Resumo:
A pandemia de covid-19 impactou a vida de milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive a dos adolescentes, que, em virtude do isolamento social, foram privados do convívio com seus pares, com a escola e com pessoas fora do contexto familiar mais próximo. Esta pesquisa objetivou compreender a experiência de ser adolescente durante esse período. Foi utilizado o método progressivo-regressivo, ou biográfico, de Sartre, realizando-se a análise-regressiva e a síntese-progressiva a partir da coleta dos depoimentos de oito adolescentes, que foram abordados por meio desta questão: “como foi para você a experiência vivida de ser adolescente durante a pandemia de covid-19”? Os dados coletados foram analisados em quatro etapas: transcrição das falas das entrevistas fenomenológicas; redução fenomenológica dos depoimentos transcritos; elaboração das unidades de sentido; e interpretação das estruturas de situação. Dos resultados da pesquisa, emergiram as seguintes categorias ou unidades de sentido: escolha profissional; suicídio como fenômeno da existência; influência da sociedade; repercussões emocionais; relações sociais; isolamento social na educação; e retorno ao contato presencial. A pesquisa desvelou sentimentos como medo, tristeza, angústia e ansiedade, resultados das limitações impostas pela pandemia de covid-19 aos projetos de ser dos adolescentes.
Palavras-chave:
Adolescência; Covid-19; Fenomenologia existencial; Sartre
Abstract:
The COVID-19 pandemic impacted the lives of millions of people worldwide, among them teenagers who, due to social distancing measures, were deprived of socializing with their peers, school and people outside their closest family context. This research investigated the experience of being a teenager during the COVID-19 pandemic. Sartre’s progressive-regressive or biographical method was used, based on regressive analysis and progressive synthesis, to collect the testimonies of eight teenagers who answered the question: “what was the lived experience of being a teenager during the COVID-19 pandemic like for you”? Data analysis involved four stages: transcription of statements from phenomenological interviews; phenomenological reduction of transcribed statements; elaboration of units of meaning; and interpretation of situation structures. From the research results, the following categories or units of meaning emerged: professional choice; suicide as a phenomenon of existence; influence of society; emotional repercussions; social relationships; social isolation in education; and return to face-to-face contact. The research revealed feelings such as fear, sadness, anguish and anxiety as a result of the limitations imposed by the COVID-19 pandemic on adolescents’ projects of being.
Keywords:
Adolescence; COVID-19; Existential phenomenology; Sartre
Resumen:
La pandemia de la covid-19 ha impactado la vida de millones de personas en todo el mundo y, entre ellos, los adolescentes, quienes debido al aislamiento social se han visto privados de socializar con sus pares, con la escuela y con personas ajenas a su familiar más cercano. Esta investigación tuvo como objetivo comprender la experiencia de ser adolescente durante ese período. Se utilizó el método progresivo-regresivo o biográfico de Sartre basado en el análisis regresivo y la síntesis progresiva a partir de la recopilación de los testimonios de ocho adolescentes que fueron abordados con esta pregunta: “¿Cómo has vivido la experiencia de ser adolescente durante la pandemia de la covid-19”? Los datos recopilados se analizaron en cuatro etapas: transcripción de declaraciones de las entrevistas fenomenológicas; reducción fenomenológica de declaraciones transcritas; elaboración de unidades de significado; e interpretación de estructuras situacionales. De los resultados de la investigación surgieron las siguientes categorías o unidades de significado: elección profesional; el suicidio como fenómeno de la existencia; influencia de la sociedad; repercusiones emocionales; relaciones sociales; aislamiento social en la educación; y volver al contacto cara a cara. Esta investigación reveló sentimientos, como miedo, tristeza, angustia y ansiedad, resultados de las limitaciones impuestas por la pandemia de la covid-19 a los proyectos de ser de los adolescentes.
Palabras clave:
Adolescencia; Covid-19; Fenomenología existencial; Sartre
Introdução
A covid-19 é uma doença respiratória aguda, causada por um “novo” coronavírus, chamado SARS-Cov-2. O primeiro caso surgiu em dezembro de 2019, identificado como um surto de pneumonia de origem desconhecida, mas que envolveu pessoas que tinham em comum o contato com o Mercado Atacadista de Frutos do Mar de Wuhan, na província de Hubei, na República Popular da China (Gomes & Dutra, 2021).
Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o “novo” surto do coronavírus (SARS-CoV-2) uma pandemia (Lins, 2021). Diante de tal situação, o status da doença se alterou por conta dos altos índices da transmissão do vírus, espalhando-se mundialmente. Importantes segmentos da sociedade foram impactados diante desse cenário de excepcionalidade, que transformou de forma intensa, rigorosa e exponencial os modos de produção e, consequentemente, os aspectos econômicos, culturais, sociais e educacionais de diversas nações (Rodrigues, 2020). Se a população em geral teve sua dinâmica de vida transformada, pode-se indagar como foi, para os adolescentes, ficar longe da escola e de seus relacionamentos afetivos, culturais e psicossociais, tão importantes para sua existência.
A adolescência pode ser compreendida como o período de desenvolvimento biopsicossocial que se estende dos 12 aos 18 anos, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA (Lei nº 8.069, 1990). Assim, esta pesquisa partiu da concepção de que a adolescência se caracteriza como um período entre a infância e a vida adulta, que se manifesta por meio de mudanças no desenvolvimento sexual, mental, físico e social, relacionadas às configurações culturais da sociedade em que o indivíduo está inserido (Eisenstein, 2005).
