FICÇÕES DE PODER E SEXO EM GRACILIANO 1 1 Transcrição revista da intervenção oral na mesa-redonda “Graciliano Ramos: ficha política”,11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), 3 a 7 de julho de 2013.

Fictions of Power and Sex in Graciliano

SERGIO MICELI Sobre o autor

RESUMO

O artigo examina três romances de Graciliano Ramos, narrados em primeira pessoa, à luz das experiências de declínio social do escritor, com ênfase nas vicissitudes eróticas e sexuais dos protagonistas.

PALAVRAS-CHAVE:
Ficção e auto confissão; mimesis e experiência de classe; descenso social e trabalho literário

ABSTRACT

The article examines three novels by Graciliano Ramos, whose narratives are performed in the first person, nurtured by the writer’s experiences of social decline, emphasizing the erotic and sexual vicissitudes of their leading characters.

KEYWORDS:
Fiction and confession; mimesis and class experience; social decline and literary work

Li os romances de Graciliano Ramos (1892, Quebrangulo/AL-1953, Rio de Janeiro/RJ) quando coligia materiais para a tese de doutorado,na década de 1970; o escritor figura com destaque no capítulo consagrado ao boom da literatura de ficção nos anos 1930. Pelo timbre no retrato coletivo dos novelistas, a ênfase incidiu nos escritos memorialísticos - Infância e Memórias do cárcere -, que forneceram subsídios à análise da trajetória dessa geração de escritores. As ficções reforçaram a linha de força do argumento.

Os traços decisivos foram plasmados pelo declínio material e social das famílias, cuja errância derivava do nomadismo ocupacional do pai, da mobilidade descendente, ao que se somavam as posições em falso dos aspirantes letrados na linhagem e na fratria. Graciliano sentira na pele a condição de filho “enjeitado”, afligido por estigmas físicos penosos como a cegueira periódica, a conhecida oftalmia. Tais incômodos se incrustaram na psique, tendo encontrado, na escrita, consolo para os padecimentos: o desconforto sofrido pelo “bezerro encourado”,2 2 Apelido impingido pelos pais de Graciliano, equiparado ao filhote que sobrevive à custa de um estratagema: “Quando uma cria morre,tiram-lhe o couro, vestem com ele um órfão que, neste disfarce, é amamentado. A vaca sente o cheiro do filho, engana-se e adota o animal” (Ramos,1953,p.132). o desnorteio do “cabra-cega”.

Quero agora examinar três romances, narrados em primeira pessoa, engastando, por assim dizer, as feições e os impasses dos narradores às experiências de vida do escritor.Antes,no entanto,dados cruciais da biografia permitem ajuizar os fatores de propulsão na fatura ficcional.O primeiro deles é o sentido da trajetória ocupacional do pai, oscilante entre o status de pequeno fazendeiro de gado,a condição de proprietário de modesta loja de tecidos e o posto de relegação como juiz substituto. O empenho em preservar sobras remanescentes do patrimônio contribuiu de modo mais incisivo para o encaminhamento de Graciliano ao trabalho intelectual do que as injunções provocadas pela perda da fortuna material.O nomadismo familiar está na raiz das oportunidades de trânsito na hierarquia, propiciando uma experiência variegada e porosa do mundo social,ensejando a proximidade com itinerários bem distintos do seu.

Graciliano não fez curso superior e se apropriou de um capital cultural e literário como autodidata. A morte do irmão e o suicídio de Mário Venâncio,professor do Instituto Alagoano,em 1905,devem ter nutrido certa mística em torno da carreira letrada. Os dois anos passados no Rio de Janeiro (1914-1915),como revisor na imprensa,foram o interregno que o fez vislumbrar os atropelos da sina familiar: de um lado, os devaneios do trânsfuga de classe, à cata de remanso protetor; de outro,as agruras do tarefeiro exposto à servidão mascarada.Aos 23 anos de idade, Graciliano retorna ao estado de origem e se casa com Maria Augusta, falecida em 1920, no parto da filha, o quarto fruto da união.Viúvo e arrimo da prole,o escritor virtual,ainda clandestino,se amolda por um tempo aos proventos do pequeno comércio.

