Open-access Necessidades de Familiares Cuidadores e Atuação do Enfermeiro nos Cuidados Paliativos Oncológicos: Revisão Integrativa da Literatura

RESUMO

Introdução:  O familiar cuidador de um paciente oncológico exerce papel importante na assistência, sendo fundamental que os profissionais de saúde atuem efetivamente diante de suas necessidades e dificuldades, a fim de promover o desenvolvimento das competências de cuidado. O estudo fornece contribuições significativas para uma melhor fundamentação da assistência em enfermagem, com o intuito de aprimorar a relação entre teoria e a prática.

Objetivo:  Identificar as principais necessidades dos familiares cuidadores de pacientes oncológicos em cuidados paliativos e o papel do enfermeiro frente a essas necessidades.

Método:  Revisão integrativa da literatura com artigos publicados em português, inglês e espanhol nas bases de dados PubMed, BDENF, LILACS e SciELO.

Resultados:  A amostra final foi composta por 27 artigos, divididos em duas categorias: 1) A transição para o cuidar - necessidades e habilidades dos familiares cuidadores; 2) Atuação do enfermeiro diante da transição do familiar cuidador. Foi demonstrado que os familiares cuidadores precisam se ajustar às demandas geradas pelo novo papel, sendo os enfermeiros os principais responsáveis por oferecer esse suporte, auxiliando-os a desenvolver e dominar as respectivas habilidades.

Conclusão:  As evidências científicas demonstram que o enfermeiro deve compreender as experiências e necessidades dos familiares cuidadores diante de inúmeras situações vivenciadas em sua trajetória no cuidado, e fornecer informações e orientações que favoreçam o processo de tomada de decisão.

Palavras-chave:
Cuidados Paliativos; Cuidados de Enfermagem; Avaliação das Necessidades; Papel do Profissional de Enfermagem; Enfermagem Oncológica

ABSTRACT

Introduction:  The family caregiver of a cancer patient plays an important role in providing care, it is essential that health professionals act effectively in face of their needs and difficulties in promoting the development of caring skills. The study provides significant contributions for enhanced nursing care in order to strengthen the relationship between theory and practice.

Objective:  Identify the main needs of family caregivers of cancer patients in palliative care and the role of nurses in meeting these needs.

Method:  Integrative literature review with articles published in Portuguese, English and Spanish at the databases PubMed, BDENF, LILACS, SciELO.

Results:  The final sample consisted of 27 articles divided into two categories: 1) The transition to care - care needs and skills of family caregivers; 2) Nurse’s role in the transition of the family caregiver. It has been shown that family caregivers have innumerous needs in view of their new role, with nurses being primarily responsible for offering this support, helping them to master these skills.

Conclusion:  Scientific evidence demonstrates that nurses must understand the experiences and needs of family caregivers in face of several situations experienced in their working journey, and provide information and guidance that favors the decision-making process.

Key words:
Palliative Care; Nursing Care; Needs Assessment; Nurse’s Role; Oncology Nursing

RESUMEN

Introducción:  El cuidador familiar del paciente con cáncer juega un papel importante en el cuidado, siendo fundamental que los profesionales de la salud actúen eficazmente ante sus necesidades y dificultades para promover el desarrollo de habilidades de cuidado. El estudio proporciona aportes significativos para una mejor fundamentación de la atención de enfermería, con el objetivo de mejorar la relación entre teoría y práctica.

Objetivo:  Identificar las principales necesidades de los cuidadores familiares de pacientes oncológicos en cuidados paliativos y el papel de las enfermeras en la satisfacción de estas necesidades.

Método:  Revisión integradora, realizada en las siguientes bases de datos PubMed, BDENF, LILACS, SciELO, de artículos publicados en inglés, portugués y español.

Resultados:  La muestra final estuvo compuesta por 27 artículos, divididos en dos categorías: 1) La transición al cuidado - necesidades de cuidado y habilidades de los cuidadores familiares; 2) El papel del enfermero en la transición del cuidador familiar. Se demostró que los cuidadores familiares tienen numerosas necesidades de cara a su nuevo rol, siendo las enfermeras las principales responsables de ofrecer este apoyo, ayudándoles a desarrollar el dominio de las habilidades.

