Open-access ROSTOS E AS MÁSCARAS DAS RUAS: OS TRAÇOS SINGULARES NAS VIDAS RUEIRAS

ROSTROS Y LAS MáSCARAS DE LAS CALLES: LOS RASGOS SINGULARES EN LAS VIDAS CALLEJERAS

FACES AND MASKS OF THE STREETS: THE UNIQUE TRAITS IN STREET LIVES

Resumo

O presente artigo, recorte de uma pesquisa realizada junto com pessoas em situação de rua de uma cidade do extremo sul do Brasil, tem por objetivo apresentar reflexões a respeito dos processos de subjetivação e singularização no território das ruas, destacando a multiplicidade de vetores que atravessam essa população, bem como as maneiras pelas quais produzem estratégias de (re)existência e criação. Nos compassos da cartografia, buscou-se mapear as linhas de vida que compõem a cotidianidade das/nas ruas, observando, ainda, os traços que escapam aos significantes grudados a essa população, singularizando os corpos e as experiências. A partir dos encontros e andanças, por cerca de sete meses, foi possível evidenciar que a vida nas ruas, ainda que vulnerabilizada, insiste em criar frestas que potencializam o viver e que suscitam desejos e sonhos.

Palavras-chave:
População em situação de rua; Singularização; Processos de subjetivação; Resistência; Cartografia.

Resumen

El presente artículo, extracto de una investigación realizada junto a personas en situación de calle en una ciudad del extremo sur de Brasil, tiene como objetivo presentar reflexiones sobre los procesos de subjetivación y singularización en el territorio de las calles, evidenciando cuán múltiples son los vectores que atraviesan la vida de la población que las habita, así como las maneras en las que crean estrategias de (re)existencia y creación. En los compases de la cartografía, se buscó mapear las líneas de vida que componen la cotidianidad de/en las calles, observando, además, los rasgos que escapan a los significantes pegados a esa población, singularizando los cuerpos y las experiencias. A partir de los encuentros y recorridos, durante cerca de siete meses, fue posible evidenciar que la vida en las calles, aunque vulnerabilizada, insiste en crear aberturas que potencian la vida y que suscitan deseos y sueños.

Palabras clave:
Personas en situación de calle; Singularización; Procesos de subjetivación; Resistencia; Cartografía.

Abstract

The present paper, an excerpt from a research conducted with homeless people in a city in the southern Brazil, aims to present reflections on the process of subjectivation and singularization in the territory of the streets, highlighting how multiple vectors cross the lives of the population living there, as well as the ways in which they create (re)existence and creation strategies. In the rhythms of cartography, the goal was mapping the life lines that make up the daily life in/on the streets, also observing the traces that escape the significants attached to this population, singularizing the bodies and experiences. From the encounters and walks, over about seven months, it became evident that life on the streets, despite being vulnerable, insists on creating openings that enhance living and evoke desires and dreams.

Keywords:
Homeless population; Singularization; Processes of subjectivation; Resistance; Cartography.

1. Palavras Iniciais

Desde séculos passados, vemos a primazia de um sujeito do conhecimento que fundamenta a existência de um “eu” pensante desatrelado de seu corpo. O cogito cartesiano, que atesta o homem como uma substância pensante, produz uma ideia de sujeito dotado de consciência e cujo conhecimento é desatrelado das experiências externas (extensão do corpo), resultando no solipsismo como fundante das verdades (Grosfoguel, 2016). Tal formulação foi um marco para a concepção de um sujeito como sendo uniforme e externo ao objeto, influenciando teses de diversas áreas que engendram um privilégio epistêmico para definições sobre o que é o sujeito, a verdade e o conhecimento.

A insistência na busca por uma delimitação de um eu que dê conta de encapsular e criar um si com territórios fixos parece trazer certo grau de segurança, como se fosse uma estrutura de garantia de que não ficaremos à deriva, de que poderemos, de alguma forma, ancorar nossos navios para lapidar o nosso ser. No entanto, em encontro com essa lente teórica de um “eu” (uma consciência) antagonizado ao corpo, e que não se borra nas fronteiras com o outro, consideramos que nos constituímos em articulação com as extensões que efetuamos, ou seja, em coemergência com as experiências e encontros que vão sendo agenciados. Nessa perspectiva, o sujeito se faz no domínio da experiência coletiva (Scott, 1998) e nas relações intersubjetivas: um si elaborado no atravessamento do/com outro.

A âncora não é ferramenta de fixação. Ela auxilia o pensar a respeito de não sermos um “eu” dado e permanente, mas de nos constituirmos como sujeitos nos dados da experiência (Deleuze, 2001, citado por Mansano, 2009, p. 115) que, através dos encontros experimentados, movimenta uma diferenciação de si mesmo e dos modos de vida já conhecidos (Mansano, 2009). Como um chacoalhar das águas no fundo do mar, nossas condições de si-mesmos se alteram, produzindo linhas de singularidade que nos tornam sujeitos únicos dentro dessa partilha da experiência.

Figura 1
Ancorar não evita desvios

Assim, é cabível compreender que os processos de subjetivação pelos quais passamos são ordenados no campo social através de “componentes de subjetivação” difundidos via linguagem, cultura, religião, ciência, tecnologias etc. (Guattari, 1992). Nossa relação com as forças de tais componentes dinamiza a vida e nos faz “sujeitos provisórios” não constituídos de uma natureza humana (Mansano, 2009). A subjetividade é, assim, “essencialmente social” (Guattari & Rolnik, 2007, p. 42).

