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Escala McGill-UFRGS para Avaliação dos Grupos de Amigos: Adaptação e Propriedades Psicométricas

McGill-UFRGS Scale for Evaluation of Groups of Friends: Adaptation and Psychometric Properties

Escala McGill-UFRGS para la Evaluación de los Grupos de Amigos: Adaptación y Propiedades Psicométricas

Resumo

O objetivo deste artigo é apresentar o processo de adaptação e as propriedades psicométricas da Escala McGill-UFRGS de avaliação das funções de amizade em grupos de amigos. Participaram do estudo 521 jovens adultos com idades entre 18 e 30 anos (M = 22,68; DP = +-3,21). A estrutura de seis fatores da escala apresentou bons índices de ajuste (CFI = 0,968, TLI = 0,965, RMSEA = 0,067, IC90% = 0,063-0,071) na análise fatorial confirmatória e demonstrou invariância de medida entre gêneros e grupos etários. Os coeficientes de confiabilidade dos fatores da escala foram bons, com alfas de Cronbach variando entre 0,875 e 0,912, e confiabilidade composta variando entre 0,956 e 0,966. A Escala McGill-UFRGS mostra-se uma adaptação válida e confiável para a avaliação das funções de amizade em grupo de amigos entre jovens adultos.

Palavras-chave:
amizade; avaliação psicológica; psicometria; relacionamentos interpessoais

Abstract

The purpose of this article was to present the adaptation process and psychometric properties of the McGill-UFRGS Scale for the assessment of friendship functions in peer groups. A total of 521 young adults aged 18 to 30 years (M = 22.68; SD = + 3.21) participated in the study. The six-factor structure of the scale had good fit indices (CFI = 0.968, TLI = 0.965, RMSEA = 0.067, CI90% = 0.063-0.071) in confirmatory factor analysis and demonstrated measurement invariance across sex and age groups. The reliability estimates of the factor scores were good, with Cronbach’s alphas ranging from .875 to .912 and composite reliability ranging from .956 to .966. The McGill-UFRGS Scale proved to be a valid and reliable instrument for assessing friendship group functions among young adults.

Keywords:
friendship; psychological assessment; psychometry; interpersonal relationships

Resumen

El objetivo de este artículo es presentar el proceso de adaptación y las propiedades psicométricas de la Escala McGill-UFRGS para la evaluación de las funciones de amistad en grupos de amigos. Participaron del estudio un total de 521 adultos jóvenes de 18 a 30 años (M = 22,68; DS = +-3,21). La estructura de seis factores de la escala mostró buenos índices de ajuste en el análisis factorial confirmatorio (CFI = 0.968, TLI = 0.965, RMSEA = 0.067, IC90% = 0.063-0.071) y demostró invarianza de medición entre géneros y grupos de edad. Los coeficientes de confiabilidad de los factores de la escala fueron buenos, con alfa de Cronbach oscilando entre 0,875 e 0,912 y confiabilidad compuesta entre 0,956 e 0,966. La escala McGill-UFRGS se presenta como un instrumento válido y fiable para la evaluación de las funciones de amistad en un grupo de amigos entre adultos jóvenes.

Palabras clave:
amistad; evaluación psicológica; psicometría; relaciones interpersonales

