RESUMO
Este estudo teve como objetivo conhecer e descrever como a qualidade conjugal se expressa em casais que coabitam e vivenciam a etapa de formação do casal. A qualidade conjugal foi compreendida a partir das seguintes dimensões: satisfação, compromisso, intimidade, sexualidade e afetividade. Oito casais heterossexuais, em coabitação, sem filhos, adultos jovens, residentes em Porto Alegre e região metropolitana, foram entrevistados conjuntamente. A análise temática dedutiva realizada permitiu constatar que as dimensões da qualidade conjugal avaliadas se retroalimentam. Pode-se verificar que os casais manifestaram indícios de boa qualidade conjugal por meio do desejo de permanecer e investir no relacionamento, pelo senso de intimidade compartilhado, pela vivência mutuamente satisfatória da sexualidade e a partir das expressões de afeto e cuidado com o parceiro. De modo geral, os participantes demonstraram estar satisfeitos com seus relacionamentos amorosos. Evidencia-se, por fim, a importância de investigar a qualidade conjugal durante a etapa de formação do casal, dada a repercussão dos padrões que se estabelecem nesta fase ao longo do ciclo vital.
Palavras-chave:
Relações conjugais; dinâmica de casal; pesquisa qualitativa
ABSTRACT
This study aimed to understand and describe how marital quality is expressed among cohabiting couples experiencing the couple formation process. Marital quality was examined based on the following dimensions: satisfaction, commitment, intimacy, sexuality, and affectivity. We interviewed eight heterosexual, cohabiting, childless young adult couples living in Porto Alegre and its metropolitan area. Deductive thematic analysis revealed that the assessed dimensions of marital quality feed back into each other. The couples demonstrated high-quality marriages through their desire to maintain and invest in their relationships, their shared sense of intimacy, their mutually satisfying sexual experiences, and their expressions of affection and care for their partners. Overall, the participants expressed satisfaction with their romantic relationships. Finally, this study underscores the importance of investigating marital quality during the process of forming a couple, given the repercussions of the patterns established at this stage throughout the life cycle.
Keywords:
marital relations; couple dynamics; qualitative research
RESUME
Este estudio tuvo como objetivo conocer y describir cómo se expresa la calidad conyugal en parejas que cohabitan y están en la etapa de formación de la pareja. La calidad conyugal se entendió desde las siguientes dimensiones: satisfacción, compromiso, intimidad, sexualidad y afectividad. Se entrevistaron de forma conjunta ocho parejas heterosexuales, en cohabitación, sin hijos, adultos jóvenes, residentes de Porto Alegre y región. El análisis temático deductivo permitió verificar que las dimensiones de la calidad conyugal evaluadas se retroalimentan. Se puede observar que las parejas mostraron evidencia de buena calidad conyugal a través del deseo de quedarse e invertir en la relación, por la experiencia mutuamente satisfactoria de la sexualidad, a través del sentido de intimidad compartida y de las expresiones de cariño y cuidado hacia la pareja. En general, los participantes estaban satisfechos con sus relaciones amorosas. Finalmente, se evidencia la importancia de investigar la calidad conyugal durante la etapa de formación de la pareja, dada la repercusión de los patrones forjados en esta fase a lo largo del ciclo vital.
Palabras-clave:
Relaciones conyugales; dinámica de pareja; investigación cualitativa
Introdução
A relação conjugal de namorados que decidem morar juntos, sem estarem casados, é denominada como coabitação. Observa-se, nas últimas décadas, o aumento expressivo deste tipo de configuração relacional, tanto no Brasil (Menezes & Lopes, 2007; Ramm & Salinas, 2019) quanto internacionalmente (Manning, 2020; Sassler & Lichter, 2020). Entre os jovens adultos, a coabitação tem sido considerada o formato de experiência familiar mais comum, superando o casamento e a parentalidade. Tendo em vista que o casamento está sendo postergado a idades mais avançadas (Manning et al., 2019), diversos casais irão vivenciar a transição para a coabitação.
A fase de formação do novo casal exige diversas tarefas e ajustes, como, por exemplo, demarcar fronteiras nítidas entre o casal e as famílias de origem, estabelecer uma relação de compromisso, fortalecer o vínculo afetivo e equilibrar a individualidade e a conjugalidade (McGoldrick & Shibusawa, 2016; Ríos-González, 2011; Wagner & Delatorre, 2018). A forma como os casais lidam com estas demandas irá repercutir em sua qualidade conjugal. De acordo com o modelo Vulnerability-Stress-Adaptation, proposto em meados da década de 1990, as vulnerabilidades individuais duradouras, os eventos estressores e os processos adaptativos combinados podem auxiliar a explicar as variações na qualidade e na estabilidade conjugais ao longo do tempo. De acordo com esta teoria, os processos adaptativos dizem respeito ao modo de interação do casal frente às demandas da vida, e tanto influenciam quanto são influenciados pela qualidade conjugal (Delatorre & Wagner, 2021; Karney & Bradbury, 1995).
A etapa de formação do casal envolve diversas tarefas cruciais para a construção da conjugalidade, que podem repercutir reciprocamente na qualidade conjugal. Neste sentido, os casais que realizam uma adaptação percebida como bem-sucedida podem sentir alívio por estarem juntos frente aos desafios com que se deparam. Por sua vez, os casais que não conseguem se adaptar adequadamente podem sofrer ainda mais pelo acúmulo de estressores externos, de dificuldades individuais trazidas por cada membro e de dificuldades relacionais. Caso as falhas na adaptação ocorram reiteradamente, a qualidade conjugal pode se atenuar e o relacionamento ficar mais inclinado à dissolução (Karney & Bradbury, 1995).
