Open-access SENTIDOS E SIGNIFICADOS ACERCA DA SAÚDE MENTAL EM ORGANIZAÇÕES SOCIOAMBIENTAIS NO ESTADO DO ACRE, BRASIL

SENTIDOS Y SIGNIFICADOS SOBRE LA SALUD MENTAL EN ORGANIZACIONES SOCIOAMBIENTALES EN EL ESTADO DE ACRE, BRASIL

SENSES AND MEANINGS OF MENTAL HEALTH IN SOCIO-ENVIRONMENTAL ORGANIZATIONS IN ACRE, BRAZIL

Resumo

O artigo aborda sentidos e significados da saúde mental em organizações socioambientais no Vale do Acre, investigando como membros desses movimentos constroem significações sobre o tema. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, baseada em entrevistas semiestruturadas e observação participante, com análise de conteúdo do corpus empírico. Os resultados indicam a existência de diferentes concepções sobre saúde mental, além da identificação de alguns fatores que, segundo entrevistados(as), geram sofrimento e outros que, por sua vez, fortalecem as pessoas em sua participação política. A pesquisa destaca a importância das relações e vínculos como elementos centrais na promoção da saúde mental. Com isso, propõe-se o desenvolvimento de “práxis políticas cuidadosas”, as quais, mantendo seus objetivos, integrem estratégias de cuidado, acolhimento e fortalecimento do coletivo, buscando, assim, construir ambientes mais saudáveis dentro das organizações e movimentos, promovendo saúde ético-política.

Palavras-chave:
Saúde mental; Ambientalismo; Promoção da saúde; Movimentos sociais; Amazônia.

Resumen

El artículo analiza los sentidos y significados de la salud mental en organizaciones socioambientales del Valle del Acre (Acre, Brasil), con el objetivo de comprender los procesos de construcción significativa que llevan a cabo los integrantes de dichos movimientos. Se trata de una investigación cualitativa, basada en entrevistas semiestructuradas y observación participante, con análisis de contenido del corpus empírico. Los resultados indican la existencia de diferentes concepciones sobre salud mental, además de la identificación de algunos factores que, según los(as) entrevistados(as), generan sufrimiento y otros que, a su vez, fortalecen a los sujetos en su participación política. La investigación destaca la importancia de las relaciones para la promoción de la salud mental. Se proponen la producción de “praxis políticas cuidadosas”, las cuales, manteniendo sus objetivos, integren estrategias de cuidado, acogida y fortalecimiento colectivo, con el propósito de construir ambientes más saludables al interior de las organizaciones y movimientos, promoviendo así una salud ético-política.

Palabras clave:
Salud mental; Ambientalismo; Promoción de la salud; Movimientos sociales; Amazonía.

Abstract

The article examines the senses and meanings of mental health within socio-environmental organizations in the Vale do Acre region (Acre, Brazil), investigating how members of these movements construct significance around the subject. This is a qualitative study based on semi-structured interviews and participant observation, with content analysis of the empirical corpus. The results indicate the existence of different conceptions of mental health, as well as the identification of certain factors that, according to interviewees, generate suffering, and others that, in turn, strengthen individuals in their political engagement. The research highlights the importance of relationships and bonds as central elements in promoting mental health. Consequently, we propose the development of “careful political praxis,” which, while maintaining its core objectives, integrates strategies of care, mutual support, and the strengthening of the collective. In doing so, it seeks to foster healthier environments within organizations and movements, promoting ethico-political well-being.

Keywords:
Mental health; Environmentalism; Health promotion; Social movements; Amazon Region.

1. Introdução

O estado do Acre é um território reconhecido pelo seu histórico de lutas socioambientais. A partir da década de 1970, trabalhadores(as) extrativistas acreanos(as) começaram a se organizar em sindicatos rurais e a lutar em defesa da floresta e de seus modos de vida e trabalho tradicionais (Santilli, 2005). O líder sindicalista Chico Mendes criou, junto a outros(as) companheiros(as) de luta, os “empates”: uma forma de resistência pacífica contra o desmatamento da floresta amazônica, na qual os(as) seringueiros(as) e suas famílias se uniam, arriscando suas próprias vidas, no enfrentamento a peões designados, por fazendeiros, para derrubar a mata (Acre, 2010a, 2010b).

Essa luta marcou o movimento socioambientalista em todo o mundo. O socioambientalismo se diferencia do ambientalismo preservacionista ao trazer a perspectiva da construção de políticas públicas ambientais realizada junto às comunidades tradicionais, valorizando os modos de viver na floresta ao invés de apenas preservar o território, retirando toda a atividade humana desses locais (Santilli, 2005).

Entre os legados deixados pela luta e morte de Chico Mendes, destaca-se a criação das Reservas Extrativistas (RESEX), que atualmente representam uma política que visa à preservação da floresta e um modo de produção sustentável. Ainda assim, a luta dos(as) seringueiros(as) continua até os dias atuais por meio de organizações e movimentos sociais que defendem os ideais de Chico e os interesses dos povos tradicionais (Allegretti, 2008).

