Editorial

Kátia Maheirie Andréa V. Zanella Maria Juracy F. Toneli

Editorial

Ao finalizar o ano de 2011, finalizamos também nosso trabalho na editoria deste periódico. É com muita satisfação, com orgulho e responsabilidade que nos despedimos aqui, com a certeza de termos empenhado forças e afetos na estrada da divulgação da produção científica nacional e internacional da Psicologia Social.

Tarefa difícil e intensa, misturando prazer e alegria, o trabalho de editoria científica no Brasil ainda não alcançou seu devido reconhecimento. O cenário da avaliação das revistas, nos últimos anos, se faz marcado por um esforço sobrehumano dos editores brasileiros em aumentar a visibilidade e a classificação de seus periódicos. Temos nos projetado internacionalmente, fato concreto que se objetiva na submissão, cada vez mais frequente, de artigos vinculados a universidades estrangeiras.

Desde o Qualis/Capes 2008, os editores têm se empenhado no fortalecimento de seus periódicos e, apesar disso, para a classificação A1, na área da Psicologia, o ISI é colocado como indexador imprescindível. Nós nos perguntamos qual a real função deste requisito? O que esse indexador de fato mede/revela/difunde que nenhum outro o faça? O que implica essa indexação? Quem, dentre nós, já teve a oportunidade de propor a indexação de seu periódico e qual foi o "castigo" quando não a obteve? Qual é a real necessidade da indexação no ISI para que um periódico científico da área da Psicologia seja reconhecido na classificação A1 do Qualis/Capes?

A internacionalização de nossos periódicos pode ser avaliada por outros indicadores. Quando uma revista recebe submissões internacionais em número suficiente para que destine uma média de 20% de sua publicação para produção estrangeira, significa que ela já é acessada no exterior. Tal fato, por si só, já não mereceria um investimento em edições bilíngües? Quanto mais somos lidos no exterior, mais citações nós podemos receber. Mas, para podermos ser mais acessados, temos que ser inteligíveis ao mundo, para além de nosso território e nossa língua.

A questão que se coloca gira em torno da projeção e do investimento que as agências de fomento podem e, a nosso ver, devem proporcionar aos periódicos científicos brasileiros para que se internacionalizem e, ao mesmo tempo, ganhem novos patamares classificatórios através da flexibilização dos caminhos para o estrato A1.

Enquanto isso, os periódicos brasileiros na Psicologia classificados como A1 e A2 encontram-se super lotados de submissões, com inúmeros artigos aceitos esperando em fila para publicação. Muitos têm publicação depois de um ou dois anos em espera. Os periódicos destes estratos estão com uma demanda que gera uma sobrecarga de trabalho editorial quase inumana. Por que não ampliar o número de periódicos que podem povoar os estratos mais bem conceituados? O que se busca com esse "aperto"?

Ao finalizar nosso trabalho na editoria deste periódico, saímos com a sensação de que muito há ainda para ser feito e que uma "flexibilização" nos critérios Qualis/Capes para que um periódico ocupe o estrato A1em muito ajudaria a comunidade científica a dar vazão a sua produção, aliás, produção esta insistentemente cobrada pela mesma agência de fomento. Não vemos outra solução que não seja a flexibilização dos critérios de classificação dos periódicos. Sabemos que ela é ponto central na avaliação dos Programas de Pós-Graduação no Brasil e suas diretrizes se traduzem em um efeito dominó: quanto mais afunila, mais nos desqualificamos como produção científica neste país.

Se não mudarmos o cenário da divulgação da produção, objeto central dos periódicos científicos, nós cairemos em um paradoxo difícil de superar. Fecharemos portas ao invés de abri-las para novos horizontes, nos debateremos entre quatro paredes repletas de artigos de excelente qualidade, na expectativa de divulgação antes que fiquem obsoletos.

Questões que merecem uma cuidadosa reflexão, carecem de soluções urgentes para que a produção científica brasileira se projete no cenário mundial. Torcemos para concretas mudanças neste cenário e para que as comissões responsáveis por tais questões se sensibilizem, encontrando saídas democráticas e que levem nossos periódicos para além dos muros que os cercam nesse momento.