A amizade pode ser definida como relacionamentos voluntários entre pessoas, nos quais as partes envolvidas possuem apreço uma pela outra, numa relação que envolve intimidade e ajuda mútua (DeSousa & Pereira, 2018DeSousa, D. A. & Pereira, A. S. (2018) Características e Funções dos Relacionamentos de Amizade na Adultez Emergente. Em L, Dutra-Thomé, A. S. Pereira, S. I. Nuñez, & S.H. Koller. Adultez Emergente no Brasil: Uma Nova Perspectiva Desenvolvimental sobre a Transição para a Vida Adulta. São Paulo: Vetor Editora.; Fehr, 1996Fehr, B. A. (1996). Friendship Processes. London: Sage.). A amizade possui diferentes papéis ao longo do ciclo vital, pois é com os amigos que as pessoas passam parte significativa do seu tempo ao longo do desenvolvimento (Collins & Laursen, 2004Collins, W. A., & Laursen, B. (2004). Parent-adolescent relationships and influence. In R. Lerner & L. Steinberg (Eds.), Handbook of adolescent psychology (pp. 331-362). New York: Wiley.; Fraley & Davis, 1997Fraley, R. C., & Davis, K. E. (1997). Attachment formation and transfer in young adults’close friendships and romantic relationships. Personal Relationships, 4(2), 131-144. doi: 10.1111/j.1475-6811.1997.tb00135.x
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). Com as relações de amizade, as pessoas podem suprir necessidades de companhia e intimidade, aumentar a autoestima e o sentimento de pertencimento (Carvalho et al., 2017Carvalho, R. G., Fernandes, E., Câmara, J., Gonçalves, J. A., Rosário, J., Freitas, S., & Carvalho, S. (2017). Relações de amizade e autoconceito na adolescência: um estudo exploratório em contexto escolar. Estudos de Psicologia (Campinas), 34(3), 379-388.; Hartup & Stevens, 1997Hartup, W. W., & Stevens, N. (1997). Friendships and adaptation in the life course. Psychological Bulletin, 121(3), 355-370. doi: 10.1037/0033-2909.121.3.355
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). Além disso, a qualidade das relações de amizade tem sido associada à felicidade e a qualidade de vida (Demir & Weitekamp, 2007Demır, M., & Weitekamp, L. A. (2007). I am so happy ’cause today I found my friend: friendship and personality as predictors of happiness. Journal of Happiness Studies, 8(2), 181-211. doi: 10.1007/s10902-006-9012-7
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; Gouveia, Matos, & Schouten, 2016Gouveia, O. M. R., Matos, A. D., & Schouten, M. J. (2016). Redes sociais e qualidade de vida dos idosos: uma revisão e análise crítica da literatura. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, 19(6), 1030-1040.). Amizades podem agir como modelos de comportamento positivo; grupos de referência para recorrer em situações-problema (Buote et al., 2007Buote, V. M., Pancer, S. M., Pratt, M. W., Adams, G., Birnie-Lefcovitch, S., Polivy, J., & Wintre, M. G. (2007). The importance of friends friendship and adjustment among 1st-year university students. Journal of Adolescent Research, 22(6), 665-689. doi: 10.1177/0743558407306344
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); alguém para ouvir e aconselhar, encorajar e dar feedbacks a comportamentos; e auxiliar na adaptação a novos contextos (ex.: entrada na universidade; Resende, Bones, Souza, & Guimarães, 2006Resende, M. C. de, Bones, V. M., Souza, I. S., & Guimarães, N. K. (2006). Rede de relações sociais e satisfação com a vida de adultos e idosos. Psicologia para América Latina, (5).; DeSousa & Cerqueira-Santos, 2011DeSousa, D. A. & Cerqueira-Santos, E. (2011). Redes sociais e relacionamentos de amizade ao longo do ciclo vital. Psicopedagogia, 28(85), 53-66.).

Fatores ambientais, como proximidade de residência, atividades e amigos em comum são facilitadores no estreitamento de relações de amizades e sua manutenção. Além desses, a frequência do contato, a disponibilidade de tempo e a atenção auxiliam no desenvolvimento e na manutenção das relações de amizade (Fehr, 1996Fehr, B. A. (1996). Friendship Processes. London: Sage.; Souza, 2006Souza, L. K. (2006). Amizade em adultos: Adaptação e validação dos questionários McGill e um estudo de diferenças de gênero. Tese de Doutorado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.). Variáveis pessoais, como as habilidades sociais, a aparência física (principalmente no primeiro contato), similaridade entre comportamentos e opiniões, também têm sido apontados como aspectos que influenciam as relações de amizade (Fehr, 1996Fehr, B. A. (1996). Friendship Processes. London: Sage.).

As relações de amizade podem desempenhar papel protetivo para o desenvolvimento, auxiliando no desenvolvimento de habilidades sociais e de competências adaptativas (Pereira, 2019Pereira, A. S. (2019). Escudo social: uma proposta de compreensão para a relação entre habilidades sociais e apoio social na adultez emergente. Brasileiros (Tese de doutorado. Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil). Recuperado de https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/196347
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). Possibilitam o manejo de emoções e do estresse, orientam o indivíduo afetiva e cognitivamente, dão significado e coerência à vida e propiciam aprendizado de novas informações (Resende et al., 2006Resende, M. C. de, Bones, V. M., Souza, I. S., & Guimarães, N. K. (2006). Rede de relações sociais e satisfação com a vida de adultos e idosos. Psicologia para América Latina, (5).). Além disso, viabilizam uma relação na qual se pode buscar ajuda mútua, o que influencia positivamente o bem-estar psicológico, reduz o isolamento social e aumenta a satisfação de vida (Ramos, 2002Ramos, M. P. (2002). Apoio social e saúde entre idosos. Sociologias, 7, 156-175.; Resende et al., 2006Resende, M. C. de, Bones, V. M., Souza, I. S., & Guimarães, N. K. (2006). Rede de relações sociais e satisfação com a vida de adultos e idosos. Psicologia para América Latina, (5).). Por outro lado, podem atuar como fator de risco para o desenvolvimento, quando associadas a situações que expõem as pessoas a situações de estresse ou vulnerabilidade (Dishion, Nelson, & Yasui, 2005Dishion, T. J., Nelson, S. E., & Yasui, M. (2005). Predicting early adolescent gang involvement from middle school adaptation. Journal of Clinical Child and Adolescent Psychology, 34(1), 62-73. doi: 10.1207/s15374424jccp3401_6
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). Ou seja, quando o envolvimento com o grupo de amigos influencia a pessoa a emitir comportamentos de risco, como uso de drogas, envolvimento com o crime ou violentos. Nesses contextos, habilidades sociais, como a assertividade e saber dizer não, podem auxiliar a pessoa a resistir à pressão do grupo (Costa & Cavalcante, 2018Costa, A. C. R., & Cavalcante, L. I. C. (2018). Fatores de risco no desenvolvimento e nas relações de amizade de adolescentes em acolhimento institucional. Pretextos-Revista da Graduação em Psicologia da PUC Minas, 3(5), 376-391.; Wagner & Oliveira, 2009Wagner, M. F., & Oliveira, M. da S. (2009). The social skills study in adolescents marijuana users. Psicologia Em Estudo, 14(1), 101-110. doi: 10.1590/S1413-73722009000100013
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).

