Open-access Poéticas visuais em Libras e direitos linguísticos: cartografia de práticas artístico-culturais com jovens surdos

Poéticas visuales en lengua de señas brasileña y derechos lingüísticos: cartografía de prácticas artístico-culturales con jóvenes sordos

Resumo

O artigo apresenta uma análise cartográfica de uma intervenção artístico-cultural com jovens surdos na Associação dos Surdos de São Carlos. Fundamentado nos Estudos Surdos e nas Filosofias da Diferença, investiga como práticas estético-poéticas na Língua Brasileira de Sinais (Libras) se articulam aos direitos linguísticos e culturais. As oficinas envolveram leitura de imagens, experimentação e criação visual, inspiradas em Campo de Girassóis, de Van Gogh, e na poesia sinalizada de Cláudio Mourão, desenvolvida no projeto #CasaLibras. A produção de dados incluiu videogravações, diário de campo e obras artísticas. A análise evidenciou a invisibilização da arte surda, a textualidade diferida como prática autoral e a arte em Libras como reivindicação político-identitária, defendendo a além-acessibilidade como horizonte ético-político.

Palavras-chave
surdez; direitos linguísticos; arte em libras; textualidade diferida; intervenção cultural

Abstract

This article presents a cartographic analysis of an artistic-cultural intervention with deaf youth at the São Carlos Deaf Association. Grounded in Deaf Studies and Philosophies of Difference, it investigates how aesthetic-poetic practices in Brazilian Sign Language (LIBRAS) intersect with linguistic and cultural rights. The workshops involved image reading, experimentation, and visual creation, inspired by Van Gogh’s Sunflower Field and the signed poetry of Cláudio Mourão, as developed in the #CasaLibras project. Data collection included video recordings, field notes, and artworks. The analysis highlights the marginalization of deaf art, deferred textuality as an authorial practice, and art in LIBRAS as an assertion of political and identity-based claims, advocating for beyond-accessibility as an ethical-political horizon.

Keywords
deafness; linguistic rights; art in LIBRAS; deferred textuality; cultural intervention

Resumen

El artículo presenta un análisis cartográfico de una intervención artístico-cultural con jóvenes sordos en la Asociación de Sordos de São Carlos. Fundamentado en los Estudios Sordos y en las Filosofías de la Diferencia, investiga cómo las prácticas estético-poéticas en lengua de señas brasileña (Libras) se articulan con los derechos lingüísticos y culturales. Los talleres incluyeron la lectura de imágenes, la experimentación y la creación visual, inspiradas en Campo de girasoles, de Van Gogh, y en la poesía signada de Cláudio Mourão, en el marco del proyecto #CasaLibras. La producción de datos incluyó videograbaciones, un diario de campo y obras artísticas. El análisis puso de manifiesto la invisibilización del arte sordo, la textualidad diferida como práctica autoral y el arte en Libras como reivindicación político-identitaria, y propone la más-allá-de-la-accesibilidad como horizonte ético-político.

Palabras clave
sordera; derechos lingüísticos; arte en Libras; textualidad diferida; intervención cultural

Introdução

A promoção de uma educação equitativa para pessoas surdas no Brasil enfrenta desafios persistentes, especialmente no que se refere à efetivação da Língua Brasileira de Sinais (Libras)1 como língua de instrução e de mediação cultural. Apesar do reconhecimento legal da Libras desde 2002, pela Lei nº 10.436, regulamentada pelo Decreto nº 5.626/2005, a consolidação de políticas linguísticas que assegurem sua presença plena nos espaços educacionais, culturais e sociais ainda se encontra em construção (Decreto nº 5.626, 2005; Lei nº 10.436, 2002; Lodi, 2013; Machado et al., 2017).

Diversos dispositivos legais reconhecem a Libras como língua das comunidades surdas brasileiras, asseguram direitos linguísticos e determinam sua presença obrigatória em contextos educacionais, culturais e midiáticos. Contudo, permanece uma distância significativa entre as garantias previstas em lei e a realidade vivida pelas pessoas surdas. O desconhecimento social acerca desses direitos expõe essa população a situações de vulnerabilidade social e linguística, agravadas pela ausência de políticas públicas consistentes que promovam o acesso à informação em Libras e invistam em processos de formação continuada voltados especificamente às comunidades surdas (Lodi, 2013; Lopes, 2007; Martins, 2020; Martins & Lopes, 2024).

Essa lacuna torna-se particularmente evidente no campo artístico-cultural. São escassas as produções sociais que asseguram o direito das pessoas surdas ao acesso, em Libras, a conteúdos culturais e de entretenimento de ampla circulação social. Essa ausência limita a participação das pessoas surdas em atividades essenciais à construção de identidade, pertencimento e cidadania. A falta de espetáculos teatrais, exposições, filmes e outras produções culturais concebidas ou traduzidas em Libras compromete o pleno exercício dos direitos culturais dessa população (Albres, 2020; Martins, 2023).

Essa problemática articula-se a uma tensão mais ampla no campo da educação de surdos: a prevalência de políticas de acessibilidade fundamentadas em perspectivas que centralizam práticas baseadas em modelos normativos pensados para pessoas ouvintes. Em pesquisa de pós-doutorado, Martins (2024) evidencia a inexistência de políticas linguísticas que reconheçam a diferença linguística da comunidade surda como um direito ontológico, e não apenas como uma necessidade técnica de acessibilidade. Predominam políticas que se limitam a ajustes estruturais mínimos em ambientes educacionais e sociais, sem considerar as especificidades linguísticas, culturais e identitárias das pessoas surdas, diferentemente do que já se observa em políticas destinadas a comunidades indígenas, comunidades de imigrantes e outras minorias linguísticas, como aquelas presentes em regiões de fronteira.

Nesse sentido, Martins e Lopes (2024) defendem a urgência de ultrapassar a noção convencional de acessibilidade, propondo uma abordagem de além-acessibilidade2, como nomeiam as autoras, que assegura o direito à existência na diferença. Embora compartilhem lutas com outras minorias linguísticas, as pessoas surdas enfrentam desafios específicos, decorrentes de sua dispersão geográfica e de sua recorrente vinculação ao campo da educação especial. Tal associação contribui para reduzir a Libras à condição de mero recurso comunicativo, desconsiderando seu estatuto de língua plena, produtora de cultura e de pensamento.

Essa reflexão introdutória evidencia tensões e desafios vividos pela comunidade surda: ausência de políticas linguísticas que promovam espaços de aquisição da Libras; desconhecimento da língua de sinais por parte de famílias de crianças surdas; atrasos na aquisição da linguagem; fragilidade das políticas educacionais voltadas ao ensino em Libras; escassez de espaços culturais que promovam produções mediadas pela Libras; e consequente baixa oferta de produtos de entretenimento na língua de sinais (Martins, 2023, 2024). Diante desse cenário, foi desenvolvida uma intervenção artístico-cultural que buscou contribuir para a consolidação de políticas de direitos humanos para pessoas surdas, articulando educação, cultura e arte em Libras no contexto da educação não formal.

Este estudo insere-se nesse contexto problemático, investigando de que modo práticas artístico-culturais em Libras podem se constituir como espaços de afirmação identitária e de reivindicação de direitos linguísticos, entendidos aqui como o direito de exercer uma forma ontológica outra, que afirma a vida na diferença. A questão norteadora que orienta a investigação é: como se articulam o direito linguístico e o reconhecimento de práticas culturais surdas em experiências artístico-literárias desenvolvidas em Libras com pessoas surdas?