Os traços que nos singularizam, por sua vez, seriam o modo como assumimos os componentes de subjetivação (Guattari & Rolnik, 2007), ou seja, a singularidade como uma dimensão de unicidade dos sujeitos (Guareschi, 2008). Muito embora os componentes que nos atravessem provenham dos mesmos lugares, os pedaços que selecionamos e o modo como nos relacionamos com eles diferem. Logo, nos subjetivamos através de conteúdos oriundos das extensões sociais - o fora - que irão se desdobrar no dentro e produzir um “campo de si” singular, sendo a subjetividade o “conjunto total das relações” (Guareschi, 2008, p. 32), enquanto a singularidade é o múltiplo fragmento recortado dessas relações.

Portanto, a partir de tais intercessores teóricos, o presente texto busca apresentar algumas reflexões oriundas de uma pesquisa realizada junto com pessoas em situação de rua de uma cidade do extremo sul do Brasil. Nas aproximações efetuadas e na continuidade dos encontros ao longo de sete meses de campo, buscou-se mapear as linhas de vida que compõem a cotidianidade das/nas ruas, observando os traços que escapam aos significantes grudados a essas pessoas, singularizando os corpos e as experiências.

1.1. Os rostos, e as máscaras e as ruas

Desde crianças somos postas(os) diante de representações acerca das pessoas em situação de rua (PSR). Termos como “homem/mulher do saco”, “mendigo(a)”, “vagabundo(a)”, “drogado(a)”, “marginal” e “louco(a)” são alguns exemplos que constroem esse campo de referências e significações para classificar e enquadrar a existência de tais sujeitos (Cunda & Silva, 2020). Para Antonio Negri (2005), as ordens capitalistas fomentam essas tratativas como forma de esmagar a diferença, gerando uma multidão normatizada e subordinada, em oposição a existências coletivas. Assim, as nomeações refletem a desconsideração a respeito das múltiplas linhas que constituem as subjetividades (Deleuze & Guattari, 1996), demarcando um território e categorizando vidas (Fonseca & Costa, 2012).

Gilles Deleuze e Félix Guattari (1996) explicam a coexistência de três linhas que nos compõem: a) linhas duras que, em grande parte, são “impostas de fora” (p. 76) e que demarcam territórios; b) linhas flexíveis que marcam abalos sísmicos aos territórios, “causando pequenas mutações no já estabelecido, no que está marcado ou prometido às repetições sintomáticas” (Costa & Amorim, 2019, p. 921) e c) linhas de fuga, que são as de desterritorialização absoluta, de passagem do desejo e de criação de novos mundos. Em suma, nomear é uma maneira de produzir um único rosto às tantas máscaras que compõem nossa subjetividade (Rolnik, 2016), é insistir em um único traço em detrimento da coexistência das múltiplas linhas.

O rosto é uma política do esmagamento da diferença que determina um regime de significância e de subjetivação alimentado por “agenciamentos de poder bastante particulares” que o impõem (Deleuze & Guattari, 1996). Na esteira de Michel Foucault (2004a), para quem a subjetivação se sustenta pelas condições nas quais um sujeito está submetido para se tornar “legítimo deste ou daquele tipo de conhecimento” (p. 235), arriscamos dizer que o rosto funciona como uma máquina que retroalimenta as relações de poder-dominação, submetendo os sujeitos a se afirmarem através dos jogos de verdade pelos quais se reconhecem como homens de desejo. Se à PSR são manifestas condições de vida e de autorreferenciação muitas vezes violentas e estigmatizantes, não é raro testemunhar em seus discursos a naturalização daquilo tudo que lhes é imputado material e enunciativamente. Assim, importa que se possa produzir novos referentes de sentido, com campos enunciativos que potencializem outras significações e referenciações.

Nesses termos, falamos das máscaras assumindo um campo de composições e possibilidades de si: “a máscara... é a realidade nela mesma: não há nada que seja ‘o verdadeiro’” (Rolnik, 2016, p. 36). Assim, temos o entendimento de que estamos em um continuum de criação de novas máscaras, ora apropriando-nos de componentes, ora os abandonando e produzindo uma ruptura de sentido, um corte, uma desterritorialização, um modo de singularização.

O rosto que é formado e carimbado às PSR resulta de um discurso historicamente grudado às suas vidas. Para além de meros tratamentos nominais, os jogos lexicais pelos quais costumam ser designados refletem os arranjos de poder e de signos de uma determinada época. Nas perspectivas de Foucault (1970/2014), os discursos são dispositivos práticos que constituem e produzem sujeitos, não sendo meros aparatos nominais. Assim, termos pejorativos comumente utilizados no cotidiano, como os já citados, são exemplos que constroem o campo de referências para classificar e enquadrar a existência de tais sujeitos e, ao fazê-lo, criar um campo de verdades que reflete na maneira como são tratados e, também, subjetivados.

