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Resposta endócrina à contenção física e isolamento em papagaios-verdadeiros

Endocrine response to physical restraint and isolation in blue-fronted parrots

Resumo:

O objetivo deste trabalho foi analisar a resposta dos papagaios-verdadeiros aos procedimentos de contenção e separação física por método não invasivo, como a dosagem das concentrações de metabólitos de glicocorticoides nas excretas. Para tanto, foram utilizadas 24 aves, 17 machos e sete fêmeas, inicialmente mantidas em viveiros amplos e adjacentes, separadas por sexo. Após captura e contenção de três minutos, 13 aves voltaram para os viveiros coletivos e 11 foram alojadas em gaiolas individuais no mesmo recinto dos viveiros, de modo a permitir que as aves isoladas mantivessem contato visual e auditivo com as demais. Para avaliar se os animais responderiam de maneira diferente quando fisicamente isolados ou em grupo, amostras de excretas foram coletadas sequencialmente em intervalos de três horas durante 24 horas para avaliação dos metabólitos de glicocorticoides por enzimaimunoensaio. Não houve efeito significativo de sexo (P=0,5850), tratamento (P=0,6805) e tempo (P=0,2293), e as concentrações de metabólitos de glicocorticoides mantiveram-se dentro da variação diurna esperada para esta espécie. Portanto, ambos os grupos responderam endocrinologicamente de forma semelhante e o estresse de captura e separação física não foi significativo para as aves.

Termos de Indexação:
Metabólitos de glicocorticoides; bem-estar; estresse; Amazona aestiva

Abstract:

The aim of this study was to evaluate the response of blue-fronted parrots to restraint procedures and separation by non-invasive methods such as measurement of glucocorticoid metabolites in droppings. For this, we utilized 24 birds, 17 males and 7 females, initially kept in large adjacent aviaries, separated by sex. After capture and 3 minutes of manual contention, by random, 13 birds returned to the aviary and 11 animals were housed in individual cages in the same facility of the aviaries allowing the maintenance of auditory and visual contact between them. In order to evaluate if the physically isolated birds isolated or in groups would react in different ways, all droppings samples were collected at 3-hours intervals during 24 hours to evaluation of excreted glucocorticoid metabolites by enzimeimmunoassay. There were no significant effects of sex (P=0.5850), treatment (P=0.6805) and time (P=0.2293) and the glucocorticoid metabolites concentrations were within the diurnal range expected for this specie. Therefore, the endocrine response of both groups was similar and stress of capture and physical separation was not significant for the birds.

Index Terms:
Glucocorticoid metabolites; welfare; stress; Amazona aestiva

Introdução

Pertencente à Ordem Psittaciformes e à Família Psittacidae (IUCN 2012IUCN 2012. Amazona aestiva. BirdLife International 2012, IUCN Red List of Threatened Species. Version 2012.2. Acesso em 19 de novembro de 2012. Online. Disponível em <Disponível em www.iucnredlist.org >
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), a espécie Amazona aestiva também é conhecida popularmente como papagaio-verdadeiro, papagaio-comum ou papagaio-de-fronte-azul (Sick 2001Sick H. 2001. Ornitologia Brasileira: uma introdução. 3ª ed. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro. 912p.). São aves inteligentes, possuem plumagem exuberante e são capazes de imitar a voz humana e outros sons e por isto é comum o desejo de criá-las como animal de estimação (Collar 1997Collar N.J. 1997. Family Psittacidae (parrots), p.280-477. In: Van Hoyo J., Elliott A. & Haffer J.H. (Eds), Handbook of the Birds of the World: sandgrouse to cuckoos. Vol.4. Lynx Ediciones, Barcelona.). Embora sua situação ainda seja "pouco preocupante" na Categoria Lista Vermelha da IUCN (International Union for Conservation of Nature), a tendência da população é o declínio (IUCN 2012IUCN 2012. Amazona aestiva. BirdLife International 2012, IUCN Red List of Threatened Species. Version 2012.2. Acesso em 19 de novembro de 2012. Online. Disponível em <Disponível em www.iucnredlist.org >
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). Estima-se que de cada dez animais traficados apenas um sobreviva, devido às condições extremas de estresse e maus tratos durante o processo (Renctas 2002RENCTAS 2002. Animais Silvestres: vida à venda. Renctas, Brasília.).