O objetivo geral é analisar os processos de subjetivação e as formas de expressão identitária que emergem de uma intervenção didático-artístico-cultural centrada na valorização da Libras como língua matriz de criação estética e política (Soler & Martins, 2022). Os objetivos específicos desdobram-se em três eixos:

  1. compreender as relações entre letramento artístico-cultural e direitos linguísticos das pessoas surdas;

  2. analisar os processos de apropriação da textualidade diferida como prática de autoria surda;

  3. identificar como a arte opera como intercessora de processos de subjetivação e de reivindicações políticas.

A relevância do estudo manifesta-se em múltiplas dimensões. Socialmente, contribui para a visibilidade das práticas culturais surdas e para a garantia do direito à arte em Libras, historicamente negligenciadas pelas políticas públicas. Academicamente, articula aportes dos Estudos Surdos e das Filosofias da Diferença para explorar relações entre arte, linguagem e direitos humanos no contexto da surdez. Politicamente, ao desenvolver-se no âmbito da Associação dos Surdos de São Carlos, fortalece esse espaço como núcleo de formação cultural, resistência identitária e articulação comunitária.

O artigo está estruturado em quatro seções principais. A primeira apresenta o enquadramento teórico, articulando Estudos Surdos, Filosofias da Diferença, direitos linguísticos e textualidade diferida. A segunda descreve a metodologia cartográfica utilizada, detalhando o contexto, os participantes e os procedimentos de produção e análise dos dados. A terceira seção organiza e discute os dados em três eixos analíticos, emergidos como zonas de intensidade no percurso investigativo. Por fim, as considerações finais sintetizam os principais contributos do estudo, bem como suas implicações, limitações e possibilidades de continuidade.

Diferença surda, marcadores culturais e ontologia visual

A perspectiva teórica adotada neste estudo ancora-se nos Estudos Surdos, campo de investigação consolidado que compreende a surdez não como déficit ou patologia, mas como diferença cultural e linguística (Lopes, 2007; Skliar, 1998). Nessa abordagem, os sujeitos surdos são constituídos por marcadores culturais que possibilitam reconhecimento recíproco, forjando valores comuns e partilhas significantes responsáveis por aglomerar identidades e promover aproximações.

Lopes (2007) identifica esses marcadores como contrassenhas culturais: a língua de sinais, as práticas narrativas, os artefatos visuais, os rituais comunitários, as memórias coletivas e os espaços de sociabilidade visual. Tais marcas funcionam como dispositivos de pertença que dão inteligibilidade à experiência surda, atuando simultaneamente como elementos de diferenciação e como estratégias de resistência à hegemonia ouvinte, reinstalando a surdez como diferença produtiva no tecido social.

Avançando nessa perspectiva, Pagni e Martins (2019) propõem compreensão ontológico-filosófica da diferença surda, argumentando que a surdez física constitui ponto de partida para encontro com o mundo visual que produz novos regimes sensíveis. A experiência linguística permanece central, mas não circunscreve toda a vitalidade da diferença: a expressividade surda irrompe também em gestualidades, ritmos corporais, traços poéticos e criações artísticas que desvinculam a produção cultural dos referenciais hegemônicos da norma ouvinte.

Segundo Pagni e Martins (2019, pp. 15-16), essa perspectiva ética e expressiva caracteriza-se por “radicalidade ontológica de sua diferença, pautada por uma relação constitutiva visual tão específica e para além apenas do uso de uma língua de modalidade gestual”. Trata-se de compreender o ethos visual como dimensão constitutiva da subjetividade surda, efeito do acontecimento da surdez que produz o ser surdo no entremeio entre a falta de audição e a potencialidade da visão, articulado a todo um conjunto de linguagem.

Nessa ampliação ontológica, os marcadores culturais deixam de ser meros indicadores de pertença e convertem-se em forças ontogenéticas, capazes de engendrar novos modos de existir, narrar e imaginar o mundo. Do entrelaçamento entre corpo, língua e criação estética advém uma potência cultural singular, dimensão que se pretende valorizar e ampliar por meio das práticas interativas aqui analisadas.

Direitos linguísticos, reconhecimento e a lógica da acessibilidade

A discussão sobre os direitos linguísticos das pessoas surdas exige uma distinção conceitual essencial entre acesso e direito. Embora a Lei nº 10.436/2002 e o Decreto nº 5.626/2005 reconheçam a Libras como meio legal de comunicação e expressão, Martins e Lopes (2024) argumentam que a associação indistinta entre esses termos tem limitado avanços na garantia de uma educação que ocorra efetivamente em Libras. Esse tensionamento não é recente. Lodi (2013) já evidenciava como a educação de surdos foi atravessada por disputas entre o marco legal que reconhece a Libras e as diretrizes da política nacional inclusiva, apontando que o mero “acesso” à língua, sem o reconhecimento pleno de seu estatuto como direito, perpetua práticas que mantêm a língua de sinais em posição subsidiária.

O Decreto nº 5.626/2005 estabelece que a formação de educadores bilíngues de surdos deve ocorrer em cursos de Pedagogia ou normais superiores, assegurando a Libras e a Língua Portuguesa escrita como línguas de instrução. Ainda que o decreto reafirme a Língua Portuguesa como língua de instrução, revelando o limite histórico, é inegável o avanço representado pela valorização da Libras como língua de instrução escolar.

Contudo, destaca-se a hipótese de que o fio condutor da política inclusiva se solidifica no acesso educativo como dispositivo fundante do gradiente de inclusão (Veiga-Neto & Lopes, 2011). Essa proposta inviabiliza o reconhecimento da diferença linguística e de outras dimensões do aprendizado como direito constitutivo do ser surdo. Numa análise superficial, a entrada da Libras por meio da interpretação educacional e da tradução de materiais nessa língua promoveria o reconhecimento da singularidade surda. Analisado mais a fundo, entende-se ser isso um pseudorreconhecimento afirmativo.

Fraser (2022), em sua teoria sobre justiça social, oferece instrumental analítico crucial para compreender essa problemática. A autora analisa movimentos de minorias, mais especificamente movimentos feministas, na condição pós-socialista, articulando conceitos de reconhecimento cultural pelas políticas afirmativas e de redistribuição econômica. Fraser argumenta que movimentos sociais carecem de novas teorias que auxiliem a olhar fenômenos socioculturais e políticos de modo articulado: nem pela defesa pura da solução dos problemas apenas no âmbito do reconhecimento identitário, nem, no outro extremo, pela defesa da solução exclusiva na redistribuição de riquezas.

Emprestando essa análise para dialogar com a minoria surda, Martins e Lopes (2024, p. 8) propõem uma paráfrase: “subverter a divisão educativa entre surdos e ouvintes, reduzindo a importância do imperialismo da vida ouvinte como princípio estrutural”. Isso significa compreender a pessoa surda não como o outro do ouvinte, mas como ser diferença em si mesmo.

Com a falta de reconhecimento efetivo das diferenças educativas postas pelas pessoas surdas, em virtude da expressividade produzida no ethos visual, tem-se consequentemente o não reconhecimento cultural e a não redistribuição econômica a essa população sinalizadora. Dessa forma, essa população torna-se excluída do processo de aprendizado e de ensino pela falta de adensamento e de qualidade interacional em Libras, por não se efetivar o ensino em Libras numa materialidade visual. Esse modo excludente reflete-se na não inserção no Ensino Superior, no mercado de trabalho e em atividades mais elaboradas profissionalmente.

