Open-access A Educação Física na mídia: análise da revista Radis (2002 a 2024)

Physical Education in the media: an analysis of Radis magazine (2002 to 2024)

La Educación Física en los medios de comunicación: análisis de la revista Radis (2002 a 2024)

Resumo

O objetivo foi analisar a presença de temas relacionados à Educação Física (EF) na revista Radis, desde sua primeira edição, em 2002, até o final de 2024 (267 edições). Foi utilizada estatística descritiva e os textos que tiveram quatro ou mais menções às palavras-chave foram lidos na íntegra, e buscou-se indicar as ideias contidas em cada texto. Os termos relacionados à EF apareceram em 58% das edições. O termo com maior número de ocorrências foi “atividade física”, seguido por “esporte” e “educação física”. Treze reportagens foram analisadas e observou-se que informações relativas à inatividade física como fator de risco à saúde, informações epidemiológicas, desigualdades na prática e benefícios da prática foram as ideias mais presentes. As reportagens apresentaram pontos em comum, mas também alguns divergentes, sendo coerentes com a trajetória recente da EF no contexto da Saúde Coletiva.

Palavras-chave
Jornalismo científico; Ciências da Educação Física; Saúde coletiva; Educação profissional em saúde pública

Abstract

The objective was to analyze the presence of topics related to Physical Education (PE) in Radis magazine, from its first edition in 2002 to the end of 2024 (267 editions). Descriptive statistics were used, and texts that had four or more mentions of the keywords were read in their entirety, to identify the ideas contained in each text. Terms related to PE appeared in 58% of the issues. The term with the highest number of occurrences was “physical activity,” followed by “sport” and “physical education.” Thirteen articles were analyzed, and it was observed that information related to physical inactivity as a health risk factor, epidemiological information, inequalities in practice, and benefits of practice were the most frequent ideas. The reports had points in common, but also some differences, consistent with the recent trajectory of PE in the context of Public Health.

Keywords
Scientific journalism; Physical Education sciences; Public health; Professional Education in public health

Resumen

El objetivo fue analizar la presencia de temas relacionados con la Educación Física (EF) en la revista Radis, desde su primera edición en 2002 hasta finales de 2024 (267 ediciones). Se utilizó estadística descriptiva y se leyeron íntegramente los textos con cuatro o más menciones de palabras clave, buscando identificar las ideas contenidas en cada uno. Los términos relacionados con la EF aparecieron en el 58% de las ediciones. El término con mayor número de ocurrencias fue “actividad física”, seguido de “deporte” y “educación física”. Se analizaron trece textos, y las ideas más frecuentes fueron: informaciones sobre la inactividad física como factor de riesgo para la salud; informaciones epidemiológicas; desigualdades en la práctica; y beneficios de la práctica. También se observó que los textos presentaban puntos en común, pero también diferencias, en consonancia con la trayectoria reciente de la EF en el contexto de la Salud Colectiva.

Palabras clave
Periodismo científico; Ciencias de la Educación Física; Salud pública; Educación profesional en salud pública

1 INTRODUÇÃO

A consolidação da Saúde Coletiva no Brasil se deu principalmente a partir da década de 1970, como resultado de uma vertente crítica dentro da Saúde Pública, e reforçou a necessidade de repensar o modelo biomédico tradicional. Essa nova abordagem, mais abrangente, fundamenta-se em três áreas principais: a Epidemiologia, as Ciências Humanas e Sociais e o Planejamento em Políticas Públicas, e se destaca por sua interdisciplinaridade e multiprofissionalidade (Nunes, 2009; Bosi; Prado, 2011; Vieira-Da-Silva, 2015; Lima, 2022).