A princípio, o estresse é uma resposta adaptativa que permite ao organismo responder fisiologicamente às mudanças e desafios (McEwen 2000McEwen B.S. 2000. The neurobiology of stress: from serendipity to clinical relevance. Brain Res. 886:172-189., Goymann & Wingfield 2004Goymann W. & Wingfield J.C. 2004. Allostatic load, social status and stress hormones: the costs of social status matter. Anim. Behav. 67:591-602.). Contudo, para espécies da fauna selvagem, quando alguma demanda natural não é mantida em cativeiro, altos níveis de estresse podem ser gerados (Van Zeeland et al. 2009Van Zeeland Y.R.A., Spruit B.M., Rodenburg T.B., Riedstra B., Van Hierden Y.M., Buitenhuis B., Korte S.M. & Lumeij J.T. 2009. Feather damaging behaviour in parrots: a review with consideration of comparative aspects. Appl. Anim. Behav. Sci. 121:75-95.). A elevação crônica dos hormônios relacionados ao estresse favorece o desenvolvimento de distúrbios comportamentais como fobias, arrancamento de penas, estereotipias, agressividade excessiva e automutilação (Van Hoek & Tem Cate 1998Van Hoek C.S. & Ten Cate C. 1998. Abnormal behavior in caged birds kept as pets. J. Appl. Anim. Welf. Sci. 1(1):51-64, Meehan et al. 2004Meehan C.L., Garner J.P. & Mench J.A. 2004. Environmental enrichment and development of cage stereotypy in Orange-winged Amazon Parrots (Amazona amazonica). Dev. Psychobiol. 44:209-218., Van Zeeland et al. 2009Van Zeeland Y.R.A., Spruit B.M., Rodenburg T.B., Riedstra B., Van Hierden Y.M., Buitenhuis B., Korte S.M. & Lumeij J.T. 2009. Feather damaging behaviour in parrots: a review with consideration of comparative aspects. Appl. Anim. Behav. Sci. 121:75-95.) e ainda afeta o crescimento animal, condição corporal e sistema imunológico (Korte et al. 2005Korte S.M., Koolhaas J.M., Wingfield J.C. & McEwen B.S. 2005. The Darwinian concept of stress: benefits of allostasis and costs of allostatic load and the trade-offs in health and disease. Neurosci. Biobehav. Rev. 29:3-38., Lundberg 2005Lundberg U. 2005. Stress hormones in health and illness: the roles of work and gender. Psychoneuroendocrinology 30:1017-1021., Stöwe et al. 2008Stöwe M., Bugnyar T., Schloegl C., Heinrich B., Kotrschal K. & Möstl E. 2008. Corticosterone excretion patterns and affiliative behavior over development in ravens (Corvus corax). Horm. Behav. 53:208-216.) favorecendo efeitos multidimensionais negativos na saúde animal (Stothart et al. 2016Stothart M.R., Bobbie C.B., Schulte-Hostedde A.I., Boonstra R., Palme R., Mykytczuk N.C.S. & Newman A.E.M. 2016. Stress and the microbiome: linking glucocorticoids to bacterial community dynamics in wild red squirrels. Biol. Lett. 12(1):20150875.). Estudos que envolvam o bem-estar e características sociais destas aves em cativeiro se fazem necessários para melhorara o cuidado e o manejo (Meehan et al. 2003Meehan C.L., Garner J.P. & Mench J.A. 2003. Isosexual pair housing improves the welfare of young Amazon parrots. Appl. Anim. Behav. Sci. 81:73-88., Peixoto & Tischer 2004Peixoto J.E. & Tischer M.C. 2004. Avaliação da reprodução de papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) em zoológicos brasileiros durante o período 1966/2001. Anais Congresso sociedade paulista de zoológicos, Leme, SP. Disponível em <Disponível em http://spzoo.org.br/0104.htm > Acesso em 15 abr. 2012.
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).