Em 1927, Graciliano, então com 35 anos, foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios, candidato situacionista; nesse momento, conhece Heloísa, dezoito anos, filha de um funcionário graduado do Tribunal de Justiça de Alagoas.Três anos depois,liquida o estoque,vende a loja de tecidos e renuncia ao mandato para assumir a direção da Imprensa Oficial do Estado. O acesso a encargos públicos se deveu aos laços familiares com a oligarquia estadual, os quais encorajam, da parte do beneficiário, a aposta nas vantagens do envolvimento com os grupos dirigentes. Não me parece cabível caracterizar a gestão na prefeitura como ponto fora da curva, algo anedótico, encosto ocupacional, compasso de espera até se viabilizar como escritor. Por ora, a escrita era um desafogo,escape sem garantia,deriva análoga àquela que aflige os narradores de suas novelas.

Em 1933, ano de publicação do romance de estreia Caetés, o novo interventor de Alagoas, o capitão letrado Afonso de Carvalho,convida Graciliano para assumir o posto de secretário estadual de Educação, no qual permaneceu até fevereiro de 1936, demitido pelo governador Osman Loureiro. Era o terceiro posto de confiança que estava cumprindo com o beneplácito da elite provincial, cumulando seis anos ininterruptos no exercício de cargos prestigiosos, cabedal revelador do conceito de que desfrutava o futuro escritor junto ao comando político. Lograra sobreviver à mudança de regime, passando do esteio senhorial às benesses do tenentismo.

Entre os 35 e os 44 anos de idade, Graciliano desempenhou funções de nomeada no bojo do sistema oligárquico, justo o período de redação dos romances narrados na primeira pessoa, situados no ambiente interiorano em que se movia o autor e com o qual dá mostras sobejas de traquejo e astúcia. A sequência de lances de reconversão deslinda as estratégias ao alcance dos deserdados, capazes de contornar as ameaças de rebaixamento pela prestação de serviços políticos. Graciliano se valeu das condições favoráveis em que buscou realçar o prumo de mérito pela feitura de um microcosmo ficcional no qual se transmutam os tropeços de sua existência.

Para dar conta de tamanho desafio, o estratagema literário, acionado pelos protagonistas, consistiu em infundir-lhes as veleidades de escribas,a braços com o repto de elaborar relatos em paralelo à narrativa principal.O romance histórico sobre os índios caetés,a autobiografia de Paulo Honório, os poemas e os textos de Luís da Silva suscitam tensão e estranhamento entre os rumos da objetivação empreendida no universo ficcional e o solilóquio angustiado da subjetividade. O protagonista se desdobra em figurações distintas: nos tempos mortos da persona romanesca, as vicissitudes do trabalho literário na moita; na batida cronológica da novela, os embates e os reveses com os demais personagens. Os narradores encarnam virtualidades existenciais de Graciliano, o qual se projeta, em medida desigual, na pele dos duplos, empalmando itinerários de vida que ele conhecia de perto e que de algum modo poderiam ter sido os seus. O refúgio no trato literário conforta os que se veem à margem do reconhecimento: as letras no lugar das posses.

O traço de união entre os narradores é o modo de lidar com os desafios de potência,confronto lastreado em experiências de classe,o qual se alastra para os domínios afetivo e erótico. O que se passa nos romances pelo prisma do embate dos protagonistas com a virilidade social e sexual? Redigido entre 1925 e 1928, editado em 1933, Caetés é protagonizado por João Valério, órfão, expropriado da herança, que acaba adotado e empregado como guarda-livros no escritório da empresa de Adrião Teixeira, idoso e coxo. A orfandade e a liquidação dos haveres remanescentes apequenam o rapaz com comichões literárias, cujos trunfos são de liquidez erótica: 24 anos, boa figura, cabelos louros, olhos azuis.Não obstante, João Valério se sente subalterno perante os empresários e os bacharéis da cidade,pilares da fortuna temporal.

