Resumo::
A adoção inter-racial no Brasil é um fenômeno recorrente, mas pouco explorado pela literatura da Psicologia. Esta pesquisa apoia-se na epistemologia construcionista social e teve como objetivo produzir sentidos com casais brancos que adotaram crianças negras sobre a adoção inter-racial no contexto brasileiro. Participaram de entrevistas semiestruturadas oito famílias brancas que adotaram crianças e adolescentes negros(as) há aproximadamente dois anos. As entrevistas foram analisadas discursivamente e os resultados sugerem que as famílias ainda apresentam dificuldades para conversar com suas crianças sobre racialidade. Discursos da igualdade, da naturalização das diferenças raciais e da “vitimização” indicaram uma compreensão do racismo como fenômeno isolado e individualizado. Foram discutidas a necessidade de compromisso com a formação crítica em relações raciais das famílias quanto ao racismo no cotidiano, especialmente ao compor agendas políticas sobre adoção.
Palavras chave:
Adoção; Adoção Inter-Racial; Psicologia; Construcionismo Social; Relações Raciais
Resumen:
La adopción interracial en Brasil es un fenómeno recurrente, pero poco explorado por la literatura de la Psicología. Esta investigación se basa en la epistemología construccionista social y tuvo como objetivo producir significados con parejas blancas que adoptaron niños negros sobre la adopción interracial en el contexto brasileño. Participaron en entrevistas semiestructuradas ocho familias blancas que adoptaron a niños, niñas y adolescentes negros(as) hace aproximadamente dos años. Las entrevistas fueron analizadas discursivamente y los resultados sugieren que las familias aún tienen dificultades para conversar con sus hijos sobre racialidad. Discursos de igualdad, naturalización de las diferencias raciales y “victimización” indicaron una comprensión del racismo como un fenómeno aislado e individualizado. Se discutió la necesidad de que las familias se comprometan con una formación crítica en relaciones raciales frente al racismo cotidiano, especialmente al conformar agendas políticas sobre adopción.
Palabras clave:
Adopción; Adopción Interracial; Psicología; Construccionismo Social; Relaciones Raciales
Abstract:
Interracial adoption in Brazil is a recurring phenomenon, but it has been little explored in the Psychology literature. This research is based on social constructionist epistemology and aimed to produce meanings with White couples who adopted Black children regarding interracial adoption in the Brazilian context. Eight White families who adopted Black children and adolescents approximately two years ago participated in semi-structured interviews. The interviews were discursively analyzed, and the results suggest that families still struggle to talk to their children about race. Discourses of equality, the naturalization of racial differences, and “victimization” indicated an understanding of racism as an isolated and individualized phenomenon. The study discussed the need for families to commit to a critical training in racial relations regarding everyday racism, especially when shaping political agendas on adoption.
Keywords:
Adoption; Interracial Adoption; Psychology; Social Constructionism; Race Relations
1 Introdução
Dois pilares sustentam a supremacia branca à brasileira: o mito da democracia racial e a ideia de mérito. O primeiro difunde que a miscigenação teria gerado harmonia entre os grupos étnicos, ocultando desigualdades e desacreditando discursos antirracistas (Cardoso, 2008). Essa narrativa foi construída pelas elites para encobrir conflitos raciais e enfraquecer a identidade dos grupos subalternizados e a miscigenação foi usada como evidência de igualdade racial, reduzindo desigualdades a fatores sociais e negando o racismo estrutural (Moreira, 2021; Munanga, 2006). O segundo pilar, a meritocracia, sustenta que todos(as) têm acesso igual a oportunidades, reforçando a ideia de que o sucesso é fruto exclusivo do esforço individual. Essa lógica, alinhada ao neoliberalismo, desconsidera desigualdades históricas e sustenta a falsa noção de uma sociedade igualitária (Melo & Schucman, 2024).
Assim, a sociedade brasileira é estruturada por discursos e práticas racializadas que mascaram o papel histórico e atual das pessoas brancas nas relações raciais. A socialização de pessoas brancas tende a reforçar a ilusão de uma identidade desracializada, perpetuando a ideia de que “ter raça” é uma característica do outro, enquanto a branquitude é naturalizada como a identidade racial normativa (Schucman, 2014).