A noção de além-acessibilidade, proposta por Martins e Lopes (2024), em diálogo com as discussões de Lodi (2013), avança ao afirmar que o reconhecimento dos direitos linguísticos das pessoas surdas deve ultrapassar a mera oferta de acesso. Trata-se de assegurar condições educacionais, culturais e sociais que respondam às singularidades linguísticas, culturais e identitárias da comunidade surda. Esse reconhecimento implica a consolidação de práticas efetivamente realizadas em Libras, como a produção de materiais concebidos originalmente nessa língua, a presença de profissionais fluentes em Libras em diferentes espaços institucionais e a constituição de ambientes de convivência entre sujeitos surdos que favoreçam a circulação da língua, da cultura e dos modos de produção de conhecimento próprios dessa comunidade.

Nessa perspectiva, os direitos linguísticos articulam-se aos direitos culturais, compreendendo que o acesso à educação, à arte, à produção estética e às manifestações culturais em Libras constitui dimensão fundamental da participação social das pessoas surdas. Assim, a garantia do direito à língua envolve também o direito de produzir, compartilhar e experienciar práticas educativas, artísticas e culturais que emergem da visualidade surda e das formas próprias de expressão da comunidade.

Textualidade diferida, letramento multimodal e produções culturais surdas

O conceito de textualidade diferida, desenvolvido por Peluso (2007, 2019, 2020, 2022), constitui contributo teórico fundamental para compreender as produções culturais surdas. As práticas culturais surdas têm sido frequentemente registradas e disseminadas por meio de videogravações em Libras, o que reforça uma forma própria de textualidade, compreendida como a possibilidade de planejamento discursivo que separa o enunciado do momento da enunciação, seja na forma escrita ou gravada.

Segundo Peluso (2020, 2022), a produção em videogravação, quando realizada com intenção de atingir um interlocutor potencial que terá acesso ao material gravado em momento distinto daquele da enunciação original, promove separação entre o autor e o texto. Essa separação possibilita a circulação e o registro do enunciado de forma análoga ao que ocorre com a tecnologia da escrita. Portanto, há dois tipos de registros: a representação gráfica da produção verbal e o registro gravado das enunciações produzidas.

No contexto da Libras, devido à sua modalidade gestual-visual, a textualidade videogravada emerge como materialidade fundamental para o registro das produções enunciativas dos sujeitos sinalizantes. A apropriação desse conceito pela escola é essencial, pois permite que o enunciado seja efetivamente diferido, possibilitando sua circulação, sua disseminação, seu registro e sua retomada posterior. Essa perspectiva contribui para a valorização da materialidade textual que tem sido muito usada pelas comunidades surdas, não subordinada à escrita alfabética (Martins & Peluso, 2025; Soler & Martins, 2022).

A adoção da textualidade diferida em Libras exige expansão descritiva e analítica, necessitando de estudos que caracterizem elementos sistematizadores que distinguem diferentes gêneros produzidos em videogravação. Santaella (2012, p. 13) afirma que “alfabetização visual significa aprender a ler imagens, desenvolver a observação de seus aspectos e traços constitutivos, detectar o que se produz no interior da própria imagem”. Ou seja, significa adquirir conhecimentos correspondentes e desenvolver sensibilidade necessária para saber como as imagens se apresentam, como indicam o que querem indicar, qual é o seu contexto de referência, como significam.

Embora o termo letramento visual tenha ampla circulação na educação de surdos, o conceito de letramento multimodal mostra-se mais apropriado. Como aponta Olson (1991), a escrita supõe transição do ouvido para o olho, de modo que falar em letramento visual implica redundância. O termo letramento multimodal, utilizando conceito de discurso multimodal que aparece em Canale (2023), abrange processo pelo qual estudantes adquirem capacidade de compreender e produzir nos diferentes suportes em que pode aparecer texto ou discurso, ou de decodificar múltiplos componentes semióticos que integram textualidade ou discurso.

Assim, define-se o letramento multimodal operante (Martins & Peluso, 2025) como a capacidade do sujeito de interpretar e criar significados a partir dos vídeos em Libras que circulam socialmente. Essa habilidade permite ao indivíduo emergir, integrar-se e atuar nos contextos de significação construídos coletivamente. Esse letramento é fundamental para a formação de autores e criadores competentes de textualidades diferidas em Libras.

Soler e Martins (2022, 2024) ampliam essa discussão distinguindo língua matriz e língua adicional. A Libras, como língua matriz, é compreendida como aquela que estrutura o processo de subjetivação, oferecendo conforto identitário e sendo reconhecida como “língua do coração” (Soler, 2022, p. 62). A língua portuguesa, vista como língua política, é a via pela qual informações cotidianas e de massa são disseminadas socialmente (Soler, 2022). Sendo a língua majoritária, o uso funcional da língua portuguesa, especialmente na modalidade escrita, torna-se inevitável para pessoas surdas no Brasil, devido à falta de reconhecimento político efetivo da Libras.

Arte como intercessora: criação de sensações e resistência política

A perspectiva das Filosofias da Diferença, especialmente a partir das contribuições de Deleuze e Guattari (1992), orienta a compreensão da arte como um campo de criação de sensações. Para os autores, a arte não representa o mundo, mas o cria ao produzir perceptos e afectos, que são formas de existência autônomas. O afecto3, nessa perspectiva, não corresponde ao afeto como sentimento pessoal ou emoção psicológica; trata-se de uma força intensiva, impessoal, capaz de instaurar devires e produzir diferenças. Perceptos e afectos, aqui, portanto, se configuram como potência de vida e criação.

Deleuze e Guattari (1992, p. 213) afirmam que:

os perceptos não mais são percepções, são independentes do estado daqueles que os experimentam; os afectos não são mais sentimentos ou afecções, transbordam a força daqueles que são atravessados por eles. As sensações, perceptos e afectos, são seres que valem por si mesmos e excedem qualquer vivido.

Assim, a obra de arte é entendida como ser de sensação, composta por blocos de perceptos e afectos que subsistem para além do sujeito. Ela não comunica estados interiores, mas cria mundos possíveis, instaurando novas formas de sensibilidade e existência.

Essa compreensão da arte como campo produtor de afectos e perceptos permite conceber as práticas artístico-culturais surdas não apenas como expressão identitária, como também espaços de produção de subjetividades e de modos outros de relação com o mundo. Ao propor o exercício coletivo de visualização e fruição estética da poesia sinalizada aqui mobilizada, busca-se ativar esse campo sensível da criação como espaço de acesso, produção e partilha de experiências. Não se trata apenas de compreender o conteúdo da obra, mas de sentir com ela, deixar-se afetar pelas intensidades que atravessam sua composição.

Na perspectiva deleuze-guattariana, a arte opera como intercessora ao engendrar agenciamentos que catalisam novos fluxos de sensibilidade. Ao criar sensações por meio de uma visualidade estética singular, produz experimentações igualmente singulares. É intercessora porque intercepta o corpo, desloca percepções e instaura novas formas de sentir e habitar o mundo.

