Open-access Alienação, tecnicidade e racialidade: por um diálogo entre Frantz Fanon e Gilbert Simondon

Resumo

Diante do crescimento nos últimos anos dos estudos sobre raça e racismo na área de Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS), além da relevância do tema para o ativismo antirracista, este trabalho visa intervir e contribuir com o campo reconstruindo suas filiações teóricas e metodológicas. Sem pretender exaurir as pesquisas disponíveis nesse recorte, enfatizamos as ramificações antropológicas e sociológicas nos estudos em CTS sobre raça. A partir disso, demonstramos suas matrizes na obra de Frantz Fanon. Por fim, sugerimos que a abordagem fanoniana da intersecção entre raça e tecnologia, fundada no contexto histórico das lutas anticoloniais, pode ser reelaborada diante das transformações apresentadas pelas relações técnicas do digital. Como síntese deste estudo, propomos que novos diálogos com a Filosofia da Técnica, em especial pelo renovado interesse na obra de Gilbert Simondon, oferecem oportunidades de trabalho e reflexão.

Palavras-chave
alienação; tecnologia; raça e racismo; Frantz Fanon; Gilbert Simondon

Abstract

In the face of the expansion of studies on race and racism in the area of Science, Technology, and Society (STS), in addition to the theme’s relevance for antiracist activism, this work proposes an intervention and a contribution to this field of study reconstructing its theoretical and methodological roots. Without intending to exhaust the available research on this subject, the article emphasizes the anthropological and sociological ramifications within STS studies on race. It then demonstrates its roots in Frantz Fanon’s work. Finally, it suggests that Fanon’s approach to the intersection of racism and technology, grounded in the context of the anti-colonial struggle, can be reworked vis-à-vis the transformations presented by the technical relations of the digital world. As a critical synthesis, the study proposes new dialogues with the Philosophy of Technology, especially in light of the renewed interest in Gilbert Simondon’s work, offering opportunities for exploration and reflection.

Keywords
alienation; technology; race and racism; Frantz Fanon; Gilbert Simondon

Introdução

A máquina é apenas um meio. O fim é a conquista da natureza, a domesticação das forças naturais por meio de uma primeira subjugação: a máquina é um escravo que serve para fazer outros escravos.

Gilbert Simondon (2020b, p. 197)

Sou fixado. Uma vez ajustado seu micrótomo, eles objetivamente realizam cortes na minha realidade.

Frantz Fanon (2020b, p. 131)

O escravizado colonial é mantido numa relação de alienação com o mundo. A política do porão representa essa linha traçada através dos humanos que recusa a alguns as mesmas qualidades que confere a outros, que de imediato exclui alguns da dignidade de uma existência em que se compartilha uma cena, uma Terra, um mundo.

Malcom Ferdinand (2022, p. 72)

Vivemos uma nova fase do racismo, dessa vez marcada pela globalização da tecnologia, a digitalidade e a extensão dos regimes de racialização? Qual é a melhor maneira de se referir a isso, racialização digital (Faustino; Lippold, 2022) ou racismo algorítmico? (Silva, T., 2022). Principalmente, inserido em um regime sociotécnico racial avançado, modelado pela cibernética, a aprendizagem de máquina e as inteligências artificiais (IAs), como podemos pensar um projeto antirracista? Essas perguntas atravessam diversas vozes que trabalham o entrecruzamento entre tecnologia e racismo.

Visando colaborar com esse debate, este artigo propõe um diálogo entre a Filosofia da Técnica e os estudos sobre raça e tecnologia, trabalhando com base na ontogenética da individuação técnica de Gilbert Simondon (2020a, 2020b) e a sociogênese racial de Frantz Fanon (2020b). Evidenciamos um caminho que tem ganhado contornos na pesquisa e no ativismo contra o viés racial na área de Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS). Em seguida, queremos pontuar algumas conclusões teóricas a respeito do estatuto ontológico da máquina e sua relação com a racialização. A partir disso, retomaremos (no sentido de nos inspirarmos em) argumentos apresentados pelo Afrofuturismo (Amaro, 2018; Eshun, 2003, 1998; Nelson, 2002; Neyrat, 2020) e pela proposição da cosmotécnica (Hui, 2016, 2020), defendendo a imaginação de novas histórias sobre a tecnologia moderna. Essas histórias assumem a perspectiva da invenção técnica.

Desse modo, construímos nosso argumento em dois momentos: primeiro, apresentamos em linhas gerais as diferentes perspectivas pelas quais a relação entre racismo e tecnologia digital é trabalhada no campo da CTS; segundo, elaboramos um nexo entre a racialização sociogênica e a individuação técnica ontogenética, termos que serão devidamente explicados adiante a partir da discussão das obras de Fanon e Simondon. Esse nexo triangula os conceitos de racialiadade, tecnicidade e alienação nesses autores a fim de propor a ontogênese do escravo-máquina; com isso queremos dizer, a região em que uma abordagem simétrica entre a tecnicidade e a racialidade pode aparecer.

Como forma de conclusão, retomaremos a crítica aos estudos sobre raça e racismo na CTS chamando atenção para o indivíduo técnico, indicando com isso a importância da tecnicidade para uma abordagem antirracista da tecnologia. Deixamos um caminho em aberto proposto a partir do conceito de invenção de Simondon em diálogo com Fanon.

Raça, Racismo e Tecnologia

O propósito dessa seção é delimitar o c0ampo no qual nossa hipótese, experimentação e especulação está se individuando e operando. Esse campo entrou, recentemente, num contexto de impulsão a partir da disseminação do computador pessoal, a expansão do acesso à internet e a plataformização do capitalismo (Beiguelman, 2021), ou o chamado capitalismo de vigilância (Zuboff, 2021). Como consequências políticas, as agressões raciais migraram em massa para a internet, e a extrema-direita global passou a se utilizar da tecnologia em seu projeto de guerra civilizacionista (Gilroy, 2018; Trindade, 2022). Esse quadro ofereceu os dois principais objetos dos estudos em CTS sobre raça: a ideologia da neutralidade da tecnologia digital, propagada pelo Vale do Silício, e a resposta afirmativa dos saberes técnicos rechaçados pela visão eurocêntrica do progresso. Isto também favoreceu o boom de estudos e ativismos contra os vieses racistas da tecnologia digital, que compõem a bibliografia que desejamos destacar neste trabalho.2

Para uma melhor organização, após uma revisão bibliográfica não exaustiva, iremos separar os trabalhos sobre raça da CTS em duas teses gerais3: a sociológica, que se concentra criticamente nos vieses algorítmicos e regimes sociotécnicos, e a antropológica, da apropriação da tecnologia pelas culturas negras locais. Em torno da linha antropológica podemos reunir tanto os estudos etnológicos quanto a pesquisa histórica. O que permite esse movimento é que ambas, a etnologia e a historiografia, podem ser englobadas pela resposta afirmativa ao racismo: no geral, esses trabalhos defendem que pessoas negras também possuem saberes técnicos ou se apropriam criativamente das tecnologias modernas4. O crítico cultural nigeriano Louis Chude-Sokei (2016) nomeia essa (re)invenção técnica no contexto diaspórico de tecnopoética negra (black techno-poetics).

