Resumo
O artigo analisa o racismo implícito nas capas de jornais esportivos espanhóis a partir do caso de racismo sofrido pelo jogador Vinicius Júnior em partida da La Liga, em maio de 2023. Fundamentado na Teoria das Representações Sociais, o estudo investiga como a mídia esportiva contribui para a naturalização e minimização do racismo no futebol espanhol. A pesquisa adota metodologia qualitativa, com revisão bibliográfica e análise imagética de capas dos jornais SuperDeporte, Marca e AS, considerando elementos discursivos, tipográficos e cromáticos. Os resultados indicam que, mesmo diante de manifestações explícitas de racismo, parte da imprensa esportiva desloca o foco do crime, relativiza os insultos ou responsabiliza a vítima, reforçando representações sociais que sustentam a ideia de harmonia racial no futebol. Conclui-se que tais práticas midiáticas contribuem para a manutenção de um racismo velado e estrutural no contexto esportivo espanhol.
Palavras-chave
Racismo; Futebol; Capas de jornais; Representações sociais
Abstract
This article analyzes the implicit racism in the front pages of Spanish sports newspapers, based on the case of racism suffered by player Vinicius Júnior in a La Liga match in May 2023. Grounded in the Theory of Social Representations, the study investigates how the sports media contribute to the naturalization and minimization of racism in Spanish football. The research adopts a qualitative methodology, with literature review and visual analysis of the front pages of the newspapers SuperDeporte, Marca, and AS, considering discursive, typographic, and color elements. The results indicate that, even in the face of explicit manifestations of racism, part of the sports press shifts the focus away from the crime, downplays the insults, or blames the victim, reinforcing social representations that support the idea of racial harmony in football. It concludes that such media practices contribute to the maintenance of veiled and structural racism in the Spanish sporting context.
Keywords
Racism; Football; Newspaper front pages; Social representations
Resumen
Este artículo analiza el racismo implícito en las portadas de los periódicos deportivos españoles, a partir del caso de racismo sufrido por el jugador Vinicius Júnior en un partido de La Liga en mayo de 2023. Basado en la Teoría de las Representaciones Sociales, el estudio investiga cómo los medios deportivos contribuyen a la naturalización y minimización del racismo en el fútbol español. La investigación adopta una metodología cualitativa, con revisión bibliográfica y análisis visual de las portadas de los periódicos SuperDeporte, Marca y AS, considerando elementos discursivos, tipográficos y cromáticos. Los resultados indican que, incluso ante manifestaciones explícitas de racismo, parte de la prensa deportiva desvía el foco del delito, relativiza los insultos o culpabiliza a la víctima, reforzando las representaciones sociales que apoyan la idea de armonía racial en el fútbol. Se concluye que estas prácticas mediáticas contribuyen al mantenimiento de un racismo velado y estructural en el contexto deportivo español.
Palabras clave
Racismo; Fútbol; Portadas de periódicos; Representaciones sociales
1 INTRODUÇÃO
Em maio de 2023, na Espanha, numa partida válida pela La Liga, liga oficial e principal torneio de futebol da Espanha, houve manifestações explícitas de racismo contra o jogador Vinicius Júnior.
O problema de pesquisa se baseia em perceber o racismo velado nas capas delimitadas que noticiaram esse crime, através da teoria das representações sociais e do conceito do mito da democracia racial; é um racismo velado, um racismo invisibilizado que dificulta a sua percepção (Nunes; Lehfeld; Montes Netto (2021). No contexto espanhol, mesmo contendo suas especificidades, o conceito se mostra analiticamente produtivo para compreender formas contemporâneas de discriminação.
O objetivo geral do presente artigo é refletir sobre racismo e futebol, por meio da análise das capas dos jornais espanhóis diante do caso de racismo mencionado.
Os objetivos específicos ficam por conta de: conceituar a Teoria das Representações Sociais; perceber as semelhanças entre o mito da democracia racial e o contexto de racismo no futebol espanhol; e ponderar sobre o racismo na mídia.
A análise das capas parte da premissa de Silva (2021), pela qual a mídia pode ser responsável por cristalizar discursos populares, naturalizar falácias e, neste caso, a falácia da harmonia das raças no futebol espanhol.
Adota-se metodologia qualitativa, por meio da exploração bibliográfica de produções científicas acerca do tema proposto e da obra de Moscovici (2007) sobre a Teoria das Representações Sociais – TRS. Serão utilizadas as contribuições de Fernandes, Benigni (2023) e Charaudeau (2010), para a análise das capas.
