Open-access ENTRE OS MALES E A SAÚDE: O BENZIMENTO COMO PRÁTICA SOCIAL EM UMA COMUNIDADE RURAL CAPIXABA

ENTRE LOS MALES Y LA SALUD: BENDICIÓN-EL BENZIMENTO TRADICIONAL COMO PRÁCTICA SOCIAL EN UNA COMUNIDAD RURAL CAPIXABA

BETWEEN THE AILMENTS AND HEALTH: BENZIMENTO AS SOCIAL PRACTICE IN A RURAL CAPIXABA COMMUNITY

Resumo:

Este estudo teve como objetivo analisar a prática do benzimento entre famílias de uma comunidade rural no estado do Espírito Santo, através da Teoria das Representações Sociais. Foram adotadas estratégias metodológicas qualitativas, em que os dados foram coletados por meio de entrevistas com roteiro aberto e da observação participante, registrada em diário de campo. Participaram do estudo 13 moradores da comunidade, com idades entre 45 e 92 anos. Os dados foram tratados à luz da análise de conteúdo categorial-temática e da análise temática, que estruturam os resultados em torno das categorias: a aprendizagem do benzimento e a vivência de benzedeiras; os sujeitos destinatários do benzimento; os males benzidos; e o ofício da cura e proteção. A partir da análise do processo sociogenético, o benzimento foi compreendido como uma prática social que articula domínios como saúde, natureza, fé e identidade católica, enraizados na herança cultural e na diversidade da ruralidade brasileira.

Palavras-chave:
Psicologia Social; Populações Rurais; Práticas Sociais; Medicina Popular; Teoria das Representações Sociais

Resumen:

Este estudio tuvo como objetivo analizar la práctica del benzimento (bendición tradicional sanadora del catolicismo popular) entre familias de una comunidad rural en el estado de Espírito Santo, a través de la Teoría de las Representaciones Sociales. Se adoptaron estrategias metodológicas cualitativas, con datos recolectados mediante entrevistas con guion abierto y observación participante, registrada en un diario de campo. Participaron 13 habitantes de la comunidad, con edades entre 45 y 92 años. Los datos fueron tratados a partir del análisis de contenido categorial-temático y del análisis temático, estructurando los resultados en torno a las categorías: el aprendizaje del benzimiento tradicional y la vivencia de benzedeiras (curanderas tradicionales); los sujetos destinatarios del benzimento; los males tratados mediante el benzimento; y el oficio de la cura y la protección. Desde el análisis del proceso sociogenético, la bendición tradicional se comprendió como una práctica social que articula dominios como salud, naturaleza, fe e identidad católica, enraizados en la herencia cultural y en la diversidad de la ruralidad brasileña.

Palabras clave:
Psicología Social; Poblaciones Rurales; Prácticas Sociales; Medicina Popular; Teoría de las Representaciones Sociales

Abstract:

This study aimed to analyze the practice of benzimento (a Catholic folk healing and blessing practice) among families in a rural community in the state of Espírito Santo, using the Theory of Social Representations. Qualitative methodological strategies were adopted, with data collected through open-ended interviews and participant observation recorded in a field diary. 13 community residents, aged between 45 and 92 years, participated in the study. The data were analyzed using categorical-thematic content analysis and thematic analysis, structuring the results around the following categories: learning the benzimento and the experiences of benzedeiras; the recipients of the benzimento; the ailments treated through benzimento; and the craft of healing and protection. Through sociogenetic process analysis, the benzimento was understood as a social practice that articulates domains such as health, nature, faith, and Catholic identity, rooted in cultural heritage and the diversity of Brazilian rurality.

Keywords:
Social Psychology; Rural Populations; Social Practices; Popular Medicine; Theory of Social Representations

Introdução

O contexto brasileiro possui uma rica diversidade cultural, refletida em uma pluralidade de modos de vida que compõem as ruralidades no país, que inclui povos do campo, das florestas e das águas (Carneiro, Pessoa, & Teixeira, 2017; Ministério da Saúde, 2013). Neste cenário, as práticas populares, tradicionais ou de cuidado da saúde referem-se a saberes culturais que atuam na prevenção, cura ou tratamento de doenças e males, transmitidos entre as gerações, influenciadas pela história local, religião ou espiritualidade e contextos socioeconômicos, assim como pelo meio ambiente, considerando o clima, a geografia e a vegetação (Carreira & Alvim, 2002; Rocha & Aquilante, 2020; Rückert, Cunha, & Modena, 2018; Ministério da Saúde, 2013). Pesquisas realizadas em diferentes ruralidades brasileiras expõem que esses saberes envolvem práticas como o uso de plantas medicinais, hábitos alimentares específicos, a religiosidade, a vivência comunitária e uma relação com a natureza, compondo sistemas populares de saúde, conforme seus contextos socioculturais (Ceolin et al., 2021; Rückert et al., 2018; Schek et al., 2021).

