Open-access DESCOLA, Philippe. 2023. As formas do visível: uma antropologia da figuração. Trad. Mônica Kalil. São Paulo: Editora 34. 768 pp.

DESCOLA, Philippe. 2023. As formas do visível: uma antropologia da figuração. . Kalil, Mônica. São Paulo: Editora 34, 768

DESCOLA, Philippe. 2023. As formas do visível: uma antropologia da figuração. Trad. Mônica Kalil. São Paulo: Editora 34. 768 pp.

Pouco mais de uma década depois da publicação de Par-delà nature et culture (2005) na França, o antropólogo Philippe Descola publica Les formes du visible: une anthropologie de la figuration (2021), ambos os livros traduzidos para o português brasileiro em 2023; o primeiro pela EdUFF, o segundo pela editora 34. Em Para além de natureza e cultura, o leitor é apresentado às quatro ontologias, formuladas ali como esquemas de integração da experiência, quais sejam: o totemismo, o animismo, o analogismo e o naturalismo. Tais ontologias definem as diversas formas de as pessoas perceberem os seres e o ambiente sensível que os cerca. Neste contexto, o autor mobiliza as noções de “natureza” e “cultura” apenas na condição de obliterar tais conceitos, mostrando a ineficácia em mobilizá-los para descrever a relação que as sociedades não ocidentais estabelecem com seu entorno físico e metafísico.

Em As formas do visível: uma antropologia da figuração, Descola recupera as ontologias definidas no livro anterior a fim de abordar os regimes figurativos concernentes a cada uma delas. A ação de figurar, ideia central no livro e presente no título da obra, deve ser entendida como uma forma de inferência: o destaque que nosso intelecto dá a certas qualidades apreensíveis no mundo. O que tensiona o visível são correlações espaço-temporais intangíveis entre os seres e o meio, interações estas que nos são dadas a ver e a compreender apenas parcialmente, e por isso nos colocamos na posição de imaginá-las, projetando-as em seguida em suportes materiais. Assim, figurar seria mais precisamente “esquematizar a experiência” (:368), se deter sobre ela.

Neste sentido, o objetivo da publicação resenhada é mostrar aquilo que fundamenta cada um dos estilos figurativos examinados: a relação com o espaço e com os seres animais e minerais que o animam; as maneiras de vincular os estratos terrestre e celeste; a relação com instrumentos engendrados em período históricos específicos, os quais modificaram a maneira de mensurar as proporções espaciais e a passagem do tempo. Para dar conta desta tarefa, o livro é organizado em quatro partes, cada uma delas compostas por três capítulos. Na primeira e segunda partes, o antropólogo examina as formas respectivas de figuração animista e totemista. Na terceira, aborda o regime figurativo analogista, para encaminhar-se, por último, à análise da figuração naturalista.

A primeira figuração abordada, a animista, é adotada pelos povos das Américas do Sul e Norte. Ela deseja sistematizar, de acordo com o etnólogo, o extraordinário: quer seja um barulho inesperado, quer seja uma ventania repentina. As produções plásticas dessas populações assim o fazem porque desejam tornar visível a atividade subjetiva de não humanos, figurando seu movimento em suspenso. Dessa forma, as imagens animistas seriam mais abstratas e minimalistas, procurando retratar menos um espírito ou um animal per se do que o rastro de sua ação no mundo. As estatuetas esculpidas pelos povos do Ártico, apresentadas ao leitor, são um bom exemplo, pois cada espécie recriada é reconhecível menos pelos detalhes de sua aparência do que pela postura física ou pelo desempenho de sua abordagem ao caçar uma presa.

A figuração totêmica, por sua vez, abordada no capítulo seguinte, é típica dos povos da Austrália. Essa forma de figuração deseja recuperar um itinerário narrativo, o qual foi formado por acontecimentos estabilizados na geografia local. As pegadas dos seres que dão seu nome e características ao totem são elas mesmas um mapa indiciático da região; um exemplo disso são os motivos de pegadas de gambás e cangurus, desenhados pelos aborígenes warlpiri. Uma outra imagem que revela os fundamentos da figuração totêmica é a pintura em casa de árvore feita pelos kunwinjku do noroeste da Terra de Arnhem. Nessas pinturas, os corpos animais ou humanoides dos protótipos totêmicos são retratados por meio de um tipo de técnica que evoca a radiografia. As representações deixam entrever por transparência apenas os órgãos internos e o esqueleto dos corpos desenhados, figurando simultaneamente o interior de um ser e os princípios de ordenação espacial evocados por ele.

Na terceira parte, para abordar o regime figurativo analogista, Philipe Descola passa pelas produções plásticas e iconográficas do México, percorre as máscaras portentosas do Sri Lanka, chegando às esculturas das Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa. Ele o faz, e isso é louvável - mas não é surpreendente para quem já é familiarizado com a obra do autor - sem reduzir nenhuma das diferenças entre essas expressões estéticas ao contrastá-las. Isto é particularmente importante de pontuar, pois quando o autor fala da diversidade das tradições pictóricas vinculadas ao analogismo, o leitor pode ter a impressão de assoberbamento diante de tamanha profusão de imagens e detalhes. Como tantas formas distintas poderiam ser enquadradas em um único e mesmo regime figurativo? As formas de assunção analogistas, de fato, se comparadas às formas figurativas apresentadas ao leitor nos dois primeiros capítulos do livro, são as mais heterogêneas entre si. No entanto, todas elas sintetizam uma mesma ambição: dar a ver a rede de correspondências entre o homem e o universo, estabelecendo uma continuidade entre o micro e o macro, tal como o faz a figura do corpo tântrico na Índia, um dos exemplos mobilizados pelo autor.