A mensuração das concentrações sanguíneas de corticosterona em aves provê informações importantes a respeito da atividade adrenocortical, possibilitando inferir sobre o bem-estar nesses animais. Porém, a obtenção de sangue em aves silvestres é um procedimento invasivo, estressante e inapropriado para essa avaliação (Romero & Reed, 2005Romero M.L. & Reed J.M. 2005. Collecting baseline corticosterone samples in the field: is under 3 min good enough? Comp. Biochem. Physiol. 140:73-79.). Os benefícios associados às amostragens que não requerem contenção, anestesia e coleta de sangue incluem menor risco ao animal e investigador, assim como a possibilidade de obter perfis endócrinos que não foram influenciados pelo procedimento de amostragem. Para tanto, é possível utilizar as excretas dos animais para quantificação dos metabólitos de glicocorticoides (MG) (Möstl et al. 2005Möstl E., Rettenbacher S. & Palme R. 2005. Measurement of corticosterone in bird's droppings: an analytical approach. Ann. N.Y. Acad. Sci. 1046:17-34., Palme 2012Palme R. 2012. Monitoring stress hormone metabolites as a useful, non-invasive tool for welfare assessment in farm animals. Anim. Welf. 21:331-337.). Como o uso de kits específicos para dosagem das concentrações sanguíneas de hormônios plasmáticos (cortisol, corticosterona) tem se mostrado inadequado para a mensuração dos MG nas excretas de papagaios-verdadeiros (Fujihara et al. 2014Fujihara C.J., Marques Filho W.C., Monteiro A.L.R., Bittencourt R.F., Queiroz C.M., Pereira R.J.G. & Ferreira J.C.P. 2014. Measurement of glucocorticoid and progesterone metabolites in feces of blue fronted parrot (Amazona aestiva). Ciênc. Anim. Bras. 15:277-288.), é necessário que sejam empregados, para as dosagens hormonais nas excretas, ensaios que utilizem anticorpos com afinidade para um grande número dos metabólitos, como o enzimaimunoensaio cortisona grupo específico validado para essa espécie por Ferreira et al. (2015)Ferreira J.C.P., Fujihara C.J., Fruhvald E., Trevisol E., Destro F.C., Teixeira C.R., Pantoja J.C., Schmidt E.M. & Palme R. 2015. Non-invasive measurement of adrenocortical activity in blue-fronted parrots (Amazona aestiva, Linnaeus, 1758). PLoS ONE 10(12): e0145909.

Desta forma, o objetivo deste trabalho é analisar a resposta dos papagaios-verdadeiros a procedimentos enfrentados em cativeiro como contenção física seguida ou não de separação física por meio da dosagem dos níveis de metabólitos de glicocorticoides nas excretas.

Material e Métodos

Foram utilizados 24 papagaios, sete fêmeas e 17 machos, hígidos, adultos, de diversas idades, pertencentes ao CEMPAS (Centro de Manejo e Pesquisa de Animais Silvestres) da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp-Botucatu. Os animais, mantidos em dois viveiros coletivos amplos e adjacentes, estavam separados por sexo e familiarizados ao manejo e à alimentação. O experimento estava de acordo com os princípios éticos na experimentação animal e foi aprovado pelo Comitê de Ética no Uso Animal (CEUA) sob o Protocolo nº145/2010.

O projeto foi desenvolvido no mês de abril de 2012. Após um período de adaptação de 15 dias às condições experimentais e à presença da equipe de trabalho, os animais foram submetidos à captura com puçá e contenção manual por aproximadamente três minutos. Após este procedimento, realizado por diferentes veterinários, as aves foram separadas ao acaso, sendo que 13 (11 machos e duas fêmeas) voltaram para os viveiros coletivos e 11 (seis machos e cinco fêmeas) foram alojadas em gaiolas individuais no mesmo recinto dos viveiros, de modo a permitir que as aves isoladas mantivessem o contato visual e auditivo com as demais.

Uma hora antes do procedimento as fezes dos animais foram coletadas na forma de pool, representando o momento zero. Subsequentemente, a cada três horas, durante 24 horas, as excretas foram colhidas dos viveiros (pool de amostras) e das gaiolas (amostras individuais), sendo acondicionadas imediatamente a -20°C.

A extração dos MG foi realizada no Laboratório de Pesquisa em Proteínas de Fase aguda e Monitoramento Não invasivo da Reprodução e do Bem-estar Animal da FMVZ, Unesp Botucatu. Para tanto, foram pesados 0,05g de excretas em balança analítica e acrescentado 1mL de Metanol 80%. Após agitação contínua de 30 minutos em vórtex multitubos, as amostras foram centrifugadas a 500g por 20 minutos. Então, uma alíquota de 500μL do sobrenadante foi transferida para outro frasco e evaporada a 50oC por 14 horas. Após a evaporação os extratos secos foram armazenados a -20oC até o momento do ensaio.