O perigo de assimilarmos narrativas e fenômenos de vida como processos homogêneos e comuns a todas as histórias, ou seja, de considerarmos, nesse caso, a situação de rua como um fenômeno experienciado simetricamente por todos(as), é que asfixiamos os vetores múltiplos que constituem a ida às ruas, bem como os modos de vida nelas conduzidos1. Igor Robaina (2015) discorre sobre o quão complexa é a compreensão do “fenômeno rua”, ao levarmos em conta as modificações sociais, econômicas, políticas, climáticas, geográficas e tecnológicas ao longo da história. Assim, para pensar a “situação de rua”, assumimos um olhar epistemológico que não se vale da essência e universalismo sobre o “sujeito de rua”, mas sim uma perspectiva que enlaça singularidades e diferentes experiências e relações com o território.

Amparadas pelas considerações de Milton Santos (2007), a noção de território é aqui empregada como categoria que produz e é produzida pelas relações que são estabelecidas, mas não só: território em seus efeitos de produção de subjetividade, que emerge de representações e das relações estabelecidas com os âmbitos “sociais, culturais, estéticos, cognitivos” (Guattari & Rolnik, 2007, p. 323) da vida.

Nesses termos, se o território forma um escopo de representações que engendra práticas e discursos, o processo de territorialização pode ser entendido como uma espécie de aglutinação de enunciados e desejos em um mesmo campo de produção de mundos, como numa espécie de paragem sem desvios. Territorializar(se) é indexar traços significantes que “definem zonas de frequência ou de probabilidade, delimitam um campo que neutraliza antecipadamente as expressões e conexões rebeldes às significações conformes” (Deleuze & Guattari, 1996, p. 32).

Estar junto a algumas pessoas em situação de rua possibilitou adentrar distintos territórios: a escuta de muitas narrativas, entrar em mocós, testemunhar uso de substâncias, compartilhar experiências, caminhar, ouvir música, conhecer novas pessoas, coletar conchas na praia, viver lutos. Enfim, produzir aproximações e compor relações. Entre idas e vindas nesses tantos territórios, foi possível conhecer outras linhas de subjetivação, modos de (se) inventar e de (re) criar uma cotidianidade. Em lugar da apropriação de um rosto, foram sendo cartografados os traços de vida e de potências que fazem rachaduras a esse muro de significações concreto ao qual as pessoas que estão nas ruas são reduzidas.

Em conformidade com Suely Rolnik (2016), entendemos o princípio cartográfico como extramoral: não pretende confirmar verdades ou mentiras, mas sim verificar o quanto a vida consegue se efetuar. O que antes nos era convocado a pensar em termos de uma realidade e identidade fechadas em si mesmas, na consideração da PSR como um grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou como moradia provisória (Decreto nº 7.053, 2009).

Ou seja, como uma unidade circunscrita em termos pontuais (pobreza extrema, desvinculação familiar, inexistência de moradia), e com demandas muitas vezes focalizadas exclusivamente ao uso de substâncias, vai se desdobrando em um campo de produções de si que ora oscila para um cenário de concatenações de expressões e criações (re)existentes, ora se reterritorializa em novas paisagens identitárias, muitas vezes igualmente fechadas.

Da ampla definição dada às PSR, efetuada pelo “macro olho… da representação e da razão totalizadora” (Rolnik, 2016, p. 73), vamos agenciando um processo de micro-olhar para os desejos que circulam entre os sujeitos, que podem revelar linhas de criação de outros modos de se efetivar na sociedade: “linhas de vida” (Rolnik, 2016, p. 48). Logo, não se busca uma aproximação aos corpos-rua em vista de formalizar um conceito que dê conta do fenômeno rua. O que moveu a pesquisa e movimenta esta escrita é poder pensar sobre as práticas de si (Foucault, 2004a, 2004b) que conformam subjetividades, modos de subjetivação e singularização; é possibilitar narrar uma estética da existência (Foucault, 2004b) agenciada junto às pessoas, que concatena um campo comum no qual singularidades se encontram e articulam outros possíveis.

Nesses tempos de encontros, algumas paisagens vão se sobressaindo aos barulhos de carro, às fissuras por crack, aos goles de cachaça, aos sons das latinhas sendo empilhadas em sacos, ao cheiro forte dos mocós e das esquinas: precipitam-se elementos singulares que escapam ao rosto outrora delegado às subjetividades de rua. Precipitam-se as múltiplas facetas de si que compõem as vidas das pessoas, como em uma coleção de máscaras que se repetem e se reatualizam no andar das experiências.

2. Nos com-passos da cartografia

Sendo os movimentos e deslocamentos caros a esta pesquisa, elegemos a cartografia como ferramenta metodológica coerente com as ideias traçadas, no entendimento de uma maneira de produzir conhecimento a partir das “experiências de campo”.

Tomando o real como uma invenção inacabada, a cartografia é considerada um método ad hoc, no qual as pesquisadoras cartógrafas acompanham os processos de produção de mundos (Barros & Kastrup, 2010). Ir a campo não se dá na ordem de uma observação distante para uma escrita descritiva e detalhada dos achados, como se a realidade encontrada fosse um eixo pronto. Falamos de um processo que aposta em uma postura interventiva e relacional, colocando-se entre os acontecimentos e disposta a se expor para com-por junto às pessoas com quem se está produzindo saberes. Uma postura que abraça a experiência para, a partir dela, traçar caminhos (Passos & Barros, 2010). Falar em termos de cartografia é, assim, apostar num modo de pesquisa que entende a produção de conhecimento como um campo em processualidade (Kastrup, 2010) que varia ao longo do tempo e sobre o qual, numa perspectiva rizomática, não se intenta um ponto de acabamento ou completude.

