Open-access Psicologia e mudança climática: diálogos para um tempo em transição

Resumo:

O texto introduz o dossiê Psicologia e Mudança Climática, publicado pela Psicologia USP, situando-o no contexto da emergência climática global e da proximidade da COP30, a ser realizada em Belém do Pará. Organizado por psicólogos ambientais, o dossiê reúne contribuições que exploram dimensões afetivas, cognitivas, culturais e comunitárias das relações entre pessoas e ambiente. Os trabalhos, embora diversos em abordagem teórica e metodológica, convergem na defesa de uma Psicologia comprometida com a transformação social e ambiental, capaz de articular subjetividade e coletividade, ciência e política. Inspirado por uma perspectiva latino-americana e descolonial, o conjunto de textos afirma o papel da Psicologia na construção de respostas éticas e emancipatórias à crise climática, convocando à práxis e à imaginação de outros futuros possíveis.

Palavras-chave:
Psicologia Ambiental; mudança climática; subjetividade; transformação social; América Latina

A crise climática se apresenta, hoje, como um dos maiores desafios de nossa era. Seus efeitos se manifestam de forma cada vez mais visível: ondas de calor, enchentes, secas extremas, deslizamentos e perdas de biodiversidade colocam em risco modos de vida, sistemas produtivos e a própria continuidade da vida humana em condições de dignidade (Intergovernmental Panel on Climate Change [IPCC], 2019). O Brasil, por sua posição geopolítica, sua importância ecológica e sua diversidade cultural, ocupa um lugar central nessa discussão (Viola, 2004). A proximidade da 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP30), a realizar-se em Belém do Pará em 2025, amplia a responsabilidade e a urgência de se consolidar uma produção de conhecimento que seja crítica, situada e comprometida com a transformação social e ambiental (COP30 Brasil, 2025).

Este dossiê da Psicologia USP busca responder a esse chamado. Organizado por nós, psicólogos ambientais, reúne artigos que exploram dimensões afetivas, cognitivas, culturais e comunitárias da relação entre pessoas e mudança climática. A proposta não é apenas oferecer diagnósticos sobre os impasses contemporâneos, mas apontar caminhos possíveis para a ação transformadora (Ernst & Wenzel, 2014; Martins et. al, no prelo). Nesse sentido, a Psicologia aparece aqui como ciência capaz de articular subjetividade e coletividade, experiência e política, afetos e modos de vida, contribuindo para um debate interdisciplinar e, sobretudo, para a práxis.

Os textos que compõem o dossiê podem ser lidos em três grandes grupos. O primeiro reúne reflexões sobre experiências e afetos em tempos de crise ambiental, discutindo como o sofrimento psíquico, as percepções sociais e as formas de decisão se entrelaçam no enfrentamento do colapso ecológico. Essas análises ressaltam tanto os limites quanto as potencialidades de estratégias cognitivas, comunicacionais e comportamentais para o engajamento em práticas pró-ambientais e para a construção de esperança ativa diante do cenário de incerteza.

O segundo grupo volta-se às formas de saber e modos de vida que oferecem respostas adaptativas à crise. São abordadas experiências de comunidades e iniciativas coletivas que, em diferentes contextos, reconfiguram práticas culturais e sociais diante das mudanças ambientais. Essas reflexões evidenciam estratégias de adaptação, redes de solidariedade e propostas de organização comunitária orientadas por valores de sustentabilidade, apontando para alternativas concretas de enfrentamento da crise climática e para o potencial inspirador de tais iniciativas no campo das políticas urbanas e ambientais.

O terceiro grupo destaca a articulação epistemológica e metodológica da Psicologia Ambiental perante o tema. Os artigos reunidos empregam uma ampla gama de métodos - do ensaio teórico à etnografia, da análise qualitativa à modelagem comportamental -, o que demonstra a riqueza de perspectivas necessárias para compreender a complexidade das mudanças climáticas. Essa diversidade metodológica reforça a ideia de que não há um único caminho, mas múltiplas formas de aproximação que, em conjunto, constroem uma visão mais robusta da relação entre pessoas, sociedade e ambiente.