Mesmo com a criação da FARE (Football Against Racism Europe), em 1999, reunindo 13 países e campanhas de luta contra o racismo, os casos explícitos continuam (Duran; Jimenez. 2006). A justificativa decorre do número de casos de racismo ocorrendo no mundo do futebol nos últimos anos; só contra o jogador Vinicius Júnior, foram denunciados nove (9) casos desde sua ida à Espanha. Além dele, jogadores como Roberto Carlos em 2011 na Rússia, Tinga do Cruzeiro no Peru, Daniel Alves do Barcelona, Aranha dos Santos no Brasil, ambos em 2014, Hulk em 2015 pelo Zenit, Taison e Dentinho em 2019 na Ucrânia, entre outros casos que não ganharam tanta exposição na mídia.
Ao realizar uma pesquisa no portal de Periódicos da CAPES com os determinantes “racismo AND futebol AND Europa”, há apenas um resultado contendo esses determinantes. O artigo encontrado trata-se da realidade brasileira e não da realidade europeia. Mudando os determinantes para “racismo no futebol europeu” são localizadas três (3) pesquisas sobre o tema.
Utilizando determinantes ingleses “europe AND racism AND soccer” e com o recorte temporal de 2023-2024, foram localizadas cinco (5) pesquisas. Isso demonstra a lacuna acadêmica sobre este tema, no portal de periódicos da CAPES. Essa pesquisa foi realizada no dia 14 fev. 2025.
Para Duran e Jimenez (2006) essa carência de estudos pode se dever ao consenso de que o futebol, bem como outras atividades esportivas, são espaços de inclusão social, inclusive promovendo lutas contra discriminações de qualquer natureza. O futebol não seria um espaço passível de manifestações de racismo ou xenofobia.
Sobre a organização e estrutura textual, é apresentada a metodologia empregada, seguida da teoria das representações sociais e a relação desse conceito com a mídia e racismo. Posteriormente, a análise e discussão a partir das capas delimitadas, conforme critérios apresentados na metodologia. A análise das capas é realizada a partir dos elementos das teorias de Charaudeau (2010), Farina, Perez e Bastos (2006). A partir da análise, é possível discutir o racismo velado com base nos pressupostos apresentados.
2 METODOLOGIA
Adotou-se metodologia qualitativa, ao se utilizar da revisão de literatura para discorrer sobre o assunto. Minayo (2001) destaca, para o uso do método qualitativo e da pesquisa exploratória bibliográfica para pesquisas com determinado grau de complexidade, que não poderiam ser explicadas apenas com o uso do método quantitativo.
Para Godoy (1995), um fenômeno pode ser mais bem compreendido a partir do momento em que é analisado integralmente, o pesquisador vai a campo por meio da revisão da literatura para captar os variados aspectos e teorias sobre ele, para melhor compreendê-lo.
Percebendo a complexidade do fenômeno do racismo e as causas da sua manutenção, o emprego de uma metodologia qualitativa teve como fundamento a busca por referenciais teóricos sobre o tema que auxiliem na construção e problematização dos fatores que envolvem esse fenômeno.
A perspectiva da TRS e a obra de Serge Moscovici (2007) desponta como uma alternativa na análise do fenômeno do racismo no sentido de buscar novas causas para sua manutenção.
A delimitação temporal de 20231 se deve ao fato de ser o ano do ocorrido e, portanto, ser o ano que houve maior repercussão. Mesmo havendo reportagens nos anos posteriores, são notícias que tratam sobre o andamento das condenações dos agressores na justiça espanhola.
Sobre as categorias de análise e os autores utilizados como aporte teórico para a análise das capas, é importante enfatizar que o conteúdo a ser analisado será apenas as capas por serem a primeira página dos tabloides, as notícias em destaque têm impacto imediato sobre os seus leitores, reforçando representações sociais.
A análise imagética das capas foi realizada a partir das considerações de Charaudeau (2010). O autor desenvolve sua pesquisa com base na expressão patêmica das imagens, as capas de jornais e os elementos presentes nelas como textos, cores e fotos podem despertar emoções nos leitores.
A teoria dos autores Farina, Perez e Bastos (2006) utilizada para a análise das cores empregadas nas capas que contribuem para o despertar de emoções. As imagens também irão atuar como atenuante no despertar de emoções e na formação de representações sociais. É um conjunto de fatores que as capas de jornais podem utilizar para chamar a atenção do leitor a partir do estímulo de emoções atuantes sobre ele.
A organização das amostras ocorreu em vista do objetivo da pesquisa, conforme Ribeiro e Pimenta (2022) definem-se as capas para perceber as representações sociais e o racismo nelas. Os elementos necessários para a escolha das capas foram: a presença do assunto na capa, as fotografias ou texto. Delimitam-se amostras que contenham elementos tipográficos passíveis de análise dispostos pelos autores adotados como aporte teórico. Foi excluída a capa do jornal Super Deporte do dia 23 de maio de 2023, por não fazer menção direta sobre este caso de racismo.
