RESUMO:
As forças de caráter podem ser interpretadas como a linguagem comum sobre o que há de melhor nos seres humanos. O objetivo deste artigo foi investigar as intervenções utilizadas para promover forças de caráter em crianças em seu contexto psicossocial. Trata-se de uma scoping review baseada na metodologia JBI Joanna Briggs. Foram consultadas as bases de dados Springer, Cengage Learning, ProQuest, Scopus, Web of Science, Sage Journals e Medline, do período de 2015 a maio de 2020. Foram encontrados 216 artigos, sendo incluídos seis artigos. Intervenções realizadas em sala de aula mostraram-se como predominantes para aprimorar forças de caráter em crianças. Entre as forças em destaque encontradas estão o perdão, a esperança, a responsabilidade social, o amor e a gentileza. Os achados indicam a necessidade de aprimorar estratégias de intervenções em forças de caráter na promoção da saúde mental e bem-estar desde os anos iniciais do desenvolvimento humano em contexto psicossocial.
Palavras-chave:
Forças de caráter; intervenção; crianças
ABSTRACT:
Character strengths can be interpreted as the common language of the best in human. The aim of this article was to investigate the interventions used to promote character strengths in children in their psychosocial context. It is a scoping review based on the JBI Joanna Briggs methodology. The Springer, Cengage Learning, ProQuest, Scopus, Web of Science, Sage Journals and Medline databases were consulted, from 2015 to May 2020. A total of 216 articles were found, six of which were included. Interventions carried out in the classroom were shown to be predominant to improve character strengths in children. Among the highlighted strengths found are forgiveness, hope, social responsibility, love and kindness. The findings indicate the need to improve intervention strategies in character strengths in promoting mental health and well-being from the early years of human development in psychosocial context.
Keywords:
Character strengths; intervention; children
RESUMEN:
Las fortalezas del carácter pueden interpretarse como el lenguaje común de los mejores seres humanos. El objetivo de este artículo fue investigar las intervenciones utilizadas para promover las fortalezas del carácter en los niños en su contexto psicosocial. Es una revisión de alcance basada en la metodología JBI Joanna Briggs. Se consultaron las bases de datos Springer, Cengage Learning, ProQuest, Scopus, Web of Science, Sage Journals y Medline desde 2015 hasta mayo de 2020. Se encontraron un total de 216 artículos, seis de los cuales fueron incluidos. Se demostró que las intervenciones llevadas a cabo en el aula son predominantes para mejorar las fortalezas de carácter en los niños. Entre las fortalezas destacadas encontradas están: perdón, esperanza, responsabilidad social, amor y bondad. Los hallazgos indican la necesidad de mejorar las estrategias de intervención en las fortalezas del carácter para promover la salud mental y el bienestar desde los primeros años del desarrollo humano en contexto psicosocial.
Palavras-clave:
Fortalezas del carácter; intervención; ninõs
Introdução
A psicologia positiva, originada por Seligman e outros colaboradores, vem crescendo e trazendo novas perspectivas para o desenvolvimento humano, tendo como foco a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida dos indivíduos (Schiavon et al., 2020, Reppold et al., 2019a). Na década de 2000, a American Psychology Association (APA) apontou para a necessidade de se compreender e reduzir o sofrimento psicológico a partir da promoção das potencialidades inerentes aos seres humanos. Assim, os estudos científicos acerca dos fenômenos que contribuem para o desenvolvimento sadio do ciclo vital se caracterizam por pesquisas e práticas baseadas em evidências (Seligman, 2019).
Apoiados no estudo do que leva ao florescimento humano, Peterson e Seligman (2004) deram continuidade e oficializaram o estudo sobre as forças de caráter e virtudes presentes na espécie humana, discutidas desde a antiguidade. De acordo com os autores, as forças de caráter são traços positivos, capacidades particularmente enriquecedoras, universais e valorizadas em todas as culturas que podem ser evidenciadas por meio de pensamentos, sentimentos e comportamentos; existem em diferentes níveis e são a forma de se atingir alguma virtude.
De acordo com Peterson e Seligman (2004), são 24 as forças de caráter organizadas a partir de seis virtudes, conforme se observa na Tabela 1. Vale ressaltar que as forças de caráter são expressas em graus, que são definidos pelo contexto e situação em que o indivíduo se encontra. Dessa forma, cada pessoa possui caráter necessariamente individualizado e idiossincrático, formado pela combinação de forças de caráter que não são expressas isoladamente, já que as situações normalmente demandam a expressão de mais de uma força para determinada ação (Niemiec, 2018, Noronha & Reppold, 2020).
