RESUMO
A meia-idade é o período de vida sobre o qual menos se conhece, prevalecendo ainda mitos e equívocos. Simultaneamente, a meia-idade ocupa um lugar pivotal em termos individuais e societais, com os adultos de meia-idade a assumir cada vez mais a responsabilidade pelo bem-estar das gerações mais novas e mais velhas. Neste contexto, o presente estudo tem como objetivo compreender a experiência de ser adulto na meia-idade. Participaram 11 mulheres com idade compreendida entre os 41 e os 60 anos, docentes do ensino superior, com pelo menos um dos pais vivos, sendo a maioria casada e com filhos. A recolha de dados fez-se com entrevista semiestruturada, cujo conteúdo foi analisado seguindo as orientações da análise de conteúdo de Creswell. Os resultados caracterizam a meia-idade como um período desenvolvimental pautado por crescimento e declínio, responsável pelos vínculos intergeracionais na simultaneidade de papéis, e com capacidade proativa face às vulnerabilidades e desafios emergentes. A meia-idade apresenta características desenvolvimentais específicas, nomeadamente: (1) ganhos na capacidade de tomada de decisão, responsabilidade e estatuto profissional; (2) desafios inerentes à diversidade e simultaneidade de papéis de vida e esforço na conciliação vida profissional-vida pessoal/familiar; e (3) natureza intergeracional, sendo o grupo que faz a ponte entre a geração mais nova e a mais velha, particularmente ao assumir os cuidados aos pais idosos como tarefa desenvolvimental deste período de vida. Estes resultados evidenciam uma leitura positiva da meia-idade, contrariando a narrativa dominante durante décadas - a crise da meia-idade, alargando o conhecimento acerca da sua natureza desenvolvimental.
Palavras-chave:
Meia-idade; desenvolvimento adulto; cuidados simultâneos
ABSTRACT
Midlife is the most unknown life period, with myths and misconceptions still prevailing. Simultaneously, midlife assumes a pivotal position both individually and socially, with middle-aged adults taking on growing responsibility for the well-being of older and younger generations. In this context, the present study aims to understand the experience of being an adult in midlife. Eleven women with ages between 41 and 60 years old, teaching in higher education, with at least one parent alive, took part in the study, the majority being married and with children. Data were collected through semi-structured interviews, whose content was analyzed following the guidelines of Creswell's content analysis. The results characterize midlife as a developmental period marked by growth and decline, responsible for intergenerational bonds in the simultaneity of roles, with proactive capacity in the face of emerging vulnerabilities and challengers. In other words, midlife presents specific developmental characteristics, namely: (1) gains in decision-making skills, responsibility and professional status; (2) challenges inherent to the diversity and simultaneity of life roles and efforts to reconcile professional life-personal/family life; and (3) intergenerational nature, with this being the group that bridges the gap between the younger and older generations, particularly when assuming caregiving to elderly parents as a developmental task in this life period. These results show a positive view of midlife, contradicting the dominant narrative for decades - the midlife crisis, and expanding the knowledge about its developmental nature.
Keywords:
Midlife; adult development; double or triple caregiving
RESUMEN
La edad madura es el periodo de la vida sobre el que menos se sabe, con mitos e ideas erróneas que aún prevalecen. Al mismo tiempo, la edad madura ocupa un lugar fundamental en términos individuales y sociales, ya que los adultos de edad madura se responsabilizan cada vez más del bienestar de las generaciones más jóvenes y mayores. En este contexto, el presente estudio pretende comprender la experiencia de ser adulto en la edad madura. Las participantes fueron 11 mujeres de entre 41 y 60 años, profesoras de enseñanza superior, con al menos un progenitor vivo, la mayoría de ellas casadas y con hijos. Los datos se recogieron mediante entrevistas semiestructuradas, cuyo contenido se analizó siguiendo las pautas del análisis de contenido de Creswell. Los resultados caracterizan la edad madura como un periodo de desarrollo marcado por el crecimiento y el declive, responsable de los vínculos intergeneracionales en la simultaneidad de roles, y con capacidad proactiva frente a las vulnerabilidades emergentes y desafíos. En otras palabras, la edad madura presenta características específicas de desarrollo, a saber: (1) el aumento de la capacidad de decisión, la responsabilidad y el estatus profesional; (2) los retos inherentes a la diversidad y simultaneidad de los roles vitales y el esfuerzo por conciliar la vida laboral-personal-familiar; y (3) el carácter intergeneracional, al ser el grupo que tiende un puente entre la generación más joven y la más mayor, especialmente al asumir el cuidado de los padres mayores como tarea de desarrollo de este periodo de la vida. Estos resultados muestran una lectura positiva de la mediana edad, contradiciendo la narrativa dominante durante décadas - la crisis de la mediana edad, ampliando así el conocimiento sobre su naturaleza evolutiva.
