Open-access A trajetória das conjugalidades nas narrativas de mulheres lésbicas idosas

Conjugality in the narratives of older lesbian women

La trajectoire des conjugalités dans les récits des lesbiennes âgées

La trayectoria de las conyugalidades en las narrativas de mujeres lesbianas ancianas

Resumo:

Apesar de trabalhos sobre homossexualidade na velhice estarem em ascensão, ainda há uma lacuna sobre a conjugalidade na velhice lésbica. Este estudo teve como objetivo compreender os sentidos das relações conjugais ao longo da vida e o envelhecer para mulheres lésbicas idosas. A partir da análise temática de oito entrevistas narrativas, foi possível identificar cinco linhas temáticas: (1) Trajetórias conjugais e reconhecimento das sexualidades: fluidez ou binarismo?; (2) O primeiro relacionamento lésbico: características, inícios e términos; (3) Outros tempos e cidades: a vivência lésbica na ditadura; (4) Família, amigos(as) e filhos(as): entre o segredo e o apoio; (5) O corpo e o exercício da sexualidade no envelhecimento; e (6) Cuidados no envelhecimento: saúde, amigos(as), finitude, casamento, relações atuais e família. Suas vivências e reflexões sobre conjugalidade e envelhecimento combatem a visão de um padrão da velhice lésbica e se contrapõem ao estereótipo social negativo da velhice.

Palavras-chave:
relacionamento conjugal; idosos; lésbica; envelhecimento

Abstract:

Despite a rising publication of studies on homosexuality in older adults, there is still a gap about conjugality on lesbian elders. This study investigated the meanings of marital relations throughout life and aging for older lesbian women. The thematic analysis of eight narrative interviews identified five thematic lines: (1) Marital trajectories and recognition of sexualities: fluidity or binarism?; (2) The first lesbian relationship: characteristics, beginnings and endings; (3) Other times and cities: the lesbian experience during the dictatorship; (4) Family, friends and children: between secrecy and support; (5) The body and sexuality in aging and (6) Care in aging: health, friends, finitude, marriage, current relationships and family. Their experiences and reflections on conjugality and aging combat the view of a standard lesbian old age and oppose the negative social stereotype of old age.

Keywords:
marital relationship; seniors; lesbian; aging

Résumé :

Malgré la multiplication de travaux sur l’homosexualité chez le personne âgé, il existe encore un décalage à l’égard de la conjugalité chez les lesbiennes âgées. Cette étude explore les significations des relations conjugales tout au long de la vie et du vieillissement pour les lesbiennes âgées. L’analyse thématique de huit entretiens narratifs a identifié cinq axes thématiques : (1) Les trajectoires conjugales et la reconnaissance des sexualités : fluidité ou binarisme ?’; (2) La première relation lesbienne: caractéristiques, débuts et fins ; (3) D’autres temps et villes : l’expérience lesbienne sous la dictature ; (4) La famille, les amis et les enfants : entre le secret et l’appui ; (5) Le corps et la sexualité dans le vieillissement et (6) Soins à la vieillesse: la santé, les amis, la finitude, le mariage, les relations actuelles et la famille. Leurs expériences et leurs réflexions sur la conjugalité et le vieillissement combattent la vision d’un modèle de vieillesse lesbienne et s’opposent au stéréotype social négatif de la vieillesse.

Mots-clés :
relation conjugale; aînés; lesbienne; vieillissement

Resumen:

Aunque los trabajos sobre la homosexualidad en la vejez van en aumento, aún existe una brecha sobre la conyugalidad en la vejez lesbiana. Este estudio tuvo como objetivo comprender los significados de las relaciones conyugales a lo largo de la vida y el envejecimiento de mujeres lesbianas ancianas. A partir del análisis temático de ocho entrevistas narrativas, fue posible identificar cinco líneas temáticas: (1) Trayectorias conyugales y reconocimiento de las sexualidades: ¿Fluidez o binarismo?; (2) La primera relación lésbica: Características, inicios y finales; (3) Otros tiempos y ciudades: La experiencia lesbiana bajo la dictadura; (4) Familia, amigos(as) e hijos(as): Entre el secreto y el apoyo; (5) El cuerpo y el ejercicio de la sexualidad en el envejecimiento; y (6) Cuidados en el envejecimiento: Salud, amigos(as), finitud, matrimonio, relaciones actuales y familia. Estas experiencias y reflexiones sobre la conyugalidad y el envejecimiento permiten combatir la visión de un modelo de la vejez lesbiana y se oponen al estereotipo social negativo de la vejez.

Palabras clave:
relación matrimonial; ancianos; lesbiana; envejecimiento

Introdução

A vivência da velhice, atualmente, traça formatos inéditos em comparação com as experiências de idosos poucas décadas atrás. A difusão de informações e os alcances da mídia nunca estiveram tão presentes (Debert, 2012). As discussões sobre a sexualidade na velhice tomam mais espaço e adquirem um novo olhar, que procura desmistificar o estigma instaurado sobre a pessoa idosa como assexuada. Os esforços voltados a proporcionar uma velhice positiva e inclusiva com mais visibilidade são expressivos. No entanto, apesar da atenção crescente para esses assuntos, há um apagamento considerável de discussões que tragam em pauta o envelhecimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), expondo uma lacuna na literatura sobre a identidade de gênero e sexualidade da comunidade LGBT idosa que se acentua quando se trata de mulheres (Henning, 2014; Debert & Brigeiro, 2012; Dantas 2020).