Seis funções constituem características intrínsecas às relações de amizade (Mendelson & Aboud, 1999Mendelson, M. J., & Aboud, F. E. (1999). Measuring friendship quality in late adolescents and young adults: McGill Friendship Questionnaires. Canadian Journal of Behavioural Science, 31(2), 130-132. doi: 10.1037/h0087080
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): 1) Intimidade: proximidade na relação, sensibilidade aos estados e necessidades do amigo, abertura para a expressão de pensamentos, sentimentos e informações pessoais; 2) Segurança Emocional: oferecimento de acolhimento e confiança emocional em situações difíceis, novas ou ameaçadoras; 3) Aliança Confiável: disponibilidade, lealdade contínuas e sentimento de que a relação é forte o suficiente para não ser abalada por discussões e opiniões contrárias; 4) Companheirismo Estimulante: engajamento em atividades de lazer agradáveis e estimulantes com amigos; 5) Ajuda: fornecimento de assistência, orientação, conselhos ou outras formas de auxílio; e 6) Autovalidação: capacidade de encorajar e ajudar os amigos a manter uma autoimagem positiva.

Ainda que a amizade configure uma das relações sociais mais importantes, sendo fonte de diversos fatores protetivos para o desenvolvimento, a literatura na área possui foco nas fases iniciais do ciclo vital (infância e adolescência). Poucos são os estudos que levam em consideração as características e fatores positivos e negativos da amizade em outras fases da vida, como na adultez emergente e na adutez intermediária (Souza & Hutz, 2008). Durante a adultez emergente, por exemplo, a amizade tem um papel importante, visto que nessa fase os jovens estão cada vez mais adiando a assunção de papéis adultos (DeSousa & Pereira, 2018DeSousa, D. A. & Pereira, A. S. (2018) Características e Funções dos Relacionamentos de Amizade na Adultez Emergente. Em L, Dutra-Thomé, A. S. Pereira, S. I. Nuñez, & S.H. Koller. Adultez Emergente no Brasil: Uma Nova Perspectiva Desenvolvimental sobre a Transição para a Vida Adulta. São Paulo: Vetor Editora.). Tal postergação faz com que os jovens tenham mais tempo para explorar suas identidades em experiências e vivências, as quais muitas vezes os amigos são os principais companheiros.

Alguns dos estudos sobre amizade na adultez jovem vêm demonstrando o papel da amizade na vida dos indivíduos. Em um estudo com 209 universitários entre 18 e 30 anos (Duarte & Souza, 2010Duarte, M. G., & Souza, L. K. (2010). O que importa em uma amizade? A percepção de universitários sobre amizades. Interpersona: An International Journal on Personal Relationships, 4(2), 271-290.), participantes descreveram a amizade com os termos “confiança”, “lealdade”, “intimidade”, “aceitação” e “afinidades”. Em outro estudo com jovens adultos, a amizade foi descrita sobretudo com termos como “companheirismo”, “confiança” e “sinceridade” (DeSousa & Cerqueira-Santos, 2012DeSousa, D. A. & Cerqueira-Santos, E. (2012). Relacionamentos de Amizade Íntima entre Jovens Adultos. Paidéia, 22(53), 325-333. doi: 10.1590/1982-43272253201304
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). Nesse mesmo estudo, identificou-se que a média entre os jovens foi de oito amigos íntimos, número que apresentou uma relação negativa com a idade, ou seja, quanto mais velhos os participantes, menor o número de amizades íntimas indicadas por eles. Associações entre relacionamentos de amizade e bem-estar subjetivo foram investigadas em uma amostra de 232 jovens adultos (Souza & Duarte, 2013). Foram encontradas correlações positivas entre os níveis de satisfação com as melhores amizades e os níveis de satisfação de vida e de afetos positivos.

Estudo avaliando habilidades sociais em jovens adultos, observou que existe uma relação entre a qualidade das relações de amizade e variáveis positivas como autoestima, autoeficácia e habilidades sociais (Pereira, 2015Pereira, A. S. (2015). Avaliação das Habilidades Sociais e de Suas Relações com Fatores de Risco e Proteção em Jovens Adultos Brasileiros (Dissertação de mestrado. Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil). Recuperado de http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/130477
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). Outro estudo (Pereira, Wilhelm, Koller, & Almeida, 2018Pereira, A. S., Willhelm, A. R., Koller, S. H., & Almeida, R. (2018). Fatores de risco e proteção para tentativa de suicídio na adultez emergente. Revista Ciência e Saúde Coletiva. Recuperado de http://www.cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/artigo_int.php?id_artigo=15952
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) relatou que jovens com histórico de tentativas de suicídio tendem a ter médias mais baixas na qualidade das relações de amizade, quando comparados aos jovens sem histórico, discutindo que a qualidade dessas relações possa ser um fator protetivo para evitar tentativas de suicídio.