Sobre atuações em movimentos sociais, Paulo Beer e Pedro Obliziner (2020) argumentam acerca do sofrimento psicossocial relacionado a esse tipo de engajamento. Segundo os autores, a existência de movimentos sociais indica a prevalência de sofrimentos que são vivenciados por um coletivo de pessoas que precisam se unir para reivindicar direitos e mudanças sociais e políticas. Porém, essas pessoas também sofrem eventuais violências e desprezo por fazerem parte de uma luta coletiva em prol de transformar a sociedade. Os autores falam sobre escutar as histórias desses diversos grupos políticos, sem reduzir os indivíduos a suas pautas, mas observando toda a complexidade que a participação coletiva garante.

Para Clara Barbosa (2023), o debate da relação entre saúde mental e a militância política deve buscar alternativas concretas, alinhando a transformação social com as experiências de angústias dos sujeitos, canalizando tais angústias e anseios, não cumpridos pelo capitalismo, em um sentido coletivo. Diante do exposto, o presente artigo objetiva abordar sentidos e significados sobre saúde mental expressos por pessoas que compõem organizações com pautas socioambientais na região do Vale do Rio Acre1.

2. Contextualização teórica

2.1. Sentidos e significados na psicologia histórico-cultural

Para Lev S. Vigotski (2009), os sentidos são fenômenos psíquicos, cognitivos e afetivos, produzidos pela palavra em nossa consciência. “O sentido real de uma palavra é inconstante. Em uma operação, ela aparece com um sentido; em outra, adquire outro” (Vigotski, 2009, p. 465). Enquanto o significado, uma das zonas do sentido, é um ponto com maior constância da palavra, é sua versão “dicionarizada”. Ainda que a linguagem ocupe um papel fundamental, entende-se que os sentidos não são restritos apenas a palavras, mas podem se relacionar a outros fenômenos, como, por exemplo, experiências sensoriais (González Rey, 2007).

Durante o processo de pesquisa, diversos sentidos e significados sobre saúde mental dentro da participação política emergiram. Esses sentidos e significados estão atrelados à cultura e ao contexto sócio-histórico no qual os(as) agentes políticos(as) estão inseridos(as), mas também se transformam enquanto essas pessoas se envolvem em movimentos sociais e entram em contato com novas perspectivas.

2.2. Concepções de saúde mental e saúde ético-política

A compreensão de saúde a ser abordada neste trabalho entra em concordância com a proposta de Christophe Dejours (1986), a qual critica a concepção que define “saúde” como estado de bem-estar físico, mental e social. Dejours defende que é impossível alcançar um completo estado de bem-estar e postula uma nova concepção de saúde, a qual seria a possibilidade de criar um caminho em direção ao bem-estar físico, psíquico e social. Para ele, saúde é quando ter esperança é possível, mesmo em uma sociedade adoecedora.

A partir de uma concepção ético-política, entende-se a participação política como uma dimensão da saúde dos sujeitos. Essa perspectiva, desenvolvida por Bader Sawaia (Sawaia & Busarello, 2022), entra em consonância com a proposta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a qual defende uma intervenção em saúde que fortaleça os sujeitos politicamente para lutar pela transformação social (Coelho, 2024; Souza & Sawaia, 2016). Compreendemos a saúde ético-política como uma concepção de saúde não apenas adaptativa, mas como elemento fortalecedor na luta contra opressões e em prol da transformação de ambientes que produzem adoecimento (Rosa, 2023).

Dessa forma, nosso entendimento de saúde não considera a participação política apenas como um “estressor”. Segundo Beer e Obliziner (2020, p. 5), “a militância é, antes de tudo, uma clara demonstração de esperança de que o instituído possa virar outra coisa”. Entendemos que a visão hegemônica de saúde, pautada em uma esfera individualista de sofrimento, entra em consonância com a lógica neoliberal presente na sociedade e pode ser encontrada nos discursos alinhados a tal lógica.

2.3. Práxis política socioambiental e bem-viver

Chico Mendes, inicialmente, lutou pelos direitos dos(as) seringueiros(as), trabalhadores(as) que viviam na floresta e trabalhavam em uma dinâmica extrativista não predatória, sendo ameaçados(as) pela chegada de fazendeiros, principalmente, do Sudeste do país. A união da pauta sindical/social com a pauta ambiental foi uma ação estratégica desse grupo de trabalhadores(as) e lhes propiciou maior reconhecimento nacional e internacional. Assim, surge o socioambientalismo como uma forma de luta pela floresta que pensa além de apenas práticas ambientalistas - que visam à preservação ou recuperação do meio ambiente -, mas também objetiva a proteção dos diversos povos que vivem na floresta e dependem de sua conservação, promovendo a manutenção da biodiversidade e de modos de vida não predatórios (Acre, 2010a, 2010b; Santilli, 2005).

Leandro Rosa (2025) propõe a concepção de práxis política socioambiental como ação que se orienta para a mudança concreta no modo de se relacionar com a Terra, visando a relações políticas, econômicas e sociais que se envolvam com o ambiente de forma harmoniosa, não exploratória e voltada para a manutenção da biodiversidade e habitabilidade do planeta. Esses princípios entram em concordância com as concepções de Bem Viver de povos originários latino-americanos.