No entanto, crianças começam a diferenciar e hierarquizar questões raciais entre os 3 e 5 anos, e, nesse período, a preferência pela cor branca já é evidente, demonstrando a associação entre características fenotípicas e categorias sociais (Fazzi, 2004, citado por Bento, 2012). Maria Aparecida Bento (2012) aponta que crianças negras percebem mais intensamente as diferenças raciais, pois assimilam discursos e construções sociais sobre raça antes mesmo de se reconhecerem como racializadas. É por meio da convivência com os adultos em diversos espaços de socialização, como família e escola, que a criança começa a assimilar conceitos e construir sua noção de “eu”, bem como sua identidade e diferenciação em relação ao “outro”. Nesse processo, a criança aprende a reconhecer o valor atribuído ao seu corpo e forma seu autoconceito.
Esse cenário ganha novas complexidades em casos de adoção inter-racial, pois, diferentemente das famílias inter-raciais biológicas, crianças negras adotadas por pais brancos geralmente crescem em contextos predominantemente brancos, que se estende para além do núcleo imediato. Pedro Martins, Sheila McNamee e Carla Guanaes-Lorenzi (2015) destacam que “‘família’ é uma realização discursivamente produzida a partir de processos interacionais” (p. 16). Ou seja, família não é uma estrutura fixa, mas seus sentidos e formas são legitimados nas interações e nas negociações de significados no cotidiano. Nesse processo, os membros assimilam e reproduzem discursos sobre pertencimento, identidade e hierarquias raciais.
As narrativas que circulam no espaço familiar refletem as dinâmicas raciais da sociedade, permitindo a reprodução de práticas racistas entre os membros mesmo quando mediadas pelo afeto. Trata-se do fenômeno do racismo de intimidade, que ocorre quando relações afetivas coexistem com práticas racistas, reforçando hierarquias raciais sem que o vínculo emocional necessariamente impeça sua reprodução (Schucman & Gonçalves, 2017). Quando práticas discriminatórias marcam o cotidiano de crianças, produzem-se experiências de dor, silenciamento e desigualdade (Brasil et al., 2023). Crianças negras adotadas por famílias brancas, nesse cenário, enfrentam desafios específicos na construção da identidade racial, expostas à branquitude como norma e à negritude como subalternidade.
Diante desse contexto, o objetivo deste artigo é produzir sentidos com casais brancos que adotaram crianças negras sobre a adoção inter-racial no contexto brasileiro. Especificamente, buscamos analisar as estratégias utilizadas para abordar a racialidade no cotidiano familiar, os desafios encontrados na educação de crianças negras em ambientes predominantemente brancos e as formas como esses pais e mães compreendem e respondem às questões raciais que emergem na vida de suas crianças.
2 Método
Esta pesquisa, fundamentada no construcionismo social, adotou a entrevista como recurso para a produção de sentidos em interação com as famílias participantes. Nessa perspectiva, a entrevista é entendida como uma prática discursiva, na qual os sentidos são construídos de forma contextualizada (Spink & Lima, 1999). A linguagem, portanto, atua como um meio para negociação de significados e posicionamento dos interlocutores.
Utilizamos um guia de entrevistas semiestruturado e desenvolvemos o diálogo com as famílias a partir do pedido para que nos narrassem uma cena vivida e significativa relacionada à adoção inter-racial. O uso de cenas, aplicado em outros estudos qualitativos (Paiva, 2013; Reis, 2021), ajuda a aprofundar a compreensão das experiências vividas, permitindo que os interlocutores elaborem e compartilhem significados de maneira situada e mobilizando as “cenas” e “cenários” da vida cotidiana como unidade de análise e intervenção (Paiva, 2012). Embora algumas famílias tenham tido dificuldades em descrever cenas, essa abordagem trouxe vivências concretas do cotidiano para o diálogo.
O contato com as primeiras famílias se deu por meio de indicações das Organizações da Sociedade Civil (OSC) conhecidas como Grupos de Apoio à Adoção (GAA). A partir disso, usamos a técnica da amostragem por “bola de neve” (Vinuto, 2014), na qual participantes indicam novos contatos. Assim, todas as famílias subsequentes tinham ligação com um GAA de sua região. Os GAAs estão espalhados por todo o Brasil e são espaços nos quais as famílias de pré e pós-adoção reúnem-se e dividem experiências, fazem cursos e são orientadas por profissionais de diversas áreas ligadas à adoção e parentalidade.