Em sua ampla análise, Chude-Sokei (2016) destaca a presença dos significantes raciais na tradição da science fiction e da história da tecnologia, incluindo o desenvolvimento do autômato na cibernética. Pode-se dizer que Chude-Sokei retoma as operações do Atlântico negro — conceito proposto pelo historiador afro-britânico Paul Gilroy (2012) para pensar a história negra em contextos transnacionais ou não nacionais — num sentido “pós-humanista”. Seguindo as teses de Gilroy sobre a música negra e sua relação com a modernidade ocidental, Chude-Sokei (2016, p. 5) aborda o som como o ambiente no qual a cultura negra intercruza informação e tecnologia. As culturas africano-diaspóricas e as diferentes correntes estéticas do Atlântico negro animam essas afirmações sobre o poder de invenção dos/as descendentes de africanos/as escravizados/as.

Seguindo a tese antropológica, o sociólogo afro-americano Andre Brock (2020a, 2020b) e a historiadora afro-americana Simone Browne (2015) também afirmam a criatividade técnica nas culturas negras. Brock direciona sua análise para as dimensões online e offline. Com esse propósito, o autor formula um método heurístico: a análise crítica tecnocultural do discurso (Critical Technocultural Discourse Analysis, CTDA). Em suas palavras (Brock, 2020b), a CTDA trabalha a cultura como tecnologia e a cultura da tecnologia. O interesse de Brock recai sobre as redes sociais, em especial o Twitter, e no modo pelo qual a identidade negra (blackness) é construída online. Segundo Brock (2020a, p. 15), “pessoas negras transformaram a internet em um ‘espaço negro’ cujos contornos se tornaram visíveis através da socialidade e práticas digitais distribuídas ao mesmo tempo que também descentra a identidade branca [whiteness] como a identidade padrão da internet”5. Brock analisou a importância do design, na prática das culturas locais com o device — no caso do Twitter, os telefones celulares. Para o sociólogo, é preciso atentar para as dimensões algorítmicas e para a cotidianidade da relação com os aparelhos.

Brock (2020b) afirma que as culturas negras possuem afinidade “natural” com a internet e os objetos digitais. O autor não deseja, contudo, cair numa visão essencialista e, por isso, defende uma perspectiva histórica. Simone Browne (2015, 2020) corrobora esse argumento em seu estudo sobre as práticas negras afro-americanas de resistência às políticas de controle da negritude no período pós-abolição. Browne (2015) construiu uma profunda crítica aos estudos sobre vigilância que, no geral, se centram na figura do panóptico analisado por Michel Foucault. Seu exercício filosófico pode ser caracterizado como parte da tradição africano-diaspórica: Browne (2015) defende que a vigilância deve ser pensada a partir de outros arquivos, chamando atenção para a escravidão e as tecnologias de objetificação dos corpos africanos. Estendendo a abordagem foucaultiana, Browne apresenta uma análise do navio Brooks, utilizado no tráfico de escravizados/as no século XVIII. A disposição dos corpos e a organização do porão em que essas pessoas eram carregadas ilustram o argumento de que o navio é uma tecnologia de vigilância.

O que essa representação visual do navio de escravizados aponta é a primazia dada nesses textos abolicionistas para os olhares e pontos de vista brancos a respeito do trauma da escravidão, onde se faz com que as diminutas figuras negras pareçam andrógenas, intercambiáveis e replicáveis. Isso é o “truque de deus de ver tudo de lugar nenhum”, e, como Haraway adverte, “esse olhar fode o mundo” 6

(Browne, 2015, p. 49).

A autora assinala a produção dos corpos negros nas relações do comércio triangular a partir de operações técnicas que informam as tecnologias modernas. Essa atenção às continuidades, que sempre retorna nas narrativas e críticas da diáspora, reverbera em análises da relação de pessoas negras na cotidianidade. Por exemplo, no capítulo do seu livro Dark Matters (Browne, 2015) sobre os aeroportos nos contextos após 11 de setembro de 2001, Browne analisa a disseminação da biometria como consequência do atentado. Em outro momento, ela afirma que esse acontecimento impulsionou o processo de “epidermização digital” (Browne, 2010). Retomaremos o conceito de epidermização quando trabalharmos especificamente a obra de Frantz Fanon.

Mesmo que não haja uma fronteira rígida entre essa primeira afirmação antropológica e o que categorizamos como tese sociológica, é possível distinguir outro grupo de trabalhos focados em responder ao avanço das tecnologias digitais. Essa bibliografia visa aprofundar a discussão sobre os vieses do algoritmo a partir de pesquisas que descrevem a intersecção entre objetos técnicos e o pensamento científico racial, inseridos nos estudos culturais de mídia e da história das ciências (Braun, 2014; Chinn, 2000). Mais recentemente, a tese sociológica se voltou para críticas explícitas às Big Techs. Nesse grupo, destacamos as cientistas da informação Ruha Benjamin (2019) e Safiya Noble (2021), responsáveis por sedimentar um campo emergente de estudos e ativismo.

Noble (2021) realizou uma pesquisa pioneira sobre a reprodução do racismo nos mecanismos de busca do Google. A autora foi importante por expandir a pauta sobre o controle dos dados no combate às discriminações e agressões de raça e gênero. Noble (2021) desenvolveu dois argumentos gerais: as decisões da inteligência artificial não podem se sobrepor às decisões humanas, combatendo a tecnocracia do neoliberalismo; e os algoritmos operam reproduzindo e expandindo relações offline de opressão. Ela adverte sobre a conscientização a respeito do manejo dos dados e a necessidade de políticas públicas nesse setor econômico. No início dos anos 2000, as Big Techs eram caracterizadas pela desregulamentação jurídica, e mesmo hoje ainda se sobrepõem ao controle estatal e social.

Ruha Benjamin (2019) também defende a não neutralidade das decisões técnicas, radicalizando esse argumento na direção de uma renovada concepção materialista sobre raça e racismo. Benjamin (2019) destaca que as representações culturais sobre a tecnologia trataram de modo análogo a posição da máquina e a do escravo. Isso fez dos regimes sociotécnicos, incluindo sua arquitetura e design, modelos de exclusão racial. Segundo a autora, a tecnologia digital opera em duas fases em relação à codificação da negritude: a invisibilidade e a hipervisibilidade. Benjamin (2019) evidencia que a tecnologia atualiza os velhos modelos de racialização. Consequentemente, há a necessidade de revisar as ferramentas conceituais. Em Race after Technology, Benjamin (2019, p. 142) apresenta esse paradigma da atualização/modulação através do Novo Código Jim (New Jim Code), que se alimenta das antigas políticas de segregação norte-americanas: “isso não é simplesmente uma história de ‘antes’ versus ‘agora’. Tem a ver com a maneira como processos históricos fazem o presente possível; é sobre a continuidade entre a Jim Crow e o Novo Código Jim”7.

