Open-access 5 Cs do Funcionamento Familiar e sua Relação com os Estilos Parentais

Resumo

Pretende-se estudar a qualidade da Escala do Funcionamento Familiar (versão portuguesa) e compreender/caracterizar a relação entre o Funcionamento Familiar e os Estilos Parentais. A amostra inclui 1757 pais portugueses, sendo 77,3% do sexo feminino (N=1359), com idades entre os 20 e os 80 anos (M=41,61; DP=5,71). Os resultados confirmam uma relação entre as dimensões do funcionamento familiar e dos estilos parentais, especialmente com o suporte emocional. Os pais entre 36 e 45 anos apresentam um funcionamento familiar mais positivo e um estilo parental associado a níveis mais elevados de suporte emocional, níveis mais baixos de rejeição e níveis moderados de controlo/supervisão. Conclui-se que é um instrumento válido, sensível e robusto, e os resultados são um contributo para a investigação e intervenção psicossocial.

Palavras-chave:
funcionamento familiar; estilos parentais; desenvolvimento saudável; suporte emocional; coesão familiar.

Abstract

It is intended to study the quality of the Family Functioning Scale (Portuguese version) and to understand/characterize the relationship between Family Functioning and Parenting Styles. The samples include 1757 Portuguese parents, 77.3% being female (N=1359), aged between 20 and 80 years old (M=41.61; SD=5.71). The results confirm a relationship between the dimensions of family functioning and parenting styles, especially with the emotional support dimension. Parents between 36 and 45 years old have a more positive family functioning and a parenting style associated with higher levels of emotional support, lower levels of rejection, and moderate levels of control/supervision. It is concluded that it is a valid, sensitive, and robust instrument, and the results are a contribution to psychosocial research and intervention.

Keywords:
family functioning; parenting styles; healthy development; emotional support; family cohesion

O funcionamento familiar é um fenômeno complexo que descreve as características estruturais e organizacionais de um sistema familiar e os padrões de interação entre os membros da família. Reflete a forma como as famílias gerem as suas rotinas diárias, cumprem os seus papéis dentro da família, comunicam e se relacionam emocionalmente (Haines et al., 2016).

O funcionamento familiar inclui dois eixos: competência familiar e estilo parental. A competência familiar refere-se à capacidade de adaptação às mudanças ao longo do tempo. O estilo parental está relacionado com a qualidade da interação familiar e da parentalidade (Caporino, 2020; Coulacoglou & Saklofske, 2017).

As famílias podem ser caracterizadas de uma forma multidimensional, incluindo a dimensão da coesão (ou seja, a ligação emocional entre os membros da família ou a medida em que se apoiam e encorajam uns aos outros) e a dimensão da adaptabilidade (ou seja, a capacidade da família para mudar a estrutura, o papel e as regras do relacionamento em resposta ao estresse (Caporino, 2020; Garcia et al., 2019).

Estilos parentais significam atitudes e comportamentos que os pais geralmente utilizam em diferentes contextos para gerenciar o comportamento dos filhos, exercendo afeto, receptividade, controle e punição (Bibi et al., 2021). A dinâmica familiar pode ser caracterizada por três dimensões cruciais: coesão, flexibilidade e comunicação. Coesão refere-se à conexão emocional que os membros da família têm entre si. A flexibilidade implica capacidade de adaptação e mudança na família, associada à gestão, controle, disciplina, estilos de negociação e regras. A comunicação representa um aspecto fundamental da coesão e da flexibilidade. Consiste na capacidade de ouvir os outros membros com respeito e compartilhar com eles seus sentimentos e experiências (Szcześniak & Tułecka, 2020).

O papel da família é fundamental para o bem-estar de todos aqueles que dela fazem parte. O seu bom funcionamento está relacionado com dimensões como menos cenários de violência doméstica (Kivelä et al., 2018), maior satisfação com a escola por parte dos adolescentes (Muscarà et al., 2018) e menos conflitos relacionais entre pais e adolescentes ( Longfeng et al., 2018). A família é organizada com base nas características de cada membro que influenciam a sua dinâmica (Bronfenbrenner, 2005), por exemplo, os estilos parentais podem ser um espelho da influência entre cada membro, pois um funcionamento familiar mais positivo e estilos parentais adequados podem estar associados a maior bem-estar familiar e desenvolvimento saudável da família e de seus membros.