Procedimentos metodológicos de investigação

Este estudo fundamenta-se nos princípios da cartografia de Deleuze e Guattari (1997), compreendendo a produção do conhecimento como processo dinâmico, situado e ético-estético. A cartografia não busca representar territórios fixos, mas acompanhar processos de subjetivação atravessados por múltiplas forças: aquelas que decorrem de agenciamentos normativos e dispositivos de controle social, e aquelas que emergem como linhas de fuga, desejantes e de criação singular.

Como método, a cartografia constitui-se como arte dos encontros, em que “tudo é conexão, mistura, composição, bricolagem, cruzamento, combinação”, exigindo do pesquisador “habitação em diferentes territórios, na perspectiva de se transformar para conhecer” (Silva & Paraíso, 2023, p. 2). Cartografar significa traçar as linhas que atravessam e constituem saber, prestar atenção aos devires e assumir posição de abertura e experimentação para não perder de vista encontros e suas produções.

É entre as linhas de território que se passam acontecimentos, pequenas resistências, invenções moleculares, desvios de rota, demolições e mortes, devires e fuga. É pela cartografia que “nos movemos entre as coisas, no meio, destituindo o fundamento, anulando o começo e o fim. O meio é o lugar dos encontros, das conexões improváveis, dos agenciamentos que possibilitam e afirmam a diferença” (Silva & Paraíso, 2023, p. 2).

A partir da noção de cartografia, compreendida não como representação fixa de territórios subjetivos, mas como procedimento metodológico de acompanhamento de processos de subjetivação, pretendeu-se mapear os percursos formativos, expressivos e afetivos que emergiram no desenvolvimento das oficinas e nas interações entre os participantes.

Contexto, participantes e organização dos grupos

A intervenção foi realizada na Associação dos Surdos de São Carlos “Jurandyra Fehr” (ASSCJF), localizada no interior do estado de São Paulo, reconhecida como um importante espaço comunitário e cultural da população surda local. As atividades ocorreram entre abril e junho de 2025. Ao todo, participaram 30 pessoas, entre surdos e familiares ouvintes, organizadas em pequenos grupos de até cinco integrantes. Contudo, para fins deste artigo, o foco analítico recai exclusivamente sobre a participação dos jovens e adultos surdos, com idades entre 17 e 45 anos.

A definição desse recorte se justifica por duas razões principais. Primeiramente, ao contrário das crianças, que em sua maioria ainda vivenciam processos de aquisição tardia da Libras e se encontram em estágios iniciais de desenvolvimento linguístico, os jovens e adultos participantes tinham domínio suficiente da língua para elaborar percepções críticas sobre arte, cultura e identidade. Em segundo lugar, trata-se de uma geração atravessada por um momento singular da história da educação de surdos no Brasil: embora tenha vivido a implantação da Lei nº 10.436/2002 e do Decreto nº 5.626/2005 (marcos legais que reconhecem a Libras como língua de instrução), muitos desses sujeitos foram escolarizados em contextos marcados por práticas normativas sustentadas pela oralidade, ausência de intérpretes e privação linguística.

A escuta dessas narrativas adultas possibilitou o acesso a experiências que tensionam o direito linguístico e a vivência cotidiana. São relatos que emergem com maior densidade na idade adulta, quando o sujeito, já atravessado por políticas educacionais excludentes, busca na arte, na cultura e na língua de sinais formas de reconhecimento ontológico. Durante as oficinas, todos os participantes surdos utilizaram a Libras como língua de expressão, criação e partilha, assegurando sua centralidade enquanto matriz estética, comunicativa e identitária.

Os grupos foram acompanhados por quatro apoiadores do estudo: dois colaboradores da pesquisa e dois estagiários do curso de Bacharelado em Tradução e Interpretação em Libras e Língua Portuguesa (TILSP) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Esses estagiários atuaram como mediadores pedagógicos e responsáveis pelos registros sistemáticos das atividades, garantindo o acompanhamento ético e metodológico das práticas. Essa organização favoreceu interações horizontais, respeitando os tempos de criação, os modos de participação e as singularidades expressivas de cada grupo.

A escolha da ASSCJF como lócus da investigação fundamenta-se em sua relevância como território comunitário de resistência linguística e cultural. Assim como as escolas bilíngues, as associações de surdos desempenham papel decisivo na constituição da subjetividade surda, por promoverem a socialização em Libras, o fortalecimento identitário e o acolhimento de famílias historicamente afastadas dos debates sobre os direitos linguísticos de seus filhos.

Procedimentos de recolha de dados

A produção de dados foi realizada mediante múltiplos instrumentos e procedimentos articulados, respeitando princípios éticos da pesquisa4 com seres humanos e protagonismo da comunidade surda:

  1. Videogravação dos encontros: todos os encontros das oficinas foram videogravados, garantindo registro da comunicação em Libras e das interações coletivas, preservando o caráter gestual-visual da língua. As gravações foram fundamentais para análises posteriores, especialmente no que se refere à linguagem expressiva, aos processos de criação coletiva e às práticas de mediação.

  2. Registros em diário de campo: a pesquisadora responsável realizou anotações sistemáticas após cada oficina, compondo um diário de campo reflexivo que articula observações, impressões e anotações analítico-interpretativas sobre o processo vivenciado. Colaboradores também produziram registros em diários complementares, possibilitando triangulação de percepções e olhares.

  3. Produções artísticas e poéticas: todas as produções desenvolvidas pelos participantes foram documentadas: releituras visuais inspiradas na obra de Van Gogh, criações poéticas em Libras videogravadas e cartazes com enunciados sobre direitos linguísticos e culturais das pessoas surdas.

  4. Rodas de conversa: foram realizados momentos coletivos com todos os participantes ao final de cada etapa, em formato de roda de conversa, com objetivo de compartilhar produções, refletir sobre processos vividos e construir sentidos coletivos sobre experiências. Essas rodas foram também gravadas para fins de análise.

As atividades propostas ao longo dos encontros incluíram: (i) oficinas de arte e expressão visual – práticas baseadas na releitura sinalizada da obra “O Campo de Girassóis de Van Gogh em poesia: releitura sinalizada”, produzida por Cláudio Mourão, artista surdo, no âmbito do projeto #CasaLibras5; (ii) análise de vídeos em Libras – atividades de leitura e análise de vídeos poéticos em Libras, com foco na expressividade corporal, na gramática visual da língua e nos sentidos construídos pelos participantes; (iii) produção coletiva de releituras visuais – construção de painéis visuais bilíngues com base nas temáticas dos direitos humanos; (iv) avaliação formativa e participativa ao final das oficinas, com roda de avaliação com os próprios participantes, em Libras.

Procedimentos analíticos e rigor metodológico

A análise dos dados seguiu princípios da cartografia, não buscando fixar significados, mas acompanhar o devir dos sujeitos, seus gestos criativos e os modos de existir que se desenham nas dobras entre arte, linguagem e diferença. Trata-se de metodologia que não busca fixar significados, mas acompanhar processos, movimentos e deslocamentos.

O material videográfico, os registros em diário de campo e as produções artísticas foram analisados mediante leitura sistemática e identificação de acontecimentos disparadores analíticos. A seleção dos eixos analíticos não se deu por critérios de frequência ou recorrência, mas pela intensidade das experiências vividas e pela potência de afectos que emergiram das oficinas. Trata-se de recorte analítico orientado pela perspectiva cartográfica que busca acompanhar processos, movimentos e deslocamentos, em vez de fixar resultados ou conclusões previamente definidas.