Nessa historicidade recursiva8, em que a autora considera o passado como outputs transformados em inputs para o racismo contemporâneo, as máquinas e inteligências artificiais são cruciais. Esse processo permite a convivência do multiculturalismo neoliberal com a racialização, especialmente o Complexo Industrial-Prisional, controlado por empresas privadas e amplamente debatido pelo Black Lives Matter nos Estados Unidos (Benjamin, 2020). Conforme a autora, os códigos de programação participam da construção de infraestruturas injustas, reunindo (na racialidade) práticas de linguagem com modulações concretas.

Esse conjunto de trabalhos dá suporte ao conceito de racismo algorítmico defendido pelo sociólogo afro-brasileiro Tarcízio Silva (2022). Em termos gerais, este autor argumenta por um complemento à ideia de racismo estrutural (Almeida, 2019) e, ao mesmo tempo, a superação do racismo enquanto discurso (no caráter mais ordinário do termo que o encara como abstração). Em torno da tecnologia, diz Tarcízio Silva (2022), há uma “dupla opacidade” que se refere à constante ocultação das pessoas racializadas e ao seu caráter de exploração. Em outras palavras, refere-se às implicações de operações raciais de invisibilidade e hipervisibilidade. O racismo algorítmico engloba os discursos de ódio nas redes sociais (com os quais as plataformas lucram, argumentam Trindade (2022[e Noble [2021]), a extensão das relações racializadas via machine learning (aprendizado de máquina) e deep learning (aprendizado profundo), as políticas de visibilidade algorítmicas (a visão computacional (Amaro, 2022), a necropolítica digital (que abrange a prática de “deixar morrer”) e a racialização dos aparatos tecnológicos e suas representações.

Deivison Faustino e Walter Lippold (2022) atualizam o materialismo histórico-dialético para tratar das implicações entre a tecnologia digital e o racismo e questionam as consequências do conceito de racismo algorítmico: “[...] não tenderia a escamotear a autoria do racismo, transferindo-a para os códigos enquanto oculta os seus programadores?” (Faustino; Lippold, 2022, p. 198). A alternativa dos autores é pensar em “racialização codificada”, ou em “racialização digital”, para considerar os contextos materiais na área do mercado de cargos técnicos, além da naturalização da codificação dos estereótipos. Giselle Beiguelman (2021), não necessariamente em diálogo com Tarcízio Silva (2022), Faustino e Lippold (2022), também esboçou uma explicação. Para a autora, falar em racismo algorítmico é interessante “[...] porque o universo de dados que o construiu reflete a presença do racismo estrutural da indústria e da sociedade às quais pertence e que o expandem em novas direções” (Beiguelman, 2021, p. 125).

Essa exposição bibliográfica demonstra o campo no qual desejamos trabalhar uma dimensão conceitual. Em sua maioria, os autores e as autoras debatidas acima defendem que a máquina não é neutra, que humanos a criaram, ao mesmo tempo que oferece uma compreensão de mundo racial para diferentes grupos. Ninguém está necessariamente errado, ao nosso modo de ver. Contudo, resta saber como trabalhar uma saída. Uma vez que as duas teses apresentadas são antagônicas, é provável que estejamos em meio a um paradoxo, apontado por Beiguelman (2021, p. 135) quando diz que “estamos vivendo a paradoxal situação de potencialmente criar a mais rica e plural cultura visual da história, pela democratização dos meios, e mergulhar no limbo da uniformização do olhar”. A situação descrita por Beiguelman (2021) é explícita em várias das pesquisas com as quais trabalhamos e que, por sua vez, resolvem-na em diferentes sínteses.

Na próxima seção, queremos contribuir com esse debate seguindo, como diz Letícia Cesarino (2022, p. 19), a máxima da explicação cibernética: “quando nos deparamos com um paradoxo, muitas vezes o que precisamos fazer é mudar o nível analítico”. Para isso, introduziremos um diálogo entre Gilbert Simondon e Frantz Fanon a fim de sugerir a ontogênese, a dimensão da individuação técnica, como a abordagem em que essa situação paradoxal pode começar a ser dissolvida.

Embora a intersecção entre racismo e tecnologia tenha sido muito explorada, incluindo a abordagem da raça como uma forma de tecnologia (Chun, 2012), nosso argumento é que a ênfase na sociogênese, defendida por Fanon, chegou a um limite. Com a integração da ontogênese nessa problemática, esperamos contribuir chamando atenção para a (co)individuação de indivíduos técnicos e humanos, de modo que pensar a racialização não deve envolver apenas subjetividades brancas e não brancas constituídas à revelia de relações técnicas. Propomos equacionar a alienação da tecnicidade na abordagem que a entrecruza com a racialidade. Chamamos essa experimentação de ontogênese do escravo-máquina.

Ontogênese do Escravo-Máquina: Tecnicidade e Racialidade

A seguir, mudaremos o nível analítico. Queremos com isso ajustar a sociogênese fanoniana a partir de “mudanças de escalas”, um movimento já proposto por Paul Gilroy (2007) e Ramon Amaro (2019, 2020, 2022). Partimos do pressuposto de que, na dimensão da ontogênese, a questão da racialidade da tecnologia está na individuação da figura da máquina enquanto escravo e do escravo enquanto máquina9. Ou, utilizando a gramática de Hortense Spillers (2021), podemos dizer que a carne escrava é a substância (racial) na qual se individuam o corpo racializado e a tecnologia moderna. Para seguir essa experimentação, trabalhamos através do que Simondon (2020a) chama de ação analógica: o nexo entre duas operações10: a racialização e a individuação técnica. Em termos gerais, podemos dizer que a racialidade da tecnologia e a tecnologia da racialidade são análogas, uma vez que partilham de uma gênese ontogenética.

Raça, racialização e racialidade não são usados, neste trabalho, como sinônimos. São termos “transdutivos”, uma vez que expressam a repetição de um princípio operativo em regiões próximas de uma mesma realidade estruturada e que se (re)estrutura junto com a operação11. Para raça e racialização, preservamos o que delinearemos pela sociogênese de Frantz Fanon (2012, 2020b). Para a racialidade, como prolongamento de um princípio, recorremos à definição da filósofa Denise Ferreira da Silva (2019, p. 116): “[...] um arsenal, um conjunto de dispositivos do conhecimento produtivo. Montada com o suporte da separabilidade, determinabilidade e sequencialidade, a racialidade opera como todo e qualquer arsenal e de acordo com as regras de discurso do conhecimento moderno”. Numa tentativa de simplificação, a racialidade é a produção do campo ontoepistemológico moderno, de explicação e significação racial, que se apresenta após a clausura ontológica encenada por Fanon (2020b). Para Denise Silva (2019, 2022), a racialidade reúne as ferramentas utilizadas na produção do espaço global.

A principal dificuldade para a filosofia simondoniana diante da racialidade é da ordem da orientação. Denise Silva (2022, p. 39) afirma que o racial se tornou, no conhecimento produtivo moderno, o significante da diferença cultural. Desse modo, não basta dizer que uma dada máquina reproduz ou prolonga a individuação do negro/colonizado por estar culturalmente localizada, ou pela intenção dos seus operadores, o que é argumentado nos estudos em CTS. Nossa proposta é interpretar a racialidade como aquilo que marca a tecnicidade da ontogenética do escravo-máquina, redirecionando a leitura dos exemplos mostrados de investigações sobre a extensão do racial nas relações técnicas.