Nossa amostra final incluiu 10 pais e/ou mães brancas que adotaram legalmente crianças negras há aproximadamente dois anos, totalizando 8 famílias: 4 casais heterossexuais, 1 casal de mães lésbicas, 2 mães divorciadas e 1 pai divorciado. Exceto na entrevista com o pai, as mães das crianças/adolescentes estavam presentes em todas as conversas. As idades dos pais e das mães variaram entre 36 e 59 anos; quanto à escolaridade, duas pessoas concluíram o Ensino Médio, duas possuem formação técnica, quatro têm graduação completa e duas possuem pós-graduação concluída. As rendas familiares declaradas variaram de 2 a 12 salários mínimos.
A partir deste ponto, nos referimos às mães e pais participantes como “a(s) participante(s)”, considerando a predominância de mulheres entrevistadas. A escolha visa preservar o anonimato, evitando que a baixa participação paterna leve à identificação da família, embora o apagamento de gênero possa limitar a análise de certos posicionamentos. As participantes foram classificadas como brancas por auto e heteroidentificação, considerando a percepção de pares, das pessoas que as indicaram e das pesquisadoras.
Optamos por incluir famílias cuja adoção tenha sido legalizada há pelo menos dois anos, considerando que o processo, segundo o Conselho Nacional de Justiça (2019), leva cerca de um ano para conclusão. Essa definição visou um distanciamento da insegurança gerada por processos em andamento, que podem impactar a construção de vínculos e a percepção dos desafios da convivência, aspectos essenciais para a pesquisa.
Para nossa análise, adotamos a abordagem de produção de sentidos nas práticas discursivas. Seguindo a metodologia proposta por Mary Jane P. Spink e Maria da Gloria G. Gimenes (1994), criamos categorias analíticas alinhadas aos objetivos da pesquisa e organizamos os discursos produzidos durante as entrevistas, analisando seus efeitos nas práticas discursivas e nas vivências relacionadas à adoção de filhos negros. Esses efeitos não refletem apenas perspectivas individuais, mas processos amplos de construção de sentidos socialmente compartilhados. É nessa dimensão social que se fundamenta a análise temática do discurso. Por meio dessa análise, identificamos três discursos centrais: o da igualdade, o da naturalização das diferenças raciais e o da “vitimização”.
3 Resultados
No contato inicial, algumas participantes disseram querer participar, mas duvidavam poder fazê-lo porque seus filhos e/ou filhas eram pardos(as), e não negros(as). Depois, enviaram fotos das crianças e adolescente nas quais os traços fenotípicos negros eram evidentes. Esse movimento de consulta à pesquisadora sobre a racialização das crianças talvez indique insegurança quanto aos marcadores raciais e uma possível distância do debate racial. É possível que esse modo de compreender a raça esteja relacionado à centralidade do discurso da miscigenação na formação dessas famílias, o que pode ter limitado o acesso a outras formas de pensar a negritude.
Ser uma pesquisadora branca entrevistando outras pessoas brancas sobre racialidade permitiu vivenciar o que Cida Bento chamou de Pacto da Branquitude (Bento, 2022). Esse pacto sustenta privilégios raciais ao permitir que pessoas brancas minimizem o racismo, especialmente na ausência de pessoas negras que o contestem. O silêncio sobre o papel branco na manutenção do racismo não é só omissão, mas assume formas que preservam a aparência de neutralidade e justiça social, via discursos de democracia racial, meritocracia, cordialidade, neoliberalismo e pela própria ignorância branca (Ribeiro, 2022).
3.1 Entre a diferença e a igualdade: lidando com situações no cotidiano
A diferença racial entre pais, mães e filhos(as) foi tida por muitos como causadora de situações descritas como cômicas e/ou embaraçosas, acerca do questionamento do parentesco dos membros da família. Tais situações refletem a forte presença do discurso da maternidade biológica, que sustenta a semelhança física entre pais e filhos, e como ele é muito comum socialmente. Como consequência, muitas famílias relataram a necessidade de explicar a adoção a desconhecidos, diante de questionamentos sobre sua relação com as crianças, como exemplificado pela fala da participante a seguir:
Teve uma senhora que falou “nossa que linda, parabéns, ela é muito bonita” e me perguntou “ela é sua filha?”, aí eu falei “sim ela é minha filha”...“mas o pai dela é negão?”, {risada} aí eu falei “não, o pai dela é branco como eu, ela é nossa filha por adoção, ela só não saiu da minha barriga, mas ela é minha filha...”
Além dos desafios acerca da identidade familiar, algumas entrevistas trouxeram vivências de cuidado com o cabelo, revelando dificuldades diante do padrão de beleza hegemônico no cotidiano. Uma participante, ao relatar as dificuldades de cuidar do cabelo da filha, afirmou que “o cabelo afro é muito difícil de lidar” e, por isso, decidiu cortá-lo curto e colocar um megahair ondulado nela. Ela menciona que, após a mudança, a filha recebeu mais reconhecimento por sua beleza e foi chamada para fotos.