Mais especificamente sobre a homossexualidade feminina, percebe-se um aumento nos trabalhos acadêmicos que se debruçam sobre suas especificidades, mas que em grande parte abordam uma faixa etária mais jovem, denotando ainda uma carência de um olhar específico voltado para a mulher homossexual idosa (Alves, 2010). Nesse recorte, o impacto geracional torna-se ainda maior, levando em conta a rapidez com a qual as mudanças sociais aconteceram nas últimas décadas (Alves, 2010).

Ainda, os diferentes contextos surtem efeito sobre as configurações das interações sociais, conforme tem ocorrido com a concepção das relações conjugais, que ganhou novos contornos na contemporaneidade. Os relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo passaram a receber maior apoio social e legal, sendo que atualmente o casamento torna-se uma possibilidade, contrastando com a vivência e expectativas de casais gays em um passado não tão distante (Luz & Gonçalvez, 2018). Assim, abordar a conjugalidade LGBT é reconhecer que essa é uma realidade atual e recente, e que resulta de políticas e movimentos travados por todo o mundo. Contudo, admitir sua existência não ameniza seus enfrentamentos. Colocar em pauta as situações de hostilidade, preconceito, invisibilização e vivências significa manifestar a importância do assunto (Grossi, Uziel & Mello, 2007).

Tendo em vista que as experiências conjugais e as expressões da sexualidade não findam com o advento da idade, os relacionamentos amorosos são um aspecto de destaque. Para a pessoa idosa, as relações precedem toda uma bagagem que envolve seu percurso e suas experiências amorosas ao longo da vida (Fernandes-Eloi, Dantas, Sousa, Cerqueira-Santos & Maia, 2017; Araújo & Carlos, 2018). Nesse sentido, para mulheres mais velhas que vivem relacionamentos lésbicos, a oportunidade de contar sua história de vida afetiva é tida como uma chance de dar sentido a suas memórias e apropriarem-se de suas narrativas (Alves, 2010; Almeida & Heilborn, 2008).

Considerando a necessidade de mais estudos brasileiros sobre a homossexualidade feminina na velhice, somado aos estereótipos negativos que envolvem essa fase da vida (Araújo & Carlos, 2018; Henning, 2017), é importante conhecer mais sobre o assunto, investigando desde suas primeiras experiências amorosas até o presente, as relações sociais e as transformações decorrentes do processo de envelhecimento. Sendo assim, o objetivo deste estudo foi compreender os sentidos das relações conjugais ao longo da vida e o envelhecer para mulheres lésbicas idosas.

Método

Trata-se de uma pesquisa qualitativa de caráter exploratório. Para sua execução, foram realizadas entrevistas narrativas. No total, contou com oito participantes, entre 61 e 74 anos, que tiveram experiências conjugais com outras mulheres. Elas eram brancas, com exceção de uma, que se considera parda. Quatro trabalham no campo da psicologia, três são professoras entre ensino básico e superior, e uma é dentista. Três estão aposentadas, mas continuam trabalhando. Suas rendas variavam entre quatro e dez salários mínimos. Três moravam sozinhas, cinco moravam com suas esposas. Três eram solteiras (uma delas está em um relacionamento) e as outras participantes eram casadas. A maioria relata ter tido relações heterossexuais durante a vida, enquanto somente uma afirmou ter tido apenas relações homossexuais. Três participantes tinham filhos de relacionamentos heterossexuais e uma tem um filho adotivo com sua esposa.

A entrevista narrativa consiste em um método que encoraja e estimula a fala dos participantes a construírem suas narrativas a partir de suas perspectivas (Jovchelovitch & Bauer, 2002; Clandinin & Connelly, 2000). Nessa abordagem, não há um roteiro preestabelecido, contudo existem etapas a serem seguidas, que consistem em: (1) preparação ‒ exploração do campo pesquisado, a fim de subsidiar a entrevista e servir de apoio; (2) iniciação ‒ apresentação do tópico disparador da narração, que nesse caso consistiu na pergunta “Conte-me sobre seus relacionamentos conjugais ao longo da vida até o momento atual”; (3) narração central ‒ a fala corrida das participantes, na qual deve-se evitar interrupções e manter uma escuta atenta; (4) perguntas para esclarecimentos acerca do que foi contado pela entrevistada, caso necessário e (5) a fala conclusiva (Jovchelovitch & Bauer, 2002). Após encerradas todas as etapas da entrevista, buscou-se dados sociodemográficos (idade, escolaridade, renda, profissão, com quantas pessoas mora, local de nascimento, local onde mora, orientação sexual, cor ou raça e religião) para contextualização do perfil das participantes.

Considerando que a pesquisa aconteceu em meio à pandemia de covid-19, ela ocorreu no formato online. O contato inicial com possíveis participantes foi realizado por meio de redes sociais e o convite de participação da pesquisa foi feito por meio do WhatsApp. As entrevistas aconteceram via Skype, em locais com ambiente reservado. Elas foram gravadas com autorização das participantes, após terem sido devidamente esclarecidas sobre a pesquisa e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética da instituição à qual se vinculam os autores deste artigo. A duração das entrevistas variou entre 40 minutos até uma hora e 45 minutos, as quais foram transcritas na íntegra. Para efeitos textuais, possibilitando a apresentação dos resultados sem expor a identidade das participantes, foram dados nomes fictícios a cada uma.