Com a pandemia de covid-19, muitas pessoas, inclusive os adolescentes, viram-se obrigadas a mudar suas rotinas diárias. Nesse cenário, a vida dos adolescentes foi afetada nas suas mais diversas esferas, tais como sociabilidade, espaço familiar, trabalho, estudos e saúde mental, o que se acrescentou às diversas desigualdades socioeconômicas, educacionais, geográficas, de gênero e étnicas preexistentes à pandemia de covid-19 (Blundell, Dias, Joyce, & Xu, 2020). Muitos adolescentes se viram presos a uma tela de computador, tendo suas relações sociais limitadas, especialmente com seus pares, ou expostas em casa, faltando-lhes espaço para a privacidade (Balhara, Kattula, Singh, Chukkali, & Bhargava, 2020).
Um fenômeno significativo que ocorreu na vida desses jovens com o avanço planetário da pandemia de covid-19 foi a grande quantidade de informações consumida por eles, algumas delas discordantes, gerando confusão e mudanças de comportamento, que podem ter acarretado graves consequências para sua saúde mental, provocando mesmo adoecimento psicológico (Lima et al., 2020).
Com o isolamento social, fruto da pandemia de covid-19 e um dos meios viáveis para impedir a transmissão do vírus, os adolescentes enfrentaram diversos obstáculos, especialmente relativos à distância dos colegas e à falta de exercícios físicos, entre outros (Xiao & Li, 2020). Nesse sentido, Kato, Sartorius e Shinfuku (2020) alertam que os adolescentes, ao ficarem isolados dos amigos, evidenciam agravo no desenvolvimento da psicopatologia na juventude. Assim, a pandemia de covid-19 implicou muitos desafios aos adolescentes, em especial àqueles que tinham antecedentes estressantes no começo das suas vidas, configurando um acréscimo de risco à sua saúde mental.
A mudança abrupta na vida dos adolescentes também ocorreu na escola, tendo mais de 188 nações ao redor do mundo suspendido as atividades escolares no modo presencial, o que atingiu 98,5% dos estudantes em escala global (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization, 2022). Dessa forma, a pandemia de covid-19 impulsionou o ensino emergencial on-line, tendo as escolas aderido às plataformas digitais como medida de curta duração para os sistemas de educação em todo o mundo (Setiawan & Ilmiyah, 2020).
Diante de tal contexto, este artigo é um recorte de dissertação de mestrado que buscou compreender, descrever e discutir a experiência de ser adolescente em meio à pandemia de covid-19 a partir da fenomenologia existencial de Jean-Paul Sartre (1943/2015). Dessa forma, abre-se um campo para discutir a adolescência conforme a concepção fenomenológico-existencial sartreana, segundo a qual o homem é um ser de situação, histórico, social e concreto, que vive numa relação dialética com o mundo.
A adolescência e as estruturas de situação: a pandemia de covid-19 sob o viés sartreano
Para Sartre (1943/2015), as estruturas de situação são quesitos fundamentais para a compreensão da liberdade humana, pois o homem é um ser-para-si, consciente de si mesmo, mas sua liberdade é sempre vivida em situação; por conseguinte, para Sartre, o homem é livre, pois sempre escolhe - e não pode não escolher - diante de uma situação, o que dá fundamento aos seus valores. Nesse sentido, deve-se destacar, conforme esclarece Englebert (2017): “. . . o que interessa a Sartre . . . na íntegra de seu trabalho é o homem no mundo, tal como se apresenta através de uma multiplicidade de situações: no café, em família ou na guerra. . . . Eis o programa de uma hermenêutica da existência, que trata de fundar uma antropologia a partir do fenômeno emocional, uma vez que o homem só pode existir como situação” (p. 80).
Nesse sentido, para o pensador francês, as estruturas de situação são elementos que compõem a liberdade humana e podem ser experienciadas e vividas de acordo com a cultura, a história e a forma como os homens se relacionam consigo mesmos, com os outros e com o mundo. Portanto, a perspectiva sartreana leva em consideração que o homem é um ser-no-mundo.
Em O Ser e o Nada (Sartre, 1943/2015), pode-se perceber que as estruturas de situação não se manifestam de forma isolada. Assim, nesta pesquisa, ao destacar uma situação específica, leva-se em consideração que isso apenas pode ser feito sinteticamente, aparecendo articulada às demais. Em sua obra, Sartre desdobra uma dada situação a partir das seguintes contingências ou estruturas: meu lugar, meu passado, meus arredores, meu próximo e minha morte.
Diversas questões existenciais atravessam o cotidiano dos adolescentes, como ficou evidente durante e após a pandemia de covid-19, situação que interferiu significativamente na sua liberdade. Nesse sentido, compreende-se que o homem só é livre em situação (Sartre, 1943/2015). Assim, a pandemia de covid-19 convida a compreender a experiência vivida dos adolescentes em sua totalidade, a partir de um diálogo com a concepção de situação (Sartre, 1960/1966), ou seja, considerando o lugar ou o contexto em que a viveram, como seu passado influenciou suas vivências no presente, quais foram os seus arredores, quem eram os outros ou as pessoas que com eles conviviam (meu próximo) e, por fim, como lidaram com a possibilidade de sua morte ou de seus entes queridos, ameaça concreta provocada pela pandemia de covid-19.