O desacerto entre a desdita e o encargo burocrático se condensa no desejo por Luísa, mulher do patrão, um velho “escangalhado” e incapaz de satisfazê-la.3 3 No capítulo XII, do jantar em casa de Vitorino Teixeira, irmão de Adrião, há referências seguidas a Marino Faliero, a primeira delas enunciada por Marta Varejão, a moça recusada por João Valério como alternativa conjugal, para aludir às suspeitas do caso amoroso entre João Valério e Luísa. Marino Faliero (1835), ópera pouco conhecida de Gaetano Donizetti, é a história de adultério envolvendo um moço aristocrata e a jovem esposa do doge de Veneza. O cenário do melodrama é evocado por uma tela: “[…] mostrou na parede um quadro com um palácio, um canal e uma ponte, falou em Marino Faliero, que não sei quem foi” (Ramos, 2012a, pp. 90, 94).O mote ressurge após a tentativa de suicídio de Adrião, com um tiro no peito, na fala de outro personagem: “Tanto faz morrer assim como assado. Tudo é morte. Crucificado ou de prisão de ventre, em combate glorioso ou na forca o resultado é o mesmo” (p. 220). O doge Marino Faliero fora decapitado. Ver Ashbrook, 1982, pp. 89-93, 368-374, 559-560. João Valério investe na paixão desenfreada que lhe permitiria apossar-se da potência vicária - os dotes do moço que imita o cacique, um dos caetés do relato que elabora a caçapa. Pelo ajuste de contas imaginário, ele sobrepujaria o patrão, varão solvente no plano material, à maneira do morubixaba pronto a descartar o penacho de plumas e a cingir na cabeça o enduape, o adorno da cintura que recobre a genitália. Ao exibir os trunfos na peleja erótica,encenada em devaneio, a partida se equaciona pela desforra: o pajé Adrião,“o beiço caído, a perna claudicante, os olhos embaçados”, suplantado pelo chefe João Valério, bicho feroz, enfeitado e lúbrico.4 4 Ramos, 2012a, p. 48.

O enrosco adúltero acaba vazando na cidade, humilhação que provoca o suicídio e a morte de Adrião, clímax esclarecedor dos impasses e das ambivalências do protagonista. Em vez de enxergar no desfecho trágico o ensejo para dar continuidade ao enlace com Luísa, como havia acalentado no início do romance, João Valério “murcha” e se desinteressa dela.5 5 “À noite distraía-me a repetir a mim mesmo que ainda a amava e havia de ser feliz com ela. Hipocrisia: todos os meus desejos tinham murchado” (Ramos, 2012a, p. 240). Ao que tudo leva a crer, a pulsão de João Valério se nutria da macheza sugada do “pai adotivo”, e não dos encantos da amante. Surge então a oportunidade almejada: por convite do irmão de Adrião, João Valério se torna sócio acionista da empresa, guindado de novo à condição de proprietário. A virilidade social dispensa as provas de potência sexual e, de lambujem, arrefece o entusiasmo pelo trabalho literário.

Em São Bernardo (1934), Paulo Honório, abandonado pelos pais, investe toda a energia para ascender ao status de proprietário. Por meio de expedientes e maquinações, o ex-trabalhador rural, ex-mascate e ex-negociante de gado e de miudezas alcança seu “fito na vida”, apossa-se das terras da fazenda São Bernardo, adquirida a preço aviltado. Concluídas as obras de melhoria na propriedade arruinada, Paulo Honório decide se casar e toma como esposa Madalena, de vinte e poucos anos, professora pública de primeiras letras.

