RESUMO
O objetivo deste artigo é refletir sobre as articulações entre inclusão, interseccionalidade e marcadores sociais da diferença operacionalizadas nas ações de ensino, pesquisa e extensão propostas pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre Inclusão e Diferenças na Educação Física Escolar (LEPIDEFE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Apoio-me em um sentido amplo, dialético, processual e infindável sobre inclusão, articulando marcadores sociais da diferença como raça, deficiência, gênero, idade e seus aspectos interseccionais. A partir de narrativas de vida, apresento cenas formativas que retratam falas potentes reconhecendo as diferenças em intersecção que as compõem, o que nos leva a reflexões para a construção de uma form(ação) mais inclusiva na Educação Física.
Palavras-chave:
Inclusão; Interseccionalidade; Marcadores sociais da diferença; Educação Física
ABSTRACT
The aim of this article is to reflect on the links between inclusion, intersectionality and social markers of difference as operationalized in the teaching, research and extension activities proposed by Laboratory for Studies and Research on Inclusion and Differences in School Physical Education (LEPIDEFE) at the Federal University of Rio de Janeiro (UFRJ). I refer to a sense of inclusion that is broad, dialectical and in a continuous and endless process, articulating social markers of difference such as race, disability, gender, age and their intersectional aspects. Based on life narratives, I present formative scenes that portray powerful speeches recognizing the intersecting differences that make them up, which leads us to reflect on building an inclusive form(action) in Physical Education.
Keywords:
Inclusion; Intersectionality; Social markers of difference; Physical Education
RESUMEN
El objetivo de este artículo es reflexionar sobre los vínculos entre la inclusión, la interseccionalidad y los marcadores sociales de diferencia tal y como se operacionalizan en las actividades de enseñanza, investigación y extensión propuestas por el Laboratorio de Estudios e Investigaciones sobre Inclusión y Diferencias en Educación Física Escolar (LEPIDEFE) de la Universidad Federal de Río de Janeiro (UFRJ). Me baso en una comprensión amplia, dialéctica, proceso continuo e interminable de la inclusión, articulando marcadores sociales de diferencia como la raza, la discapacidad, el género, la edad y sus aspectos interseccionales. A partir de narrativas de vida, presento escenas formativas que retratan discursos poderosos reconociendo las diferencias de intersección que los componen, lo que nos lleva a reflexionar sobre la construcción de una form(acción) más inclusiva en Educación Física.
Palabras clave:
Inclusión; Interseccionalidad; Marcadores sociales de diferencia; Educación Física
REFLEXÕES INICIAIS
O objetivo deste artigo é refletir sobre as articulações entre inclusão, interseccionalidade e marcadores sociais da diferença operacionalizadas nas ações de ensino, pesquisa e extensão pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre Inclusão e Diferenças na Educação Física Escolar (LEPIDEFE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Distante de uma perspectiva ingênua e romantizada, me apoio em uma rede dialógica de autores(as) para pensar um sentido amplo, dialético, processual e infindável sobre inclusão (Sawaia, 2022; Booth e Ainscow, 2012; Santos et al., 2009). Dialético, posto que as exclusões se constituem como bases da manutenção desse sistema opressor e capitalista. Processual e infindável, porque situações excludentes que acontecem na universidade, na escola ou na educação física refletem e são refletidas por questões que emergem na sociedade.
A partir dessas inquietações, o conceito de inclusão passa a ser compreendido não como um lugar fixo a se chegar, mas como uma construção coletiva em um movimento processual, dinâmico, dialético e sem fim, justo porque vivemos em um modelo de sociedade que ainda não permite que a inclusão impere o tempo todo. É uma luta cotidiana. (Fonseca, 2023, p. 7)
É amplo pois não abrange somente um grupo historicamente excluído e não é sinônimo de Educação Especial. Busca visibilizar os marcadores sociais da diferença considerando deficiência, gênero, sexualidade, racialidade, etnia, classe social, geração, dentre outros, não entendendo-as como categorias isoladas, mas como uma rede interseccional que nos ajuda a refletir sobre as complexidades que nos compõem (Collins e Bilge, 2021). Além disso, dialogo com Candau (2020) na compreensão das diferenças como uma vantagem pedagógica e não como sinônimo de desigualdade.