Nessa situação alguns adolescentes, em suas casas, sentiram-se exilados do mundo do qual fazem parte, desvelando um sentimento de não estar no seu próprio lugar. Sua condição de confinamento em virtude da pandemia provocou, em alguns casos, uma percepção de não pertencimento aos seus lares, que se tornaram espaços de convívio forçado, como destacam alguns de seus depoimentos. Esse não reconhecimento do lar, o mais básico e principal lugar da vida cotidiana, configura uma existência limitada (Sartre, 1943/2015).
Diante do isolamento social por conta da crise sanitária, tais adolescentes sentiram-se não mais habituados em suas próprias casas. Para Tuan (2013), não valorizar o primeiro espaço, a casa, é não dar importância a pensar o mundo, ou seja, num sentido mais amplo, não se responsabilizar pelos “modos de ver e viver o espaço” (Castro, Gomes, & Corrêa, 2012, p. 7).
Assim, o meu lugar confere um espaço no qual o adolescente habita, muitas vezes desde o nascimento, que oferece certa gama de possibilidades de estar-no-mundo, implicando uma localização como contingência e que contextualiza sua liberdade (Sartre, 1943/2015), mas, também, o clima, o solo e as riquezas do lugar, que o constituem como espaço vital e determinante para as escolhas do adolescente como exercício de sua liberdade, que foi fortemente restringida em virtude da pandemia de covid-19 (Ehrlich, 2002). Ao considerar a liberdade a constituinte do homem, Sartre (1943/2015) afirma que a facticidade - ser de fato - do seu lugar é revelada pela escolha do seu projeto de ser, ou seja, por uma liberdade em direção ao futuro.
Pretto (2003) situa o meu lugar como modo de ser-no-mundo, isto é, como espécie de pertença do homem, ligado a um contexto que aparece e impõe dialeticamente o seu oposto, o que não é, criando condições para determinadas ações que fazem sentido ao meu lugar e à situação em que vivo. Assim, a pandemia de covid-19 é uma situação vivida num certo tempo, e, nesse sentido, esta pesquisa indaga o que ela significou para os adolescentes em relação ao seu lugar de pertença, considerando que não é possível determinar a priori como a situação de uma pessoa é vivida ao residir na periferia ou na zona central de uma grande metrópole, num outro país ou continente. Isso acontece, precisamente, porque a facticidade do meu lugar está deveras iluminada pela condição de liberdade que sou (Ehrlich, 2002) e pelas minhas escolhas diante da facticidade de estar-no-mundo (Sartre, 1943/2015).
Dessa forma, é compreensível a insistência dos adolescentes de querer sair do seu lugar durante o confinamento em virtude da pandemia de covid-19, pois tal necessidade está vinculada à sua existência, ocupando outros lugares de reconhecimento, pois o homem é ontologicamente liberdade, podendo, assim, considerar o seu lugar como uma condição humana (Sartre, 1943/2015). Como lidam com uma característica ontológica humana, plena de recursos, os adolescentes procuram seu lugar em outros espaços em que podem experimentar o mundo como seres-para-si e como seres-com-o-outro, ou seja, com seus pares, longe do olhar-do-outro, especialmente dos seus pais e mães, o que explica, pelo menos em parte, o êxodo dos adolescentes de certas redes sociais, frequentemente mais conectadas por pessoas de idades mais maduras (Gomes, 2014).
Por sua vez, o passado ou a história de vida dos adolescentes, outro componente da estrutura da situação como dimensão temporal de seus seres-para-si, significa que sua existência ocorre num processo ininterrupto, no qual passado, presente e futuro constituem uma totalidade, num permanente movimento dialético com o mundo (Ehrlich, 2002).
A pandemia de covid-19 tem marcado de forma sui generis toda a humanidade, mas especialmente os adolescentes, que têm vivido e experienciado tais acontecimentos históricos de forma concreta (Oliveira et al., 2020), afetando a expressão das suas representações no mundo. Deve-se ter em conta que o homem não pode fugir à facticidade do seu passado, comprometendo sua existência presente e futura (Sartre, 1943/2015). Para Sartre, o passado, como estrutura da situação, refere-se a acontecimentos concretos e históricos da sua dimensão de ser-no-mundo, envolvendo, na contemporaneidade, suas experiências vividas face ao isolamento social provocado pela pandemia.
Como constituinte deste mundo, o passado, queiramos ou não, faz-se inevitavelmente presente, como especificamente ocorreu com o isolamento social em virtude da pandemia de covid-19 sobre as vivências dos adolescentes. Entretanto, Sartre (1943/2015) argumentava que o passado não é um fator preponderante na situação presente de um sujeito, mas um produto das suas escolhas e ações. Pretto (2003), ao discorrer sobre as estruturas de situação propostas por Sartre, explica que o passado é constitutivo do ser temporal, pois movimenta e orienta o sujeito em suas ações e em várias direções. O passado interfere no presente dos adolescentes do ponto de vista existencial, agindo sobre seus projetos de ser. Desse modo, o adolescente, ao perceber-se impedido de vivenciar plenamente a liberdade de sua existência por conta do isolamento social decorrente da pandemia, sente, de pronto, vedado o seu projeto de ser, bloqueando seu ser-para-si no mundo e impedindo-o de ser-com-o-outro (Schneider et al., 2021).
Os meus arredores não significam o mesmo que os meus lugares. Quando me aproprio de certo lugar, deparo-me com novas descobertas, de modo que ocorre uma mudança de meus arredores. Sartre (1943/2015) exemplificava os meus arredores da seguinte forma:
. . . quero chegar de bicicleta à cidade vizinha, o mais rápido possível. Esse projeto subentende meus fins pessoais, a apreciação de meu lugar e da distância entre a cidade e meu lugar, e a livre adaptação dos meios (esforços) ao fim perseguido. Mas fura um pneu, o sol está forte demais, o vento sopra de frente etc., todos fenômenos que não havia previsto: são os arredores (p. 620).