Entendemos a tecnicidade na obra de Simondon (2020b), principalmente, a partir da discussão sobre a essência da tecnicidade na mediação entre humano e natureza. A tecnicidade precede a concretização dos objetos técnicos, conservada durante sua evolução, na formação de conjuntos e redes. A reticularização (a constituição das redes) retoma a relação da tecnologia com os pontos-chave da realidade mágica defasada — por exemplo, Simondon (2017, p. 422-423) fala sobre as montanhas como “lugares técnicos” durante uma entrevista com Jean Le Moyne. Por nosso argumento transdutivo, a analogia entre racialidade e tecnicidade inclui na mediação entre humano e natureza uma topografia que divide a espacialidade (ou o milieu) em zonas de ser e de não ser. Em reverso, essa topografia e a fragmentação racial do corpo são operacionalizadas e funcionam como princípio de conservação nos objetos técnicos. Alguns casos citados na primeira parte deste texto são: o navio negreiro (Browne, 2015); o espirômetro (Braun, 2014); o Twitter (Brock, 2020b); além da aprendizagem de máquina (Amaro, 2022; Silva, T., 2022).

Infelizmente, nosso exercício especulativo se limita a esboçar alguns conceitos que, por um processo analógico e pela individuação de uma analítica (a ser proposta e trabalhada com o rigor filosófico requerido), podem se comunicar com a sustentação sociogênica dos estudos sobre raça no campo da CTS. Para tanto, acompanhamos igualmente a evolução crítica, teórica e filosófica da literatura que se baseou no caminho aberto por Fanon e o alargou em diferentes direções. Neste texto, derrapamos entre “fanonismos” e “simondonismos”, sem nos comprometermos com qualquer grupo de comentadores/as (mais por questão de espaço do que por críticas a esses/as). Reconhecemos que a ontogênese do escravo-máquina necessita incorporar uma engenharia reversa das máquinas, descrevendo suas individualidades (se abertas ou fechadas; as margens de indeterminação; os períodos e pontos críticos), considerando a conservação da racialidade em suas linhas evolutivas até o maior grau de ressonância interna.

Delimitamos uma posição em que se acredita enxergar que os objetos técnicos se comunicam simetricamente com indivíduos, corpos e sujeitos, embora diferidos e os diferindo, os (re)introduzindo no contexto ontoepistemológico moderno em que emergem o eu transparente e seus outros raciais. Pensamos que a conjunção entre Simondon e Fanon consegue demarcar essa posição.

Simondon (1924–1989) e Fanon (1925–1961) estudaram filosofia e psicologia na França no período da Segunda Guerra Mundial, momento de destaque para o existencialismo, de Jean-Paul Sartre, Karl Jaspers e Martin Heidegger, para o marxismo, e para a psicossociologia, influenciada por Maurice Merleau-Ponty12. Enquanto Simondon se dedicou ao desenvolvimento de uma Filosofia da Técnica voltada (em seus termos) à integração dos objetos técnicos na cultura, Fanon foi reconhecido por engajar seu trabalho filosófico e clínico no front da luta pela independência da Argélia. Mais tarde, esse material foi apropriado pelas teorias críticas pós-colonial, decolonial, anticolonial, afropessimistas, etc. — os “fanonismos”, como escreve Faustino (2022). Existe lastro para um contraste entre as investigações de Fanon e Simondon, especialmente nas publicações dos anos 50 e 60. Essa pesquisa, muito maior do que o estudo que embasa este artigo, pode complementar nossa especulação e hipótese desde que não se limite a uma exegese dos autores13. A comunicação entre os autores deve possibilitar uma igual comunicação entre os debates construídos em torno da sociogênese fanoniana e da ontogênese simondoniana; um intercâmbio de termos que possa individuar uma abordagem conceitual do nexo entre realidades técnicas e racializadas.

A sociogenia trabalhada por Frantz Fanon (2020b) responde a duas categorias da psicanálise: a filogenia, que diz respeito a características gerais do comportamento humano relacionadas à morfologia e à fisiologia, e a ontogenia, que prioriza a experiência do indivíduo na constituição psíquica. Para Fanon (2020b), influenciado pelo materialismo histórico, é preciso considerar as relações do indivíduo com o contexto histórico e social concreto. Deivison Faustino (2022, p. 48) explica que “[...] a perspectiva sociogênica se apresenta como uma mediação dialética que não anula nem a experiência individual, nem aquilo que é mais geral, do ponto de vista das capacidades humanas ou dos processos psíquicos”. Trata-se, portanto, de introduzir outro nível de relações que integra os grupos sociais, a cultura, os saberes técnicos e as mídias e tecnologias.

Devemos explorar a análise da sociogenia e justificar o desvio pela ontogênese. Sobre isso, demonstraremos a centralidade do conceito de alienação e seus aspectos positivos e negativos. A racialização é o produto dessa operação de alienação. Tomamos um dos objetos teóricos centrais na obra de Fanon: o corpo racializado14. A “raça”, assim compreendemos, é um termo que concentra relações complexas de poder, entre as quais está a alienação15. A colonização impossibilita, segundo Fanon (2020b), uma ontologia do colonizado/negro. O corpo do colonizado/negro é fragmentado, despossuído de totalidade, na relação com o colonizador/branco. Por essa conceituação, a alienação interrompe uma relação corpo-mundo coerente (ou originária) e instala um suplemento, que o autor chama de “esquema histórico-racial” (Fanon, 2020b). Esse esquema introduz uma operação temporal, a historicidade, que (re)modula o corpo mediado pela figura do escravo. Nesse sentido, o colonizado/negro é (re)transformado em instrumento16 que (re)encena a realidade social e técnica do regime escravocrata17.

Fanon descreve a operação de fragmentação e (re)modulação do corpo, mediada por um suplemento, um esquema histórico-racial, de epidermização18. Os objetos técnicos processam a epidermização a partir de imagens operativas (Beiguelman, 2021). Para Ramon Amaro (2022, p. 49), investigando o progresso da machine learning, a racialidade da máquina articula a visão computacional ao reconhecer o/a racializado/a apenas em critérios preestabelecidos pela hierarquia racial: “Em outras palavras, a pesquisa em computação é uma adaptação do ordenamento fictício e compulsivo dos atributos humanos no [sic] interior de uma única imagem coerente das espécies”19. Na machine learning e na operação algorítmica, esse ordenamento é um a priori na fabricação das big data, na interpelação, fragmentação e organização do corpo — aquilo que Ezequiel Dixon-Román (2016) chama de “disciplinarização da carne”. No entanto, é igualmente um a posteriori, quando o algoritmo opera pela prioridade da coesão.

Alienação, racialidade e tecnicidade se triangulam quando a coerência de uma natureza humana (racial) está presente numa máquina fechada, autômata, com pouca margem de indeterminação: “Nesses casos, o processo da visão computacional começa na pressuposição do observador humano de que a máquina já alcançou um estado de objetificação independente da variabilidade do conhecimento e experiência humana” (Amaro, 2022, p. 55-56)20. Compreender o conceito de alienação, no objeto técnico e no corpo racializado, introduz os efeitos de uma metafísica hilemórfica, como diz Amaro (2022, p. 57), invalidada por Simondon (2020a).