Conclusión:  La evidencia científica demuestra que el enfermero debe comprender las experiencias y necesidades de los cuidadores familiares ante numerosas situaciones vividas en su recorrido asistencial, y brindar información y orientación que favorezcan el proceso de toma de decisiones.

Palabras clave:
Cuidados Paliativos; Atención de Enfermería; Evaluación de Necesidades; Rol de la Enfermera; Enfermería Oncológica

INTRODUÇÃO

O aumento significativo dos casos de câncer, e seus efeitos crônicos, motivou a necessidade de se pensar em novas modalidades assistenciais para promover o cuidado adequado à população. Com os avanços tecnológicos e científicos e as melhorias no diagnóstico e tratamento, o número de sobreviventes do câncer tem se tornado cada vez maior1.

O diagnóstico do câncer, assim como o processo de hospitalização, resulta em uma série de repercussões, provocando alterações em toda a dinâmica familiar, com mudanças no cotidiano e aquisição de novos papéis sociais2. Dessa forma, considera-se que a família do paciente oncológico passa por um período de transição, no qual terá que exercer um novo papel como familiar cuidador (FC). É nesse contexto que a abordagem dos cuidados paliativos se mostra relevante, por sua capacidade de promover uma melhor qualidade de vida aos pacientes e seus familiares cujos diagnósticos são de doenças ameaçadoras à vida, como as neoplasias malignas3.

Diante da relevância dessa temática, a teoria das transições, de Afaf Meleis4, foi selecionada como aporte teórico para o presente estudo. Esta inclui quatro conceitos centrais: i) a natureza das transições; ii) as condições das transições; iii) os padrões de resposta; e iv) as intervenções de enfermagem. A conceptualização da transição tem forte influência na assistência de enfermagem, influenciando positivamente os processos por meio de uma visão ampla, com prevenção, promoção e intervenção terapêutica de cuidados5.

Os enfermeiros são profissionais que trabalham diretamente no cuidado, mantendo uma relação de proximidade com situações de dor, morte e desesperança dos pacientes em fase final de vida e de seus familiares6. O FC, por sua vez, exerce papel importante na assistência, sendo fundamental que o profissional de saúde estabeleça uma relação positiva com o cuidador, pois isso influenciará o desenvolvimento das competências de cuidado7.

O amparo aos FC envolve a observação e o atendimento de suas necessidades nesse novo papel social, buscando prepará-lo e subsidiá-lo para o enfrentamento de sua nova rotina8,9, tornando-o protagonista do cuidado.

Com os avanços da medicina houve um aumento significativo de melhor prognóstico para o paciente oncológico, o que requer em muitos casos o cuidado prolongado, no qual a família passa a desempenhar um papel essencial durante a hospitalização e quando esse paciente recebe alta, retornando ao seu domicílio.

Logo, ao identificar as necessidades e habilidades dos familiares cuidadores durante o processo de cuidar, possibilita-se o desenvolvimento de estratégias que favoreçam o envolvimento do familiar dentro da assistência, fortalecimento de vínculo e comunicação efetiva, para que este possa realizar um cuidado com mais segurança e qualidade ao seu ente adoecido.

O estudo fornece contribuições significativas para uma melhor fundamentação da assistência em enfermagem, com o intuito de aprimorar a relação entre teoria e prática. Diante disso, esta pesquisa tem por objetivo identificar as principais necessidades dos familiares cuidadores de pacientes oncológicos em cuidados paliativos e o papel da enfermagem em face dessas necessidades.

MÉTODO

Revisão integrativa, método que resume a literatura existente empírica ou teórica para fornecer uma compreensão mais abrangente de um fenômeno particular10. A revisão foi elaborada seguindo as seis etapas propostas por Mendes, Silveira e Galvão11: i) identificação do tema e seleção da questão de pesquisa; ii) estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão para seleção das amostras; iii) identificação dos estudos pré- -selecionados e selecionados; iv) categorização; v) análise e interpretação dos resultados; e vi) apresentação da revisão.