“O Bem Viver não é distribuição de riqueza. Bem Viver é abundância que a Terra proporciona como expressão mesmo da vida” (Krenak, 2020, p. 17). Podemos considerar o Bem Viver, no contexto da pesquisa, como uma forma harmoniosa de relacionamento entre a comunidade - humana e não humana -, a terra e os bens comuns da natureza. Tal forma de relação se manifesta no modo de produção das comunidades que lutaram ao lado de Chico Mendes na Aliança dos Povos da Floresta.

3. Metodologia

A pesquisa da qual provém o presente artigo se caracteriza prioritariamente como qualitativa e exploratória (Gil, 1999). Para a produção do corpus empírico, foram utilizadas entrevistas semiestruturadas, realizadas pelo Núcleo de Ensino, Pesquisa e Extensão Psicossocial Euclides Fernandes Távora (NEPSE), entre os anos de 2021 e 2023, e mantidas no acervo do grupo. Foram entrevistadas 27 pessoas, maiores de 18 anos, que faziam parte de organizações da sociedade civil cuja atuação envolvia pautas socioambientais e se dava na região do Vale do Rio Acre (Anexo A). As entrevistas foram agendadas de acordo com a disponibilidade das pessoas a serem entrevistadas. Após a leitura e aceite do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), as pessoas o assinaram. A partir da autorização dos(as) participantes, as entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas integralmente. Os(as) entrevistados(as) abordados(as) neste artigo são identificados(as) por nomes fictícios. Os procedimentos realizados para a produção do corpus empírico da pesquisa estão amparados nas normativas estabelecidas pela Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Acre, parecer nº 5.044.538.

O roteiro de entrevista utilizado apresentava perguntas sobre as organizações, os(as) participantes e suas atuações em movimentos socioambientais, com questões relacionadas, de maneira geral, a aprendizados, motivações e saúde mental nas organizações e movimentos. Para o presente artigo, foram selecionados trechos das entrevistas que remetem à temática da saúde mental. A observação participante (Minayo, 2010), por meio de registros em caderno de campo, também compôs as atividades de pesquisa. Tais observações advêm de participações em eventos e atividades de extensão junto às organizações entrevistadas pelo NEPSE. Entende-se que a inserção de pesquisadores e pesquisadoras em ações concretas junto às organizações e movimentos produz uma perspectiva analítica mais complexa do que apenas a análise das entrevistas poderia oferecer.

O corpus foi trabalhado a partir da análise de conteúdo (Cardoso, Oliveira, & Ghelli, 2021). O material empírico foi dividido de acordo com a seguinte categorização temática: “motivação”, “aprendizado” e “saúde mental”. O grande tema abordado neste texto é “saúde mental”, ou seja, este é um recorte da pesquisa maior. No trabalho com o corpus empírico, foi realizada a leitura das transcrições das entrevistas e de trechos de cadernos de campo, depois a seleção de diferentes trechos que possuíam a saúde mental como foco, e a categorização desses trechos para análise e desenvolvimento dos tópicos descritos a seguir.

4. Resultados e Discussão

4.1. Concepções sobre saúde-doença

Ao analisar as entrevistas, identificamos que, para algumas(ns) participantes, a saúde mental ainda está relacionada a um modelo biomédico, partilham um significado de saúde muito vinculada à doença (transtornos mentais). A exemplo, uma entrevistada (J.F.) respondeu “eu não tenho depressão” ao ser perguntada sobre sua saúde mental ser afetada pela participação no movimento.

Um participante (D.) de uma organização não governamental (ONG) relaciona as questões de saúde mental na instituição com o trabalho da psicóloga que ali trabalha: “no escritório, nós temos uma psicóloga ...para trabalhar essa questão do bem-estar da mente, da boa convivência entre todos aqui na instituição”. Por outro lado, Passiflora fala sobre a falta de um psicólogo na organização na qual trabalha: “Não tem um psicólogo na instituição, não tem uma consultoria para avaliar como está a saúde mental dos colaboradores, das pessoas que trabalham na instituição”.

Outra entrevistada, K.M., respondeu que sua participação não afeta sua saúde, “é cansativo porque tudo é cansativo, mas não é mais cansativo que outras coisas que a gente tem na vida”. Porém, ao ser questionada sobre o que menos gosta no movimento, ela diz sobre as situações de risco às quais os(as) membros(as) da organização são expostos, o que não é apontado por ela como uma situação que afeta a saúde mental.

Essa incongruência também foi identificada por uma ativista e psicóloga que compõe uma ONG e relata observar muitas situações de estresse no ambiente de trabalho, mas que, em geral, as pessoas não as relacionam com a militância e as próprias mudanças climáticas:

É muita gente falando que está ansioso, é muita gente falando que está exausto. É um nível de preocupação, é o nível que é adoecedor, mas tem sido poucas as pessoas que eu consigo ver fazendo a conexão entre esse sofrimento e a militância. O movimento de estar o tempo todo imerso numa discussão de catástrofe, de fim de mundo, e isso está afetando diretamente essa vivência. (Adilha)

Essa exaustão descrita por Adilha aparece em diversas outras entrevistas e é citada em relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) (World Health Organization, 2022). As dificuldades em lidar com os desafios cotidianos da mobilização política são identificadas como fontes de sofrimento entre os(as) participantes, mas muitos afirmam não haver discussões sobre saúde mental e cuidado com o bem-estar relacionado às atividades da militância e ativismo socioambiental. Infere-se que a saúde mental é hegemonicamente significada em uma perspectiva individual, na qual os sujeitos são “separados” dos fenômenos sociais que perpassam o sofrimento (Martín-Baró, 1998).