A alienação em Fanon (2020b) é a produção do humano via operações de epidermização21. Começando com a clausura ontológica, a alienação ataca o nível filogenético. Fanon (2020b) demonstra essa fase com a imagem fraturada do seu próprio corpo. A desalienação significa, para Fanon (2020b), tornar consciente o problema criado pelo sistema colonial. Alienação e desalienação são tensionadas quando o corpo luta para desafiar o desejo, que atualiza a operação produtiva do humano.

O diagrama22 abaixo representa o sistema sociogênico construído na conjunção entre a visão de Frantz Fanon (2020b) do mundo colonial e a crítica epistemológica de Sylvia Wynter (2013). Wynter desenhou a sociogênese como uma totalidade de relações (transdutivas) que engloba a ontogenia e a filogenia. O principal, para Wynter (2013), é a produção do humano por um processo de alienação. Em outras palavras, o princípio sociogênico constrói a dimensão em que é possível disputar o sistema de alienação que gesta o mundo social (da morte social) e a realidade racial.

Figura 1
Princípio sociogênico

No ensaio Essa é a voz da Argélia, parte da compilação de artigos Sociologia de uma Revolução (Fanon, 2012), Fanon aborda um objeto particular no contexto histórico do colonialismo na Argélia: o rádio. Esse texto e os demais do volume expressam uma visão sociogênica do objeto técnico, demonstrada pelo estudo de Ivo Pereira Queiroz (2013) no campo da CTS. A partir desse ponto, podemos experimentar, no interior da nossa analogia, um contraste entre a abordagem conceitual da transindividualidade de Gilbert Simondon (2020a, 2020b) e da revolução de Fanon (2012). Ambos os autores problematizam a alienação e o objeto técnico como lugar vantajoso da ação e do processo de desalienação. No ensaio, Fanon (2012) questiona: por que o rádio foi rejeitado, num primeiro momento, pelos argelinos? A razão, ele afirmou, foi a configuração da família argelina refratária às tecnologias ocidentais. Fanon (2012) experimenta duas explicações diferentes sobre o rádio: primeiro, como um simples instrumento técnico; segundo, como um sistema de rede, de informação. Para Fanon (2012), o rádio é um meio de linguagem em operações de codificação, decodificação e expansão. Ou seja, o rádio codifica o princípio sociogênico da sociedade colonizada e o prolonga.

Na narrativa de Fanon (2012), o papel do rádio na revolução é central — o papel da linguagem e dos objetos técnicos. No começo, o rádio afeta a psique coletiva e individual, efeitos identificados em relatos da clínica psiquiátrica, que associam o aparelho aos colonizadores franceses. Os movimentos revolucionários se apropriaram do rádio e criaram “A voz da Argélia Livre”, um programa destinado para a população argelina colonizada. Isso mudou a relação entre os argelinos e o objeto. O rádio foi transformado em um meio para concretizar a voz da nação, segundo Fanon (2012). Ou seja, concretizar um coletivo.

A partir desse caso, podemos pensar a analogia com a tecnicidade e a transindividualidade de Simondon (2020a). Como resultado disso, um ponto forte e outro fraco se revelaram na sociogenia de Fanon (2020a).

Devemos observar que Simondon (2020a, 2020b) começa com uma crítica à metafísica e à separação entre forma e matéria, chamada de hilemorfismo. Para o filósofo francês, é preciso falar em individuação e não apenas em indivíduo. Para tanto, Simondon (2020a) introduz o conceito de metaestabilidade23. Lucas Vilalta (2021) explica que Simondon pensa ser e devir, trabalhando na ontogênese as fases do ser e seus processos de transdução. Em cada estágio da individuação, existe um pré-individual não aproveitado, que corresponde a um excesso. A técnica, para Simondon (2020b), ocupa as zonas de mediação da concretização do indivíduo e seu meio associado, do sujeito e objeto, e se relaciona diretamente com o pré-individual da individuação24.

Em Do modo de existência dos objetos técnicos (MEOT), Simondon (2020b) afirma que os objetos possuem relativa autonomia em relação ao humano. Principalmente, descreve as funções de orientação, de ordenação espacial e temporal, da técnica. Nesse sentido, como já se antecipou, podemos especular que a tecnicidade (compreendida como essência da técnica, que antecede o objeto e o ultrapassa) é análoga ao problema da historicidade (do esquema histórico que medeia o processo de racialização em Fanon). A ontogênese visa captar em devir — em processos de transdução e evolução — a concretização dos objetos técnicos (indivíduos, conjuntos e redes) e seus meios associados (milieus). Essa concretização ocorre via operações de alienação, que, segundo Vilalta (2021, p. 131), equivalem a regimes de metaestabilidade.

Simondon (2020b, p. 44) considerava o desconhecimento sobre a máquina “a principal causa de alienação no mundo contemporâneo”, que, em seus termos, levava à desconexão entre cultura e técnica. Sendo mais preciso, Simondon (2020b, p. 109) chamou de alienação um descolamento entre figuras e fundo25: “o meio associado já não efetua a regulação do dinamismo das formas”. A ontogênese responde à alienação perseguindo um estudo da tecnicidade, buscada em essência na última parte de MEOT. Simondon (2020b) acreditava que a desalienação da máquina deveria individuar um novo conhecimento sobre a técnica que visaria recuperar sua essência e o valor do meio. Ele esboçou um programa nesse sentido chamado de “mecanologia”, uma política das máquinas, ou a representação dos objetos técnicos na pólis.

Existe um paralelo humanista entre Fanon (2012, 2020b) e Simondon (2020b), revelado quando avançamos nossa analogia para o transindividual e para o conceito de revolução na história da rádio argelina. A relação transindividual possui duas explicações em Simondon (2020a, 2020b): primeiro, ela é entendida como um sistema metaestável em que indivíduos interagem entre si; segundo, aparenta um intercâmbio de informação entre indivíduos. É certo que a transindividualidade concretiza a coletividade — um paralelo com a comunidade nacional de Fanon (2012) —, mas depende dos objetos técnicos — a exemplo das mídias argelinas. Essa concretização é transdutiva: cada indivíduo carrega em si o princípio conservado no coletivo, possibilitando assim sua modulação. Esse princípio integra, opera e se prolonga na máquina.

É importante compreender esse sentido transoperatório da transindividualidade. Vilalta (2021, p. 296) diz não se tratar de outra fase do ser, mas de outra significação, na qual os indivíduos se relacionam mediante os excessos da individuação, da pré-individualidade. O transindividual é, portanto, uma nova síntese relacional. Segundo Simondon (2020b), os objetos técnicos fornecem o suporte da relação transindividual, de modo que a máquina pode ser percebida como invenção e portadora de informações. Retornaremos ao conceito de invenção de Simondon (2020b) na conclusão deste trabalho. Em torno desse conceito, acreditamos haver um dado de reversibilidade da alienação (racial) da tecnicidade. Nossa especulação se detém nesse caminho.