Para auxiliar na identificação de tópicos-chave e na formulação da questão norteadora, foi utilizado o acrônimo PICo em que “P” referiu-se à população do estudo (familiares cuidadores); “I”, à intervenção estudada ou à variável de interesse (atuação da enfermagem); e “Co”, ao contexto (cuidados paliativos oncológicos). Para nortear a pesquisa, elaborou-se a seguinte questão: “Qual o papel da enfermagem perante as necessidades dos familiares cuidadores de pacientes oncológicos em cuidados paliativos?”

As buscas foram realizadas nos meses de maio e julho de 2023, nas bases de dados National Library of Medicine (PubMed), Base de dados de Enfermagem (BDENF), Literatura Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde (LILACS), Scientific Electronic Library Online (SciELO), a partir dos Descritores em Ciências da Saúde/ Medical Subject Headings (DeCS/MeSH): “neoplasias”, “cuidados de enfermagem”, “cuidados paliativos”, “cuidadores familiares”, “familiares cuidadores” e “avaliação das necessidades de cuidados de saúde”, nos idiomas inglês, espanhol e português, utilizando os operadores booleanos “AND” e “OR” adotados para a estratégia de busca (Quadro 1), a partir de critérios de inclusão e exclusão.

Quadro 1.
Bases de dados e estratégias de busca. Belém (PA), Brasil, 2023

Os critérios de inclusão foram: artigos completos disponíveis gratuitamente nos idiomas inglês, português e espanhol, publicados nos últimos 10 anos (2013-2023), que correspondessem ao objetivo do estudo e à questão norteadora, delimitando a busca aos cuidados paliativos oncológicos em indivíduos adultos. Já os critérios de exclusão foram: artigos que não correspondessem ao tema ou objetivo propostos na pesquisa, artigos com temática de cuidados paliativos pediátricos, estudos incompletos e/ou não disponíveis gratuitamente; revisões de literatura ou bibliográficas e outras publicações como manuais técnicos, monografias, teses e dissertações.

Posteriormente, para auxiliar na coleta e na apresentação dos dados, foi elaborado um quadro para simplificar, resumir e organizar os achados, validado por Ursi12, contendo as seguintes informações: título, ano/país, tipo de estudo, objetivos, tamanho da amostra e principais resultados (Quadro 2).

Quadro 2.
Quadro-síntese com a distribuição dos estudos selecionados, conforme título, ano/país, tipo de estudo, objetivos, tamanho da amostra e principais resultados, 2023

RESULTADOS

Foram encontradas 388 produções por meio da triagem inicial nas quatro bases de dados. A partir dos critérios de inclusão e exclusão, foram removidas 279 produções. Foram avaliados 109 artigos quanto à elegibilidade, sendo excluídos ainda 47 artigos por duplicação nas bases. Ao todo, 62 artigos foram submetidos à leitura do título e resumo para verificar a adequação à questão norteadora e objetivo da pesquisa, resultando na exclusão de 38 artigos, em razão da incompatibilidade com a temática. Restando assim uma amostra final de 24 estudos (Figura 1).

Figura 1.
Fluxograma de busca e seleção dos artigos nas bases de dados. Belém (PA), Brasil, 2023

O fluxograma mostrando o caminho percorrido para a seleção das publicações seguiu o modelo de recomendação do Preferred Reporting Items for Systematic Review and Meta-Analyses (PRISMA)13 (Figura 1).

A amostra final constituiu-se de 24 artigos, dos quais 17 (70,8%) foram encontrados na PubMed, quatro (16,6%) na BDENF, três (12,5%) na LILACS, e na base da SciELO nenhum artigo foi selecionado. Em relação ao idioma, 16 artigos foram publicados em inglês, sete em português e um em espanhol (Quadro 2).