Focalizando o benzimento, aqui entendido como uma prática que intervém na saúde e na doença, este trata-se de uma prática cultural que se mantém viva no cotidiano de grupos e categorias populares desde o período colonial brasileiro (Oliveira, 2024). As relações interculturais impostas pela colonização deram origem a uma medicina popular, influenciada pelas tradições indígenas, africanas e europeias, desenvolvida para lidar com os problemas cotidianos relacionados à saúde e à doença, através de plantas e ervas medicinais, rezas, entre outros (Menezes, 2024).

Como recurso teórico estratégico à análise acerca dos fatores socioculturais no âmbito dos processos de saúde e de doença, na qual o benzimento se insere, recorre-se ao quadro teórico da abordagem sociogenética da Teoria das Representações Sociais (TRS), delineada pelas contribuições de Denise Jodelet (1989/2005), fundamentada na teoria geral proposta por Serge Moscovici (1961/1978). A perspectiva sociogenética focaliza os processos de gênese das representações e práticas sociais, sua construção e transformações ao longo do percurso histórico, bem como as interações e a comunicação sociais em uma cultura (Jodelet, 1989; Kalampalikis & Aspostolidis, 2016). Trazendo esta dimensão para o estudo de práticas de saúde em geral, Jodelet (2005, 2006) ressalta a relevância de uma perspectiva cultural, dado o papel que a cultura exerce sobre o modo como as pessoas vivenciam a saúde e a doença, perspectiva adotada neste estudo para a análise do benzimento.

Como fenômenos da vida cotidiana, as representações sociais tratam de um saber prático, construído socialmente e compartilhado entre os membros de um grupo social em relação a um objeto (Jodelet, 1989). Assim, têm como função agir sobre o mundo e sobre o outro, sendo a prática um fazer típico de um grupo social, exercendo um papel no ajustamento dos grupos à sua realidade por meio de um processo psicossocial (Jodelet, 1993). As representações estão enraizadas e sustentadas nos contextos materiais e simbólicos que constroem diferentes mundos de vida, reforçando a construção do conhecimento por sujeitos ativos e pensantes em uma realidade social (Campos, 2021; Jodelet, 1993). As representações e as práticas sociais têm sido compreendidas em uma relação de interdependência, na qual as representações orientam, dão sentido e legitimidade às práticas vividas e atualizadas no cotidiano, reconfigurando e transformando as representações sociais (Abric, 1994; Flament, 1994; Wolter & Sá, 2013).

Apesar da relevância das práticas nos fenômenos representacionais, elas têm sido pouco exploradas nos estudos de representações sociais, em comparação a outras dimensões destes fenômenos, embora alguns pesquisadores já tenham avançado nesse debate (Abric, 1994; Almeida et al., 2000; Campos, 2021; Enumo, 2003; Flament, 1994; Peixoto, 2023; Trindade, 1996; Wolter & Sá, 2013). Jodelet (1993, 2005), por exemplo, em sua memorável pesquisa acerca das práticas cotidianas observadas nos lares de membros de uma comunidade rural que hospedaram pacientes egressos de um hospital psiquiátrico na França, identificou representações sociais da loucura associadas à ideia de doença contagiosa e que se manifestava na evitação do contato com fluidos corporais (como suor, sangue ou saliva). Ainda que manifestas nas ações cotidianas, essas práticas permaneciam escondidas pela comunicação social (Jodelet, 2005).

Tendo como foco de análise uma prática social de saúde em um contexto cultural específico, dois processos psicossociais intitulados de ancoragem e de objetivação estão diretamente envolvidos na perspectiva sociogenética da TRS, a saber: (a) a objetivação, que tem como função dar imagem ao abstrato e concretude a um objeto desconhecido, através da naturalização de um conteúdo não familiar; e (b) a ancoragem, que produz nomeação ao objeto por meio da categorização, em que ocorre a generalização e a particularização dos elementos que o compõem, posto que é impossível classificar sem dar nomes (Jodelet, 1989; Moscovici, 2015; Sá, 2015). A objetivação ocorre por meio de três fases: (a) construção seletiva, com a seleção e a descontextualização das informações sobre o objeto; (b) esquematização estruturante, com formação de um núcleo figurativo; e (c) naturalização, em que ocorre a atribuição de materialidade aos elementos abstratos através de figuras e metáforas (Jodelet, 1984, 1989; Vala, 1993). Já a ancoragem possui as seguintes etapas: (a) designação de sentido, com a nomeação do novo objeto; (b) enraizamento no sistema de pensamento preexistente, que permite a incorporação social da novidade; e (c) instrumentalização do saber, com a atribuição de caráter prático ao conhecimento (Jodelet, 1984, 1989; Vala, 1993). A partir do exposto, este estudo teve como objetivo analisar a prática do benzimento desenvolvida por famílias de uma comunidade rural no norte do estado do Espírito Santo, sob o aporte teórico-conceitual das práticas sociais na abordagem sociogenética da Teoria das Representações Sociais.