Após um começo conjugal sem enguiços, logo afloram as discórdias, os bate-bocas, as desconfianças, num crescendo de hostilidades. A gravidez da mulher leva ao paroxismo o desconcerto de Paulo Honório;ele suspeita que o filho não lhe pertence.6 6 “Afastava-me, lento, ia ver o pequeno,que engatinhava pelos quartos, às quedas, abandonado. Acocorava-me e examinava-o. Era magro. Tinha os cabelos louros, como os da mãe. Olhos agateados. Os meus são escuros. Nariz chato. De ordinário as crianças têm o nariz chato. Interrompia o exame,indeciso:não havia sinais meus; também não havia os de outro homem” (Ramos, 2012b, p.160). O suicídio de Madalena prosterna o protagonista, acossado por delírios. Obcecado pela traição da mulher,7 7 “O que me faltava era uma prova: entrar no quarto de supetão e vê-la na cama com outro” (Ramos, 2012b, p. 163). fabrica um competidor apto que reverbera o tormento com a própria impotência. Na falta de apetite, imagina-se na pele de um animal incapaz de “acariciar uma fêmea”.8 8 “Que mãos enormes! As palmas eramenormes,gretadas,calosas,duras como casco de cavalo.E os dedos eram também enormes, curtos e grossos. Acariciar uma fêmea com semelhantes mãos!” (Ramos, 2012b, p.164). A escalada do ciúme talha o quadro dos caboclos da lavoura acasalando a esposa, outra ameaça de castração, consumando o remate do narrador como parceiro viril.9 9 “A infelicidade deu um pulo medonho: notei que Madalena namorava os caboclos da lavoura. Os caboclos, sim senhor. Às vezes o bom senso me puxava as orelhas: — Baixa o fogo, sendeiro. Isso não tem pé nem cabeça” (Ramos, 2012b, p. 178). Ele não consegue se apegar ao filho,recém-nascido,como se fora o rebento de sua inadequação.10 10 “É certo que havia o pequeno, mas eu não gostava dele.Tão franzino, tão amarelo!” (Ramos, 2012b, p.206).

A mobilidade de Paulo Honório não estanca nem reverte a autoimagem de homem estropiado nos planos afetivo e sexual, a qual procura debelar com a conduta de superioridade que ele mesmo considera “mesquinha”. O proprietário “aleijado”, de “coração miúdo”, desconfiado de tudo e de todos, fazendo da vida uma “miséria”, busca se redimir do fracasso como amante, como pai, como provedor, ao aprontar o relato da tríplice derrota.11 11 “Se ao menos a criança chorasse… Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que miséria!” (Ramos, 2012b, p. 221).

Angústia (1936) gira em torno de Luís da Silva, filho de Camilo Pereira da Silva, neto de Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, como se o encolhimento dos sobrenomes evidenciasse o descenso na hierarquia. A menção reiterada do despojo resume a toada classista que atazana o narrador. O personagem é um amontoado de frustrações,de rancores,de invejas,tomado de ressentimento pelos que o cercam. O enredo banal engolfa as decepções que impulsionam a vendeta.

O modesto funcionário público Luís da Silva,homem solteiro que reside em companhia da criada, a crioula Vitória, se enrabicha pela filha da vizinha, Marina, com a qual tem uns amassos no quintal sem chegar ao coito. A moça se envolve com Julião Tavares, filho de um negociante, despertando o despeito do protagonista, que assassina o rival. Os críticos insistem em atribuir o crime à mágoa e ao amor ferido de Luís da Silva. O diagnóstico me parece tosco, insensível aos tormentos e às rejeições acumulados pelo personagem. Luís da Silva mata Julião não por amor a Marina,mas porque não suporta lidar com a imagem obsessiva de impotência. Carrega tal fardo desde a infância, reavivado pelas humilhações sofridas na repartição, até culminar no sentimento de recusa por parte de Marina.