As dosagens dos MG foram realizadas por enzimaimunoensaio no Departamento de Ciências Biomédicas da Universidade de Medicina Veterinária de Viena, Austria. Um dia antes das análises, os extratos secos foram rediluídos em 500μL de metanol 80%. Após a diluição, as alíquotas foram misturadas e mantidas a -20oC por 24 horas, agitadas por um minuto em vórtex multibubos e centrifugadas a 8000 g por dois minutos.

Os MG foram quantificados em uma alíquota de 30 μl do extrato diluído na proporção 1:10 em solução de ensaio, empregando-se a técnica de enzimaimunoensaio cortisona grupo específico, primeiramente descrita e validada em galináceos por Rettenbacher et al. (2004)Rettenbacher S., Möstl E., Hackl R., Ghareeb K. & Palme R. 2004. Measurement of corticosterone metabolites in chicken droppings. Brit. Poult. Sci. 45:704-711. e validada em papagaios-verdadeiros por Ferreira et al. (2015)Ferreira J.C.P., Fujihara C.J., Fruhvald E., Trevisol E., Destro F.C., Teixeira C.R., Pantoja J.C., Schmidt E.M. & Palme R. 2015. Non-invasive measurement of adrenocortical activity in blue-fronted parrots (Amazona aestiva, Linnaeus, 1758). PLoS ONE 10(12): e0145909. Os coeficientes de variação intra e interensaio foram, respectivamente, 3,15% e 4,96%, e a sensibilidade do ensaio foi de 1,4ng/g de fezes. Todas as amostras foram dosadas em duplicata. As concentrações de MG foram expressas em ng/g de excretas.

Os dados foram analisados pelo programa SAS, versão 2009. Como não apresentaram distribuição normal e homogeneidade de variância, os valores foram transformados logaritmicamente após a reposição das amostras perdidas por interpolação linear. Um modelo de medidas repetidas foi usado para determinar o efeito de sexo, tratamento (gaiola e viveiro) e tempo. Um termo de interação entre tratamento e momento foi incluído no modelo para testar a hipótese de que a diferença entre grupos seria dependente do momento analisado. Uma estrutura de covariância auto regressiva foi usada para modelar a correlação entre medidas repetidas dentro da mesma ave. O nível de significância considerado para todos os testes foi P<0,05.

Resultados

Apesar das variações individuais (3,5-1006,18ng/g excretas) a análise das concentrações dos MG mensuradas durante 24 horas não evidenciou efeito de sexo (P=0,5850), tratamento (P=0,6805) ou tempo (P=0,2293) (Fig.1). O presente estudo também não evidenciou diferenças significativas nas concentrações de MG entre machos e fêmeas de papagaios-verdadeiros, permitindo o agrupamento dos dados para análise. As fotografias das condições experimentais estão evidenciadas abaixo (Fig.2).

Fig.1:
Boxplot dos metabólitos de glicocorticoides (MG, ng/g de excreta) de papagaios-verdadeiros após contenção física seguida de isolamento físico (boxes cinzas, n=11) e valores medianos apresentados pelos animais controle submetidos à contenção seguida de retorno aos viveiros coletivos (linha pontilhada, n=13).

Fig.2:
(A)Viveiros adjacentes onde os animais permaneciam em grupos, separados por sexo. (B) As gaiolas onde os animais foram isolados (B).

Discussão

Os resultados deste experimento expressam pela primeira vez os efeitos da contenção física seguida ou não do isolamento físico sobre as concentrações de MG nas excretas de papagaios-verdadeiros.