No Brasil, a relação entre Saúde Coletiva e Educação Física é relativamente recente, sendo que alguns dos principais marcos aconteceram somente a partir dos anos 2000, como, por exemplo, a Política Nacional de Promoção da Saúde (Brasil, 2014a), cuja primeira edição foi publicada em 2006 (Brasil, 2006) e apontava as Práticas Corporais e Atividade Física como um de seus temas prioritários, a criação dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família em 2008 (NASF-AB, Brasil, 2008), que possibilitaram a entrada de profissionais de Educação Física na Atenção Primária à Saúde e a criação do Programa Academia da Saúde, em 2011 (Brasil, 2014b). No entanto, tem sido observada que é frágil, pontual e ainda incipiente a participação da Saúde Coletiva na formação de profissionais e professores de Educação Física (Neves; Assumpção, 2017; Nogueira; Bosi, 2017; Silva; Nicoes; Knuth, 2021; Bandeira et al., 2022; Egídio, et al., 2024).

O jornalismo desempenha um papel fundamental na consolidação da democracia e na defesa dos direitos dos cidadãos e, no campo da saúde, a forma como a informação é divulgada pode influenciar a percepção pública e as políticas de saúde (Kucinski, 2000). Estudos anteriores investigaram temas relacionados à Educação Física em diferentes contextos midiáticos, especialmente ligados à mídia "tradicional" (grandes conglomeradas de mídia), como é o caso, por exemplo, do estudo de Silva e Mezzaroba (2026), que investigou o discurso empregado em duas plataformas digitais de notícias acerca do fenômeno da gordofobia, evidenciando um conteúdo predominantemente biomédico dos portais, associando a mudança a aspectos individuais e comportamentais. Anteriormente, Cândido, Palma e Assis (2016) e Leitzke, Rigo e Knuth (2020) analisaram o quadro “Medida Certa” da TV Globo, onde foi observado um discurso reducionista da Educação Física, focando na ideia de “reprogramar” o corpo para se evitar problemas de saúde. A partir desses estudos observou-se que a mídia frequentemente utiliza a estratégia de culpabilização individual, substituindo a complexidade dos sujeitos pela ideia do corpo como uma “máquina” (Cândido; Palma; Assis, 2016; Silva; Mazzaroba, 2026). Loch e Guerra (2018) observaram incoerências entre os resultados e conclusões de um artigo científico e duas reportagens publicadas no sítio eletrônico da revista Veja e do jornal O Globo, sendo que as reportagens simplificaram as explicações para a inatividade física no Brasil, dando a entender que a “preguiça” seria o motivo para o Brasil estar mal posicionado em um ranking internacional de prática de atividade física, o que não tinha nenhuma relação com o conteúdo do artigo científico no qual supostamente as reportagens eram baseadas.

No contexto das mídias não tradicionais, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) desenvolveu o Programa RADIS de Comunicação e Saúde, que busca uma abordagem jornalística crítica e independente sobre Saúde Pública e que resultou na criação da Revista RADIS em 2002 (Fundação Oswaldo Cruz, 2021). A assinatura da revista RADIS é gratuita e todas as edições estão disponíveis no endereço eletrônico da Fiocruz. Segundo a assessoria técnica da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fiocruz, responsável pela produção da revista, a edição de agosto de 2025 foi de 113.250 exemplares. A revista é distribuída mensalmente para assinantes institucionais e individuais (RADIS, 2025). Segundo o sítio eletrônico da revista, as assinaturas contemplam conselhos e secretarias municipais e estaduais de Saúde do Brasil, prefeituras, câmaras municipais, assembleias legislativas e os parlamentares do Congresso Nacional, organizações não governamentais, órgãos da mídia, entidades sindicais e de moradores, bibliotecas, escolas, estudantes e profissionais de todos os níveis das áreas da saúde e afins. Os textos buscam uma linguagem acessível e direta, tentando conferir à comunicação papel menos instrumental e mais central e estruturante no exercício da cidadania e na garantia do direito à saúde (RADIS, 2026).