O relato da entrevistada evidencia um desafio central na construção da identidade racial, marcado por padrões de beleza eurocêntricos e pela branquitude como norma. Segundo Nilma L. Gomes (2003), o corpo é um suporte da identidade negra e o cabelo crespo um forte ícone identitário. Mais que estética, é um marcador de pertencimento que é historicamente alvo de desvalorização e controle social e, em uma sociedade que privilegia traços brancos, cabelos crespos são vistos como inadequados ou difíceis, reforçando a ideia de que precisam ser modificados para aceitação. A fala da participante expressa tanto a pressão por adaptação quanto a dificuldade de encontrar formas de cuidado que respeitem a singularidade e naturalidade dos fios crespos ou cacheados. A escolha por modificar a aparência da filha reflete a internalização desses padrões e o impacto de uma estética que marginaliza os traços da negritude.
As questões identitárias e relacionadas à aparência são mencionadas por outra participante ao falar sobre a experiência com seu filho adolescente:
[Ele] é extravagante para vestir, porque quer a originalidade africana, ele já fez trança, ele já fez cocão, ele gosta de roupa colorida, ele quer ser ele, ele quer resgatar a cultura dele e as pessoas veem com maus olhos. É bonito ver na TV, quando você vê ao vivo você... eu fico com medo. Então assim, essa questão do racismo é assim… É uns rap hoje, uns funk muito forte… Eles falam da realidade deles.
Neste relato, observamos que, embora a participante apoie a iniciativa do filho, ela expressa receio em relação às reações negativas que ele pode enfrentar. O termo extravagante revela uma normatividade, sugerindo que a adesão do jovem à cultura afro-diaspórica não se encaixa no aceitável. A ideia de que tais expressões são vistas com maus olhos reforça a percepção da diferença como desvio.
Além disso, ao mencionar “uns rap hoje, uns funk muito forte...”, as palavras sugerem um distanciamento e possível associação com ameaça ou excesso. O adjetivo forte pode atuar como um marcador discursivo que reforça a construção desses gêneros musicais e, por extensão, das identidades a eles associadas, como intensos, agressivos ou perigosos. Assim, a fala da participante evidencia uma preocupação legítima com o racismo que o filho pode enfrentar, mas também reflete tensões entre o desejo de proteger e os efeitos de discursos normativos que historicamente enquadram expressões negras como transgressivas.
Refletir sobre a vivência dessas duas participantes abre um espaço para discutir como, ao lidarem com os desafios estéticos de suas crianças, podem reproduzir estigmas ligados a elementos estéticos da identidade negra. Essa prática pode refletir uma tentativa de proteger os filhos das violências sociais que frequentemente recaem sobre características físicas negras, como o cabelo, mas também revela as complexas tensões entre a afirmação de identidade racial e a necessidade de conformidade com as normas sociais. No entanto, o cuidado com a estética pode fortalecer a identidade e promover ressignificação, quando a família, ao aprender novas práticas, passa a questionar normas e valorizar a estética afro-brasileira.
A preocupação com o preconceito racial e suas consequências também emergiu nos relatos. Uma das participantes, por exemplo, trouxe episódios vividos no contexto familiar que evidenciam o impacto da desigualdade racial na vida cotidiana. Em sua fala, ela destaca o medo de que seu filho possa enfrentar situações de violência motivadas pelo racismo, como ocorreu no caso de George Floyd nos Estados Unidos:
Um dia ele falou assim “eu tenho medo de eles virem atrás de mim”... E eu “por que?” [e ele disse] “porque eu sou negro”... E você fica apavorada, na hora você fala “meu filho, não é assim, isso existe, por isso que a gente tem que respeitar o que as pessoas também pensam, que elas respeitam mais você”... Mas ele começou, em algum momento, a questionar “por que sua pele é branca? Eu queria ter a sua cor. Por que que eu não tenho essa?” e na hora eu [disse] “não, cada um tem a cor que deveria, seu cabelo combina com a cor da sua pele, o meu cabelo com {a minha}”. E não é que “a sua cor é linda, eu queria ter a sua cor”, a gente não fala isso aqui em casa não, “eu tenho a minha cor e você tem a sua, eu não queria ter a sua e nem é pra você querer ter a minha. Goste da sua cor”.