As forças de caráter são diretamente relacionadas ao bem-estar subjetivo (BES), definido como uma avaliação que o indivíduo faz da própria situação no mundo. O BES é composto por uma dimensão cognitiva, que diz respeito à satisfação com a vida, e dimensão emocional, composta por afetos positivos e negativos, que se referem à frequência de emoções agradáveis e desagradáveis (Reppold et al., 2019b). Sendo as forças de caráter relacionadas ao bem-estar subjetivo, indivíduos que apresentam boa satisfação com a vida tendem a ter relacionamentos sociais sadios, resolver problemas mais facilmente, e ter melhores resultados acadêmicos, o que faz com que sejam mais resistentes ao estresse e consequentemente propensos à melhor saúde (Douglass & Duffy, 2014).
De acordo com Oliveira et al. (2016) e Noronha e Reppold (2019), a consciência das forças e virtudes das pessoas faz com que elementos positivos de suas personalidades possam ser aprimorados, propiciando melhores condições psíquicas, sociais e até mesmo biológicas. Assim, indivíduos que apresentam florescimento de suas forças e virtudes vivem de forma vigorosa e não simplesmente existem. Como forma de atingir maior consciência e, por conseguinte, maior desenvolvimento de tais potenciais, Niemiec (2018) indica o uso das intervenções em forças de caráter.
As intervenções em forças de caráter podem ser descritas como ‘atividades intencionais’ breves e precisas, que envolvem as esferas comportamental, interpessoal, emocional e/ou cognitiva; e têm como principal objetivo o alcance do bem-estar. Essas intervenções são elaboradas levando em questão o aspecto psicológico que está freando determinado desenvolvimento. Para a sua efetividade, é imprescindível que se tenham claros o propósito e o foco, bem como quais áreas podem influenciar positivamente e negativamente. Além disso, as forças de caráter podem ser desenvolvidas a partir de intervenções com foco na melhora de determinadas características. Essa tem sido uma busca recente de estudos internacionais, voltada para públicos diversos, considerando diferentes construtos como desfecho (ex. amor, bondade, esperança, entre outras) (Niemiec, 2018).
No Brasil, apesar do crescimento significativo das pesquisas sobre psicologia positiva, a produção relativa às forças de caráter em crianças ainda é recente e escassa quanto à oferta de técnicas interventivas focadas no tema e à descrição dos seus resultados referentes à eficácia, sendo raros os estudos relativos a ensaios clínicos nacionais publicados (Reppold et al., 2019c). Nessa direção, Reppold et al. (2015) alertam para as lacunas existentes na pesquisa brasileira quando se refere às intervenções em forças de caráter. O presente trabalho investigou intervenções em forças de caráter em crianças em contexto psicossocial.
Método
Trata-se de um estudo de scoping review, conforme o método de revisão proposto pelo JBI - Instituto Jonna Briggs (The Joanna Briggs Institute [JBI], 2015). Para construção da pergunta de pesquisa, utilizou-se a estratégia Population, Concept e Context (PCC) para a questão de pesquisa: quais são as intervenções utilizadas para promover forças de caráter em crianças em contexto psicossocial?
A coleta de dados foi realizada em maio de 2020 nas seguintes bases de dados: Springer, Cengage Learning, ProQuest, Scopus, Web of Science, Sage Journals e Medline, acessada via PubMed. Os descritores utilizados na pesquisa foram character strenght AND intervention & child. Todos os estudos que abordavam intervenções no contexto das forças de caráter foram incluídos entre 2015 a maio de 2020. Como critério de exclusão foram considerados estudos que não apresentavam uma intervenção ou utilizavam uma amostra de crianças maiores de 14 anos. O processo de busca e seleção dos estudos desta revisão está apresentado no fluxograma (Figura 1), seguindo recomendações do JBI, segundo checklist adaptado do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) (JBI, 2015).
Para análise de dados, títulos e resumos de todos os artigos identificados pela estratégia de busca foram avaliados pelos pesquisadores. No estágio do texto na íntegra, dois revisores independentemente avaliaram os artigos completos e realizaram suas seleções de acordo com os critérios de elegibilidade. Discordâncias entre os revisores foram resolvidas por consenso. Os artigos excluídos não apresentavam a intervenção realizada e/ou envolviam amostras de universitários, adultos, clínicas específicas ou revisões da literatura. O principal dado coletado foi quanto às intervenções realizadas e seus resultados com relação às forças de caráter em crianças em contexto psicossocial. Nesta revisão, a amostra final totalizou em seis estudos selecionados.
Resultados
A pesquisa inicial apresentou 216 artigos nas bases de dados, a partir dos quais 17 estudos atendiam aos critérios de inclusão e foram considerados como potencialmente relevantes para análise detalhada. Os resultados dos seis artigos encontram-se na Tabela 2.
A seguir são apresentadas as sínteses das intervenções em forças de caráter em crianças em contexto psicossocial (n=6).