Embora a RADIS represente uma possibilidade importante para a divulgação científica sobre temas relacionados à saúde, ainda existem poucas pesquisas que analisam seu conteúdo. Após uma busca preliminar realizada no Google Acadêmico, foram encontrados apenas seis trabalhos que tinham como objetivo analisar os conteúdos da RADIS. Um estudo analisou 12 edições e buscou avaliar como estas compreendiam e anunciavam a ação da Educação Física (Silva; Silva, 2012). Os demais trabalhos incluíram análises sobre: as reportagens de capa (Tuma; Spannenberg, 2015), a forma de abordagem sobre drogas (Pereira, 2017), a produção de memórias da Saúde Pública brasileira (Machado; Borges; Ribeiro, 2019) e informações sobre COVID-19 (Borcezi, 2020). Outro estudo entrevistou leitores da revista, a partir da discussão de textos por estes escolhidos (Rocha, 2022), buscando discutir o “lugar do outro” na comunicação pública.

Dado este contexto, o objetivo do trabalho foi analisar a presença de temas relacionados à Educação Física na revista RADIS, desde sua primeira edição, em 2002, até o final de 2024. Este estudo pode ser relevante no sentido de auxiliar uma compreensão mais abrangente de como temas da área da Educação Física têm sido tratados em uma revista importante no contexto da saúde brasileira, servindo, esta revista, inclusive, como uma ferramenta de atualização dos profissionais de saúde.

2 MÉTODOS

Trata-se de um estudo de abordagem bibliográfica e documental, com caráter descritivo-analítico, realizado a partir da análise das edições da Revista RADIS. Por se tratar de um estudo com dados de domínio público e sem envolvimento direto de seres humanos, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos.

A coleta de dados foi realizada a partir de uma análise documental de todas as edições da Revista RADIS publicadas entre os anos de 2002 e 2024 (n= 267). Todos os anos contaram com 12 edições, exceto 2002 (cinco edições) e 2003 (11 edições). Foi utilizado o software Visual Studio Code (versão 1.97), onde foram elaboradas linhas de código na linguagem de programação Python (versão 3.9) que buscaram, automaticamente em todas as edições do período (n=267), apenas os PDFs que continham pelo menos uma das seguintes palavras-chave: “atividade física”, “educação física”, “exercício físico” “exercícios físicos”, “esporte”, “práticas corporais” e “sedentarismo”. As linhas de código foram responsáveis também por realizar o download de todas as edições que tiveram ao menos uma das palavras-chave, automaticamente. Além disso, um filtro foi aplicado nas linhas de programação para normalizar o texto, eliminando problemas como hifens resultantes de quebras de páginas. Vale mencionar que as palavras-chave foram definidas a priori, buscando englobar termos que são normalmente vinculados à Educação Física.

Para validar o método e verificar se as linhas de programação realizaram corretamente o download dos PDFs, foi realizado sorteio de 10 números aleatórios. As edições sorteadas foram analisadas manualmente com a ferramenta “Buscar” (Ctrl + F) no leitor de PDF. Dentre as edições sorteadas, seis continham os termos analisados e foram corretamente baixadas (edições 45, 158, 106, 49, 231 e 89), enquanto quatro não apresentavam os termos e não foram baixadas (edições 196, 240, 154 e 27), indicando assim adequação do método de busca.

Em seguida, foram elaboradas mais linhas de código na linguagem de programação Python que buscaram nas edições baixadas a contagem de cada palavra-chave, a fim de realizar a análise quantitativa das menções. Todos os valores contados coletados pela programação foram conferidos manualmente.

A Revista RADIS é dividida em seções fixas e que passaram por algumas mudanças de nomenclatura durante os anos. Para a análise, algumas partições foram unificadas, como é o caso das “Pequenas Notas”, que abrangiam as seções “Toques da Redação” e “Súmula da Imprensa” e “Cartas” que abrangeram “Cartas” e “Voz do Leitor”. A seção “Serviço” foi classificada como “Divulgação” para melhor entendimento de suas características. Por sua vez, as outras seções mantiveram seus respectivos nomes. Neste estudo as seções foram divididas nas seguintes categorias: Reportagens Capa; Reportagens não Capa; Pequenas Notas; Cartas; Divulgação; Entrevistas; Editorial e Textos de Opinião.