Ao ser questionada pelo filho, conta da dificuldade de discutir a temática abertamente com ele e ao mesmo tempo em que sabe que “isso existe” (racismo e violência racial), tenta tranquilizá-lo, dizendo que “não é assim”. A situação dispara também outras perguntas relacionadas à cor de pele por parte da criança e a entrevistada tem importante ação de valorização das diferenças e reafirmação da beleza do filho, mas experimenta dificuldade para tratar do assunto, o que pode sugerir que, embora seja um dos pontos discutidos nos cursos de adoção (Beltrame, 2021; Carvalho et al., 2017), talvez ainda falte desenvolvimento nesse tópico e fortalecimento de ferramentas para as famílias lidarem com essas conversas.
3.2 O discurso da naturalização das diferenças
Outras participantes, porém, recorreram ao discurso da naturalização das diferenças raciais. Mesmo diante de situações relacionadas ao tema, as questões raciais não foram problematizadas.
“Então, quando ele chegou a primeira vez e falou assim ‘por que que eu sou mais moreno do que vocês?’. Eu falei ‘ah, é porque você não é nosso filho natural’ [e ele disse] ‘e isso é algum problema?’ aí eu falei ‘nenhum problema, quando alguém perguntar para você porque você é mais moreno que os seus pais, você vira e fala assim: porque eu tomo muito sol, eu adoro piscina, na minha casa tem uma piscina e eu não saio de dentro da piscina, todo dia eu entro na piscina. Ponto. Você não precisa falar mais nada, você não precisa justificar mais nada’. Então, com isso, nós nunca tivemos problemas… porque nós sempre tratamos com naturalidade a questão de ele ter uma cor um pouco mais escura que a nossa”
Para a entrevistada, é crucial abordar tanto a adoção quanto a interracialidade com “naturalidade”, a fim de evitar maiores dificuldades para a criança. No entanto, ela evita a temática racial, atribuindo a diferença de cor à adoção e instruindo seu filho a evitar questões raciais por acreditar que isso pode sustentar uma problematização desnecessária. Desse modo, não instrui seu filho a nomear-se racialmente como preto ou pardo, justificando a cor de pele com o fato de tomar muito sol.
A participante utiliza o termo “moreno” em vez de categorias como “negro”, “preto” ou “pardo” - um recurso linguístico frequentemente empregado para evitar referências diretas à raça, suavizando ou apagando marcas raciais no discurso. Essa escolha remete a um imaginário social vinculado à ideia de mestiçagem, segundo o qual a mistura racial teria diluído as fronteiras entre negros e brancos, amenizando ou mesmo negando a existência de desigualdades raciais. Nesse contexto, o uso de “moreno” pode funcionar como uma estratégia de aproximação simbólica à branquitude, integrando processos de embranquecimento (Daflon et al., 2017). Assim, desde cedo, crianças negras podem vivenciar a negação de suas identidades raciais, sendo expostas à lógica de hierarquização racial que estrutura a sociedade.
A participante acredita que evitar a temática racial protege a criança do preconceito, mas essa abordagem contradiz o que a literatura sugere. Para alguns autores, reconhecer que raças são construções sociais não implica em ignorá-las, mas evidenciar como produzem desigualdades (Cardoso, 2008; Costa, 2002; Schucman, 2014). Assim, ainda que a participante não reconheça os conflitos raciais, eles seguem sendo uma realidade que pode afetar significativamente a vida de seu filho.
Uma das participantes nomeou algumas situações vividas na família estendida como racismo, principalmente porque seus próprios filhos, já adolescentes, destacaram a gravidade do ocorrido. Ela relata que o cunhado chamava sua filha de um termo usado na época da escravidão, que ela desconhecia. Quando soube o significado do termo, sugeriu à filha que o processasse caso continuasse a ser chamada dessa forma. A partir dessa primeira situação, outra história de racismo envolvendo seu filho foi lembrada:
Eu não presenciei, aí um dia no aniversário na família do meu esposo ele estava jogando e teve uma fala racista e o meu filho chamou para vir embora… Eu não lembro o que foi, mas teve… Então ele sente, a [nome da filha] não, não é que ela não se incomoda... é que ela é mais clara do que ele.
O relato mostra como o racismo dentro da própria família pode ser relativizado até que alguém - no caso, seus filhos - evidencie a gravidade da situação. Ela passa a reconhecer episódios como racistas após a mediação dos filhos, sugerindo que sua compreensão sobre o tema se ampliou a partir das vivências deles. Além disso, ao refletir sobre essas experiências, percebe diferenças na forma como cada filho enfrenta o racismo, associando isso à tonalidade da pele. Sua filha, por ser mais clara, pareceria menos afetada do que seu filho, de pele mais escura.