A busca pelas capas ocorreu por meio do navegador de internet Google com os seguintes determinantes “capas Espanha racismo Vinicius Júnior Valencia”. Utilizou-se o filtro “imagens”, que permite a leitura flutuante das capas e a definição das capas conforme recortes apresentados.
Como critério para definição das capas, a escolha pelo Jornal SuperDeporte se deve em razão de ser um jornal de Valência, cidade onde ocorreu o crime, e pelo jornal adotar posturas diferentes em relação a casos de racismo.
As capas apresentam a tipografia passível de análise como cores, layout e fonte. O recorte será apenas dos jornais da Espanha, por ser o epicentro do acontecimento. Os jornais regionais têm a característica de enfatizar acontecimentos da região e, por isso, influenciam na formação de opinião dos seus leitores regionais.
Foram selecionadas cinco (5) capas de jornais. Três (3) capas do jornal SuperDeporte da Espanha, por apresentarem o acontecimento em questão de uma forma destacada. A primeira capa sendo do dia 22 maio 2023, a segunda capa sendo dia 05 abr. 2021. A terceira é de 06 out. 2023.
Capas do jornal As e uma do jornal Marca da Espanha foram selecionadas por se enquadrarem aos requisitos, pois apresentam fonte e cores passíveis de análise, mas também por realizarem o caminho inverso do jornal SuperDeporte. Não foi possível localizar a data ou a edição da capa do jornal As da Espanha e a do jornal Marca é do dia 22 maio de 2023.
O jornal Marca atua desde 1940 em Madrid, uma das principais cidades da Espanha e cidade sede do Real Madrid C.F. O jornal, em 1950, já tinha vendido 425 mil exemplares de seus diários. Ele faz parte do Grupo Unidad Editorial, que é propriedade de uma multinacional com o nome de RCS MediaGroup, sendo jornal com maior número de tiragem da Espanha, alcançando em média o número de 480 mil exemplares. Entre 2006 e 2007, registrou média de 310.793 exemplares vendidos (Morais, 2014). Segundo o autor citado, o diário Marca, era em 2014 a publicação esportiva mais vendida da Espanha.
O jornal As, fundado em 1967, mesmo com foco essencialmente no Real Madrid, já alcançava em 1980 a venda de 400 mil exemplares, sendo o primeiro jornal a ter todas as suas páginas coloridas e o segundo mais vendido da Espanha (Morais, 2014). O jornal é propriedade do Grupo Prisa, com periodicidade anual que aborda assuntos como transferências de jogadores, calendários, estatísticas, etc. Teve entre 2006 e 2007 impressão média de 333 mil exemplares.
No caso do SuperDeporte, não foi possível localizar trabalhos acadêmicos sobre o jornal. O que se sabe é que é um jornal esportivo da Espanha fundado em 2003, na cidade de Valência, na Espanha.
O Real Madrid C.F, clube mais rico do mundo2, possui 172 milhões de seguidores em suas redes sociais. É o clube com maior número de conquistas da UEFA Champions League3, considerado o maior campeonato de futebol do mundo, com exceção da Copa do Mundo de seleções. A Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol - IFFHS elegeu o Real Madrid C.F como o melhor clube do mundo em 2024.
Diante da caracterização dos jornais citados, é possível inferir o tamanho do público alcançado pelos jornais e um número maior ainda levando em consideração a globalização digital. A repercussão torna-se maior ao se levar em consideração o tamanho do clube Real Madrid.
Vinicius Júnior, jogador do Real Madrid, chegou ao clube em 2018, carregando o peso de ser a maior venda da história do Clube de Regatas Flamengo, foi vendido ao Real Madrid por 45 milhões de Euros, cerca de R$164 milhões de reais na cotação da época. Atleta nascido no ano de 2000, tendo apenas 24 anos e natural de São Gonçalo no Rio de Janeiro.
O atleta sofreu outros nove (9) casos de racismo desde sua transferência ao clube. Diante de tantos casos, a postura do atleta nesse caso específico, foi muito irredutível, observado o contexto de racismo sofrido desde que chegou ao país espanhol. Em razão dessa postura, o caso tomou repercussão muito maior na mídia reacendendo outros casos de racismo e, por isso, as capas referentes a esse caso foram analisadas.