Método

Este estudo foi desenvolvido a partir da abordagem qualitativa, de natureza descritiva-exploratória, por meio dos recursos metodológicos da pesquisa participante. Foram utilizadas estratégias da observação participante e entrevistas abertas, de modo a promover profundidade e contexto às práticas investigadas. Na observação participante, o(a) pesquisador(a) se integra ao campo e às pessoas que nele convivem, direcionando o olhar para as experiências contextuais do objeto de estudo (Flick, 2013). No entanto, nem todos os fenômenos podem ser acessados nas situações observadas (Flick, 2009a), o que torna importante a integração deste método a recursos como as entrevistas, permitindo o estudo das práticas também por meio do relato das pessoas sobre elas (Flick, 2009b).

Fonte dos dados e participantes

A pesquisa foi realizada em um território rural situado ao norte do estado do Espírito Santo, tendo características naturais, como um rio que atravessa a comunidade e o litoral, com praias e manguezais, entre outros elementos da Mata Atlântica, e não naturais, como pastos de gado, bases vinculadas à exploração do petróleo e plantações de eucalipto. Nessa diversidade ambiental e geográfica, atividades rurais como a pesca, a catadura de caranguejo e a agricultura, principalmente da aroeira (pimenta-rosa), é predominante entre as famílias da comunidade. Além disso, impactos socioambientais gerados por grandes empresas são um desafio na vivência cotidiana dos(as) moradores(as), que ameaçam seu modo e qualidade de vida.

O acesso aos(às) moradores(as), inicialmente, ocorreu por intermédio das profissionais da Unidade Básica de Saúde da Família (UBS) e também por meio da amostragem bola de neve, em que, à medida que as famílias participavam, indicavam outros potenciais participantes, bem como através da inserção do(a) pesquisador(a) no cenário comunitário. Um ponto importante sobre o acesso aos participantes refere-se à comunidade estar em período de colheita da pimenta-rosa no momento da coleta dos dados. Em função disso, parte dos(as) moradores(as) encontravam-se no trabalho nas lavouras durante o dia, tendo levado a uma maior participação de pessoas idosas e aposentadas nas entrevistas. As informações sociodemográficas sobre esses participantes estão disponíveis na Tabela 1.

Tabela 1
Dados sociodemográficos sobre os participantes

Participaram das entrevistas 13 moradores(as) da comunidade, sendo oito do gênero feminino e cinco do gênero masculino, com idades entre 45 e 92 anos, representando um total de oito núcleos familiares. Os nomes dos participantes foram substituídos por nomes fictícios, inspirados em plantas medicinais e alimentos mencionadas pelos moradores(as), garantindo o anonimato dos envolvidos. Os participantes das entrevistas, conforme autoidentificação, são majoritariamente pardos e possuem o catolicismo como religião e relataram antepassados indígenas em sua ancestralidade. Sobre as ocupações, a aposentadoria foi destacada, tendo-se também atividades rurais vinculadas à agricultura e à pesca, além de outros trabalhos assalariados, como assessoria parlamentar e agente comunitária de saúde.

Instrumentos e procedimentos de coleta de dados

A entrada no campo ocorreu através do contato com a Secretaria Municipal de Saúde e, posteriormente, com a UBS local, em que as(os) profissionais do equipamento contribuíram para a inserção no território, por sua proximidade às famílias e também por serem, majoritariamente, moradoras(es) da comunidade. Como espaços de interação e observação no campo para a coleta dos dados, pode-se destacar, portanto, a UBS, as residências das famílias (com a participação em diferentes momentos da rotina e socialização familiar) e os comércios locais, além de atividades populares e religiosas, entre outros espaços e eventos da comunidade.

A coleta de dados ocorreu entre maio e julho do ano 2024, de segunda a sexta-feira, das 7h às 16h, totalizando 20 visitas ao campo e, aproximadamente, 180 horas de observação e interação com a comunidade. Os registros em diário de campo foram realizados ao longo ou ao final de cada dia, conforme modelo proposto por Robert Bogdan e Sari Biklen (1994) e adaptado por Pedro Souza (2020). O diário de campo possuía os seguintes eixos estruturantes: descrição dos aspectos físicos do território; caracterização dos sujeitos; descrição das atividades; reconstruções dos diálogos; e notas livres. As entrevistas em profundidade tiveram uma condução mais livre, num tom de conversação informal, para preservar a espontaneidade das respostas fornecidas (Angrosino, 2009; Minayo, Deslandes, & Gomes, 2016).