A perspectiva política de Gilbert Simondon inclui também uma política dos objetos técnicos que os posicionam em simetria aos humanos. Para o autor, as máquinas têm sido usadas como escravas para criar outros escravos. Pelo estado metaestável de alienação, a máquina possui uma função central no processo de individuação, no social, na relação com outras espécies e com a natureza. Em especial, Simondon (2020b) se opõe à visão instrumentalista dos objetos técnicos. Seu argumento humanista se concentra na relação transversal (ou transindividual) entre humanos, máquinas e naturezas. Para o filósofo, esses termos precisam ser tratados em unidade na essência da tecnicidade.

Entre Fanon (2012, 2020b) e Simondon (2020b) há diferenças e semelhanças: a sociogenia fanoniana se mostra dependente em grande parte da separação entre indivíduos e objetos técnicos, enquanto Simondon aborda uma unidade anterior a essa separação na tecnicidade, que estabelece as bases da ontogênese. Na desalienação da relação tecno-humana, recupera-se a tecnicidade (fundo) descolada pelo processo de concretização dos objetos (figuras).

Em outro sentido, Simondon (2020b) e Fanon (2012) se aproximam quando avaliam que a cultura precisa exercer seu papel diante da técnica, sua função de significação, invenção e regulação. Nesse caso, a ontogênese é oposta e complementar: introduz uma alternativa antropotecnológica, embora individue um conhecimento (conceito) antagônico à sociogenia.

Estendendo ainda mais essa comunicação entre autores, retomamos a figura do escravo. Nas notas complementares de sua tese principal, Simondon (2020a, p. 527) descreveu o escravo como o primeiro modelo do motor:

[...] O escravo é o primeiro modelo de qualquer motor; ele é um ser que abriga em si mesmo sua completa organização, sua autonomia orgânica, mesmo quando sua ação é submetida a uma dominação acidental; o animal domesticado também é um organismo. Mesmo através da degradação do estado de domesticação ou de escravidão, o motor orgânico e vivo conserva de sua espontaneidade natural uma inalienável individualidade.

O interessante nesse recorte é que Simondon considera o escravo um ser técnico. Nesse caso, podemos questionar: como compreender a concretização dos indivíduos técnicos quando opera em conjunto com seres humanos escravizados, nesse caso, percebidos como instrumentos? Podemos especular que o esquema histórico-racial da escravidão, que medeia a individuação do colonizado/negro em Frantz Fanon (2020b), ressoa (internamente) na formulação do motor de Simondon. Diante disso, poderia se investigar a possibilidade de o esquema epidérmico de racialização repetir a axiomática do motor, de tal modo que o indivíduo escravizado e o sujeito negro seguem cativos do objeto técnico (do conjunto, ou da assemblage26) do qual se requer a extração energética do ambiente (Yusoff, 2018).

A terceira parte de MEOT é dedicada a uma especulação filosófica. Nessa sistematização, a tecnicidade é resultado do desdobramento de uma unidade originária, do mundo mágico. Enquanto fase, a tecnicidade se opõe à religiosidade, concentrando em si as figuras do mundo mágico defasado, enquanto a religiosidade retém seus fundos. Como antecipamos, os objetos técnicos, segundo Simondon (2020b, p. 245), são produzidos a partir da objetivação da tecnicidade, repetindo assim os pontos-chave de acesso do mundo mágico primitivo. Essa sistematização ampara a crítica da modernidade tecnológica de Simondon (2020b), mas não desvela a relação entre tecnicidade e racialidade. Num esforço transdutivo, devemos considerar a racialização na sociogênese e, com efeito, suas consequências na ontogênese, em especial na tecnicidade. Os efeitos da produção do humano na alienação racial, supomos, devem posicionar a racialidade (a axiomática, o conhecimento, que operacionaliza o indivíduo e a realidade racial) de maneira análoga à tecnicidade.

No sentido inverso, metodologicamente orientados pela sociogênese de Fanon (2020b), os estudos críticos em CTS não consideram que os esquemas da racialidade se estendem também às máquinas, mesmo que prolongadas por elas. O exemplo oferecido por Ramon Amaro (2022) da machine learning demonstra que a alienação racial em larga medida depende também de uma alienação da tecnicidade, sustentando um esquema hilemórfico na máquina que a aprisiona. Mantêm-se visões de automação e de regimes fechados no algoritmo, nas inteligências artificiais, na robótica, ou no horizonte da relação tecno-humana. Por conta disso, acreditamos que um campo de relações precisa ser restabelecido, a partir da tecnicidade, entre os indivíduos técnicos e os outros racializados, considerando a alienação como nexo.

Ao fim dessa analogia, podemos pensar uma hipótese principal sobre a alienação: as máquinas e objetos técnicos prolongam um axioma (uma estrutura de operações) de racialização (o esquema histórico-racial) na constituição do mundo colonial/antinegro27. A ontogênese pode ser posicionada em complementaridade à sociogenia, enquanto se investiga o nexo entre as operações técnicas e raciais (tecnicidade e racialidade), o que também interpõe uma relação entre o humano e a natureza (Ferdinand, 2022; Yusoff, 2018). Essa relação é inscrita na imagem do corpo racializado (interpelado e fragmentado pelas big data e sistemas de vigilância) e mediada pela tecnologia. O efeito disso é o que chamamos de ontogênese do escravo-máquina, um conhecimento (conceitual) ainda a ser individuado.

A insistência de Fanon (2020a) sobre um novo humanismo leva, neste trabalho, à politização da filosofia de Simondon (2020b). A desalienação do humano passa pelas máquinas porque se entende que a racialização é também definida pelo modo em que humano e natureza estão se relacionando a partir das operações técnicas. Seguindo essa racialidade transoperatória, é possível buscar uma resposta na mesma dimensão transindividual, objetivando o desaparecimento da figura do escravo e dos esquemas de escravização que, por ora, atingem indivíduos, máquinas e natureza. Simondon (2020a, p. 544) sintetiza essa interpretação humanista:

Não é contra a máquina que o homem, sob a dominação de uma percepção humanista, deve se revoltar; o homem só é submetido à máquina quando a própria máquina já está submetida pela comunidade. E como existe uma coesão interna do mundo dos objetos técnicos, o humanismo deve visar liberar esse mundo dos objetos técnicos que são chamados para devirem mediadores da relação do homem ao mundo. Até hoje, o humano não pôde incorporar muito a relação da humanidade ao mundo; essa vontade que o define, de reduzir ao ser humano tudo o que as diversas vias de alienação lhe arrancaram, descentrando-o, permanecerá impotente enquanto não compreender que a relação do homem ao mundo e do indivíduo à comunidade passa pela máquina.

Nesse caso, a resposta à racialização e à subjugação da máquina deve ser buscada no nexo analógico entre ambas as alienações que se complementam.