No Brasil, a racialização se baseia em critérios fenotípicos, reforçando a ideia de que a cor da pele define o grau de pertencimento racial e a intensidade das violências sofridas. O mito da democracia racial não só nega conflitos raciais, mas também sustenta uma hierarquização social baseada na raça/cor (Goés, 2022). Essa hierarquização se manifesta nas interações cotidianas, como no relato da entrevistada, que percebe diferenças nas experiências raciais dos filhos. Ainda que este artigo não discuta se pessoas de pele mais clara vivenciam o racismo com a mesma intensidade que aquelas de pele escura, é fundamental apontar como esses discursos moldam a percepção da discriminação e as experiências raciais.
Outra participante reflete:
Meu menino tá muito na adolescência, e na escola que como hoje se estuda, se fala sobre [racismo] ... Ele fala “mãe, nossa família é totalmente [racista], não é porque a senhora tem filhos negros que a senhora não é racista, a senhora tem fala racista, papai tem fala racista”. Mas assim, você vai tentando desmistificar isso, vai tentando se corrigir, mas é coisa de anos né.
O discurso do racismo como fenômeno estrutural aparece aqui, mostrando quão difícil ainda é reconhecer o quanto certas ações sustentam o racismo no cotidiano. Essa cena demonstra que a transmissão de conhecimento não ocorre apenas de forma vertical (pais/mães ensinando filhos/filhas), mas também no sentido inverso, em que filhos(as) interpelam os pais e mães, questionando e ressignificando discursos. O adolescente mobiliza um aprendizado escolar para contestar práticas familiares, revelando não só a disputa de significados sobre o racismo, mas como diferentes discursos circulam e se transformam em espaços institucionais, impactando nas relações familiares. Ao afirmar que ter filhos negros não isenta alguém de ser racista, ele desloca o racismo de uma noção individual para um fenômeno discursivo e estrutural, destacando sua manifestação nas interações diárias. A resposta dela reconhece que tenta se corrigir ao longo dos anos e demonstra que a transformação dos discursos é contínua, refletindo tanto a força das práticas discursivas que sustentam o racismo quanto a possibilidade de sua ressignificação.
A análise dos relatos revela diferentes estratégias adotadas pelas entrevistadas para lidar com o racismo, influenciadas por seus entendimentos sobre as violências raciais. Uma delas conta que orienta o filho a reagir gradualmente ao racismo, representando essa postura pela metáfora do “trabalho de formiguinha”. Ao mesmo tempo, se prepara emocionalmente para uma reação intensa, comparando-se a uma leoa disposta a proteger seus filhos, o que aponta para um certo reconhecimento de que o processo de enfrentamento do racismo é complexo e exige conscientização e aprendizado contínuo. Ao dialogar com a mídia e com o filho sobre medo e resiliência, ela constrói uma narrativa de luta que, embora fundamentada em uma perspectiva de resistência contra a violência racial, também sinaliza a necessidade de estratégias pragmáticas para lidar com o medo.
Já outra participante adota uma postura mais formalizada, ancorando-se no discurso da igualdade de direitos para afirmar que tomará medidas judiciais em caso de discriminação. Essa abordagem faz uso da legalidade como um mecanismo de proteção, resgatando a ideia de que todas as pessoas, independentemente de sua cor ou etnia, têm direito a serem tratadas com dignidade e respeito, conforme garante a legislação. Nesse caso, a busca por justiça não se limita a uma resposta emocional imediata, mas sim a um processo institucionalizado de reivindicação de direitos, visando à reparação de danos por meio de recursos legais disponíveis.
3.3 Branquitude e os discursos sobre a posição de vítima
As participantes foram questionadas sobre os desafios que o fato delas serem brancas gera na criação de suas crianças e adolescentes. Uma delas aponta que o maior desafio é preparar a filha para enfrentar possíveis situações de racismo da melhor forma. Quando questionada sobre como planeja fazer isso, ela afirma que utilizará da conversa sobre a importância do amor nas famílias e não da cor e diz “eu vejo ela, eu não vejo a cor dela, eu vejo a minha filha, mas, infelizmente, ainda tem algumas pessoas que veem a cor, né, que levam pra esse lado”.