O material foi examinado por meio da análise temática, sob o olhar do Construcionismo Social. Assim, entende-se que o foco analítico passa a ser não somente o esquema linguístico entre falante e ouvinte, mas também a construção social mais ampla que permeia as relações sociais e interpessoais. Essa abordagem é orientada a partir do pressuposto de que as narrativas são expressões que derivam do coletivo, e não somente dos estados internos dos indivíduos, entendendo a própria narrativa como um fenômeno social (Esin, Fathi, & Squire, 2014).

Metodologicamente, a análise dos depoimentos buscou entender os temas que unificam histórias de acordo com suas semelhanças. O processo da análise temática envolve a busca por padrões repetidos de significados em um constante movimento de vai-e-vem, com leituras e releituras do material até que a análise esteja finalizada (Braun e Clarke, 2006). Para a organização do processo analítico, foram seguidas as seis fases sugeridas por Braun e Clarke (2006): (1) Familiarização com os dados ‒ mergulhar profundamente nas entrevistas com o intuito de se aprofundar em seus conteúdos; (2) Geração dos códigos iniciais ‒ produção de códigos a partir do material das entrevistas; (3) Busca por temas ‒ etapa que envolve a triagem de todos os códigos gerados e os possíveis temas que podem compor; (4) Revisão dos temas para verificar se estão alinhados com a totalidade do material; (5) Definição e denominação dos temas ‒ após obter um mapa temático satisfatório, os dados são refinados e elegidos os temas apresentados ao final da análise; e (6) Produção do relatório ‒ consiste na etapa final de escrita a partir do conjunto de dados encontrados.

Assim, ao final do processo de análise do estudo, resultaram seis linhas temáticas: (1) Trajetórias conjugais e reconhecimento das sexualidades: fluidez ou binarismo?; (2) O primeiro relacionamento lésbico: características, inícios e términos; (3) Outros tempos e cidades: a vivência lésbica na ditadura; (4) Família, amigos(as) e filhos(as): entre o segredo e o apoio; (5) O corpo e o exercício da sexualidade no envelhecimento; e (6) Cuidados no envelhecimento: saúde, amigos(as), finitude, casamento, relações atuais e família.

Resultados e discussão

Trajetórias conjugais e reconhecimento das sexualidades: fluidez ou binarismo?

Para contar de suas relações amorosas, as entrevistadas utilizaram alguns critérios organizadores, como a cronologia dos relacionamentos, suas intensidades, seus tempos de duração e seus impactos. A partir disso, a ênfase dada para cada união contribuiu também para que fosse possível entender o significado de cada relação em suas vidas.

Quando contam sobre suas experiências amorosas, as entrevistadas indicam ter iniciado suas vidas afetivas e sexuais se relacionando com homens. As motivações para o engate dessas relações eram de diferentes justificativas, entre elas por pressão da família, pela vontade de ter filhos da forma considerada tradicional na época ou mesmo por amor e paixão. O fato é que elas, antes de viverem amores lésbicos, relacionaram-se com homens. As causas da dissolução desses relacionamentos também foram muito diversas, envolvendo traições, desentendimentos, desinteresse pelo sexo, desinteresse pela pessoa no geral e o reconhecimento da preferência por mulheres.

Para algumas delas, após a primeira relação com mulheres, todos os demais relacionamentos foram exclusivamente lésbicos, como é o caso de Zélia (71 anos), que conta que “por volta dos 30 e poucos anos ou mais, depois de uma época, eu fiquei só transando com mulheres mesmo, não transei mais com rapazes”, ou então, nos casos em que se casaram, e desde então se relacionam com suas esposas. Para outras, a relação com homens e mulheres é vista como algo que não se diferencia, como conta Heliana:

Eu posso achar uma pessoa muito bonita, eu posso achar uma pessoa um tesão, e aí tanto faz se é homem ou se é mulher. . . . Eu acredito que você se apaixona pelas pessoas, e eu acho que a paixão é que é o gatilho. (Heliana, 72 anos)

A questão é que, como aponta Toledo (2008), a sexualidade pode não ser uma característica estática para todos, mas carrega justamente em sua fluidez e diversidade marcas da trajetória dessas mulheres, mostrando como o desejo pode transitar e rompendo com a ideia de que a sexualidade tem um lugar fixo.

De forma espontânea, eram estabelecidas linhas de corte e comparação entre seus relacionamentos com homens e com mulheres, as diferenças entre o sexo com homens e com mulheres, o que as atraía mais em mulheres em detrimento do que causava repulsa nos homens e assim por diante. Heliana (72 anos) expõe essa diferenciação bem durante sua fala: “Olha, eu vou contar, o sexo é de altíssima qualidade, eu acho. De altíssima qualidade. E tem essa, essa parte da sensibilidade, do sentir como mulher. Estar nesse lugar, meu, assim, sinceramente acho difícil um homem dar pra gente”.

A coexistência da atração por homens e mulheres foi algo que apareceu muito entre os depoimentos, mostrando que a sexualidade toma lugar de fluidez envolvendo sua intimidade, mas que ainda existem tendências a comparar e a colocar as relações em posições diferentes de acordo com o sexo ao qual se relata. Indo ao encontro dessa forma de avaliar as relações, Toledo (2008) aborda a naturalização de colocar a heterossexualidade e a homossexualidade em lugares de oposição, bem como se naturalizam o sexo e o gênero.

Esse binarismo de gênero também é observado nos relatos da construção de si e na definição do relacionamento conjugal. Isso se reflete, como no caso de Bárbara (69 anos), por dificuldades com questões como a escolha das vestimentas mais “masculinas ou femininas”, ou com um desconforto sobre a posição a ser ocupada, “ser o homem ou a mulher da relação?”, já que, mesmo sendo um par lésbico, dicotomias heteronormativas de gênero ainda se fazem presentes. De acordo com Alves (2010), esse dualismo se expressa entre as mulheres mais velhas com mais força, quando muitas apresentam os mesmos relatos de sentirem que têm que escolher entre o papel estigmatizado da lésbica masculina versus a lésbica feminina.