As diferenças no funcionamento dos pais e da família revelam um impacto poderoso no crescimento e na saúde mental das crianças, uma vez que nenhum dos membros da família pode ser compreendido isoladamente do sistema familiar. No estudo realizado por Saw (2016), concluiu-se que o estilo parental democrático teve um impacto mais positivo na saúde mental das crianças do que os estilos parentais permissivos e autoritários, tanto para os pais como para as mães. Os resultados revelaram que o funcionamento familiar medeia a relação entre os estilos parentais maternos e a saúde mental dos filhos, mas não medeia a relação entre os estilos parentais paternos e a saúde mental dos filhos. Estes resultados sugerem a interligação entre diferentes processos familiares, nomeadamente, estilos parentais e funcionamento familiar na saúde mental das crianças.

Em termos de padrões de funcionamento familiar, verifica-se que padrões de funcionamento familiar menos positivos, um estilo parental baseado na rejeição, muita proteção parental e uma presença significativa de sistemas familiares incompletos são mais frequentes em crianças com comportamentos de risco. Um estudo realizado por Matejevic et al., (2014) mostra que existe uma correlação entre o funcionamento familiar, o estilo parental e a presença de comportamentos de risco, o que demonstra a necessidade de apoio familiar para o desempenho adequado do papel parental. Ao organizar certas intervenções no sistema familiar, é importante ter em mente que as intervenções focadas separadamente e dirigidas à parentalidade têm efeitos a curto prazo e que as influências que visam o funcionamento de todo o sistema familiar são muito mais apropriadas.

A Escala de Funcionamento Familiar (Trivette et al., 1990) mede o funcionamento de uma família com base em cinco dimensões: comprometimento, coesão, comunicação, habilidades e enfrentamento. Esta escala estuda os aspectos positivos do funcionamento familiar, avaliando as capacidades e competências que os seus membros acreditam possuir. Estudar como os diferentes membros da família aplicam os seus recursos para satisfazer as necessidades familiares e dar respostas adequadas a crises ou situações estressantes, contribui para o funcionamento e a unidade da família.

A adolescência é um período crítico de desenvolvimento que exige que pais e filhos renegociem seus relacionamentos. A variação nos estilos parentais está relacionada às diferenças nas características do relacionamento entre pais e adolescentes. Os estilos parentais (por exemplo, democráticos, autoritários) estão intimamente relacionados com a qualidade das relações entre pais e filhos (por exemplo, coesão, conflito). O conflito entre pais e adolescentes é maior entre pais e filhos na presença de estilos parentais negligentes e autoritários do que em pais democráticos e permissivos. Os níveis mais elevados de coesão com ambos os pais foram relatados por crianças com pais democráticos, seguidos por estilos parentais permissivos, autoritários e negligentes. A coesão com as mães para os jovens com mães autoritárias ou permissivas foi maior para as filhas do que para os filhos (Gaspar & Matos, 2017; Gaspar et al., 2009; Hair et al., 2008).

A maioria dos estudos conclui consistentemente que o estilo parental democrático está associado a níveis mais elevados de coesão entre pais e filhos (Nelson et al., 2011) e níveis mais baixos de frequência e intensidade de conflitos (McKinney & Renk, 2011). Em contrapartida, um estilo parental autoritário está associado a uma menor coesão (McKinney & Renk, 2011) e a uma maior frequência e intensidade de conflitos (Bi et al., 2018; McKinney & Renk, 2011; Sorkhabi & Middaugh, 2014).

Um bom funcionamento familiar oferece mais disponibilidade e capacidade aos cuidadores, permitindo-lhes também proporcionar maior apoio emocional aos seus filhos (Beavers & Hampson, 2000), o que, por sua vez, permitirá que os seus filhos cresçam saudáveis (Mccarty et al., 2005). ) e o desenvolvimento saudável levará a uma melhor dinâmica familiar (Belsky, 1984).