Outro estudo que também demonstrou a importância da amizade e dos demais relacionamentos interpessoais é o de Pereira (2019Pereira, A. S. (2019). Escudo social: uma proposta de compreensão para a relação entre habilidades sociais e apoio social na adultez emergente. Brasileiros (Tese de doutorado. Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil). Recuperado de https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/196347
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), no qual o autor propõe um modelo para entender o papel protetor dos relacionamentos interpessoais chamado de “Escudo Social”. O modelo propõe que existe uma relação entre as habilidades sociais da pessoa e a forma como os componentes da rede de apoio para auxiliar no desenvolvimento das pessoas. Ao testar esse modelo teórico a partir de um estudo quantitativo com adultos jovens, o autor identificou que os relacionamentos de amizade são um dos principais componentes do escudo social e que ele demonstrou ter um papel protetivo para transtornos mentais, como depressão e ansiedade (Pereira, 2019Pereira, A. S. (2019). Escudo social: uma proposta de compreensão para a relação entre habilidades sociais e apoio social na adultez emergente. Brasileiros (Tese de doutorado. Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil). Recuperado de https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/196347
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).

Em termos de instrumentos psicológicos, a avaliação das características e qualidade das relações de amizade na vida adulta pode ser medida pelo McGill Friendship Questionnaire - Friendship Funtions (MFQ-FF; Mendelson e Aboud, 1999Mendelson, M. J., & Aboud, F. E. (1999). Measuring friendship quality in late adolescents and young adults: McGill Friendship Questionnaires. Canadian Journal of Behavioural Science, 31(2), 130-132. doi: 10.1037/h0087080
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). O questionário tem por objetivo avaliar em que grau o melhor amigo preenche as funções da amizade (Companheirismo estimulante, Ajuda, Intimidade, Aliança Confiável, Segurança emocional e Autovalidação). O questionário é composto por 30 itens divididos em subescalas que avaliam as seis funções da amizade. Cada um dos itens é composto por frases positivas que são respondidas a partir de uma escala de concordância de cinco pontos. Em seu estudo original, no qual foi realizada uma análise exploratória com rotação Oblíqua, os itens de segurança emocional demonstraram problemas. Mesmo assim, o instrumento apresentou alfas considerados bons, mostrando-se adequado para uso em pesquisa. O instrumento foi adaptado para o contexto brasileiro (Souza & Hutz, 2007Souza, L. K. de, & Hutz, C. S. (2007). A qualidade da amizade: adaptação e validação dos questionários McGill. Aletheia, 25, 82-96.) e apresentou boas propriedades psicométricas, bem como estrutura fatorial idêntica à do instrumento original, sem os problemas ocorridos na escala de segurança emocional.

Mesmo sendo um instrumento com boas propriedades psicométricas, seu foco em avaliar apenas a relação de amizade com o melhor amigo é uma limitação, visto que a rede de amigos de um indivíduo dificilmente é composta por apenas um amigo. Observando a teoria das funções da amizade proposta pelos próprios autores (Mendelson & Aboud, 1999Mendelson, M. J., & Aboud, F. E. (1999). Measuring friendship quality in late adolescents and young adults: McGill Friendship Questionnaires. Canadian Journal of Behavioural Science, 31(2), 130-132. doi: 10.1037/h0087080
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), pode-se perceber que dificilmente um amigo único conseguirá preencher com qualidade todas as funções. Além disso, levando em consideração o modelo do Escudo Social proposto por Pereira (2019Pereira, A. S. (2019). Escudo social: uma proposta de compreensão para a relação entre habilidades sociais e apoio social na adultez emergente. Brasileiros (Tese de doutorado. Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil). Recuperado de https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/196347
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), sabe-se que as relações de amizade como um todo (e não apenas do melhor amigo) são uma importante fonte de apoio social e fator de proteção, salientando assim a importância de avaliá-las.

A partir disso, este artigo se propõe a avaliar as funções de amizade em uma rede de amigos, na qual seus componentes preencham diferentes funções. Ademais, este trabalho busca desenvolver e aprimorar uma ferramenta investigativa sobre amizade na vida adulta, de forma que se ampliem os estudos com esse público. Portanto, o objetivo deste estudo é relatar o processo de adaptação da Escala McGill para a avaliação das funções de amizade em uma rede de amigos como um todo, de forma a acessar a qualidade dessas relações, além de verificar as qualidades psicométricas desta versão modificada.