Em vez de organizar a análise cronologicamente pelos encontros, optou-se pela estruturação em três eixos temáticos que emergiram como zonas de intensidade: (i) letramento artístico-cultural e não reconhecimento; (ii) textualidade diferida como produção de autoria; (iii) arte como intercessora e direito político. Essa opção analítica justifica-se pela orientação cartográfica de privilegiar intensidades e movimentos em detrimento de sequências lineares. Cada eixo constitui-se como acontecimento disparador analítico, refletindo zonas de contato e trocas entre corpos, linguagens e experiências, onde se produziram sentidos compartilhados e novos modos de existir coletivamente. O critério central de seleção foi a capacidade desses acontecimentos de evidenciar trama cartográfica da pesquisa, isto é, pontos de intensificação que desenham linhas de força e de fuga, revelando práticas, saberes e sensibilidades próprias da experiência poética em Libras dos sujeitos surdos.

É importante destacar que, na perspectiva cartográfica adotada neste estudo, os acontecimentos analisados não foram definidos previamente nem selecionados por critérios de frequência, saturação temática ou representatividade estatística. A seleção ocorreu durante o processo de imersão nos materiais produzidos (videogravações, diários de campo, rodas de conversa e produções artísticas) buscando identificar situações que produziram deslocamentos discursivos, afetivos, estéticos ou relacionais entre os participantes. Foram considerados acontecimentos analíticos aqueles momentos em que emergiram tensionamentos relativos aos direitos linguísticos e culturais, processos de autoria em Libras, manifestações de pertencimento à comunidade surda, reposicionamentos identitários ou experiências de criação coletiva capazes de produzir novos modos de significar a arte, a língua e a própria condição surda. A interpretação desses registros ocorreu por meio de leituras sucessivas e da análise relacional entre os diferentes materiais produzidos, buscando acompanhar as linhas de força, os afectos, as resistências e os movimentos de transformação que atravessaram a experiência. Assim, o foco analítico não incidiu sobre a verificação de categorias prévias, mas sobre o acompanhamento dos processos de subjetivação que se tornaram visíveis nos encontros, nas narrativas, nos gestos criativos e nas produções artístico-culturais desenvolvidas ao longo da intervenção.

Resultados e discussão

Eixo 1: Letramento artístico-cultural e o não reconhecimento histórico

O primeiro eixo analítico delineia-se a partir das experiências iniciais da intervenção, revelando um campo de forças marcado pela não inscrição dos sujeitos surdos no reconhecimento histórico da arte e da literatura. Tal ausência não decorre de uma carência individual, mas de uma desassistência cultural sistemática, configurada pela falta de práticas educativas em Libras que promovam o acesso aos repertórios estéticos e à formação artística como direito humano. Na cartografia dos afectos (Deleuze & Guattari, 1992) apoiada na perspectiva de Fraser (2022), essa não inscrição emerge não apenas como invisibilidade, mas como impossibilidade histórica de pertencimento simbólico e limitações da potência de afecção ético-estética que a arte possibilita.

A intervenção teve início com um vídeo-convite em Libras, garantindo protagonismo surdo desde a convocação e instaurando o campo ético-político da pesquisa. No primeiro encontro, provocou-se o grupo com a pergunta: “O que os Direitos Humanos têm a ver com a arte e a literatura surda?”. Um dos participantes, homem surdo com mais de 30 anos, respondeu que os direitos humanos “são para cuidar de pessoas negras”, evidenciando uma compreensão restrita, mas crítica, dos processos de desigualdade. A partir disso, devolveu-se a seguinte questão: “E por que essas pessoas precisam estar nos Direitos Humanos?”. Esse deslocamento permitiu transitar do senso comum à compreensão de que os direitos humanos são lutas por reconhecimento e dignidade (Comparato, 2023), tensionando a exclusão histórica dos surdos.

Esse movimento inaugurou uma reflexão coletiva sobre o próprio pertencimento às agendas de direitos. Um participante questionou: “Ter intérprete também é direito humano?”. A afirmação desse direito linguístico, no entanto, foi seguida de uma enunciação contundente: “Então por que nada muda para nós?”. Nesse ponto, emergiu a percepção de que, embora existam dispositivos legais, há uma ruptura entre reconhecimento jurídico e reconhecimento cultural – dimensão na qual os surdos permanecem não inscritos.

Foi nesse deslocamento que a discussão migrou para a arte. A projeção de pintores e pinturas de grande circulação mundial revelou que nenhum participante surdo reconhecia os artistas ou suas obras. Quando interrogados sobre suas vivências escolares em arte ou literatura, muitos afirmaram não se recordar ou sequer compreender as aulas, denunciando uma exclusão estética que ultrapassa a barreira da língua: os surdos foram afastados do letramento cultural e privados de experiências de sensibilidade historicamente instituídas como bens simbólicos.

O dado mais significativo, entretanto, emergiu no terceiro encontro. Perguntou-se: “Vocês conhecem poetas, artistas ou escritores surdos?”. O silêncio coletivo instaurou um abismo identitário. Não se tratava apenas da ausência de acesso ao cânone hegemônico, mas da inexistência de referências de autoria surda, o que impede a constituição de espelhos e filiações estéticas. Para tensionar esse vazio, apresentou-se a obra de Cláudio Mourão, poeta e professor surdo da UFRGS, com a poesia visual Releitura do Campo de Girassóis, produzida pelo #CasaLibras. Antes da exibição, lançou-se a questão: “Se a poesia não for escrita em palavras, ainda pode ser poesia?”. A reação foi impactante. Uma participante afirmou: “Eu não sabia que surdo podia ser poeta.” Esse enunciado não expressa surpresa ingênua, mas a ausência de inscrição histórica dos surdos como produtores de arte. A partir daí, emergiram questões cartográficas: “Se nós não conhecemos nossos artistas, quem contará nossa história?” “É possível existir arte surda sem que os surdos a reconheçam?”

Essas interrogações evidenciaram que a questão central não se restringe à ausência de conteúdo ou à escassez de produções culturais em Libras destinadas às pessoas surdas, mas refere-se a uma injustiça de reconhecimento (Fraser, 2022), que opera ao impedir não apenas o acesso, mas a própria possibilidade de imaginar-se como sujeito criador, sujeito poeta. Assim, a oficina deixou de configurar-se como um mero espaço de transmissão cultural para tornar-se um dispositivo de devir-criador: um campo em que não se apresenta apenas artistas, mas se restitui a potência de inscrever-se na arte, abrindo frestas para a emergência de autoria surda.

Este eixo evidencia que o letramento artístico-cultural, no contexto da emergência e da inscrição surda, exige muito mais do que a simples inserção da Libras nos currículos ou a ampliação do acesso a bens culturais. Requer, sobretudo, o reconhecimento histórico dos sujeitos surdos como produtores de cultura, arte e conhecimento. Como afirmam Deleuze e Guattari (1992), a arte emerge quando um corpo é atravessado por forças (afetos e afectos) que o deslocam de posições previamente estabelecidas, impulsionando processos de criação e devir. Nessa perspectiva, a experiência estética não se restringe à contemplação, mas constitui um campo de produção de existência e de invenção de mundos possíveis. Para a comunidade surda, historicamente invisibilizada em seus modos próprios de expressão artística e literária, o letramento artístico-cultural implica a possibilidade de ocupar espaços de autoria, circulação e reconhecimento social de suas produções. Trata-se, portanto, não apenas de garantir acesso à cultura cânone (isso também), mas de afirmar a legitimidade da arte e da literatura surdas como expressões constitutivas do patrimônio cultural brasileiro. Nesse contexto, a parceria com a associação de surdos assume papel fundamental, configurando-se como um território de encontro, criação e fortalecimento de práticas de letramento cultural surdo, potencializando experiências artístico-literárias que contribuem para a valorização da língua, da cultura e das formas singulares de existência da comunidade surda.