Desde o começo da narrativa, a escrita toma sentido como sucedâneo de potência, revide pela perda das terras da família, pelo declínio material, pela contração do nome dinástico. O autorretrato esboçado pelo narrador de 35 anos cumula os superlativos de um tipo desprezível: “Uma criaturinha insignificante, um percevejo social, acanhado, encolhido para não ser empurrado pelos que entram e pelos que saem”.12 12 Ramos, 2012c, p. 29; “Além de tudo sei que sou feio” (p. 41). Nenhum dos três protagonistas sabe de fato “escrever”; estudaram pouco,são autodidatas como Graciliano.Pena de aluguel,Luís da Silva faz sonetos, artigos e contos para vender, pronto a executar o que for encomendado.

Eis o perfil que ele traça de Julião Tavares, o competidor pelo afeto de Marina: “Gordo, bem vestido, perfumado e falador […] bacharel […]. Vestia casaca, frequentava os bailes da Associação Comercial”, o filho do negociante de secos e molhados que circulava num espaço social privilegiado.13 13 Ramos, 2012c, p. 58. O antagonista é homem que desfruta de situação social confortável,aprecia mulheres bonitas e ainda por cima compete na prática literária.14 14 “Meses atrás se entalara num processo de defloramento, de que se tinha livrado graças ao dinheiro do pai. Com o olho guloso em cima das mulheres bonitas, estava mesmo precisando uma surra.E um cachorro daquele fazia versos,era poeta” (Ramos, 2012c, p. 91).

Dentre inúmeras cenas no livro, o episódio que elucida o desamparo de Luís da Silva é a reação ao apetite sexual do marido da vizinha, dona Rosália, um caixeiro-viajante que voltava para casa “feito um bode”. O narrador amplifica as cópulas entreouvidas em parede-meia, ruidosas, com espasmos longos, entrecortadas de palavrões: “[…] o meu quarto se enchia de órgãos sexuais soltos, voando”; “beijos compridos, chupões gorgolizados”; “resfolegar de porco fossando”.15 15 Ramos, 2012c, pp. 125, 127, 129. Em Caetés, o envolvimento de dona Maria José, a dona da hospedaria em que reside João Valério,com o italiano Pascoal — “robusto, sanguíneo e de bigodes” (Ramos, 2012a, p. 25) — prenuncia situação similar. Algumas passagens registram o voyeurismo dos pensionistas, João Valério em especial, que se mostram excitados pelos barulhos traiçoeiros no quarto do casal. O caixeiro-viajante e Julião Tavares eram sujeitos indecorosos invejados pelo protagonista, que se sentia diminuído em matéria de libertinagem: o caixeiro como arquétipo do mulherengo insaciável,16 16 “D. Rosália tinha uns espasmos longos terminados num ui! Medonho que devia ouvir-se na rua. Antes desse uivo prolongado o homem soltava palavrões obscenos” (Ramos, 2012c, p. 125). Julião como boa-pinta, “o homem odioso que tinha tudo, mulheres, cigarros?”.17 17 Ramos, 2012c, p. 232. O assassinato de Julião consuma a vingança pela impotência, pelos insucessos ao longo da vida, pelo destrato dos superiores.