A partir do consentimento e, por vezes, convite dos(as) moradores(as), as entrevistas ocorreram em espaços e eventos do seu cotidiano, como: durante ou após o preparo de alimentos em suas casas; nas varandas; quintais com o cultivo de hortaliças, plantas e ervas medicinais; entre outros. Por essa proximidade à rotina das famílias, algumas entrevistas foram realizadas com a presença de duas pessoas, como casais, pais e mães junto a seus filhos, entre outras composições. As entrevistas tiveram roteiro aberto, segundo eixos norteadores organizados a partir de uma revisão de literatura sobre as práticas populares de saúde vinculada a uma pesquisa de mestrado em Psicologia, sendo eles: (a) concepções sobre a saúde e a doença; (b) práticas de cuidado em saúde; (c) uso de chás e plantas medicinais; (d) alimentação; e (e) fé religiosa. O roteiro aberto possibilitou que surgissem temas não previstos, como o benzimento, que se destacou entre as experiências de saúde e doença no contexto investigado. A duração das entrevistas variou conforme a disponibilidade dos participantes, sendo de 20 minutos à 1h 40min (esse tempo não contabiliza as interações realizadas durante o contato com os participantes e registradas em diário de campo). Nesse sentido, mediadas pela triangulação intramétodo, as entrevistas e a observação participante foram realizadas de modo integrado e complementar, fortalecendo e qualificando tanto a coleta quanto a análise dos dados.

Tratamento e análise dos dados

Como etapa subsequente à coleta dos dados, o diário de campo foi digitalizado e as entrevistas gravadas foram transcritas, formando dois corpora de dados textuais, que foram tratados de acordo com os instrumentos de coleta dos dados. Os registros do diário de campo foram categorizados tematicamente, permitindo contextualizar o campo de pesquisa e evidenciar os resultados específicos sobre o tema benzimento, identificados por meio da análise temática (Flick, 2009b).

Os dados das entrevistas foram submetidos à análise de conteúdo categorial-temática, incluindo as etapas de pré-análise, codificação e interpretação dos resultados (Bardin, 1977/2016). As unidades de registro (UR) foram definidas a partir das dimensões centrais da prática do benzimento na comunidade, contemplando: a benzedeira, o benzimento (realizado em crianças, adultos, animais e lavoura), os males benzidos e o exercício da prática, por meio de orações, remédios caseiros e conhecimentos sobre plantas medicinais e da fé. As categorias finais foram agrupadas de acordo com essas URs, incluindo suas respectivas subcategorias e unidades de contexto emergidas dos dados das entrevistas. Por fim, os resultados de ambas as análises foram articulados, fundamentando-se na triangulação intramétodo.

Questões éticas

A pesquisa foi submetida na Plataforma Brasil e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição de vinculação, em consonância com as diretrizes de investigações científicas com seres humanos, conforme as Resoluções n° 466/12 e 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS). Todos os participantes das entrevistas assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, que incluiu consentimento para gravação em áudio e garantia do anonimato.

Resultados

A seção de resultados foi organizada a partir das categorias temáticas emergentes, as quais foram articuladas aos achados relacionados ao benzimento, oriundos da análise dos dados da observação participante. Ressalta-se que, embora a apresentação esteja estruturada em torno dessas categorias, ela trata da integração dos resultados das duas abordagens analíticas utilizadas, numa tentativa de acessar não apenas os relatos das práticas, mas compreendê-las em sua dimensão concreta, por meio da observação e da inserção direta no contexto em que a prática do benzimento se insere.

A análise de conteúdo revelou quatro categorias principais, sendo:

  1. A aprendizagem do benzimento e a vivência de benzedeiras;

  2. Os sujeitos destinatários do benzimento;

  3. Os males benzidos;

  4. O ofício da cura e da proteção.

Esses resultados são sustentados e contextualizados pelos achados sobre o benzimento produzidos pela análise qualitativa das entrevistas e dos registros de campo.