Para Zamboni (2014, p. 13) “[...] marcadores sociais da diferença são sistemas de classificação que organizam a experiência ao identificar certos indivíduos com determinadas categorias sociais”. O autor ainda afirma que “Não existe uma lista fechada e definitiva dizendo quais são os marcadores sociais da diferença” e menciona raça, gênero, sexualidade, classe e geração como as que “[...] têm sido frequentemente estudados e se mostrado fundamentais para compreender a sociedade brasileira contemporânea” (Zamboni, 2014, p. 15).
Autores como Zamboni (2014), Hirano (2019) abordam significativas articulações entre os marcadores sociais da diferença raça, classe, gênero, mas não discutem questões envolvendo a deficiência. Inclusive Hirano (2019, p. 52) reconhece
[...] abertura para incorporar, na análise das diferenciações e da produção das desigualdades, novas marcas – como fica evidenciado nos estudos das deficiências físicas e de outras ordens, ainda pouco pesquisadas por meio do entrecruzamento de categorias.
Proponho, então, nesse texto incorporar uma tessitura interseccional envolvendo também as pessoas com deficiências.
Há muitas autoras construindo o debate sobre a interseccionalidade desde a década de 1970, porém, me aproximo do sentido apresentado por Collins e Bilge (2021) ao considerar como uma articulação complexa da nossa constituição enquanto indivíduos e não como uma sobreposição de opressões. A interseccionalidade visa, portanto, investigar “[...] como as relações interseccionais de poder influenciam as relações sociais em sociedades marcadas pela diversidade, bem como as experiências individuais na vida cotidiana” (Collins e Bilge, 2021, pp. 16-17).
Como ferramenta analítica, a interseccionalidade considera que as categorias de raça, classe, gênero, orientação sexual, nacionalidade, capacidade, etnia e faixa etária – entre outras – são inter-relacionadas e moldam-se mutuamente. A interseccionalidade é uma forma de entender e explicar a complexidade do mundo, das pessoas e das experiências humanas. (Collins e Bilge, 2021, p. 17).
Hirano (2019, p. 42) afirma que “Collins utiliza o termo marcador em referência a atributos raciais, de classe e de cidadania, entre outros, que expressam vantagens e desvantagens dentro de uma matriz de dominação”. Assim, os marcadores sociais da diferença em intersecção podem produzir efeitos de exclusão e violência nas experiências das pessoas ou vantagens de umas sobre as outras. Proponho, portanto, construir espaços formativos para destacar a potência de marcadores articulados como riquezas para a aprendizagem, ressignificando opressões históricas.
No campo da Educação Física escolar, há necessidade de propostas formativas mais inclusivas que vão de encontro às marcas excludentes que ainda reverberam na atualidade, em que pese os avanços teóricos que visibilizam práticas mais democráticas (Neira e Nunes, 2018; Maldonado e Prodócimo, 2022). Assim, as ações aqui apresentadas demonstram como temos articulado as noções de inclusão, interseccionalidade e marcadores sociais da diferença.
CAMINHOS TRILHADOS PARA VISIBILIZAR VOZES
Segundo Josso (2007, p. 413), “[...] as narrações centradas na formação ao longo da vida revelam formas e sentidos múltiplos de existencialidade singular-plural, criativa e inventiva do pensar, do agir e do viver junto”. A narração das histórias de vida ou, melhor dizendo, de histórias centradas na formação”, são os relatos da minha própria formação. Neste lugar de sujeito aprendente e inacabado (Freire, 2011) me proponho a contar essa história que me forma.
Coordeno o LEPIDEFE, vinculado à UFRJ, um grupo formado por pessoas interessadas nos processos de inclusão/exclusão no âmbito educacional da Educação Física, dialogando sobre form(ação) docente. As experiências aqui narradas são oriundas das reflexões e proposições desse coletivo, entendendo-as como potencialidades formativas que articulam a perspectiva ampla de inclusão - que abarca a reflexão sobre os marcadores sociais da diferença - e a interseccionalidade como ferramenta analítica. Todas elas, com inspirações Freireanas em seu fazer pedagógico no sentido dialógico, horizontalizado e crítico (Freire, 2013)
Para fins organizacionais serão apresentadas separadamente as experiências de ensino, pesquisa e extensão, porém considero que as ações são indissociáveis e se interconectam. Escolhi, então, apresentar essas experiências em cenas, considerando o significado explicitado no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: “Subdivisão de um ato”; Ação ou fato que prende a atenção, que faz despertar qualquer sentimento”.