Foi utilizada estatística descritiva no tratamento dos dados, a fim de verificar o total de citações, porcentagem por ano, e localização dos termos nas seções da revista. Após a leitura inicial de todos os textos, observou-se que aqueles que tinham uma relação mais evidente com a temática do estudo apresentavam pelo menos quatro menções às palavras-chave utilizadas, e definiu-se então pela leitura mais detalhada destes. Esta leitura foi realizada por dois dos autores que, de maneira independente, anotavam as ideias centrais, à medida que estas apareciam no texto e posteriormente discutiam as ideias, buscando-se chegar a consensos e padronizando alguns termos.

3 RESULTADOS

Das 267 edições da Revista RADIS analisadas, 155 (58%) apresentaram ao menos uma das palavras-chave. O número de reportagens (capa e não capa) por ano que continham ao menos uma das palavras-chave variou ao longo do período analisado. Em 2002, nenhuma reportagem citou pelo menos um dos termos, porém nos anos subsequentes o número de reportagens que utilizou pelo menos um dos termos, aumentou, com o maior valor sendo observado em 2008 (10 reportagens). Outros anos com destaque foram 2007 e 2015, ambos com nove reportagens. A mediana de reportagens foi de cinco por ano e a média de 5,1 (com desvio padrão de 2,4) (Gráfico 1).

Gráfico 1
Número de reportagens da revista Radis, por ano, que continham pelo menos uma das palavras-chaves relacionadas à Educação Física.

Quanto ao número de citações segundo palavras-chave conforme seção da revista, observou-se que as reportagens de capa foram as que tiveram maior número (196), seguido por reportagens não capa (168) e em pequenas notas (89). Ao todo, foram identificadas 536 citações e a expressão “atividade física” foi a mais presente (215), seguido por “esporte” (161) e “educação física” (95). O termo com menor ocorrência foi “práticas corporais” (8). (Tabela 1).

Tabela 1
Número de Palavras-Chave relacionadas à Educação Física segundo seções da Revista Radis

Considerando o número de citações por palavra-chave por ano, observou-se que entre 2002 e 2006 o número total de citações anuais não ultrapassou 20. A partir de 2007 as citações aumentaram, alcançando o primeiro pico em 2011 (69 citações). Entre 2012 e 2015, as citações se mantiveram abaixo de 20, mas em 2016, houve novo aumento (65 citações). Houve novo decréscimo no período entre 2017 e 2020 e 2021 foi o ano com maior número de citações (81). "Atividade física" e "esporte" foram os termos mais frequentes, seguidos por "educação física". “Exercício físico" e "sedentarismo" apareceram esporadicamente e "práticas corporais" foi o termo menos citado, com apenas algumas ocorrências pontuais.

Gráfico 2
Número de aparições por ano das palavras-chaves relacionadas à Educação Física na Revista Radis (2002 a 2024).

Foram identificados 13 textos que tinham quatro ou mais citações às palavras-chave, todos reportagens. O Quadro 1 apresenta uma síntese com informações sobre as respectivas edições e ano, bem como se foram ou não reportagens de capa e as ideias principais identificadas. O ponto abordado com maior frequência, aparecendo em nove reportagens, foi a inatividade física como fator de risco à saúde, seguido por informações epidemiológicas (cinco reportagens), desigualdades na prática de atividades física e benefícios da prática de atividade física (quatro reportagens cada) (Quadro 1).