Na fala está presentificado o discurso sobre uma suposta invisibilidade da racialidade dos filhos. Ao enfatizar que “não se vê a cor”, ela revela a tentativa de proteger a criança das tensões raciais, mas também corre o risco de minimizar a importância da identidade racial na formação da experiência do sujeito negro. Ao não nomear a questão racial explicitamente, há o risco de não preparar a criança para os desafios reais impostos pela sociedade em relação à sua cor. A busca pelo “amor” como antídoto para o racismo, embora válida, pode não proporcionar um entendimento crítico do racismo estrutural e das formas de discriminação que a criança enfrentará.
Em outra entrevista, a participante afirma que hoje não vive desafios, mas que no futuro podem surgir principalmente se ela “tiver uma tendência a se vitimizar em razão da cor de pele”. E continua:
“Mas eu penso que até lá também vai estar bem claro na cabeça dela que isso para nós não funciona, para nós não tem nada a ver porque ela é tão igual a nós quanto se ela fosse filha biológica nossa, porque cor de pele pra nós não influencia… Para nós isso não justifica, porque ela tá tendo todas as oportunidades que qualquer outra criança branca com a condição financeira dela teria, entendeu?”
Neste relato, observamos a presença de uma perspectiva que minimiza ou nega a influência da raça nas experiências de vida da criança. Ao afirmar que a cor de pele não interfere nas oportunidades e nas condições da filha, a participante adota um discurso alinhado à ideia da democracia racial, que sustenta que todos têm as mesmas oportunidades, e que o racismo não constitui uma barreira para o progresso. Essa visão desconsidera as desigualdades estruturais e históricas que marcam a experiência dos indivíduos não-brancos no Brasil.
Além disso, ao antecipar que a filha possa se “vitimizar” devido à raça e afirmar que não permitirá tal postura, a entrevistada atribui o enfrentamento das dificuldades a fatores individuais e reproduz um discurso que minimiza o impacto do racismo estrutural. Essa perspectiva sustenta a lógica meritocrática, que explica desigualdades apenas pela classe social, ignorando como a racialização molda experiências e acessos (Melo & Schucman, 2024). Os significados sobre raça e meritocracia não emergem isoladamente no nível individual (micro), mas são constantemente informados e sustentados por discursos institucionais e culturais mais amplos (macro). Assim, sua fala não expressa apenas uma opinião pessoal, mas reproduz lógicas que individualizam desigualdades e apagam dinâmicas raciais sistêmicas.
Outra entrevistada relata que seu filho estuda em uma escola majoritariamente branca e se relaciona bem com os colegas, incluindo supostos namoros com meninas brancas. Para ela, isso significa que o filho sabe “lidar bem com a cor dele”, pois não relata situações de racismo. Essa afirmação sugere a ideia de que a capacidade de “lidar” com a própria identidade racial pode ser gerida individualmente, como se a adaptação a um ambiente predominantemente branco fosse uma prova de superação ou ajuste à sua racialidade.
Várias participantes afirmam não encontrar dificuldades em criar uma criança negra, apesar de serem brancas. No entanto, algumas reconhecem o impacto que o racismo pode ter na vida de suas crianças, inclusive manifestando-se em instituições estatais, como a polícia. Uma participante diz que apenas uma vez a raça foi tema de conversa em sua família: “Alguém na escola falou ‘ah você é diferente do seu pai e da sua mãe?’. Aí ele falou ‘por que? Eu sou?’. Então eu nunca mais toquei no assunto, porque ele mesmo me quebrou na resposta”.
O filho ter questionado a diferença apontada pelo colega e ela ter se sentido desconcertada pode indicar falta de repertório em conduzir discussões sobre o assunto. Talvez ela tenha sido motivada pelo medo de que, ao abordar o tema, pudessem surgir conflitos entre ela e o filho, rompendo com a pretendida naturalidade que, muitas vezes, leva ao silenciamento sobre o tópico.
Uma das participantes compartilhou que nomear situações como racismo é uma escolha deliberada. Ela evita apresentar ao filho essa possibilidade, por acreditar que isso o levaria à vitimização, o que considera inadequado. Ao relatar um episódio que outros poderiam interpretar como racismo, ela afirma que não chamou a atenção do filho, pois ela mesma não percebeu a situação dessa forma. Justifica sua postura com a seguinte reflexão: “Isso poderia criar nele o preconceito que ele não tem, que ele não vê, que ele não sente, então pra que que eu vou chegar e falar isso pra ele?”.