Assim, o adolescente, ao confrontar-se na impossibilidade, por conta da pandemia de covid-19, de vivenciar plenamente seu ser-para-si, ou seja, de realizar seu projeto de ser (Schneider et al., 2021), de ampla descoberta do mundo, de exercício da liberdade e das suas possibilidades de ser, corre o risco de regredir a um ser-em-si, estático, fechado e predeterminado, invertendo o nada fértil, o “buraco” do ser que permite o reconhecimento dessas possibilidades, o que o aproxima da ideia de uma finitude antecipada, porque regressiva, pois subjaz ao seu passado (Sartre, 1943/2015).
Ao ser impedido de ser-com-o-outro, o adolescente fica impossibilitado de vivenciar adequadamente os conflitos profícuos que lhe permitem se beneficiar de um olhar que, simultaneamente, o transforma em objeto e o convida a objetivar-se em defesa da sua subjetividade (Sartre, 1943/2015). Assim, a partir de Sartre, é possível discutir a existência material no mundo e a subjetividade coletiva (ou intersubjetividade) dos adolescentes ante a pandemia de covid-19 como estruturas de situação, na sua relação com o mundo concreto, com os objetos (em-si), e como seres-para-os-outros, ou seja, como substâncias da sua condição de existência no mundo e das suas relações com os outros.
Na falta de contato com a diferença do olhar-do-outro, apenas restaria ao adolescente limitar-se ao seu ser-para-si, ou seja, à sua própria consciência, uma vez que o seu ser-com-o-outro (Sartre, 1943/2015), especialmente na adolescência, quando voltado de forma única e prolongada apenas aos pais, coloca-o numa posição passiva ou de recusa sistemática do olhar parental, adotando uma atitude comumente observada na resistência e no alheamento defensivos e indiferentes do adolescente perante os acontecimentos que ocorrem no seio familiar. Assim, mesmo que virtualmente, em decorrência da covid-19, os adolescentes mantiveram relações com o seu próximo, uma estrutura de situação do em-si/para-si, ou seja, com os pares, os amigos, os colegas da escola, os professores e os familiares, entre outras pessoas, em uma relação de proximidade com os acontecimentos-situação.
Segundo Sartre (1943/2015), habitar um mundo infestado com o meu próximo não é apenas estar-com-o-outro a cada curva do caminho, mas também significa estar em sintonia com o mundo em situação: nesse caso, o mundo vivido com os outros durante a pandemia. O mundo, na perspectiva de Sartre, é o mundo da liberdade, e, com efeito, o homem está “lançado” numa determinada situação, como ocorreu com a pandemia de covid-19, a que os adolescentes tiveram que estar sujeitos. Entendia o filósofo existencialista que a situação do meu próximo é constituída de alguns graus de escolha que fundamentam o para-si, que se relaciona consigo mesmo e com os acontecimentos vividos: durante a pandemia, os adolescentes precisaram decidir entre estar e não estar-com-o-outro.
Como alegava Sartre (1943/2015), “assim, estamos rodeados de irrealizáveis até o infinito. Sentimos vivamente alguns deles como exasperantes ausências. Quem não sentiu profunda decepção por não poder . . .?” (p. 647). Assim, a pandemia de covid-19 parece ter sido um irrealizável (Schneider et al., 2021), uma situação que o homem não escolheu, mas teve que escolher o que fazer diante dela e dos outros. Como a situação é/era pandêmica e provocou o isolamento social, os adolescentes se pautaram na atribuição de um sentido a esse em-si (a pandemia) irrealizável, que se configurou a partir de sua existência com os outros, isto é, há/houve uma implicação na constituição de sua liberdade, que se configurou como uma nova situação que possivelmente precisou ser compreendida como um motivo para construir o seu projeto de ser.
Dessa forma, o adolescente necessita aceder à possibilidade de não estar e de perceber-se fora do seu lugar para consolidar seu projeto de ser (Schneider et al., 2021), situações simultaneamente negadas, impedidas ou dificultadas durante a pandemia de covid-19, o que parece ter exacerbado sua angústia, que, para Kierkegaard (1844/2010), pode ser um motor da ação e mesmo da evolução humanas, mas também um “abismo” para sua involução, porquanto se impõe por meio de restrições regressivas, impossibilitantes do seu projeto de ser (Schneider et al., 2021).
A morte é outra estrutura da situação, implicando, para o homem, tanto seu nascimento (com risco de extinção de sua existência) quanto sua própria facticidade ao longo da vida, até sua concretização final (Sartre, 1943/2015). Sobre a morte, Sartre explicava: “é absurdo que tenhamos nascido, é absurdo morrermos; por outro lado, esta absurdidade se apresenta como alienação permanente de meu serpossibilidade, que não é mais minha possibilidade, mas a do outro” (p. 670). Portanto, para Sartre, a morte configura um absurdo, pois se desvela como um limite à vida do ser humano.
