e uma das referências teórico-políticas mais relevantes nos estudos de gênero, queer e trans. Sua obra, não se limita ao campo da escrita, pois recentemente dirigiu o filme Orlando (2023), no qual expõe uma biografia política inspirada em Virginia Wolf. Sua filosofia sempre se desdobra entre terrenos filosóficos complexos e narrativas muito pessoais e íntimas.
Seu último livro, Dysphoria Mundi, é composto por sete capítulos: Dysphoria mon amour, Hipóteses Revolução, Heroína Eletrônica, Notre Dame das Ruínas, Dysphoria Mundi, Mutação Intencional, Rebelião Somatopolítica e Carta às Noves Ativistes (a modo de posfácio). O quinto, o qual leva o mesmo título do livro, ocupa grande parte da obra e se subdivide em várias categorias que, segundo Preciado, estão out of the joint. Já os dois últimos são capítulos com um tom político mais direto: sons de esperança nesse universo que desmorona, uma implantação gramatical de um vírus como resposta a outro.
Talvez, para Preciado, uma das evidências mais claras de que tudo está "desmoronando" seja a chegada de uma pandemia global nunca vista. Se o mundo como o conhecemos está em agonia, é necessário ouvir esse ruído se desfazendo para vislumbrar os sinais, para imaginar outros mundos possíveis quando tudo já houver caído completa ou parcialmente.
Para isso, é preciso deslocar a noção de disforia. O saber psiquiátrico do início do século XX e, posteriormente, do meio do século XXI empregou uma série variada de definições e adendos: disforia de gênero, disforia histérica, disforia da síndrome pré-menstrual, entre outros. O comum a essas definições é que se referem a um corpo que falha, deprimido, inadequado. É esse descompasso que interessa a Preciado pois, a partir dessa inadequação, vislumbra-se uma potência: a de se extrair da genealogia capitalista (:27).
Para entender o argumento do livro é fundamental recuperar dois conceitos que o autor trabalhou anteriormente em Testo Yonqui (2008). O primeiro é a somatopolítica, entendida como a produção tecnopolítica dos corpos (:66); e o segundo é potentia gaudendi, definido como "força orgásmica, como aquela potência virtual ou atual de excitação (total) do corpo", que é também substrato da força de trabalho (:38). Estes conceitos permitiram uma operação analítica para entender o regime farmacopornográfico ao qual Preciado estava se referindo naquela época. Aqui, o movimento é justamente atualizá-los para desdobrá-los em um cenário de crise. Não é que esse regime tenha deixado de existir. É que sua existência se agudiza e é necessário buscar outras formas de dizê-la e, sobretudo, mudá-la.
A Hipótese Revolução refere-se à necessidade de criar uma gramática, uma nova linguagem contra o sistema petrosexoracial. Uma resposta à crise não se limita a um caráter analítico, mas à modificação dos meios de inteligibilidade do real: "não basta analisar a condição neoliberal, é necessário mudar todos os nomes de todas as coisas". Assim, o filósofo se refere à ideia de simbiontes explorada por Donna Haraway no livro Staying with trouble (2019): seria necessário deslocar a ideia de sujeitos políticos para a de simbiontes políticos, pois neles existe uma relacionalidade associativa que precede a existência, e na qual não existe uma hierarquia entre os seres. Ou seja, não se é sujeito para depois se relacionar, já se é relação desde que se é existente.
Esta proposta emerge para dar conta da lacuna epistêmica entre teoria e prática herdada pela academia, pela "esquerda radical" e pelos discursos científicos do século XX; e ao mesmo tempo busca ser uma maneira de combater a crise a partir de três dimensões: climática, somatopolítica e cibernética. Sob a influência da teoria da linguagem de William Burroughs, Preciado propõe uma gramática viral, uma inoculação de uma vacina na linguagem. A Heroína Eletrônica é essa dimensão de consumo na qual as somatecas acabamos sendo codependentes: somatecas entendidas não como "propriedade privada nem um objeto anatômico, mas um arquivo político vivo no qual se instituem e destituem formas de poder e soberania" (:61). Parece impossível pensar em nossas vidas sem dispositivos eletrônicos-digitais. A pergunta que o autor faz aqui é: como funciona o poder sob as novas tecnologias de controle? Como somatecas, estamos no perigo da adição: "somos corpos perpetuamente endividados e viciados nas formas de consumo e distribuição de energia específicas do capitalismo colonial e da reprodução heteropatriarcal [...] e cibernética: códigos semióticos, informação [...]" (:73).
No capítulo Dysphoria Mundi, entramos em um tempo desencaixado, que saiu de seu curso, se é que teve algum. Segundo Preciado, reconstruir os modos como as soberanias políticas se instituem globalmente permite compreender as formas que as epidemias tomam. A gestão política reflete o tipo de sociedade em que vivemos: a sífilis no século XV e sua relação com a pureza racial e o HIV com sua máquina de exclusão são alguns exemplos. Os modos de gestão política das epidemias, juntamente com a radicalização do uso de tecnologias como os algoritmos, big data, a internet e outros, são evidências da "nova gestão semiótico-técnica digital da subjetividade." (:156).