À(ao) cartógrafa(o) cabe ir à campo inclinada(o) a acompanhar os movimentos das linhas que compõem os territórios: suas disputas, suas zonas de ruptura, seus pontos de convergência, de criação, de (des)(re)territorialização, e “o quanto a vida está encontrando canais de efetuação” (Rolnik, 2016, p. 68). Para isso, lhe é demandada, além dos aparatos teóricos e instrumentais, uma outra sensibilidade (Costa & Amorim, 2019) capaz de captar tais movimentos em suas manifestações e latências, perceptíveis à vibratilidade do corpo inteiro, não apenas ao sentido visual-retina.

Mergulhadas no plano da experiência, os dados vão sendo construídos por meio das apostas relacionais efetuadas. A aproximação ao campo de estudos e às pessoas participantes foi sendo produzida desde 2023, em um estágio curricular obrigatório em Psicologia Social, junto a um dispositivo de saúde Consultório na Rua2. Ademais, ao longo de 2024, a primeira autora manteve contato com as ruas, expandindo as horas de encontros e produzindo dados para a realização de uma pesquisa de conclusão de curso em Psicologia, intitulada “Andanças Cartográficas: narrativas sobre o andar e o cuidar junto com a População em Situação de Rua.” (Dapuzzo, 2025).

Considerando o recorte apresentado neste estudo, salientamos que o andar funcionou como ferramenta de produção de encontros e cuidado, por meio de andanças efetuadas junto as/os participantes. Desses encontros produziram-se escritas em diário de campo e registros fotográficos que, eventualmente, iam sendo publicizados via Instagram3 da primeira autora. Gravações de vídeos também eram realizadas, sempre em conformidade com os preceitos éticos previstos, respeitando e acordando os registros com as pessoas participantes. Ressalta-se, ainda, que a pesquisa desenvolvida teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), sob o CAAE no 76236423.4.0000.5324.

Conscientes da não neutralidade que o estar presente opera em uma cartografia, a produção de dados e análises realizadas se elaboram através de um olhar sobre tais intervenções, ou, nos termos de Renè Lourau (1975), implicações. Falar em implicação é reconhecer que toda relação é atravessada por poderes (Foucault, 2004c) e por correlações de forças, convocando-nos a um compromisso ético-estético-político em defesa da vida ante as transformações que emergem dos encontros; é analisar o impacto das experiências sobre os corpos e sobre o “sistema de poder que legitima o instituído” (Paulon, 2005, p. 23), como um exercício de (re)pensar o próprio movimento do pesquisar e das produções de saber que realizamos e das quais fazemos uso.

3. Linhas que escapam ao rosto-rua

3.1. Entre pássaros, sementes e árvores

Claro A., homem cis, negro, 46 anos, e há 15 nas ruas, de diferentes localidades do Sul do Brasil. Artesão e contador de histórias, o pirata-trecheiro, como se contava, dizia gostar de ficar sossegado, distante de conflitos e grandes grupos, caminhando com seus cachorros. Articulou boas redes de apoio e segurança pelo seu território, podendo contar com serviços de saúde e assistência especializados à População em Situação de Rua - Consultório na Rua e Centro Pop4 - e, sobretudo, com moradoras(es) e comerciantes do entorno por onde costumava circular. Alquimista nas horas vagas, Claro falava sobre plantas medicinais, pedras e energias:

Durante à tarde, sentamos ao sol. Claro, reclamando de dores e coceiras nas pernas e pés, tirou as botas. Perguntei se ele queria que eu o acompanhasse no postinho (Unidade Básica de Saúde). Disse que não, mas que qualquer dia desses iria comigo colher “erva-de-bugre”, me explicando que servia como cicatrizante. Perguntei se ele era bruxo e me respondeu, debochado, que eu que era “guria de apartamento”. Eu ri… (Diário de Campo, abril de 2024)

Sempre carregado de respostas e comentários às perguntas, ensinou-nos uma postura muito bonita no que tange à cartografia, ao cuidado e às relações: a paciência. Por se mostrar bastante resistente às nossas aproximações, desde 2023 buscou-se agenciar um processo mais lento junto a ele, sentindo as aberturas e possibilidades de construção dos vínculos. Conhecido por trazer suas dores e inseguranças em tom de piadas, aprendemos os aspectos risíveis ou não de suas falas. Aprendemos a responder com os olhos e a sustentar alguns fragmentos do que contava, agenciando um cuidado entre nós que favorecesse que lhe devolvêssemos seus pedaços.

Em uma das caminhadas junto a ele, no outono de 2024, emerge a narrativa sobre a plantação de uma árvore. Conta sobre o dia em que, deitado ao sol, observava passarinhos indo de uma ponta a outra do horto municipal, carregando galhos. Levantou e seguiu o voo, como quem cartografa o bater das asas. Em um dos pontos, diz ter percebido que, do movimento dos passarinhos, algumas sementes caíam. As colheu e plantou. Cuidou da muda e testemunhou a vida.