Conclusão

Retomando a questão anterior à analogia entre Frantz Fanon e Gilbert Simondon acerca dos estudos sobre raça e racismo em CTS, podemos afirmar que a sociogênese proposta por Fanon (2020b) contribuiu com avanços sobre a não neutralidade da máquina e com seus potenciais políticos para o antirracismo. No entanto, a abordagem fanoniana levou a uma ramificação de teses sociológicas e antropológicas que se subdividem em valores otimistas e pessimistas sobre o papel das tecnologias digitais na racialização. Pensamos que a situação paradoxal atual dessas duas linhas decorre da perda de uma unidade entre humano e técnica, ou da simetria relacional trabalhada por Simondon (2020b) em sua investigação da tecnicidade. A integração da problemática da individuação dos objetos técnicos no amplo quadro que chamamos de racialização introduz, também, uma carga de natureza pré-individual, sobre a qual pesam os conceitos de invenção e de transindividual. Em torno desses conceitos concluímos este trabalho, com a intenção de deixar em aberto um caminho de análise, pesquisa e reflexão. Nosso argumento versa sobre a possibilidade da reversibilidade de um mundo no qual a racialidade e a tecnicidade estão entrecruzadas de tal maneira que os objetos técnicos operam expandindo esquemas de escravização.

Para Ramon Amaro (2022, p. 219), que cita extensamente Simondon, os estudos em CTS correm o sério risco de reintroduzir o indivíduo em uma realidade racializada quando se limitam a trabalhar por uma epistemologia que somente compreende e explica os componentes sociogênicos:

Embora os estudos predominantes sobre raça e tecnologias estejam conscientes das construções sociais da raça, tecnologia e corpo, eles correm o risco de “colocar o indivíduo no sistema da realidade”, como Gilbert Simondon descreve, enquanto “explicam as características do indivíduo, sem uma necessária relação com outros aspectos do Ser que podem ser correlativos do aparecimento de uma realidade individuada”.

Seguindo Amaro e Simondon e a premissa cibernética, acreditamos ser preciso mudar o nível analítico e captar a individuação entre pensamento (conceito) e realidade, na prática de uma ética transindividual (Combes, 2022; Vilalta, 2021). A transindividualidade, como já se disse, é sustentada pelos objetos técnicos. Simondon (2020b, p. 360) afirmou que se trata de uma relação entre indivíduos a partir de uma carga de realidade pré-individual, “[...] da carga de natureza conservada com o ser individual e que contém potencialidades e virtualidades”. Para Simondon (2020b, p. 360-361), a invenção acontece a partir desse excesso, envolvendo mais do que uma ação individual: “[...] não é o indivíduo que inventa, é o sujeito, mais vasto que o indivíduo, mais rico que ele e que comporta, para além da individualidade do ser individuado, certa carga de natureza, de ser não individuado”. Desse modo, a invenção técnica acontece através da relação transindividual. Ainda, segundo Simondon (2020b, p. 360), nenhuma antropologia que parte do humano como ser individual consegue dar conta do transindividual. Quando os estudos em CTS sobre raça e racismo partem do indivíduo, mesmo que diferido entre humanos e não humanos, e da máquina, ambos individuados, esquecem-se de esquemas de escravização (da racialidade) que operam antes da concretização do indivíduo técnico (na tecnicidade).

Como demonstramos, o indivíduo racializado e a máquina são análogos, uma vez que ambos são percebidos como escravos/motores. O trabalho de invenção intenta a reversibilidade desses esquemas. Ramon Amaro (2022) propõe a formulação de um Objeto Técnico Negro (The Black Technical Object), um projeto metodológico que atua na dimensão pré-individual e não prefigura nenhuma espécie de “protótipo branco”: “Dentro desse domínio, a existência negra não é pressuposta pela opressão ou pelo olhar da branquitude. Ela própria é uma relação, a ser manifesta no domínio depois que ela se autoefetivou” (Amaro, 2022, p. 221-222)28. O Objeto Técnico Negro é uma unidade anterior que visa a reversão dos processos de racialização em que indivíduos e máquinas estão comprometidos. Para Maria Fernanda Novo (2022), trata-se de tomar a sociedade como uma operação, expandindo a noção de indivíduo. Nesse sentido, a realidade social é uma fase oposta à fase da individuação. Outra individuação é possível, como enfatizam Bernardo Oliveira e Frederico Coelho (2024) quando exploram a cultura técnica africano-americana no Brasil.

Esses trabalhos, no rastro de um novo interesse na obra de Simondon, possuem semelhanças e divergências com a proposição da cosmotécnica de Yuk Hui (2016, 2020), popular no debate das humanidades sobre tecnologia. Para este autor, a inflexão na antropologia contemporânea, que busca a dispersão do conceito fixado de natureza — o multinaturalismo —, só faz sentido caso isso também seja viável para a técnica. Desejamos deixar em aberto esse caminho.

Ao atentar para a individuação na ontogênese, atentamos para um conjunto que antecede as relações de alienação da racialidade e da tecnicidade. Esse fundo em que ambas as alienações se tornam análogas é, provavelmente, o da alienação primeira para com a Terra na política do porão do navio negreiro, como diz Malcom Ferdinand (2022), ainda periférica nos debates sobre mudanças climáticas no antropoceno, segundo a crítica de Kathryn Yusoff (2018). Essa alienação descrita por Ferdinand é, ao mesmo tempo, técnica e racial. Ela, no entanto, não pode ser compreendida pela crítica da modernidade de Simondon. Por isso a necessidade de pensar outras histórias (no afrofuturismo, por exemplo) e outros começos (da cosmotécnica) para a tecnicidade.

A invenção, técnica e conceitual, que reverte a racialidade só é possível se puder se sobrepor aos esquemas de escravização de fundo, com efeitos na essência da tecnicidade. Por fim, esse é um caminho aberto pelas abordagens sociológicas e antropológicas revisadas anteriormente e vai além, pedindo que o pensamento radical negro, diaspórico e antirracista se disperse em esquemas operativos até sua concretização (transdução) em indivíduos técnicos.

Reafirmamos a necessidade de uma compreensão simétrica no antirracismo da relação entre os humanos e os objetos técnicos. Essa abordagem visa, acima de tudo, a recuperação de uma totalidade perdida do nexo entre as alienações da racialidade e da tecnicidade. Intervir nesse nexo, acreditamos, é trabalhar pela individuação de um novo conceito de humanismo.

