Resumo:
A psicologia profunda ora é caracterizada como o trabalho de arqueólogo, ora de escafandrista. Neste artigo, abordaremos as analogias efetuadas por Nise da Silveira entre o terapeuta/pesquisador e o universo aquático, notadamente a ideia de “mergulho” para o acompanhamento das séries de imagens do inconsciente. A metáfora do escafandrista está relacionada a cinco tópicos: organização de ambiente afetivo e estabelecimento de relações afetivas; a utilização de atividades expressivas; a fundamentação teórico-metodológica pautada na psicologia analítica; o reconhecimento de núcleos temáticos (mitologemas); e a personalidade integral do terapeuta/pesquisador.
Palavras-chave:
psicologia analítica; Jung; Nise da Silveira; psicologia profunda; escafandrista
Abstract:
Depth psychology is sometimes characterized as the work of an archaeologist, sometimes as a helmet diver. This study will approach the analogies by Nise da Silveira between therapists/researchers and the aquatic universe, notably the idea of “diving” to accompany the series of images of the unconscious. The metaphor of the helmet diver is related to five topics: organization of the affective environment and establishment of affective relationships; the use of expressive activities; the theoretical-methodological foundation based on analytical psychology; the recognition of thematic nuclei (mythologems); and the integral personality of therapists/researchers.
Keywords:
analytical psychology; Jung; Nise da Silveira; depth psychology; helmet divers
Résumé:
La psychologie des profondeurs est parfois qualifiée de travail d’archéologue, parfois de scaphandrier. Dans cet article, nous aborderons les analogies faites par Nise da Silveira entre le thérapeute/chercheur et l’univers aquatique, notamment l’idée de “plongée” pour accompagner la série d’images de l’inconscient. La métaphore du scaphandrier est liée à cinq thèmes: organisation de l’environnement affectif et établissement de relations affectives; l’utilisation d’activités expressives; le fondement théorique et méthodologique basé sur la psychologie analytique; la reconnaissance de noyaux thématiques (mythologèmes); la personnalité intégrale du thérapeute/chercheur.
Mots-clés:
psychologie analytique; Jung; Nise da Silveira; psychologie des profondeurs; scaphandrier
Resumen:
La psicología profunda se caracteriza muchas veces como el trabajo de un arqueólogo o como un escafandrista. En este artículo se abordan las analogías realizadas por Nise da Silveira entre el terapeuta/investigador y el universo acuático, en particular la idea de “buceo” para acompañar la serie de imágenes del inconsciente. La metáfora del eacafandrista se relaciona con cinco temas: organización del ambiente afectivo y establecimiento de relaciones afectivas; uso de actividades expresivas; fundamentación teórico-metodológica basada en la psicología analítica; reconocimiento de núcleos temáticos (mitologemas); y personalidad integral del terapeuta/investigador.
Palabras clave:
psicología analítica; Jung; Nise da Silveira; psicología profunda; escafandrista
Introdução
Os estudos das dinâmicas do inconsciente foram denominados por Eugen Bleuler pelo termo psicologia profunda (Ellenberger, 1970/1976; Jung, 1951/2011a). Em consonância com essa topologia psíquica, Sigmund Freud e Carl Gustav Jung se valeram de comparações entre a psicanálise e a psicologia analítica, respectivamente, com os modos de exploração empreendidos por arqueólogos2 e mergulhadores. Inicialmente, ao abordar a etiologia da histeria, Freud (1896/1996g) afirma que, para “aplicar o método de Breuer” (p. 190), é necessário que o paciente faça um trabalho retroativo, partindo do “seu sintoma até a cena na qual e pela qual o sintoma surgiu” (p. 191). Esse método é comparado ao trabalho de escavação de uma área em ruínas que revela os fragmentos e as riquezas de antigos monumentos. Um exemplo desse método encontra-se no caso Dora, em que Freud (1905/1996h) trabalha “como um arqueólogo consciencioso” (p. 24). Poucos anos depois, Freud (1907/1996a) analisa o romance Gradiva, de Wilhelm Jensen, no qual um arqueólogo dedica sua vida a recuperar os escombros de Pompeia. A obra analisada possui, também, a função de fortalecer a analogia entre os trabalhos de escavação do arqueólogo e de análise efetuado pelo psicanalista (Costa, 2018).