Refletindo sobre os modos de produção de subjetividade, estamos em um campo no qual nossa inventividade nem sempre sobressai. Coagidas(os) pelas forças dos componentes que nos são lançados, há uma tendência pela apropriação dos modelos dados, bem como a indução aos rostos centrais, indiferenciados. Ao conseguirmos criar escapatórias, linhas de fuga (Deleuze & Guattari, 1996), produzimos fendas para a experimentação e invenção de “maneiras diferentes de perceber o mundo e de nele agir” (Mansano, 2009, p. 112).

Quando Claro se põe a olhar o céu, observar os pássaros e significar seu espaço a partir da experiência vivida, imprime uma marca de si outra que não aquela que lhe foi grudada: “bêbado”, “sujo”, “violento”, mas de um sujeito em constante diferenciação de si mesmo. Sua narrativa sobre pássaros, sementes e árvores se aproxima do que compreendemos como essas linhas de singularização onde residem movimentos possíveis de transformação de si “para além e aquém das ruas” (Diário de Campo, março de 2024), ou seja, diferenciações que inspiram encontros de Claro com Claro, antes, durante e no porvir de suas experiências (Dapuzzo et al., 2026).

Falamos em termos de uma vida que não está dada, mas que se constitui na experiência, nas relações e nos encontros que produz e pelos quais é afetado. Arriscaríamos dizer que algumas máscaras se decompuseram, dando espaço para que outras, entre pássaros, sementes, mudas e passos, fossem se organizando. Quando Claro conta essa história, entendemos que plantou mais do que uma árvore, pegou “nas sementes das palavras” (Barros, 2010) e construiu uma narrativa que fala de si.

3.2. O mocó me grita lar

Éder, homem cis, branco, 52 anos, há aproximadamente um ano nas ruas. Carismático, comunicativo e “em busca de ressignificar as perdas” (Diário de Campo, abril de 2024). Não conseguindo sustentar a paisagem-casa onde viveu junto à esposa - vítima da Covid-19 - por mais de 25 anos, Éder vai para a rua:

Achei ele um cara animado, embora fosse perceptível os traços de tristeza quando falava da falecida esposa. Entre palavras, expressões tristes e goles de cachaça, ele reafirmava: “mas eu quero viver, me reerguer, sair de dentro dessa garrafa”, mencionando que o que o impossibilitava, no momento, era o fato de sua casa trazer muitas memórias que ele não conseguia lidar… (Diário de Campo, abril de 2024)

Um aspecto recorrente nas narrativas de pessoas que vão para as ruas é o luto pela perda de alguém da família (Marchi, Carreira, & Salci, 2013), alterando a trajetória de suas vidas. Entrelaçado ao aumento de uso de substância - principalmente o álcool e tabaco -, Éder comenta que, inicialmente, sentia vergonha de estar “enchendo a cara e deprimindo” naquele que foi lugar de tantas histórias bonitas (Diário de Campo, maio de 2024). Assim, a ida para as ruas ganha a dimensão de uma busca pelo esquecimento e pela manutenção de uma paisagem-casa nos acordes e ritmos de uma vida junto a sua esposa.

Em um dos pousos no local onde ficava, fui convidada a conhecer o mocó onde estava vivendo junto a mais algumas pessoas. Ao entrar, o cheiro forte da urina se sobressai. Havia alguns colchões, cobertores, pilhas de roupas, cápsulas de medicamentos, entulhos, garrafas vazias e cachorros. Era perceptível haver uma lógica de ordenação das coisas, como que produzindo uma divisão dos ambientes, conforme se estabelece nos lares. Passando pelo primeiro ambiente, notei algumas pessoas dormindo. Tentei fazer o mínimo de barulho, a fim de não atrapalhar os sonhos.

Ao chegarmos ao último ambiente, Éder menciona que ali era um local onde costumavam fazer alguma comida com as doações que recebiam. Além disso, era onde ele dormia, às vezes junto ao Patrique - outro rapaz que me acolheu e me contou algumas histórias -, quando estava muito frio, às vezes na companhia de “Malbeck”, seu cachorro-amigo. Empolgado, Éder mostra a ambientação, explicando que, aos poucos, estavam conseguindo fazer do espaço, antes vazio e abandonado pela prefeitura, um lugar de permanência.

Figura 2
O mocó me grita lar

Nesse sentido, o mocó ganha contornos muito maiores do que um lugar ou um esconderijo, mas um intercessor que, singularmente em Éder, gritava o desejo por um lar; uma “utopia localizável”, como diria Foucault (2013), que “podemos situar no mapa; utopias que têm um tempo determinado, um tempo que podemos fixar e medir conforme o calendário de todos os dias” (p. 19). Assim, mocó produz um devir-casa, no qual não só se organiza um habitar, mas se afetuam5 relações e se dinamizam redes de cooperação e auxílio entre os/as moradores/as (Gramajo, Maciazeki-Gomes, Silva, & Paiva, 2023).