Pesquisas internacionais revelam que a coabitação costuma ser interrompida pelo término do relacionamento mais do que pela transição para o casamento (Manning, 2020). Considerando a relação entre processos adaptativos e qualidade conjugal (Delatorre & Wagner, 2021; Karney & Bradbury, 1995), pode-se supor que essa tendência à dissolução da coabitação por meio de rompimentos se associe aos níveis de qualidade conjugal dos coabitantes. Embora não haja dados para confirmar se as coabitações no Brasil seguem as mesmas tendências que as coabitações em países desenvolvidos, sabe-se que a qualidade conjugal assume, cada vez mais, um papel central na decisão de permanecer ou de romper a relação (Røsand et al., 2014). Desta forma, justifica-se a relevância de conhecer os níveis de qualidade conjugal de coabitantes brasileiros.
A qualidade conjugal pode ser compreendida como a avaliação emocional e cognitiva do relacionamento de casal e o grau em que há engajamento, proximidade, afeto e atração sexual entre os parceiros, podendo ser avaliada por meio de cinco dimensões. A intimidade consiste na proximidade, conexão, pertencimento e abertura emocional entre os parceiros. O compromisso diz respeito ao engajamento de cada membro do casal no relacionamento, incluindo assumir responsabilidades, cumprir acordos e apoiar o(a) companheiro(a). A satisfação envolve a avaliação afetiva e cognitiva global do relacionamento conjugal. As demonstrações de carinho e de afeto correspondem ao sentimento de afeição pelo(a) companheiro(a). Por fim, a atração e o sexo abrangem a atração física, a excitação e o desejo sexual em relação ao(à) parceiro(a) (Delatorre & Wagner, 2022).
A qualidade conjugal no período inicial do relacionamento já foi foco de algumas investigações nacionais e internacionais. Estudos nacionais demonstram que, apesar de enfrentarem dificuldades relacionadas ao início do casamento e à construção da carreira profissional (Heckler & Mosmann, 2016), casais na etapa de formação do casal parecem apresentar níveis mais elevados de qualidade conjugal, em comparação aos casais nas etapas finais (Wagner & Delatorre, 2018). Em contrapartida, investigações internacionais, publicadas principalmente na década de 2000, associaram os casais em coabitação a piores níveis de qualidade conjugal, se comparados aos casados. Uma revisão sistemática analisou 98 artigos internacionais publicados entre 1999 e 2008, demonstrando uma tendência de maiores níveis de satisfação conjugal e de qualidade de vida entre os casados do que entre os casais em coabitação. Esta diferença seria explicada pelo aumento do senso de segurança e estabilidade a partir do casamento (Wainberg et al., 2010).
Contudo, estudos mais recentes são controversos. Nos Estados Unidos, um estudo longitudinal realizado com 161 pessoas que transitaram para a coabitação verificou declínio em diversas variáveis relacionadas à qualidade conjugal após o início da coabitação, com exceção da frequência sexual (Rhoades et al., 2012). Outro estudo americano revelou que os piores níveis de qualidade conjugal foram relatados por coabitantes sem a intenção de se casar, em comparação aos que tinham essa intenção ou já eram casados. Além disso, as mulheres que casaram sem coabitar previamente reportaram maior qualidade conjugal em comparação àquelas com coabitação prévia ou que não estavam formalmente casadas. No caso dos homens, o estudo sugere que o casamento não necessariamente implica em melhor qualidade conjugal (Brown et al., 2017).
Uma pesquisa realizada em contexto clínico, nos Estados Unidos, com 197 casais em coabitação ou casados que buscaram terapia, apontou maiores níveis de satisfação com o relacionamento entre os coabitantes. Os autores sugerem que o resultado poderia estar relacionado ao estágio mais inicial do relacionamento desses casais, em comparação com os casados. Ademais, indicam que os coabitantes que buscam terapia podem ser distintos do grupo geral, além de sugerir uma mudança em direção a maior estabilidade das relações de coabitação (Shannon & Bartle-Harring, 2017).
Diante disso, percebe-se inconsistência nos achados sobre qualidade conjugal na etapa de formação do casal. Embora existam algumas pesquisas brasileiras sobre o tema nessa etapa do ciclo vital, as amostras são predominantemente compostas por indivíduos casados. No âmbito internacional, verifica-se maior número de pesquisas específicas sobre qualidade conjugal e coabitação, porém, com resultados divergentes. Distintas variáveis podem estar influenciando essas diferenças, como, por exemplo, os aspectos culturais e contextuais, a crescente aceitação e popularização da relação de coabitação na sociedade, o tipo de relacionamento amoroso, entre outros. Assim, evidencia-se a necessidade de estudos dedicados a avaliar ou compreender como se processa a qualidade conjugal de casais em coabitação, considerando o contexto brasileiro. Frente a este panorama, o propósito deste estudo é conhecer e descrever como a qualidade conjugal se expressa em casais que vivem a etapa de formação do casal por meio da coabitação.