CENA PESQUISA: “[...] A MULHER NEGRA AUTISTA É MUITO INVISIBILIZADA”
Desde 2012, o cenário de acesso às universidades e instituições federais tem se transformado significativamente como proposta concreta de reparação histórica a grupos minorizados. A lei nº 12.711 (Brasil, 2012a), que foi pioneira na reserva de vagas para autodeclarados pretos, pardos e indígenas, abriu caminhos para outros avanços como a lei nº 13.409 (Brasil, 2016) que inseriu nesse bojo pessoas com deficiência. Mais recentemente, foi atualizada pela lei nº 14.723 (Brasil, 2023) incluindo também a população quilombola, configurando essas políticas como marcos legais significativos no campo de direitos dessas populações.
No âmbito da pesquisa longitudinal que visa acompanhar as questões de acesso e permanência de 25 estudantes com deficiência no curso de Licenciatura em Educação Física da UFRJ ingressantes a partir de 2016, intencionamos problematizar quais corpos estão ingressando e se mantendo na universidade. Apesar do enfoque da citada pesquisa ser pessoas com deficiência, não desconsideramos atravessamentos de outros marcadores sociais da diferença, ao contrário, potencializamos esses corpos impregnados de histórias, experiências e memórias interseccionais que os(as) formam e nos formam também com sua presença nesses espaços.
Nesse sentido, destaco duas falas de estudantes autodeclarados com deficiência, portanto, dentro dos critérios de inclusão para a referida pesquisa, mas que demarcam atravessamentos interseccionais significativos.
Para mim tem sido bem complicado incorporar isso à minha pessoa (ser espectro autista, ter TDAH e altas habilidades/superdotação), porque a gente sempre olha a neurodiversidade a partir de um viés muito branco, tipo, o autismo é muito diagnosticado em meninos ou homens brancos. Então, a mulher autista e, principalmente, a mulher negra autista é muito invisibilizada. Então, quando a gente fala sobre autismo e sobre TDAH, quando se fala sobre esse espectro da neurodiversidade, quando se fala nessa questão de inclusão, etc, muitas vezes a gente só vê aquela criança branca que precisa de muito suporte. Quando na verdade a neurodiversidade ela abarca muitas situações, é todo um espectro. (Estudante V, 2022).
Uma coisa que eu senti dificuldade, foi de me integrar aos outros alunos. Pra quem não sabe eu tenho 32 anos, e a maioria lá são mais jovens, então não sei se isso causou uma barreira entre mim e eles por ser mais velho [...] também tem a questão de vir de uma comunidade carente né, ter tido déficit de várias matérias no meu ensino médio.... então eu acho que são vários fatores que geram essa dificuldade, não só a idade mas as outras durante a minha vida. (Estudante com deficiência intelectual, VH, 2022).
Percebemos aqui intersecções que as compõem. Nas palavras de Fonseca (2023, p. 6):
Uma pessoa com deficiência, por exemplo, não é só uma pessoa com deficiência. Essa é uma condição que ela possui, é uma das características. Ninguém pode ser resumido a uma única característica posto que somos atravessados por muitos desses marcadores sociais da diferença.
Para fins legais a pessoa com transtorno do espectro autista (TEA) é considerada pessoa com deficiência (Brasil, 2012b), outrossim, tanto pessoas com altas habilidades/superdotação quanto com TEA compõem o público-alvo da educação especial, juntamente com pessoas com deficiência (Brasil 2008). Para além disso, se faz necessário um olhar não exclusivamente biomédico sobre a deficiência, mas sobretudo considerando o modelo social da deficiência, como já apontava Diniz (2007), reconhecendo-a não restrita somente ao diagnóstico ou a impossibilidade de seu corpo, mas principalmente denunciando a estrutura social que a oprime e exclui.
A Estudante V também declarou ter TDAH, uma necessidade específica que destaca a neurodiversidade, que segundo Araújo et al. (2023, p. 3), é um movimento que “[...] surgiu como uma contraproposta à ideologia de divisão entre normal e anormal ou patológico, indo na contramão do modelo médico e do discurso de eugenia até então vigente” e que “[...] abrange um grupo heterogêneo de transtornos do neurodesenvolvimento e neurológicos”, dentre os quais TEA e TDAH. É no sentido interseccional que compreendo a rede complexa que somos compostos, evidenciando diversas formas de ser pessoa com deficiência ou com qualquer outra necessidade específica para além dos estereótipos que reduzem a sua experiência ao o que falta, aos estigmas e aos rótulos que reforçam o preconceito. Até porque a perspectiva inclusiva e interseccional para olhar os marcadores sociais da diferença, não se apresentam isoladas, mas entrecruzadas por muitas outras, produzindo efeitos contextuais diversos.