Método

Procedimentos para Adaptação da Escala

A escala original é composta por 30 itens. Seu objetivo é avaliar as funções da relação de amizade com o(a) melhor amigo(a). Cada item contém um espaço em branco, a ser preenchido com o nome do(a) melhor amigo(a), e uma sentença. Para a adaptação do instrumento às funções da amizade no grupo de amigos, foi solicitado a dois pesquisadores com experiência em avaliação psicológica que lessem os itens da versão adaptada para o português brasileiro da escala (Souza & Hutz, 2007Souza, L. K. de, & Hutz, C. S. (2007). A qualidade da amizade: adaptação e validação dos questionários McGill. Aletheia, 25, 82-96.) e os colocassem no plural, de forma que, quando os respondentes fossem preencher a escala, avaliassem o grupo de amigos mais próximos como um todo. Para auxiliar no processo, além da versão em português, lhes foi entregue a versão original do instrumento em inglês. Após essa etapa, foi realizado um encontro entre os dois pesquisadores, no qual se discutiu as versões e se chegou a um consenso sobre a melhor forma de adaptar a escala.

A nova versão desenvolvida foi aplicada em uma amostra de jovens adultos para avaliar a clareza dos itens. A comparação da nova versão com a versão original e com a adaptada por Souza e Hutz (2007Souza, L. K. de, & Hutz, C. S. (2007). A qualidade da amizade: adaptação e validação dos questionários McGill. Aletheia, 25, 82-96.) podem ser observadas na Tabela 1.

Tabela 1
Comparação dos Itens das Três Versões da Escala e a Carga Fatorial da Nova Versão nos Fatores

Como o objetivo da escala se alterou, também foi importante incorporar itens que pudessem avaliar que tipo de grupo de amigos se estava avaliando. Dessa forma, foram incluídos na escala as perguntas utilizadas por DeSousa e Cerqueira-Santos (2011DeSousa, D. A. & Cerqueira-Santos, E. (2011). Redes sociais e relacionamentos de amizade ao longo do ciclo vital. Psicopedagogia, 28(85), 53-66.) em uma pesquisa que avaliou a rede de amigos. Nessas perguntas, solicitou-se aos respondentes que focassem nos amigos mais próximos, com limite de até 10 nomes. Após, foram identificados os amigos por sexo e, finalmente, responderam às questões da escala focando na relação com os amigos citados. O rapport da escala, junto com as perguntas incluídas podem ser visualizadas na Figura 1.

Figura 1
Rapport da escala.

Observando as modificações realizadas na escala, tanto na forma como as perguntas estão redigidas como no objetivo de avaliação, decidiu-se por modificar o nome da escala para diferenciá-la da escala original. A versão adaptada neste artigo foi nomeada de Escala McGill-UFRGS de Avaliação das Funções de Amizade da Rede de Amigos.

Participantes e Procedimentos

Este estudo integra a pesquisa guarda-chuva intitulada “Habilidades sociais e fatores de risco e proteção na adultez emergente”, aprovada pelo Comitê de Ética do Instituto de Psicologia da UFRGS pelo parecer 636.992/2014. A coleta de dados foi realizada de forma online utilizando a plataforma surveymonkey, e os participantes foram recrutados a partir de indicações, divulgação em redes sociais e por listas de e-mails de universidades, levando em consideração as diretrizes propostas por Dutra-Thomé e Pereira (2017Dutra-Thomé, L., & Pereira, A.S. (2017) Emerging adulthood in Brazil: socioeconomic influences and methodological issues in the study of young adults. Em D. D. Dell’Aglio & S. H. Koller, Vulnerable Children and Youth in Brazil. Innovative Approaches from the Psychology of Social Development. Spriger.) para pesquisas online com adultos emergentes. Participaram deste estudo 521 adultos jovens entre 18 e 30 anos provenientes das cinco regiões brasileiras. A média de idades da amostra foi de 22,68 anos (DP = +- 3,21), predominantemente feminina (n = 344, 66%) e branca (n = 348, 66,9%). Quanto ao nível de escolaridade, a amostra foi predominantemente de nível superior incompleto (n = 365, 70,2%) ou completo (n = 75, 14,4%) e pós-graduação (n = 53, 10,2%).

Instrumentos

Escala McGill-UFRGS. Versão modificada da Escala McGill para avaliação das funções de amizade da rede de amigos. É composta por 30 frases sobre a impressão que os respondentes possuem de suas amizades. Os itens são pontuados em uma escala de concordância de cinco pontos (1 - Discordo totalmente a 5 - Concordo totalmente).

Dimensional Anxiety Scale - Social Anxiety Disorder. Escala de autorrelato para diagnosticar sintomas de ansiedade social. Solicita ao respondente que avalie, numa escala de cinco pontos (0 - Nunca a 5 - O tempo todo) e em relação aos últimos sete dias, o quanto as afirmativas representam seus sintomas físicos e cognitivos de ansiedade; bem como seus comportamentos frente a situações aversivas. A SAD-D foi adaptada e validada para o português brasileiro (DeSousa et al., 2017DeSousa, D. A., Moreno, A. L., Osório, F. L., Crippa, J. A. S., LeBeau, R., Manfro, G. G., Salum, G. A., & Koller, S. H. (2017). Psychometric properties of the dimensional anxiety scales for DSM-5 in a Brazilian community sample: DSM-5 Dimensional Anxiety Scales in Brazil. International Journal of Methods in Psychiatric Research 26(3), e1531. doi: 10.1002/mpr.1531
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), apresentando boas propriedades psicométricas e alfa de Cronbach de 0,899.