1. Joyful Forgiveness: a Guided Curriculum For Children Aged 9-11 ( Taysi & Vural, 2015 ).
Modalidade: trata-se de um programa de educação ao perdão, implementado nas escolas com o objetivo de melhorar a saúde mental dos estudantes. Seis classes de quarta série de cinco escolas de níveis socioeconômicos diferentes de Isparta foram selecionadas para participar da intervenção a partir de uma avaliação dos níveis de raiva e depressão dos alunos. Foi realizado o questionário pré-teste em ambos os grupos, experimental e controle; em torno de 11 semanas após, no final do programa, os mesmos realizaram o questionário pós-teste e, por fim, seis meses após a intervenção. O grupo experimental foi composto por 74 estudantes, sendo 29 meninas e 45 meninos (M= 10.01 anos, SS= 0.26) e o grupo controle por 48 estudantes, 18 meninas e 30 meninos (M= 10.00 anos, SS= 0.21). Psicólogos sociais desenvolveram um workshop de educação ao perdão para os professores do grupo experimental, com duas sessões de 2h, para que os docentes se apropriassem dos conceitos do currículo do programa.
Descrição: para a intervenção foi realizado um curso durante dez semanas, com uma aula de 45min por semana, embasado em virtudes morais (valor inerente, amor moral, gentileza, respeito e generosidade) intrínsecas ao perdão. A partir de histórias, discussões e atividades em classe foram apresentados os conceitos de virtudes morais e propiciado às crianças a compreensão destes juntamente ao conceito de perdão.
Resultados: No grupo experimental pela Anova percebeu-se que não houve diferença significativa entre pré e pós-teste para depressão (medido pelo CDI, The Children´s Depression Inventory) [F(2, 112)=.78, p=.46, eta2=.01] e comportamento social (medido pelo SBQ, The Social Behavior Questionnaire), representado pelas subescala de comportamento pró-social [F(1.97, 138.31)=1.92, p=.15, eta2 =.03], subescala de comportamento antissocial [F(1.94, 135.87)=2.45, p=.09, eta2=.03] e subescala fisicamente antissocial [F(2, 140)=.99, p=.36, eta2=.01]. Sobre o perdão (medido pelo EFI-C, The Enright Forgiveness Inventory for Children), a análise Anova demonstrou que não houve diferença significativa entre os três escores [F(2134)=2.66, p=.07, eta2=.04], mas o escore de pós-teste (M=76.34, SD=16.64) foi maior que o escore de pré-teste (M=70.47, SD=16.02). As pontuações dos testes de esperança (medido pelo CHS, The Children’s Hope Scale) foram diferentes [F(1.95, 136.56)=5.87, p <.01, eta2=.08], sendo o escore do pós-teste (M=27.75, SD=5.52) maior do que o pré-teste (M=26.19, SD=6.09), mas na análise de segmento (M=25.58, SD=4.95) ficou abaixo do pós-teste, não havendo diferença entre o pré-teste e o teste de acompanhamento; assim, o efeito positivo da intervenção constatado sobre a esperança não foi duradouro.
2. Camp Hope Program ( Hellman, & Gwinn, 2016 )
Modalidade: tendo como intervenção um acampamento de seis dias destinado a crianças que sofreram violência familiar, o estudo teve como objetivo investigar se os índices de esperança delas nos períodos pré e pós-acampamento difeririam e como a esperança estava relacionada às forças de caráter nessa amostra pós-intervenção. Participaram do estudo 229 crianças (M=10,8 anos, SD = 2.57), que responderam à avaliação pré-teste 30 dias antes do acampamento e a avaliação pós-acampamento foi coletada na manhã final do programa, assim como os conselheiros do acampamento também o fizeram para cada criança que participou.
Descrição: as atividades do programa são baseadas em três pilares: 1- ‘Desafios por escolha’: as crianças eram instigadas a participar de atividades que as desafiavam como cavalgar, andar de canoa, slackline, e outras, a fim de estimular o pensamento criativo, tomada de decisão, resolução de problemas, trabalho em equipe, raciocínio, autoestima, confiança de grupo, organização e estabelecimento de metas. 2- Afirmações e elogios para o desenvolvimento e observação de traços de caráter: este pilar visava à interação entre criança e conselheiro do acampamento, fornecendo afirmações de encorajamento, para que, a partir dessas, as crianças internalizassem suas habilidades, progressos, capacidade de perseveranças, reconhecessem a necessidade dos outros e desenvolvessem perspectivas de futuro. 3- Pequenos grupos de discussão e atividades focadas em ajudar as crianças a estabelecer objetivos e meios para alcançá-los.