Dito isso, como essas singularidades são percebidas e consideradas num curso que forma docentes? Collins e Bilge (2021, p. 18) assinalam que “[...] as divisões sociais resultantes das relações de poder de classe, raça, gênero, etnia, cidadania, orientação sexual e capacidade são mais evidentes no ensino superior”. Nessa direção, as duas falas apontam intersecções de deficiência, racialidade, classe, aspectos geracionais, o que complexifica a análise pois sinalizam que as relações de poder são desiguais. Porém, estas também poderiam ter visibilidade como uma vantagem pedagógica (Candau, 2020), no sentido de se perceberem/serem percebidos como importantes elementos formativos pelos demais estudantes e docentes, por materializarem em si diferentes e agregadoras trajetórias e experiências.
A lei de ações afirmativas também possibilitou a experiência narrada a seguir. O artigo de Souza e Fonseca (2022), oriundo das pesquisas do LEPIDEFE, objetiva apresentar as reflexões de um professor de Educação Física negro, albino e com baixa visão acerca de suas experiências e trajetórias formativas a partir de uma narrativa autobiográfica.
Este é um relato individual com reflexões coletivas para pensar as narrativas a partir das experiências vivenciadas na educação básica e ensino superior. Esse sou eu! um homem negro, albino e com baixa visão. Sou mais do que isso, mas comecemos por aqui. (Souza e Fonseca, 2022, p. 14).
As experiências narradas demonstram que as dificuldades vividas na escola e na universidade estão mais vinculadas à estrutura social excludente do que à própria pessoa. Esse artigo nos convida à reflexão e expõe a preocupação em se discutir os processos de inclusão/exclusão por um viés apenas ou considerando uma parte do todo, não só pela questão de (des)considerar os marcadores sociais da diferença que nos constituem em intersecção, mas também de ignorar as barreiras sociais, políticas, econômicas e culturais que afetam fortemente as relações.
Collins e Bilge (2021, p. 19) exemplificam preocupação semelhante ao apontar que: “Considerando que as afro-americanas eram também negras, mulheres e trabalhadoras, o uso de lentes monofocais para abordar a desigualdade social deixou pouco espaço para os complexos problemas sociais que elas enfrentam”. Nesse sentido, é fundamental ampliar as lentes para focalizar as diferentes formas de ser e estar no mundo em intersecção, de modo a construir crítica e reflexivamente espaços que denunciem e minimizem a desigualdade, bem como que reconheçam e valorizem essas existências em suas complexidades na proposição de práxis mais inclusivas do que excludentes.
Qual impacto a presença dessas pessoas narradas na ‘cena pesquisa’ tem nas escolas e nas universidades? O olhar inclusivo e interseccional pode ampliar as possibilidades de trajetórias formativas mais acolhedoras as diferenças, por isso dialogo com a ideia de uma formação docente na e para perspectiva inclusiva.
A expressão ‘formação na e para perspectiva inclusiva’ justifica-se para afirmar que a preocupação não é só perceber se os estudantes estão sendo formados para lidar com as diferenças em suas ações profissionais futuras, mas também se eles, enquanto seres singulares, são considerados na formação. Nesse sentido, o ‘na perspectiva inclusiva’ significa refletir sobre como se dá a formação dos estudantes com relação aos processos inclusivos e/ou excludentes que permeiam tal curso, considerando necessariamente suas próprias demandas e questões. O ‘para perspectiva inclusiva’ significa perceber o reflexo dessa formação inicial nas futuras ações docentes desse estudante em formação. (Fonseca, 2021, p. 47-48).
Pensar a formação com esse sentido mais ampliado é importante ser evidenciado pois tanto nas universidades quanto nas escolas esses processos de inclusão/exclusão que emergem não são motivados por um único fator e também evidenciam o caráter dialético do sentir-se incluído/excluído, como Sawaia (2022) nos aponta.