Apesar dos pesares, o reconhecimento de si como homossexual atualmente é relatado com mais leveza e casualidade em suas falas, marcando esse período inicial de inseguranças como algo passageiro. Para Fernandes-Eloi (2017), a construção da identidade lésbica não é uma constante, mas faz parte de um processo de transição e depende da evolução pessoal e do contexto social com o qual se relacionam. Isso significa que, para elas, o processo de reconhecer-se atraída por outra mulher, por mais que seja chocante inicialmente, passou por ressignificações relacionadas com sua evolução pessoal e com a evolução do contexto em que vivem.

O primeiro relacionamento lésbico: características, inícios e términos

Durante os depoimentos, o tema da descoberta da homossexualidade, as vivências dos primeiros amores e de seus rompimentos difíceis foram pontos tocados e detalhados por todas. Aqui, o foco da discussão se volta para os engates e dissoluções de relacionamentos lésbicos recém-descobertos.

O processo de reconhecimento da homossexualidade foi relatado na maior parte das vezes como um período complexo e até traumático, de muitas dúvidas e receios em relação a si mesmas e ao que os outros poderiam pensar, como fica evidente na fala Leci:

Então. . . é. . . eu só descobri realmente que eu tinha tendência ou era homossexual, só a partir dos 17, 18 anos, mais ou menos isso, entendeu? E aí realmente foi muito traumático porque foi a primeira vez que uma pessoa me rejeitou depois de um certo tempo, então isso foi muito difícil. (Leci, 73 anos)

A primeira relação com outra mulher parece ser uma surpresa não tão surpreendente assim, já que, após o primeiro contato, todas passam a questionar momentos de suas vidas em que já se sentiram atraídas por outras mulheres, e que somente não sabiam nomear o sentimento até então, como conta Daniela:

Na verdade, eu me dei conta de que não era exatamente a primeira mulher a ter o fato de namoro, né? Mas assim o desejo por mulher, os sinais de gênero estava . . . de me sentir atraída. Na escola algumas mulheres apaixonavam por mim. Isso era por quê, né? . . . E assim isso virava uma coisa meio brincadeira. Mas e depois? Eu identifiquei isso com mais clareza. (Daniela, 66 anos)

Os primeiros contatos aconteceram em festas, na faculdade, no trabalho e por meio de amigos, e o flerte inicial acontecia vagarosamente, com paqueras sutis, troca de cartas e encontros em lugares discretos, como indica Cristina (60 anos), ao falar que “Era uma coisa, às vezes em uma festa ou outra, ou em uma reunião num bar próximo à universidade, você via as vezes homem beijando homem, uma mulher beijando uma mulher, mas aquilo era . . . era escondido”.

As primeiras experiências amorosas com mulheres foram relatadas como bastante intensas e por vezes conturbadas. Essas são trajetórias com o aspecto emocional/sentimental muito forte. Entre as razões para o término do primeiro relacionamento lésbico, estão essas próprias características relatadas acerca da intensidade das ligações e da própria imaturidade das partes, como dito por Daniela:

Eu me submetia muito, havia uma tirania forte e ali no final claro que isso vira a medalha e fica o contrário. . . . Então, na sedução era uma loucura. Então era aquela coisa toda, toda eletricidade . . . Mas nós bebíamos e tinha essa coisa da relação movida a álcool. E foi assim, foi muito ruim. (Daniela, 66 anos)

Para Alves (2010), que realizou uma pesquisa com mulheres lésbicas mais velhas, ouvir sobre suas memórias de primeiras vezes, primeiras descobertas, primeiro amor e primeiro coração partido, a partir de relatos que utilizam uma linguagem sentimental marcante como a observada, são oportunidades de compreender quais os sentidos que essas relações ganham em suas trajetórias ao longo da vida.

Outros tempos e cidades: a vivência lésbica na ditadura

As histórias são localizadas em uma linha temporal que apresenta uma conjuntura de mudanças que ocorreram ao longo do tempo, de acordo com o contexto cultural do momento. Nesse tema, os registros da época, o contraste entre gerações e o espaço em que essas experiências tomaram forma entram em destaque, assim como se apresentam destacadas em suas histórias.

A própria questão da visibilidade das relações afetivo-sexuais é mostrada como um marco da diferença entre o que viveram em seu tempo de juventude com o que é vivenciado pelos jovens de hoje, com frases como “Você não podia nada, você não podia nem andar de mão dada na rua”, expressa por Rita (62 anos), ou na admiração pelos casais gays que hoje encontram maior aceitação social, como exemplificado por Zélia (71 anos) quando diz “Isso que eu acho tão bonito de ver, os meninos e meninas de mãos dadas andando na rua e tals, não se fazia”. Houve toda uma cultura de época, como Henning (2014) observa em seu estudo, de fortes influências e pressões para que os caminhos de vida resultassem na idealizada formação da família tradicional e, dessa forma, tudo que desviasse do ideal heteronormativo e cisgênero era repreendido.