Ao colocar o racismo como algo dependente da percepção individual, ela transfere à criança a responsabilidade de reconhecer e reagir, desonerando o sistema social de responsabilidade pelas violências. Essa lógica reforça ideologias como a meritocracia, invisibiliza o racismo estrutural e ratifica o mito da democracia racial, sugerindo que, se a criança não aprender a reconhecer o racismo, poderá viver sem ser afetada por ele. Nesse sentido, a discriminação racial permanece imperceptível para pessoas brancas, mesmo afetando diretamente a vida psicológica daqueles que as vivenciam cotidianamente (Lordello & Souza, 2024).
Ao sugerir que nomear o racismo poderia “criar” um preconceito inexistente, a entrevistada inverte a relação de causa e consequência, como se o problema não fosse o racismo em si, mas sim nomeá-lo. Esse discurso silencia a experiência racial da criança e reforça a ideia de que ignorar o racismo seria a melhor forma de lidar com ele. Trata-se de uma lógica que nega a relevância da raça na experiência social, deslegitima as narrativas negras e inviabiliza a possibilidade de resistência coletiva.
4 Conclusão
Os discursos presentificados nas entrevistas acerca da adoção inter-racial revelam reflexão limitada sobre questões raciais. Embora as famílias tentem pacificar tensões por meio do discurso da igualdade e da naturalização das diferenças, o cotidiano mostra que as crianças negras estão, de fato, sensíveis e expostas a dinâmicas raciais que as afetam constantemente.
Muitos pais e mães enfrentam dificuldades para problematizar situações em que o racismo velado e as tensões raciais estão presentes. Essa dificuldade não indica ausência de racismo, mas sim a persistência de um olhar branco que naturaliza desigualdades e mesmo preocupados com o bem-estar dos filhos, acabam por sustentar um projeto de silenciamento que apaga as diferenças raciais e limita os espaços que promovem compreensão das complexidades da sua identidade racial. Isso ressalta a necessidade de um compromisso ativo dos pais e mães brancos em construir um ambiente que legitime a experiência racial de suas crianças e adolescentes negras(os), promovendo diálogos que reconheçam o racismo e forneçam suporte para enfrentá-lo.
Ao refletirem sobre possíveis experiências de racismo vividas pelos filhos, algumas famílias adotam estratégias reativas, como buscar apoio jurídico ou orientá-los a se proteger. No entanto, essas abordagens adultocêntricas tendem a desconsiderar a escuta das crianças e, ao se concentrarem em respostas pontuais, não promovem um enfrentamento reflexivo e contínuo, negligenciando a construção de espaços de diálogo sobre os impactos emocionais e estruturais do racismo na vida das crianças negras.
O discurso da naturalidade opera em duas dimensões das práticas discursivas das participantes: por um lado, enfatiza a importância da igualdade e abre espaço para conversas sobre direitos, por outro, pode impedir conversas francas sobre as assimetrias que estruturam as relações raciais no Brasil e como o racismo opera e afeta subjetividades, reforçando a norma branca como referência universal.
As experiências de adoção inter-racial têm efeitos duradouros na construção da identidade racial da criança e adolescente. A internalização das dinâmicas raciais e a forma como se percebem e são percebidos pela sociedade estão diretamente ligadas às práticas familiares e sociais que os cercam. Portanto, garantir que elas cresçam em ambientes que reconheçam e valorizem sua identidade é essencial para o desenvolvimento emocional e social saudável e exige um compromisso contínuo dos pais e mães, das políticas públicas e dos profissionais do sistema de adoção. Sem a devida orientação crítica e o acesso a espaços de reflexão, essas famílias tendem a sustentar e reproduzir dinâmicas racistas no cotidiano.
Esse campo de estudo, embora promissor, ainda carece de abordagem crítica e socialmente responsável. A pesquisa propõe novas direções para compreender como pais e mães brancos abordam a racialidade de crianças e adolescentes negros e respondem às questões raciais no cotidiano familiar e o papel das instituições e sistemas que atuam com a adoção. Por parte dos profissionais envolvidos nos processos, é fundamental um compromisso com a conscientização sobre questões raciais para os pais e mães brancas, ajudando-os a contribuir ativamente para a construção de identidades fortalecidas. A adoção inter-racial, essencial para garantir o direito à convivência familiar e comunitária de crianças e adolescentes negros institucionalizados, exige uma reflexão contínua sobre a branquitude e práticas antirracistas. Só assim será possível repensar o papel do SNA na luta contra o racismo e promover uma convivência mais justa e inclusiva para crianças e adolescentes negros.
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