Parecem existir diversas variáveis que afetam o modo como a instituição familiar se desenvolve. O modelo sociocontextual de parentalidade de Belsky (1984) apoiou esta abordagem, afirmando que a personalidade, a história, a relação conjugal, a comunidade, a profissão e a saúde psicológica dos pais podem interferir na forma como interagem com os filhos, afetando, consequentemente, as suas relações familiares.

A idade, o género e a cultura dos pais podem influenciar o sistema de crenças desenvolvido pelos diferentes membros da família e, por sua vez, afectar as atitudes e decisões dos pais. Vários autores correlacionaram uma ligação entre o ambiente e a parentalidade (Murry et al., 2004; Sidebotham et al., 2001). Bronfenbrenner (2005) também mencionou esse fenômeno, segundo ele um indivíduo pode modificar seu comportamento em relação a diferentes pessoas ou subsistemas.

Foi estabelecida uma relação entre o funcionamento familiar e o género dos pais, descobrindo diferenças de género no que diz respeito ao tipo de características parentais utilizadas pelos pais. As mães tendem a oferecer apoio emocional aos filhos, independentemente do género, enquanto os pais demonstram mais envolvimento com os filhos do sexo masculino, o que se centra essencialmente num tipo de apoio mais prático (Parke, 2004).

No estudo realizado por Lisi e Lisi (2008), as crianças viam as relações familiares como mais positivas quando as mães eram retratadas como permissivas e os pais como autoritários. No estudo realizado por Garcia e Guzman (2017), a maioria das crianças foi criada por pais tradicionais e sentia-se mais próxima das mães do que dos pais. As mães, em média, passam mais tempo com os filhos do que os pais. As mães passam mais tempo cuidando dos filhos, têm maior probabilidade de não trabalhar em tempo integral, são vistas como mais superprotetoras e atenciosas, passam mais tempo com os filhos e até conversam com mais frequência com os filhos e, por isso, sentem-nos tão mais perto. Outra diferença de género entre pais e mães está relacionada com o facto de os pais serem mais propensos a superproteger as filhas do que os filhos.

A idade parental é um fator que influencia os estilos parentais, no entanto, o impacto da idade parental nos estilos parentais e no funcionamento familiar não está bem documentado e existe alguma inconsistência na definição da idade/faixa etária específica que caracteriza uma criança. mãe/pai jovem ou mais velho. Existem evidências de que as mães mais jovens tendem a ter níveis mais elevados de rejeição e de tentativas de controlo (Canavarro & Pereira, 2007) e os níveis de competência e o grau de adequação ambiental tendem a ser mais baixos quando comparados com as mães mais velhas. Da informação disponível, verifica-se que as melhores práticas parentais nas famílias com mães mais velhas foram atribuídas à chamada hipótese da maturidade materna, ou seja, ao facto de as mães mais velhas terem acumulado experiências de vida, sabedoria, recursos financeiros e sociais mais diversos. , um repertório de conhecimentos, habilidades e experiências de enfrentamento que promovem um ambiente familiar mais responsivo (Bornstein et al., 2006).

Em estudos que comparam mães mais jovens e mais velhas (em famílias com dois pais), há falta de atenção aos comentários dos outros pais, apesar de volumosas pesquisas mostrarem a importância das contribuições dos pais para a qualidade de vida da família (Rohner & Veneziano, 2001). . É provável que as mães mais velhas tenham parceria com pais mais velhos e os pais mais velhos demonstraram maior envolvimento na parentalidade e demonstram um afeto parental mais positivo do que os pais mais jovens. Descobriu-se também que as mães mais velhas partilham mais tarefas parentais e confiam significativamente mais nos seus parceiros durante a primeira infância do que as mães mais jovens (Bornstein et al., 2006). Estes resultados sugerem que alguns benefícios encontrados em famílias com mães mais velhas podem ser atribuídos às características do parceiro e relacionais, e não aos benefícios decorrentes da idade mais avançada (McMahon et al., 2007).