Eixo 2: Textualidade diferida como produção de autoria surda

O segundo eixo analítico centra-se nos processos de criação poética desenvolvidos pelos participantes, particularmente pelo grupo responsável pela releitura poética em Libras. A análise da poesia de Cláudio Mourão revelou elementos estruturantes da textualidade diferida que foram apropriados pelos participantes em suas próprias criações.

Foi proposta uma análise coletiva da poesia “Releitura do Campo de Girassóis”. Inspirada conceitualmente na composição teórica de Deleuze e Guattari (1992), trabalhou-se com os participantes a perspectiva da arte e da literatura como campos de criação de sensações. Na obra “Conversações”, Deleuze (1992) descreve intercessores como agentes externos que mobilizam atos de criação. Portanto, o intercessor configura-se como potência que habita o entre-lugar, exercendo função mediadora da experiência.

Deleuze e Guattari (1992, p. 213) afirmam que a arte constitui campo de criação porque é capaz de gerar perceptos – blocos de sensações e de afetos que não se limitam à representação, mas que atuam como forças. Essas forças não se traduzem necessariamente em compreensão racional, mas em efeitos sensíveis que atravessam corpo e pensamento, produzindo aberturas para novas possibilidades perceptivas e existenciais.

Ao propor um exercício coletivo de visualização e fruição estética da poesia sinalizada, buscou-se justamente mobilizar esse campo sensível da criação como espaço de acesso, produção e partilha de experiências. O objetivo não era apenas compreender o conteúdo da obra, mas sentir com ela, deixar-se afetar pelas intensidades mobilizadas em sua composição.

Propomos, nesta seção, a descrição, em língua portuguesa, dos movimentos poéticos presentes na poesia utilizada nesse estudo com os participantes. A obra poética de Cláudio Mourão emerge como resultado de um processo de transcriação inspirado na pintura de Van Gogh. Adota-se o conceito de transcriação conforme proposto por Campos (2006), compreendendo-o como um ato criativo que produz autoria no processo de passagem de uma linguagem para outra. Mais do que uma simples tradução, a transcriação possibilita a incorporação de elementos culturais, estéticos e expressivos na nova versão produzida, configurando-se como um gesto de criação que recria sentidos e produz novas formas de significação. Embora a proposta de Cláudio Mourão não tenha sido a construção de uma tradução ou versão, de texto em dada língua para outra, mas sim a criação de uma poesia inspirada na pintura de Van Gogh, observa-se a adaptação da obra artística original incorporada à criação poética em Libras. Trata-se de uma produção que, ainda que não se configure como descrição da tela, carrega elementos de versão ao mesmo tempo em que instaura um texto poético em Libras dotado de originalidade.

Iniciou-se pela abertura da poesia, marcada pela presença do corpo e pelo início da incorporação do poeta. Como se trata de materialidade videogravada em Libras, o corpo está presentificado o tempo todo no registro. Diferente da escrita, em que não vemos o autor, mas a representação gráfica de suas reflexões, a produção em Libras evidencia o corpo do autor. Indicar o momento de transição entre texto narrativo de sua apresentação e o início da poesia é um desafio e precisou ser cuidadosamente marcado pelo poeta.

Cláudio Mourão opta por realizar essa transição por meio de pausa corporal: fecha os olhos, olha para baixo e silencia. Esse gesto de silenciamento e introspecção sinaliza entrada no tempo poético, instaurando outro ritmo. É nesse momento que ele se faz, em si, voz do poeta – sendo seu corpo, agora, própria poesia em mãos. Levanta lentamente a cabeça e olha para o interlocutor, foca o olhar na direção da câmera. Instaura-se, nesse gesto, a presença do poeta. O texto poético está iniciado. O corpo marca os elementos constitutivos do gênero.

Sendo a Libras uma língua de modalidade gestual-visual, cuja materialidade requer presença do corpo físico, torna-se necessário criar uma estética própria entre o jogo de câmera e o olhar, a fim de indicar posições discursivas e estilísticas de cada gênero. Após a introdução poética, seu corpo, já atravessado pelo texto, projeta-se lateralmente e, mesmo quando permanece em frente à câmera, seu olhar torna-se desfocado. Esse desvio de olhar narra a imersão do poeta em sua própria enunciação – mergulho introspectivo no texto. Nas línguas de sinais, esse gesto de desviar o olhar é marcador expressivo que distingue texto poético de outros gêneros discursivos.

A abertura do texto poético, com fundo preto, ganha cores nas edições impressionistas da poesia. Ao final, o fundo em amarelo revela o fechamento da produção, inserindo a cor que indica a poesia-resistência produzida por Cláudio Mourão: campo de girassóis travestido por poesia em mãos. Cláudio Mourão finaliza a poesia incorporando, em si, a cor que ela lhe pintou: amarelo. Apenas após o encerramento do texto poético é que o poeta retoma o contato visual com o interlocutor, direcionando novamente seu olhar para a câmera. Esse gesto de reencontro com olhar do outro marca simbolicamente o oferecimento da poesia em Libras.

Esses elementos – etapas, procedimentos e estratégias de criação – evidenciam comprometimento com o público e revelam traços estético-estilísticos próprios do gênero “poesia em Libras”, que requer modos específicos de composição. A videogravação impõe regras que devem ser consideradas na composição da materialidade registrada.

O grupo responsável pela releitura poética apropriou-se desses elementos em sua criação. Optou-se por realizar a produção em duplas, embora todos tenham contribuído nas escolhas poéticas. Dois participantes surdos foram selecionados para a performance final: um com formação em Letras Libras e o outro sem formação superior, que declarou nunca ter tido contato prévio com poesias. Essa decisão revelou-se especialmente potente. O participante sem formação relatou, no início, estar muito inseguro, dizendo sentir “frio na barriga” por nunca ter se envolvido com esse tipo de texto em Libras e por não imaginar que seria capaz de produzir e apresentar algo publicamente. Com o apoio do grupo e, especialmente, do colega com formação em Letras Libras, que o encorajou e o acompanhou na performance, foi ganhando confiança ao longo do processo.

Após a mostra, esse mesmo participante compartilhou que se emocionou profundamente com a experiência. Disse ter-se arrepiado ao produzir e interpretar poesia e, sobretudo, ao participar das discussões sobre os sentidos poéticos da obra de Cláudio Mourão. Em suas palavras, a vivência foi transformadora, revelando a potência formativa da arte e da coletividade no despertar do pertencimento e da autoria.

Esse relato evidencia a dimensão fundamental da textualidade diferida: sua apropriação não é intuitiva ou espontânea, mas requer processos de letramento multimodal operante (Canale, 2023; Martins & Peluso, 2025). A possibilidade de planejar o discurso, distanciando-se do momento da enunciação, constitui prática que precisa ser aprendida e exercitada (Martins & Peluso, 2025). A videogravação, nesse sentido, não é mera tecnologia de registro, mas dispositivo que permite a emergência de novas formas de autoria.