Método
Delineamento e participantes
Trata-se de um estudo qualitativo, exploratório e descritivo, com corte transversal. Participaram oito casais heterossexuais que viviam em coabitação, residentes em Porto Alegre e região metropolitana, com idade média de 27 anos (mulheres) e 28 anos (homens). As coabitações não eram formalizadas por meio de casamento ou união estável e haviam se iniciado há no mínimo seis meses e no máximo três anos, seguindo o mesmo parâmetro de classificação de tempo de relacionamento e etapa do ciclo vital utilizado por Wagner e Delatorre (2018). Desse modo, esta amostra se configura como intencional (Fontanella et al., 2008).
A maioria dos participantes se autodeclarou não religiosa ou não praticante, com renda própria de até quatro salários-mínimos (considerando-se o valor vigente, em 2020, de R$ 1.045,00). Foram detalhadas na Tabela 1 as informações referentes à idade, cor/raça autodeclarada, escolaridade, tempo de coabitação e de relacionamento total
Procedimentos de coleta de dados, instrumentos e aspectos éticos
O acesso aos participantes se deu por meio da rede de contato das pesquisadoras. O convite foi realizado por e-mail, no qual se explicaram os objetivos e aspectos éticos da pesquisa. Após o aceite, um questionário sociodemográfico online foi enviado para cada membro do casal e a entrevista conjunta foi agendada. Por opção dos participantes, seis entrevistas foram realizadas de modo presencial, tomando todas as medidas de segurança preventivas cabíveis contra a Covid-19, e as demais foram realizadas por videochamada, utilizando-se a plataforma Google Meet.
O roteiro das entrevistas foi elaborado com base na literatura a respeito dos processos e tarefas correspondentes à etapa de formação do casal, à sua transição e às especificidades da coabitação (Heckler & Mosmann, 2016; McGoldrick & Shibusawa, 2016; Ríos-González, 2011). Desta forma, foram contempladas perguntas sobre a adaptação à coabitação, organização das tarefas domésticas, manejo do dinheiro, lazer, conflitos, resolução de conflitos, sexualidade, relação com as famílias de origem, vivência da pandemia de Covid-19 e projetos futuros.
Os Termos de Consentimento Livre e Esclarecido assinados foram recolhidos na entrevista ou recebidos por e-mail com as assinaturas digitais dos participantes. A coleta ocorreu entre junho e novembro de 2020. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Psicologia da UFRGS (parecer nº. 4.143.492). Todas as entrevistas foram gravadas em áudio, com anuência dos participantes. A fim de preservar o anonimato, utilizaram-se nomes fictícios para designar os participantes.
Análise dos dados
As entrevistas foram transcritas na íntegra e importadas ao software NVivo 14. Os dados foram submetidos à análise temática de orientação dedutiva (Braun et al., 2019). Os temas e subtemas elegidos a priori foram orientados pelas dimensões da Escala de Qualidade Conjugal (Delatorre & Wagner, 2022), utilizada por ser o único instrumento de mensuração da qualidade conjugal produzido no Brasil, até o momento e de conhecimento das autoras. Suas cinco dimensões são satisfação, compromisso, intimidade, sexualidade e afetividade, com o auxílio das definições complementares apresentadas em Delatorre e Wagner (2021). A partir da descrição dessas dimensões, foram elaborados códigos dedutivos para orientar a etapa de codificação, os quais representavam subtemas em potencial. A fim de garantir a homogeneidade interna e a heterogeneidade externa desses códigos, inicialmente, três autoras codificaram duas entrevistas conjuntamente. Após, as seis entrevistas restantes foram codificadas de forma simultânea e independente por duas autoras. As codificações divergentes foram discutidas e recodificadas por consenso de três autoras. Durante esse processo, os códigos elaborados foram revisados e refinados uma vez mais, a fim de obter maior clareza e diferenciação entre eles. Após a codificação das oito entrevistas, os excertos categorizados em cada código foram revisados por todas as autoras, de modo a verificar se estavam coerentes com a totalidade do código atribuído. Excertos que, eventualmente, não representavam o código onde estavam inseridos foram recodificados, assim garantindo a homogeneidade dos temas e subtemas.
Resultados
Os resultados estão organizados em cinco temas - intimidade, compromisso, satisfação, afetividade e sexualidade - e em oito subtemas que descrevem a vivência da qualidade conjugal por casais em fase inicial de coabitação.
Intimidade
Os entrevistados indicaram a intimidade como elemento processual operante na construção da conjugalidade. Foi analisada por meio de três subtemas: sentimento de pertencimento e de proximidade; abertura emocional e compartilhamento de experiências; e familiaridade e compreensão mútua.
Sentimento de pertencimento e de proximidade
O sentimento de proximidade se expressa nas falas dos casais que indicam companheirismo, desejo de estarem juntos e satisfação com a proximidade do(a) parceiro(a): “Eu acho que a coisa mais positiva [de coabitar] é realmente estar presente junto um com o outro, sabe, todo dia” (Daniel). Já o pertencimento aparece como a necessidade de ter um espaço que seja identificado como do casal: “De ter o nosso cantinho, as nossas coisas, de fazer as coisas do nosso jeito” (Claudia). Esse espaço pode ser entendido tanto na dimensão emocional, indicado pela confiança entre os companheiros: “Acho que é a confiança que a gente foi construindo também” (Bárbara), quanto na dimensão física, por meio do estabelecimento de uma forma pela qual o casal se organiza, tarefa típica desta fase.