Escala Multidimensional de Expressão Social - Parte Motora (EMES-M). A EMES-M foi desenvolvida por Caballo (2003Caballo, V. E. (2003). Manual de avaliação e treinamento das habilidades sociais. São Paulo: Santos.) e tem por objetivo avaliar as habilidades sociais do respondente. Sua versão brasileira foi adaptada por Pereira, Dutra-Thomé e Koller (2018Pereira, A.S., Dutra-Thomé, L., & Koller, S.H. (2018) Propriedades psicométricas da escala multidimensional de expressão social parte motora (EMES-M) em uma amostra brasileira. Avaliação Psicológica, 17(1).) sendo composta por oito fatores (Habilidade para iniciar e manter conversações; Habilidades para dizer não; Habilidades em receber elogios; Habilidades para falar em público; Habilidades para expressar afeto positivo; Habilidades para expressar afeto negativo; Habilidades para expressar desacordo/opiniões contrárias; Habilidades para defender direitos) e um fator geral que avalia as habilidades sociais como um todo. A versão brasileira apresenta boas propriedades psicométricas com um alfa da escala total de 0,945.

Escala de Autoestima de Rosemberg. Adaptada para a realidade brasileira por por Hutz e Zanon (2011Hutz, C. S. & Zanon, C. (2011). Revisão da adaptação, validação e normatização da escala de autoestima de Rosenberg. Avaliação Psicológica, 10(1), 41-49.), é uma escala de autorrelato que tem por objetivo avaliar a autoestima. Em seu estudo de validação para o contexto brasileiro, apresentou dados psicométricos adequados, apresentando um alfa de Cronbach de 0,90.

Escala de Autoeficácia Geral Percebida. Escala de autorrelato com dez itens validada para o contexto brasileiro por Sbicigo, Teixeira, Dias e Dell’Aglio (2010Sbicigo, J. B., Bandeira, D. R., & Dell’Aglio, D. D. (2010). Rosenberg Self-Esteem Scale (RSS): factorial validity and internal consistency. Psico-USF, 15(3), 395-403.) apresentando boas evidências de validade e confiabilidade, com um alfa de Cronbach de 0,85.

Análise de Dados

Para a análise das propriedades psicométricas da nova versão, foram realizadas análises fatoriais confirmatórias a partir do método de Weighted Least Squares Means and Variance Adjusted (WLSMV), sendo este mais adequado à natureza categórica dos itens do instrumento. Utilizou-se o programa Mplus. Foram considerados índices de ajuste adequados valores de CFI e TLI acima de 0,9 e de RMSEA abaixo de 0,08; e valores abaixo de 0,05 como bom ajustamento. Para todos os índices, utilizou-se intervalos de confiança de 90% (Hu & Bentler, 1999Hu, L., & Bentler, P. M. (1999). Cut off criteria for fit indexes in covariance structure analysis: conventional criteria versus new alternatives. Structural Equation Modeling: A Multidisciplinary Journal, 6, 1-55. doi: 10.1080/10705519909540118
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). Como índices de confiabilidade dos fatores, foram calculados o alfa de Cronbach e o coeficiente de confiabilidade composta, sendo valores acima de 0,7 considerados ideais. O modelo fatorial testado foi o original do instrumento (Mendelson & Aboud, 1999Mendelson, M. J., & Aboud, F. E. (1999). Measuring friendship quality in late adolescents and young adults: McGill Friendship Questionnaires. Canadian Journal of Behavioural Science, 31(2), 130-132. doi: 10.1037/h0087080
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) acrescido de um fator geral para avaliar a presença de todos os fatores como um índice de qualidade geral das relações de amizade.

Resultados

A análise fatorial confirmatória demonstrou que todos os itens carregaram em seus fatores originais, com cargas fatoriais que variaram entre 0,723 (item 17 fator Autovalidação) e 0,959 (item 16 fator Aliança Confiável). Os índices de ajuste foram adequados, com valores de CFI de 0,968; TLI de 0,965; X² de 1329,894 com 399 graus de liberdade; e RMSEA de 0,067 com intervalo de confiança entre 0,063 e 0,071. O alfa de Cronbach da escala total foi de 0,970 e os alfas das demais escalas apresentaram valores entre 0,875 e 0,912. Os alfas de Cronbach e os coeficientes de confiabilidade composta de cada fator, bem como as cargas fatoriais dos itens, podem ser observadas na Tabela 1. Todos os coeficientes de confiabilidade se mostraram adequados, bem como as cargas fatoriais de todos os itens em cada um dos seus respectivos fatores.

Em relação às correlações entre os fatores, houve correlações estatisticamente significativas entre todos os fatores, sendo que a correlação mais alta foi entre os fatores Ajuda e Autovalidação (0,795) e a mais baixa foi entre os fatores Ajuda e Aliança Confiável (0,674; ver Tabela 2). Em relação ao número de amigos que foram citados por cada respondente, houve uma correlação positiva entre o número de amigos e todos os fatores. A correlação mais alta entre todas as analisadas foi a com fator companheirismo (0,311).