Palabras clave:
Edad madura; desarrollo del adulto; cuidados simultáneos
Introdução
Apesar de se assumir que o desenvolvimento é um processo cumulativo ao longo do ciclo de vida (Bastos et al., 2021), e da meia-idade ocupar uma grande parte da vida adulta, conhecemos muito pouco acerca do desenvolvimento na meia-idade (Lachman, 2004). Para Lachman (2015), a meia-idade é o período do ciclo de vida menos investigado, apontando mesmo a existência de um gap, sendo que os adultos de meia-idade têm sido omitidos da investigação sobre o desenvolvimento adulto e o envelhecimento. Além disso, o pouco que se conhece sobre o desenvolvimento na meia-idade baseia-se quase totalmente em estudos conduzidos nos Estados Unidos da América com amostras constituídas por pessoas de classe média, brancas, casadas e com filhos. Esta situação tem potenciado a manutenção de ideias preconcebidas, por vezes erradas, acerca da natureza desenvolvimental da meia-idade. Assim, é fundamental (re)conceituar a meia-idade enquanto período de vida nuclear, ultrapassando as conceções ligadas à ‘crise da meia-idade’, para assumir uma visão da meia-idade como um período desenvolvimental vibrante, repleto de oportunidades e desafios únicos e específicos. Neste contexto, alguns autores (ex., Infurna et al., 2020; Lachman, 2015) têm reclamado a necessidade de investigação focada especificamente na meia-idade, nomeadamente em domínios de vida como trabalho e família.
A meia-idade, período etário situado entre os 40 e os 60 anos (Lachman, 2004), assume-se como um período de vida específico e, por isso, diferenciado do que o antecede, a juventude, e do que o sucede, a velhice. Numa perspetiva desenvolvimental, podemos assumir que as características definidoras da meia-idade envolvem o equilíbrio de múltiplos papéis, responder a oportunidades e desafios, e lidar com transições de vida (Infurna et al., 2020). Uma das particularidades da meia-idade é assumir e gerir uma multiplicidade de papéis de vida simultâneos, bem como a responsabilidade associada. Estes papéis incluem cônjuge/companheiro(a), pai/mãe, filho(a), profissional, colega, irmão/irmã, amigo(a), cuidador(a), membro da comunidade, entre muitos outros. Em média, os adultos de meia-idade estão envolvidos em quatro papéis de vida diferentes, podendo ir até oito (Ahrens & Ryff, 2006). Esta diversidade de papéis cria uma constelação única, distinta da juventude, uma vez que os jovens se encontram na fase de exploração e estabelecimento da carreira e de constituição de uma família; e distinta da velhice pois os mais velhos tendem a reduzir os seus papéis devido à aposentadoria, limitações funcionais e seleção de objetivos e relações emocionalmente significativos (Carstensen et al., 2020). Importa destacar que o que é específico da meia-idade é muito mais a simultaneidade de papéis e a responsabilidade e gestão associadas, do que o número de papéis. A título ilustrativo destacamos o interesse recente da literatura num grupo específico de adultos de meia-idade que acumula dois ou três papéis no âmbito dos cuidados, os designados double ou triple caregivers (DePasquale, 2019).
Os adultos de meia-idade são confrontados com oportunidades e desafios cruciais que importa analisar. Alguns desses desafios não são restritos à meia-idade, emergiram já na juventude, mas é neste período que adquirem maior intensidade ou magnitude e, por isso, sobrecarregam mais os adultos de meia-idade que estão já envolvidos numa diversidade de tarefas e papéis. Além disso, este aumento de sobrecarga ocorre num período em que algumas vulnerabilidades começam a emergir (ex., doenças crônicas, perdas cognitivas), o que faz com que a expressão destes desafios seja claramente distinta (Infurna et al., 2020). Por exemplo, os adultos de meia-idade estão frequentemente envolvidos nos cuidados aos pais idosos, no apoio aos filhos adultos e na gestão da carreira, muitas vezes em contextos socioculturais em que não existem políticas públicas de apoio. Além disso, nas sociedades ocidentais a responsabilidade pelos cuidados continua a ser considerada como específica das mulheres (Morais et al., 2018) que, frequentemente, se confrontam com tratamento diferencial no acesso e progressão profissional comparativamente aos homens (Thomas et al., 2018). Neste cenário, o sentimento de responsabilidade vivenciado pode ser avassalador, com implicações para a saúde física e mental (Blanchflower & Graham, 2021).
Mas a meia-idade tem também muitas oportunidades, frequentemente sob a forma de experiências positivas (Lachman et al., 2015). Alguns dos pontos altos da meia-idade são: apogeu profissional e, consequentemente, maior nível de renda; liderança familiar; maior capacidade e autonomia na tomada de decisão; maior autoconfiança; e maior envolvimento na comunidade. Globalmente, entre o final dos quarenta anos e início dos cinquenta, os adultos atingem o ponto alto do seu percurso profissional (Bhuller et al., 2017). Simultaneamente também são registrados ganhos na inteligência cristalizada/pragmática da mente (Schaie, 2012), no funcionamento emocional (Carstensen et al., 2020) e nas competências de autorregulação e autoeficácia (Lachman, 2004). Adultos de meia-idade com níveis socioeconômicos mais elevados têm acesso a recursos sociais, financeiros e psicológicos que potenciam melhores cuidados de saúde, atividades de lazer e culturais mais ricas e diversificadas, menor exposição a acontecimentos negativos e níveis mais baixos de stress crônico (Kirsch & Ryff, 2016).