Entre os meses de setembro e outubro de 2024, o mocó foi incendiado, produzindo uma repercussão, via redes sociais, sobre o aumento das pessoas vivendo nas ruas. Nas disputas narrativas sobre as razões do fogo, sobressaem termos como “craqueiros”, “drogados”, “vagabundos”, “marginal” etc., bem como comentários aporofóbicos que põem em cena as marcas da necropolítica contra essas pessoas apoiada por uma parcela da sociedade civil: (a) “Tem que fazer o que praias do litoral norte como Arroio do Sal, Capão da Canoa e Torres, vagabundos e drogados, colocam num ônibus e enviam para a terra Natal” (O Litorâneo, 2024, [grifo nosso]); (b) “Cracolândia do Cassino ... é simples resolver é só fechar as portas com tijolo se arrombar é só levar preso … cometeram um crime menos um no cassino” (O Litorâneo, 2024); (c) “ali virou ponto de usuário de droga e marginal, esperando gente desavisada passar pra ser assaltada” (Comentário em postagem do O Litorâneo, 2024, [grifo nosso]); (d) “Causa [do fogo], os craqueiros que se instalaram ali, tá complicado e perigosa aquela região” (O Litorâneo, 2024, [grifo nosso]); (e) “...algum órgão competente deveria realocar essas pessoas para abrigos” (O Litorâneo, 2024).

O mocó, em chamas, atualiza a utopia localizável daquelas pessoas que rostificam a rua: o lugar endereçado às pessoas que vivem nas ruas é a prisão, os abrigos ou o retorno para a “terra natal” - quando não mortos.

3.3. Sobre o dia entre navios e conchas

Vou junto com o Claro até a praia, pra molhar os pés, ver o mar, respirar uma brisa boa, né, Claro?” Ele sorriu. Ela (trabalhadora do Consultório na Rua) olhou pra ele e disse: “Vais conseguir chegar até lá com esses pés assim? Todo ruim?”. Claro ficou sério e respondeu que iria devagar… “Cuidado com os caras que querem te matar”, ela complementou (Diário de Campo, março de 2024).

Os encontros agenciados junto a Claro costumavam produzir bons materiais de reflexão e conversas. Havíamos combinado, certa vez, de irmos dar uma caminhada na praia, considerando sua curiosidade sobre a entrada e saída de navios, de onde vêm, para onde vão. Em se tratando de uma costa portuária, a paisagem comumente contempla a vista de embarcações. Assim, em uma de minhas idas até o território, fomos até o mar mudar os ares e as paisagens-de-si. Caminhamos no ritmo de Claro, entre passos, pausas e histórias contadas. Fui apresentada às ruas a partir do seu olhar e de suas experiências narradas sobre ser uma pessoa que as habita.

O estar na praia foi bonito, apesar do vento frio. Fomos nos aproximando ao mar e Claro sentou-se em cima da mochila. Deixei meus tênis ao lado dele e tirei umas fotos. A Preta e o Baio (cachorros) nos acompanharam por todo o trajeto. Brincaram na areia e à beira-mar. Claro ficou observando os navios de carga que entravam e saíam do canal, perguntando de onde eles vinham e para onde eles iam.

Enquanto olhava mar adentro, fixando horizontes, fotografei-o. Pensei sobre quais navios e âncoras têm à sua disposição? Por quais ilhas já andou? “Enquanto o corpo estava ali, arrepiado com o vento gelado de uma praia outonal do sul do Sul, os pensamentos pareciam embarcar rumo a outros territórios e existências…” (Diário de Campo, março de 2024).

Caminhei até o mar e decidi olhar e coletar algumas conchas. Ele debochou de mim: “ah é? vais ficar catando conchinhas?” (Diário de Campo, março de 2024). Sorri e disse que sim, que eu as achava bonitas; que era meu lugar de tranquilidade. Passados alguns instantes, Claro estava ao meu lado, cabeça direcionada à areia, catando ele suas conchas. Ele as pegava, olhava e cheirava. Algumas devolvia à areia, outras guardava. Observei em seu rosto um sorriso tímido, sem enunciação de palavras, apenas gestos.

Figura 3
Vi(m)-ver o mar

As conchas são estruturas calcificadas desenvolvidas por alguns moluscos (terrestres e marinhos) com função, principalmente, de proteção contra predadores. Além do fator proteção, serve como uma espécie de casa para que possam crescer. À medida que os moluscos se desenvolvem e esticam, a casa-concha cresce junto, respeitando o ritmo do animal. Em sua dissertação de mestrado, inspirada em uma edição do Jornal Boca de Rua, Rita de Cássia Maciazeki-Gomes (2006) fala de “gente-caracol” para se referir às pessoas que estão nas ruas, compreendendo a ideia de uma “casa-corpo”, uma casa frágil que insiste em mostrar-se resistente diante das tantas dificuldades apresentadas sob o céu da cidade.

Seja imaginando ilhas além-mar, seja se relacionando com a paisagem costeira, no aqui e agora, pisar em chãos de areia junto a Claro, entre navios e conchas, fala da produção de um território existencial atravessado pelo desejo do lançar-se à vida e abrir-se a outros possíveis de si-mesmo. É um incessante recriar do corpo, às vezes casa, como os caracóis, carregando-a às costas, às vezes gente, carregando histórias e imaginando lugares.

Melhoramos os pés na água e ele sugeriu de irmos embora. Caminhamos de volta ao lugar onde havia deixado suas coisas, em um silêncio contemplativo que foi quebrado com Claro se despedindo, dizendo: “Guria, foi bom hoje, nem vi o tempo passar …” (Diário de Campo, março de 2024).