A análise das produções poéticas revelou ainda a incorporação de elementos culturais surdos nas criações. Os participantes utilizaram classificadores, incorporação de personagens e ritmo visual característico das línguas de sinais, elementos que não estão presentes na poesia em línguas orais. Essa especificidade reafirma o argumento de Martins e Peluso (2025) de que a textualidade diferida em Libras não é mera adaptação de formas textuais da escrita, mas constitui materialidade própria com características linguísticas e estéticas específicas.

A experiência de autoria vivenciada pelos participantes articula-se ao que Deleuze e Guattari (1992) denominam de criação de sensações. A poesia não foi compreendida apenas em seu conteúdo, mas sentida como experiência que atravessa o corpo e produz afectos. O participante que relatou ter-se arrepiado evidencia essa dimensão, uma vez que a arte não opera apenas no registro cognitivo, mas mobiliza intensidades corporais e afetivas.

Eixo 3: Arte como intercessora e direito político

O terceiro eixo analítico emerge das produções do grupo responsável pela releitura artística e do grupo que trabalhou direitos linguísticos e culturais das pessoas surdas. Produções desses grupos articularam-se de forma significativa, revelando como a arte opera como intercessora de reivindicações políticas.

Os participantes organizaram-se em três grupos, com até 10 integrantes em cada um. Foram propostas três atividades complementares, articulando arte, literatura, marcadores culturais surdos e direitos humanos. Primeiro grupo ficou responsável por realizar a análise da poesia “Releitura do Campo de Girassóis”, produzida por Cláudio Mourão no âmbito do #CasaLibras. A proposta incluía, ao final, a criação de produção poética em Libras, inspirada nas sensações mobilizadas pela obra.

O segundo grupo ficou encarregado de produzir releitura artística da poesia, inspirando-se nas obras de Van Gogh e articulando esses elementos com referências visuais e culturais surdas. A proposta visava explorar a potência expressiva das artes visuais como campo de criação sensível e cultural, a partir de perspectiva surda.

O terceiro grupo teve como tarefa refletir sobre direitos da população surda, realizando levantamento de leis, políticas e ações que compõem o campo dos direitos linguísticos e culturais dos surdos no Brasil. Esse grupo também teve o papel de dialogar com os demais grupos, oferecendo subsídios conceituais e legais que pudessem enriquecer as produções poéticas e artísticas. Ao final, o grupo apresentou uma síntese com os direitos já conquistados e aqueles pelos quais ainda se precisa lutar.

O grupo artístico, composto por surdos e ouvintes, desenvolveu uma releitura visual da poesia utilizando lápis e tinta guache. Influenciados pelas reflexões do grupo que discutia direitos da população surda, construíram uma analogia entre girassol e Libras: a abertura da flor foi representada como a emergência do direito ao uso da língua de sinais na vida social. A escolha não é meramente simbólica, pois evidencia compreensão política sofisticada. Os participantes indicaram nas discussões que, embora tenha havido reconhecimento legal da Libras desde 2002, persiste “dificuldade de participação social em espaços nos quais Libras não é conhecida ou reconhecida socialmente” (participante surda, 32 anos). A imagem do girassol que se abre foi, assim, utilizada para representar simultaneamente a conquista legal e os desafios ainda presentes para a sua efetivação.

O grupo que trabalhou especificamente direitos linguísticos produziu cartazes com enunciados sobre conquistas legais e desafios persistentes. Entre os elementos destacados estavam: (i) a Lei nº 10.436/2002 e o Decreto nº 5.626/2005; (ii) a Lei nº 14.191/2021, que inseriu a modalidade bilíngue na Lei de Diretrizes e Bases da Educação; (iii) a falta de intérpretes em diversos contextos; (iv) a dificuldade de acesso a informações em Libras; (v) a ausência de produções culturais acessíveis.

A articulação entre essas produções e a releitura artística evidenciam como a arte operou como intercessora, no sentido deleuziano do termo. A obra de Van Gogh e a poesia de Cláudio Mourão não foram apenas objetos de apreciação estética, mas mobilizaram processos de criação que desembocaram em reivindicações políticas. Os participantes não apenas reproduziram formas artísticas, mas as reinventaram articulando-as às suas próprias experiências de exclusão e luta por reconhecimento. A produção evidenciou, ao mesmo tempo, limitações e avanços. Indicou a persistência de barreiras no acesso linguístico pleno em diferentes espaços sociais, ressaltando uma luta ainda necessária por reconhecimento e equidade. Os participantes apontaram desafios ainda presentes à comunidade surda em relação à participação social de pessoas surdas nos espaços culturais de acesso à arte e à literatura.

A dimensão política da arte articula-se ao argumento de Fraser (2022) sobre a necessidade de articular reconhecimento cultural e redistribuição econômica. Os participantes compreenderam que o acesso à cultura em Libras não é questão meramente simbólica, mas relaciona-se diretamente com possibilidades de inserção social e econômica. Como afirmou um participante surdo: “Não podemos estudar em qualquer curso que quisermos e conquistar empregos porque não temos acesso à mesma educação”. A mostra artística final, aberta à comunidade, constituiu espaço de visibilização não apenas das produções desenvolvidas, mas das próprias pessoas surdas como sujeitos políticos.

A exposição dos cartazes produzidos pelos participantes, articulada às produções poéticas e artísticas desenvolvidas ao longo das oficinas, constituiu-se como ato de resistência, visibilidade e afirmação da diferença surda como valor cultural e político. Essa prática aproxima-se do que Martins e Lopes (2024) defendem ao propor o conceito de além-acessibilidade, entendido como a ampliação das políticas de direitos para além do acesso, contemplando o reconhecimento da existência surda em sua especificidade linguística, cultural e comunitária.

As produções analisadas evidenciam essa dimensão ao demonstrarem que os participantes não reivindicaram apenas a entrada em espaços culturais já instituídos, mas afirmaram a necessidade de produção, valorização e circulação de expressões artísticas originadas nas próprias comunidades surdas. Nesse processo, destacam-se três resultados principais: (i) a produção de trabalhos artísticos inspirados na poesia apresentada; (ii) a recriação e refacção poética em Libras, mobilizando processos de autoria e criação estética; e (iii) a elaboração de cartazes com enunciados relacionados aos direitos linguísticos e culturais das pessoas surdas, enfatizando a importância da educação bilíngue, do reconhecimento da Libras e da ampliação de espaços culturais acessíveis e constituídos a partir da experiência visual e linguística surda.

A Figura 1 apresenta duas imagens produzidas durante as atividades desenvolvidas na associação de surdos. Na primeira, observa-se um grupo de participantes envolvido na apreciação, discussão e refacção poética em Libras; na segunda, um grupo trabalha na elaboração de um dos cartazes produzidos a partir das reflexões suscitadas pelas oficinas. As imagens ilustram como as práticas compartilhadas possibilitaram a articulação entre expressão artística, criação estética, reflexão crítica e reivindicação de direitos, evidenciando a potência da arte como espaço de letramento cultural surdo, engajamento político e fortalecimento identitário da comunidade surda.