Certamente, a pandemia de covid-19 posicionou a todos diante da situação de que somos humanamente finitos, e os adolescentes, via de regra, também se viram diante do espectro da morte como finitude existencial e, ainda, de um tempo que foi vivenciado como limitação de seu projeto de ser, pois direcionado a um futuro consideravelmente mais incerto (Sartre, 1943/2015). A morte, segundo Sartre, “é um puro fato, como o nascimento; chega-nos de fora e nos transforma em lado de fora puro. No fundo, não se distingue do absoluto do nascimento, e é tal identidade entre nascimento e morte que denominamos facticidade” (Sartre, 1943/2015, p. 668). Assim, mesmo num tempo ordenado e, apesar de haver decorrido um período entre antes e depois da pandemia de covid-19, devido à ausência de acontecimentos sociais e movimentos de mudança por conta do isolamento social, sobressai uma ausência de sentido, de propósito e de projeto de ser por parte dos adolescentes. Nesse sentido, minha morte, como estrutura de situação, pode revelar-se a mim como possibilidade de escolha, pretensamente me libertando da sua coerção, apesar de constituir a aniquilação do para-si, ou seja, da consciência humana e, consequentemente, do seu projeto de ser (Schneider et al., 2021).
Em suma, as estruturas de situação, do ponto de vista sartreano, convidam a compreendê-las como bases para a discussão dos projetos de ser e das escolhas profissionais dos adolescentes como experiências vividas durante e após a pandemia de covid-19.
Método
Este estudo é uma pesquisa qualitativa que teve como objetivo não apenas explicar a mensuração dos fenômenos (Gil, 1999), mas compreender o que significa ser adolescente em meio à pandemia de covid-19, sendo fundamentada no método progressivo-regressivo, ou biográfico, desenvolvido a partir da fenomenologia existencial de Sartre (1943/2015; 1960/1966). Tal método vai ao encontro da lógica que procura a compreensão do sujeito a partir das suas realidades históricas. Nesse sentido, deve-se destacar que esta pesquisa teve como principal objeto de estudo os adolescentes nas suas singularidades e nas suas relações sociais com o mundo. Dessa forma, a pesquisa investigou a experiência vivida de ser adolescente durante a pandemia de covid-19 a partir dos depoimentos de estudantes de uma escola pública do ensino médio de Fortaleza, Ceará, Brasil.
Os participantes da pesquisa foram oito adolescentes com idades compreendidas entre 16 e 18 anos. O campo de estudo foi uma unidade escolar localizada em Fortaleza, pertencente à rede pública de ensino do Governo do Estado do Ceará. Foi realizada uma entrevista fenomenológica com cada adolescente, que possibilitou a descrição das suas experiências, a partir da questão norteadora “como foi para você a experiência de ser adolescente durante a pandemia de covid-19?”, permitindo que os sentidos atribuídos pelos adolescentes à situação vivida emergissem (Sartre, 1960/1966). As entrevistas foram realizadas entre novembro e dezembro de 2022. Para que fosse possível realizar a pesquisa, ela foi submetida à aprovação de um Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, sendo aprovada sob o n° 5.497.473. Os adolescentes da pesquisa foram convidados a assinar o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), bem como o termo de assentimento livre e esclarecido (TALE), que foi também assinado por seus pais ou responsáveis. Para garantir o sigilo e a confidencialidade dos participantes, foram-lhes atribuídos nomes fictícios: Érico (16 anos, aluno do 1º ano do ensino médio); Sandra (17 anos, aluna do 2º ano); Nicolas (16 anos, aluno do 1º ano); Samuel (17 anos, aluno do 2º ano); Carolina (18 anos, aluna do 3º ano); Gabriela (17 anos, aluna do 2º ano); Samara (17 anos, aluna do 2º ano); e Victor (17 anos, aluno do 2º ano).
As entrevistas foram realizadas em um laboratório da escola, local em que os adolescentes puderam descrever suas experiências de forma livre, sob sigilo profissional. As falas dos adolescentes foram gravadas no celular do pesquisador, transcritas (descrição) e analisadas na íntegra a partir das estruturas de situação (redução), segundo o método progressivo-regressivo, ou biográfico, discutindo-as e interpretando-as à luz da perspectiva fenomenológico-existencial de Jean-Paul Sartre (1943/2015; 1960/1966).
A fenomenologia, como método, pretende compreender de que formas a realidade humana é vivida, explorando os sentidos a ela atribuídos, construídos como uma essência, mas que são, na verdade, as próprias maneiras de ser dos sujeitos concretos investigados (Boris, Nogueira, & Pereira, 2018). A análise dos dados coletados da pesquisa foi desenvolvida em quatro etapas, conforme propostas por Sartre (1960/1966): a) transcrição (descrição) das falas dos adolescentes a partir das entrevistas fenomenológicas; b) redução fenomenológica dos depoimentos transcritos, selecionando as falas que mais expressam os sentidos atribuídos pelos adolescentes à sua experiência na situação da pandemia de covid-19; c) elaboração de categorias ou unidades de sentido a partir das estruturas de situação: meu lugar, meu passado, meus arredores, meu próximo e minha morte; e d) interpretação (discussão) das estruturas de situação e das unidades de sentido à luz dos fundamentos teóricos sartreanos: angústia, projeto de ser, liberdade, situação, escolhas etc.
Resultados e discussão
Os adolescentes entrevistados descreveram suas vivências existenciais diante de um fenômeno novo e diferente, irrealizável (Sartre, 1943/2015; Schneider et al., 2021), a emergência sanitária da covid-19, que provocou interferências nos seus planos e metas, emergindo, nas entrevistas, como falas que expressavam as seguintes categorias ou unidades de sentido: escolha profissional; suicídio como fenômeno da existência; influência da sociedade; repercussões emocionais; relações sociais; isolamento social; e retorno ao contato presencial.