Percebe-se que falamos de uma geração permeada por influências de repressão, como aparece claramente em memórias da ditadura (1964-1985), como conta Cristina:

Não era uma coisa libertária, uma coisa solta. Porque nós estamos falando de 1976, 1977, ou seja, nós ainda estávamos com grande força de ditadura, portando com grande força nacional e social de repressão. Pra tudo. Não só pra questão sexual. (Cristina, 60 anos)

Nesse cenário é que se moldou todo um fluxo sobre como as identificações e práticas sexuais eram percebidas na época. Ao ouvir sobre suas bagagens carregadas de lembranças da repressão, ressalta-se o entendimento de que as interpretações e falas individuais apresentam o reflexo de uma experiência social mais ampla (Araújo & Carlos, 2018).

Nota-se um forte contraste quando recordam de um tempo de jovialidade marcado pela experimentação, envolvimento nos grupos com os amigos, grandes festas e farras, em uma sociedade engessada e conservadora, que repudiava toda essa idealização do “amor livre” vivenciado pela juventude da contracultura, o que é bem ilustrado na seguinte fala de Zélia:

Ao mesmo tempo que havia essa intensa repressão e intenso medo, havia também esse desejo de experimentar uma vida que fosse plena, que fosse rica, que fizesse sentido. Então, nesse circuito, muitas coisas eu pude experimentar . . . uma sexualidade que não precisava estar atrelada ao casamento ou a uma relação estável, mas que era uma experimentação também. . . . Mas fora desse circuito a gente vivia uma enorme repressão. (Zélia, 71 anos)

A contracultura foi um movimento que apareceu como parte do estilo de vida delas na adolescência e início da vida adulta. Os questionamentos e a negação da cultura vigente na época eram marcas fortes do que se via entre os grupos de que faziam parte, algumas das entrevistadas citaram inclusive terem participado de movimentos políticos de resistência e movimentos feministas. Indo de acordo com essa informação, Almeida e Heilborn (2008) abordam como a identidade lésbica foi construída a partir de movimentos “alternativos” e de resistência no Brasil, apontando a forte relação entre a identidade e os grupos lésbicos com esses movimentos de afirmação.

Um evento que marca as narrativas como uma divisão temporal foi a mudança de uma cidade do interior para uma metrópole em algum ponto de suas vidas, na maior parte dos casos, com o intuito de fazer faculdade. Essa mudança vem acompanhada de um novo estilo de vida mais livre e com maior abertura para viver a sexualidade, representando um momento em que se sentiam mais à vontade para assumir seus relacionamentos. Bárbara reflete sobre essa mudança:

Imagina morar numa cidade do interior, né? Na década de 60, 60, 71? Muito moralismo. . . . Mas então acho que eu sofri sim discriminação, preconceito. . . . Só me senti bastante confortável eu acho que depois, aqui em (nome de capital brasileira) mesmo, até por participar de movimentos feministas ou político, eu já tinha outra cabeça e já tinha entre 25 e 30 anos de idade. (Bárbara, 69 anos)

Elas contam como nas metrópoles existiam mais espaços de pertencimento, mesmo que ocultos e reservados, ou como a diversidade de estilos de vida entre as pessoas que circulavam era maior na cidade grande em comparação à realidade de suas cidades natais, e isso oferecia certo conforto e acolhimento.

Todo o caminho traçado na juventude tem ação no posicionamento político atual, que aparece abertamente nos depoimentos, quando relatam se identificar com pautas da esquerda e tecem duras críticas ao atual governo. O percurso marcado pela repressão diz muito sobre suas identidades e o lugar que ocupam na sociedade atualmente. Para Almeida e Heilborn (2008), marcos dolorosos de suas vidas, como as memórias do tempo da ditadura, têm o poder de serem ressignificados e construírem sua identidade lésbica.

Família, amigos(as) e filhos(as): entre o segredo e o apoio

A relação com suas famílias foi um ponto que surgiu espontaneamente em todos os depoimentos como motivo de forte influência em suas vidas, na descoberta da homossexualidade e no desenrolar de suas relações. Um aspecto significativo desse contexto foi o sentimento de necessidade de manter seus relacionamentos lésbicos em segredo durante muito tempo. Nas relações familiares, principalmente na juventude, estar “dentro do armário” era comum e a vida por debaixo dos panos acontecia como via de regra, conduta que, de acordo com Fredriksen-Goldsen et al. (2017) é uma realidade de coação que se estende de forma generalizada na sociedade para tudo que desvia da norma heterossexual imposta e leva ao segredo, considerando que existe um histórico de reclusão por medo de rejeição da comunidade LGBT como um todo.

Os modos de convívio entre elas e seus pais, sempre demarcados em suas histórias, foram contados sob diferentes perspectivas, desde o relacionamento avaliado de forma positiva, como foi o caso de Cássia (62 anos), “Aí a minha mãe falou assim . . . [Eu vou comprar uma cama nova pra mim e vou te dar a minha de casal, assim você fica mais confortável com as suas amigas (namoradas)] Você quer mais o quê?” ou com relatos de convivência conflituosa, como contou Leci (73 anos) “Cada vez que eu ia pra casa eu suava frio pelo telefone, porque a minha mãe era uma mulher que espancava e não conversava. Batia muito, aquela coisa toda”.

O segredo permeia as histórias desde os inícios das experiências da vida homoafetiva, como ilustra a frase dita por Zélia (71 anos): “Assumir as relações, esse tipo de coisa, somente no grupo mais estreito. A minha família não sabia, a gente não se assumia nem publicamente no trabalho, em nada disso”. Mesmo nos relatos de maior acolhimento, temos exemplos de como a família sinalizava uma aceitação velada, conforme Cássia (62 anos) conta: “Eles sabiam. Só não tinham a coragem de perguntar porque sabiam que se perguntassem eu iria responder e talvez não quisessem ouvir”. Esses movimentos de esconder e procurar evitar tocar no assunto, principalmente com a família, vão se atenuando com o passar dos anos, à medida que se sentem mais seguras e confortáveis para se abrirem.