Percebemos, a partir das entrevistas realizadas com os militantes e ativistas socioambientais, que os desgastes e estressores psicossociais podem vir de fatores externos e internos às organizações. É importante compreender esses processos para pensar em formas de lidar com eles, bem como desenvolver uma lógica de cuidado nos coletivos.

4.2. Situações de estresse e sofrimento psicossocial

4.2.1. Fatores externos: ameaças, retrocessos, falta de políticas públicas

Algo externo às organizações que enfraquece os(as) participantes são os ataques políticos sofridos. Uma participante de movimento social relatou, em uma das rodas de conversa mediadas pelo NEPSE, como algumas pessoas são hostis com quem participa de organizações políticas: “As pessoas da RESEX não levam a gente a sério ... Às vezes eu fico pensando, será que eu tô mesmo sendo besta?” (registro de diário de campo). O entrevistado Xapuri, líder de uma organização de classe, fala sobre o sofrimento mental que teve quando assumiu essa posição: “eu comecei a trabalhar, sofrer algumas ameaças, entendeu? E eu confesso pra ti que isso me deixou quase doente”.

Outra pessoa, também líder de uma organização, fala sobre ter sofrido ameaças: “Quando você é ameaçado, eu até digo que não precisa nem matar, você não precisa, você já está matando dia a dia. Então teu corpo muda, tua cabeça muda, muita coisa muda. E assim, psicologicamente, tudo muda.” (D.F.). A participante D.T. conta que contraiu síndrome de Meige em seu olho (síndrome neurológica que causa espasmos musculares involuntários), por conta dos estresses vivenciados durante sua época de militância.

Alguns(as) entrevistados(as) vivenciaram o momento histórico dos empates, nas décadas de 1970 e 1980, e relataram sobre a época da luta contra os fazendeiros. Xapuri conta como essa experiência repercute até hoje em sua saúde mental:

Na época dos empates, acabei perdendo o meu território onde eu morava. Para um fazendeiro também. Isso foi muito traumático na minha vida, entendeu? Ainda hoje eu trago um pouco disso dentro de mim ... Eu já cresci um pouco com essa angústia e o movimento foi um caminho que eu entendi, no qual eu podia brigar a cada dia pelos meus direitos. (Xapuri)

Conflitos pela terra são vivenciados, até os dias atuais, por comunidades tradicionais da floresta que sofrem com o avanço e pressão do agronegócio (Malheiro, Porto-Gonçalves, & Michelotti, 2021). Algumas instituições que entrevistamos trabalham na linha de frente de tais conflitos. Desses participantes advêm sentidos repletos de revolta e tristeza vinculados a trabalhar com comunidades tradicionais, como povos indígenas e seringueiros, que sofrem privações de direitos e ameaças constantes. Ikani e Xapuri abordam tais sentimentos:

Agora o que é estressante mesmo, né, algumas situações, por exemplo, de que os próprios povos passam e a gente, como aliado junto nessa luta, acaba deixando a gente estressado e desgastados também, né? Que às vezes um conflito com um povo que está sendo ameaçado por fazendeiros ou outras pessoas. (Ikani)

As políticas públicas, elas têm chegado muito pouco dentro da Reserva. Então, as famílias ainda vivem num abandono muito grande quando a gente fala de políticas públicas, né? Saúde de qualidade, uma educação de qualidade, né? (Xapuri)

Para algumas pessoas entrevistadas, a falta de políticas públicas e retrocessos do Estado em pautas socioambientais repercutem de forma negativa na saúde mental: “Às vezes me gera um pouco de ansiedade pensar: ‘Putz, olha o tanto de coisa que a gente está fazendo e mesmo assim os nossos inimigos estão vencendo’”, relata Nice. Em algumas falas evidenciam-se sentidos desesperançosos com a situação política:

A gente não vê perspectiva. É desanimador, só que como eu falo, assim, é isso, a gente ama tanto a causa que a gente se entrega pra causa. Minha vida é a causa, sabe? Aí a gente faz. Mas se fosse pra ter uma visão racional da coisa assim, você fala ‘oh, meu’. É muito desanimador, muito desanimador. Mas é aquilo, né, a gente acredita na missão e vai. Mas, assim, não tem perspectiva de melhora nenhuma, nem nacional, nem internacional, nem local, nada. Tá muito ruim, sabe? (R.)

Tais ameaças à saúde dos(as) militantes e ativistas entrevistados(as) caracterizam-se como fontes de sofrimento ético-político (Sawaia, 2001), pois estão relacionadas à violação de direitos que essas pessoas vivenciam. São pessoas hostilizadas e ameaçadas por defenderem seus direitos e lutarem contra violências socialmente instituídas. A denominação “fatores externos” se dá por serem ameaças à saúde que vem “de fora” das organizações socioambientais, geralmente de opositores à luta.