Outro aspecto único da meia-idade é a diversidade de transições de vida que têm de enfrentar, incluindo alterações profundas nas rotinas da vida profissional resultantes de acontecimentos como progressão na carreira ou desemprego; doenças agudas (ex., acidente vascular cerebral, câncer); e alterações socioemocionais associadas ao divórcio, viuvez, recasamento, parentalidade tardia, cuidados filiais, ou planejamento da aposentadoria. As implicações desenvolvimentais destes acontecimentos de vida na meia-idade são ainda muito pouco compreendidas (Faria et al., 2020).
Grande parte dos estudos sobre a meia-idade têm-se centrado no bem-estar, especificamente na comparação com jovens e idosos. Estudos de natureza transversal reuniram evidências relativas a um baixo nível de bem-estar e satisfação com a vida na meia-idade (ex., Blanchflower & Graham, 2021). Mas os resultados de estudos longitudinais demonstram níveis elevados e estáveis na meia-idade, com os aspectos hedônicos do bem-estar e a experiência emocional apresentando trajetórias ascendentes (Galambos et al., 2015).
Paradoxalmente, na meia-idade têm sido encontrados indicadores reduzidos de saúde mental, nomeadamente taxas elevadas de depressão e ansiedade, especialmente em mulheres, pessoas com nível socioeconômico baixo e pessoas LGBT (Brody et al., 2018). Os adultos de meia-idade são os que apresentam valores mais elevados de consumo de antidepressivos e de consultas com profissionais da área da saúde mental (Blanchflower & Graham, 2021). Também na saúde física, os adultos de meia-idade apresentam maior prevalência de algumas doenças crônicas (ex., hipertensão) e agudas (ex., cerebrovasculares) geradoras de stress (Masters et al., 2018).
A meia-idade caracteriza-se ainda pela sua natureza intergeracional, ou seja, a interação e a ligação com a geração mais nova e a geração mais velha, sendo cada vez mais responsável pelo bem-estar destas gerações. Uma das principais consequências do aumento da esperança média de vida é o aumento acentuado do número de filhos adultos envolvidos nos cuidados aos pais idosos (cuidados filiais). Assim, a literatura tem vindo a assumir os cuidados filiais como uma tarefa desenvolvimental específica da meia-idade (Morais et al., 2019). A capacidade dos adultos de meia-idade responderem adaptativamente a esta tarefa depende de uma diversidade de condições e recursos, tendo a literatura apontado a maturidade filial como um recurso desenvolvimental nuclear (Morais et al., 2019). Por volta dos 40/50 anos, os adultos começam a tomar consciência de que os pais deixam de ser fontes de suporte e passam a precisar do seu suporte. Quando os filhos adultos proporcionam o suporte que os pais necessitam, cumprem a tarefa filial que, se bem-sucedida, promove a maturidade filial e prepara o adulto para as tarefas desenvolvimentais da velhice (Morais et al., 2019). Neste sentido, podemos considerar a maturidade filial um ganho desenvolvimental da meia-idade (Morais et al., 2019).
Mas, simultaneamente, os adultos de meia-idade continuam profundamente envolvidos nos cuidados parentais a filhos adolescentes e/ou adultos. A literatura aponta para mudanças profundas nas relações dos adultos de meia-idade com os seus filhos, nomeadamente em termos de frequência de contato entre os dois grupos geracionais, manutenção de suporte dos pais aos filhos e corresidência e afeto (Fingerman, 2017). A frequência de contato entre pais na meia-idade e respectivos filhos tem aumentado nos últimos 30 anos, em grande medida como resultado dos avanços tecnológicos (Fingerman, 2017). Paralelamente, os adultos de meia-idade são cada vez mais chamados a continuar garantindo o suporte material e financeiro aos filhos adultos, e é cada vez maior o número de filhos que continuam a viver na casa dos pais, ou que regressam a esta condição (Huo et al., 2019).
A simultaneidade de cuidados associada à vida profissional obriga a um esforço acentuado de coordenação de papéis, responsabilidades e recursos com profundas implicações físicas, psicológicas, econômicas e sociais para os adultos de meia-idade (Feinberg, 2018). Muitos destes adultos relatam mais conflitos trabalho-família, níveis elevados de stress, problemas de sono, qualidade pobre da relação conjugal, e mais dificuldades de carreira (DePasquale et al., 2016; DePasquale et al., 2017; Eifert et al., 2016; Polenick et al., 2016).
Em síntese, a meia-idade pode ser caracterizada como um período crucial no ciclo de vida atendendo ao papel nuclear que desempenha no desenvolvimento individual e no sucesso e bem-estar dos outros (Lachman et al., 2015). Este é, provavelmente, um dos períodos do ciclo de vida que encerra elevado potencial de reversibilidade e resiliência no sentido de inverter desvios às trajetórias desenvolvimentais adaptativas e preparar, assim, uma velhice bem-sucedida. Neste sentido, estabelece-se como objetivo do presente estudo compreender a experiência subjetiva de ser adulto na meia-idade.
Método
Participantes
No estudo participam 11 mulheres de meia-idade, com idades compreendidas entre os 41 e os 60 anos, docentes no ensino superior, sendo que a maioria é casada (n=9), com filhos (n=9). Todas as participantes têm pelo menos um dos pais vivo com idades entre os 60 e os 84 anos. Considerando o objetivo do estudo, as investigadoras definiram como critérios de inclusão no estudo: (a) idade compreendida entre os 40 e os 60 anos, uma vez que, segundo a OMS e a literatura no domínio (Lachman, 2004), este é o intervalo de idades que caracteriza a meia-idade; (b) ativo profissionalmente; e (c) possuir, pelo menos, um dos pais vivo.