Suas relações de amizade também ganham ênfase em seus percursos, por tomarem lugar de pertencimento e conforto em suas vidas, representando por vezes uma rede de apoio não encontrada em seus próprios parentes. Era entre amigos que podiam se expressar com mais liberdade, viver suas aventuras e encontrar um ambiente seguro de retaliações, como conta Daniela (66 anos): “Tinha isso também, era mais confortável viver essas experiências no âmbito deste grupo. . . Então, nesse circuito, muitas coisas eu pude experimentar nessa linha das relações amorosas . . . Mas fora desse circuito a gente vivia uma enorme repressão”.

Sobre suas experiências envolvendo a maternidade ‒ em sua maioria, resultado de seus primeiros casamentos com homem, com exceção de uma das entrevistadas, que é mãe solo de um filho adotivo ‒ elas compartilham do sentimento de dificuldade de contar sobre seus relacionamentos lésbicos aos seus filhos, como conta Cristina (60 anos): “Então desde que eu me separei a primeira coisa que eu fiz foi falar com a minha filha sobre a minha escolha sexual. . . . e eu chamei e esclareci. Porque eu queria quebrar com isso (o segredo)”.

Em termos gerais, o segredo perpassa as mais diversas formas de relacionar no relato dessas mulheres. Para Santos, Araújo e Negreiros (2018), o mecanismo de se esconder pode se traduzir como um reflexo das experiências de preconceito e repressão vividas na juventude, que colocam a homossexualidade em uma posição de exclusão social. Em decorrência de uma tentativa de evitar tais enfrentamentos é que o sigilo aparece, como forma de camuflagem de suas relações, visto que muitos casais optam por manterem os relacionamentos ocultos aos olhos de fora.

O corpo e o exercício da sexualidade no envelhecimento

A forma como a velhice é vivenciada em relação às questões corporais, sexuais e de autoimagem entra em pauta, considerando que são elementos de grande impacto em seus relacionamentos e em suas vidas. No que tange às mudanças que ocorrem em um corpo que envelhece, todas as participantes abordaram questões relacionadas à sua aparência a partir do próprio reconhecimento enquanto idosas, mas nenhuma delas mencionou algum tipo de interesse em realizar procedimentos estéticos.

No geral, o que aparece nos relatos em relação ao sentimento que têm sobre si mesmas e o envelhecer revela um impacto positivo, no sentido de que, quanto mais o tempo passa, mais se sentem apropriadas de si, inclusive no que diz respeito à sua sexualidade. O sentimento de maior segurança, mais maturidade e maior aceitação aparecem disparados quando se autoavaliam. Isso fica evidente com Cristina:

Então o fato de eu ser uma lésbica e velha, digamos, são dois orgulhos pra mim. Eu tô conseguindo viver com saúde, fazer as coisas que eu quero, assumir a minha sexualidade, assumir a minha vida conjugal publicamente, então esse caminho pra mim é muito bom. (Cristina, 60 anos)

Já os impactos negativos em relação às mudanças físicas, como a perda de habilidades corporais, são manejados conforme o autoconhecimento aumenta, de acordo com elas. Mesmo com as dificuldades da velhice, na maior parte dos relatos é estabelecida uma relação benéfica com o corpo e a vaidade, sentem-se mais confiantes.

Em relação ao exercício da sexualidade na conjugalidade lésbica, houve relatos que apresentavam o sexo como ponto central da relação, como para Daniela (66 anos), que afirma: “Mas é isso, e aí agora a gente está numa fase muito interessante de voltar a respirar e a curtir. . . e a ver que pode fazer sexo a qualquer momento, não são só a família ou o trabalho”; bem como outros que contavam sobre um declínio na libido e na frequência do ato sexual, como o caso de Leci (73 anos): “Modifica muito isso. . . . O carinho, o amor, o afeto, a responsabilidade, a renúncia se mantêm. Mas não é fogo de paixão, isso não tem mais”.

O que foi visto de forma unânime foi uma clareza em relação às suas próprias formas de vivenciar a sexualidade e seus desejos: o sexo em si adquire um sentido diferente daquele da juventude, e que atualmente envolve um panorama maior do que o ato por si só. Fonseca, Araújo e Fernandes-Eloi (2020) apontam como a literatura recente se opõe à ideia de assexualidade dos idosos, mas entende que a sexualidade nessa fase está para além do ato em si, adquirindo um sentido mais amplo e novas maneiras de experimentação. Como indicam Henning e Debert (2015), mesmo com a reconhecida diminuição da frequência do ato e de outras limitações que possam dificultar esse aspecto, a experimentação da sexualidade é algo que ganha novas configurações na velhice.

O contraponto que ganha força na conexão do casal é o aspecto afetivo da relação. As entrevistadas mostram que suas relações fazem parte de uma construção, e que envelhecer junto de suas parceiras é ver a convivência se solidificando com o passar dos anos, como ilustra Cássia:

Vão aparecendo pequenas coisas que . . . “Ai, cansa, dói”. Entendeu? Mas a questão afetiva persiste. . . . que é aquela coisa do amor é construído. É construção, sempre construção. Porque a paixão ela tem que continuar, mas o amor tem que caminhar junto. (Cássia, 62 anos)

É importante ressaltar que nem sempre os sentimentos em relação ao sexo são compartilhados da mesma forma por mulheres mais velhas. Existem padrões distintos, e o envelhecimento é retratado sob diferentes pontos de vista (Alvez, 2010). Debert e Brigueiro (2012) demonstram como todo o espectro da sexualidade e experimentação do prazer ocorre de acordo com a gestão individual do envelhecimento de cada um, mas que não deixa de ser permeada pelas noções contemporâneas de que ter um bom relacionamento com sua própria sexualidade está ligado diretamente com melhores níveis de qualidade de vida.