Apesar de compreender que há diferenças entre a reconstrução de ruínas arqueológicas e a reconstrução de processos psíquicos, a analogia é levada adiante. Freud (1915/1996b) traça o paralelo em que uma aldeia se transforma em cidade e uma criança em adulto, não sendo possível reconhecer de imediato nem a aldeia nem a criança, a não ser que se recorra à memória. Na cidade, as antigas construções da aldeia podem ter sido substituídas, pelo menos em parte, por outras. Na mente, no entanto, “cada etapa anterior de desenvolvimento persiste ao lado da etapa posterior dela derivada; aqui, a sucessão também envolve a coexistência” (p. 294). A diferença entre as mudanças ocorridas em uma cidade ao longo dos anos e a permanência dos conteúdos psíquicos é comparada com as alterações da cidade de Roma3 e os dinamismos da psique. A Cidade Eterna passou por inúmeras variações: Roma Quadrata no monte palatino, a federação das diferentes colinas (Septimontium), a cidade cercada pelo Muro de Sérvio e, posteriormente, a cidade no interior das muralhas levantadas a mando do imperador Aureliano, além das constantes mudanças que ocorrem no cotidiano de uma cidade moderna. Esse exemplo, contudo, demonstra, mais uma vez, uma diferença fundamental com a vida psíquica, na qual “nada do que uma vez se formou pode perecer” (Freud, 1930/1996c, p. 78). Na última vez que Freud (1937/1996d) apresentou a analogia entre as escavações de um arqueólogo e a psicanálise, afirmou que “os dois processos são de fato idênticos” (p. 277). A diferença anteriormente apontada é, na verdade, uma vantagem para o psicanalista, pois a permanência de todos os conteúdos psíquicos faz com que tenha mais material para o processo de reconstrução.
Nesse trabalho de escavação, o psicanalista traz à tona material reprimido, mas, como “é possível duvidar de que alguma estrutura psíquica possa realmente ser vítima da destruição total” (Freud, 1937/1996d, p. 277-278), a reconstrução psicanalítica pode chegar em camadas ainda mais profundas, à “aquisição filogenética de cada indivíduo – a sua herança arcaica” (Freud, 1923/1996e, p. 49). Nesse ponto, há a suposição de que não apenas os conteúdos psíquicos individuais permaneçam, mas, também, os “traços de memória da experiência de gerações anteriores” (Freud, 1939/1996f, p. 113). A memória que ultrapassa as vivências individuais aponta para a possibilidade da origem filogenética de determinados conteúdos. Nas metáforas freudianas, o psicanalista revolve os sítios arqueológicos, escavando e reconstruindo o material que se encontrava soterrado. De acordo com Nise da Silveira (1981), Freud empreendeu uma verdadeira arqueologia da psique4.
As metáforas junguianas de profundidade, por sua vez, relacionam a psique ao universo aquático: lago ou mar. A superfície de um lago reflete a imagem de quem a observa. Isso não impede, no entanto, que essa superfície esconda “profundezas desconhecidas, obscuras e misteriosas” (Jung, 1943/2011b, p. 113). O mesmo pode ser dito em relação aos oceanos: “O mar é o símbolo do inconsciente coletivo porque sob sua superfície espelhante se ocultam profundidades insondáveis” (Jung, 1944/2011c, p. 60). Assim, as metáforas aquáticas, principalmente as marítimas, supõem a presença de conteúdos profundos e dinâmicos, apontando outras possibilidades de se conceber o campo inconsciente, notadamente para a base coletiva: “mar significa invariavelmente um lugar de concentração e origem de toda a vida psíquica, portanto o chamado ‘inconsciente coletivo’” (Jung, 1935/2011d, p. 23).