Resultados: autorrelato das crianças (medido pela Children’s Hope Scale): A Anova indicou que o escore da esperança aumentou do pré-teste (M=25.40; SD=5.38) para o pós-teste (M=26.75; SD=6.19), sendo estatisticamente significante a diferença [F(1228) = 15.15; p < .001; η2= .06], mas com taxa de mudança estimada como pequena. Avaliação dos conselheiros (medido pela Children’s Hope Scale, com os itens modificados para refletir uma avaliação observacional; e KIPP Character Counts Growth Card): a Anova apontou aumento no escore de esperança no pré-teste (M=23.23; SD=5.92), comparado ao pós-teste (M=25.13; SD=5.64), sendo o resultado estatisticamente significante [F(1219) = 30.95; p\.001; η2 = .12] e de moderado impacto. O aumento nas forças de caráter também foi estatisticamente significativo. Especificamente, as análises pós-teste mostraram moderado e significativo aumento de entusiasmo [F(1229) = 46.63; p<.001; η2 = .17], perseverança [F(1228) = 30.86; p<.001; η2 = .12], gratidão [F(1229) = 44.36; p<.001; η2 = .16] e curiosidade [F(1229) = 46.51; p<.001; η2 = .17]. Foram observados pequenos aumentos em autocontrole [F(1229) = 9.50; p<.001; η2 = .04], otimismo [F(1229) = 20.16; p<.001; η2 = .08] e inteligência social [F(1229) = 18.13; p<.001; η2 = .07]. Escores mais altos em esperança foram relacionados a níveis mais altos de energia (entusiasmo), perseverança para atingir objetivos (perseverança), habilidade para regular pensamentos, sentimentos e comportamento (autocontrole), expectativa de futuro positivo (otimismo), apreciação para com os outros (gratidão), desejo de conhecer novas coisas (curiosidade) e consciência dos sentimentos e motivações dos outros (inteligência social).
3. Playing to Think: Emotional Judgment and Good Decisions ( Carbonero et al., 2017 ).
Modalidade: a técnica desenvolvida nesse estudo referiu-se a um treino sistemático sobre responsabilidade social, realizado a partir de pequenas histórias, envolvendo alunos, professores e pais. Participaram do estudo 271 estudantes (144 meninos e 127 meninas), de 12 a 14 anos de idade, de três escolas diferentes. O grupo experimental foi composto por 132 estudantes (M=12.67 anos; SD=0.78), e o grupo controle por 139 estudantes (M=13.11 anos; SD=0.90). Uma escola fez parte do grupo experimental, enquanto duas fizeram parte do grupo controle.
Descrição: o programa consistiu em 14 aulas, cada uma focando em uma história que trabalhava fatores de responsabilidade social buscando a identificação do leitor com a personagem principal da história. Além disso, houve a oportunidade de as crianças testarem suas decisões e compreenderem a relação da responsabilidade sobre possíveis consequências a partir de um ‘laboratório moral’, em que o enredo e os conflitos da história foram empregados. Com questões pertinentes aos aspectos cognitivo, emocional e social dos participantes, ao final de cada aula foi realizada a autoavaliação que abrangeu a autorreflexão e a situação de autorreconhecimento na história.
Resultados: a intervenção demonstrou ter um efeito positivo sobre os estudantes que estavam envolvidos nas atividades. Os escores de todos os fatores de responsabilidade social (respeito, autodisciplina, amizade, aceitação dos erros, boas maneiras, compromisso, obediência, autocontrole, família como modelo de responsabilidade social e perseverança) mensurado pelo Assessment Scale of Social Responsibility Attitudes in Secondary Education, foram maiores para o grupo experimental do que para o grupo controle. Como exemplos, o escore de autodisciplina foi significativamente maior para o grupo experimental (M=-0.0,6, SD=2.90) do que para o grupo controle (M=-2.29, SD=6.83), t(269)=3.46, p=0.001, com tamanho de pequeno efeito d=0.42; bem como os escores de comprometimento, que foram maiores para o grupo experimental (M=0.17, SD=2.28) do que para o grupo controle (M=-0.66, SD=4.04), t(269)=2.07, p=0.039, também com tamanho de pequeno efeito d=0.25. Foi avaliada a comunicação dos alunos com seus pais (comunicação aberta, ofensiva e evitativa, mensurado pela Parent-Adolescent Communication Scale, PACS) e assim, observado que estilos parentais de comunicação aberta com seus filhos foram correlacionados positivamente com os fatores de responsabilidade pessoal e social.
4. The Current Positive Education Intervention - The Maytiv Preschool Program ( Shoshani & Slone, 2017 ).
Modalidade: a intervenção foi construída por psicólogos de acordo com quatro elementos do ‘PERMA’: emoções positivas, engajamento, relações positivas e realização. O Maytiv Preschool Program teve como intenção promover saúde mental, bem-estar subjetivo e adaptação funcional na pré-escola. Para tal, participaram da pesquisa 315 crianças (153 meninas e 162 meninos), com idade entre três a 6,5 anos (M=4.53, SD=0.93). O grupo experimental foi de 160 crianças e o grupo controle de 155, as quais completaram os testes pré e pós-intervenção no início e no fim do ano letivo, respectivamente. Os grupos foram divididos igualmente por gênero (48,5% meninos e 51,5% meninas) e contou com a participação de 189 pais, os quais responderam questionários sobre seus filhos.