Em relação às temáticas, os manuscritos evidenciam questões relacionadas às necessidades do FC ao cuidar de um paciente oncológico. Necessidades de apoio emocional e financeiro, falta ou dificuldade de acesso a cuidados paliativos, além de falta de informações sobre o câncer e seus tratamentos, falta de treinamento formal por meio da educação em saúde, e falta de apoio às atividades práticas de cuidado, para que os FC possam desenvolver tais habilidades de cuidados com qualidade. Abordando ainda o papel dos enfermeiros como elo principal na comunicação entre equipe-paciente-família, e principais responsáveis pela promoção da educação em saúde, envolvendo os FC no planejamento do cuidado e na tomada de decisões.

DISCUSSÃO

A TRANSIÇÃO PARA O CUIDAR - NECESSIDADES E HABILIDADES DE CUIDADOS DOS FAMILIARES CUIDADORES

Após o diagnóstico de uma doença grave e ameaçadora de vida, a família lida com medos e inseguranças, além da necessidade de uma readaptação na estrutura funcional para que possa atender por completo as necessidades do familiar doente3,38. De acordo com Meleis4, ao desempenhar novos papéis, os indivíduos passam por processos de transição. Nesse momento, surge a figura do FC. Segundo a teoria4, a transição vivenciada pelos FC é considerada do tipo situacional, pois inclui os eventos que promovem mudanças ou redefinição de papéis da pessoa.

Ao reconhecer que os FC são um componente essencial nos cuidados, amplia-se a necessidade de investigação dos problemas e necessidades por eles apresentados. As necessidades serão analisadas a partir da teoria de Meleis4 considerando os fatores condicionantes da transição e as terapêuticas de enfermagem.

As condições da transição podem estar relacionadas a fatores inibidores ou facilitadores da transição, abrangendo os desafios do processo de cuidar, as vivências pessoais, da sociedade e comunidade em que estão inseridos, permeados pelas terapêuticas de enfermagem, que são as ações dos enfermeiros no cuidado e se concentram na prevenção de transições não saudáveis, promovendo a percepção de bem-estar4.

O papel do FC de um paciente oncológico em cuidados paliativos demanda a realização de múltiplas tarefas, entre elas, o gerenciamento dos sintomas, administração de medicamentos, coordenação de cuidados, execução de tarefas domésticas e apoio emocional e físico aos pacientes, informações encontradas na maioria dos estudos.

Essas ações são inerentes às propriedades da transição4, como a consciência/percepção do novo papel, o envolvimento ou compromisso e as mudanças percebidas após a transição para o papel de cuidador. Para Meleis et al.4, o nível de consciência influencia no compromisso de cuidar e vice-versa. Quanto maior consciência o FC tem sobre o prognóstico do ente cuidado, maior será o seu envolvimento na tarefa de cuidar.

Quanto aos desafios e dificuldades enfrentados pelos FC, os estudos evidenciam que estes podem sentir tensão por causa do fardo de cuidar de alguém altamente dependente de seu apoio e precisam de adequado treinamento e educação para melhorar as habilidades de cuidado, tanto práticas quanto emocionais, incluindo habilidades de comunicação, gerenciamento de sintomas, cuidados com a pele e nutrição dos pacientes16,17,22,23,24,28,29,30,31,32,35,36, administração de medicamentos e cuidados com feridas também foram mencionadas nos estudos17,19,23,24,27,28,29,30,31,34,35. Essas habilidades são intimamente relacionadas à autoeficácia e melhor tomada de decisões.

O novo papel provoca necessidades de informação, emocionais, psicológicas, práticas e de comunicação efetiva para lidar com o estresse e as demandas do cuidado19,23,24,27,28,29,30,31,34,37. Essas necessidades pessoais, se forem adequadamente atendidas, podem ser consideradas como fatores facilitadores da transição4, entendendo a influência que causam no domínio de habilidades e assim na transição de forma saudável.