Na concepção de Jung (1934/2011e), os conteúdos inconscientes se apresentam, muitas vezes, como imagens arquetípicas. Nesse caso, não se trata de material reprimido, mas de uma produção própria das estruturas do inconsciente coletivo: os arquétipos. Sendo assim, a concepção de Jung difere da proposta freudiana de manutenção de todos os conteúdos. As imagens do inconsciente, de acordo com Jung (1911-1912/2011f), são passíveis de transformação. A metáfora marinha condiz com essas proposições, pois, no mar, encontram-se inúmeras espécies e a vida se produz de maneira incessante.
Esses conteúdos, no entanto, podem ser desconhecidos e, muitas vezes, tidos como perigosos. Dessa maneira, as águas do mar servem de paralelo para o confronto entre o eu e os conteúdos inconscientes. Trata-se da viagem marítima noturna, que sintetiza diversos mitos em que o herói solar enfrenta os perigos da noite para renascer na manhã seguinte (Jung, 1911-1912/2011f).
A partir das concepções de Jung (1944/2011c, 1935/2011d), o mar do inconsciente, o mare nostrum dos alquimistas (Jung, 1941/2011g), é o manancial de imagens simbólicas que devem ser acompanhadas no processo psicoterapêutico. O mergulho nas profundezas abissais do mar pode ser temerário. Isso não se faz sem treinamento e equipamentos adequados. Nesse mergulho, o terapeuta deve estar preparado. Dessa maneira, vários procedimentos são necessários: estudos sistemáticos, supervisão, participação em congressos e estar em análise. As potencialidades e fragilidades de um terapeuta devem ser trabalhadas: “esta é uma coisa muito perigosa, e a menos que você seja um mergulhador equipado com escafandro você pode virar um cadáver” (Jung, 1938/2014, p. 206).
A psicologia profunda ora é caracterizada como o trabalho de arqueólogo, ora de escafandrista. Neste artigo, abordaremos as analogias efetuadas por Nise da Silveira (1977/2009a, 1993/2009b, 1995/2009c, 2021) entre o terapeuta/pesquisador e o universo aquático, notadamente a ideia de “mergulho” para o acompanhamento das séries de imagens do inconsciente. A metáfora do escafandrista está relacionada a cinco tópicos: (1) organização de ambiente afetivo e estabelecimento de relações afetivas; (2) a utilização de atividades expressivas; (3) a fundamentação teórico-metodológica pautada na psicologia analítica; (4) o reconhecimento de núcleos temáticos (mitologemas); (5) a personalidade integral do terapeuta/pesquisador.
O mar do inconsciente
Os seres humanos vivem em ambiente terrestre e, também, imersos na atmosfera. O ar que nos circunda é essencial para a manutenção da vida e a experiência em ambientes acima ou abaixo da atmosfera – espaço sideral e meios subaquáticos – apresentam-nos dificuldades extremas. No entanto, essas dificuldades são diversas: “diferentemente da suspensão no espaço sideral, que é determinada pela ausência de pressão, a suspensão subaquática envolve um aumento progressivo de pressão conforme os mergulhadores submergem” (Simonetti, 2018, p. 140).
A conquista da profundidade fascinou a muitos: pinturas retratam Alexandre, o Grande submergindo nos mares da Macedônia (século IV a.C.) dentro de um cilindro, sendo segurado pelos marinheiros através de cordas (Torres, 2022); Aristóteles (335 a.C./2004) descreve diversas maneiras que os pescadores de esponja da Grécia Antiga (século IV a.C.) utilizavam para ampliar a capacidade de respiração, entre as quais, um artefato similar a um caldeirão que, colocado na cabeça, ficava pleno de ar; e, articulando arte e ciência, Leonardo da Vinci (século XV) desenha uma roupa de mergulhador feita de couro, com dois tubos flexíveis que boiariam na superfície das águas com o auxílio de cortiças e chegariam na máscara do possível mergulhador (Pacchiana & Salmoiraghi, 2019). Essas e outras histórias da exploração das profundezas aquáticas são permeadas por dúvidas e engenhosidades: Como transformar o ambiente subaquático em local seguro para quem se aventura nas investigações do universo marinho? Como suportar a pressão que aumenta de maneira proporcional à descida? Como garantir o retorno à superfície? Para responder a essas questões, foram criados o sino de mergulho, o escafandro e o mergulho autônomo.