Quadro 1
Edição, ano, título da reportagem e ideias principais das reportagens analisadas da Revista Radis (2002 a 2024)

A maioria das reportagens não tinha a temática investigada no presente trabalho como central. Três reportagens abordavam alguma doença específica (câncer na edição 52, diabetes na 59 e obesidade na 157). Outras três tinham como foco a apresentação de dados gerais sobre indicadores de saúde da população brasileira ou faziam a cobertura de congressos em que estes dados foram apresentados (edições 23, 76 e 77). As outras tinham foco na saúde indígena (edição 98), na importância do esporte na vida profissional de um epidemiologista brasileiro (edição 235) e outra citou uma professora de Educação Física do ensino médio que usava a revista Radis em suas aulas (edição 235).

Por outro lado, quatro reportagens tinham como foco central temas mais diretamente relacionados ao objeto deste trabalho, o que explica o achado relativo ao maior número de menções a alguns dos termos em anos específicos. A da edição 109 (de 2011) abordou o Programa Academia da Saúde e apresentou ideias como: aspectos ligados aos benefícios da prática de atividade física para a saúde, informações epidemiológicas, a Educação Física enquanto uma área da saúde e as modificações que esta passou ao longo da sua história, entre outros aspectos. Já a reportagem da edição 167 (de 2016) focou nos riscos que atletas de alto rendimento estão submetidos, bem como da “cultura da superação pela superação”.

A reportagem da edição 171 enfatizou, desde seu título, a questão da prática de atividade física “bem orientada”, indicando que pessoas que querem iniciar a prática de atividade física devem procurar um médico e depois disso “consultem” um bom profissional de Educação Física para “montar uma rotina de treinamento adequada”. O texto também menciona que nem toda atividade física é benéfica e cita, assim como a reportagem anterior (da edição 167), os riscos da “cultura da superação pela superação” e menciona que quem não pode pagar por um “serviço especializado”, pode aproveitar projetos públicos.

Por fim, a edição 221 também é bastante abrangente, trazendo os benefícios, informações epidemiológicas entre outras, mas tem como ponto central a questão dos determinantes da prática de atividade física, destacando que esta prática não é uma mera questão de “escolha individual”. Além disso, outras ideias importantes aparecem, como: o papel da Educação Física na Sociedade, a necessidade de se investir em políticas públicas intersetoriais para a promoção da atividade física, o acesso à Atividade Física como um direito de todos, a limitação da lógica de “acumular minutos” sem se observar as condições e contextos de vida das pessoas, entre outras.

4 DISCUSSÃO

O presente estudo constatou que, nos últimos 20 anos, temas relacionados à Educação Física foram frequentemente citados em publicações da Revista Radis. De um modo geral, estas publicações têm veiculado informações sobre a inatividade física como fator de risco à saúde, dados epidemiológicos sobre a prática de atividade física no Brasil, os benefícios da atividade física sobre a saúde, bem como as desigualdades na prática de atividade física. Das 13 reportagens analisadas de maneira mais detalhada, quatro tinham seu foco central na temática deste trabalho. Estas reportagens foram publicadas em 2011, 2016 (duas reportagens) e 2021 e apresentaram pontos em comum, mas também alguns divergentes.

Apesar da presença importante da temática, vale mencionar que esta foi variável ao longo dos anos. O tema esteve presente em 58% das edições analisadas, com destaque para os anos 2007 (75%), 2010 (83%), 2012 (75%), 2015 (75%) e 2018 (75%). Esse percentual evidencia que temas relacionados à Educação Física não foram abordados de maneira constante, sendo que em alguns momentos houve uma abordagem mais específica e aprofundada. Vale ressaltar que a RADIS é uma revista que aborda diversos temas relacionados à saúde, portanto, não seria razoável esperar que um único tema tivesse a mesma importância em todos os anos.

A partir de 2016, observou-se uma diminuição no número de reportagens (capa e não capa) sobre temas relacionados à Educação Física. Esse declínio pode estar relacionado ao contexto político do período, marcado pela ascensão dos governos Temer e Bolsonaro e pela consequente reconfiguração das prioridades na cobertura jornalística, haja vista alguns importantes retrocessos que aconteceram no período em relação ao SUS (Mendonça et al., 2023; Morosini; Fonseca; Lima, 2018; Morosini; Fonseca; Baptista, 2020; Massuda, 2020; Mendes; Melo; Carnut, 2022). Essa pauta ficou evidente em muitas edições da Revista RADIS no período, como, por exemplo, da edição 169 de 2016, intitulada “O SUS esvaziado” que destacou o desmonte e a insuficiência de financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS).