O cenário atual tem se transformado pelas culturas, políticas e práticas de inclusão construídas processualmente (Santos et al., 2009). Essas pessoas não estão mais sendo somente objetos passivos de estudo, são protagonistas de suas formações. A presença delas enriquece a formação a medida em que desestabilizam um padrão historicamente branco, elitizado, heterossexual e sem deficiência nas universidades que felizmente vem avançando, mas ainda não suficientemente. Para isso, é necessário a continuidade de propostas formativas que refletem e sejam refletidas por essas questões inclusivas e interseccionais.
CENA EXTENSÃO: “SÓ PORQUE VOCÊ É PRETO E POBRE?”
“Nosso sentido de interseccionalidade visa a manter o foco na sinergia que liga ideias e ações, na inter-relação entre investigação e práxis” (Collins e Bilge, 2021, p. 57). Inspiradas nessa frase, que representa a operacionalização das reflexões na práxis, socializo experiências vivenciadas durante o Ciclo de cinema e diversidade, um evento de extensão realizado anualmente desde 2013, organizado pelo LEPIDEFE, que objetiva:
[...] fomentar debates entre os/as participantes partindo de documentários, filmes e/ou curtas acerca de questões relacionadas a marcadores sociais da diferença como gênero, racialidade, sexualidade, deficiência, etnia, classe social, religiosidade, aspectos geracionais e suas inúmeras intersecções, atrelados aos processos inclusivos/excludentes. Inicialmente, o filme é exibido e em seguida, um debate é conduzido por um/a palestrante convidado/a ou por meio de uma dinâmica realizada com os/as participantes de modo a fortalecer o cunho extensionista do evento valorizando as diretrizes da extensão universitária. (Fonseca et al., 2023, p. 108).
Ao longo desses 10 anos os temas escolhidos coletivamente a partir das demandas tanto de docentes em formação quanto dos estudantes das escolas públicas parcerias foram relativos à escola, amizade, relações étnico-raciais, sexualidade, deficiências, bullying, racismo, feminismos, masculinidades, interseccionalidades e religiosidades. O ciclo acontece por via do Projeto de Extensão Educação Física escolar na perspectiva inclusiva (PEFEPI) que atua em parceria com escolas municipais localizadas em diferentes regiões periféricas do Rio de Janeiro. Para esse recorte, escolho socializar algumas reflexões dos ciclos de 2019 e 2022 como forma de exemplificar a articulação entre a perspectiva ampla de inclusão e questões interseccionais.
O 7º Ciclo de cinema e diversidade em 2019, teve racismo como tema. Escolhemos exibir o documentário “Ninguém nasce assim” (Campos, 2014) e realizamos uma dinâmica para desencadear o debate com os(as) estudantes: exibimos perfis de 11 personalidades reconhecidas na sociedade em diferentes áreas em que não evidenciavam cor da pele, idade, nem aspectos físicos, somente o gênero e alguns feitos; depois, deveriam identificar quem eram os 11 perfis. Intencionalmente todos eram pessoas negras famosas, mas interseccionadas por outros marcadores como raça, gênero, sexualidade, nacionalidade e aspectos geracionais.
A experiência detalhada em Fonseca et al. (2020, p. 90) nos mostrou que os(as) estudantes mencionaram majoritariamente pessoas brancas: “[...] por que o perfil de Lázaro Ramos foi confundido com Pedro Bial, Leonardo DiCaprio e Jô Soares? O de Taís Araújo com Tatá Werneck e Patrícia Poeta? O de Maju Coutinho com Fátima Bernardes e Fernanda Gentil? [...]”. Os(As) estudantes não identificaram todos os perfis de pessoas negras e não perceberam de pronto que a discussão central era sobre o combate ao racismo, apesar da divulgação do tema do ciclo e da exibição do documentário que abordava a questão.
Como relatado em Fonseca et al. (2020, p. 91), “[...] notamos um melindre inicial em se autodeclararem negros ao longo dos debates”, mas depois conseguimos discutir sobre racismo estrutural e situações dolorosas que passam cotidianamente envolvendo raça, classe e gênero, como exemplificado no trecho (Fonseca et al., 2020, p. 95):
- Por que você está chorando, Pedro?
- Porque dói, professora, dói muito ver que alguém te xinga, acha que você vai roubar, só porque você é preto e pobre (Estudante da escola na zona norte).
Esses e outros impactos seguem nos movendo a organizar os ciclos com temas emergentes. Importante pontuar que essas experiências narradas foram construídas com estudantes e docentes em formação, que também são interseccionados por marcadores como deficiência, racialidade, classe social, idade e sexualidade trazendo contribuições ricas e formativas para todas as pessoas envolvidas.