Iniciamos este último número de 2011 com o artigo de Gustavo Zambenedetti e Rosane A. Neves da Silva intitulado "Cartografia e Genealogia: aproximações possíveis para a pesquisa em Psicologia Social", em que os autores discutem os encontros entre estas duas abordagens, fornecendo subsídios para novas possibilidades de produção de conhecimento na área. No artigo "Para uma arqueologia da Psicologia Social", Kleber Prado Fº traça uma história arqueológica da Psicologia Social no Brasil, os enfrentamentos e rupturas nas diferentes abordagens e a emergência e multiplicidade de seus diferentes objetos. Continuando no campo dos artigos teóricos, Maurício R. de Souza, em "O Conceito de Esclarecimento em Horkheimer, Adorno e Freud: apontamentos para um debate", a partir de obras representativas destes autores, aposta na complementaridade conceitual e no uso mais adequado dos mesmos.

"O Humano no Homem: os pressupostos teórico-metodológicos da teoria histórico-cultural", mais um artigo de natureza teórica, de autoria de Vanessa D. Moretti, Flávia da S. F. Asbahr e Algacir J. Rigon, apresenta os aportes do enfoque histórico-cultural e da teoria da atividade para a compreensão da constituição do humano, buscando suas contribuições para a educação. Tatiana G. da Rocha e Francisco P. H. A. Pinheiro, no artigo "Políticas Cognitivas da Psicologia Comunitária: a meio caminho entre a recognição e a invenção", discutem como as práticas em psicologia comunitária constituem um campo de produção da subjetividade, atentando para as políticas cognitivas e recognitivas e para as políticas de reinvenção.

O artigo "Amor e Violência na Intimidade: da essência à construção social", de autoria de Ana Rita C. Dias e Carla Machado, analisa as abordagens teóricas sobre o amor nas Ciências Sociais, sugerindo uma perspectiva construcionista para compreender como o amor e a violência se relacionam. Vania Bustamante e Cecília McCallum, no artigo "Cuidado Infantil na Relação entre Adultos e Crianças na Periferia de Salvador", a partir de um estudo etnográfico sobre o tema, encontram a centralidade do trabalho cotidiano com o corpo para se atingir um determinado projeto de pessoa. "Violência no Namoro para Jovens Moradores de Recife", de autoria de Fernanda S. Nascimento e Rosineide de L. M. Cordeiro, nos traz a discussão e análise deste tema em grupos populares e de camadas médias, apontando a violência para além da física e como sendo da ordem da relação.

O artigo intitulado "Um Olhar sobre a Família de Jovens que Cumprem Medidas Socioeducativas", escrito por Ana Cristina G. Dias, Dorian M. Arpini e Bibiana R. Simon, busca compreender, a partir de uma análise fenomenológica, como se estabelecem as relações do adolescente infrator com sua família antes, durante e depois do cumprimento da medida. Ana Amélia C. Faria e Vanessa de A. Barros, no artigo "Tráfico de Drogas: uma opção entre escolhas escassas", procuram compreender os aspectos psicossociais que permeiam a adesão ao tráfico de drogas em seu contexto histórico, econômico e social, entendendo-a como possibilitadora de inclusão marginal na ordem capitalista. "Residências Terapêuticas e Comunidade: a construção de novas práticas antimanicomiais", de autoria de Maria Inês B. Moreira e Carlos R. de Castro-Silva, articula saúde mental e psicologia comunitária, na perspectiva da construção de práticas voltadas para promoção da autonomia e cidadania, com base na idéias de Espinosa acerca da potência de agir ou de padecer.

Ana M. Nicolaci-da-Costa, no artigo "O Talento Jovem, a Internet e o Mercado de Trabalho da 'Economia Criativa'", esboça uma integração teórica entre as áreas da economia de mercado, da criatividade e das tecnologias digitais para compreender a explosão de sucessos jovens na contemporaneidade. "Dilemas Pessoais no Trabalho Imaterial Bancário", de autoria de Carmem L. I. Grisci, Pricila D. Sealco e Gabriela E. Kruter, analisa a vivência destes dilemas, a partir de uma pesquisa exploratória de orientação qualitativa com 38 sujeitos.