O sino de mergulho se caracteriza como uma câmara rígida, suspensa por um cabo e com uma abertura no fundo, fazendo com que a pressão da água mantenha o ar no interior do artefato (Torres, 2022). Nesse caso, o mergulhador fica restrito ao espaço que contém o ar e garante a respiração. Certas situações, no entanto, exigiam maior mobilidade do mergulhador. Dessa maneira, o sino de mergulho é simplificado para uma roupa com um capacete ligado a cilindros de ar comprimido renovável que ficavam na superfície. Trata-se do escafandro que, apesar do peso do capacete de cobre e das botas de metal, garantia maior mobilidade5 ao mergulhador de águas profundas (Siebe, 1959).
Como podemos perceber, no sentido denotativo, escafandro é uma vestimenta de mergulho hermeticamente fechada, quase uma armadura, que permite ao mergulhador resistir à letal pressão da água durante a realização de algum trabalho nas profundezas aquáticas, permanecendo ligado à superfície por meio de um duto respiratório. Mas, na obra de Nise da Silveira (1977/2009a, 1995/2009c, 2021), o escafandro surge como metáfora, um termo de comparação (Jung, 1921/2011h), um como se (Vaihinger, 1911/2011). Mesmo não estando presente em seus livros, os termos escafandro e seu correlato escafandrista eram fartamente utilizados no cotidiano de trabalho, sendo citados em entrevistas: “digo às pessoas que aparecem aqui, e querem estudar alguma coisa comigo: comprem um escafandro! Porque você não poderá entender a psique, o processo da doença, da perturbação que ocorre no mundo interno se você não desce até o fundo [ênfase adicionada]” (Silveira, 1977/2009a, p. 139).
Qual é o motivo para a recomendação de vestir um escafandro? Por que um terapeuta/pesquisador deve ser um escafandrista? Se, como afirma Jung (1944/2011c), o símbolo do mar se caracteriza como “sinônimo do inconsciente” (p. 203) e há o perigo de ser arrastado pelas correntes marinhas, de atravessar tempestades inesperadas, ter que enfrentar o mar revolto e, talvez, se deparar com monstros, quem se aventura nessas profundezas deve se proteger. Nise da Silveira (1992) afirma que as pessoas encerradas no hospital psiquiátrico se encontravam também aprisionadas no mundo das imagens, sendo difícil o retorno aos parâmetros da vida cotidiana: “voltar de mergulho profundo no inconsciente, não é coisa fácil, sobretudo quando faltam relação afetiva e compreensão” (p. 142). E reafirma: “De qualquer modo a volta será sempre difícil, muitas vezes impossível” (Silveira, 1981, p. 42).
As imagens do inconsciente podem, portanto, aprisionar. Assim, o espaço se subverte, o tempo paralisa ou se repete de maneira cíclica, acontecem vivências de metamorfose, os temas míticos, muitas vezes, prevalecem (Silveira, 1968, 1981, 1992). Olívio, por exemplo, pinta imagens com diversos temas marítimos. Inicialmente, no muro do hospital faz, com um prego, um peixe engolindo um homem. Quando passa a frequentar o ateliê de pintura, configura imagens de descida às profundezas do mar. As figuras humanas vivem no fundo do mar, em meio a seus habitantes usuais e outros imaginários: peixes, baleias e sereias. Na série de imagens do inconsciente, não há indícios de saída dessa morada aquática. Olívio parece resignado “aos poderes do inconsciente abandonando a luta pela reconquista da consciência” (Silveira, 1981, p. 202).