Descrição: o currículo foi composto por quatro módulos, com dois assuntos cada, emoções positivas (expressão e manejo de emoções e gratidão), engajamento (amor pelo aprendizado e forças de caráter), realização (foco e persistência), e relações positivas (relações positivas e empatia). Os módulos combinaram as práticas regulares do jardim de infância com atividades específicas às suas sessões, como discussões, histórias, músicas e jogos, sendo compostos individualmente por 20 sessões que foram desenvolvidas durante um mês cada, com cinco atividades por semana.
O módulo que abordou as emoções positivas trabalhou com a expressão das emoções, empatia, pensamento positivo, e a habilidade de diferenciar pensamentos positivos e negativos e de expressá-los de forma autônoma; com atividades de identificação de fontes pessoais de felicidade, exercícios de expressão de gratidão, expressão livre de diferentes sentimentos, arte, expressões faciais e de fala, e descrição de memórias de experiências felizes. Já o módulo que visava a exercer o engajamento cultivou o interesse e o prazer em atividades que realizam experiências de preenchimento pessoal, como usar brinquedos pessoalmente significantes trazidos de casa, oportunidade de escolher um assunto ou atividade pessoalmente prazerosa para a reunião do grupo e identificar e usar forças de caráter pessoais nos diferentes papéis adotados nas atividades diárias do jardim de infância.
O módulo para facilitar relações sociais positivas fundamentou-se na habilidade de comunicação positiva com os pares e adultos, suporte para comportamento pró-social e cooperação, e encorajamento de ações de gentileza e empatia, de modo que englobou jogos que demandam cooperação entre pares, exercícios de brincadeiras com amigos em diferentes situações, simulação de resolução de conflitos e consideração pelos sentimentos dos colegas. O módulo da realização teve como princípio a identificação e busca de metas, e teve como atividades jogos que demandavam perseverança em situações desafiantes, jogos que despertavam senso de eficácia e suporte por continuar tentando mesmo que houvesse falha, e trabalho em projetos pessoais como produzir um livro de desenhos.
Resultados: a análise Anova constatou que, entre o pré para o pós-teste, houve significativo progresso em relação às emoções positivas das crianças F(1,313)=10.93, p=0.001, η2=0.04 (mensurado pelo The Shortened Positive and Negative Affect Scale for Children, PANAS-C), satisfação com a vida F(1,313)=9.68, p=0.002, η2=0.03 (mensurado pelo Brief Multidimensional Students’ Life Satisfaction Scale, BMSLSS) e empatia F(1,313)=8.65, p=0.004, η2=0.03 (mensurado pelo Affective Situations Test for Empathy, FASTE). Contudo, não teve o resultado esperado para as emoções negativas F(1,313)=1.83, p=0.18, η2=0.007 (PANAS-C). Sobre a autorregulação (mensurado pelo The Head-to-Toes task, HTKS), ocorreu efeito positivo F(1,313)=9.82, p=0.002, η2=0.03, mas sem significante interação do tempo sobre a intervenção F(1,313)=0.21, p=0.65, η2=0.001.
A partir do relatório dos pais, a análise também evidenciou que as emoções positivas das crianças (mensurado pelo The Parent Version of the 10-Item Positive and Negative Affect Schelude for Children, PANAS-C-P) tiveram efeito considerável da intervenção e tempo F(1,171)=9.11, p=0.004, η2=0.02, com aumentos significativos no grupo experimental (M=2.72, p<0.001, Cohen’s d=0.81) e sem efeitos significativos no grupo controle. Para o comportamento pró-social (mensurado pelo Strengths and Difficulties Questionnaire, SQD), foi detectado aumento no grupo experimental F(1,171)=7.29, p=0.004, η2=0.03, (M=1.15, p < 0.001, Cohen’s d=0.66), sem mudanças significativas no grupo controle. Nas medidas relacionadas às dificuldades de saúde mental (SQD) F(1,171)=1.63, p=0.18, η2=0.04 e a emoções negativas (PANAS-C-P) F(1,171)=1.78, p=0.19, η2=0.05, também não existiram mudanças significativas entre grupo controle e intervenção.
Em relação à aprendizagem (mensurada pelo Approaches to Learning Scale), que se refere à atenção, ao engajamento para aprender, à persistência nas tarefas, à independência, à organização, à flexibilidade e à habilidade para seguir as regras de sala de aula, a intervenção demonstrou ter efeito positivo [F(1,171)=10.15, p=0.003, η2=0.2], o que foi indicado pelos professores. Este fato indicou aumento significativo no decorrer do ano nos comportamentos positivos de aprendizagem e engajamento no grupo experimental (M=0.31, p<0.001, Cohen’s d=0.62), mas não no grupo controle.