A prática do benzimento trata-se de um conjunto de rituais que integra elementos espirituais e terapêuticos, para o alívio de males ou condições específicas. Desse modo, as intervenções realizadas pelas benzedeiras objetivam a promoção de um bem-estar, seja físico (do corpo ou de outros destinatários concretos), mental ou espiritual. É transmitido através das gerações por meio da observação dos ritos e repetições das rezas. A espiritualidade, especialmente vinculada à fé católica, é central para a eficácia do ritual, em que tanto o praticante quanto o receptor precisam compartilhá-la e acreditar no poder do rito para que haja eficácia, utilizadas a depender da condição de afecção. Durante o rito, pode ser utilizado um “ramo” ou “raminha” para a realização de gestos com as mãos pela pessoa que benze. O preparo de remédios caseiros e garrafadas também são atividades desenvolvidas pelas benzedeiras, que, por vezes, se intitulam como raizeiras e realizam o cultivo de plantas medicinais em seus quintais. (Figura 1)

Figura 1
Planta medicinal

Sobre o compartilhamento dessa prática entre os participantes, foi observado sua predominância entre pessoas mais idosas. Em contrapartida, as gerações mais jovens, geralmente, foram benzidas na infância ou tiveram contato por meio de histórias contadas pelos familiares. Atualmente, há três benzedeiras ativas na comunidade e um benzedor, que não exerce mais a prática devido à idade avançada. No entanto, sua esposa conta que ele sente falta do contato com as pessoas e de quando era frequentemente procurado para a realização desta atividade. As benzedeiras são buscadas pelos moradores e, também, por pessoas de outras regiões, para a realização de rezas, preparo de soluções naturais e outros insumos. A partir da análise de conteúdo categorial-temática, quatro categorias que se ramificam em suas respectivas subcategorias foram identificadas, como pode ser visualizado na Tabela 2.

Tabela 2
Categorias e subcategorias temáticas

A categoria Aprendizagem do benzimento e a vivência das benzedeiras refere-se tanto à transmissão do benzimento ao longo das gerações entre os familiares como aos eventos cotidianos vividos pelas benzedeiras. A transmissão da prática do benzimento destaca o ensinamento da prática por meio da observação ou repetição das rezas, no meio familiar e/ou comunitário, através de figuras como avô e mãe. Também foram expostas, na subcategoria Socialização e experiências de vida das benzedeiras e benzedor , as vivências, bem como as influências familiares e culturais entre os praticantes do benzimento.

Os sujeitos destinatários do benzimento são as pessoas ou os elementos não humanos que são benzidos, sendo: crianças, adultos, lavouras ou animais. A busca pelo benzimento para crianças, em condições como mau-olhado, ventre ou espinhela caída e cobreiro foi mais frequente nos conteúdos, e, já para os adultos, a condição de dor de espinhela. Além dos humanos, as lavouras também podem ser benzidas, como para a proteção contra pragas nas plantações, e os animais em condições de afecções, conforme conteúdo das subcategorias o benzimento de crianças, o benzimento de adultos, o benzimento de lavouras e o benzimento de animais. Assim, o benzimento é procurado tanto para a cura de males quanto para a proteção e fortalecimento do corpo ou de elementos não humanos que compõem o ambiente.

Em relação à categoria males benzidos, tem-se as condições e afecções tratadas através do benzimento, sendo: ventre ou a espinhela caída , caracterizada por dores na região entre o tórax e o abdômen; mau-olhado , manifestado principalmente em crianças através de desânimo, choro e febre, em que as que são mais extrovertidas possuem maior suscetibilidade ao acometimento, porém, também pode manifestar-se em adultos; cobreiro , dor de dente e fogo selvagem , uma afecção na pele que gera uma sensação de queimação e sintomas de febre; arca e zipela, uma condição física que, segundo os participantes, pode ser cancerígena, manifestada principalmente nas pernas através de uma afecção cutânea (sendo também referida linguisticamente pelos participantes como “ezipra” e “ezipela”), edor de cabeça .

O ofício da cura e proteção engloba rituais e preparos utilizados para promover a cura e proteção dos indivíduos ou elementos afetados. A realização do benzimento enquanto dimensão da caridade e solidariedade foi aparente nas falas dos participantes, pois não podem receber dinheiro ou bens materiais em troca do ritual. Como subcategorias emergentes tiveram-se: o preparo de garrafadas e outros remédios caseiros, que aborda o manuseio de soluções naturais, como os chás, a partir de insumos extraídos do quintal ou adquirido com outros membros da comunidade; as orações utilizadas no benzimento, que revelam os tipos de rezas e as repetições necessárias para a condição benzida, tendo sido mencionadas figuras como Pedro, Paulo, Jesus, Deus e a Virgem Maria no conteúdo das palavras recitadas; o conhecimento sobre plantas medicinais, que se refere ao domínio e cultivo de derivados da natureza com propriedades terapêuticas; o exercício do benzimento, relativo à execução prática e ao seu processo ritualístico (como o uso de rezas e soluções naturais, como as garrafadas; “raminha” para realização de gestos com as mãos em condições específicas; e a avaliação do sintoma); e, por fim, a fé compartilhada, que trata da centralidade da crença para a eficácia do ritual, tanto pelo agente como pelo destinatário, seja no remédio, na reza ou no rito com um todo, como no trecho: “e graças a Deus, com a minha fé, a minha oração, e, graças a Deus, eu vejo o resultado. E a fé da pessoa também, em que ter fé, tem que acreditar” (Benzedeira Babosa).