Escolha profissional
É importante compreender como se constrói o processo de escolha profissional dos adolescentes, considerando, especialmente nos tempos recentes, as possíveis interferências provocadas pela pandemia de covid-19. Nesse contexto da situação pandêmica, Érico comentou sobre seu projeto de ser e sua escolha em relação ao trabalho: “eu não pensava, antes da pandemia, mas, na pandemia, com o tempo que me foi dado, comecei a pensar na minha escolha profissional, no meu futuro”. Seu depoimento corrobora o que afirmava Sartre (1946/2014): “o homem nada mais é do que seu projeto; só existe na medida em que se realiza; não é nada além do conjunto de seus atos, nada mais que sua vida” (p. 13). Tal projeção no futuro pode ser percebida também na fala de Samuel: “ . . . eu tinha muita dúvida sobre a profissão que queria ser no futuro. Eu não sabia o que queria. A pandemia me ajudou muito a ver o que eu queria ser no futuro”. As escolhas individuais, como destacava Sartre, podem mesmo impactar diretamente a vida e a liberdade do outro: “sou, desse modo, responsável por mim mesmo e por todos e crio determinada imagem do homem por mim mesmo escolhido; por outras palavras: escolhendo-me, escolho o homem” (p. 5). Deve-se esclarecer que não se trata de que o homem, por ser livre, decida a realidade do mundo, mas que sempre escolhe o que fazer diante dela.
Suicídio como fenômeno da existência
Como consequências do isolamento social durante a pandemia de covid-19, muitos problemas de saúde mental foram manifestados ou agravados em decorrência da necessidade de novas formas de ajustamento às rotinas, ocorrendo situações de ideação suicida, como expressaram Nicolas e Samuel. Para Nicolas: “teve uma hora que pensei em me matar, não vou mentir: não estava aguentando mais . . . O que tirou esse pensamento de mim foi: ‘e se eu morrer, como a minha mãe vai ficar’?” Acrescentou: “pensei várias vezes no suicídio; pensei em me cortar, mas é difícil”. Assim, a situação (Sartre, 1943/2015) da pandemia confrontou Nicolas com a possibilidade de escolher provocar o fim da sua própria existência.
Por sua vez, Samuel disse:
a pandemia foi uma experiência que me ‘quebrou’. Foi a separação da minha amiga, fiquei ‘sem chão’ . . . Lido muito mal com as coisas: falta de maturidade. Foi a primeira vez que tive a ‘brilhante ideia’ de me matar. Muitas coisas ao mesmo tempo. Não tive apoio de ninguém, mas acabei por não fazer besteira . . . eu consegui. Não dava mais para mim, mas eu aguentei. Passei dias chorando.
Nesse sentido, as palavras de Samuel corroboram as de Sartre: “vou emergindo sozinho e na angústia frente ao projeto único e inicial que constitui meu ser; todas as barreiras, todos os parapeitos desabam, nadificados pela consciência de minha liberdade . . . tenho de realizar o sentido do mundo e de minha essência: eu decido, sozinho, injustificável e sem desculpas” (p. 84).
Influência da sociedade
É comum que os pais, especialmente aqueles de classes socioeconômicas mais favorecidas, estimulem que seus filhos adolescentes ingressem na universidade logo que concluam o ensino médio. Carolina também reconheceu que a pressão aumentou durante a pandemia de covid-19: “sempre tive essa pressão de ir para a universidade . . .”. Para Gabriela, a pressão é mais social do que familiar: “fazer o ENEM, como se fosse a única porta, ser alguém. Eu não sinto pressão da minha família . . ., mas da sociedade”. Finalmente, Samara lamentou que a pandemia a tenha feito desistir dos seus sonhos e planos:
a pandemia . . . trouxe prejuízos às minhas expectativas de futuro: queria a faculdade; desisti de fazer a faculdade. Eu sempre tive um plano para fazer as coisas. Tinha um plano para o meu futuro. Tinha muita fé nisso . . . A pandemia me tirou o sonho de fazer a faculdade.
A narrativa de Samara aproxima-se do que Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, expressou, no seu poema “Tabacaria”, ao falar sobre o sentimento de fracasso e de não realização de seu projeto de ser (Sartre, 1943/2015; Schneider et al., 2021): “não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo” (Pessoa, 1933/1944, p. 1-15).
Repercussões emocionais
Com a crise pandêmica advinda do “novo” coronavírus (covid-19), muitos adolescentes viram suas rotinas mudarem, gerando sentimentos de medo da própria morte e de seus entes queridos, ansiedade, angústia, depressão e/ou estresse: “eu não esperava que a minha adolescência fosse assim: tive que ficar em casa, não podia estar com os meus amigos, perdi amigos na pandemia . . . As minhas crises de ansiedade pioraram na pandemia: . . . fiquei com medo de sair à rua, tinha medo de perder o meu pai” (Samara).
“Pensei que com este vírus todo o mundo ia morrer” (Érico). Ele acrescenta que, na pandemia, viveu a experiência de ser adolescente, e que foi um período “cheio de mudanças, a puberdade. Descobri várias coisas, criei a minha personalidade”. A intensidade das emoções foi destacada por Érico, diante do espectro da incerteza. Ele esclarece que, “enquanto adolescente, a pandemia teve momentos bons e ruins. Foi complicado viver com a minha família: . . . tinha muito conflito verbal, não de brigas . . . e tudo isso me incomodava como adolescente . . .”