4.2.2. Fatores internos: conflitos, sobrecarga, questões geracionais

As relações internas dos grupos também podem provocar ameaças à saúde mental. Valdiza conta que, na organização da qual ela participa, houve atritos: “A gente teve alguns desgastes, algumas saídas muito abruptas, muitas rupturas mesmo... Depois, falaram mal da nossa organização.” Além dela, a entrevistada Ikani conta que algumas pessoas deixam a organização por questões financeiras. Vituîxî diz que “dentro de toda organização tem seus conflitos” e comenta a dificuldade em lidar com opiniões diferentes dentro da organização. Evidencia-se que as relações interpessoais entre os(as) participantes podem ser conflituosas em alguns momentos, gerando prejuízos à saúde e bem-estar.

Alguns(as) entrevistados(as) falam sobre a sobrecarga de trabalho e as pressões internas vivenciadas no cotidiano das organizações: “Era várias pressão [sic] para cima de mim, tudo de uma só vez só”, diz Xapuri. Nice relata a exaustão vivenciada nas visitas a campo: “Me falta apetite, eu fico exausta, não consigo conversar direito com ninguém.

Algumas lideranças relatam desenvolver mais de uma função nas organizações, por falta de recursos humanos e financeiros. Paloma diz: “Eu acho que é uma sobrecarga grande. A gente acaba trabalhando muito com burocracia. Eu trabalho fazendo contrato, acompanhando contrato. E eu acho que é mais a questão da pressão, a dificuldade”. Barbosa (2023) fala sobre o “tarefismo” nas organizações de militância, o qual se relaciona ao excesso de tarefas que se caracterizam como mais “burocráticas” e não trazem uma intervenção direta para a luta.

É notável, em nosso corpus empírico, que diversas pessoas ativas no movimento socioambiental entraram na luta mediadas por suas famílias. Entretanto, a questão geracional é apontada como algo que produz atritos entre pessoas mais velhas e mais jovens no movimento. Em nossa participação em um evento promovido pelas organizações, foi apontada por várias pessoas mais velhas a falta de participação da juventude na luta. O participante G. fala sobre a dificuldade em marcar reuniões com a juventude e transmitir os valores ensinados por pessoas com mais tempo no movimento: “Muito difícil se fazer reunião nos seringais quando tem ramais, estradas e locais onde eu gastava quinze horas pra ir a pé caminhando, que era o único jeito. Hoje, se chega em uma hora, uma hora e meia, e não se consegue fazer reunião.

Uma pessoa mais jovem, Porongas, relata a falta de confiança na juventude no movimento: “Mas também são muitas pressões, sabe? A questão de eu ser jovem, vão tá me cobrando”. Para Valdiza: “O problema é que nem sempre as pessoas mais velhas sabem lidar com a juventude. Às vezes elas querem protagonizar mais. Elas querem dizer para a gente o que a gente tem que fazer”. Percebe-se que esses conflitos geracionais atrapalham a coesão em algumas organizações. Isso é apontado nas entrevistas como um fator estressante e que prejudica o bem-estar dos grupos. No entanto, como será apresentado no próximo tópico, as relações intergeracionais também apresentam potenciais de fortalecimento para o movimento. Assim como em mobilizações ambientalistas em outros locais do mundo (De Moor et al., 2021), evidenciam-se, nesta pesquisa, aspectos de mudança e continuidade entre ativistas e militantes socioambientais mais jovens e mais antigos.

4.3. Potencialidades para promoção de saúde: conquistas, relacionamentos e vínculos no movimento

Para além dos conflitos geracionais, foi possível identificar elementos de inspiração mútua entre as diferentes gerações. Uma entrevistada conta sobre um momento que a fortaleceu em sua militância, quando seu pai, que fazia parte dos empates junto a Chico Mendes, passou a Poronga um instrumento usado pelos(as) seringueiros(as) para iluminar os caminhos durante as trilhas percorridas para cortar seringa: “Eu decidi mesmo, assim, me entregar de corpo e alma ... Eu me sentia ali, como se ele tivesse passando para mim, pra mim [sic] continuar a luta dele.” (Porongas).

A partir de argumentos sobre a falta de participação e engajamento de jovens, uma organização desenvolveu uma campanha denominada “Movimento Jovens do Futuro”. Tal campanha realizou atividades que levaram organizações socioambientais para escolas e à universidade, utilizando como prática, nos eventos, a leitura da carta de Chico Mendes destinada para as gerações futuras, denominada “Carta para os jovens do futuro”. Dessa forma, foi possível aumentar o engajamento de pessoas mais jovens na luta socioambiental, com a presença marcante dos(as) participantes do movimento em eventos e manifestações. Também, em algumas entrevistas, participantes identificam a importância da juventude no movimento social.

As relações interpessoais nas organizações, apesar de poderem causar atritos e sentimentos negativos entre participantes, também foram apontadas como uma das principais potencialidades para a saúde mental desses indivíduos. A OMS (World Health Organization, 2022) reconhece, em relatório, que o engajamento e participação em ações para o enfrentamento à crise climática podem trazer benefícios para a saúde mental dos(as) envolvidos(as), ainda que exista sofrimento na experiência de confrontar a escala do problema ambiental.