Abertura emocional e compartilhamento de experiências
A abertura emocional aparece como um dos aspectos a partir do qual o casal constrói a intimidade. Por meio dela, os membros da díade expõem as suas necessidades emocionais e se permitem estar vulneráveis na presença um do outro. Muitos casais relataram experiências de abertura emocional após a vivência de conflitos, nos momentos de reconciliação e de busca de compreensão mútua:
Daí eu falei pro Daniel como que eu estava me sentindo [...] eu pensei que estava fazendo um negócio legal [cozinhar uma refeição especial] e ele falou comigo daquele jeito. E daí foi a primeira vez assim, até chorei, estava um pouco fragilizada com a situação e daí ele me explicou melhor, pediu desculpa, a gente conversou sobre isso ainda no mesmo dia (Diana).
Porém, a abertura emocional também foi representada pela existência de um espaço de escuta das vivências pessoais de cada um. Esses momentos permitem não só que o casal converse sobre assuntos delicados, mas também que compartilhe experiências e troque ideias: “Agora que nós estamos morando juntos, falamos ainda mais da nossa história, do que nós aprendemos, do que aconteceu [nos relacionamentos anteriores]” (Henrique).
Este compartilhamento de fragilidades, experiências e ideias, bem como das suas vivências com suas famílias de origem e relações anteriores, mostra-se importante para que os casais encaminhem seus conflitos e alinhem suas expectativas sobre o relacionamento, reverberando em maior familiaridade e compreensão mútua.
Familiaridade e compreensão mútua
A convivência possibilita que os membros do casal conheçam um ao outro mais profundamente, proporcionando uma visão mais realista do(a) parceiro(a) e desmistificando aspectos que podem ter sido inicialmente idealizados: “Tu conhece a pessoa muito mais quando tu tá [morando junto], tu não conhece só a casquinha ou a parte boa, tu conhece tudo” (César). Essa familiaridade, que começa a se desenvolver na etapa do namoro e se amplifica durante a coabitação, também favorece a percepção sobre as necessidades e estados emocionais do(a) parceiro(a) e facilita o apoio mútuo.
Os participantes demonstraram que a sua falta de familiaridade pode dificultar a compreensão entre o casal, fomentando desencontros e conflitos. Tendo em vista que a construção da intimidade e da familiaridade é um processo, isso ficou mais evidente nos casos em que o tempo de relacionamento e de coabitação era menor: “Pra mim o Daniel é uma pessoa muito mais misteriosa assim. Hoje eu já tento entender e entendo algumas coisas melhor, mas ainda têm coisas que eu não sei muito bem” (Diana); “Pra mim foi bem surpreendente assim, porque não tinha muito como eu saber que tu se sentia tão abalada por essas coisas” (Daniel). Para os casais com maior tempo de convivência, esse processo se mostrou mais consolidado: “Primeiro que a gente tá junto há seis anos, então a gente já vê na cara um do outro quando tá incomodado” (Amanda). Essas diferenças decorrentes do tempo de relacionamento e coabitação ilustram a natureza processual da intimidade, bem como a importância da familiaridade para a regulação do clima emocional do casal.
Compromisso
O compromisso envolve a escolha dos parceiros em permanecer e investir no relacionamento, e foi integrado por dois subtemas: decisão de permanecer juntos e investir no relacionamento e apoio e divisão de responsabilidades.
Decisão de permanecer juntos e de investir na relação
Os participantes indicaram, em diversos momentos, o desejo de permanecer juntos, estando cientes dos investimentos necessários para a manutenção de uma relação satisfatória: “A gente está junto porque a gente realmente quer estar junto. A gente aposta um no outro” (Fernanda); “As pessoas têm que querer estar juntas, porque é desafiador. E se os dois não quiserem, não tem como dar certo. Acho que é isso também, de ter a certeza de que ele tá comigo, sabe?” (Claudia).
Por si só, o estabelecimento da coabitação foi compreendido como uma evolução no relacionamento, que implica em maior comprometimento: “Existe um comprometimento muito maior, né. Acho que a segurança de ter o outro comprometido nessa forma te dá mais tranquilidade [...] Acho que por nós deu uma segurança a mais, uma confiança, um amor um ao outro” (César). Alguns participantes consideram que estão em uma relação de casamento, apesar de se nomearem como namorados. Isto sugere que eles se percebem incluídos em uma relação de longo prazo, ao mesmo tempo em que evidencia que esta configuração conjugal ainda não possui um status bem definido, como o namoro e o casamento.
Os casais reconhecem os aspectos a serem melhorados e o esforço necessário para manter a boa convivência entre si, mostrando-se dispostos a efetuar esse investimento. Desta forma, indicaram ser importante resguardar tempo para o casal, seja em situações cotidianas ou em ocasiões especiais, considerar o que o outro sente e pensa ao tomar decisões, e ter uma postura flexível, com a intenção de acomodar ambos os membros do casal. Também expressaram confiança no futuro da relação e no companheiro, identificada, em partes, por meio do respeito à individualidade de cada um: “A gente aprendeu que nós somos dois, a gente não pode ser um único ser, entende? Nós somos dois indivíduos com as nossas diferenças, com as nossas semelhanças, e a gente opta por dividir a jornada, sabe?” (Gisele). A confiança no futuro da relação também foi expressa pelo respeito e pela tolerância diante das divergências e dos conflitos que, naturalmente, ocorrem nessa etapa:
Como às vezes os sentimentos ficam muito aflorados, às vezes a pessoa pode ter uma insegurança e achar ‘nossa, será que a pessoa quer acabar comigo por causa disso?’. E eu falei [para Diana, em uma situação de conflito] ‘não, de modo algum, quanto mais liga vai tendo esse relacionamento, menos esse tipo de coisa [conflito] vai importar de uma maneira imediata assim’ (Daniel).