De forma similar ao relatado para pássaros (passarinho-do-ártico, Zonotrichia leucophrys gambelii) (Astheimer et al. 1994Astheimer L.B., Buttemer W.A. & Wingfield J.C. 1994. Gender and seasonal differences in the adrenocortical response to ACTH challenge in an arctic passerine, Zonotrichia leucophrys gambeliiGen. Comp. Endocrinol. 94:33-43.), corujas (Wasser et al. 1997Wasser S.K., Bevis K., King G. & Hanson E. 1997. Noninvasive physiological measures of disturbance in the northern spotted owl. Conserv. Biol. 11(4):1019-1022., Wasser & Hunt 2005Wasser S.K. & Hunt K.E. 2005. Noninvasive measures of reproductive function and disturbance in the barred owl, great horned owl and northern spotted owl. Ann. N.Y. Acad. Sci. 1046:1-29.), galináceos (Rettenbacher et al. 2004Rettenbacher S., Möstl E., Hackl R., Ghareeb K. & Palme R. 2004. Measurement of corticosterone metabolites in chicken droppings. Brit. Poult. Sci. 45:704-711.) e mamíferos, como o hamster sírio (Chelini et al. 2010Chelini M.M., Otta E., Yamakita C. & Palme R. 2010. Sex differences in the excretion of fecal glucocorticoid metabolites in the Syrian hamster. J. Comp. Physiol. B, Biochem. Syst. Environ. Physiol. 180:919-925.), o presente estudo também não evidenciou diferenças significativas nas concentrações de MG entre machos e fêmeas de papagaios-verdadeiros. Essa resposta adrenocortical semelhante entre os sexos foi também observada por Ferreira et al. (2015)Ferreira J.C.P., Fujihara C.J., Fruhvald E., Trevisol E., Destro F.C., Teixeira C.R., Pantoja J.C., Schmidt E.M. & Palme R. 2015. Non-invasive measurement of adrenocortical activity in blue-fronted parrots (Amazona aestiva, Linnaeus, 1758). PLoS ONE 10(12): e0145909 quando avaliaram, fora da estação reprodutiva, as concentrações de metabólitos de glicocorticoides nas excretas de papagaio-verdadeiro ao longo do dia e após desafio com ACTH. Estes achados em conjunto consolidam a informação de que, para esta espécie, durante o período não reprodutivo, as taxas de secreção e metabolização dos glicocorticoides são semelhantes em machos e fêmeas.

No presente estudo, a despeito da ausência de elevação significativa das concentrações de MG nas excretas, os maiores valores foram observados entre três e seis horas após a contenção e separação física das aves, semelhante ao descrito por Ferreira et al. (2015)Ferreira J.C.P., Fujihara C.J., Fruhvald E., Trevisol E., Destro F.C., Teixeira C.R., Pantoja J.C., Schmidt E.M. & Palme R. 2015. Non-invasive measurement of adrenocortical activity in blue-fronted parrots (Amazona aestiva, Linnaeus, 1758). PLoS ONE 10(12): e0145909 que observaram a elevação das concentrações de MG nas excretas de papagaio-verdadeiro, a partir de três após desafio com ACTH (25 UI, im).

O gênero Amazona é sociável e pode ser encontrado em grupos de, em média, 2 a 4 indivíduos (Gilard & Munn 1998Gilard J.D. & Munn C.A. 1998. Patterns of activity, flocking and habitat use in parrots of the Peruvian Amazon. Condor 100(4):641-653.). Stöwe et al. (2009)Stöwe M., Drent P. & Möstl E. 2009. Social context and with-in pair behavior may modulate hormonal stress response in Great tits (Parus major), p.159-178. In: Heatherton A.T. & Walcott V.A. (Eds), Handbook of Social Interactions in the 21st Century. Nova Science Publishers, Hauppauge. afirmam que o contexto social pode modular o estresse em aves, tais como o chapim-real (Parus major). Contudo, mesmo em aves altamente sociais, o quanto um indivíduo está de fato integrado socialmente em seu grupo pode variar substancialmente (Stocker et al. 2016Stocker M., Munteanu A., Stöwe M., Schwab C., Palme R. & Bugnyar T. 2016. Loner or socializer? Ravens' adrenocortical response to individual separation depends on social integration. Horm. Behav. 78:194-199.). Em um estudo realizado por Meehan et al. (2004)Meehan C.L., Garner J.P. & Mench J.A. 2004. Environmental enrichment and development of cage stereotypy in Orange-winged Amazon Parrots (Amazona amazonica). Dev. Psychobiol. 44:209-218., observou-se comportamento afiliativo em papagaios-do-mangue (Amazona amazonica) e esta característica ajudou os animais a enfrentarem situações estressantes quando isolados do grupo e alojados aos pares. Pouco se sabe sobre como se estabelecem, se mantém e são valoradas as relações sociais em papagaios-verdadeiros. No presente estudo, as aves que voltaram ao viveiro não apresentaram menores taxas de excreção de MG quando comparadas com aquelas que foram alojadas em gaiolas individuais. O fato das gaiolas individuais terem permanecido no mesmo recinto e do isolamento ter sido apenas físico, com manutenção do contato visual e auditivo entre as aves, pode ter minimizado o efeito da separação, que não potencializou os efeitos da contenção física.