Por um longo período, a situação permanece a mesma, sem nenhum sinal que aponte um possível retorno à superfície. No entanto, a capacidade criativa, inerente aos dinamismos psíquicos, se apresenta de maneira súbita na produção de Olívio. Em meio às imagens marítimas, da vida que se passa no fundo do mar, surge um grande pássaro que resgata uma criança das águas e, em seguida, a coloca a salvo em terra firme, demonstrando uma nova “tendência a sair do grande útero mar-inconsciente” (Silveira, 1981, p. 205).
A metáfora do escafandro
As enfermarias e pátios dos hospitais psiquiátricos mostram, invariavelmente, cenas de seres humanos com aspecto degradado: pessoas andando a esmo, outras completamente isoladas, com o olhar perdido, balbuciando frases desconexas ou em absoluto mutismo, vestidas com o uniforme da instituição, quando não completamente nuas. Os registros nos prontuários fazem parte desse triste cenário e enfatizam os diagnósticos e seus sintomas mais severos: desorientação no espaço e no tempo, embotamento afetivo, desorganização do curso do pensamento, degeneração da personalidade, perda das funções psíquicas superiores. Esses tipos de anotações refletem e contribuem para a reiteração dos acontecimentos cotidianos.
As observações de Jung (1907/2011i) apontam outras perspectivas, pois considera, por exemplo, que o embotamento afetivo é aparente, pois, em sua concepção, todos os sintomas apresentados são expressões de complexos de tonalidade afetiva. Nesse sentido, Nise da Silveira (1981) afirma que propôs atividades que pudessem revelar o mundo interno e suas “insuspeitadas riquezas” (p. 11). Muitas vezes, as imagens do inconsciente apresentam aspectos desconhecidos e insondáveis, sendo necessário criar condições favoráveis, difíceis de serem encontradas em um hospital psiquiátrico. Dessa maneira, foram organizadas diversas atividades, possibilitando a criação de ambiente afetivo. Além disso, foram estimuladas as relações entre os monitores e os frequentadores dos ateliês, pois “dificilmente qualquer tratamento será eficaz se o doente não tiver ao seu lado alguém que represente um ponto de apoio sobre o qual ele faça investimento afetivo” (p. 68).
O ambiente e as relações afetivas favorecem, portanto, a expressão das imagens do inconsciente, que carregam em si grande carga emocional. Do ponto de vista psicológico, vivemos em um mundo pautado pelas percepções através dos sentidos e pela atenção dispensada pela consciência. Há, ainda, conteúdos que são captados de maneira subliminar e outros que entram em conflito com a consciência, sendo reprimidos. Sem negar esses dinamismos psíquicos, Jung (1944/2011c, 1912/2011j, 1928/2011k) propõe que sejam levados em consideração os aspectos criativos da psique. Nesse sentido, as vivências emocionais mobilizam a psique em sua totalidade e, ao não serem compreendidas de maneira consciente, o campo inconsciente produz imagens simbólicas que precisam ser reconhecidas, compreendidas e integradas (Jung, 1958/2011l).
Na abordagem de Nise da Silveira (1981, 1992), o acompanhamento da série de imagens do inconsciente faz parte das atribuições do terapeuta/pesquisador: “a pintura como método de pesquisa, a pintura como método de tratamento [ênfase adicionada]” (Silveira, 1976-1977/2009d, p. 60). Dessa maneira, o afeto que permeia o ambiente e as relações favorece a expressão das imagens do inconsciente, que devem ser acompanhadas em série por um escafandrista, alguém aparelhado com recursos adequados para suportar a carga emocional vinda da esfera inconsciente e que se apresenta como “uma imagem oriunda lá do fundo do ser, onde você está com seu escafandro [ênfase adicionada]” (Silveira, 1977/2009a, p. 141).