Gabriela também comentou que “a ansiedade se agravou na pandemia. Já tinha antes da pandemia”. Carolina reconheceu que “a pandemia mexeu muito com as minhas emoções: entrei na depressão, na ansiedade”. Victor disse ter vivido experiência semelhante: “já tinha um pouco de depressão antes da pandemia e um pouco de ansiedade. A pandemia acelerou a depressão”. Samuel resumiu sua experiência vivida assim: “muito estressante”. Sobre essa situação, Tyminski (2021) alerta que o medo do vírus foi uma constante em todas as fases da pandemia de covid-19. Como já foi destacado, tal imprevisibilidade constitui um irrealizável (Sartre, 1943/2015), tendo atingido toda a humanidade de forma inesperada.
Relações sociais
Socialmente, a adolescência pode ser uma fase em que é comum uma intensa partilha com os outros, o que foi profundamente impactado pela pandemia de covid-19: “. . . ficar longe dos amigos foi triste . . . Eu gosto de ficar com as pessoas” (Sandra). Ou seja, o adolescente, ao escolher estar próximo do outro, faz “surgir uma nova dimensão de mim mesmo e de minha situação, que é meu ser para o outro, uma porção de mim que vem do outro e se constitui como exterioridade para outrem” (Castro & Ehrlich, 2016, p. 157). Nesse sentido, a pandemia gerou muitos desdobramentos na vida dos adolescentes, especialmente nas suas relações sociais. Assim, enquanto o período de confinamento gerou muita preocupação para alguns adolescentes, pois desencadeou modificações nas suas relações com seus pares e com a escola, para outros foi um ganho que possibilitou estreitamento do contato com seus familiares.
Várias foram as reações dos adolescentes diante do isolamento social em virtude da pandemia. No início, alguns adolescentes vivenciaram menor dificuldade e encararam o que acontecia com pouca seriedade, satisfeitos com o fato de as aulas terem sido canceladas, muitos deles interpretando-o como férias inusitadas. Dessa forma, Nícolas declarou:
para mim, como adolescente, foi complicado. Nunca tinha passado por uma experiência dessa . . . Agora, na minha infância, a gente está no ensino fundamental, . . . a gente fica pensando: ‘é só quinze dias a pandemia de covid-19’. Aquele negócio: . . . a gente quis que faltasse aula, aquela mentalidade de ficar em casa . . . Acabei por ter mais dificuldade na escola por causa disso.
Esta fala demonstra que o adolescente, de início, remeteu-se à infância e à sua característica despreocupação com o futuro, mas, em seguida, dando-se conta da gravidade da realidade presente, percebeu uma transformação de sua vida, envolvendo categorias ou estruturas de situação que Sartre (1943/2015) denominou de meu passado e minha morte, numa referência ao contato com sua história e com o contexto sociocultural em que vive, no qual havia claro risco à sua existência e à do outro (meu próximo).
Isolamento social na educação
Na situação pandêmica, o isolamento social acarretou o afastamento dos adolescentes do meio escolar. “Nas aulas on-line, era só eu e o professor, em uma tela”, avaliou Érico. Nicolas comentou: “sempre tive ensino presencial. Nunca tive ensino remoto. Acabou dificultando um pouco mais o meu aprendizado. . . . Tive que me acostumar com as ferramentas remotas . . . Não foi fácil conviver com tudo isso. O relacionamento com os amigos era superficial”. Na escola, o meu próximo (Sartre, 1943/2015) ficou distante.
Durante a pandemia, no contexto escolar, a experiência vivida das relações sociais dos adolescentes entrevistados passou a ser mediada digitalmente, tornando-se remota e acarretando mudanças intensas nas formas tradicionais de socialização (Miranda, Athanasio, Oliveira, & Simões-e-Silva, 2020). Nesse sentido, pode-se pensar que as relações humanas, a partir dos tempos recentes, jamais serão como antes. Ou seja, apesar dos limites apontados pelos próprios adolescentes, as relações sociais por meio digital, inclusive na escola, são uma realidade a ser considerada e uma possibilidade de ser-com-o-outro ou ser-no-mundo na contemporaneidade (Sartre, 1943/2015).
Retorno ao contato presencial
São muitos os depoimentos dos adolescentes sobre o retorno ao contato presencial, especialmente pós-pandêmico. Dessa forma, para Samuel:
a volta das aulas presenciais foi meio complicada. Não tinha que pegar ônibus no on-line, [mas] foi animadora a volta da rotina. Tive que me habituar: não sou muito de socializar, [mas] foi bom voltar ao normal. Não [me] senti muito confortável no presencial, [pois é] chato pegar ônibus.
Érico comentou: “o presencial foi algo que me abalou um pouco porque . . . eu estava meio distante, né, das pessoas”. Para Gabriela: “as aulas on-line não foram muito boas, ficavam sem foco. A volta ao presencial, no início, foi complicada porque todo mundo ficava no ‘seu canto’. Teve um choque de realidades: . . . não podia abraçar os amigos”. Esclareceu que “a gente já estava esgotado nas duas primeiras semanas de aulas . . . Na transição para o presencial, tive muitas crises: não sabia o que fazer, [pois] não entendia nada da matéria”.