Integrada a esta dimensão, tem-se, ainda, a concepção da prática do benzimento vinculada à identidade católica, tendo sido enfatizado que não se trata de “macumba”, vista sob a ótica de algo negativo e em associação à ideia de “maldade”. Por outro lado, a caridade, condição fundamental para exercício do benzimento, expressa uma ideia de “bondade”, assim como a distinção com a macumba reforça uma tentativa de distinção entre a “feitiçaria” e uma “prática de cura”. Nesse sentido, tem-se a presença das ideias de bem e mal como presentes no imaginário popular e na forma como atribuem significado à sua prática.

Em linhas gerais, o conteúdo relativo às subcategorias mencionadas, especificamente, as orações utilizadas no benzimento, o conhecimento sobre plantas medicinais e a fé compartilhada destacam que, além da intervenção no corpo por meio do uso de chás e a avaliação dos sintomas físicos ou mentais, há também uma intervenção de ordem espiritual, sendo alcançada pelas rezas. Ademais, o conteúdo envolvido na subcategoria o preparado de garrafadas e outros remédios caseiros e o conhecimento sobre plantas medicinais destaca o papel das mulheres na preservação e valorização desses saberes e práticas tradicionais.

Discussão

A análise desenvolvida neste estudo volta-se à prática do benzimento em uma comunidade rural capixaba, com base nas categorias e subcategorias identificadas e em articulação à literatura sobre o tema e referencial teórico da abordagem sociogenética da TRS. Os resultados encontrados abordam as principais características da prática do benzimento, que incluem seu modo de socialização e transmissão, os principais agentes e destinatários envolvidos em sua busca e execução, as condições e os males benzidos, bem como os procedimentos ritualísticos realizados. Essas características ressaltam que o benzimento carrega elementos e símbolos religiosos e da natureza, numa prática que incide no bem-estar de pessoas ou outros destinatários.

Os resultados apresentados na categoria aprendizagem do benzimento e a vivência de benzedeiras são semelhantes à categoria de análise voltada à iniciação ao exercício do benzimento, identificada na pesquisa de Brunna Oliveira (2024). Foi ressaltado que a iniciação pode ocorrer tanto por um interesse espontâneo, quanto por motivações espirituais. A autora destaca a importância da oralidade na transmissão desse saber, mas ressalta também o papel fundamental da observação e da escuta ativa para aprendizagem da prática (Oliveira, 2024). Dessa forma, a transmissão ocorre pela comunicação e também pelo fazer, ou seja, por meio da vivência prática, o que se coaduna aos resultados presentes no conteúdo da categoria. Além disso, o protagonismo das mulheres na condução do ritual de benzedura evidencia a historicidade do papel do cuidado atribuído como função feminina (Carvalho et al., 2008).

Em relação aos sujeitos destinatários do benzimento, percebe-se que a literatura tende a enfatizar a benzedura de pessoas (Garbo, 2022; Menezes, 2024; Oliveira, 2024). No entanto, os resultados dessa pesquisa também apontam o benzimento de destinatários não humanos, o que se alinha aos resultados de Mariana Ilheo (2017), que expõe o benzimento de galinhas, cachorros e gado, objetivando a manutenção da saúde ou proteção dos animais contra mau agouro, além do benzimento de plantações. Assim como observa Benedito Souza e Maristela Andrade (2012), ao mencionar a prática da reza em lavouras para espantar pragas, esses achados revelam uma relação de reciprocidade e cuidado com a natureza. Além disso, ressaltam uma dimensão espiritual do cuidado que transcende a materialidade física, estendendo-se a todo o ambiente.

Quanto aos males benzidos, uma variedade de condições é referida na literatura (Garbo, 2022; Ilheo, 2017; Menezes, 2024; Oliveira, 2024). Assim, percebe-se que os significados e o manejo desses males variam conforme o contexto cultural. No entanto, há uma base comum dessa prática apesar de suas diferentes variações, dado que a literatura também menciona condições como as encontradas neste estudo, como: dor de dente, mau olhado, cobreiro, arca-caída, erisipela, espinhela caída, quebranto, entre outras (Alves, 2024; Garbo, 2022, Nascimento & Silva, 2019; Oliveira, 2024). Nesse sentido, embora esses males apresentem variações na tipologia das condições e nos significantes linguísticos adotados para referi-los, há certa semelhança, mesmo em suas diferentes construções culturais.