Numerosos fatores têm sido propostos para explicar o atraso na parentalidade, com a crença comum de que esse atraso não é aleatório, mas está associado a fatores pessoais (Bewley et al., 2005) que podem influenciar o ambiente familiar posterior e o bem-estar dos pais. As comparações entre estudos indicam que as mães mais velhas são mais autónomas e menos orientadas para a parentalidade do que as mães mais jovens. Especificamente, as mães mais velhas têm maior probabilidade de ter concluído o ensino universitário, ter um emprego estável, estar satisfeitas e valorizar o trabalho, em termos de personalidade, as mães mais velhas tendem a ser mais resilientes, autónomas e menos dependentes de outros. Por outro lado, as mães mais jovens tendem a ter atitudes mais tradicionais em relação ao papel das mulheres na sociedade, identificam-se mais com a maternidade e rejeitam menos os aspectos negativos do cuidado do que as mães mais velhas (McMahon et al., 2007). Estes factores pessoais podem levar mães mais jovens e mais velhas a proporcionar diferentes tipos de ambientes aos seus filhos (por exemplo, calor, hostilidade) e/ou a diferenças no bem-estar materno (por exemplo, ansiedade, depressão). Portanto, estudos envolvendo dinâmicas e relacionamentos parentais precisam ser examinados com um contexto mais amplo que inclua o ambiente familiar e o bem-estar dos pais (Boivin et al., 2009).

As características da família como sistema, dos seus membros, do nível socioeconómico, da violência e dos conflitos interpessoais entre os membros da família, da psicopatologia parental e da falta de apoio social estão geralmente associadas a comportamentos de risco e sofrimento psicológico nas crianças (Gaspar et al., 2006). . A evidência na literatura aponta para a existência de uma relação significativa entre as dimensões dos estilos parentais, do funcionamento familiar e da qualidade de vida e bem-estar de pais e filhos (Baumrind et al., 2010; Gaspar et al., 2010a ;Pinto et al., 2014).

Além disso, a interação entre os familiares também é um fator importante na qualidade de vida e no desenvolvimento de crianças e adolescentes (Gaspar & Matos, 2017; Gaspar et al., 2009; Gaspar et al., 2010b; Hair et al., 2008; Jiménez-Iglesias et al., 2014), bem como o apoio emocional fornecido pelos pais (Dwairy, 2010; Jiménez-Iglesias et al., 2014).

Os estilos parentais e o funcionamento familiar avaliaram uma perspectiva positiva das famílias. Ambos podem ser definidos como estilos não certos ou errados, mas estilos diferencialmente eficazes que podem ser usados em resposta a diferentes eventos de vida e situações familiares (Trivette et al., 1990). Assim, entende-se que parece haver uma relação entre os sistemas que interagem na vida de um indivíduo, desta forma, o funcionamento familiar, os estilos parentais e outras características do sistema familiar parecem trabalhar para o desenvolvimento do indivíduo e do sistema familiar em que estão inseridos (Bronfenbrenner, 2005).

O presente estudo tem como objetivo estudar a qualidade da versão portuguesa da escala de Funcionamento Familiar de Trivette et al. (1990) e compreender e caracterizar a relação entre Funcionamento Familiar e Estilos Parentais numa amostra de pais portugueses.

Método

Participantes

A amostra incluiu 1757 pais de crianças e adolescentes entre o 6 e os 16 anos, sendo 77,3% do sexo feminino (n = 1359), com idades entre 20 e 80 anos (M = 41,61 e DP = 5,71).

Instrumentos

Foi utilizado um questionário sociodemográfico para recolher informações sociodemográficas dos participantes. Além disso, foram utilizados os seguintes instrumentos: para avaliar estilos parentais foi utilizada a escala EMBU-P (Castro et al.,1997; adaptada por Canavarro & Pereira, 2007); o funcionamento da família foi medido pela escala proposta por Trivette et al. (1990).

Estilo de Funcionamento Familiar

A escala do Family Functioning Style é um instrumento criado por Trivette et al. (1990). A escala concentra-se no funcionamento positivo da família, avaliando os pontos fortes, os recursos e as competências que cada membro considera existir em sua família. Além disso, avalia a mobilização e aplicação de recursos como um meio de satisfazer necessidades e responder de forma adequada e ajustada às diferentes situações, o que contribui para o bom funcionamento da família.