O ritual do casamento foi mencionado como uma aspiração dos casais, igualmente para expressar a confiança no futuro do relacionamento. Todos indicaram que gostariam de celebrar o casamento futuramente, sendo que um casal já havia noivado e outro havia realizado um chá de casa nova ao iniciar a coabitação. Diversos outros projetos conjuntos foram citados, como tornar-se pais, viajar, ter um cachorro e investir na residência. Alguns casais pretendem compartilhar uma conta poupança para auxiliar a alcançar tais objetivos. A importância de haver um alinhamento dos objetivos entre o casal e a clareza acerca do que se espera da relação foram ressaltados pelos entrevistados.
Apoio e divisão de responsabilidades
Esta ramificação diz respeito ao apoio na logística do cotidiano compartilhado entre os parceiros, o qual expressa o comprometimento com a relação e com o outro. Inclui a divisão das tarefas domésticas, a organização financeira e os cuidados com os animais de estimação. Percebe-se que estes acordos estavam bem estabelecidos entre os casais, sendo que alguns haviam sido feitos de modo mais informal e outros estipulados por regras explícitas. Os casais demonstraram disponibilidade para se ajudar mutuamente e refazer as divisões, quando necessário: “Hoje eu sou capaz de fazer mais por nós, outro dia eu talvez não consiga [...] Às vezes um acaba suprindo um pouco da atividade do outro. A gente se ajuda, sabe?” (Gabriel). Além disso, demonstraram estar satisfeitos com essa organização: “A gente divide mesmo tudo. Acho que não sobrecarrega pra ninguém” (Estela).
Satisfação
As entrevistas evidenciaram que todos os casais consideram seu relacionamento satisfatório: “Eu me sinto muito satisfeita mesmo [...] Muito mesmo” (Estela); “Eu acho muito positiva a nossa relação hoje” (Daniel). Alguns casais manifestaram que o relacionamento melhorou com a experiência de coabitação: “As coisas que a gente se dava bem continuam a mesma coisa. Agora, as que eram ruins e que a gente conflitava, elas diminuíram” (Bernardo). Nota-se, também, a disposição para continuar aprimorando o relacionamento: “E tem espaço para crescer né, não é uma coisa encerrada, uma coisa acabada. [...] É muito bom, traz muitas coisas positivas” (Gabriel).
O relato dos participantes demonstra, ainda, a percepção do relacionamento enquanto promotor de amadurecimento do casal e de seus membros individualmente: “Eu acho que a gente amadureceu muito, tanto pessoalmente quanto em termos de relacionamento [...] Deu um salto de evolução, vamos dizer assim, né, em todos os sentidos” (Amanda). Assim, pode-se pensar que a satisfação retroalimenta a qualidade conjugal, uma vez que relacionamentos satisfatórios auxiliam não só no fortalecimento da relação, mas também no amadurecimento individual.
Afetividade
A expressão da afetividade se deu de distintas formas, predominando a demonstração de carinho por meio do cuidado ou do zelo pelo(a) companheiro(a). Este tipo de carinho está relacionado a gestos atenciosos, como cozinhar um prato especial, fazer companhia e presentear o outro. Ainda, envolve a percepção das necessidades do(a) companheiro(a) e a disponibilidade de fornecer apoio ou auxílio: “Foi quando eu decidi: eu também estou na dieta agora. Então, até quando a gente pede coisa de fora assim, lanche, sempre é de um restaurante que é sem [alimento alergênico à Daniel]” (Diana).
Também foram verificadas expressões verbais afetuosas, por meio dos vocativos “meu bem” (Gisele) e “meu amorzinho” (Claudia), por exemplo. E, por fim, algumas falas indicaram demonstrações de carinho físico, envolvendo toque, beijos, abraços: “A gente é bem carnal, sabe? [...] por mais que tenha tecnologia e a gente se falasse todo dia, o fato de tá perto e tá abraçando e tá se amando [é importante]” (César). Assim, na coabitação, os parceiros têm a possibilidade de estarem mais próximos um do outro, o que pode favorecer ainda mais a demonstração de carinho físico.
Sexualidade
De modo geral, os casais abordaram o tema da sexualidade de forma aberta, revelando os pontos de satisfação, insatisfação e sentimentos relacionados. Todos os casais indicaram conversar sobre este assunto entre si, o que favoreceu o seu alinhamento. Os participantes consideram-se satisfeitos com a sexualidade vivenciada, apesar de reconhecerem alguns pontos a serem melhorados. Este tema é integrado pelos subtemas: desejo; diálogo e satisfação.