Os artistas podem proporcionar parâmetros para o escafandrista saber como entrar em contato com temas que, muitas vezes, afligem a humanidade e conseguir retornar ileso (Silveira, 1992). Como Picasso lida com a destruição de Guernica em Guernica? Como Marino Marini lida com os terrores de uma guerra mundial e a possibilidade de fim do mundo e, apesar do medo, segue em frente? E, mais que isso, além de se manterem íntegros, esses e outros artistas produziram belezas que ajudaram a reconstruir o mundo que presenciaram em destruição. O impacto que as imagens do inconsciente causam em quem as configuram, mas também nos profissionais que fazem o acompanhamento desse material, caracterizam esse tipo de produção – pinturas, desenhos e modelagens – como “um escafandro na viagem pelo inconsciente [ênfase adicionada]” (Silveira, 2021, p. 29). A pintura como escafandro favorece o contato com as imagens buscando frear os rompantes emocionais, despotencializar a carga emocional e diminuir a invasão da consciência pelos conteúdos do inconsciente (Silveira, 1981).
Na tentativa de compreender os dinamismos da psique, Nise da Silveira (1981) sempre buscou a fundamentação teórico-metodológica. A psicologia analítica foi, sem dúvida, a principal ferramenta para a consolidação do estudo das séries de imagens do inconsciente: “O mais importante acontecimento ocorrido nas minhas buscas de curiosa dos dinamismos da psique foi o encontro com a psicologia junguiana” (p. 11). Nessa perspectiva, as imagens simbólicas se apresentam como configurações da energia psíquica (Jung, 1928/2011m), passíveis de transformação (Jung, 1911-1912/2011f).
A psicologia analítica se configura, portanto, como um importante instrumento de trabalho, possibilitando o acompanhamento dos desdobramentos dos profundos dinamismos, a partir do reconhecimento dos núcleos temáticos. A base teórica funciona como um artefato que permite as pesquisas em profundidade, como se o próprio arcabouço teórico-conceitual se assemelhasse aos equipamentos de mergulho: “um instrumento chamado Jung, porque ele ia mais fundo, não ficava só nos problemas pessoais que decerto existiam, optando antes pelas funduras incríveis da psique [ênfase adicionada]” (Silveira, 1987/2009e, p. 93-94).
As imagens pintadas, desenhadas e modeladas são catalogadas, guardadas e estudadas em longas séries, evidenciando os desdobramentos dos dinamismos da psique. Para não se perder na profusão de imagens e não ser tragado pelos seus conteúdos emocionais, o escafandrista precisa reconhecer os núcleos temáticos (mitologemas), de base arquetípica. Dessa maneira, os estudos de temas culturais, como as mitologias, são de extrema importância e favorecem a produção de sentido, como um manancial que resguarda a consciência. No primeiro encontro de Nise da Silveira (1981) com Jung, o médico suíço recomendou o estudo da mitologia como forma de compreender a produção dos frequentadores dos setores de atividades expressivas. O que surge, no entanto, não são relatos míticos completos, mas temas míticos condensados: “Não é o mito inteiro não. São coisas estranhíssimas, fragmentos de mitos que por sua vez não são outra coisa senão condensações de experiências humanas onde o mundo interno e o mundo externo se encontram [ênfase adicionada]” (Silveira, 1987/2009e, p. 101). O reconhecimento de núcleos temáticos possibilita “frestas abertas no inconsciente, mais ou menos profundas” (p. 93).