Estar em grupo, a partir dos sentidos de entrevistados(as), é uma maneira de encontrar companheiros(as) que compartilham de valores, concepções, sentimentos e sonhos, além de integrar-se a uma comunidade e celebrar conquistas adquiridas por meio da luta social. Um representante de uma organização indígena destaca a importância da coletividade: “A partir do momento que a gente se une, a gente cria uma força, e o sistema não quer que você tenha força” (Vituîxî). Adilha fala que entre os melhores momentos da participação política estão os encontros em grupo: “E tem um negócio que é muito legal, que é quando essa galera consegue de fato se encontrar pessoalmente, o quanto que esse povo vibra”. Algumas pessoas mencionam as trocas de experiências e aprendizados com os(as) companheiros(as) como algo que fortalece a saúde mental: “Me dá um quentinho no coração também de estar em movimento dentro desse espaço, com pessoas que eu gosto, com pessoas que me inspiram, pessoas que são referências pra mim também.” (Valdiza).

Assim como aponta Rosa (2017), é possível identificar, em relatos de participantes de movimentos sociais, fatores terapêuticos “tradicionais” (Yalom & Leszcz, 2006) e psicopolíticos: instilação de esperança, universalidade, altruísmo, conquistas relacionadas à luta, entre outros. Em várias entrevistas, eventos coletivos, atividades e encontros grupais são sentidos como momentos que fortalecem os(as) participantes e ajudam a promover bem-estar:

A gente faz reuniões que é chamado “papo de parente”, onde a gente ri, onde a gente só conta a história que já aconteceu com a gente, conta a nossa diversidade cultural e até mesmo a questão de luta que tá acontecendo na realidade brasileira referente aos povos indígenas ou outro assunto. (Vituîxî)

Quando você encontra a companheirada para você conversar, ver o desafio, mas também ver também muitas conquistas, né? Quando a gente olha para trás um pouquinho, a gente enxerga que muitos e muitos direitos que nós tem [sic] hoje, nossa companheirada antiga não tiveram. Então isso nos anima e faz a gente se fortalecer cada dia, né? Então deixa esse gostinho de a gente valer a pena essa nossa briga incansável, né? (Xapuri)

É superlegal, quer dizer, eu acho legal todos os dias, mas principalmente quando a gente tem reuniões e congressos, que a gente sai da sua tarefa individual e tá ali realmente no coletivo, são os melhores momentos assim, é supergratificante ... Tô vendo outros que têm essa vibe também, aí tu tem fé na humanidade, tu fala assim: ‘bom, nem tudo está perdido, talvez o planeta não se acabe, talvez a humanidade não se lasque tanto porque tem a gente aqui’. É questão de esperança também, né? (R.)

O relato de R destaca o quão potencializadores são os encontros grupais nos coletivos e organizações: a mesma entrevistada, que anteriormente disse não ver possibilidades de melhora na pauta socioambiental, diz se sentir mais esperançosa durante encontros coletivos. Encontramos uma contradição semelhante na entrevista de Nice, que relata se sentir exausta nas viagens de campo, mas também fortalecida - inclusive, que sente falta quando não está em campo. Essa mesma entrevistada fala sobre sua participação em um grande evento socioambiental durante o qual ela pensava: “Tá valendo a pena esse cansaço, essa exaustão, essa vontade de chorar, mas tá valendo a pena”.

Foram mencionados os momentos nos quais os(as) entrevistados(as) conseguem ajudar um(a) companheiro(a) na luta: “Eu tenho esse prazer de estar ajudando as pessoas. As pessoas saem daqui, fica satisfeito [sic] quando vem ali, dá um abraço na gente” (J.N.). Alguns(as) entrevistados(as) destacam como se sentem ao conseguir promover algum tipo de mudança em seu meio social:

Quando eu estou trabalhando na Lei Maria da Penha, numa comunidade que tem muita violência doméstica e que as pessoas param para escutar ... isso é um ponto que me fortalece, não só mentalmente, mas que o meu trabalho está valendo a pena, entendeu? (Apacacuru)

Essa questão do reconhecimento e essa real transformação das pessoas que a gente consegue promover. E quando a gente consegue, eu acho que, sei lá, um projeto para os trabalhadores assim também. Uma das coisas que ajuda muita gente a melhorar a mente. (Sebastião Rosa)

Porque é um espaço muito potente, né? E esse vínculo que se cria, essa relação que se cria. Acreditar na instituição que você está, ver os ganhos que você já teve coletivamente e o quanto você ainda pode, que vocês ainda podem ganhar coletivamente e sonhar. (Nice)

Os relatos evidenciam processos de fortalecimento da saúde mental dos(as) participantes. Bert Klandermans (2015) destaca como a possibilidade de mudanças concretas na realidade - instrumentalidade - é um dos principais motivadores do engajamento em movimentos sociais e como sua ausência compõe o processo de desengajamento de ativistas e militantes. Por sua vez, Rosa (2017) defende que as conquistas relacionadas à luta podem ser um fator terapêutico em movimentos sociais, relacionando-as com melhoras na autoestima e motivação dos participantes.

Ainda que seja destacada a importância das conquistas provenientes da luta, a fala de Nice evidencia a centralidade da construção das relações interpessoais potentes nos coletivos e organizações. Enquanto os conflitos internos podem causar estresses e desmotivar militantes e ativistas, as atividades grupais, as conquistas, os vínculos afetivos e encontros podem também ser promotores de saúde. Paula Coelho (2004) argumenta que a solidariedade de classe e a amorosidade política presentes em lutas sociais são fundamentais no enfrentamento a sofrimentos psicossociais. Em consonância com a autora, defendemos a potencialidade de promoção de saúde nas relações coletivas e no fortalecimento de vínculos entre os militantes e ativistas socioambientais.