Luís da Silva vivenciava enorme atividade lúbrica por procuração, cobiçando no outro os atributos que lhe faltavam, travado pelo desejo reprimido, pela frustração, pela carência. Quanto mais se flagra refém dessa cena tempestuosa de acasalamento que ele frui com lentes de aumento, antevendo na fantasia os prenúncios de gozo e preenchendo os vazios com lances picantes de sua lavra: “[…] os olhos arregalados, as ventas muito abertas, a boca pingando gosma, a cara barbuda, arranhando e escovando o couro de d. Rosália. E aquela respiração estentorosa de bicho sufocado!”.18 18 Ramos, 2012c, pp. 130, 239. Em meio a tantos incitamentos, ele começa a remoer o desenlace capaz de lhe garantir o acinte proporcional à invalidez amorosa: “Enfim desejava matar um homem que me roubava o sono”19 19 Ramos, 2012c, p. 130. - um cabra-macho. Luís da Silva fantasiava coitos em penca, gente copulando como fazia o avô Trajano,20 20 “Automóveis abertos exibiam casais, automóveis fechados passavam rápidos, e eu adivinhava neles saias machucadas, gemidos, cheiros excitantes. Todos os veículos transportavam pecados. A cidade estava em cio, era como chiqueiro do velho Trajano. Que perigo! Três horas escondido — e cá fora esta gente desenfreada, bodejando, com estilo, com demoras e requintes, mas bodejando como os bodes do velho Trajano” (Ramos, 2012c, p. 198). o dono do falo mítico.

As cenas eróticas da infância repassam na moviola fantasiosa de adolescente “congelado” no tempo,21 21 “Lembrava-me disso e apalpava com desgosto os meus muques reduzidos” (Ramos, 2012c, p. 175). incapaz de se ombrear à figura do avô, copulador legendário, que povoou a caatinga de “mulatos fortes e brabos”. Perante o depositário de sêmen prolífico, o narrador alcoviteiro admite a derrota,no fim da linha:“Veio-me a certeza de que me havia tornado velho e impotente”.22 22 Ramos, 2012c, p. 241. Do pai Luís da Silva herdou o pendor intelectual,o qual lhe parecia avizinhar-se dos sentimentos de emasculação.23 23 “Os partos de sinhá Germana perderam-se: escapou apenas Camilo Pereira da Silva, que parafusou no romance e me transmitiu esta inclinação para os impressos” (Ramos, 2012c, p. 174). Em Infância, Graciliano formula conceito semelhante a respeito de seu professor primário: “Este não tinha lugar definido na sociedade. Para bem dizer, não tinha lugar definido na espécie humana: era um tipo mesquinho, de voz fina, modos ambíguos, e passava os dias alisando o pixaim com uma escova de cabelos duros […] mirando-se num espelho, namorando-se, mordendo a ponta da língua” (Ramos, 1953, p. 180). Eis o fecho duplamente aviltante após o enforcamento do rival, que “deflorava meninas pobres”. O crime o empurra em definitivo para o abrigo literário.

Em ensaio famoso sobre Graciliano, Antonio Candido aponta a recorrência de símbolos fálicos como um elemento decisivo no imaginário sexual do personagem, obcecado pela intimidade dos outros, que fareja em tudo erupções eróticas.24 24 Candido, 1992. As cobras da fazenda do avô,os canos de água de sua casa e a corda com que enforca Julião, evocações de espaços e marcos de seu infortúnio.25 25 “As cascavéis e as jararacas tomavam banho com a gente no poço da Pedra. Uma delas se enroscara no pescoço do meu avô” (Ramos, 2012c, p. 280); “O cano estirava-se como uma corda grossa bem esticada, uma corda muito comprida […]. Mas aquele, comprido demais, pregado ao chão, não tinha jeito de arma: parecia uma corda estirada” (Ramos, 2012c, pp. 113-114). Candido enxerga em Angústia a “autobiografia potencial, a partir do eu recôndito”, registro procedente e motivado. Prefiro insistir na leitura dos romances como a diagnose ficcional matizada dos efeitos do declínio social dos ramos destituídos da oligarquia,os quais repercutem e se fazem sentir em quaisquer domínios da experiência, em especial no âmbito amoroso e sexual.