Essa escala é direcionada à população adulta e consiste em 26 itens avaliados em uma escala Likert de 5 posições. A escala original apresenta um alfa de Cronbach de 0,92 para o total dos itens da escala. Nas subescalas, foram encontrados os seguintes alfas de Cronbach: 0,84 para compromisso, 0,85 para coesão, 0,79 para comunicação, 0,79 para competências e 0,77 para coping, sendo este instrumento considerado robusto (Trivette et al., 1990).

Estilos Parentais

Foi utilizada a versão portuguesa da EMBU-P (Egna Minnen Betraffande Uppfostran - Pais, versão original de Castro et al., (1997), validada para a população portuguesa por Canavarro e Pereira (2007). O instrumento tem como objetivo avaliar os estilos parentais dos pais de acordo com a percepção dos pais e é composto por 42 itens avaliados em uma escala Likert, com 4 alternativas de resposta (não, nunca; sim, às vezes; sim, frequentemente; sim, sempre). A escala está dividida em três dimensões, chamadas suporte emocional, rejeição e tentativa de controlo.

Os 14 itens que compõem a dimensão do suporte emocional traduzem a expressão verbal e física do apoio afetivo, a aceitação dos pais e a disponibilidade física e psicológica dos pais. Os 17 itens da dimensão rejeição pretendem demonstrar agressão verbal e física e agressão e não aceitação da criança. Por fim, os 11 itens da dimensão tentativa de controlo descrevem as ações e intenções dos pais direcionadas ao controlo do comportamento dos filhos, manifestações de supervisão sobre os filhos e preocupações com o bem-estar (Canavarro & Pereira, 2007).

A estrutura fatorial da versão em português do EMBU-P foi determinada através da análise dos principais componentes, com rotação varimax e com a determinação prévia de três fatores, que juntos representam 25,75% da variância (no caso das respostas da mãe) e 27,97% (no caso das respostas do pai). Esses resultados foram relativamente superiores aos obtidos na validação do instrumento original realizado por Castro et al. (1997) e os valores de alfa de Cronbach permaneceram semelhantes aos obtidos pelos mesmos autores, situando-se na faixa de 0,71 a 0,82 (Canavarro & Pereira, 2007).

Procedimento

O estudo foi aprovado pela comissão de ética e pelo MIME (Monitorização de Inquéritos em Meio Escolar do Ministério da Educação).

Para a recolha de dados, os questionários foram distribuídos por diversas escolas, centros de estudos e centros de atividades de tempos livres (contexto escolar e educacional). Além disso, também foi disponibilizado um questionário online, cujo link também foi fornecido a esses locais. Os questionários são de autopreenchimento e todos os participantes foram informados sobre o objetivo do estudo e assinaram o consentimento informado.

Análise e Tratamento de Dados

Primeiro, foi realizada uma análise fatorial confirmatória para testar a estrutura original em 5 dimensões da escala de Funcionamento da Família. Satorra-Bentler χ2, CFI, RMSEA e 90% CI RMSEA foram calculados para examinar o ajuste do modelo, seguindo as indicações de HU e Bentler (2002). O teste de multiplicador de Lagrange (LM test) foi realizado para melhorar o ajuste geral do modelo. Segundo, a confiabilidade da consistência interna foi analisada para cada dimensão e toda a escala, calculando o α de Cronbach. Terceiro, as estatísticas descritivas (isto é, média e desvio padrão) foram estudadas para as dimensões da escala do Funcionamento Familiar e para as dimensões da escala de Estilos Parentais. Quarto, as diferenças por género e idade foram analisadas em ambas as escalas. Em quinto lugar, foram realizadas correlações bivariadas de Pearson de ordem zero para examinar associações entre as dimensões do funcionamento familiar e do estilo parental. Essas análises foram desenvolvidas com os pacotes estatísticos SPSS 21.0 e EQS 6.3.

Resultados

Estatística Descritiva e Relacionamentos Com Outras Variáveis

Em relação às dimensões em estudo verificamos que a grande maioria das dimensões das escalas de Funcionamento Familiar e Estilos Parentais apresentam valores de consistência interna (α) elevados, no entanto, a dimensão coping da escala de Funcionamento Familiar e as dimensões rejeição e controlo da escala de Estilos Parentais apresentam valores mais baixo, 0.72, 0.71 e 0.65 respetivamente. As médias de todas as dimensões podem ser consideradas positivas, salienta-se os valores mais elevados na dimensão coesão na escala de Funcionamento Familiar (M = 4.05, DP = 0,76) e na dimensão Suporte Emocional da escala de Estilos Parentais (M = 3,35, DP = 0,40) (Tabela 1).