Apesar de algumas resistências, os depoimentos dos adolescentes entrevistados destacam que a volta ao contato presencial era um desejo de muitos, pois não se adaptaram ao ensino on-line por diversas razões, especialmente a dificuldade de acesso à internet e de aprendizagem, bem como a ausência de contato com os professores e falta dos colegas, de socialização e da própria escola. E, ainda, o espaço escolar pode ser considerado, para a maioria dos adolescentes entrevistados, outro meu lugar, além de suas casas, ou seja, que se define “pela ordem espacial e a natureza singular dos ‘istos’ que a mim se revelam sobre fundo de mundo” (Sartre, 1943/2015, p. 602), ou, como foi destacado acima, um contexto e uma importante estrutura de situação para ser-com-o-outro ou ser-no-mundo. Como se pode perceber, os fenômenos descritos acima pelos adolescentes permitiram compreender a pandemia de covid-19 e suas repercussões como situações irrealizáveis (Sartre, 1943/2015; Schneider et al., 2021) e inesperadas, que interferiram em seus projetos de ser, gerando angústia (Kierkegaard, 1844/2010).
Como foi destacado em diversos depoimentos, os projetos de ser dos adolescentes entrevistados foram amplamente interrompidos, tendo eles sido obrigados a enfrentar novas configurações de vida e um convívio forçado com os familiares em seus espaços domiciliares compartilhados, o que limitou suas possibilidades de existência e criou uma espécie de desconforto emocional restritivo ao desenvolvimento de seus projetos de futuro (Miranda et al., 2020; Oliveira et al., 2020; Sartre, 1943/2015; Tyminski, 2021).
Considerações finais
A pandemia de covid-19, que pode ser considerada um irrealizável no sentido sartreano de um fenômeno surpreendente e inimaginável até então, teve inúmeras e profundas repercussões na saúde mental dos adolescentes, interferindo, principalmente, no seu estado emocional, gerando até mesmo algum adoecimento, em grande parte provocado pelo isolamento social forçado em seus lares (meu lugar), em decorrência das medidas impostas para o combate ao SARS-CoV-2.
Assim, a pandemia foi tanto um irrealizável quanto pura facticidade, por sua vez, inescapável, encetando que a liberdade situada dos adolescentes fosse exercida de maneiras diversas, a depender das suas escolhas, exigindo intensivo e forçado convívio com os pais e a família mais próxima, provocando, em alguns adolescentes, mais apego e proximidade, enquanto outros vivenciaram mais conflitos e crises familiares. Por conta do isolamento social, muitos deles apelaram às redes sociais, buscando manter contato com seus pares ou estabelecer novos relacionamentos socioafetivos.
Apesar do número limitado de entrevistados, pelo menos um adolescente reportou a pressão dos pais, da família e/ou da sociedade para que ingressasse na universidade, numa tentativa de que ele incorporasse tal inserção como valor significativo de seu projeto de ser, o que, se irrefletidamente assumido, pode gerar equívocos, arrependimento ou frustração com uma escolha insatisfatória.
Certamente, a pandemia de covid-19 gerou bastante sofrimento, manifestado por meio de diversas repercussões emocionais nos adolescentes, como ansiedade, desespero, desamparo, angústia, temor da morte e mesmo ideação suicida, e de algumas psicopatologias, experiências vividas num período muitas vezes perturbador de suas existências, exigindo-lhes diversas escolhas referentes aos seus projetos de ser, entre as quais se destacam as que se referem às suas relações sociais e afetivas, ao futuro - que remetem ao meu passado - e à definição profissional.
Diversos adolescentes manifestaram significativa dificuldade de adaptação à escola - considerada outro meu lugar -, por conta da nova situação criada pelo ensino remoto, reagindo com procrastinação, pouca interatividade com colegas e professores - também compreendidos como outros meus próximos -, e baixa produtividade, enfrentando diversos problemas estruturais - meus arredores -, como acesso precário à internet (baixa qualidade) e falta de computador. Por sua vez, o retorno ao convívio escolar, que mobilizou o desejo dos adolescentes de estar-com-os-outros, também gerou medo e insegurança.
Entretanto, os adolescentes, como sujeitos em situação, ao escolher as opções que a realidade lhes impõe, exercem sua liberdade situada e constroem seus projetos de ser. Assim, embora a pandemia de covid-19 tenha gerado experiências vividas consideradas complicadas pela maioria dos adolescentes, constitui um momento histórico em que se revela a necessidade de articulação entre a responsabilidade individual e a coletiva.
Nesse sentido, os resultados desta pesquisa apontam para a necessidade de reconhecer as consequências da pandemia sobre os adolescentes, especialmente no que se refere ao isolamento social, para que não venham a gerar mais sofrimento psicossocial àqueles que se aproximam da vida adulta, limitando seus projetos de ser. Ou seja, faz-se necessário construir uma rede de assistência, talvez mútua, envolvendo familiares, amigos, colegas de escola, professores e os próprios adolescentes, como seres-com-os-outros ou seres-no-mundo, para acolher e cuidar de todos em sua dimensão existencial, evitando o adoecimento mental.
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Disponibilidade de dados:
os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.https://doi.org/10.1590/1982-3703003287710
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Como citar:
Ricardo, L. M. S., & Boris, G. D. J. B. (2026). A Experiência de Ser Adolescente na Pandemia de Covid-19 sob a Perspectiva Fenomenológica de Sartre. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e284710. https://doi.org/10.1590/1982-3703003284710
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How to cite:
Ricardo, L. M. S., & Boris, G. D. J. B. (2026). Being a Teenager during the COVID-19 Pandemic. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e284710. https://doi.org/10.1590/1982-3703003284710
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Cómo citar:
Ricardo, L. M. S., & Boris, G. D. J. B. (2026). La Experiencia de Ser Adolescente en la Pandemia de la Covid-19. Psicologia: Ciência e Profissão, 46, e284710. https://doi.org/10.1590/1982-3703003284710