5. Strengths Intervention are Mediated by Teacher Stengths Spotting (Quinlan et al., 2018)
Modalidade: a intervenção baseou-se na estratégia Strength Spotting, da observação de forças de caráter, na qual a atenção volta-se para a habilidade de perceber as forças no coletivo. A intervenção foi elaborada com o propósito de melhorar os relacionamentos em sala de aula, entre alunos ou professor/aluno, pois foi considerado que as emoções dos professores têm efeito significativo no aprendizado dos estudantes. Participaram do estudo dez professores, treinados sobre psicologia positiva, sendo que eles completaram seu próprio inventário de forças (VIA). Esses docentes pertenciam a nove salas de aula de classe social-econômica baixa a média, bem como fizeram parte da pesquisa seus 193 alunos, com idades entre oito a 12 anos. Sete professores participaram da pesquisa como grupo de intervenção e outros três como grupo controle. Foram realizados, com professores e alunos, testes pré-intervenção uma semana antes do programa, testes pós-intervenção na semana após o término do programa, e avaliação de acompanhamento três meses depois do pós-teste; o alvo deste estudo foi verificar se ocorreu influência das variáveis dos professores sobre os resultados da intervenção relativos aos alunos.
Descrição: o cronograma da intervenção ocorreu durante seis semanas com uma sessão semanal de 90 minutos. As sessões do programa foram divididas em: 1- aprender a reconhecer as forças em si mesmo (com atividades como criar uma colagem com o título ‘Eu no Meu Melhor’, noticiar onde esteve usando suas forças e aprender a observar o uso das forças pelas pessoas), 2- aprender sobre suas atividades de forças (com tarefas como identificar em quais atividades do dia as forças são utilizadas), 3- como as forças de caráter ajudam as atividades de forças (usando como plano de ação a relação das próprias forças de caráter às atividades que as utilizam), 4- aprender sobre suas próprias forças de caráter (discussão sobre suas próprias forças com um colega e criar um super-herói baseado nas forças de caráter), 5- como enxergar essas forças para fazer a diferença (atividades como estabelecer metas e selecionar forças que ajudem a alcançá-las) e 6- usar as forças nas relações (discussões sobre porque a amizade é tão importante e estabelecimento de características que sejam essenciais na construção de uma amizade).
Resultados: com o propósito de identificar a influência dos professores sobre os desfechos dos alunos, foi realizada uma análise de mediação dos níveis das crianças a partir da observação de forças dos professores. Ao final da intervenção foram verificados diversos aspectos positivos no grupo experimental, especialmente em relação à autonomia [t(193)=0.66, p=0.039], à competência [t(193)=0.50, p=0.039] e ao relacionamento [t(193)=0.78, p=0.007] (mensurados pelo The Children’s Intrinsic Needs Satisfaction Scale, CINSS), envolvimento em sala de aula [t(193)=2.98, p=0.050] (mensurado pelo Behavioural and emotional engagement), ao afeto positivo [t=(193)=1.52, p=0.006] e negativo [t(193)=0.80, p=0.030] (mensurado pelo PANAS) e ao uso das forças [t(193)=6.59, p=0.001] (mensurado pelo Strengths Use Scale). A intervenção não teve impacto evidente sobre os construtos coesão de classe e atrito de classe (mensurados pelo Cohesion and Friction, subescalas do My Class Inventory, MCI) ou satisfação da vida (mensurado pela Students’ Life Satisfaction Scale). Foi verificado, na análise de segmento, que a observação de forças praticada pelos professores contribuiu para o aumento do afeto positivo, engajamento e satisfação das necessidades de seus alunos. Ainda, os desfechos dos alunos foram correlacionados com afeto positivo, envolvimento em sala de aula e satisfação das necessidades (autonomia, competência e relacionamento) dos docentes, o que atesta que a intervenção teve influência de variáveis contextuais, como comportamento dos professores e atitudes em relação aos pontos fortes dos discentes.
6. Early Childhood Strength- Spotting Intervention ( Haslip et al., 2019 )
Modalidade: a intervenção baseou-se na prática de observação de forças de 16 educadores da primeira infância e seus alunos, com a premissa de que, se os adultos estiverem conscientes de seus sentimentos e comportamentos, podem estimular as crianças a desenvolverem habilidades empáticas. A proposta da intervenção foi compreender como os educadores praticavam as forças de caráter de amor, gentileza e perdão e observavam tais traços neles e em seus alunos.