Quando estava registrando esse dia no diário de campo, ao invés de “molhamos os pés”, escrevi “melhoramos os pés”. Destaco esse “ato falho” em virtude da força que atribuo ao cuidado agenciado nesse dia. Conforme registrado, Claro foi interpelado sobre ir até a praia, em virtude de seus pés cansados. Todavia, no contrafluxo às velocidades cotidianas, andamos em direção à praia respeitando o seu ritmo e o seu tempo, criando mais possíveis além do já dado “não ir”. Produzimos um cuidado que se faz no colocar dos corpos nas ruas; um corpar (Dapuzzo & Sousa, 2023).

3.4. Acordes em violão de duas cordas

O incêndio no mocó, além de ter destruído um espaço de habitação, em suas linhas mais estratificadas - local para dormir, comer e fazer necessidades -, levou elementos que simbolizavam um porvir e que resgatavam zonas de potências para algumas pessoas.

Em um encontro com Éder, no qual ele falava sobre trabalhos que já havia realizado durante a vida, menciona alguns utensílios que deixou em sua casa, mas que sente falta. Dentre eles, destaca seus instrumentos de jardinagem, contando sobre períodos em que ganhava dinheiro como cortador de grama, e refletindo sobre a possibilidade de voltar a cuidar de jardins. Fala, também, de sua caixa de ferramentas, alegando o quanto ela o auxiliaria nesse momento em que está arrumando algumas coisas dentro do mocó.

Movimentando a conversa a partir dos objetos que estavam ao alcance dos olhos, trago à narrativa a prancha de surf e o violão, que estavam próximos no momento do diálogo. Éder comenta que encontrou ambos perto de um container de lixo. Decidiu recolhê-los pois faziam emergir situações e sensações boas para si. Sobre a prancha, conta que faz se sentir mais próximo ao filho, com quem não fala há mais de um ano. Já o violão expressa uma reaproximação com parte de si, sendo um instrumento com o qual tem familiaridade e que aprecia tocar.

Segurou o violão em seu colo, dedilhou as cordas que haviam... contou que sempre fora uma atividade que lhe fazia bem, mas neste momento se acha impossibilitado de resgatar o hábito, pois o violão está apenas com duas cordas. Comentei, gentilmente, que duas cordas também produzem acordes. Ele confirmou, encostando o instrumento na parede, com cuidado (Diário de Campo, julho de 2024).

Ao trazer à cena essa relação de Éder com os objetos, penso na possibilidade de os considerar como focos de resistência às imagens grudadas às vidas nas/das ruas, no sentido proposto por Deleuze (1988) de “criação” e de “libertação da vida”. Contrariando o pensamento de que o mocó é um lugar de acúmulo de usuários de substâncias - a cracolândia da cidade -, e de que os sujeitos que lá habitam reduzem suas potências e desejos ao uso, testemunhei haver processos de si que criavam brechas para tornar enunciáveis outros desejos: a prancha de surf e a relação com o filho e o gostar do mar e o apreço ao violão e as familiaridades que evoca.

As experiências de contato junto a Éder convocam a pensar o que Costa e Fonseca (2008) refletem ao falar do corpo-rizoma: um corpo que não carrega uma unidade identitária, mas que se anuncia em “uma trama complexa e conjuntiva na qual vários sentidos se afirmam simultaneamente de modo paradoxal, sem constituir um sentido único e essencial como garantia da coerência do ente ...” (p. 516). Ao invés da ideia conforme de uma vida nas ruas figurada no “ser viciado” - e em suas derivações -, poder se valer da “gagueira criadora” (Deleuze, 2013, p. 62) que conforma multiplicidade e destitui identidades.

3.5 Um colecionador de potencialidades

Patrique, homem cis, branco, de 43 anos e há aproximadamente 8 nas ruas.

Um homem que se apresenta alegre e expansivo. Gosta de conversar, fazer perguntas, cantarolar enquanto caminha. Costuma pedir no sinal, onde também vende chás e temperos que ganha da vizinhança ou que colhe nos quintais das casas: “vende o que consegue: às vezes marcela, às vezes boldo, às vezes temperos: louro, manjerona, manjericão…” (Diário de Campo, maio de 2024). Nas últimas semanas em que estive presente, estava tocando gaita e escrevendo em papelão, alegando que “ganho a vida com minha gaita, minha lábia e, agora, minhas placas” (Diário de Campo, junho de 2024).

Patrique carrega em si características de um colecionador, acostumado a se engajar nas buscas pelas latas de lixo e ruas do território onde vive, coletando uma pluralidade de objetos que encontra e que considera ter potencial, ou para venda, para mobilizar novas criações, ou, ainda, para deixar de enfeite no mocó, onde com-vive com Éder e outras pessoas.

me conta que metade das coisas do mocó achou nas latas de lixo pelas ruas: bolsas, mochilas, sacos de roupa, ferramentas, enfeites, pedaços de madeira, móveis, utensílios domésticos, remédios vencidos, livros etc. Com sua facilidade para manusear ferramentas e criar a partir do que foi considerado lixo, costuma pagar sua bebida e comida com o dinheiro que faz, seja vendendo as coisas, seja sendo pago por sua “criatividade”... ele tem um carisma… (Diário de Campo, junho de 2024)