O conhecimento sobre temas mitológicos deve fazer parte da prática cotidiana como um instrumento de trabalho. Não se trata, portanto, de extravagância intelectual ou mera erudição (Silveira, 1981), pois, em sua concisão e abrangência, os mitologemas apresentam-nos mistérios (Kerényi, 1976/2002, 1946/2019). O mito é pleno de sentido e, mais ainda, doador de sentido, seja em seus aspectos psicológicos ou sociais (Kerényi, 1940/2011). O sentido que lhe é inerente e se espalha no mundo coloca-se frente ao desconhecido, ou seja, descortina os aspectos inconscientes (mas não os desnudam), inserindo o ser humano em narrativas que precisam de um aparato para que possamos compreendê-las de maneira ontológica e epistemológica. Ao entrar em contato com esses mistérios míticos, aquele que narra a história – aedo, romancista, cineasta, pintor ou terapeuta (nesse caso, junguiano) – deve se proteger com o sino de mergulho ou com o escafandro.
O método de trabalho desenvolvido por Nise da Silveira (1981, 1992) não se restringe à adesão a um modelo teórico, pois, além de levar em consideração os aspectos emocionais (afetivos), a organização de atividades expressivas, a fundamentação teórico-metodológica e o estudo de aspectos culturais (como a mitologia), é necessário que o escafandrista aborde os fenômenos do campo inconsciente, levando em consideração os aspectos inerentes a sua personalidade. Os estudos sistemáticos fazem parte do cotidiano de trabalho de um escafandrista, mas a intelectualidade não compõe a totalidade dos aparatos de um mergulhador do mar do inconsciente. O acompanhamento da série de imagens do inconsciente necessita de fundamentos teórico-metodológicos, mas também da personalidade do terapeuta/pesquisador de maneira integral: “a pessoa humana de cada um, a sensibilidade, a intuição, são qualidades preciosas” (Silveira, 1981, p. 67).
Na concepção de Jung (1935/2011d), o terapeuta/pesquisador se coloca numa relação dialética que inclui a sua personalidade, ou seja, os conteúdos abordados na psicoterapia, muitas vezes, atingem aspectos psicológicos do terapeuta, caracterizando-a como um processo de reflexão sobre os conteúdos das duas personalidades envolvidas. Ao levarmos em consideração que o terapeuta se encontra imerso no processo terapêutico (Jung, 1946/2011n), é necessário que ele se reconheça como um curador-ferido (Groesbeck, 1983; Guggenbühl-Craig, 1987/2004). Nesse sentido, o mergulhador de águas profundas deve ser cauteloso e utilizar o equipamento necessário: o escafandro.
Considerações finais
Nise da Silveira (1987) é reconhecida como uma das mais importantes pesquisadoras do país, notadamente da psicologia (Melo, 2001a, 2001b, 2011a, 2011b, 2021). As instituições por ela criadas – Museu de Imagens do Inconsciente e Casa das Palmeiras – são fundamentais para os campos da saúde mental, da psicologia e das artes (Cruz Jr., 2009, 2015; Magaldi, 2014, 2020; Mello, 2014; Melo, 2005, 2009a) e se caracterizam como espaços livres de formação profissional e científica (Melo & Ferreira , 2013). Esse esforço institucional, teórico, artístico e pedagógico é permeado por noções que foram introduzidas a partir do cotidiano de trabalho. Na construção do discurso na obra de Nise da Silveira, a metáfora do escafandrista é fundamental para a caracterização do terapeuta/pesquisador.
Como o termo escafandrista não foi desenvolvido ao longo da obra de Nise da Silveira, mas ganhou centralidade em diversas entrevistas, procuramos apreender os modos como o escafandro foi sendo composto. Dessa maneira, a psicologia profunda, que leva em consideração os fenômenos inconscientes, é relacionada às profundezas abissais do mar (inconsciente coletivo) e, para lidar com os dinamismos da psique e suas tonalidades afetivas, são necessários alguns aparatos que protejam o terapeuta/pesquisador: o ambiente e as relações terapêuticas devem estar pautados no afeto, as atividades de livre expressão favorecem a configuração de imagens de grande carga emocional, deve-se buscar um arcabouço teórico-metodológico coerente com os dois tópicos anteriores (neste caso, a psicologia analítica), os aspectos culturais, como a mitologia, são essenciais para a compreensão das séries de imagens do inconsciente e o escafandrista deve estar imerso no processo de tratamento/pesquisa de maneira integral.