Cuidados no envelhecimento: saúde, amigos(as), finitude, casamento, relações atuais e família

Nesta última linha temática, serão abordadas questões que envolvem o cotidiano das participantes. Seus cuidados pessoais, hábitos que mantêm, relações sociais que perduram, relacionamentos amorosos, enfim, o que efetivamente apresentaram acerca do que vivem atualmente. É nessa fase que começam a entrar em pauta preocupações e preparações para o futuro. Questões como moradia na velhice, resguardo legal da parceira no caso do falecimento de uma delas e cuidados com saúde passam a ser debates que ganham mais força e urgência nesta etapa.

Apesar destas serem experiências comuns na velhice, existem pontos de estresse maior entre idosos LGBT, como é o caso da discriminação de sua identidade e o casamento. Quando essas especificidades não são consideradas e a experiência heteronormativa é generalizada a toda uma faixa etária, corre-se o risco de invisibilizar certos sofrimentos (Fredriksen-Goldsen et al., 2017; Arima & Freitas, 2017).

O exercício físico e os cuidados com a saúde fazem parte do hall de atos para qualidade de vida citados por elas. A atenção consigo mesma e com a parceira em relação a momentos em que ficam doentes, por exemplo, é relatada como um exercício pelo qual dão tudo de si. Os cuidados mútuos do casal ficam evidentes com a preocupação, o apoio na ida aos médicos, o incentivo a adotar hábitos de vida mais saudáveis, tornando-se parte de sua rotina. Para Reczek (2012), considerando que os casais lésbicos são referidos como parcerias duradouras e com fortes laços, essa conexão se estende também para os hábitos em saúde uma com a outra.

No que tange à rede de amizades das entrevistadas atualmente, esse é um assunto que aparece como algo bastante importante em seu cotidiano, tanto com pessoas mais velhas como também com jovens. Elas contam sobre as reuniões periódicas que fazem em suas casas, os jantares e as festas de que participam, e contam do valor que essas relações têm em suas vidas ao agregarem apoio, divertimento e socialização, como ilustra Zélia (71 anos): “A gente também sempre teve uma vida muito cercada de gente. Somos pessoas queridas pelos nossos amigos e amigas. Então tem muito convite para isso, para aquilo, para viajar, para festa, para fazer programinha, para tá junto”.

Também é importante considerar os elementos que aparecem relacionados às questões apresentadas pela própria finitude e realidade que se aproxima com o passar dos anos, como a vivência do luto ou de doenças, que são determinantes em suas relações afetivas e no cuidado que passam a adquirir na velhice. Rita aborda o luto como elemento central de sua narrativa ao perder sua parceira e se ver em uma situação na qual a sua relação não foi reconhecida nem pela família e nem legalmente:

Então aí, em todas essas coisas que muitos casais sofrem, eu diria que a grande maioria hétero por herança e por dinheiro, a gente sofreu por ser homo. . . . Aí foi acordando muito claro, a gente tava morando, casadas né, extraoficialmente, fazia quase 26 anos, 27 anos e sem nenhum documento. Eles foram na minha casa, antes da missa de sétimo dia, e me disseram que eu tinha um mês pra sair de casa. Foi o maior choque, eu entrei em desespero. (Rita, 62 anos)

Nesse sentido, o casamento aparece diversas vezes entre os relatos como meio de precaver seus próprios direitos enquanto casal diante do possível falecimento de uma das parceiras, como nos conta Zélia:

Mas esse mesmo nosso amigo advogado já havia dito que era melhor casar porque o contrato de união estável é um contrato legal, mas se você for casado é melhor ainda, que aí não tem contestação em relação à herança, essas coisas todas. (Zélia, 71 anos)

Mais do que um fortalecimento da união e uma visão simbólica do que o casamento possa significar, ele aparece diversas vezes como dispositivo de segurança e regularização do relacionamento, como meio para garantir que a parceira irá receber ajuda de aposentadoria, herança e como certificação de que a relação será reconhecida. Assim, a opção do casamento ocorre com o objetivo de estender à cônjuge as proteções legais e a validação social pertencente (Goldsen et al., 2017).

Suas relações amorosas atuais são relatadas sempre em tom positivo. No caso dos casais, falam sobre como superaram dificuldades ao longo do tempo, sobre a importância da comunicação e sobre o privilégio da companhia de qualidade na velhice, conforme expõe Zélia:

Eu acho que é um privilégio envelhecer com alguém que você ama próximo . . . Acho que não só o fato da maturidade em que vive, mas também o fato do tempo vivido junto traz uma certa sabedoria e efetivamente o conhecimento. Que você conhece muito a pessoa com quem você viveu e a pessoa te conhece muito bem (Zélia, 71 anos)

No lugar de atritos causados pela imaturidade, toma espaço a admiração, o companheirismo e o apoio mútuo. As entrevistadas contam como atualmente se sentem mais seguras e por isso coisas que consideram “infantilidades”, como o ciúmes, já não são mais conflitos enfrentados pelo casal, conforme Leci (73 anos) expõe: “Eu acho de amadurecimento. De aceitação. Porque quando você é imaturo você arrasta muitos problemas. Desnecessários pra sua própria vida e a do outro. (. . .) Talvez o meu período de imaturidade ficasse lá pra trás com a ex”.