A categoria o ofício da cura e da proteção ressalta a fé como componente fundamental, como também apontam pesquisas empíricas sobre o benzimento em diferentes contextos (Garbo, 2022, Ilheo, 2017; Menezes, 2024; Nascimento & Silva, 2019; Nery, 2001; Oliveira, 2024;). Além disso, a literatura corrobora os dados encontrados acerca da utilização de ramas, plantas, ervas, rezas e preparo de garrafadas pelas benzedeiras. O modo como elas executam e conduzem sua prática pode variar conforme a subjetividade, o contexto cultural e a sua vinculação religiosa (Garbo, 2022; Menezes, 2024; Oliveira, 2024).

Apesar dessas variações, a prática do benzimento compartilha uma base comum ligada à história e à herança cultural brasileira, através da confluência de elementos de distintas matrizes culturais e religiosas - indígenas, africanas e europeias - produto do processo civilizatório. Nesse sentido, Oliveira (2024) destaca que há sincretismo religioso nas diferentes variações do benzimento, como evidencia a incorporação de símbolos e práticas dessas tradições, que, por vezes, ressaltam diferenças ou expressam confluências. Percebe-se que há uma tarefa de distinção, principalmente entre praticantes do viés católico, em relação às práticas vinculadas às religiões afro-brasileiras. Desse modo, práticas que fogem do espectro da categoria hegemônica cristã são frequentemente associadas de forma pejorativa à “macumba”, termo que evoca discriminação social através da intolerância religiosa e do racismo (Menezes, 2024).

Além da espiritualidade e da religião, a natureza também se destaca com um dos pilares que engendram a prática da benzedura, como ressaltado através do cultivo de plantas e ervas medicinais nos quintais, como verificado nesta pesquisa e na literatura consultada (Ilheo, 2017). Isto revela não apenas um saber tradicional, vinculado a uma herança indígena, mas também ressalta um componente afetivo e um modo de vida sustentável, integrado à natureza e que reforça a vivência rural.

De modo geral, o benzimento revela-se como um saber-fazer tradicional, orientado por significados compartilhados na vivência cotidiana de cuidado da saúde-doença e da espiritualidade. A transmissão da prática do benzimento é destacada tanto pela oralidade como pela observação e vivência prática do ritual (Menezes, 2024; Oliveira, 2024). A diversidade de destinatários e males benzidos revelam sua relevância na produção do bem-estar individual e coletivo, intermediado pelas benzedeiras, tendo a fé como componente fundamental. Assim, ressalta-se a diversidade cultural brasileira na construção e nas diferentes expressões da prática do benzimento.

Essas articulações empíricas reforçam as características em torno da prática do benzimento entre os núcleos familiares da comunidade rural envolvida. A partir da TRS, é possível perceber que a transmissão do benzimento entre as gerações familiares e comunitárias, tanto através da oralidade como pelo fazer cotidiano, remetem às características da prática social local e ao papel da comunicação e da ação que orientam o pensamento social (Jodelet, 1989, 1993). Além disso, as variações em torno dessa prática também destacam a tipicidade desse fazer para as famílias envolvidas, que, apesar da semelhança com outros contextos investigados pelas mais diversas pesquisas, também desenham suas particularidades. À luz dos conceitos de ancoragem e da objetivação, é possível compreender o modo como essa prática é construída e transformada no cotidiano das famílias, assumindo funções simbólicas e práticas na promoção do bem-estar.

O benzimento parece ancorar-se em sistemas de pensamentos ligados à religião e à natureza, categorias familiares para o grupo, através do catolicismo e da vivência rural. O saber relacionado ao benzimento instrumentaliza-se através de elementos já conhecidos, como as rezas e as plantas cultivadas em seus quintais. Assim, esse fazer - nomeadamente benzimento - atua sobre o bem ou mal-estar, sobre a saúde ou os males. A nomeação e a integração a partir de elementos católicos tornam a prática familiar ao grupo, mesmo quando incorpora elementos de outras matrizes culturais, por meio do sincretismo religioso, produto da história e diversidade cultural brasileira (Jodelet, 1984, 1989; Moscovici, 2015; Vala, 1993).

A filiação a essa categoria hegemônica - católica - também revela mecanismos identitários associados à prática e ao grupo, como exemplificado pela distinção da prática do benzimento quanto à macumba. Jodelet (2005) destacou a relevância da função identitária na relação intergrupal e na construção e transformação das representações e práticas sociais. A partir da análise sobre essa dimensão, é possível compreender que há uma distintividade positiva da identidade católica em relação à negativação das práticas vinculadas às religiões de matrizes africanas, que por meio de um sincretismo religioso e da integração de elementos culturais diversos, são tão semelhantes que precisam ser diferenciadas (Bonomo, 2010; Menezes, 2024; Oliveira, 2024; Tajfel et al., 1971; Tajfel & Turner, 1979).