Descrição: foi promovido aos professores um curso durante 12 semanas sobre aprendizagem socioemocional, orientação positiva e monitoramento semanal das relações professor-criança. Como forma de apropriação de suas forças de caráter, os educadores completaram o VIA (Values in Action Inventory of Strengths); após, ocorreu debate sobre as 24 forças e suas aplicabilidades, o que oportunizou a seleção das forças de caráter mais vinculadas ao desenvolvimento infantil (amor, gratidão e perdão). Os educadores passaram a observar essas forças quando praticadas por eles e por seus alunos e elaboraram um relatório, denominado de ‘exemplo de caráter na prática’, no qual descreviam seus comportamentos e o dos alunos para cada uma das três forças de caráter selecionadas.
Resultados: foram incluídos nesta pesquisa os resultados das crianças referentes às forças de caráter amor, perdão e gentileza. Em relação ao amor, os educadores identificaram quatro conceitos relativos ao amor no comportamento das crianças: 1-empatia (demonstrar preocupação e confortar um colega que está machucado ou triste), que foi o conceito observado com maior frequência; 2- auxílio (ajudar o outro com alguma necessidade ou desafio); 3- amizade (demonstrar afeto genuíno para com os colegas); e 4- amor pelos professores. Sobre o perdão, foram observadas duas categorias, quando as ações das crianças eram iniciativa delas, ou seja, engajaram-se espontaneamente no perdão, ou pela mediação dos professores. Em relação à gentileza, atos foram agrupados em seis categorias: 1- demonstrar empatia; 2- compartilhar e ser generoso; 3- ajudar alguém com uma tarefa; 4- praticar cortesia e consideração; 5- ser amigável e; 6- limpar e organizar o ambiente.
Discussão
A partir dos resultados encontrados, observa-se que são escassos os estudos internacionais e ausentes até o momento dos nacionais em intervenções sobre forças de caráter em crianças em contexto psicossocial, sendo o ano de 2017 o único em que foi encontrado mais de um estudo. Essa lacuna foi destacada na literatura por Reppold et al. (2018a, 2018b, 2019a, 2019b) e Noronha e Reppold (2019, 2020).
Dos seis artigos incluídos pelos critérios de elegibilidade, todos utilizaram amostras grandes, de 122 a 315 crianças; apenas um utilizou uma amostra de crianças mais velhas, de 12 a 14 anos; três utilizaram amostras majoritariamente compostas por crianças de sete a 11 anos; e dois utilizaram amostras de crianças pré-escolares. No estudo de Haslip et al. (2019) não é mencionada a quantidade e nem a idade das crianças, mas que os participantes eram professores de primeira infância. É importante indicar que o estudo de Hellman e Gwinn (2016) aponta para uma amostra de crianças de sete a 17 anos, mas a média de idade das crianças foi de dez anos, por isso optou-se por sua inclusão.
Cinco dos estudos analisados tiveram suas intervenções realizadas em instituições de ensino com seus alunos, o que mostra que o espaço escolar é um meio fértil para esse tipo de abordagem. De acordo com Yin e Majid (2018), a educação não deve estar ancorada somente no desenvolvimento intelectual, mas também nos domínios emocional, espiritual e físico para que o desenvolvimento humano aconteça de forma harmoniosa. Logo, as intervenções sobre forças de caráter em crianças em tais ambientes são formas de promover a ascensão desses valores e, assim como mostram os estudos incluídos nesta pesquisa, podem trazer bons resultados.
O estudo de Hellman e Gwinn (2016) teve sua intervenção desenvolvida a partir de atividades realizadas com crianças em um acampamento de seis dias. Essas atividades foram voltadas para encorajar positivamente as crianças a participarem de desafios e conquistarem a consciência de suas forças como consequência do seu raciocínio criativo, observação e reconhecimento. Entre os resultados estão o aumento na esperança, no entusiasmo, na perseverança, na gratidão e na curiosidade. Entretanto, apesar de este estudo ter realizado testes pré e pós-intervenção, deve-se considerar que não houve um grupo controle, e nem avaliação de seguimento para averiguar se os resultados da intervenção se mantiveram ao longo do tempo.
O estudo de Haslip et al. (2019) não apresentou os tópicos específicos trabalhados na pré-intervenção. Todavia, é interessante que o estudo tenha sido realizado com crianças menores, pois segundo Niemiec (2018), estas são capazes de compreender os conceitos das forças de caráter e há ressonância instantânea entre esses ideais e a infância.
Os estudos de Taysi e Vural (2015), Carbonero et al. (2017), Shoshani e Slone (2017) e Quinlan et al. (2018) realizaram suas intervenções em formato de aulas, nas quais foram trabalhados conceitos com relação às forças de caráter a partir de diferentes formas, como discussões, histórias e atividades nas quais as crianças eram direcionadas à maior consciência de suas próprias forças. Desta forma, percebe-se que tais intervenções atingiram bom resultado em relação aos construtos/desfechos em que se propuseram a investigar.