Além disso, a pandemia de COVID-19 é outra explicação para a menor frequência de temas relacionados à Educação Física na comparação com outros períodos. Considerando as edições publicadas nos anos de 2020 e 2021, 13 das 24 matérias de capa abordaram o tema. Bem verdade que uma das reportagens que abordou mais diretamente o tema do presente trabalho, foi publicada em 2021 (edição 221), o que explica o fato de ter sido este ano aquele que teve um maior número de citações em todos os anos analisados, já que a referida reportagem citou 66 vezes as palavras-chave consideradas. Por outro lado, este mesmo ano foi um dos que teve o menor número de reportagens que citaram pelo menos um dos termos (apenas três reportagens). Ou seja, o ano de 2021 teve poucas reportagens, mas foi um dos anos com maior número de citações das palavras chaves, já que uma destas teve uma frequência bastante alta de citações destas. O mesmo aconteceu com o ano de 2016. Apenas quatro reportagens citaram alguma das palavras-chave, mas uma delas teve alta frequência, fazendo que este ano fosse um dos com maior número em termos de ocorrência de palavras-chave. Vale lembrar que este foi o ano da realização dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e a reportagem com grande número de ocorrência dos termos foi sobre a saúde de atletas, diferindo das outras reportagens que tinham um foco mais evidente na população em geral.

Em relação aos termos utilizados, observou-se que “atividade física” foi o mais presente. De fato, este parece ser o termo mais conhecido, sendo comum, inclusive, em inquéritos populacionais. Por outro lado, o termo “Práticas Corporais” foi pouco mencionada ao longo das edições da revista (a primeira menção em reportagens foi em 2015), mesmo sendo um termo presente na Política Nacional de Promoção da Saúde desde 2006 (Brasil, 2006) e discutida na literatura especializada (Knuth; Antunes, 2021; Carvalho et al., 2022). Esse resultado pode ser explicado, pelo menos parcialmente, por este ser um termo relativamente novo. Vale mencionar que não tivemos objetivo de avaliar a adequação ou não do uso dos termos. É comum que alguns termos sejam utilizados de maneira equivocada, por exemplo, usando o termo “esporte” como sendo sinônimo de atividade física ou exercício físico.

Quanto ao conteúdo observado nas 13 reportagens mais relacionadas ao tema do estudo, foram destacadas informações relativas à inatividade física como fator de risco à saúde, bem como informações epidemiológicas sobre a prática de atividade física na população brasileira. Vale mencionar que a inatividade física enquanto um comportamento considerado de risco à saúde está muito atrelado à transição epidemiológica. De um ponto de vista epidemiológico, a inatividade física enquanto um fator de risco à saúde passa a ficar mais evidente a partir da segunda metade do século XX e no Brasil, principalmente a partir dos anos 1990 (Porto, et al., 2023), sendo que a atividade física passa a ser incorporada de uma maneira mais sólida na Saúde Pública brasileira a partir dos anos 2000 (Nogueira; Bosi, 2017; Loch; Rech; Costa, 2020). Também é importante considerar que o Brasil é um dos principais polos de produção científica em epidemiologia da atividade física, além de ser pioneiro tanto no monitoramento, quanto na formulação de políticas públicas voltadas para a promoção da saúde que contemplam a questão da atividade física (Hallal, 2014).