Os achados apontam que a falta de preparação adequada e treinamento para melhorar as habilidades dos FC podem influenciar negativamente no seu próprio bem-estar e na capacidade de cuidar, ocasionando as sobrecargas emocional e física14,21,23,31,32,33,35 e a falta de comunicação efetiva com a equipe de saúde23,24. Fatores que podem ser inibidores de uma transição, uma vez que, para Meleis et al.4, quanto maior a preparação e a informação, maior a habilidade de cuidado, facilitando a experiência de transição e influenciando-a de forma saudável.

Quanto aos fatores condicionantes à comunidade e sociedade4, os estudos evidenciam a necessidade de apoio de ordem social e intrapessoal20,27,30,37, acesso a recursos de saúde e serviços de cuidados paliativos de qualidade17,24,26,32,33, bem como programas de atendimento domiciliar16,17,30,32,37, para suporte aos FC, condições que podem facilitar o processo de transição. Além disso, os estudos destacam a importância de programas de intervenção social governamentais24, de envolvimento da comunidade local e de líderes religiosos na prestação de cuidados paliativos e no apoio aos cuidadores31.

Para o estudo de Dionne-Odom, Ornstein e Kent26, os cuidadores familiares desempenham papel crítico na prestação de cuidados de saúde diários e outras tarefas, desde o diagnóstico até o final da vida. O que corrobora o estudo de revisão narrativa39, que analisou as necessidades e habilidades dos familiares cuidadores de pacientes com câncer torácico.

Entre os pontos importantes do estudo39, identificou--se a importância de integrar cuidados paliativos precoces no tratamento, a fim de melhor gerenciar os desafios associados à doença, melhorando a qualidade de vida tanto dos pacientes quanto dos cuidadores, uma vez que os cuidados paliativos não se limitam apenas aos cuidados no final de vida40, mas devem ser integrados à abordagem de tratamento desde o diagnóstico por sua capacidade de promover bem-estar e qualidade de vida.

Assim, a preparação e o conhecimento durante uma transição e a utilização de estratégias que possam ser utilizadas no decorrer do processo tendem a facilitar a experiência de cuidar no contexto dos cuidados paliativos oncológicos41. A identificação dos efeitos e impactos dessas necessidades no processo de transição para o cuidar é fundamental na assistência prestada por enfermeiros, pois, ao serem trabalhadas no intuito de aperfeiçoar as habilidades, pode-se aprimorar o cuidado prestado e assim favorecer a melhor qualidade de vida dos pacientes e seus FC.

Em resumo, a transição ocorre de forma saudável quando os indivíduos demonstram maestria das habilidades de cuidado - domínio dos comportamentos necessários diante do novo papel. De acordo com Meleis et al.4, a maestria resulta de uma mistura de habilidades anteriores com habilidades adquiridas com as experiências vivenciadas no curso da transição. Ou ainda, ser não saudável ou ineficaz, quando é marcada pela dificuldade na compreensão do papel, não ocorrendo o domínio para gerenciar a nova condição de forma adequada.

Desse modo, os enfermeiros são facilitadores de um processo de transição saudável, e possuem papel essencial nos momentos iniciais, visto que é pouco provável que essa capacidade de maestria ocorra no início da vivência da transição de um indivíduo41. Diante dessa perspectiva, a próxima categoria aborda o papel dos enfermeiros diante das necessidades aqui evidenciadas.

ATUAÇÃO DO ENFERMEIRO DIANTE DAS NECESSIDADES DO FAMILIAR CUIDADOR

As terapêuticas de enfermagem42 podem ser entendidas como as atividades e ações realizadas pelos enfermeiros com o intuito de facilitar o processo de transição e, assim, alcançar uma melhor condição de saúde e maior bem-estar. Para Schumacher e Meleis43, intervenções de enfermagem direcionadas aos FC desenvolvem a capacitação de habilidades e fornecem suporte quando necessário. Sendo assim, as terapêuticas de enfermagem devem concentrar-se na prevenção das transições não saudáveis, promovendo a percepção de bem-estar e as orientações necessárias para o domínio do novo papel41.