As concentrações de MG nas excretas de papagaio-verdadeiro observadas no presente estudo foram semelhantes às descritas por Ferreira et al. (2015)Ferreira J.C.P., Fujihara C.J., Fruhvald E., Trevisol E., Destro F.C., Teixeira C.R., Pantoja J.C., Schmidt E.M. & Palme R. 2015. Non-invasive measurement of adrenocortical activity in blue-fronted parrots (Amazona aestiva, Linnaeus, 1758). PLoS ONE 10(12): e0145909 ao estudar as variações fisiológicas diurnas desses metabólitos. Esse achado sinaliza que os desafios enfrentados pelos animais (contenção e separação) não desencadearam elevações plasmáticas importantes dos glicocorticoides.

A contenção física é considerada um evento estressante em aves (Carsia & Harvey 2000Carsia R.V. & Harvey S. 2000. Adrenals, p.489-537. In: Whittow G.C. (Ed.), Sturkie's Avian Physiology. 5th ed. Academic Press, London.). Contudo, Collette et al. (2000)Collette J.C., Millam J.R., Klasing K.C. & Wakenell P.S. 2000. Neonatal handling of Amazon parrots alters the stress response and immune function. Appl. Anim. Behav. Sci. 6:335-349. observaram que papagaios-do-mangue (Amazona amazonica), quando submetidos à contenção diária, dos 25 dias de idade até 38 dias depois do empenamento, apresentaram concentrações séricas de corticosterona inferiores as apresentadas pelas aves que experimentaram o manuseio pela primeira vez aos 66 dias de idade. Os autores concluíram que o manuseio neonatal diário permite que os animais sejam contidos posteriormente sem interpretarem o procedimento como estressante. Ferreira et al. (2015)Ferreira J.C.P., Fujihara C.J., Fruhvald E., Trevisol E., Destro F.C., Teixeira C.R., Pantoja J.C., Schmidt E.M. & Palme R. 2015. Non-invasive measurement of adrenocortical activity in blue-fronted parrots (Amazona aestiva, Linnaeus, 1758). PLoS ONE 10(12): e0145909 observaram, em papagaios-verdadeiros adultos, um comportamento semelhante, pois quando papagaios-verdadeiros adultos foram condicionados à contenção e injeção com solução salina (0,9% NaCl, im) não foi observada elevação das concentrações de MG nas excretas desses animais após esses procedimentos. Os achados de Ferreira et al. (2015)Ferreira J.C.P., Fujihara C.J., Fruhvald E., Trevisol E., Destro F.C., Teixeira C.R., Pantoja J.C., Schmidt E.M. & Palme R. 2015. Non-invasive measurement of adrenocortical activity in blue-fronted parrots (Amazona aestiva, Linnaeus, 1758). PLoS ONE 10(12): e0145909 juntamente aos do presente estudo ampliam este conceito e sugerem que indivíduos adultos podem ser condicionados à manipulação e contenção física sem que esse evento seja causador de estresse. Além disso, os animais empregados nestes estudo se encontravam no CEMPAS há no mínimo dois anos. O fato das aves estarem, de certa forma, familiarizadas com o ambiente e com as pessoas envolvidas no manejo diário (limpeza dos viveiros, alimentação e eventuais contenções), pode ter influenciado os resultados e amenizado o efeito dos tratamentos.

Hennessy (1997)Hennessy M.B. 1997. Hypothalamic-pituitary-adrenal response to brief social separation. Neurosci. Biobehav. Rev. 21(1):11-29 afirma que em aves, a separação de parceiros que exibem sinais de ligação emocional causa uma ativação imediata e persistente do eixo hipotalâmico-hipofisário-adrenal, enquanto a separação de duplas com comportamento afiliativo, mas sem sinais de vínculo emocional, possui pouco ou nenhum efeito. No nosso estudo, o isolamento físico não potencializou os efeitos da contenção física. Podemos propor que as aves não possuíam fortes vínculos entre si em cativeiro ou que o contato visual e auditivo foi suficiente para amenizar os efeitos do isolamento físico.