Aquilo que Patrique encontra ao longo de suas andanças muitas vezes serve como um intercessor para que reinvente sua cotidianidade, ao passo que a cada esquina e espiadas latas adentro, possibilidades outras surgem com o que irá achar: encontros de objetos e encontros consigo, como em um processo de diferenciação de si e de produção de mundos. Essa relação que vemos acontecer entre os objetos externos a Patrique e a maneira como vai os assimilando nas experiências de seu dia a dia, pode ser vista sob a perspectiva de uma “dobra”, de uma vergadura do fora para a constituição de uma subjetividade atual que não cessará de se diluir “até que outra se perfile” (Rolnik, 1997, p. 2). Pensamos que esse processo de criar ou reestruturar objetos-lixo são como uma coextensão de um reinventar-se a si mesmo, mobilizando Patrique a criar a partir das sobras e resistir por meio das dobras.

Não é salvo de dores e memórias tristes que Patrique se põe no mundo com a postura alegre que apresenta. Em um dos encontros, conta sobre internações compulsórias, sobre como sentiu necessidade de abandonar a família devido ao aumento do uso de álcool, sobre a saudade que sente de velhos amigos, da cidade onde nasceu e dos contornos de uma vida de outros tempos e espaços. Vejo em suas dores, no entanto, o que Juliana Dornelles (2004) expressou como a “dor positiva”, aquela dor que faz o corpo vibrar, que o mantém vivo; dor que, “mesmo sendo dor, produz pura alegria e criação.” (p. 193).

Assim, vemos suas reinvenções da cotidianidade conferirem para si marcas de singularidade sempre inaugurais. Acolhe, cria e imagina mundos ali onde situam-se marcas residuais das muitas pessoas que tamponam suas dores comprando-descartando-comprando. A cada cri/imagin-ação, principia “um espaço ativo (que não significa ser todo o tempo movimentado e propositivo, mas sim ativo em imprimir ações no mundo)” (Dornelles, 2004, p. 193). Suas linhas fugidias se atualizam, compondo Patriques no tatear, encontrar e no relacionar com as ruas.

4. Contornos finais

Encontro. Talvez essa seja a palavra-ação que traz a possibilidade de criar um contorno final a esse texto. É pelo encontro e, neste, pela abertura em se fazer presente que possibilitamos com-figurar novos horizontes sobre a vida nas ruas e sobre a multiplicidade de elementos, narrativas e acontecimentos que engendram as experiências de cada pessoa que está pelas calçadas, mocós, praia e ruas de uma cidade.

Pelas relações estabelecidas, foi possível evidenciar que as ruas, ainda que atravessadas por vulnerabilizações, não se reduzem ao uso de substâncias ou à perda da produção desejante, mas são cheias de frestas que potencializam o viver e por onde escapam desejos e sonhos. Dito de outro modo, produzir experiências junto com pessoas que habitam as ruas de uma cidade do Sul do Brasil, possibilitou que borrássemos um rosto há muito grudado a elas, vivendo e encarando as diferentes máscaras que compõem suas vidas e que são, na mesma medida, (des)feitas ao longo do processo relacional que se efetua na aproximação às pesquisadoras.

Se às ruas é delegada a hostilidade e a violência de uma estrutura política que tensiona o apagamento e/ou subordinação dessas vidas às agendas capitalísticas hegemônicas, insistindo em preservar um rosto único a elas, poder compreender a não rigidez da produção de subjetividade, bem como a potência presente nos processos de criação de si - a singularização -, é apostar na riqueza da diferença, não só dos outros, mas a diferença que se faz em nós, emergente e inerente aos encontros.

Notas

  • 1
    Dapuzzo, Molina, Correia, & Maciazeki-Gomes, no prelo.
  • 2
    Instituído pela Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), o Consultório na Rua (CnR) é uma estratégia de atenção do Sistema Único de Saúde (SUS) que busca facilitar e ampliar a assistência em saúde para a População em Situação de Rua, considerando seus territórios e necessidades. Tem o objetivo de assegurar à PSR atendimentos de baixa complexidade, in loco, viabilizando os direitos previstos na Política Nacional para a População em Situação de Rua em sintonia tanto com os preceitos do SUS como com a Política Nacional de Humanização.
  • 3
    Instagram: @andancas.cartograficas.
  • 4
    O Centro de Referência Especializado para a População em Situação de Rua (CentroPop) é um dispositivo de assistência do SUAS que visa facilitar o acesso da PSR a direitos, produção de documentos, oferta de alimentação e higiene, atividades coletivas, culturais e de lazer, entre outros.
  • 5
    Jogo de palavras entre efetuar e afetar, compreendendo que as experiências trazem suas cargas afetivas, sejam elas alegres ou tristes.
  • Financiamento
    Não houve.
  • Consentimento de uso de imagem
    Há o consentimento escrito/assinado das pessoas participantes para o uso de imagens e/ou descrição de falas.
  • Aprovação, ética e consentimento
    O projeto de pesquisa a partir do qual o texto foi produzido foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), sob o CAAE no 76236423.4.0000.5324.

DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAIS

Os conjuntos de dados utilizados ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis junto ao autor correspondente mediante solicitação razoável.

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  • Editor científico
    Dra. Camilla Fernandes Marques

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Mar 2025
  • Revisado
    28 Jan 2026
  • Aceito
    08 Mar 2026
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