A questão das desigualdades na prática de atividade física na população brasileira também foi citada com destaque em algumas reportagens. Esta é uma questão central quando se aborda a promoção da atividade física no Brasil. Evidentemente que o fato de o Brasil ser um dos países mais desiguais do mundo reflete também nos indicadores de saúde da população, incluindo a questão da prática de atividade física. É evidente no Brasil que mulheres, pessoas com menor escolaridade e renda, entre outros fatores são menos ativos (Mielke et al., 2021; Evedove et al., 2025). A presença deste tema em alguns dos textos analisados é coerente com o compromisso social do campo da Saúde Coletiva e da revista Radis.

Em um olhar mais longitudinal do conteúdo das reportagens analisadas segundo o ano, observou-se que as primeiras edições abordavam principalmente a questão da inatividade física como fator de risco. Isso talvez se explique por dois motivos: 1) a ideia de que a atividade física é importante para a saúde ainda não era tão comum quanto é atualmente na população brasileira, tanto que alguns programas, como o Agita São Paulo, tinham como um de seus principais focos o aumento do nível de conhecimento da população brasileira sobre os benefícios da atividade física (Matsudo et al., 2003); 2) A aproximação da Educação Física com a Saúde se dava essencialmente por um viés biomédico, na lógica da inatividade física ser um fator de risco à saúde. Atualmente há um maior reconhecimento da atividade física como um comportamento positivo para a saúde e a área avançou em relação à uma aproximação com a Saúde Coletiva, ainda que, hegemonicamente, a Educação Física ainda tenha um olhar biomédico de saúde.

Este certo “tensionamento” entre um olhar mais próximo do biomédico e de um olhar mais ampliado de saúde, pode ser exemplificado em duas reportagens, que apresentam inclusive alguns pontos que podem ser considerados divergentes. A reportagem “Promoção da Saúde: a vida em movimento”, de 2016, apresenta em alguns pontos uma visão mais alinhada à um olhar biomédico. Inclusive indica os benefícios da atividade física, mas destaca que esta deve ser “bem orientada”. Ainda nesta linha, destaca que pessoas iniciantes devem procurar um médico para consultar a sua condição de saúde e depois “consultar” um “bom” profissional de Educação Física para montar uma “rotina de treinamento adequada”. Em síntese, esta reportagem apresentou um viés corporativista e até medicalizante (ao indicar a “consulta” aos profissionais de saúde, especificamente médicos e profissionais de Educação Física), além de indicar o exercício físico (ao falar em “treinamento”), ignorando que a atividade física pode ser benéfica mesmo que não seja configurada como exercício físico. Além disso, ignorou a realidade de boa parte da população brasileira ao indicar como condição para ser ativo fisicamente as “consultas”. Por fim, a reportagem ainda menciona que “aqueles que não puderem pagar por um “serviço especializado” podem aproveitar projetos gratuitos, ou seja, parece passar a ideia de que estes projetos são voltados apenas para aqueles que não podem pagar por serviços particulares, reforçando a ideia de “SUS para pobres” (Pimentel et al., 2021.

Por outro lado, a reportagem “O papel de se exercitar: atividade física traz bem estar e saúde, mas prática ainda tem acesso limitado pelas desigualdades”, de 2021, tem como ponto central a ideia de que existem muitos determinantes sociais envolvidos na prática de atividade física. O texto traz alguns contrapontos à reportagem citada no parágrafo anterior, entre os quais indicando que a orientação para a prática de atividade física não pode ser uma barreira de acesso para as pessoas praticarem. Além disso, pontos fundamentais e estruturantes para a promoção da atividade física são citados, como a necessidade de se investir em Políticas Públicas intersetoriais, a ideia de que o acesso à atividade física deve ser um direito de todas as pessoas e a necessidade de um bom planejamento urbano. Também cita que é preciso se ver com cautela a lógica de se “acumular minutos” sem se observar as condições e contextos de vida das pessoas, indicando que algumas atividades físicas que as pessoas realizam não estão ligadas a escolhas e sim à necessidade, o que é coerente com a questão que vem sendo discutida mais recentemente na área, o paradoxo da atividade física (Temporelli, 2021; Janssen; Voelcker-Rehage, 2023; Loch et al., 2024). No entanto, mesmo que a reportagem apresente, essencialmente, um viés mais progressista e com um olhar mais sistêmico e crítico em relação à promoção da atividade física no contexto brasileiro, alguns pontos podem ser questionados, como citar, literalmente, a atividade física como um remédio e fazendo uma analogia do corpo humano com um automóvel, indicando ainda algum viés biomédico, a partir de uma visão mais “mecânica”, a partir da analogia do corpo humano como uma “máquina”, o que também é problemático se considerado uma visão mais ampliada de saúde.