4.4. As místicas como instrumento de promoção de saúde mental

Em meio ao processo de pesquisa, uma das organizações estudadas destaca as hortas comunitárias como uma prática que potencializa o bem-estar das mulheres. Para esta organização, formada por trabalhadoras rurais, as atividades em grupo são muito importantes para manter a união entre as companheiras, fortalecer a luta e ajudar a tornar os encontros mais leves, como pode ser destacado na entrevista:

As místicas, as cantorias, mas sempre os encontros. Não é só aquela coisa de falar, falar, falar. Tem as mística [sic] de abertura, tem as brincadeiras, as cirandas. E as música [sic] que a gente canta que são as músicas do movimentos, que a gente canta muito durante os encontros. (Valentina)

A “mística” citada é definida como um conjunto de símbolos e ações ritualísticas vivenciado por grupos, contribui com a produção de sentidos para aquela comunidade e cumpre uma importante função no movimento de articular a ideologia no coletivo (Lara, 2007). Em nossas observações, percebemos a presença das místicas em diversos movimentos, inclusive no próprio símbolo da Poronga e na memória de Chico Mendes, utilizadas como articuladoras do ideal socioambiental. A carta que Chico Mendes escreveu para os jovens do futuro é lida em eventos como uma forma de mística. Sementes de frutos amazônicos são postas em mesas, junto a bandeiras de coletivos e organizações. Esses elementos podem ser promotores de saúde ao trazerem identificação e resgate da história e das lutas dos povos acreanos, junto com o fortalecimento de atividades grupais nas organizações e coletivos.

A gente, em primeiro lugar, carrega nossos canãs, que é a cultura da diversidade, que é os nossos artesanatos, o nosso nanã que é o nosso jenipapo, urucum. E, então, essa é a identidade cultural de luta e de resistência ... A gente vai pra luta e leva esse símbolo, é um símbolo de identidade, é um símbolo de existência e resistência ao mesmo tempo. (Vituîxî)

O símbolo maior é o Chico Mendes. Então a gente traz nas camisas, nas bandeiras, a própria seringueira, ... a seringueira como uma fonte de renda, né? ... A poronga que é algo que ilumina os caminhos dos seringueiros e que também ilumina nosso caminho. (Valdiza)

As místicas podem ser importantes meios de fortalecimento de projetos coletivos de resistência e transformação socioambiental. Coelho (2024) escreve como o compartilhamento, em processos de luta social, de utopias revolucionárias e esperançara crítica se coloca como uma resposta diante de sofrimentos psicossociais.

No MST, a mística é utilizada de forma estratégica para fortalecer o movimento e ajudar a superar os desafios cotidianos da luta, materializando por meio de símbolo (cantos, bandeira, danças, entre outros) o ideal de luta, sendo também um recurso pedagógico e mobilizador (Figueiredo & Silva, 2021). As místicas que encontramos nas organizações e coletivos, para além de símbolos usados para o fortalecimento dos grupos, também são formas de fortalecer a identidade acreana.

Segundo Elson Martins (2010), as pessoas nascidas na Amazônia sofrem uma influência de uma identidade regional diferente da do seu território, gerando um “esquecimento” de sua origem. Para ele, os(as) amazônidas enxergarão melhor sua realidade quando se reconhecerem como um “povo da floresta” (Martins, 2010, p. 18). As místicas dos(as) seringueiros(as), extrativistas, das diferentes etnias indígenas, das igrejas populares, ajudam as pessoas a se conectarem, não somente com o grupo e seus ideais, mas também com o território em que vivem.

4.5. Bem Viver e promoção de saúde

O vínculo com o território, para muitas pessoas, relaciona-se com uma maneira de ver o mundo e a vida na Terra. O Bem Viver se apresenta como uma cosmovisão orientadora para uma forma de organização socioambiental que potencializa a saúde mental dos(as) envolvidos(as), em sua relação de respeito com os bens comuns da natureza. Emergiram, em duas atividades sobre saúde e clima com trabalhadoras rurais, sentidos nos quais o modo de vida adotado pelas comunidades tradicionais proporciona melhora do humor e das relações interpessoais no cotidiano. Em algumas entrevistas, a experiência de conviver com os povos da floresta é evidenciada como algo que fortalece os(as) participantes emocionalmente, principalmente por conta dos afetos positivos que a floresta os(as) remete.

A gente vê a floresta, a gente vê os animais, a gente vê os rios correndo. Isso é o importante. Isso é conhecimento, isso é sabedoria, isso é vivência. Isso é natureza, isso é aprendizado, ensinamento, tudo tem a ver com a nossa vida. (E.)

W., quando perguntado sobre o que ajuda a deixar a sua participação no movimento mais leve e menos estressante, diz que se sente melhor indo até a reserva, em contato com a natureza e os(as) outros(as) seringueiros(as): “Quando chego no início da RESEX, já vou sentindo aquele alívio e aquela paz”. Mãe da mata menciona sobre fazer reuniões de base com as comunidades que atende: “Mentalmente não tem nada melhor do que você sentar lá no chão, comer uma farofa de porquinho da mata, sabe, assim, conversar, escutar as histórias ... a convivência com as pessoas, com o povo tradicional mesmo.