Quando chega a hora de definir um vírus, é preciso dizer que não se trata de um ser biológico em si mesmo, mas de uma relação com o vivo (:184). Este vírus permitiria, então, ver os limites da ontologia da modernidade. Aqui, parece-me que há um ponto-chave do fundamento teórico de Preciado. Segundo ele, nas propostas ontológicas tradicionais que vão de Aristóteles a Heidegger, "o ser é presença idêntica a si mesma" (:184), é identidade, imutabilidade. Como resposta a essa compreensão do ser e com as referências de Deleuze e Derrida, Preciado afirma que o vírus é "tornar-se-muitos", é negação da identidade "não-ser-nunca-o-mesmo" (:184).
Preciado aponta a necessidade de pensar a partir de uma ontologia em movimento. Para lutar contra a ontologia moderna e as políticas de identidade, é preciso pensar a diferença através da mutação e da alteração em vez da essência, identidade e o Ser. É uma estratégia político-epistemo-ontológica a que Preciado se propõe. Como intentei problematizar anteriormente (Sánchez 2021) poderia ser entendida como uma metafísica do devir. A modo crítico, considero importante destacar que, talvez por uma compreensão muito particular do ontológico, essa estratégia coloca suas armas contra o capitalismo em uma metafísica própria do Ocidente, uma metafísica do devir-somateca infinito. Será que essa metafísica do devir é realmente uma ferramenta contra o capitalismo ou é um modo como o próprio capitalismo se dá metafisicamente? Para ir além de Preciado e desse entendimento sobre o ontológico, alguns autores como Suvi Alt (2016) e Mikko Joronen e Jouni Häkli (2017) propõem caminhos que se referem à "diferença ontológica", conceito trabalhado anteriormente por Heidegger, e que está longe de ser uma instância estática, fixa, identitária, imutável e transcendental ou um devir sem finitude. É uma pergunta pelo gesto do existente (Suvi 2016).
Quando, na subseção do capítulo, Preciado afirma que "a identidade está desencaixada" é porque ele concebe toda ontologia como política. O problema que se coloca é: por que as lutas anticoloniais e de emancipação de minorias acabaram cristalizando-se em políticas de identidade? (:208). Aqui é exposto um método genealógico à Foucault no qual os universais são entendidos como inexistentes, não porque não tenham materialidade, mas porque sua maneira de se dar no real está em movimento e se dá a partir da diferença. A pergunta não é sobre o que é a masculinidade, a nação ou o povo; é sobre por que esses são convocados, o que faz com que seja tão necessário convocá-los: "a política é, neste sentido, uma tarefa de ontologia-ficção: a arte de inventar a existência do inexistente, ou de fazer com que um inexistente que passava por natural deixe de existir" (:214).
Na subparte "a liberdade está desencaixada", encontramos outro ponto de continuidade na obra de Preciado. Se em seu livro Pornotopia (2010) o autor se questionava sobre os modos como a arquitetura da mansão Playboy produzia novas formas de subjetividade, aqui a arquitetura digital da internet (:420) aparece como uma nova digitalocracia cibervigilante de produção de sujeitos. A transição do analógico para o digital implica uma metamorfose epistemo-política. Contra essa nova arquitetura do tele-capitalismo farmacopornográfico é necessário pensar novas formas de desobediência cibernética (:310); contra as novas formas de produção de mais-valia digital, uma nova classe trabalhadora deve ser pensada.
Estas são algumas das categorias que estão desencaixadas pela crise: tudo está "desencaixado". Em sua engrenagem teórico-política, Preciado cria uma narrativa viral, um vírus diante do que pode ser dito e de como pode ser enunciado. É por isso que, no livro, encontramos fragmentos de poemas, orações fúnebres, histórias pessoais de amor, processos de transição, prosas envolventes e cânticos. Trata-se de um livro que propõe outras maneiras de narrar, de tornar inteligível o ininteligível. No final do livro, encontramos o otimismo como metodologia. Apesar desse mundo desencaixado, Preciado diz: apenas sendo consciente das novas formas de subjetivação podemos construir mundos possíveis.
É quando nos deparamos com a “Carta aos novos ativistes” -, que poderia ser também uma mensagem aos novos antropólogos -, na qual há um convite: “Apressem-se e façam vocês mesmos”. Preciado pode trazer perguntas relevantes para o fazer antropológico: será que, além de pensar como o mundo é etnograficamente, podemos arriscar mais e pensar como o mundo deveria ser? E caso caiba esta possibilidade de pensar num novo dever ser, como a Antropologia poderia fundamentá-lo em um mundo tão múltiplo e diverso?
Referências
- ALT, Suvi. 2016. Beyond the Biopolitics of Development Rovaniemi: Lapland University Press.
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JORONEN, M.; HÄKLI, J. 2017. “Politicizing ontology. Progress in Human Geography”, Sage Journals, 41 (5):561-579. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0309132516652953
» https://doi.org/10.1177/0309132516652953 - PRECIADO, Paul (Beatriz). 2008. Testo Yonqui Madrid: Editorial Espasa Calpe, S.A.
- PRECIADO, Paul (Beatriz). 2010. Pornotopia: Arquitectura y sexualidad en Playboy durante la guerra fría Barcelona: Editorial Anagrama.
- SÁNCHEZ, Carlos. 2021. El cuerpo drogado de pharmakones: un análisis de nueve etnografías brasileñas (1987-2018). Tesis de Maestría, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