3 RACISMO NA ESPANHA E AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
Diante do objeto e objetivos desta pesquisa é pertinente apresentar a realidade do racismo na Espanha. Torna-se mais claro apontar as características do racismo na Espanha e sua forma de atuação a partir de pesquisas locais como Araujo e Rodríguez Maeso (2013), Olmos-Alcaraz (2020), Suso Araico e colaboradores (2025), que têm apontado para uma invisibilização do racismo.
Segundo Araujo e Rodríguez Maeso (2013), o racismo na Espanha é um fenômeno invisibilizado, que decorre da negligência histórica enraizada na Europa, ao não conceber o racismo como um fenômeno político-histórico contribui para a naturalização dele. São ignoradas as raízes históricas do problema como uma forma de fuga em busca de negar a existência dele, ao discutir sobre racismo em uma forma histórica e naturalizada socialmente, é admitir a existência do problema.
Assim como no caso de racismo apontado no problema de pesquisa, os casos denunciados nas escolas, em setores sociais ou no quadro de empregabilidade, são recebidos com desconfiança, trazendo o foco para os “problemas” nas minorias ou para outros fatos e fatores que complementam o contexto do racismo.
Para mais, Araujo e Rodríguez Maeso (2013), indicam para a forma como o racismo ainda é concebido na Espanha e na Europa em geral, ao invés de discutir sobre ele como um problema social com raízes históricas, discute-se sobre racismo como um comportamento individual.
Olmos-Alcaraz (2020) também aponta para a necessidade de refletir sobre um racismo cultural presente na Espanha. Sete anos após publicação de Araujo e Rodríguez Maeso (2013), o problema do racismo ainda tem como face a sua invisibilização. Olmos-Alcaraz (2020) aponta a negação e a ocultação como as principais características do racismo hoje na Espanha, sendo operado por meio de marcadores sociais.
Olmos-Alcaraz (2020) destaca para as razões históricas como causas do problema do racismo: o conceito de raça é uma construção social histórica. Foram criados marcadores sociais para distinguir os indivíduos racializados; através desse processo é possível criar o “outro”, ao criar a representação do outro é possível criar relações hierárquicas e se utilizar disso para explorar e colonizar outros povos, é um processo de desumanização.
Ao apontar para uma construção social ideológica, é lícito refletir como tais construções sociais necessitam de representações sociais para serem naturalizadas, contribuindo assim para a manutenção desse fenômeno.
Estes marcadores sociais desenvolvidos historicamente como construções sociais, são marcadores que ainda são perceptíveis até hoje nas relações de racismo encontradas na Espanha, nesse caso, o “outro” é o atleta em questão que carrega o marcador social da cor de pele.
Segundo Olmos-Alcaraz (2020), os discursos, as práticas, as discriminações do racismo são características visíveis de um problema oculto. O agressor se sente livre para praticar o racismo porque está inserido em uma sociedade com um problema de racismo muito mais estrutural.
As práticas racistas perceptíveis no cotidiano social são produtos de uma representação social acerca daquela minoria. Por outro lado, são práticas que alimentam as representações sociais já existentes sobre a minoria. O discurso como prática social constrói sistematicamente o objeto (Olmos-Alcaraz, 2020).
O crime de racismo cometido contra o atleta em questão, está amparado em um sistema de representações sociais acerca do “outro”, estas representações são o que contribuem para a banalização da prática racista, o que por sua vez, permite que a punição pública, institucional ou midiática se torne branda.
Para Olmos-Alcaraz (2020), o fenômeno do racismo na Espanha não é discutido nas escolas por fatores políticos; a autora infere isso ao entrevistar sujeitos que expõem que nas escolas há o costume de se evitar falar sobre “raças”. É o estado interferindo socialmente e contribuindo para a ocultação do problema do racismo; o próprio fato de evitar falar sobre raças é um fator que atesta o problema do racismo.
Observa-se um universalismo europeu que tende a classificar episódios racistas como fatos isolados, preservando a autoimagem de neutralidade democrática. A reação institucional aos ataques sofridos por Vinícius Júnior evidencia não apenas manifestações individuais de ódio, mas a presença de dispositivos estruturais, como, midiáticos, jurídicos e esportivos, que relativizam a violência racial e reatualizam hierarquias simbólicas associadas à colonialidade.
O esporte-espetáculo funciona como espaço privilegiado de reprodução e disputa das classificações raciais, revelando que o racismo, longe de ser desvio pontual, integra a própria lógica de funcionamento das sociedades contemporâneas. Há relações estruturais semelhantes que permitem iluminar o fenômeno comparativamente, ou seja, identificar homologias estruturais, e não equivalências históricas diretas como formas de negação, naturalização ou relativização do racismo em sociedades contemporâneas
Em face desse contexto, as representações sociais enraizadas socialmente são nutridas pela ausência de discussões sobre racismo que não ocorrem em razão de sua invisibilização. É evidente a necessidade de discutir sobre a mídia nesse cenário e como ela pode ser responsável pela invisibilização do racismo, ou realizar o caminho inverso ao denunciar publicamente os casos de racismo, conforme os autores a seguir.