Este estudo apresenta algumas limitações, como a análise das ideias principais apenas nas reportagens que tinham pelo menos quatro menções aos termos considerados no estudo. No entanto, pareceu evidente que estas eram as reportagens que de fato tinham maior relação com a Educação Física. Outro ponto que pode ser considerado uma limitação diz respeito à não investigação do perfil dos entrevistados nas reportagens principais. Estudos futuros podem dar conta desta lacuna. Por outro lado, a originalidade do trabalho precisa ser destacada, bem como a utilização de ferramentas relativamente novas que permitiram uma análise mais abrangente, com a inclusão de 267 edições da revista RADIS que é, reforça-se, uma importante revista e que tem muitos leitores da área da saúde, sejam estudantes de graduação ou pós-graduação e profissionais de saúde.

Em síntese, conclui-se que a temática da Educação Física apareceu de maneira moderada na revista RADIS, resultado este coerente com o próprio escopo da revista, que é, evidentemente, muito mais abrangente. Além disso, observou-se que os conteúdos das reportagens de algum modo refletiram a evolução da aproximação da Educação Física com a Saúde Coletiva nas últimas décadas, sendo que pontos mais ligados a um foco mais epidemiológico “clássico” ganharam destaque: a inatividade física como fator de risco à saúde, informações epidemiológicas sobre a inatividade física no Brasil e sobre as desigualdades nesta. Também as reportagens refletiram algumas “tensões”, especialmente em duas das reportagens principais analisadas, uma destas com um viés mais biomédico e outra com um olhar mais ampliado de saúde.

  • FINANCIAMENTO
    O presente trabalho foi realizado sem o apoio de fontes financiadoras.
  • COMO REFERENCIAR
    MARTINS, Matheus Micheletti; OLIVEIRA, Joamara Gomes Domingues de; CALCIOLARI JUNIOR, Anísio; ROMANZINI, Marcelo; LOCH, Mathias Roberto. A Educação Física na mídia: análise da revista Radis (2002 a 2024). Movimento, v. 32, p. e32041, jan./dez. 2026. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.153619.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DE PESQUISA

Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.

REFERÊNCIAS

  • BANDEIRA, Rodrigo Ossoda Moura et al Inserção de profissionais de Educação Física no Sistema Único de Saúde: história, avanços e desafios. Movimento, v. 28, e28048, 2022. DOI: https://doi.org/10.22456/1982-8918.122874
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  • BORCEZI, Daniela. Vulneráveis: enfoques narrativos sobre a COVID-19 na Revista Radis. Ambiente: Gestão e Desenvolvimento, v. 1, n. 1, p. 193-208, 2020. DOI: https://doi.org/10.24979/ambiente.v1i1.827
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  • BOSI, Maria Lúcia Magalhães; PRADO, Shirley Donizete. Alimentação e nutrição em saúde coletiva: constituição, contornos e estatuto científico. Ciência & Saúde Coletiva, v. 16, n. 1, p. 7-17, 2011. DOI: https://doi.org/10.1590/S1413-81232011000100002
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  • BRASIL. Ministério da Saúde. Academia da Saúde: cartilha informativa. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2014b. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/academia_saude_cartilha.pdf Acesso em: 18 abr. 2023.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    12 Fev 2026
  • Aceito
    09 Maio 2026
  • Publicado
    17 Ago 2026
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