Desejo
Passados os primeiros meses da coabitação, percebeu-se a tendência à diminuição da frequência sexual, resultando na mudança no padrão sexual dos casais: “A gente tinha muito mais aflorado quando a gente não morava junto. Isso é uma coisa que diminuiu, o número de vezes diminuiu desde que a gente passou a morar junto” (Erick). Muitos indicam o cansaço e o estresse relacionado ao trabalho e ao estudo como fatores de influência que diminuem sua disposição para fazer sexo. O contexto da pandemia de Covid-19 também repercutiu no desejo sexual dos participantes. Alguns relataram aumento da frequência logo no início do confinamento, por passarem mais tempo juntos e estarem mais dispostos, visto que o home office eliminou o tempo de deslocamento que tinham de casa até o trabalho e/ou faculdade. Contudo, de modo geral, este contexto, com o tempo, contribuiu para ou tornar o padrão mais cíclico, ou resultar em diminuição da frequência sexual.
Verificou-se, também, que o desejo e as necessidades sexuais foram distintos para muitos parceiros, o que gerou frustração e/ou conflitos para alguns casais: “Eu tenho uma necessidade maior, nunca foi mascarado isso. Então, já me senti muito desassistido de certa forma” (César). Não houve diferenças de gênero com relação à necessidade de maior frequência das relações sexuais: a mesma quantidade de homens e de mulheres, de distintos casais, relatou que gostaria que a frequência das relações aumentasse. No que tange às preferências e gostos, muitos participantes indicaram ter clareza sobre as preferências sexuais do(a) parceiro(a): “A gente foi aprendendo e se conhecendo juntos, então a gente sabe do que o outro gosta ou não gosta” (Gisele).
Diálogo
Os casais demonstraram bastante abertura para conversar sobre a sexualidade, parecendo sentir-se confortáveis com o assunto: “A gente conversa abertamente, sim, sobre isso” (André). Esse diálogo ocorre tanto no sentido de indicar os desejos e preferências quanto de dialogar sobre as divergências e os aspectos que gostariam de modificar: “É uma coisa que a gente tem conversado bastante, o quanto a gente se gosta como casal e o quanto a gente quer melhorar nesse aspecto [sexual], que eu acho que é muito importante pros dois” (Felipe). Estes diálogos, por sua vez, auxiliaram a ampliar a compreensão entre o casal, favorecendo o alinhamento em relação às particularidades de cada um: “Chegou um momento que ele veio conversar comigo do tipo ‘olha, eu não gosto desse tipo de coisa’ […] E daí a gente se resolveu e agora a gente tá num nível que tá mais tranquilo pros dois” (Diana).
Satisfação
De modo geral, os casais revelaram estar satisfeitos e investindo na vida sexual: “Sempre que tem relação é bom, nunca é uma coisa por obrigação, a gente nunca fez nada porque tem que fazer, entendeu? Faz porque quer fazer mesmo. E aí, quando acontece, é bom” (Erick). Como observado nos subtemas ‘desejo’ e ‘diálogo’, foram observados alguns aspectos de insatisfação, referentes, primariamente, a diferenças no desejo sexual. Tais aspectos parecem ter sido objeto de negociação e de ajuste entre os casais. Diante disso, pode-se supor que a satisfação com a vida sexual não implica em uma vivência plena a todo o momento, mas na satisfação com a qualidade das relações e na possibilidade de compreensão e de diálogo sobre os descompassos vivenciados pelas díades.
Discussão
O objetivo deste estudo foi descrever a qualidade conjugal, avaliada a partir das dimensões de satisfação, compromisso, intimidade, sexualidade e afetividade, de oito casais heterossexuais em coabitação que viviam a etapa de formação do casal. Considerando que cada etapa do ciclo vital conjugal é marcada por processos e demandas específicos, e partindo do pressuposto de que a dinâmica relacional de cada casal é largamente influenciada pelos padrões que se formam desde o início da relação (McGoldrick & Shibusawa, 2016; Nichols & Pace-Nichols, 1993; Ríos-González, 2011), buscou-se neste estudo compreender, de maneira mais específica, de que forma a qualidade conjugal é vivenciada e como se expressa na etapa de formação do casal.
Inicialmente, é preciso ressaltar que os achados deste estudo demonstram que há interrelação entre as dimensões da qualidade conjugal avaliadas, conforme já apontado na literatura (Delatorre & Wagner, 2021). Assim, embora existam diferenças conceituais acerca dos componentes da qualidade conjugal, pode-se observar que tais dimensões se retroalimentam. Especificamente na fase de formação do casal, este processo de retroalimentação faz parte do desenvolvimento e da constituição da vida conjugal no que tange ao cumprimento das tarefas desta etapa do ciclo vital.
Fica claro, na análise dos dados, que uma das tarefas iniciais da conjugalidade é a construção da intimidade. De fato, para diferentes autores, o estabelecimento da intimidade e do compromisso aparecem como desafios-chave nesta etapa. Especificamente no que diz respeito à intimidade, destacam-se a constituição de uma comunicação profunda (Nichols & Pace-Nichols, 1993; Ríos-González, 2011) e a criação de canais de encontro (Ríos-González, 2011) que resultem na construção de um universo compartilhado entre os parceiros, estabelecendo a identidade de casal (Nichols & Pace-Nichols, 1993). No presente estudo, a construção da intimidade parece assumir papel central nesta etapa, ao permitir que o casal se conheça de maneira mais integral e construa seu próprio espaço e identidade.