Instrumentos
Os dados foram recolhidos por meio de entrevista semiestruturada, cujo roteiro, construído especificamente para o estudo, se estruturou em torno de dimensões características da meia-idade (Lachman, 2015), nomeadamente: (a) multiplicidade e equilíbrio de papéis; (b) oportunidades e desafios; e (c) transições de vida. Após a construção do roteiro, procedeu-se a um estudo piloto com a finalidade de verificar a adequação deste ao objetivo de investigação, o que permitiu ajustamentos em algumas questões no sentido de as tornar mais claras.
Procedimentos
Após a aprovação pela Comissão Científica do mestrado em Gerontologia Social (GeroSOC_1_A_2019), o estudo foi divulgado em diferentes contextos profissionais através de e-mails e redes sociais, destacando o seu objetivo e os critérios de inclusão. As pessoas que se disponibilizaram a participar e que respeitavam os critérios de inclusão foram contatadas no sentido de esclarecer eventuais dúvidas, obter o consentimento informado e agendar a entrevista.
As entrevistas foram realizadas presencialmente na instituição de ensino superior onde as investigadoras desenvolvem a sua atividade, em locais específicos que asseguravam as condições de privacidade e confidencialidade exigidas.
Todas as entrevistas, conduzidas pela mesma investigadora, tiveram a duração de, aproximadamente, 60 minutos, tendo sido gravadas em áudio e, posteriormente, transcritas verbatim.
Análise de dados
O conteúdo das entrevistas foi analisado seguindo as orientações do procedimento de análise de conteúdo definido por Creswell (2017). Neste procedimento de análise, denominado data analysis spiral, o investigador, em vez de seguir uma abordagem linear e hierárquica, percorre uma série de ciclos analíticos, em que a recolha e análise de dados podem ser realizadas em paralelo. O investigador inicia o processo com a existência de dados e termina com uma descrição destes, sendo que ao longo do processo interage com diversos níveis de análise, movendo-se entre estes de forma contínua. Os níveis de análise de conteúdo organizam-se em cinco etapas: (1) organizar e preparar os dados para análise, (2) ler através dos dados, (3) descrever, classificar e interpretar os dados em códigos e temas, (4) interpretar os dados, e (5) representar/visualizar os dados.
O presente estudo seguiu uma análise indutiva, isto é, os códigos foram criados com base na informação recolhida nas entrevistas e, para tal, utilizou-se o software NVivo10, tendo sido definido como unidade de análise a frase. As primeiras três entrevistas foram analisadas por dois juízes de modo independente. Terminada a análise de cada entrevista, os dois juízes reuniram-se para discutir a codificação, sendo que em caso de desacordo, retomou-se o conteúdo da entrevista de forma a esclarecer e resolver o desacordo. As restantes entrevistas foram analisadas por um dos juízes e a codificação foi discutida com o outro juiz inicial que, neste processo, passou a assumir o papel de auditor/especialista, atendendo à sua maior experiência em termos do processo de análise e da temática sob estudo.
Resultados
A análise de conteúdo das entrevistas permitiu identificar três domínios: (1) meia-idade como momento de crescimento e declínio, (2) meia-idade na simultaneidade de papéis e vínculos geracionais e (3) meia-idade como período de vulnerabilidade e proatividade, constituídos por um número variável de categorias e subcategorias. Globalmente, o primeiro domínio caracteriza a meia-idade como período desenvolvimental que integra ganhos e perdas. Já o segundo domínio caracteriza a posição privilegiada que a meia-idade ocupa no ciclo de vida e que, por isso, facilita/promove a ligação entre a geração mais nova (os filhos) e a geração mais velha (os pais idosos), evidenciando a simultaneidade de papéis. Por fim, o terceiro domínio caracteriza a meia-idade como período de vida diferenciado e específico, pautado por vulnerabilidades, mas também pela capacidade de proatividade. Cada domínio será descrito a seguir, recorrendo a extratos das entrevistas para ilustrá-los.
Meia-idade como momento de crescimento e declínio.
A meia-idade é vivida pelas participantes como um período que integra mudanças, algumas das quais representam crescimento e outras declínio.
O crescimento é expresso na assunção de responsabilidades na vida pessoal e profissional, na maior experiência de vida, na maior capacidade de organização e resolução de problemas, em níveis mais elevados de autoestima e autoconfiança, e em maior liberdade, autonomia e legitimação profissional.
Assim, para mim ser adulto na meia-idade é chegar a uma fase da vida pessoal e profissional de grande responsabilidade, mas também sentir que conquistei um espaço, uma legitimidade. Já tenho alguma experiência de vida que me dá mais sabedoria, mais serenidade, mais legitimidade para decidir, agir […] (P04).
Desperta-nos esta sensibilidade para alguns aspetos […] Nós vamos aperfeiçoando competências, habilidades, capacidades com a experiência, com a idade (P09).