Consideramos, por fim, que os argumentos apresentados por Nise da Silveira (1981, 1992) ao longo de sua obra são fundamentais para o movimento de Reforma Psiquiátrica6 e contribuíram para a transformação das instituições de tratamento. O método desenvolvido por Nise da Silveira (Melo, 2022; Silveira, 2022) e a construção do discurso que efetuou no contexto dos variados setores de atividades são essenciais para o fortalecimento da atenção psicossocial, pautada no diálogo entre os profissionais (Baeta & Melo, 2020; Melo & Melo, 2022) e no território como espaço de ação humana (Cézar & Melo , 2018; Santos, 2002/2005).
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1
Este artigo integra os resultados da pesquisa “A construção do discurso na obra de Nise da Silveira: relatórios, livros, roteiros de filmes e entrevistas”, financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG).
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Nise da Silveira (1968, 1981) nos apresenta a analogia freudiana entre a psique e um sítio arqueológico a partir do seguinte itinerário de leituras: A etiologia da histeria, de 1896; Fragmentos de um caso de histeria (caso Dora), de 1905; Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen, de 1907; Reflexões para os tempos de guerra e morte, de 1915; O mal-estar na civilização, de 1930; e Construções em análise, de 1937.
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3
Em Roma, a destruição causada por diversos fatores possibilita o reconhecimento de fragmentos e os monumentos se transformam em ruínas. Apenas em raras oportunidades, como no caso de Pompeia, o arqueólogo contará com material suficiente para proceder a reconstrução.
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4
Nise da Silveira (1981) diz que, além de Freud, a arqueologia da psique foi praticada por Jung. Só que “em dimensões até então ainda não realizadas” (p. 255). Isso se deve ao fato de Jung levar em consideração as imagens arquetípicas em seus estudos do dinamismo da psique. Dessa maneira, ela incorporou o termo às suas concepções, e partiu do seguinte princípio: “Pesquisas arqueológicas e pesquisas psicológicas são trabalhos paralelos feitos em áreas diferentes” (p. 253).
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Em 1946, Émile Gagnan e Jacques-Yves Cousteau acoplaram o cilindro ao corpo do mergulhador, que passou a usar nadadeiras e máscara, caracterizando o “mergulho autônomo ou scuba, acrônimo de ‘dispositivo para respiração subaquática autocontido’ [‘self-contained underwater breathing apparatus’]” (Simonetti, 2018).
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6
Ao considerarmos que os argumentos de Nise da Silveira são fundamentais para o movimento de Reforma Psiquiátrica, enfatizamos a relevância de sua obra para possíveis arranjos institucionais e de organização de equipe em que sejam levados em consideração os desdobramentos intrapsíquicos e a inserção do sujeito em tratamento em grupos e na sociedade. A abordagem desenvolvida por Nise da Silveira pode ser implementada, por exemplo, em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e em Centros de Convivência. Mesmo reconhecendo que há aproximação entre a obra de Nise da Silveira e os pressupostos da Reforma Psiquiátrica, notadamente na contraposição às práticas e instituições manicomiais, não estamos afirmando que as diretrizes e práticas reformistas estejam fundamentadas nos trabalhos desenvolvidos no Museu de Imagens do Inconsciente e/ou na Casa das Palmeiras. Isso se deve principalmente ao fato de sua obra ser pouco estudada entre os trabalhadores do campo da saúde mental, apesar de seu nome ser enaltecido (Melo, 2005; Melo & Ferreira, 2013). Dessa maneira, ela é tida como uma pioneira da Reforma Psiquiátrica, garantindo a manutenção de seu nome, ao mesmo tempo em que as suas ideias são relegadas ao segundo plano (Melo, 2009b), caracterizando um processo de “silenciadas assimetrias” (Magaldi, 2018, p. 187).