O relato dos participantes corrobora a natureza processual da construção da intimidade (Espínola et al., 2017). Para os parceiros que possuíam maior tempo de relacionamento prévio e mais experiências compartilhadas, a coabitação fomentou o reconhecimento de características do outro que já haviam sido identificadas. Contudo, para aqueles que conviveram por pouco tempo antes de iniciar a coabitação, evidenciou-se de maneira mais marcada a descoberta de características, necessidades e hábitos do parceiro que, antes, eram desconhecidos. Diante dessas experiências de descoberta, observou-se que a possibilidade de se abrir emocionalmente e compartilhar as próprias vulnerabilidades, emoções, percepções e histórias são aspectos que favoreceram a construção da familiaridade e da compreensão mútua. Esta atitude de abertura se mostrou um aspecto importante para a delimitação de um espaço de pertença e para a acomodação do casal em um modelo relacional que atendesse às necessidades práticas e emocionais de ambos (Ríos-González, 2011).
Quando a vivência cumulativa de experiências compartilhadas resulta no aumento da intimidade, tais vínculos de proximidade tendem a reverberar em maior compromisso com o relacionamento (Espíndola et al., 2017). O senso de compromisso foi bastante recorrente na fala dos casais entrevistados. A própria decisão de coabitar foi nomeada pelos participantes como um movimento importante para a consolidação da relação, e foi tomada por já considerarem um futuro juntos. Um estudo americano associou as coabitações iniciadas por conveniência a menores níveis de comprometimento, ao passo que aquelas motivadas pelo desejo de estar mais próximo do(a) parceiro(a) se relacionaram a maior qualidade conjugal (Tang et al., 2014). Os participantes deste estudo parecem se associar mais ao segundo tipo, já que os casais apresentaram indicativos de bons níveis de qualidade conjugal e não mencionaram razões econômicas para coabitar.
Em comparação com a etapa da relação sem moradia conjunta, a coabitação se diferenciou, apresentando menor compromisso interpessoal e satisfação em um estudo americano (Rhoades et al., 2012), o que contrasta, em alguma medida, com os resultados do presente estudo. Isto porque os participantes evidenciaram o comprometimento a partir dos diversos planos futuros que sustentam juntos, denotando confiança na relação e no(a) parceiro(a). Neste sentido, todos os casais afirmaram o desejo de oficializar a união futuramente. Possuir planos para o casamento foi associado a melhores níveis de qualidade conjugal entre coabitantes americanos (Brown et al., 2017). Assim, é possível que o desejo de casar esteja relacionado à maior satisfação com o relacionamento. Ainda, pode estar associado à alta escolaridade dos participantes, considerando que o casamento formal tem se tornado mais frequente em populações de renda e escolaridade mais elevadas (Manning, 2020; Ramm & Salinas, 2019; Sassler & Lichter, 2020).
Uma investigação americana, desenvolvida com díades casadas ou em coabitação, revelou maior compromisso e satisfação entre o grupo dos coabitantes em comparação com os casados. Este resultado foi explicado pelo estágio mais inicial do relacionamento dos casais em coabitação (Shannon & Bartle-Harring, 2017), e é corroborado, em alguma medida pelo presente estudo, já que os participantes expressaram bastante satisfação com suas relações amorosas e compromisso com seus companheiros.
Assim, pode-se pensar que a satisfação, o compromisso e a intimidade retroalimentam-se. Casais com maior intimidade podem ter mais disposição para investir e comprometer-se com o relacionamento, enquanto díades mais comprometidas sentem-se mais seguras na construção da intimidade. Em contrapartida, casais mais íntimos e comprometidos possivelmente se sintam mais satisfeitos, sendo que essa satisfação os motiva a aprofundar a intimidade e o compromisso entre si.
Os achados deste estudo também sugerem que, além de fortalecer a relação, a satisfação conjugal está relacionada ao crescimento e amadurecimento individual. O papel da conjugalidade como promotora do desenvolvimento individual vai ao encontro da ideia de que a complementaridade entre os parceiros e a validação recíproca, que resulta na construção de uma realidade compartilhada, contribuem para a estabilidade emocional e a integração social dos membros do casal (Willi, 1995). Ademais, essa associação pode estar refletindo a crescente valorização da individualidade nos relacionamentos (Borges et al., 2014) e corroborando as evidências de que, atualmente, as relações tendem a se manter enquanto são satisfatórias para ambos, uma vez que a dissolução do vínculo amoroso já não é um tabu social (Røsand et al., 2014).
A valorização da satisfação e da individualidade parece relacionada, também, à gratificação afetiva e sexual (Borges et al., 2014). Embora a afetividade não tenha sido diretamente explorada nas entrevistas, a expressão afetiva apareceu no relato dos casais de forma direta e indireta. Destacam-se as expressões indiretas de afeto, abrangendo, por exemplo, a manifestação de cuidado e zelo para com o bem-estar do(a) parceiro(a), na mesma direção de outros estudos a respeito do tema (Delatorre & Wagner, 2021; Silva et al., 2017). Essas manifestações perpassam ainda outras dimensões da qualidade conjugal. Por exemplo, a forma como o casal estabelece acordos e divide responsabilidades parece levar em conta as preferências e as limitações impostas pela saúde do(a) parceiro (a), de forma a promover e cuidar do bem-estar de ambos.