4 REPRESENTAÇÕES SOCIAIS, MÍDIA E RACISMO
O desenvolvimento das Representações Sociais - RS ocorre através de informações repassadas, verbalmente ou não, voluntariamente ou não, de um indivíduo para outro por meio de processos de comunicação. Para Moscovici (2007), as RS são produtos de processos de comunicação direta de indivíduo para indivíduo, ou processos de comunicação indireta realizada por meio de veículos de comunicação. Os meios de comunicação são responsáveis por inserir determinadas RS no pensamento coletivo, tornando-as senso comum, o que torna mais difícil perceber a presença das RS e analisá-las de uma forma crítica.
As capas ao apresentarem uma determinada postura, reafirmam o pensamento social daquela sociedade, um pensamento e comportamento que são aceitos pelos demais indivíduos no estádio. Em razão disso, os agressores sentiram-se livres para insultar racialmente de forma explícita o jogador Vinicius Júnior por estarem em uma sociedade com um determinado pensamento social racista.
Esse processo reforça modelos simbólicos que podem orientar a sociedade e seus indivíduos, sendo possível pensar sobre quais modelos simbólicos os jornais analisados estão transmitindo sobre o caso de racismo em questão.
Moscovici (2007) destaca que as RS têm a função de imposição, uma força que as representações exercem sobre os indivíduos e como tais representações são impostas a eles sem qualquer resistência. As representações que os jornais estão repassando aos leitores acerca do caso de racismo mencionado, serão concebidas pelos leitores, reforçando as RS que eles têm acerca do atleta, da população negra ou do fenômeno do racismo.
As RS expostas pelos jornais analisados podem reforçar RS existentes naquela sociedade e, consequentemente, reforçar as RS racistas dos agressores, além de impor RS novas sobre seus leitores. De qualquer forma, as capas por meio das RS estão fazendo parte do processo de formação de opinião dos indivíduos.
Moscovici (2007) propõe refletir sobre a influência do processo coletivo sobre o pensamento individual e em que momento as representações são capazes de transformar o pensamento de um indivíduo inserido naquele coletivo. O pensamento social racial interfere e influencia no desenvolvimento de RS nos indivíduos, fazendo com que eles desenvolvam uma representação ou um comportamento racista.
As RS contribuem para o enraizamento do consenso social existente sobre a harmonia racial no futebol espanhol. Nesse contexto do futebol espanhol, notam-se RS relacionadas a uma possível harmonia racial abrandando os casos de racismo; esse consenso social de harmonia racial ocorre como causa e consequência do contexto de invisibilização do racismo, apresentado na seção anterior.
4.1 A MÍDIA
As mídias têm um alcance significativo podendo atingir milhões de pessoas por meio dos jornais, televisões, rádios e com a internet, torna-se maior o alcance das mídias sociais. Em minutos, o conteúdo exposto nessas mídias pode atingir e influenciar milhões de pessoas.
Para Silva (2021), a mídia é uma das responsáveis por reafirmar discursos populares. Para Campos, Ramos e Santos (2015), o papel se expande no sentido de “formar a mente”. Torna-se evidente a relação entre mídia e o que é exposto por ela com a teoria das representações sociais.
O crime em questão tornou-se um acontecimento e não um fato isolado devido ao atleta ser um dos principais jogadores do Real Madrid4, ao acontecimento e as capas dos jornais tiveram repercussão mundial.
Para Mendes e Dornelas (2022) os acontecimentos no meio jornalístico têm valores que sustentam os contextos expostos para a população. Diríamos que é necessário refletir sobre os valores relativos ao racismo neste contexto e pensar sobre como o racismo é abordado pelas mídias sociais nos dias atuais e como o racismo é concebido no contexto espanhol.
Os autores pontuam sobre a importância dos meios de comunicação para a difusão de informações comparando-os à Igreja, às Universidades e às Escolas, porque os meios de comunicação assim como as instituições citadas têm a possibilidade de escolher quais notícias e informações eles desejam destacar.
Os meios de comunicação têm a possibilidade de moldar a opinião pública expondo apenas uma fração do ocorrido. Conforme Mendes e Dornelas (2022), os meios de comunicação como atores sociais, têm uma parcela de contribuição significativa para a construção e definição de realidades, tendo uma relevância maior se perceber o alcance de milhões de pessoas que um meio de comunicação pode ter.