Os estudos mostram que os enfermeiros precisam estar cientes das necessidades e das preocupações dos cuidadores para fornecer cuidados de qualidade e eficazes17,23, e no fornecimento de intervenções, como educação sobre cuidados práticos do dia a dia, aconselhamento e encaminhamento para serviços de apoio quando necessário30,33. Os enfermeiros auxiliam, ainda, no ensino de procedimentos técnicos ligados às necessidades do dia a dia, promovem uma escuta atenta15, fornecem estratégias para o gerenciamento de estresse dos FC16,17,23,24,32,33,34,35 e habilidades de comunicação14,17,23,24,28,29,31,32.

O reconhecimento das experiências vivenciadas pelos FC corresponde a um dos pilares da teoria das transições4, atribuindo aos enfermeiros a responsabilidade de desenvolver intervenções que respondam às necessidades perante o processo de transição. Os enfermeiros podem influenciar processos de transição se a sua prática for centrada na pessoa e nas suas necessidades reais, devendo contemplar os aspectos físicos, psicológicos e espirituais dos familiares cuidadores41.

Dentro dos cuidados paliativos, existem princípios que regem a abordagem e um deles refere-se a “oferecer um sistema de suporte para auxiliar os familiares durante a doença do paciente e a enfrentar o luto”44, com foco nas necessidades apresentadas. Tal princípio reflete a importância de identificar e sanar as dúvidas e necessidades desses FC, para que realizem o cuidado de forma assertiva e consigam encontrar estratégias de enfrentamento ao luto, como reforçado nos estudos desta revisão17,21,29,33.

O que corrobora o estudo realizado na Indonésia20, que aponta o desenvolvimento de intervenções de cuidados paliativos liderados por enfermeiros para atender às necessidades dos cuidadores familiares de pacientes com câncer em várias áreas. O estudo sugere ainda que “os enfermeiros oncológicos podem abrir ambulatório para consulta, treinar a família, monitorar o progresso e as necessidades emergentes por meio de visitas remotas ou domiciliares”20, com o intuito de promover melhor qualidade de vida, respeitando as necessidades e as capacidades dos pacientes e seus FC.

Outras evidências45 inferem que as intervenções de enfermagem possuem efeitos benéficos para os FC de pacientes com câncer, com um papel fundamental na melhoria da preparação, a partir de uma perspectiva holística. O fornecimento de treinamento e orientação envolve-os no processo de tomada de decisão em relação aos cuidados de seus entes queridos, ajudando os FC a tomar decisões informadas20,27,32,35.

A maioria dos estudos sugere o fornecimento de informações e educação sobre o cuidado prático, patologia da doença, sintomas mais comuns, prognóstico e opções de tratamento, gerenciamento de sintomas, incluindo o conhecimento sobre terapias não farmacológicas para alívio da dor, cuidados com a medicação, a fim de reduzir as complicações decorrentes da evolução da doença, cuidados com a pele, higiene pessoal, nutrição e hidratação14,15,16,17,18,21,22,23,24,27,28,29,30,31,32,33,38.

Uma revisão integrativa46 evidenciou que a informação de forma clara e objetiva é uma das principais ferramentas de apoio que os profissionais de saúde podem oferecer aos familiares no período de hospitalização, a fim de facilitar a compreensão da situação de saúde da pessoa cuidada. Logo, a comunicação com o paciente e seus familiares deve ter tais atributos e ser compreensiva, respeitando sempre a autonomia dos indivíduos, valorizando suas crenças e valores, buscando compreender suas dificuldades e necessidades de adaptações às novas situações que geram instabilidade.

Tais orientações necessitam ser de fácil compreensão, entendendo que a educação em saúde favorece um cuidado seguro, facilitando assim a transição para o novo papel. Nesse sentido, as tecnologias educacionais surgem como ferramentas importantes que auxiliam estes profissionais no fornecimento de informações, promovendo melhor adesão às práticas seguras e mudança de comportamentos, como evidenciam os estudos18,22. Para Varela et al.18, a utilização de tecnologias educativas voltadas às reais necessidades da nova condição desse familiar enquanto cuidador possibilita maior qualidade do ensino- -aprendizagem e da comunicação na assistência em saúde.