Há, contudo, uma convergência fundamental entre os trabalhos: todos apontam para a necessidade de transformar diagnósticos em ações. Os artigos não se limitam a analisar o medo, a apatia ou a inação diante da crise; eles convidam à mobilização política, ao diálogo intercultural, à reinvenção de modos de vida e à construção de esperança coletiva. A Psicologia, aqui, não se restringe a descrever comportamentos ou sintomas, mas assume uma função crítica e propositiva, vinculada à justiça social, à equidade e à defesa da vida em suas múltiplas dimensões - humanas e mais-que-humanas.

Este dossiê é, assim, expressão de uma perspectiva latino-americana e descolonial, que reconhece tanto as condições históricas de desigualdade que intensificam a vulnerabilidade de certas populações, quanto a potência de seus saberes e resistências (Diniz et. al., 2020). Ao reunir contribuições que dialogam com tradições críticas, com comunidades locais e com experimentações inovadoras, reafirma-se a centralidade do Brasil e da América Latina na produção de conhecimento que alia ciência, cultura e política na luta contra a crise climática.

Às vésperas da COP30, esperamos que este conjunto de textos inspire leitoras e leitores a repensar a relação entre pessoa e ambiente, ciência e sociedade, diagnóstico e ação. A Psicologia, como aqui se mostra, pode e deve assumir lugar ativo nesse processo: não apenas descrevendo o colapso, mas participando de sua superação, convocando à práxis transformadora e afirmando a possibilidade de outros futuros.

Declaração de disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Referências

  • COP30 Brasil. (2025). Sobre a COP30 Recuperado de https://cop30.br/pt-br/sobre-a-cop30
    » https://cop30.br/pt-br/sobre-a-cop30
  • Diniz, R. F., Olekszechen, N., Minchoni, T., Farias, T. M., Silva, A. P. S., Massola, G. M., & Carvalho, L. P. (2020). Relações pessoa-ambiente na pandemia de COVID-19 no Brasil: contribuições de uma Psicologia Ambiental crítica latino-americana. Estudos de Psicologia (Natal), 25(3), 335-346. doi: 10.22491/1678-4669.20200034
    » https://doi.org/10.22491/1678-4669.20200034
  • Ernst, A., & Wenzel, U. (2014). Bringing Environmental Psychology Into Action: Four Steps From Science to Policy. Journal of Environmental Psychology, 37, 1-10. doi: 10.1027/1016-9040/a000174
    » https://doi.org/10.1027/1016-9040/a000174
  • Intergovernmental Panel on Climate Change. (2019). Climate Change and Land: An IPCC Special Report on climate change, desertification, land degradation, sustainable land management, food security, and greenhouse gas fluxes in terrestrial ecosystems. Summary for Policymakers Recuperado de Recuperado de https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2019/08/4.-SPM_Approved_Microsite_FINAL.pdf Acesso em: 06/10/2025
    » https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2019/08/4.-SPM_Approved_Microsite_FINAL.pdf
  • Martins, M. H. M., Pato, C. M. L., Bassani, M. A., Neto, I. L., Felippe, M. L., Gurgel, F. F., Milani, R. G., Bannach, E. L., Bianchi, A., Profice, C. C., Günther, H., & García-Mira, R. A. (2025). Environmental Psychology Alignments to SDG in Brazil: Towards Healthy Societies? Paidéia (Riberão Preto), 35, e3533. https://doi.org/10.1590/1982-4327e3533
    » https://doi.org/10.1590/1982-4327e3533
  • Viola, E. (2004). O Brasil nas políticas de governança global e mudança climática. Ambiente & Sociedade, 7, p.27-46.
  • Editores responsáveis:
    Gustavo Martineli Massola e Mário Henrique da Mata Martins

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025
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