Na perspectiva das participantes o crescimento é também expresso na transformação da relação com os pais, que passa a assumir uma natureza mais simétrica. Ou seja, uma relação entre adultos, em que os filhos adultos mostram maior empatia e compreensão face aos pais, percebendo-os como pessoas com um percurso de vida e uma diversidade de papéis que vai para além do papel de pais. Esta mudança potencia também a tomada de consciência das necessidades dos pais e da responsabilidade dos filhos para assumirem progressivamente os cuidados dos pais.
[…] a grande diferença é que a relação que eu tenho com os meus pais neste momento é mais uma relação de proximidade, de amigos, de adultos do que […] eu trato a minha mãe como uma amiga. Neste momento, a minha mãe […] se eu disser que a minha mãe é, neste momento, a minha melhor amiga não estou a dizer mentira nenhuma (P10).
As perdas são sentidas em diferentes domínios do funcionamento, particularmente em termos físicos e cognitivos. Menor vitalidade/energia para as atividades do dia a dia, surgimento de rugas e cabelos brancos e perdas na acuidade visual foram os aspectos mais salientados no domínio físico. Já no domínio cognitivo foram evidenciadas algumas dificuldades de memória.
Sinto que já não tenho a mesma energia para trabalhar, para gerir múltiplas tarefas. Muito provavelmente devido a tudo o que já referi, a este contexto do que é ser pessoa e profissional na meia-idade. Já não tenho a memória que tinha, esqueço-me de muitas coisas […] (P01)
Em termos fisiológicos […] já começo a notar e começo a ficar com um bocado de medo de ver um bocadinho mal ao perto (risos) e ter de começar a usar óculos e começam aqui a aparecer as rugas, mas nada de muito preocupante! (P05).
Um outro indicador que pode ser tomado como aproximação à perda é a crescente preocupação com o envelhecimento dos pais e a consequente morte. Esta consciência das perdas cada vez mais acentuadas e do tempo de vida cada vez mais limitado dos pais é gerador de inquietação quanto à capacidade para cuidar dos pais idosos e às implicações e interferências destes cuidados nos restantes papéis e responsabilidades das participantes.
Assusta-me muito se a minha mãe ou o meu pai ficam acamados, dependentes, pois para além da exigência em termos de cuidados instrumentais, será muito duro em termos emocionais, especialmente para a minha mãe, pois ela sempre foi muito independente e uma lutadora e se um dia ficar dependente vai ter dificuldade em aceitar! E eu, enquanto filha, também vou ter dificuldade em vê-la nessa condição, mas sei que serei capaz de cuidar dela (P11).
Por fim, a experiência da meia-idade para as participantes integra ainda desafios na conciliação vida pessoal-vida profissional e na relação conjugal. A conciliação vida pessoal-vida profissional mostra-se exigente, pois o elevado envolvimento e responsabilidade profissional limitam a disponibilidade de tempo e recursos para responder às necessidades e interesses da vida pessoal, quer em termos de lazer, quer das relações interpessoais significativas. A gestão harmoniosa do tempo e a limitação de tarefas profissionais parece fundamental.
Muitas vezes sinto que penalizo a minha família, a minha vida pessoal para poder responder às exigências da vida profissional. A gestão do tempo e das tarefas é muito difícil, muito complexa. Mas a vida profissional também é importante para mim, só acho que não deveria ter tantas implicações para a vida pessoal […] (P02).
A meia-idade é muito ativa, muita responsabilidade, muitas coisas para fazer [...] Acho que hoje em dia a nossa profissão exige-nos muito. Pelo menos a minha profissão exige e tenho algumas dificuldades em conseguir conciliar muitas vezes o meu papel na família (P07.)
As participantes reconhecem a importância da relação conjugal e a sua especificidade na meia-idade, nomeadamente em termos de timings, manifestações de afeto e estabilidade. Alimentar a relação conjugal num contexto de grande solicitação profissional e relacional e de escassez de tempo, é apontado pelas participantes como desafio maior.
Mesmo na relação com o meu marido, por exemplo, sinto muito mais serenidade, muito mais harmonia. Já são muito anos, e penso que também aprendemos a sintonizar o nosso modo de funcionar, de ver o mundo e projetar o futuro (P06).
Meia-idade na simultaneidade de papéis e vínculos geracionais
Um outro aspecto que caracteriza a experiência da meia-idade é o lugar privilegiado que os adultos de meia-idade ocupam em termos geracionais. Os adultos de meia-idade têm o potencial para estabelecer a ponte entre a geração mais nova, os filhos, e a geração mais velha, os pais idosos. Esta ligação entre gerações é expressa pela capacidade de potenciar e assegurar os cuidados aos membros mais velhos da família, sem, no entanto, negligenciar os cuidados aos filhos que, na maior parte dos casos, ainda se encontram em casa. Assim, os cuidados parentais visam continuar a assegurar condições para que os filhos se desenvolvam adaptativamente. Já os cuidados filiais representam uma nova tarefa, que se assume como específica da meia-idade e se reveste de complexidade, desafio e oportunidade.
Mas é interessante pensar não só nos meus objetivos, mas objetivos dos meus filhos e naquilo que posso ajudar para que possam concretizar os objetivos deles, não é? Daí a mudança radical quando se passa a ser pai, não é? De não sermos só nós, mas termos um outro, não é? O filho que tudo fazemos para que esteja bem e ajudar com [...] (P03).