Devido ao fenômeno da digitalização e à abundante quantidade de informações e notícias expostas pela mídia por meio da internet, tem-se a possibilidade de produzir RS e opiniões acerca de temas tão delicados como é o caso do fenômeno do racismo (Ribeiro; Pimenta, 2022), para eles, os meios de comunicação assumem função imediata na denúncia moral do racismo.
5 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS: O RACISMO VELADO NAS CAPAS
É pertinente a análise desse caso de racismo na Espanha se levar em consideração que há um cenário no qual o futebol europeu é percebido como espaço democrático (Duran; Jimenez, 2006). Os jogadores contratados têm a possibilidade de alcançar uma elite financeira sem discriminação, contudo, isso pode ser problematizado quando se percebe o cenário de racismo no futebol espanhol, bem como, o racismo velado nas capas dos jornais.
Compara-se esse cenário ao mito da democracia racial e o consenso de harmonia racial existente no futebol espanhol que contribui para a invisibilização do racismo na Espanha. Esse cenário de "democracia" observado na chegada dos jogadores negros para atuar no futebol europeu, são jogadores que chegam para ocupar um espaço que na verdade não é deles, mas, sim um espaço dominado pela população branca.
A possibilidade de discriminação se inicia porque há esse contexto histórico de "permissividade", na qual a população branca permitiu que a população negra ocupasse um lugar (o futebol espanhol, nesse caso) que não era deles.
Jornais da Espanha não deram tanta atenção para os casos de racismo que ocorreram no país, reforçando a invisibilização do racismo e o consenso social de harmonia racial no futebol espanhol. Segundo Ribeiro e Pimenta (2022), as notícias nos jornais deveriam ganhar maior destaque em razão da proximidade da notícia com a região onde ela ocorreu.
Compara-se duas capas específicas do Jornal SuperDeporte da Espanha, que teve posturas diferentes em casos de racismo. Em seguida, a comparação entre duas capas com layouts parecidos, nas quais a notícia relativa ao caso de racismo de Vinicius Júnior foi “escanteada”.
Na figura 1, as cores podem ser um dos fatores responsáveis por despertar emoções no leitor. Elas podem aproximar ou distanciar o leitor dependendo das tonalidades utilizadas. Aqui, observa-se tons de amarelo, representando alerta (Fernandes, Benigni, 2023).
Na capa há a mensagem traduzida “Mestalla é primeira classe”. Mestalla é o nome do Estádio do Valência, time vencedor; há um destaque para a vitória do Valência em cima do próprio caso de racismo. Isso se confirma ao se observar o texto superior direito em branco, num aspecto mais secundário: “a grande vitória do Valência” e caracteriza como “show” por parte do Real Madrid.
O crime foi classificado pelo jornal como “condenável”, mas isolado5. Abaixo da mensagem em destaque, uma frase descrevendo que o brasileiro havia sido expulso por agredir outro jogador, sem mencionar que a possível agressão ocorreu após a confusão gerada pelo caso de racismo.
Com fonte menor destacada foi a fala de Carlo Ancelotti sobre não mentir e que Vinícius não provocasse. Supõe-se que o jornal coloca como secundário o caso de racismo, ou quase que justificando o caso de racismo pelas “provocações” feitas pelo jogador brasileiro.
Segundo a teoria das RS, elas também são responsáveis e influentes no processo de construção de uma opinião acerca de um determinado objeto. As capas, ao adotarem posturas críticas em relação à vítima, estão apresentando aos seus leitores uma RS que contribui para o desenvolvimento de uma posição crítica sobre a vítima, em detrimento da formação de uma opinião de julgamento e desaprovação diante de mais um caso de racismo explícito.
Na figura 2, o jornal traz bem claro, em fonte grande e em cores chamativas “stop al racismo”, algo como: “pare o racismo”. Essa capa foi lançada após o caso de racismo envolvendo o jogador do clube Cádiz. Na ocasião, o jogador Diakhaby sofreu um ataque racista por parte do jogador do Cádiz, Juan Cala.
Aqui o destaque é a palavra “stop” em vermelho, o que pode significar exatamente o sentimento de “pare”. O preto sobre a palavra “racismo”, se destaca em relação ao fundo branco.
É perceptível a postura contraditória do mesmo jornal em relação aos casos de racismo, o que permite problematizar acerca das razões pelas quais o jornal se comportou de forma diferente diante dos casos. Por ser um jornal da cidade onde ocorreu o crime, podia-se colocar como razão a regionalidade do jornal em adotar uma postura defendendo o clube da cidade, contudo, no caso de 2021, o clube envolvido também era o clube da cidade. Outra possível razão seria a rivalidade entre os clubes.