Tabela 1
Descritivas e Consistência Interna - Funcionamento Familiar e Estilos Parentais

A informação indicada na tabela 2 está relacionada com as correlações entre as dimensões de cada uma das escalas em estudo e a correlação entre as dimensões de ambas as escalas. Salienta-se a elevada correlação positiva e estatisticamente significativa entre as dimensões da Escala de Funcionamento Familiar, as dimensões suporte emocional e controlo da escala de Estilos Parentais também se encontram correlacionadas de forma positiva e estatisticamente significativa, sendo a dimensão de suporte emocional que revela correlações mais elevadas. A dimensão rejeição da mesma escala revela um padrão diferente, as correlações são baixas, correlacionadas negativamente. A maioria das dimensões encontram-se correlacionadas de forma estaticamente significativa com exceção da correlação entre as dimensões coesão e coping da escala do Funcionamento Familiar onde não se verificam correlações estaticamente significativas.

Tabela 2
Correlações - Escala e Dimensões Funcionamento Familiar e Estilos Parentais

Análise Fatorial Confirmatória

Foi realizada análise fatorial confirmatória para testar a estrutura da escala de funcionamento da família, na sua versão original com cinco dimensões, ou seja, compromisso, coesão, comunicação, competências e coping. A saturação do fator foi superior a 0,60 na maioria dos casos, o valor mais baixo encontra-se no item 7 da dimensão do coping que apresentou um coeficiente bastante baixo (β = 0,24, p <0,001) (Tabela 3 e Figura 1).

O mesmo se verificou ao nível da consistência interna (Tabela 1), todas as dimensões apresentaram um valor de consistência interna elevado, (α > 0.83), sendo a dimensão coping que apresentou o valor mais baixo embora razoável (α = 0.72).

Tabela 3
AFC - Saturação, Erro e Variância Explicada - Dimensões da Escala Funcionamento Familiar

Figura 1.
Representação Gráfica do Modelo de AFC da Escala de Funcionamento Familiar

O modelo inicial encontrado através da análise fatorial confirmatória aponta para um modelo pouco ajustado (χ2= 1419.31, gl= 265), p=0.001, NCFI= 0.84; CFI=0.86, RMSEA=0.065, intervalo de confiança RMSEA = 0.061, 0.068, AIC = 889.31.

Após serem integradas as associações recomendadas teste de multiplicador de Lagrange, foi atingido um modelo mais robusto (χ2= 975.06, gl= 265) p=0.001, NCFI= 0.90; CFI=0.91, RMSEA=0.052, intervalo de confiança RMSEA = 0.048, 0.055, AIC = 459.06 (Tabela 4).

Tabela 4
AFC - Índices de Adequação

Estatística Descritiva e Diferenças de Género e Idade Dos Pais

Comparando os pais e as mães encontramos diferenças estaticamente significativas na dimensão compromisso da escala de Funcionamento Familiar e nas dimensões suporte emocional e controlo da escala de Estilos Parentais. Para todas as diferenças estaticamente significativas encontradas são as mães que apresentam valores mais elevados ao nível do compromisso, suporte emocional e controlo.

Tabela 5
ANOVA - Funcionamento Familiar e Estilos Parentais Segundo o Género dos Pais

Comparando três grupos de idades dos participantes encontramos diferenças estaticamente significativas para todas as dimensões de ambas as escalas em estudo. Em relação à escala de Funcionamento Familiar e respetivas dimensões são os pais com idades entre os 36 e os 45 anos que apresentam valores mais elevados, destaca-se o valor mais baixo em relação à dimensão coping dos pais do grupo de idade mais velho (46 anos ou mais). Em relação à escala de Estilos Parentais verifica-se que são também os pais do grupo de idade mais elevada que apresentam valores mais baixos de suporte emocional e os pais mais novos (até aos 35 anos) que apresentam valores mais elevados de controlo e rejeição.