Eu não pretendo ser mãe dos meus pais, sei que tenho cada vez mais de cuidar deles. Já sinto isso, ligo mais vezes para ver se está tudo bem, pergunto mais sobre se tomou medicação, o que disse o médico, acompanho algumas consultas, especialmente a minha mãe […] (P11).
Neste contexto de cuidados simultâneos, as participantes consideram que a sua responsabilidade é gerir e unir as duas gerações, apesar das exigências e custos associados. Assumem-se quase como mediadores, facilitando o convívio, as trocas e a relação entre os avós e os netos. A partilha de experiências e valores, a valorização das especificidades de cada grupo geracional e a criação de oportunidades de reforço dos laços intergeracionais são fundamentais para as participantes, que consideram mesmo que este “estar entre” é outra das especificidades da meia-idade.
É gerir. É gerir e equilibrar, equilibrar as partes. Fazer com que se entendam porque hoje realmente estou numa situação privilegiada. Estou mais próxima de uns e estou mais próxima de outros. Estou equidistante de ambos [...] e é esse o papel que eu acho que tenho (P01).
Penso que o maior desafio é gerir estes papéis de vida, conseguir disponibilidade de tempo, emocional e até mental para estar com os meus pais, ajudá-los mais e continuar a ser mãe, cônjuge, irmã, amiga, profissional. Às vezes chega a ser extenuante […] (P08).
Eu acho que tenho de ser pivot entre as gerações (P04).
O meu papel [...] manter e cultivar laços. Quer da minha parte com eles, quer tentar promovê-los entre os mais novos (P10).
Meia-idade como período de vida entre a juventude e a velhice
Este terceiro domínio descreve a meia-idade como um período do ciclo de vida específico e identitário, distinto da juventude e da velhice. Apesar de reconhecerem alguma continuidade entre a juventude e a meia-idade, as participantes identificam claramente aspectos distintivos e exclusivos desta fase da vida. A meia-idade é experienciada como o período da vida caracterizado por maior estabilidade e segurança do ponto de vista profissional e financeiro, mas também emocional e relacional. É destacada a maior segurança profissional, associada a cargos superiores, que lhes confere maior liberdade na tomada de decisão. Mas ao mesmo tempo, esta posição profissional diferenciada traz maior responsabilidade pelos outros, nomeadamente criar condições para que a geração mais nova possa também construir o seu projeto profissional.
No meu caso, eu destaco a segurança profissional, que eu tenho segurança profissional que me permite segurança económica, estabilidade económica […] (P04).
Para mim significa maior liberdade, por um lado, em termos de tomada de decisão. Não sei se liberdade é o melhor termo, penso que é mais legitimidade. [...] Mas por outro lado, associada a esta legitimidade vem também maior responsabilidade. Sinto muito vezes que, quer na família quer no trabalho, as pessoas esperam que eu me pronuncie, que eu decida ou dê orientações sobre muitos aspetos. […] E é preciso ‘muito jogo de cintura’ para lidar e gerir este sentimento de responsabilidade (P05, grifo nosso).
Já do ponto de vista emocional e relacional, as participantes destacam os novos papéis e tarefas associadas, particularmente o de cuidadoras dos pais (cuidados filiais).
É ser cuidadora (P01).
Ser filha adulta na meia-idade […] significa estar mais disponível tendo menos disponibilidade, dar respostas de uma forma diferente (P09).
Ser filho na meia-idade dá-nos esta autonomia para a decisão independentemente dos pais, apesar do respeito e do grande afeto pelos pais. O que mais se destaca é a maior autonomia, liberdade na tomada de decisão, mas também a maior responsabilidade em estar disponível para os pais e dar mais, cuidar mais, estar mais atento (P11).
Mas a meia-idade é também o período de vida que permite a construção e concretização de projetos de vida. As participantes citam planos para aprender novas competências, como dança ou meditação, mas também para aumentar os períodos de lazer através de viagens ou tempo de descanso; ou ainda de consolidação e projeção profissional, como liderar projetos ou inovar em determinadas áreas.
Então, ainda não aprendi a dançar! (P04).
Há coisas que eu gostava de fazer profissionalmente, consolidar a minha carreira, consolidar a minha carreira. Isso passa por, provavelmente, gostava de liderar um projeto, gostava de estar mais envolvida academicamente no terreno […] no terreno, não tanta burocracia, não estar num cargo de gestão. Tenho essa sede, ou seja, sentir [...] (P07).
Além disso, as participantes parecem revelar uma consciência muito forte de que meia-idade constitui uma janela de oportunidade para a fase seguinte da vida, a velhice. Ou seja, referem com grande clareza a consciência da proximidade da velhice, que desejam viver do modo ativo e envolvido com qualidade de vida e bem-estar, apesar de algum receio das limitações e da doença. Talvez por isso, revelam planos de mudança nos estilos de vida e projetos para a velhice, após a aposentadoria.
E portanto, tenciono ir-me cuidando, fazendo a minha prevenção, fazendo exames, vou fazendo sempre exames médicos, de rotina, no sentido de prever ou precaver determinado tipo de situações mais dolorosas. A ideia da dor é uma coisa que me assusta (P02).