Os jornais da Espanha AS e MARCA, nas capas que serão analisadas a seguir (figuras 3 e 4), possuem layouts bem parecidos, inclusive nas cores, por isso serão analisadas em conjunto.
Ambas as capas foram feitas na horizontal, com uma notícia em destaque no centro e as demais espalhadas pelos cantos. Ambos os jornais destacaram ao centro a conquista do título da Euroliga de Basquete por parte do Real Madrid. Ambos os jornais “escantearam” o novo episódio de racismo.
No caso da capa do MARCA, a notícia foi “escanteada” na parte superior esquerda do jornal. Na notícia há em destaque o texto em tradução literal “intolerável (tudo)”, sendo a palavra intolerável em amarelo; a cor amarela pode despertar o sentimento de alerta no leitor. A palavra tudo, entre parênteses, pode indicar que o jornal toma como negativa, além do episódio de racismo, também a postura do atleta.
Houve o destaque para o título envolvendo o clube Real Madrid, mas não houve esse mesmo destaque para a postura de Vinicius Júnior e do técnico que tiveram posturas veementemente contrárias à falta de atitude por parte das autoridades e por parte da liga em relação ao crime.
Pode-se interpretar que o jornal MARCA adotou uma postura quase que neutra em relação ao ocorrido, condenando o episódio de racismo, mas também criticando a postura do atleta. Talvez com o intuito de atrair tanto a atenção dos leitores que ficaram a favor de Vinicius Júnior quanto daqueles que foram contra a postura adotada pelo jogador.
O jornal AS também traz em destaque a conquista da Euroliga de basquete pelo Real Madrid e coloca a notícia sobre o episódio de racismo na parte inferior do lado direito da capa. Diferentemente do jornal MARCA, o AS não condena explicitamente (ao menos na capa) o episódio de racismo.
O AS traz, em vermelho com um fundo branco, o destaque de que o estádio enlouqueceu o atleta, no sentido de perturbação. O jornal destaca que o brasileiro foi expulso por reivindicar a expulsão de um torcedor por um gesto racista. Essa construção traz o sentido ambíguo, no qual o brasileiro teria sido expulso porque pediu a expulsão de um torcedor e não devido à confusão após o episódio de racismo por ele sofrido.
Ambos os jornais trazem a fala do técnico sobre o episódio, mas partes diferentes da fala. O jornal MARCA, traz a fala do técnico merengue dizendo que a liga espanhola tem um problema com racismo. Já o jornal AS apresenta outra parte da fala onde ele diz que há um problema e não é Vini. O jornal MARCA traz a fala envolvendo a La Liga, talvez com o objetivo de trazer a responsabilidade para a liga, enquanto, o jornal AS traz a fala centrada no jogador, trazendo talvez a responsabilidade do ocorrido sobre o atleta em questão.
O fato de “escantear” o crime de racismo como se fosse algo que não merece atenção, também advoga em favor da representação social que concebe o fenômeno do racismo como algo que não merece tanta atenção e a invisibilização.
O jornal SuperDeporte(figura 5) trouxe Vinicius Júnior em destaque, contudo, não foi um destaque com relação à postura do atleta em face aos insultos racistas. A foto do atleta é acompanhada por um nariz grande e a palavra “pinochius” em destaque, com cor diferente das demais cores presentes no texto e em fonte bem maior. A palavra “pinochius” é uma alusão ao personagem Pinóquio, um desenho infantil que o personagem era conhecido por contar mentiras e sempre que contava, seu nariz crescia. Basicamente, o Jornal chama a vítima de racismo de mentirosa.
Essa capa vai ao encontro da teoria das RS, concebendo-as como reforços de modelos simbólicos naturalizados socialmente. Há a referência simbólica da representação social que concebe o crescimento do nariz ao ato da mentira.
Conforme Moscovici (2007), as RS são responsáveis por penetrar, mas também ir de encontro ao pensamento social vigente daquela sociedade.
É pertinente refletir sobre quais pensamentos sociais as representações sociais expostas nas capas de jornais estão reforçando.
Ao expor tais RS, as capas estão influenciando nos pensamentos individuais de seus leitores e os influenciando no desenvolvimento de uma determinada opinião sobre esse caso de racismo especificamente, mas também sobre o fenômeno do racismo de modo geral.
Para Vicente (2000), o contexto histórico que as imagens estão inseridas é fundamental na compreensão da função comunicativa que a imagem exerce, para ele “[...] as imagens são simultaneamente reflexo e esboço de comportamentos [...]” (Vicente, 2000, p. 149).