Figura 1
Imagens da intervenção proposta

Embora tenhamos apontado desafios ainda presentes à comunidade surda, os participantes também revelaram uma leitura esperançosa: após o reconhecimento legal da Libras, há sinais de maior abertura à presença da vida surda nos diversos âmbitos sociais, apontando para a necessidade de consolidar essas conquistas no horizonte dos direitos humanos.

Considerações Finais

Este estudo analisou, por abordagem cartográfica, uma intervenção artístico-cultural com crianças, adolescentes e jovens surdos na Associação dos Surdos de São Carlos, investigando como práticas estético-poéticas em Libras se articulam aos direitos linguísticos e culturais. A análise revelou três dimensões fundamentais: o não reconhecimento histórico de artistas e produções culturais surdas; a textualidade diferida como prática de autoria que exige letramentos específicos; e a arte como intercessora de reivindicações políticas.

O contributo teórico reside na articulação entre textualidade diferida (Peluso, 2020, 2022), direitos linguísticos (Fraser, 2022; Lodi, 2013; Martins & Lopes, 2024) e arte como criação de sensações (Deleuze & Guattari, 1992). Tal articulação evidencia que o direito à cultura em Libras não se efetiva apenas com traduções ou intérpretes, mas requer políticas de letramento cultural que promovam contato com produções artísticas desde a infância, reconhecimento de obras originadas nas comunidades surdas e formação de autores competentes em textualidades em Libras.

A análise demonstrou que a lógica da acessibilidade, predominante nas políticas inclusivas, é insuficiente para garantir direitos linguísticos e culturais. É necessário avançar para a além-acessibilidade, reconhecendo a diferença surda não como déficit, mas como forma legítima de existência que demanda estruturas educativas e culturais específicas.

As implicações práticas apontam quatro encaminhamentos: (i) incorporação de produções em Libras nos currículos desde a educação infantil; (ii) formação docente que compreenda a textualidade diferida; (iii) políticas de cultura que fomentem obras em Libras; (iv) fortalecimento das associações de surdos como espaços de formação cultural e resistência identitária.

Entre as limitações, destaca-se a realização em contexto único, restringindo a generalização. O tempo curto da intervenção (12 semanas) limitou o aprofundamento de algumas dimensões. Futuros estudos devem incluir experiências infantis, ampliar contextos e desenvolver investigações longitudinais sobre letramento cultural em Libras, especialmente diante da implementação da Lei nº 14.191/2021. Embora esta pesquisa esteja situada em um contexto específico e não tenha a pretensão de generalizar seus achados, os movimentos cartografados permitem destacar algumas reflexões relevantes. Os resultados apontam que o acesso à cultura em Libras constitui um direito humano fundamental, cuja efetivação demanda políticas e práticas que reconheçam a diferença surda para além de perspectivas restritas à acessibilidade. Nesse contexto, a arte emerge como potência de criação, produção de sensações e intercessora de processos de subjetivação, configurando-se como espaço privilegiado de afirmação identitária, expressão cultural e reivindicação política. Assim, o projeto contribuiu para fortalecer a Libras como língua de produção estética, pertencimento comunitário e participação social, favorecendo experiências educativas coletivas comprometidas com os princípios dos direitos humanos, da justiça linguística e do reconhecimento da diferença surda.

Agradecimentos

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo financiamento para o desenvolvimento da pesquisa que subsidiou a produção do vídeo da poesia e das práticas artísticas utilizadas na atividade.

Especialização em Educação em Direitos Humanos da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) pela realização do curso de especialização na modalidade de Educação a Distância (EaD), com apoio do Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB), no âmbito da instituição parceira, cujas atividades subsidiaram o desenvolvimento da pesquisa.

  • Apoio e financiamento:
    Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP): Processo n°: 2023/12886-5.
  • Ética em pesquisa:
    A pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa: CAAE 78166124.7.0000.5504 - Número do Parecer: 6.803.836.
  • Uso de I.A.:
    Durante a elaboração do artigo, os autores utilizaram a ferramenta ChatGPT (OpenAI), em janeiro de 2026, com o objetivo de: (i) revisão textual, no apoio da revisão gramatical, ortográfica e na melhoria da coesão, da clareza e da fluidez da redação, especialmente do resumo, para adequar ao limite de palavras exigido; (ii) adequação das referências bibliográficas às normas da APA (American Psychological Association). As autoras declaram que revisaram, validaram, editaram e supervisionaram o texto final, garantindo sua originalidade, precisão e integridade ética, assumindo total responsabilidade pelo conteúdo da publicação.
  • Revisão textual:
    Normalização bibliográfica (APA 7ª Ed.), preparação e revisão textual em português: revisao@tikinet.com.br
    Versão e revisão em língua inglesa: Henrique Akira Ishii traducao@tikinet.com.br
  • 1
    Doravante, utilizar-se-á apenas o termo Libras para referir-se à Língua Brasileira de Sinais.
  • 2
    A recorrência do conceito além-acessibilidade ao longo deste texto é intencional e não configura redundância estilística. Sua repetição opera como estratégia teórico-política de ênfase, visando evidenciar os limites das políticas centradas exclusivamente na acessibilidade e na lógica da deficiência. Embora avanços no campo da Educação Especial tenham promovido importantes garantias de acesso, adequações e participação social, tais medidas nem sempre contemplam o reconhecimento da condição linguística e cultural das comunidades surdas. Nesse sentido, a retomada sistemática do conceito busca destacar os entraves ainda existentes para a efetivação de direitos linguísticos, para a circulação social de produções artístico-literárias em línguas de sinais e para o reconhecimento da arte e da literatura surdas como patrimônios culturais legítimos. A expressão além-acessibilidade demarca, portanto, a necessidade de ampliação das políticas públicas em direção a uma pauta que reconheça a especificidade linguística, cultural e identitária das pessoas surdas, ultrapassando perspectivas restritas à adaptação, à inclusão funcional ou ao acesso.
  • 3
    O uso do itálico ao longo do texto assinala conceitos centrais que fundamentam a pesquisa. Tais conceitos, inspirados especialmente nas contribuições de Deleuze e Guattari, operam como disparadores teórico-conceituais para a compreensão da arte, da cultura e dos processos de subjetivação mobilizados neste estudo. Também são destacados em itálico conceitos analíticos fundamentais para a investigação, tais como além-acessibilidade, ethos surdo, ethos visual e afecto.
  • 4
    Essa prática investigativa está vinculada à ação de extensão “Oficina na Associação dos Surdos de São Carlos Jurandyra Fehr: ‘Arte-Literatura Surda e Direitos Humanos’” (Processo Proex nº 23112.018782/2025-38), realizada como atividade final da especialização. Integra-se, ainda, à pesquisa em desenvolvimento com apoio da Fapesp (Processo nº 2023/12886-5), aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob o CAAE 78166124.7.0000.5504 e Parecer nº 6803836. Todos os participantes encontravam-se regularmente inscritos na extensão e autorizaram a sua participação na pesquisa, articulada ao projeto guarda-chuva financiado pela Fapesp.
  • 5
    A poesia utilizada na íntegra encontra-se disponível no canal oficial do #CasaLibras, no YouTube, acessível em: https://www.youtube.com/watch?v=cZwZWwEdmCs&t=306s

Disponibilidade de dados:

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    19 Fev 2026
  • Revisado
    16 Jun 2026
  • Aceito
    01 Jul 2026
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