Identificamos, em meio a entrevistas e atividades de campo, relatos de experiências religiosas/espirituais vivenciadas por pessoas que participam de organizações compostas por povos indígenas e indigenistas:

Quando a gente promove encontros formativos e que a gente acaba saindo muito mais enriquecido ... Essa interligação da natureza com o ser humano. Então, isso é muito, muito marcante, muito forte e eles sempre falam desse respeito de que a mãe, a terra como mãe, ela te dá o sustento. (Ikani)

As trocas de experiências proporcionadas pelos encontros com povos originários possibilitam aos participantes novas formas de contato com a natureza e a biodiversidade, em contrapartida ao modo de organização dos grandes centros urbanos que valoriza a produtividade extrema e pode acarretar estresse emocional. Estudos apontam que o contato com espaços de natureza preservada no contexto urbano pode ajudar a melhorar significativamente a saúde mental dos indivíduos (Barreto et al., 2019). Para além disso, Braulina Baniwa, Joziléia Kaingang e Giovana Mandulão (2023) demonstram o íntimo vínculo entre corpos e territórios em processos mútuos de fortalecimento ou adoecimento.

Para pensar em saúde mental, é preciso pensar em território e no vínculo dos(as) sujeitos(as) com este. A territorialização do processo de saúde e doença torna-se necessária para se pensar em promoção de saúde, principalmente saúde mental (Dimenstein et al., 2017). Quando conversamos com pessoas de organizações socioambientais, uma das pautas defendidas é o direito ao território para povos e comunidades tradicionais, a preservação da floresta está relacionada ao vínculo que esses povos têm com sua terra. As falas das entrevistas, as místicas e os símbolos de luta demonstram o vínculo afetivo que essas pessoas possuem com seus territórios, os quais estão intimamente vinculados aos seus corpos (Baniwa, Kaingang, & Mandulão, 2023).

5. Considerações finais

Embora a participação política possa produzir sofrimentos psicossociais para militantes e ativistas, existem potencialidades a serem desenvolvidas para fortalecer a saúde e a luta desses sujeitos. Devemos pensar em estratégias para promover a saúde nesse meio. Não uma saúde entendida como o dito “pleno bem-estar”, e sim a saúde em uma concepção que pense em formas criativas de buscar esse bem-estar, mesmo em contextos adoecedores.

A pesquisa aponta que as conquistas da luta, a identificação com projetos coletivos de resistência e transformação e o vínculo com os territórios são importantes fatores de promoção de saúde. Além disso, destacam-se, ao nível microssocial, as relações entre ativistas/militantes como ponto fundamental nesse processo. Quando as relações são mal geridas e debilitadas por conflitos internos, as pessoas se sentem enfraquecidas. Quando bem geridos, os relacionamentos interpessoais podem fortalecer os(as) sujeitos(as) nos grupos mesmo em momentos de perdas e retrocessos em suas pautas. Importante destacar que a qualidade das relações nos coletivos não depende apenas de características pessoais de seus membros, mas é, predominantemente, circunscrita por contextos organizacionais, políticos e econômicos (Lapassade, 1977).

Coelho (2024) defende a importância do cuidado enquanto cultura política na luta social. Em consonância com a autora, ainda que reconhecidos os determinantes sócio-históricos dos vínculos interpessoais (Martín-Baró, 1998), postulamos a proposta de “práxis políticas cuidadosas”, ou seja, práxis políticas que não percam de vista seus objetivos (Sánchez Vázquez, 2007), mas que possam ser orientadas para o cuidado com o outro e consigo, para o fortalecimento de vínculos, para o acolhimento através do coletivo e, consequentemente, para a promoção da saúde mental e ético-política. Defendemos a necessidade de aprofundamento da proposta de “práxis políticas cuidadosas”, bem como maior número de pesquisas dedicadas à saúde mental de militantes e ativistas socioambientais, os(as) quais são agentes imprescindíveis na luta contra as diversas crises ambientais em curso.

Notas

  • 1
    O Vale do Acre é uma região do Estado do Acre, Brasil, composta por 14 municípios, entre os quais a capital, Rio Branco.
  • Financiamento
    A Universidade Federal do Acre (UFAC) financiou a presente pesquisa por meio de bolsa de iniciação científica à 1ª autora, vinculada ao Edital PROPEG nº 19/2023: Programas Institucionais de Iniciação Científica e Desenvolvimento Tecnológico e Inovação - 2023/2024.
  • Consentimento de uso de imagem
    Não se aplica.
  • Aprovação, ética e consentimento
    A pesquisa, da qual deriva o artigo, foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Acre (UFAC): Parecer n° 6.251.377.

DISPONIBILIDADE DE DADOS E MATERIAIS

Os conjuntos de dados utilizados ou analisados durante o estudo atual estão disponíveis junto ao autor correspondente mediante solicitação razoável.

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  • Editor científico
    Dra. Camilla Fernandes Marques

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    07 Maio 2025
  • Revisado
    13 Jan 2026
  • Aceito
    09 Mar 2026
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