Segundo Vicente (2000), as imagens são reflexos de comportamentos. Nesse sentido, relembra-se o histórico de manifestações racistas por parte dos torcedores de alguns clubes da Europa como, o próprio Valência - ESP e Atlético de Madrid - ESP. As capas de jornais também são, por essa perspectiva, reflexos das manifestações racistas encontradas nos estádios.
Duran e Jimenez (2006), trazem casos de racismo desde 2004 e destacam a importância da mídia para a repercussão desses casos, um caminho inverso do que foi apresentado nessa pesquisa. As situações de racismo entre os indivíduos dentro de campo, em treinos ou em jogos podem passar despercebidos. No entanto, quando a mídia as identifica, elas têm o poder de repercutir esses casos e cobrar das autoridades e instituições futebolísticas, medidas punitivas.
A minimização do caso de racismo por parte dos jornais é mais uma característica da invisibilização do racismo na Espanha. Esse menosprezo abre brechas para as manifestações explícitas de racismo.
Por meio da postura percebida nas capas analisadas, é perceptível que elas não priorizam o problema central, o racismo, colocando como destaque a postura do atleta, a fala do treinador ou “escanteando” esse caso de racismo, como se o problema fosse a postura do atleta e não a discriminação racial e todos os episódios de racismo ocorridos no futebol espanhol. Esse cenário coloca em xeque a suposta harmonia racial e evidencia a invisibilização do racismo como apontam os autores espanhóis.
Nenhuma das capas traz o atleta de uma forma animalesca, não assumindo explicitamente uma posição racista, algo que pode ser condenado legalmente e socialmente. Isso reforça, o contexto de racismo velado encontrado nas capas e na sociedade, além de contribuir para o consenso social sobre uma suposta harmonia racial.
A sociedade pode condenar as manifestações explícitas de racismo, mas não condena as capas ou a mídia por criticar ou escantear a vítima do racismo. Nesse sentido, é possível trazer a teoria de Almeida (2018), para ele, as instituições (como a mídia) são racistas, porque a sociedade é racista.
Ao não retratar os atletas negros de uma forma animalesca, as capas ou outras mídias sociais não expõe explicitamente uma posição racista, mantendo-se uma posição neutra, no sentido de analisar ambos os lados da história, colocando no mesmo degrau de igualdade o agressor e a vítima. O que por si só demonstra a fragilidade da vítima, pois a balança não se equilibra.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O objetivo geral do presente artigo foi refletir sobre racismo e futebol, por meio da análise das capas dos jornais espanhóis diante do caso de racismo mencionado. O uso do mito da democracia racial não implica a transposição mecânica de explicações, mas possibilita identificar diferentes modos pelos quais estruturas sociais, políticas e culturais produzem e naturalizam desigualdades racializadas.
No caso do futebol espanhol, identificou-se também modos de naturalização do racismo como: minimizar, relativizar ou individualizar episódios de racismo. A lógica analítica pode ser mobilizada de forma comparativa e crítica, não como transposição do conceito brasileiro, mas como identificação de dispositivos simbólicos equivalentes que naturalizam desigualdades racializadas em contextos distintos.
Diante dos apontamentos dos autores locais sobre a invisibilização do racismo na Espanha e através das capas analisadas é possível novamente constatar a invisibilização isso ao passo que, mesmo diante dos casos explícitos de racismo, há jornais que não trazem o foco para o tamanho do problema. Algumas capas não deram importância para mais um caso de racismo na Espanha; colocaram em destaque outras notícias de outros esportes. Houve jornais que destacaram a postura do jogador e a fala do treinador, em vez de condenar mais um ato explícito de racismo.
Sugere-se como discussões futuras a reflexão acerca do novo caso de racismo contra o mesmo jogador, em Portugal, o que poderia corroborar uma inviabilização do racismo na Europa, frente ao objeto.
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FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado sem o apoio de fontes financiadoras.
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COMO REFERENCIAR
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1
Uma das capas analisadas será do ano de 2021 pois será realizada uma análise comparativa sobre a postura do mesmo jornal em relação a casos de racismo.
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2
Sobre o Clube Real Madrid, ler Silva (2022) .
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3
Sobre A UEFA Champions League, ler Sousa (2023) .
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4
Real Madrid Club de Fútbol, um dos maiores clubes de futebol do mundo, teve um faturamento de € 721,5 milhões, aproximadamente.
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5
Desde 2020, existiram 13 casos de racismo denunciados no futebol espanhol.
DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento
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RESPONSABILIDADE EDITORIAL
Alex Branco Fraga*, Elisandro Schultz Wittizorecki*, Mauro Myskiw*, Raquel da Silveira** Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança, Porto Alegre, RS, Brasil.






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