Contudo, o estudo de Taysi e Vural (2015) explicitou que, na análise de segmento, os escores diminuíram aos níveis do pré-teste. Já os estudos de Carbonero et al. (2017) e Shoshani e Slone (2017) não apresentaram avaliação de acompanhamento das intervenções e, por esse motivo, não há como determinar quais destas três intervenções apresentariam melhores resultados a longo prazo ou se manteriam seus resultados positivos.
O estudo de Quinlan et al. (2018) apresenta boa qualidade metodológica e salienta-se que os resultados obtidos foram mantidos ao longo do tempo, como apresentado no follow up. Esta intervenção fundamentou-se na estratégia de strengths spotting, ou seja, observação de forças dos alunos por parte dos professores, aliada a um treinamento de consciência de forças para os professores anteriormente, além das próprias aulas para as crianças com conceitos e dinâmicas de forças de caráter.
Intervenções baseadas na prática de observação de forças são definidas como o ato de identificar forças de caráter em si mesmo ou nos outros podem gerar resultados efetivos quando aplicadas a crianças, pois a partir deste reconhecimento elas tornam-se cientes dos seus traços e, assim, é possível desenvolvê-los com maior facilidade. De acordo com Niemiec (2018), é importante que as forças de caráter tornem-se conscientes; explicadas, para que se tornem lógicas, e apreciadas para que floresçam.
Ainda, pode-se observar pelos artigos incluídos nesta revisão da literatura, a participação de pais e professores nas intervenções realizadas com crianças, o que se deve, especialmente, à grande influência que essas figuras têm no desenvolvimento infantil. Conforme Niemiec (2018) e Oliveira et al. (2016), as forças de caráter são sociais e se manifestam conforme o contexto. O estudo de Waters (2015) evidencia que as crianças estão mais propensas a usar suas forças de caráter de maneira eficaz se seus pais assim o fazem.
Os artigos incluídos que empregaram intervenções de Strengths Spotting, fizeram uso do VIA (The Values in Action Inventory of Strengths) para que os participantes da pesquisa obtivessem maior compreensão das forças de caráter para a realização das atividades propostas. Desenvolvido por Peterson e Seligman (2004) como uma ferramenta de avaliação abrangente das forças de caráter, o VIA é composto por 240 itens, dez para cada uma das 24 forças, que são preenchidos por meio de uma escala Likert. Como observado nos estudos, o VIA não foi aplicado diretamente às crianças, mas aos seus professores.
Apesar disso, deve-se considerar a existência do VIA-Youth (The Values in Action Inventory of Strengths for Youth), instrumento para crianças de dez a 17 anos, com itens apropriados para a faixa etária (Ruch et al., 2014). Dessa forma, um inventário de forças validado para as crianças também tem potencial para ser incluído em futuras intervenções, como meio de auxiliar as crianças/adolescentes a identificar suas forças de caráter e suas forças de assinatura. Essas últimas definidas como as forças individuais expressas com maior frequência e autenticidade. A identificação e o uso de forças de assinatura estão relacionados, com maior bem-estar e florescimento, já que o uso das forças amplifica a experiências de satisfação de necessidades. Nessa linha, ressalta-se que seria oportuno o estudo de novos instrumentos para identificação das forças de caráter, com evidências de validade local e com propriedades psicométricas que viabilizem seu uso, conforme Noronha e Reppold (2020).
Ainda, como contribuição ao estudo das forças, propõe-se a utilização do termo ‘forças pessoais’, que pode denotar mais facilmente características da personalidade de cada pessoa, às ‘forças de caráter’ (Noronha & Barbosa, 2016). Pode-se fazer paralelos com modos de viver de povos originários brasileiros e suas forças pessoais como humanidade e de apoio ao meio ambiente (Kothari et al., 2021). Em tempos de necessidade de cuidado global, por meio dos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), torna-se fundamental o investimento no cultivo de forças pessoais desde o início do desenvolvimento humano para o tempo presente e futuro com mais sustentabilidade local e global.
Considerações finais
As pesquisas em intervenções sobre forças de caráter em crianças ainda são recentes e são necessários mais estudos longitudinais para averiguar a real efetividade destas ao longo do tempo. Além disso, é imprescindível o aprimoramento da qualidade metodológica dos estudos de intervenções. Destaca-se que é um campo promissor de pesquisas e práticas com crianças para o desenvolvimento sustentável local e global para a presente e novas gerações, assim tornando-se transgeracional o cultivo das potencialidades humanas.
O aprimoramento destas intervenções é de grande relevância para a psicologia positiva, já que as forças podem ser desenvolvidas deliberadamente, promovendo bem-estar pessoal e social. Nessa linha, fomenta-se o desenvolvimento de novas pesquisas que proponham o aprimoramento de técnicas interventivas sobre forças pessoais e/ou de caráter.
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O conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo está publicado no próprio artigo.