Tabela 2
Correlações entre os Fatores da Escala McGill-UFRGS

Além das correlações entre os fatores, também foram analisadas correlações referentes aos escores da escala com outros construtos apontados na literatura como ligados às relações interpessoais. Como pode ser observado na Tabela 3, todos os fatores apresentaram correlações positivas estatisticamente significativas com as variáveis positivas (habilidades sociais, autoestima e autoeficácia) e correlações negativas com ansiedade social. Quando se analisa cada uma das variáveis, pode-se observar que Autovalidação foi o fator que apresentou maior correlação com as variáveis positivas. Por outro lado, em relação à ansiedade social, o fator Ajuda foi o que teve o valor de correlação mais elevado, sendo que essa correlação foi negativa.

Tabela 3
Correlação entre os Escores da Escala e Construtos Relacionados às Relações Interpessoais

Além das propriedades psicométricas já relatadas, buscou-se também avaliar diferenças entre as médias nos fatores entre grupos diferentes da amostra. Para tanto, inicialmente foram realizadas análises de invariância de medida por meio de Análises Fatoriais Confirmatórias Multigrupo (AFCM) entre homens e mulheres e entre participantes mais jovens (grupo entre 18 e 24 anos) e participantes mais velhos (grupo entre 25 e 30 anos). Em cada AFCM, foram testados três modelos de invariância na seguinte ordem hierárquica: configural, métrico e escalar. O teste de diferença de CFI (ΔCFI) avaliou a invariância de medida comparando o modelo configural ao modelo métrico e o modelo métrico ao modelo escalar. Valores do ΔCFI iguais ou inferiores a 0,01 são indicativos de invariância fatorial para o parâmetro avaliado (Brown, 2006Brown, T. A. (2006). Confirmatory factor analysis for applied research. New York: The Guilford Press.). Também foram analisados os resultados do teste qui-quadrado para comparação entre os três modelos, sendo valores de p > 0,05 indicativos de invariância da medida. A Tabela 4 apresenta os resultados das duas AFCM. Foi confirmada invariância da medida tanto para os dois gêneros (ΔCFIs ≤ 0,003) quando para os dois grupos etários (ΔCFIs ≤ 0,002).

Tabela 4
Modelos de Invariância de Medida Testados por meio de Análise Fatorial Confirmatória Multigrupo (AFCM) entre Diferentes Gêneros e Grupos Etários

Uma vez estabelecida a invariância de medida do instrumento entre grupos de diferentes faixas etárias e gêneros, foram realizados dois testes t de Student. No primeiro, foram comparadas as médias dos dois grupos etários (o grupo entre 18 e 24 anos e o grupo entre 25 e 30 anos). Não houve diferenças estatisticamente significativas entre as médias dos dois grupos para nenhum dos fatores. O segundo teste t foi realizado comparando as médias de ambos os sexos em cada fator. Como pode ser observado na Tabela 4, houve diferenças estatisticamente significativas em todas os fatores, com exceção de Companheirismo e Aliança Confiável, além do número de amigos. Em todos os casos, mulheres apresentaram médias superiores que os homens.

Tabela 5
Comparação de Médias entre Homens e Mulheres nas Diferentes Subescalas da Escala McGill-UFRGS

Discussão

A estrutura fatorial analisada mostrou-se adequada à população brasileira. Ela é baseada na estrutura fatorial original, porém, foi adicionado um fator que englobasse todos os fatores anteriores como forma de avaliar a qualidade das relações de amizade integralmente. Esse fator foi chamado de “Qualidade da Amizade”, visto que ele seria o somatório dos escores de todas as funções de amizade. Dessa forma, um grupo de amigos que preencher o maior número de funções terá uma maior qualidade na relação.

Em relação ao item no qual se pede aos respondentes que enumerem amigos, percebe-se que houve uma correlação positiva entre a quantidade de amigos e os escores nos fatores da escala. Esse resultado pode ser explicado pelo fato de que, quanto mais amigos a pessoa tiver em sua rede, mais provável que as funções de amizade sejam satisfeitas, visto que esta possui mais pessoas para contar nas diferentes situações e funções. Dessa forma, grupos de amigos com um número reduzido tem uma probabilidade menor de preencher todas as funções de amizade de forma satisfatória.

Em relação à comparação dos escores das escalas com outras variáveis, houve correlações positivas entre as habilidades sociais e os fatores da escala. Esse resultado demonstra a relação apontada pela literatura que pessoas com níveis adequados de habilidades sociais tendem a ter relacionamentos sociais com mais qualidade, além de estarem mais protegidos em situações de risco no qual precisam acessar a sua rede de apoio (Del Prette & Del Prette, 2017Del Prette, Z.A.P. & Del Prette, A. (2017). Competencia social e Habilidades Sociais. Manual Teórico - prático. Petrópolis: Vozes.; Pereira & Leme, 2018Pereira, A. S., & Leme, V. (2018). A importância das habilidades sociais nas relações interpessoais durante a adultez emergente. Em L, Dutra-Thomé, A. S. Pereira, S. I. Nuñez, & S. H. Koller. Adultez Emergente no Brasil: Uma Nova Perspectiva Desenvolvimental sobre a Transição para a Vida Adulta. São Paulo: Vetor Editora.).