Reforçando os achados nos estudos de Alavariza et al.29 e Grande et al.33, a falta de comunicação e compreensão entre os pacientes, cuidadores e profissionais pode levar a decisões inadequadas de tratamento e a uma diminuição da qualidade de vida para pacientes e cuidadores.

Desse modo, há uma necessidade crescente de assegurar ao paciente e ao FC a adoção de práticas que possam propiciar um cuidado integral e humanizado, considerando todo o contexto em que o paciente se encontra e como se dá a sua dinâmica e relação familiar. O enfermeiro atuante em cuidados paliativos, ao promover assistência integral e acolhedora ao paciente e seus familiares, com práticas humanizadas e comunicação efetiva, auxilia esses familiares cuidadores no enfrentamento dos desafios inerentes ao cuidar.

Portanto, aos enfermeiros, cabe reconhecer a importância dos familiares cuidadores e fornecer suporte e treinamento adequados para ajudá-los a lidar com os desafios do cuidado de pacientes oncológicos em cuidados paliativos, auxiliar na prestação de cuidados por meio de preparação e suporte, acesso a recursos e serviços práticos e psicossociais e integração de cuidados paliativos precoces no plano de tratamento.

Como limitação do estudo, tem-se o número de bases de dados selecionadas para a busca, o que não interfere, contudo, nos resultados obtidos, visto o número de artigos selecionados para a discussão. Portanto, ao acrescentar outras bases de dados e combinações de descritores em estudos futuros, aumenta-se a chance de novos achados com maiores níveis de evidência e novas contribuições à comunidade científica.

CONCLUSÃO

Ao experienciar uma transição para o papel de cuidador de um paciente oncológico, os familiares se deparam com sentimentos como medo, angústia e sofrimento. Isso acarreta mudanças em toda a dinâmica familiar, além da necessidade de uma readaptação do papel na sociedade e da aquisição de habilidades de cuidados. São diversas necessidades, como informacionais, práticas, emocionais e psicológicas, reforçando a importância da atuação do enfermeiro diante da temática, enquanto facilitador do processo de transição.

O presente estudo evidenciou que o enfermeiro deve compreender as experiências e necessidades dos FC diante das inúmeras situações vivenciadas em sua trajetória no cuidado, fornecendo informações e orientações que favoreçam o processo de tomada de decisão no cuidado, no qual paciente e FC recebam uma assistência que promova bem-estar e melhor qualidade de vida, como preconizam os cuidados paliativos.

A utilização de um modelo teórico para a compreensão dos resultados possibilitou aprofundar a discussão em torno de um tema tão importante dentro dos cuidados paliativos oncológicos, permitindo o reconhecimento do papel do enfermeiro por meio de uma visão holística do processo de cuidar, bem como o fortalecimento do debate na comunidade cientifica, aprimorando a relação entre teoria e prática. A identificação de fatores facilitadores e inibidores da transição poderá servir de subsídio para o planejamento de intervenções de enfermagem que promovam um cuidado integral e humanizado destinados ao FC.

Outros estudos podem melhor destrinchar tais intervenções de enfermagem realizadas na assistência oncológica paliativa, com vistas a identificar as melhores alternativas que possam transmitir informação e preparação para a aquisição de novas habilidades de cuidado, favorecendo um plano de cuidados de acordo com as reais necessidades do FC que envolva desde o diagnóstico, desospitalização e cuidados na fase de final de vida até o luto.

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  • FONTES DE FINANCIAMENTO
    Não há.

Editado por

  • Editor-associado:
    Fernando Lopes Tavares de Lima. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-8618-7608
  • Editora-científica:
    Anke Bergmann. Orcid iD: https://orcid.org/0000-0002-1972-8777

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    16 Fev 2024
  • Aceito
    23 Maio 2024
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