  • 2
    Esse recorte desconsidera outras abordagens, em especial aquelas incluídas nas Humanidades Digitais. Criativamente, vários pesquisadores e pesquisadoras estão utilizando a programação para desenvolver ferramentas de pesquisa e ensino das relações étnico-raciais. Citamos, por exemplo, a coletânea que se inspira no conceito de Atlântico negro, The Digital Black Atlantic, organizada por Roopika Risam e Josephs Kelly Barker (2021).
  • 3
    A Rede Negra em Tecnologia e Sociedade (Kremer et al., 2021) realizou um levantamento sobre a prioridade de pesquisa de especialistas negros/as em CTS que elenca uma variedade de temas, principalmente o epistemicídio e a falta de diversidade em setores de gestão em tecnologia. Demonstraremos que esses temas podem ser incluídos nas duas hipóteses discutidas neste texto.
  • 4
    Uma apresentação didática dessa posição é o conceito de “criatividade vernácula tecnológica negra” (Black technological vernacular creativity) de Rayvon Fouché (Black [...], 2008).
  • 5
    Tradução livre de “Black folk have made the internet a ‘Black space’ whose contours have become visible through sociality and distributed digital practice while also decentering whiteness as the default internet identity”.
  • 6
    Tradução livre de “What this visual representation of the slave ship points to is the primacy given in these abolitionist texts to white gazes and vantage points to the trauma of slavery, where the tiny black figures are made to seem androgynous, interchangeable, and replicable. This is the ‘god-trick of seeing everything from nowhere,’ and, as [Donna] Haraway warns, ‘this eye fucks the world.”
  • 7
    Tradução livre de “This is not simply a story of ‘then’ versus ‘now.’ It is about how historical processes make the present possible; it is about the continuity between Jim Crow and the New Jim Code.”
  • 8
    No sentido dado por Yuk Hui (2019), recursão (ou recursividade) é uma operação cibernética em looping que atualiza e modula constantemente uma estrutura.
  • 9
    Essa duplicidade — ou, como preferimos, a transdutividade entre duas operações em regiões distintas, técnica e social — é apontada por Luciana Parisi e Denise Ferreira da Silva (2021) como preservação na realidade técnica das consequências do colonialismo global. Parisi antecipou nossa hipótese ao questionar a pertinência do retorno à pergunta pelo ser na investigação filosófica sobre a técnica. Essa questão, como veremos, é semelhante ao problema apresentado por Fanon.
  • 10
    Simondon (2020a) incluiu a ação analógica no programa geral da Alagmática, epistemologia que trabalhou em A individuação à luz das noções de forma e informação, que visou transformar em uma cibernética universal (Vilalta, 2021).
  • 11
    Seguindo a definição de Simondon (2020a, p. 30), “[...]a transdução corresponde a essa existência de nexos que nascem quando o ser pré-individual se individua; ela exprime a individuação e permite pensá-la; é, portanto, uma noção a uma só vez metafísica e lógica; aplica-se à ontogênese e é a própria ontogênese”.
  • 12
    Para uma leitura ampla da obra de Frantz Fanon, que integra elementos biográficos do autor martinicano, remetemos a Deivison Faustino (2022). Por sua vez, Vincent Bontems (2017) articula a biografia com as teses de Gilbert Simondon para compreender sua predileção pelo estudo dos objetos técnicos. Algo mais completo pode ser conferido no portal virtual dedicado à sua memória (Simondon, [2024]).
  • 13
    Pode-se, por exemplo, comparar os trabalhos em psicossociologia dos autores — a psicossociologia da tecnicidade (Simondon, 2017) e as experiências clínicas na Argélia (Fanon, 2020a).
  • 14
    Não se deve compreender, por isso, uma abordagem totalizante, ou generalizante, em Fanon (2020a, 2020b). A sociogênese é operativa e transdutiva. O corpo racializado descreve a operação de fragmentação do indivíduo, negando uma (pre)existência ontológica para o negro/colonizado. Resumidamente, é essa operação que instala a segregação colonial no regime de individuação, uma vez que o colonizado/negro não consegue encontrar em si um centro de referência no mundo colonial. O regime de dominação econômica torna-se uma questão prioritariamente existencial — ou um complexo de inferioridade.
  • 15
    Alienação é o conceito central nos escritos da juventude de Fanon. O clássico Pele negra, máscaras brancas (Fanon, 2020b) foi originalmente apresentado como uma monografia de conclusão do curso de psiquiatria intitulada Ensaio sobre a desalienação do negro. Ver mais informações e discussões sobre alienação em Faustino (2022) e Mattin (2022).
  • 16
    Para Simondon (2020b, p. 181), há uma diferença importante entre ferramenta e instrumento. A ferramenta prepara o corpo para o gesto técnico. O instrumento prolonga e adapta o corpo para obter uma percepção. Há ferramentas que são igualmente instrumentos.
  • 17
    Em estudo canônico, Orlando Patterson (2008, p. 69) descreve a produção do escravo como uma espécie de “morte social”. Num sentido perceptivo, em sociedades escravocratas, a morte social garante a concepção e coerência de uma vida social.
  • 18
    A epidermização é um eufemismo utilizado por Fanon (2020b, p. 25) para a interiorização de um “complexo de inferioridade”. A epidermização é processada na cultura através da linguagem.
  • 19
    Tradução livre de “Put another way, research in computation is an adaptation of the fictive and compulsive ordering of human attributes into a single coherent image of species”.
  • 20
    Tradução livre de “In these instances, the process of computer vision begins at the presupposition by the human perceiver that the machine has already attained a state of objectification independent of the variability of human experience and knowledge”.
  • 21
    Nessa abordagem, a alienação é compreendida de modo diferente do falseamento, distanciamento ou opressão. Em seu estudo sobre a utilização desse conceito, Mattin (2022) afirma que a alienação não é nada de que devamos escapar; na verdade, ela corresponde a uma parte constitutiva da realidade subjetiva e intersubjetiva. A alienação, segundo Mattin (2022), integra dimensões superiores e inferiores ao indivíduo. No nível da sociogenia, a alienação é compreendida como a produção do sujeito coletivo.
  • 22
    Esse diagrama foi feito em conjunto com Denise Luna, no seminário From alienation from above to alienation from below, no The New Centre for Research and Practice, em outubro de 2021. Para consulta do arquivo desse seminário, ver: https://thenewcentre.org/archive/from-alienation-from-above-to-alienation-from-below/.
  • 23
    A metaestabilidade compreende um equilíbrio entre forma e matéria que carrega consigo potenciais de estados anteriores. Simondon (2020a) utiliza a noção de metaestabilidade para substituir a noção de forma pela de informação. A informação é aquilo que dispara a transdução de um equilíbrio metaestável a outro.
  • 24
    Segundo Lucas Vilalta (2021, p. 71-72), é possível haver uma metafísica na filosofia simondoniana na suposição de uma realidade anterior à individuação.
  • 25
    Figura e fundo são dois conceitos da teoria da percepção da Gestalt (Barthélémy, 2012).
  • 26
    Dixon-Román (2016, p. 484) recorre a Alexander Weheliye e Deleuze e Guattari para definir assemblages como um sistema de organização, arranjo, relações e conexões de atualidades, objetos ou organismos que aparentam operar na totalidade. Trata-se de uma constelação de múltiplas forças que operam na produção de um evento, de um compósito ou mesmo do corpo. Em nosso entendimento, assemelha-se à definição de Gestell na ontologia heideggeriana.
  • 27
    As teses de um mundo/clima antinegro são escritas pelo afropessimismo e pela crítica do pensamento das mulheres negras. Convidamos à leitura das teses da antinegridade de Christina Sharpe (2023) e do manifesto afropessimista de Frank Wilderson III (2020).
  • 28
    Tradução livre de “Within this domain, Black existence is not presupposed by oppression or the gaze of whiteness. It is a relation itself, to be manifested in the domain after it has self-actualized”.

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    14 Mar 2024
  • Aceito
    10 Maio 2024
  • Publicado
    20 Jan 2025
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