Por sua vez, a dimensão da sexualidade diz respeito a um importante aspecto relacional. A literatura aponta que a satisfação com a sexualidade se relaciona reciprocamente com a satisfação geral com o relacionamento (McNulty et al., 2016). Em alguma proporção, isso foi corroborado pelos participantes do presente estudo, já que os casais indicaram satisfação com ambos os aspectos. Os relatos demonstram que houve investimento das díades para alcançar maior satisfação sexual. Os casais dialogavam para indicar seus desejos e aspectos que gostariam de modificar, bem como para pontuar seus limites. Percebeu-se, durante as entrevistas, o cuidado e a atenção que exercitavam para conciliar e respeitar as demandas de ambos. A presença deste tipo de interação reforça a existência de intimidade conjugal, a qual foi indicada como favorecedora de maior conexão e satisfação sexual por Laszloffy (2016). Em contrapartida, a alusão à diminuição da frequência sexual após os primeiros meses de coabitação e em alguns momentos de confinamento, em decorrência da pandemia, reforça a ideia de que, embora a intimidade contribua para a conexão, certo grau de distância, mistério e novidade são necessários para a manutenção do desejo sexual (Perel, 2017).
Em síntese, os casais apresentaram níveis elevados de qualidade conjugal, embora também tenham descrito desafios e dificuldades, o que se mostra coerente com a etapa de formação do casal (McGoldrick & Shibusawa, 2016; Wagner & Delatorre, 2018). Dentre os principais desafios, destacam-se os de conciliar as diferenças, equilibrar a individualidade e a conjugalidade, dividir de forma justa as tarefas domésticas e conciliar a vida pessoal e a laboral. O contexto pandêmico no qual a pesquisa foi realizada também contribuiu para intensificar alguns desses desafios, bem como para o surgimento de outras demandas ou consequências negativas à saúde mental. Assim, tais informações devem ser consideradas ao analisar os resultados apresentados.
Considerações finais
Este estudo enfocou a formação do casal vivenciada a partir da coabitação, o que é bastante oportuno considerando a popularização deste tipo de relacionamento (Menezes & Lopes, 2007; Ramm & Salinas, 2019). Apesar de a coabitação estar se tornando cada vez mais normativa, ainda não possui contornos tão definidos como o casamento, por exemplo. Sendo assim, é possível que os casais em coabitação se deparem com ambivalências frente à ausência de modelos claros de relação. Embora isto possa onerar em maior investimento emocional para cada membro do casal, não é necessariamente negativo, já que permite a construção de uma forma de conjugalidade individualizada, que atenda às necessidades de cada casal, e desapegada de padrões conservadores que historicamente se associaram à formação conjugal pelo casamento (McGoldrick & Shibusawa, 2016).
Por muito tempo, os pesquisadores da conjugalidade compartilhavam a ideia de que a qualidade conjugal seria, naturalmente, mais elevada no início do relacionamento, havendo diminuição esperada com o passar do tempo por fatores como a rotina e o aumento das responsabilidades profissionais e parentais, por exemplo. Estudos recentes têm contraposto essa ideia, demonstrando que tal declínio não ocorre de uma maneira linear. Investigações recentes têm apontado uma tendência à estabilidade da qualidade conjugal ao longo do tempo, sendo que há probabilidade de haver um declínio mais intenso em casais que reportam baixos níveis de satisfação desde os anos iniciais do casamento (Karney & Bradbury, 2020; Williamson & Lavner, 2020). Neste sentido, compreender como a qualidade conjugal se constrói e se expressa na etapa de formação do casal é de grande importância, uma vez que este padrão inicialmente construído parece ser um elemento relevante na trajetória relacional do casal ao longo dos anos.
Neste estudo, todos os casais participantes revelaram estar satisfeitos com o relacionamento e apresentaram indicativos de alta qualidade conjugal. Assim, a investigação demonstrou como se constrói e se expressa a qualidade conjugal em casais heterossexuais coabitantes que vivem a etapa de formação do casal, por meio de casais que parecem estar sendo bem-sucedidos nesse processo. Diante disso, pode-se conjecturar que este perfil tenha sido um viés na constituição da amostra, na medida em que casais com baixa qualidade, convidados para participar, possivelmente não tenham se sentido desejosos de falar sobre a sua relação em um contexto de pesquisa. Desta forma, enquanto a pesquisa demonstra como se expressa a qualidade conjugal em casais que possuem, de fato, bons indicadores nesse construto, estudos futuros que compreendam como a baixa qualidade se constrói, desde o início do relacionamento, são necessários.
Além disso, é importante destacar que os dados deste estudo se restringiram a casais de adultos jovens, heterossexuais, de níveis socioeconômicos médios e majoritariamente brancos. Estudos recentes têm evidenciado que os processos adaptativos diádicos diferem significativamente entre casais de níveis socioeconômicos médio-alto e baixo (Karney & Bradbury, 2020; Williamson & Lavner, 2020), o que reforça a necessidade de cuidado na extrapolação destes achados para casais de realidades diversas. Sugere-se, deste modo, a realização de investigações futuras que incluam casais de níveis socioeconômicos baixos e altos, e com maior representatividade no que diz respeito à cor/raça autodeclarada dos participantes e à orientação sexual. A produção de mais pesquisas brasileiras é bem-vinda, considerando que a maior parte da literatura sobre o tema é internacional e, mais especificamente, advinda de países desenvolvidos. Dessa forma, novos estudos nacionais auxiliarão a melhor compreender possíveis diferenças culturais e particularidades da coabitação entre adultos jovens no Brasil.
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Os dados que fundamentam os achados deste estudo podem ser solicitados ao autor correspondente mediante uma solicitação justificada.