Depois também penso que tenho de criar uma retaguarda, recursos para compensar as perdas que vou ter, as limitações que inevitavelmente vão surgir. Quero muito preparar a minha velhice e a do meu marido para podermos ser o mais autónomos possíveis, podermos continuar a fazer as nossas escolhas […]. Sei que vou ter perdas, limitações, mas também sei, ou espero pelo menos, que se me preparar e organizar posso viver relativamente bem com elas. O que mais desejo é poder continuar ativa, envolvida […] (P09).
Discussão
Globalmente, os nossos resultados permitem afirmar a meia-idade como (1) um tempo de crescimento e declínio, (2) um período de simultaneidade de papéis e vínculos intergeracionais, e (3) um momento de proatividade, avançando na compreensão das dinâmicas desenvolvimentais específicas deste período de vida. Assim, a meia-idade envolve a gestão e o equilíbrio de papéis simultâneos, nomeadamente enquanto mãe, filha, profissional, companheira/cônjuge, amiga. Mas a meia-idade também é caracterizada por oportunidades que decorrem dos ganhos desenvolvimentais (ex., maior competência, capacidade de tomada de decisão, autonomia), e por desafios, particularmente no domínio individual e relacional, como é o caso dos cuidados filiais. Neste sentido, a experiência de ser adulto na meia-idade aproxima-se das tendências internacionais que situam como característico da meia-idade o equilíbrio de múltiplos papéis, responder a oportunidades e desafios e lidar com transições de vida (Infurna et al., 2020; Thomas et al., 2018). Mas as participantes reconhecem também perdas específicas da meia-idade, nomeadamente nos domínios físico e cognitivo, que são interpretadas como um indicador de algum declínio (Schaie, 2012).
A multiplicidade e simultaneidade de papéis é muito saliente nos nossos resultados, pois grande parte das participantes relata assumir papéis relevantes. Também neste nível encontramos paralelismo com as evidências prévias, quer em termos do tipo de papéis, quer do número, quer ainda da sua simultaneidade (Ahrens & Ryff, 2006; DePasquale et al., 2018). Mas importa também destacar as exigências associadas, nomeadamente a responsabilidade subjacente a estes papéis e/ou os conflitos ou interferência de papéis, particularmente ao nível da conciliação vida profissional-vida pessoal/familiar. Tal como apontado por outros autores, é frequente na meia-idade a vivência de conflitos trabalho-família, níveis elevados de stress, problemas de sono, qualidade pobre da relação conjugal, entre outros (DePasquale et al., 2016; Eifert et al., 2016; Polenick et al., 2016).
Segundo as participantes, a meia-idade é um período de vida caracterizado por ganhos profissionais, familiares e pessoais. A grande maioria destaca como ganho da meia-idade a posição diferenciada na carreira, que proporciona segurança profissional, estabilidade financeira e competência. Estes resultados são consistentes com a literatura no domínio que aponta como oportunidades da meia-idade o desenvolvimento profissional e (a consequente) estabilidade financeira (Bhuller et al., 2017). Também a posição destacada que assumem na família, nomeadamente em termos de tomada de decisão e de responsabilidade pelos membros mais novos e mais velhos, é coerente com a literatura prévia (ex., DePasquale, 2019). Muitas participantes apontaram maior segurança na tomada de decisão, maior sentimento de competência pessoal, ou ainda maior capacidade de autorregulação emocional, particularmente em comparação com a juventude. Também Lachman (2015) e Bhuller et al. (2017) relataram ganhos nos mesmos domínios, o que em parte pode ser entendido como corroboração dos achados do nosso estudo.
Outro aspecto salientado neste estudo liga-se com o que, em certa literatura desenvolvimental, tem sido tratado no âmbito do ‘vínculo geracional’. A meia-idade caracteriza-se também pelos cuidados intergeracionais, ou seja, todas as participantes destacam a capacidade para cuidar como central na meia-idade. O cuidar parece assumir-se como dimensão transversal a diferentes contextos de vida: cuidar na família (filhos, pais), mas também cuidar no contexto profissional (colegas). Se na vida profissional este cuidar assume frequentemente a forma de mentorado, em que as participantes procuram ajudar colegas mais jovens na consolidação da carreira profissional; na vida familiar destacam-se os cuidados parentais e os cuidados filiais. Os cuidados parentais pautam-se por grande envolvimento, pois a maioria coabita com os filhos, mesmo no caso de filhos adultos (jovens), à semelhança do que é referenciado em outros estudos (Huo et al., 2019; Byers et al., 2008). A preocupação com o bem-estar dos filhos e a criação de condições para o sucesso educativo e profissional é muito saliente e altamente valorizado. Apesar da parentalidade ser um papel iniciado na juventude ou na transição para a meia-idade, e nesse sentido não é novo ou exclusivo deste período de vida, reconhecem especificidades na meia-idade. A maior articulação entre os objetivos e projetos das mães e dos filhos é um dos aspectos destacados, assim como a ‘partilha dos filhos’ com outras figuras importantes como os pares. Estas vivências da parentalidade são, de alguma forma, potenciadas pelas novas tecnologias que facilitam o contato regular mesmo em situações de distância física, como no caso dos filhos deslocados no ensino superior (Fingerman, 2017).