Quanto à objetivação (Jodelet, 1984, 1989; Vala, 1993), elementos abstratos como os males e a fé necessária para enfrentá-los, construções simbólicas baseadas na espiritualidade, adquirem concretude a partir de signos linguísticos e metáforas compartilhadas entre as famílias. Expressões como “fogo-selvagem ”, “mau-olhado ”, “cobreiro ” e “arca ” conferem tipologia às condições benzidas, bem como materialidade suficiente para que a benzedeira (imagem de uma mulher que produz cura e proteção, naturalizada pelo grupo como uma figura devota ao catolicismo da caridade) possa intervir. Um esquema interpretativo dos processos de ancoragem e de objetivação da prática do benzimento é apresentado na Figura 2.

Figura 2
Esquema interpretativo dos resultados à luz dos processos de ancoragem e de objetivação

A partir do exposto, pode-se entender o benzimento como uma prática social adotada pelas famílias para a promoção do bem-estar, através de processos psicossociais que incidem sobre a saúde e a doença. Além disso, destaca-se a interação com outros objetos relevantes para o grupo, como a natureza e a religião, que ressaltam a pertença identitária ao catolicismo e a vivência rural. Dessa forma, o benzimento articulado a diferentes domínios da vida cotidiana (como a religião, a natureza e, propriamente, a saúde e a doença), se entrelaçam na construção e manutenção dessa prática social.

Considerações finais

A análise da prática do benzimento entre as famílias de uma comunidade rural capixaba permitiu compreender suas características culturais, bem como sua função e relevância no cotidiano dos moradores para a produção do bem-estar. Essa prática, além de evocar objetos como a saúde e a doença, também ressalta a relevância social da religião e da natureza no contexto local. O benzimento em seu processo sociogenético parece ancorar-se em saberes tradicionais, populares e religiosos que expressam a diversidade cultural e a história brasileira. Esse conhecimento é instrumentalizado por meio de rezas e manejo de insumos naturais pelas benzedeiras, que dão materialidade às condições complexas e abstratas, carregadas de simbologias que entrelaçam a natureza, a vivência na ruralidade e a religiosidade católica no cuidado da saúde e da doença. Os achados deste estudo, portanto, podem contribuir tanto para TRS, dada a transversalidade do tema, quanto para outras áreas da Psicologia Social, como a Psicologia Social Comunitária, da Saúde e da Religião.

A filiação identitária ao catolicismo também foi revelada como um componente importante da prática para esse grupo, aparente na busca por uma distintividade positiva em relação às expressões afrobrasileiras da prática que suscitam processos discriminação social. Nesse sentido, o desenvolvimento de pesquisas com foco na análise do benzimento a partir da identidade social pode vir a ser um campo profícuo de investigação (Tajfel et al., 1971; Tajfel & Turner, 1979). Ademais, como limitação deste estudo, apontamos o perfil etário dos participantes, visto que a ampliação da amostra poderia viabilizar uma análise intergeracional dessa prática, bem como suas transformações, principalmente, entre as gerações mais jovens. Assim, pesquisas futuras poderiam investigar o papel do gênero e o perfil etário, a articulação entre saberes tradicionais e o SUS e a relação dessas práticas com os fenômenos religiosos.

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Financiamento

Esta pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (Fapes) por meio do projeto “Programa de Pós-Graduação em Psicologia e suas necessidades de bolsas”, conforme o Edital FAPES Nº 23/2022 - Programa De Capacitação de Recursos Humanos na Pós-Graduação - PROCAP 2023 MESTRADO

Consentimento de uso de imagem

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Aprovação, ética e consentimento

O projeto de pesquisa foi submetido à plataforma Brasil e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa vinculado à instituição de vinculação dos autores.

Disponibilidade de dados e materiais

Os conjuntos de dados utilizados ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis junto ao autor correspondente mediante solicitação razoável

Correspondência

roney.borgs@gmail.com

Correspondência

mariana.bonomo@ufes.br

Editor científico

Dra. Sabrina Daiana Cúnico

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Out 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Maio 2025
  • Revisado
    02 Out 2025
  • Aceito
    18 Out 2025
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Associação Brasileira de Psicologia Social Programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade Federal de Pernambuco, Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), Av. da Arquitetura S/N - 7º Andar - Cidade Universitária, Recife - PE - CEP: 50740-550 - Belo Horizonte - MG - Brazil
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