Destituídos de recursos e de meios, atormentados por repentes de grandeza, os protagonistas são desvalidos sem condições de sustar o desarranjo da virilidade: João Valério, feito acionista, mas desapossado de libido; Paulo Honório é incapaz de estender a potência conquistada de proprietário tardio à prontidão afetiva e carnal; Luís da Silva, remoendo ereções atávicas, fulmina o suporte de desejos inconfessos. Vinhetas comoventes do romance familiar freudiano, temperadas pelas desventuras dos parentes pobres da oligarquia.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • Ashbrook, William. Donizetti and his operas, Cambridge, Cambridge University Press, 1982.
  • Candido, Antonio. Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.
  • Ramos, Graciliano. Infância (Memórias). Rio de Janeiro: José Olympio, 1953.
  • _____.Caetés. Rio de Janeiro: Record, 2012a.
  • _____.São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2012b.
  • _____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c.

  • 1
    Transcrição revista da intervenção oral na mesa-redonda “Graciliano Ramos: ficha política”,11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), 3 a 7 de julho de 2013.

  • 2
    Apelido impingido pelos pais de Graciliano, equiparado ao filhote que sobrevive à custa de um estratagema: “Quando uma cria morre,tiram-lhe o couro, vestem com ele um órfão que, neste disfarce, é amamentado. A vaca sente o cheiro do filho, engana-se e adota o animal” (Ramos,1953Ramos, Graciliano. Infância (Memórias). Rio de Janeiro: José Olympio, 1953.,p.132).

  • 3
    No capítulo XII, do jantar em casa de Vitorino Teixeira, irmão de Adrião, há referências seguidas a Marino Faliero, a primeira delas enunciada por Marta Varejão, a moça recusada por João Valério como alternativa conjugal, para aludir às suspeitas do caso amoroso entre João Valério e Luísa. Marino Faliero (1835), ópera pouco conhecida de Gaetano Donizetti, é a história de adultério envolvendo um moço aristocrata e a jovem esposa do doge de Veneza. O cenário do melodrama é evocado por uma tela: “[…] mostrou na parede um quadro com um palácio, um canal e uma ponte, falou em Marino Faliero, que não sei quem foi” (Ramos, 2012a_____.Caetés. Rio de Janeiro: Record, 2012a., pp. 90, 94).O mote ressurge após a tentativa de suicídio de Adrião, com um tiro no peito, na fala de outro personagem: “Tanto faz morrer assim como assado. Tudo é morte. Crucificado ou de prisão de ventre, em combate glorioso ou na forca o resultado é o mesmo” (p. 220). O doge Marino Faliero fora decapitado. Ver Ashbrook, 1982Ashbrook, William. Donizetti and his operas, Cambridge, Cambridge University Press, 1982., pp. 89-93, 368-374, 559-560.

  • 4
    Ramos, 2012a_____.Caetés. Rio de Janeiro: Record, 2012a., p. 48.

  • 5
    “À noite distraía-me a repetir a mim mesmo que ainda a amava e havia de ser feliz com ela. Hipocrisia: todos os meus desejos tinham murchado” (Ramos, 2012a_____.Caetés. Rio de Janeiro: Record, 2012a., p. 240).

  • 6
    “Afastava-me, lento, ia ver o pequeno,que engatinhava pelos quartos, às quedas, abandonado. Acocorava-me e examinava-o. Era magro. Tinha os cabelos louros, como os da mãe. Olhos agateados. Os meus são escuros. Nariz chato. De ordinário as crianças têm o nariz chato. Interrompia o exame,indeciso:não havia sinais meus; também não havia os de outro homem” (Ramos, 2012b_____.São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2012b., p.160).

  • 7
    “O que me faltava era uma prova: entrar no quarto de supetão e vê-la na cama com outro” (Ramos, 2012b_____.São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2012b., p. 163).

  • 8
    “Que mãos enormes! As palmas eramenormes,gretadas,calosas,duras como casco de cavalo.E os dedos eram também enormes, curtos e grossos. Acariciar uma fêmea com semelhantes mãos!” (Ramos, 2012b_____.São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2012b., p.164).