O artigo intitulado "Transporte Público Coletivo: discutindo acessibilidade, mobilidade e qualidade de vida", de autoria de Marley R. M. de Araújo, Jonathan M. de Oliveira, Maísa S. de Jesus, Nelma R. de Sá, Párbata A. C. dos Santos e Thiago C. Lima, aborda o sistema de transporte coletivo das cidades, problematizando sua influência na configuração do desenho urbano e o impacto na acessibilidade e mobilidade dos atores sociais.

"Cultura Pop Japonesa e Identidade Social: os cosplayers de Vitória (ES)", artigo de autoria de Leconte de L. Coelho Jr. e Gabriela M. R. Gonçalves, enfoca a identidade social de cosplayers no meio social capixaba, a partir da cultura popular japonesa, aliada as categorias de "performance" e "diversão", consideradas parte da cultura de massas. Os autores Henrique F. Carneiro, Jose Clerton de O. Martins e Henrique P. Rocha, no artigo intitulado "Percepções do Sofrimento Psíquico na Obra de Patativa do Assaré", nos apresentam por meio de sua pesquisa as características comuns que podem ser consideradas como identitárias da cultura cearense e que se encontram expressas em manifestações da poesia popular.

O artigo "Organização e Funcionamento duma Casa de Abrigo de Solidariedade Social", de autoria de Maria José Magalhães, Carminda Morais e Yolanda R. Castro, traz a pesquisa realizada em uma Casa de Abrigo de caráter normativo, na qual se entrevistou profissionais que nela trabalham. José S. Sapién Lopes e Diana I. C. Basulto, no artigo "Sexo y Embarazo: ideas de profesionales de la salud", buscaram conhecer as ideias de profissionais de saúde sobre sexo e gravidez, encontrando algumas respostas pautadas na prática profissional e outras pautadas no senso comum e no preconceito de gênero. O artigo "Corporeidade e Representações Sociais: agir e pensar a docência", de autoria de Ariane F. Lopes da Silva, reflete sobre as manifestações corporais do professor e as representações construídas sobre sua profissão, a partir de uma investigação com estudantes de graduação e pós-graduação na área da Educação.

"Memórias do Lugar: o turismo na Ilha do Campeche", artigo de autoria de José Pedro Da Ros e Walter F. de O. Cruz, recupera memórias expressivas da localidade, concluindo que estas constituem subsídios para caracterização do imaginário social que constitui o lugar como singular, evitando cair na tendência de transformá-lo em um não-lugar.

Por fim, temos a resenha elaborada pelas autoras Christina P. da S. Bastos e Marisa L. da Rocha, acerca do livro "Políticas Públicas e Assistência Social: diálogos com as práticas psicológicas", organizado por R. L. Cruz e N. Guareschi, publicado pela Editora Vozes, em 2009.

Despedimo-nos com a certeza de que a revista Psicologia & Sociedade estará em ótimas mãos, desejando um excelente trabalho a Cláudia Mayorga, Marco Aurélio M. Prado e Emerson Rasera. Que sua gestão seja repleta de sucessos e projeção, na direção de tornar este periódico cada vez melhor.

Agradecemos à ABRAPSO, ao CNPq/Capes e à UFSC pelo apoio financeiro nestes quatro anos; à SciELO e à UFRGS pelo apoio técnico, incluindo Ângeli Marasá, de forma especial. Agradecemos, especialmente, à Comissão Editorial e à toda equipe que conosco trabalhou nesses anos. Nossos sinceros agradecimentos se estendem aos nossos avaliadores, trabalhadores intelectuais incansáveis, sem os quais o processo editorial seria impossível. Aos nossos autores por nos escolher como veículo de divulgação de sua produção e aos nossos leitores que contribuem para tornar o que hoje a revista é.

Desejamos a todos um 2012 repleto de alegrias, e que este número que encerra 2011 proporcione uma ótima leitura a todos! Grande abraço!

Kátia Maheirie, Andréa V. Zanella e Maria Juracy F. Toneli

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jun 2012
  • Data do Fascículo
    Dez 2011
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