O modo de figuração naturalista é o último a ser abordado. As imagens produzidas por este regime figurativo compreendem sobretudo as pinturas dos precursores do impressionismo e os afrescos flamengos que retratam os detalhes de rostos individuais. A figuração naturalista teria por desejo mimetizar a intencionalidade humana e a experiência orgânica: um olhar que carrega uma hesitação, a textura de uma fruta em decomposição. Descola defende que o que está por trás de tais obras realistas das belas-artes é menos o aprimoramento secular das técnicas, e mais uma maneira particular de observar o mundo e interagir com ele. É coetânea a esse período artístico uma miríade de experimentações científicas que visava olhar para a natureza de forma objetivada. Nessas circunstâncias, as pessoas eram estimuladas a esquadrinhar o visível em virtude dos novos instrumentos de óptica que surgiam. A pintura de alimentos dissecados, por exemplo, coincidiu com a emergência da visão microscópica e da cartografia na Holanda do século XVII, ao passo que a exatidão mimética observada em pinturas da natureza não deixa de ser tributária das possibilidades oferecidas pelo surgimento do daguerreótipo, em 1839.

Ao contrário do que tendemos a presumir, nenhuma imagem, por mais realista que seja, representa exatamente aquilo que se põe a reproduzir. Usando o léxico do autor, existe sempre entre o que é visto e o que é representado um “filtro ontológico”. É impossível uma semelhança total, por exemplo, entre o referente (um limão) e o signo icônico (a pintura de um limão). Decerto a natureza morta de Jan Davidszoon de Heem reproduz um limão descascado de tal maneira que sentimos quase como se pudéssemos lhe apalpar a superfície. No entanto, a pintura do limão cristaliza apenas um dos estágios orgânicos possíveis dele, que além disso está pousado sobre um prato específico, em um ateliê particular. O cenário é montado. Com observações deste gênero, o autor desnaturaliza a identidade que pensamos evidente entre um objeto e as imagens icônicas construídas sobre ele.

O modo de figuração naturalista, com sua obsessão em reproduzir a verossimilhança, difere particularmente do estilo artístico característico dos povos ameríndios, os quais preferem retratar pequenas variações entre motivos abstratos, e não a continuidade entre os elementos em um espaço simulado em analogia ao real. A atenção das populações amazônicas às diferenças discretas - como é possível observar em alguns padrões de grafismos -, foi conceitualizada na produção etnológica recente como uma estética dos “pequenos intervalos”, observada tanto em produções plásticas e sonoras como nas características prático-estéticas da horticultura indígena (Fausto 2019, 2023).

Não obstante a erudição e a empresa consistente construída por Descola, ele nos adverte: as tendências figurativas erigidas no livro não devem ser interpretadas como imperativas. Com isto, o autor nos fornece exemplos de populações que, por razões diversas, justapõem um regime figurativo a outro. Isto ocorreria entre os grupos amazônicos do Piemonte noroeste dos Andes, que misturam expressões figurativas animistas e analogistas. Os casos divergentes, ou, nas palavras do antropólogo, as variações dos modelos construídos, são bem pontuados, trazendo nuances à argumentação, uma vez que a extensão e a densidade da análise nos dão, muitas vezes, a impressão de completude. Desse modo, ainda que o etnólogo desempenhe uma análise monumental e persuasiva, que se estende ao longo de mais de 700 páginas, ele nos convence de que a experiência sempre excede os moldes nos quais tentamos enquadrá-la.

Ao fim e ao cabo, evocando em algumas passagens o valor que a linguística estrutural teve para a antropologia, o livro sustenta que as regras da imaginação visual são tão articuladas como as da linguagem. As formas do visível respondem a uma sintaxe diferente daquela que articula “as formas do dizível”, mas nem por isso ela é menos complexa (:495). O objetivo da publicação é alcançado com maestria, nos conduzindo, pelas formas do visível, às maneiras possíveis e diversas de figurar algo propriamente invisível: a diversidade da experiência fenomenológica.

Obras como esta mostram quão profícuas podem ser as interpretações antropológicas e a pertinência de uma abordagem comparativa que não reduz as diferenças, mas trabalha em favor de complexificá-las. O livro fornece aos leitores novas maneiras não somente de ver o mundo, mas de pôr em relação a matéria que compõe o mundo. Aqui, no Brasil, ele pode interessar não apenas a antropólogos e etnólogos americanistas, mas também a artistas, filósofos e historiadores da arte.

Referências

  • DESCOLA, Philipe. 2023. Para além de natureza e cultura Trad. Andrea Daher e Luiz César Sá. Rio de Janeiro: Ed. da Universidade Federal Fluminense - EdUFF.
  • FAUSTO, Carlos. 2019. “La diversité en petits intervalles: logique de variation en Amazonie”. In: Geremia Cometti; Pierre Le Roux; Tiziana Manicone; Nastassja Martin (eds.), Au Seuil de la Forêt: Hommage à Philippe Descola, L’Anthropologue de la Nature Strasbourg, France: Tautem. pp. 315-328.
  • FAUSTO, Carlos. 2023. Ardis da arte: imagem, agência e ritual na Amazônia São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo - EdUSP.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editor-Chefe:
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    Carlos Fausto

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    16 Dez 2024
  • Aceito
    01 Ago 2025
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