Tabela 6
ANOVA - Funcionamento Familiar e Estilos Parentais Segundo a Idade dos Pais

Discussão

O presente estudo teve como objetivos estudar a qualidade da versão portuguesa da escala do Funcionamento Familiar de Trivette et al. (1990) e compreender e caracterizar a relação entre o Funcionamento Familiar e os Estilos Parentais numa amostra de pais portugueses.

Em relação ao primeiro objetivo analisamos a correlação entre as dimensões das escalas que constituem a escala de Funcionamento Familiar (EFF), a consistência interna das dimensões e a robustez resultante do modelo encontrado através da Análise Fatorial Confirmatória.

Com o intuito de atingir o segundo objetivo foram estudadas as dimensões das escalas de Funcionamento Familiar e de Estilos Parentais, foram ainda analisadas as diferenças ligadas ao género e idade dos pais.

O presente estudo teve várias contribuições, nomeadamente, os resultados forneceram evidências de uma estrutura fatorial da versão portuguesa da escala de Funcionamento Familiar composta por cinco dimensões, respetivamente, compromisso, coesão, comunicação, competências e coping. Todas as dimensões apresentaram boa confiabilidade de consistência interna. Foram observados bons valores médios no funcionamento familiar, com valores mais altos na coesão. As dimensões encontram-se correlacionadas de forma positiva e estatisticamente significativa com exceção da correlação entre as dimensões coesão e coping, onde não se verificam correlações estaticamente significativas. Acrescenta-se que o Funcionamento Familiar e as suas dimensões apresentam uma correlação positiva e significativa com a dimensão do suporte emocional e uma correlação negativa, significativa embora baixa, com a dimensão da rejeição da escala de Estilos Parentais.

O funcionamento da família está significativamente relacionado com os estilos parentais. A família deve ser considerada um sistema dinâmico, onde cada membro influencia e é influenciado pelas características, comportamentos e atitudes dos outros membros. Uma família que apresente um funcionamento mais adequado, com níveis elevados ao nível do compromisso, coesão, comunicação, competências e coping, mais facilmente está associada a um estilo parental predominantemente democrático, caracterizado por elevados níveis de suporte emocional, baixos níveis de rejeição e níveis moderados de controlo/supervisão. Um funcionamento familiar e estilos parentais mais adequados estão associados a um maior bem-estar na família e dos seus membros, a uma maior oportunidade de desenvolvimento e crescimento saudável (Baumrind et al., 2010; Dwairy, 2010; Gaspar, Cerqueira et al., 2022; Gaspar, Gaspar et al., 2022; Gaspar et al. 2010a; Gaspar & Matos, 2017; Gaspar et al., 2009; Gaspar et al., 2010b; Hair et al., 2008; Jiménez-Iglesias et al., 2014; Kleszczewska et al., 2022; Olson, 2000).

Foram identificadas diferenças relacionadas com o género e idade dos pais. Comparando os pais e as mães encontramos diferenças estaticamente significativas na dimensão compromisso da escala de Funcionamento Familiar e nas dimensões suporte emocional e controlo da escala de Estilos Parentais. Em todos estes casos são as mães que apresentam valores mais elevados ao nível do compromisso, suporte emocional e controlo. Embora se verifique um progressivo aumento do envolvimento dos pais (homens) na educação e desenvolvimento dos filhos, são as mães que mais frequentemente são as cuidadoras e educadoras principais, passam mais tempo com os filhos, desenvolvem mais atividades lúdicas, educacionais e domésticas com os filhos e apresentam mais frequentemente uma relação mais próxima com os filhos (Canavarro & Pereira, 2007; Lisi & Lisi, 2008; Garcia & Guzman, 2017; Parke, 2004). No entanto, esta ligação mais intensa pode ser desgastante e levar a adoção de estilos parentais mais desadequados e a um funcionamento familiar menos positivo, nestas situações o papel do pai e/ou de outras fontes de suporte social são fundamentais para a melhoria do funcionamento familiar e desenvolvimento saudável e positivo dos filhos (Guedes et al., 2022; Jeynes, 2016; Rohner & Veneziano, 2001).