Os resultados relacionados à ansiedade social também são semelhantes, visto que houve uma correlação negativa entre os escores de ansiedade social e os fatores da escala. Como apontado pela literatura (Caballo, 2003Caballo, V. E. (2003). Manual de avaliação e treinamento das habilidades sociais. São Paulo: Santos.; Pereira & Leme, 2018Pereira, A. S., & Leme, V. (2018). A importância das habilidades sociais nas relações interpessoais durante a adultez emergente. Em L, Dutra-Thomé, A. S. Pereira, S. I. Nuñez, & S. H. Koller. Adultez Emergente no Brasil: Uma Nova Perspectiva Desenvolvimental sobre a Transição para a Vida Adulta. São Paulo: Vetor Editora.), indivíduos com ansiedade social tendem a ter dificuldades nos relacionamentos interpessoais e baixas habilidades sociais, o que dificulta o desenvolvimento de seus relacionamentos interpessoais de forma satisfatória, tanto com amigos quanto com outras pessoas.

Os escores da escala também apresentaram correlações positivas com variáveis de autoconceito (autoestima e autoeficácia). Esses resultados demonstram que a qualidade dos relacionamentos de amizade tem um impacto positivo em como a pessoa se vê e se sente, o que corresponde às funções da amizade. Esses resultados também foram encontrados em outros estudos como o de Pereira, Dutra-Thomé & Koller (2018Pereira, A.S., Dutra-Thomé, L., & Koller, S.H. (2018) Propriedades psicométricas da escala multidimensional de expressão social parte motora (EMES-M) em uma amostra brasileira. Avaliação Psicológica, 17(1).).

As correlações encontradas entre habilidades sociais, ansiedade, autoestima e autoeficácia com os escores da Escala McGill-UFRGS são interessantes do ponto de vista psicométrico, visto que essas correlações são apontadas na literatura como existentes. Esses resultados apontam que o construto avaliado pela escala se comporta da forma como se espera que deve ocorrer e possui as mesmas relações estatísticas que a literatura aponta que devem existir, sendo assim uma forte evidência de validade convergente.

Em relação à comparação entre as médias de homens e mulheres, houve diferença significativa nas variáveis Segurança Emocional, Ajuda, Autovalidação e Intimidade, além da escala geral de qualidade da amizade, nas quais as mulheres apresentaram médias superiores. Esse resultado é sustentado pela literatura e foi encontrado em outros estudos (Souza, 2006Souza, L. K. (2006). Amizade em adultos: Adaptação e validação dos questionários McGill e um estudo de diferenças de gênero. Tese de Doutorado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil.; Souza & Hutz, 2007Souza, L. K. de, & Hutz, C. S. (2007). A qualidade da amizade: adaptação e validação dos questionários McGill. Aletheia, 25, 82-96.) e talvez esteja ligado à forma como pessoas de diferentes sexos avaliam as características de suas relações de amizade. Como esse resultado também foi encontrado em outros estudos, demonstra que a escala é sensível às diferenças entre sexos.

Considerações Finais

O objetivo deste trabalho foi desenvolver uma nova versão das Escalas McGill de funções da amizade, a qual foi chamada Escala McGill-UFRGS de Avaliação das Funções de Amizade na Rede de Amigos. Para tanto, foram realizadas adaptações da escala original com o objetivo de avaliar as funções de amizade do grupo de amigos, além de incluir um novo fator à estrutura fatorial já existente. Este estudo também avaliou as evidências psicométricas de validade, as quais apresentaram índices de ajuste aceitáveis, e as evidências psicométricas de confiabilidade, que se mostraram adequadas.

Em relação às limitações deste estudo, é preciso levar em conta que a amostra utilizada foi apenas de jovens entre 18 e 30 anos, assim, não existem dados que atestem a validade do instrumento e de seus fatores em pessoas fora dessa faixa etária. É preciso salientar também que a amostra utilizada neste estudo apresenta homogeneidade em suas características sociodemográficas. Sugerem-se novos estudos com amostras diversificadas para avaliar se a escala apresentará bons índices de ajuste em outros grupos.

Por fim, a escala McGill-UFRGS apresenta propriedades psicométricas adequadas, mostrando-se um instrumento que possibilita avaliar as funções da amizade no grupo de amigos como um todo. É indicada para uso em jovens brasileiros entre 18 e 30 anos em contexto de pesquisas.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    04 Mar 2021
  • Data do Fascículo
    Oct-Dec 2021

Histórico

  • Recebido
    23 Mar 2019
  • Revisado
    31 Jul 2020
  • Aceito
    14 Nov 2020
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