  • 9
    “A infelicidade deu um pulo medonho: notei que Madalena namorava os caboclos da lavoura. Os caboclos, sim senhor. Às vezes o bom senso me puxava as orelhas: — Baixa o fogo, sendeiro. Isso não tem pé nem cabeça” (Ramos, 2012b_____.São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2012b., p. 178).

  • 10
    “É certo que havia o pequeno, mas eu não gostava dele.Tão franzino, tão amarelo!” (Ramos, 2012b_____.São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2012b., p.206).

  • 11
    “Se ao menos a criança chorasse… Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que miséria!” (Ramos, 2012b_____.São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 2012b., p. 221).

  • 12
    Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., p. 29; “Além de tudo sei que sou feio” (p. 41).

  • 13
    Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., p. 58.

  • 14
    “Meses atrás se entalara num processo de defloramento, de que se tinha livrado graças ao dinheiro do pai. Com o olho guloso em cima das mulheres bonitas, estava mesmo precisando uma surra.E um cachorro daquele fazia versos,era poeta” (Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., p. 91).

  • 15
    Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., pp. 125, 127, 129. Em Caetés, o envolvimento de dona Maria José, a dona da hospedaria em que reside João Valério,com o italiano Pascoal — “robusto, sanguíneo e de bigodes” (Ramos, 2012a_____.Caetés. Rio de Janeiro: Record, 2012a., p. 25) — prenuncia situação similar. Algumas passagens registram o voyeurismo dos pensionistas, João Valério em especial, que se mostram excitados pelos barulhos traiçoeiros no quarto do casal.

  • 16
    “D. Rosália tinha uns espasmos longos terminados num ui! Medonho que devia ouvir-se na rua. Antes desse uivo prolongado o homem soltava palavrões obscenos” (Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., p. 125).

  • 17
    Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., p. 232.

  • 18
    Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., pp. 130, 239.

  • 19
    Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., p. 130.

  • 20
    “Automóveis abertos exibiam casais, automóveis fechados passavam rápidos, e eu adivinhava neles saias machucadas, gemidos, cheiros excitantes. Todos os veículos transportavam pecados. A cidade estava em cio, era como chiqueiro do velho Trajano. Que perigo! Três horas escondido — e cá fora esta gente desenfreada, bodejando, com estilo, com demoras e requintes, mas bodejando como os bodes do velho Trajano” (Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., p. 198).

  • 21
    “Lembrava-me disso e apalpava com desgosto os meus muques reduzidos” (Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., p. 175).

  • 22
    Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., p. 241.

  • 23
    “Os partos de sinhá Germana perderam-se: escapou apenas Camilo Pereira da Silva, que parafusou no romance e me transmitiu esta inclinação para os impressos” (Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., p. 174). Em Infância, Graciliano formula conceito semelhante a respeito de seu professor primário: “Este não tinha lugar definido na sociedade. Para bem dizer, não tinha lugar definido na espécie humana: era um tipo mesquinho, de voz fina, modos ambíguos, e passava os dias alisando o pixaim com uma escova de cabelos duros […] mirando-se num espelho, namorando-se, mordendo a ponta da língua” (Ramos, 1953Ramos, Graciliano. Infância (Memórias). Rio de Janeiro: José Olympio, 1953., p. 180).

  • 24
    Candido, 1992Candido, Antonio. Ficção e confissão: ensaios sobre Graciliano Ramos. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992..

  • 25
    “As cascavéis e as jararacas tomavam banho com a gente no poço da Pedra. Uma delas se enroscara no pescoço do meu avô” (Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., p. 280); “O cano estirava-se como uma corda grossa bem esticada, uma corda muito comprida […]. Mas aquele, comprido demais, pregado ao chão, não tinha jeito de arma: parecia uma corda estirada” (Ramos, 2012c_____.Angústia. Rio de Janeiro: Record, 2012c., pp. 113-114).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Nov 2016

Histórico

  • Recebido
    31 Dez 2015
  • Aceito
    06 Maio 2016
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