Os cuidados filiais parecem assumir-se como específicos da meia-idade, pois as participantes reconhecem que é nesta fase que tomam consciência das perdas/limitações dos pais e da necessidade de assegurar o bem-estar destes através da prestação de cuidados, que assumem como sendo sua responsabilidade, tal como validado por Morais et al. (2019). Globalmente, as participantes parecem encarar os cuidados filiais de forma positiva, apesar da sobrecarga na gestão dos restantes papéis de vida (DePasquale et al., 2018; DePasquale et al., 2016). Este é um aspecto muito relevante dada a maior probabilidade das filhas adultas terem de assumir os cuidados filiais pelo fato de serem mulheres (Morais et al., 2019).
Os cuidados parentais e filiais, especialmente quando simultâneos, constituem uma oportunidade para a intergeracionalidade, uma vez que as participantes encontram frequentemente no âmbito dos cuidados formas para ligar as duas gerações (mais nova e mais velha), através do reforço dos laços e das trocas intergeracionais, assumindo-se como mediadoras deste processo tal como proposto por Lachman (2015) e Lui e Lachman (2019).
Por fim, apesar das participantes situarem a meia-idade como o período de vida que sucede a juventude e antecede a velhice, é evidente que reconhecem o seu caráter distintivo e específico. A meia-idade é percebida como uma oportunidade, com potencial de desenvolvimento, apesar de algumas perdas evidentes. As participantes assumem projetos a nível profissional e pessoal para a meia-idade e, particularmente relevante, têm consciência da proximidade da velhice e envolvem-se já em processos de antecipação e preparação para esta. Neste sentido, a meia-idade parece constituir-se como uma janela de oportunidade para preparar uma velhice bem-sucedida, daí a relevância da proatividade, através de mudanças nos estilos de vida, adoção de comportamentos saudáveis e construção de projetos de vida para a pós-aposentadoria.
Importa evidenciar que as participantes apresentam níveis elevados de formação/instrução e estatuto socioeconômico, tendo este aspecto sido apontado na literatura como contribuindo para melhores resultados desenvolvimentais pelo acesso a mais e diversificados recursos (Kirsch & Ryff, 2016). Este assunto deve ser retomado em novos estudos, uma vez que os fatores associados à condição socio-econômica-cultural são relevantes na transformação desenvolvimental.
Considerações finais
Os resultados deste estudo evidenciam uma leitura positiva da meia-idade, contrariando a narrativa dominante durantes décadas - a crise da meia-idade. A meia-idade é caracterizada como um período de vida específico e diferenciado, pautado por maior segurança e estabilidade (pessoal, financeira e profissional), responsabilidade acrescida (familiar, profissional e social) e emergência das primeiras perdas no funcionamento individual (físicas e cognitivas). Apesar de tudo, o balanço entre ganhos e perdas é positivo, com os ganhos a superarem as perdas, mas acompanhado da consciência da proximidade da velhice e dos desafios associados. O confronto com o envelhecimento dos pais e a necessidade de cuidados acrescidos poderá contribuir para esta situação.
Apesar dos resultados obtidos, o presente estudo apresenta limitações que importa considerar. O número de participantes é limitado, o que condiciona a expressão dos resultados. Além disso, o fato de todas as participantes serem do gênero feminino e docentes do ensino superior pode introduzir viés nos resultados, tendo em conta o efeito do gênero e do estatuto socioeconômico no processo desenvolvimental (Kirsch & Ryff, 2016). Também o amplo leque etário das participantes (41-60 anos) pode ser uma limitação, considerando que a recente literatura no domínio (Infurna et al., 2020) equaciona a possibilidade de especificidades desenvolvimentais na primeira metade da meia-idade (40-50 anos) comparativamente à segunda metade (50-60 anos). Neste sentido, recomenda-se que em estudos futuros se considere a inclusão de maior diversidade nos participantes, nomeadamente em termos de gênero, estatuto socioeconômico, orientação sexual, raça/etnia, instrução e contextos profissionais. Também poderá ser importante desenvolver estudos mais específicos em termos de subgrupos etários que permitam a comparação entre adultos na primeira metade da meia-idade com adultos na segunda metade. Por fim, recomenda-se ainda o desenvolvimento de estudos longitudinais que sustentem uma leitura desenvolvimental da meia-idade, considerando a natureza cultural e histórica do desenvolvimento humano.
Se, por um lado, os resultados tornam evidente o lugar fundamental que a meia-idade ocupa no ciclo de vida, quer em termos individuais, quer societais. Por outro lado, também nos devem alertar para a necessidade de desenvolver intervenções que permitam sustentar a complexidade desenvolvimental da meia-idade, potenciando a saúde física e mental e a resiliência dos adultos de meia-idade.
Nos últimos anos temos assistido ao crescimento do interesse na meia-idade e ao destaque de mais conhecimento científico sobre este período de vida com um apelo à investigação da meia-idade enquanto período desenvolvimental próprio e diferenciado (Lachman, 2015; Infurna et al., 2020). Neste contexto, parece-nos que o presente estudo representa um esforço válido e relevante ao reunir evidências sobre as especificidades desenvolvimentais da meia-idade.
Agradecimentos
Agradecemos a todas as participantes pela disponibilidade e generosidade para partilhar a sua experiência, participando deste estudo.
Referências
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