Comparando três grupos de idades dos participantes encontramos diferenças estaticamente significativas para todas as dimensões de ambas as escalas em estudo. Em relação à escala de Funcionamento Familiar e respetivas dimensões, são os pais com idades entre os 36 e os 45 anos que apresentam valores mais elevados, destaca-se o valor mais baixo em relação à dimensão coping dos pais do grupo de idade mais velho (46 anos ou mais). Em relação à escala de Estilos Parentais verifica-se que são também os pais do grupo de idade mais elevada que apresentam valores mais baixos de suporte emocional e os pais mais novos (até aos 35 anos) que apresentam valores elevados de controlo e rejeição.

A análise destes resultados leva à reflexão que os pais do grupo de idade intermédio, com idades entre os 36 e os 45 anos, são os que apresentam estilos parentais mais adequados caracterizados por um nível elevado de suporte emocional, baixo ao nível da rejeição e moderado ao nível do controlo/supervisão. Os pais mais novos utilizam mais frequentemente estilos parentais relacionados com a rejeição e controlo. Os pais mais velhos (46 anos ou mais) evidenciam mais dificuldades no coping ao nível do funcionamento familiar. Pais com cerca de 40 anos de idade revelam uma maior capacidade de adequação, adaptação e competência quando comparados com os pais mais novos (Canavarro & Pereira, 2007). Os pais na casa dos 20/30 anos tem mais tendência para ter menos experiência de vida, conhecimentos, competências, recursos financeiros e sociais do que os pais na casa dos 40 anos (Bornstein et al., 2006). Por outro lado, as mães mais jovens tendem a ter atitudes mais tradicionais em relação ao papel da mulher na sociedade, a identificarem-se mais com a maternidade e tendem a rejeitar menos os aspetos negativos da prestação de cuidados do que as mães mais velhas (McMahon et al., 2007).

Conclusão

Estudos relacionados com o funcionamento familiar são uma necessidade, tendo em conta um contexto de constantes alterações nas famílias, no papeis do parentais, no qual a mãe cada vez mais tem uma atividade profissional intensa, maior escolaridade e tende a ter filhos cada vez mais tarde.

O presente estudo apresenta algumas limitações associadas ao maior envolvimento das mães no preenchimento dos questionários do que dos pais o que pode influenciar os resultados e ao facto da amostra, embora grande, não ser aleatória e consequentemente não é estatisticamente representativa da população portuguesa.

O estudo da versão portuguesa da escala de Funcionamento Familiar e a confirmação da robustez das suas dimensões é um importante contributo para futuros estudos nacionais que incluam esta variável e respetivas dimensões, uma vez que ficam com acesso a um instrumento válido e robusto. Um dos resultados mais importantes do estudo são as diferenças identificadas ao nível do funcionamento familiar e dos estilos parentais nos diferentes grupos de idade dos pais, futuramente será interessante aprofundar estes resultados tendo em conta a idade dos filhos, número de filhos, estado civil dos pais entre outras variáveis importantes que trariam uma maior compreensão destes resultados.

O conhecimento adquirido é um importante contributo para a investigação na área da família e parentalidade, assim como, fornece conhecimento empírico para a intervenção psicossocial junto de pais, futuros pais e famílias, comunidades e profissionais que trabalhem nestes contextos. Conclui-se que quando a família é capaz de utilizar as suas forças de forma a cooperar com as adversidades de uma forma construtiva, esta torna-se mais forte e capaz de advogar o bem-estar de cada um dos seus elementos (Trivette, et al. 1990).

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O autor não autoriza a divulgação de dados da pesquisa.

Informações sobre financiamento

Este trabalho é financiado por Fundos Nacionais através da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), Fábio Botelho Guedes (SFRH/BD/148299/2019) e Ana Cerqueira - (SFRH/BD/148403/2019).

E-mail:

As correspondências concernentes a este artigo devem ser endereçadas a Tânia Gaspar. tania.gaspar.barra@gmail.com.

Editor Responsável:

Valeschka Martins Guerra

Declaração de conflitos de interesses

Os autores declararam que não existem conflitos de interesse no que diz respeito à investigação, autoria e/ou publicação deste artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Out 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    29 Jul 2020
  • Aceito
    28 Out 2022
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