Estudos utilizando gansos (Baltic et al. 2005Baltic M., Jenni-Eiermann S., Arlettaz R. & Palme R. 2005. A noninvasive technique to evaluate human-generated stress in the Black Grouse. Ann. N.Y. Acad. Sci. 1046:1-15.) e corvos (Stöwe et al. 2008Stöwe M., Bugnyar T., Schloegl C., Heinrich B., Kotrschal K. & Möstl E. 2008. Corticosterone excretion patterns and affiliative behavior over development in ravens (Corvus corax). Horm. Behav. 53:208-216., Stocker et al. 2016Stocker M., Munteanu A., Stöwe M., Schwab C., Palme R. & Bugnyar T. 2016. Loner or socializer? Ravens' adrenocortical response to individual separation depends on social integration. Horm. Behav. 78:194-199.) afirmam que a organização social influencia o metabolismo e a excreção de glicocorticoides fazendo-os variar entre indivíduos da mesma espécie. Em corvo-comum (Corvus corax), aves com maior grau de dominância tendem a apresentar maiores concentrações de MG que os subordinados (Stöwe et al. 2008Stöwe M., Bugnyar T., Schloegl C., Heinrich B., Kotrschal K. & Möstl E. 2008. Corticosterone excretion patterns and affiliative behavior over development in ravens (Corvus corax). Horm. Behav. 53:208-216.) e aves com forte interação social podem revelar menores concentrações de MG quando mantidas em grupo (Stocker et al. 2016Stocker M., Munteanu A., Stöwe M., Schwab C., Palme R. & Bugnyar T. 2016. Loner or socializer? Ravens' adrenocortical response to individual separation depends on social integration. Horm. Behav. 78:194-199.).

Desta forma, a organização social do viveiro é uma das possíveis explicações dos resultados obtidos no presente estudo e sinaliza a importância de se conhecer previamente as relações sociais dos animais para o melhor compreensão dos fenômenos fisiológicos associados à separação nesta espécie.

Finalmente, as aves empregadas no presente estudo apresentavam uma grande diversidade de origens, pois eram oriundas de apreensões, doações, abandonos e possuíam, portanto, histórias diferentes. Experiências anteriores são importantes para papagaios e condicionam os efeitos estressores de determinados procedimentos (Collette et al. 2000Collette J.C., Millam J.R., Klasing K.C. & Wakenell P.S. 2000. Neonatal handling of Amazon parrots alters the stress response and immune function. Appl. Anim. Behav. Sci. 6:335-349., Ferreira et al. 2015Ferreira J.C.P., Fujihara C.J., Fruhvald E., Trevisol E., Destro F.C., Teixeira C.R., Pantoja J.C., Schmidt E.M. & Palme R. 2015. Non-invasive measurement of adrenocortical activity in blue-fronted parrots (Amazona aestiva, Linnaeus, 1758). PLoS ONE 10(12): e0145909). No entanto, a diversidade encontrada no estudo foi uma característica positiva pois refletiu a realidade de zoológicos e outros tipos de cativeiros.

Conclusão

A contenção, seguida ou não de isolamento físico, em ambientes que permitam a manutenção do contato auditivo e visual entre as aves, não elevou as concentrações de metabólitos de corticosterona nas excretas de papagaios-verdadeiros. Contudo, mais pesquisas nesta espécie são necessárias para que seja possível entender os efeitos do ambiente e da organização social na resposta a procedimentos de manejo ou situações cotidianas enfrentadas por esses animais.

Agradecimentos

À FAPESP (Auxílio 2009/05864-8 , Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e PROPG (Pró-Reitora de Pós-Graduação) - Unesp pelo suporte financeiro, à Edith Klobetz Rassam pela assistência técnica nos procedimentos de Enzimaimunoensaio e a todos os funcionários e residentes do CEMPAS pelo apoio e auxílio dados a este projeto de pesquisa.

Referências

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    Jun 2016

Histórico

  • Recebido
    14 Fev 2015
  • Aceito
    21 Fev 2016
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