Os hábitos dos casais, em conjunto, incluem também suas famílias. As entrevistadas que são mães relatam ter contato com seus filhos e netos periodicamente; apesar de não morarem juntos, fazem questão de manter proximidade. Além disso, os casais também têm os hábitos que gostam de fazer em dupla, como assistir a séries, mas o interessante foi a afirmação da importância do espaço pessoal na relação como algo muito bem estabelecido, e Cássia (62 anos) ilustra bem na seguinte fala: “Porque tudo é pensado junto. E isso não. . . não que você perca a sua individualidade, você não perde a sua individualidade, você tem que continuar com a sua individualidade, é claro”.

Assim, elas levam a vida em conjunto, mas se mantêm atentas a sua individualidade e seus limites. Esse cuidado com a individualidade também foi observado no trabalho de Alves (2010), que expõe o forte sentimento de conjugalidade entre casais lésbicos, ao mesmo tempo que apresentam uma noção própria de seus espaços, procurando realizar atividades e planos em comum sem perder os hábitos individuais no caminho.

No caso das solteiras, contam como o sexo e a aparência deixam de ser razões centrais que as atraem nas parceiras e como agora se conectam mais com outros aspectos que não os corpóreos, como inteligência e valores pessoais. Elas relatam ter vontade de se relacionar novamente, mas também falam de “filtros” que a idade gerou, tornando-as mais criteriosas. Isso também foi observado no estudo de Dantas (2020), no qual foi possível perceber como os relacionamentos anteriores influenciaram e de certa forma compuseram a maneira como procuram uma relação atualmente, apresentando características que faziam sentido na juventude, mas já não fazem mais atualmente.

Considerações finais

A partir das vozes de oito mulheres com suas diferentes histórias de vida, foi possível traçar um fio entre suas vivências de acordo com elementos que se destacaram em suas falas. Unir seus depoimentos foi uma tentativa de ressaltar suas existências e provocar reflexões acerca da velhice lésbica, considerando a pouca visibilidade do grupo e traçando um caminho contrário ao estereótipo social negativo da velhice, justamente por ter diferentes nuances do que se pode significar o processo de envelhecer e se relacionar.

A análise das entrevistas mostrou que as mulheres tiveram suas vidas afetivas iniciadas em relacionamentos heterossexuais, sendo que parte mantém o interesse por homens e outra se relaciona exclusivamente com mulheres. A descoberta da homossexualidade e o reconhecimento de suas identidades foi um processo relatado como um período difícil e conturbado, apesar de lidarem melhor com essa questão atualmente. Essas descobertas ocorreram em um contexto conservador permeado por influências da ditadura militar. Suas memórias da repressão da época contrastam com o acolhimento encontrado nos grupos de amizade e também com os espaços de maior liberdade das grandes cidades. Percebe-se um padrão do segredo sobre seus relacionamentos na juventude, tanto para a família como para a sociedade. Os relacionamentos com os pais variaram, contudo mesmo quando bons, ainda apresentavam certa tensão quando se tratava da sexualidade.

Com relação ao envelhecimento, as entrevistadas falaram de questões relacionadas à sua aparência, mas não mencionaram interesse em mudá-la. No geral, apresentam um sentimento de apropriação de si mesmas e maior clareza nesta fase da vida. Sobre a sexualidade, o sexo adquire um sentido diferente daquele da juventude e passa a envolver um panorama maior do que o ato em si, ganhando novas configurações. Atualmente, preocupações com a saúde, preparações para o futuro, o cuidado consigo e com a parceira ganham um contorno mais expressivo. A vivência do luto aparece ligada a preocupações que vão além do sofrimento da perda em si, com a não legitimação da relação e o preconceito. Diante disso, o casamento surge como dispositivo de segurança para o relacionamento. As amizades e o convívio social se mostraram muito importantes, bem como a rotina de convívio dos casais, que, mesmo mantendo hábitos conjuntos, não deixam de prezar pela sua individualidade.

Entre as limitações deste estudo está a própria composição do grupo de participantes. Todas elas têm segundo grau completo, trabalharam ou ainda trabalham em seus campos profissionais de formação, têm boas condições financeiras, moradia e acesso à internet. Com exceção de uma delas, que se considera parda, são mulheres brancas. Assim, partem de uma posição privilegiada em relação a outras mulheres em situação de vulnerabilidade socioeconômica e racializadas, que podem causar vivências e problemas de razões completamente diferentes dos que foram discutidos aqui. Portanto, este estudo contribui para a reflexão sobre a vivência de um certo grupo de lésbicas.

É importante ressaltar que este trabalho não pretende estabelecer um padrão da velhice lésbica, apenas refletir sobre as experiências das participantes sobre suas histórias a partir de suas próprias perspectivas. Ainda assim, destaca-se a necessidade de mais trabalhos nessa temática, alcançando maior amplitude da população, de forma a contribuir com estudos futuros, considerando a importância do assunto para diversos âmbitos da sociedade, como saúde, educação e política.

Agradecimentos

Agradeço À CAPES que fomentou esta pesquisa através da concessão da bolsa de mestrado, tonando possível a realização deste trabalho.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Maio 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    19 Mar 2024
  • Aceito
    03 Abr 2024
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