Zamboni (2014, p. 15) afirma que “[...] os sistemas de classificação estão intimamente ligados às relações de poder. Estão, portanto, sempre em disputa”. Na condição que nos cabe ao propor ações de ensino, pesquisa e extensão, escolhemos visibilizar essas pautas que são historicamente negligenciadas, mas principalmente na extensão que comunica fortemente com os saberes populares e acadêmicos, em “[...] um processo interdisciplinar educativo, cultural, científico e político que promove a interação transformadora entre universidade e outros setores da sociedade (UFRGS, 2012, p. 42). Nessa disputa, escolho visibilizar esses espaços ao encontro do que propõe Freire quando nos instiga sobre nossa base ideológica ser inclusiva ou excludente. “Além de um ato de conhecimento, a educação é também um ato político. É por isso que não há pedagogia neutra” (Freire e Shor, 1986, p. 17)
CENA ENSINO: “NÃO ESPERAM QUE EU TENHA UMA SEXUALIDADE, APENAS UMA DEFICIÊNCIA”
No campo do ensino, escolho socializar a experiência didática na disciplina que ministro, intitulada Educação Física Adaptada. Este componente curricular obrigatório para o 2º período do curso de Licenciatura em Educação Física da UFRJ, tem como foco principal na sua ementa as questões envolvendo as deficiências. Porém, mais uma vez, a deficiência não é um marcador isolado a ser considerado, já que a análise interseccional perpassa a perspectiva inclusiva em todas as ações desenvolvidas. Assim, o exercício didático-pedagógico se segue considerando um:
[...] olhar sobre e com a deficiência, não somente como um ser encerrado em si sem considerar aspectos estruturais que obstam sua participação ativa, mas também atravessado por diversos marcadores sociais da diferença, valorizando sua singularidade e não reforçando desigualdades. (Fonseca, 2022, p. 119).
Uma das avaliações ao longo da disciplina é um convite aos estudantes para coletiva e colaborativamente buscarem, conhecerem e compartilharem perfis de influenciadoras e influenciadores digitais com deficiência (atendendo a ementa da disciplina), que socializam questões interseccionais e de cunho inclusivo nas suas redes sociais. Essa proposta vai ao encontro de considerar uma linguagem acessível e de interesse dos(as) docentes em formação, em geral o Instagram, mas também desbravaram sites com entrevistas ou similares.
Compartilho aqui dois excertos de trabalhos apresentados pelos(as) estudantes em 2023.1, demostrando o que os impactou nos perfis buscados quanto a análise interseccional considerando marcadores sociais da diferença (Poltronieri, 2021; Nascimento, 2023):
Ser uma pessoa com deficiência e bissexual não é bem o que a sociedade espera. [...] A verdade é que não esperam que eu tenha uma sexualidade, apenas uma deficiência. Mesmo que sejam coisas completamente diferentes, não me veem como uma pessoa que pode amar. Muito menos que pode amar quem quiser. (Influenciadora digital Ana Clara Moniz)
Quando se fala em diversidade dentro do feminismo quase sempre mulheres com deficiência sequer são citadas, entram no “etc” (mulheres brancas, mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres lésbicas e as “etc”)” (Influenciadora digital Sabrina Nascimento, 2023).
A partir de como as próprias influenciadoras se apresentam, ressalto que Ana Clara é uma mulher cisgênero, com deficiência física, branca, bissexual e Sabrina é mulher cisgênero, autista, preta. Como nos aponta Zamboni (2014, p. 15) “[...] marcadores sociais da diferença nunca aparecem de forma isolada, eles estão sempre articulados na experiência dos indivíduos, no discurso, na política”.
Com a geração de autoras feministas, houve a possibilidade de considerar a deficiência dentro das variadas categorias identitárias, como gênero, raça, classe social, orientação sexual, velhice, ou seja, compreendê-la como parte constitutiva do sujeito que se interseccionam, potencializando processos de opressão (Gesser et al., 2012; Gomes & Lhullier, 2017). (Foresti e Bousfield, 2022, p. 660)
Certamente Ana Clara e Sabrina são mais do que está descrito, são potências considerando essas intersecções e também usam suas vozes para denunciar os preconceitos que sofrem a partir dessas intersecções. Lutamos para que tais interseccionalidades não só denunciem processos de opressão, mas que também potencializem processos inclusivos. O caráter dialético dos processos inclusivos/excludentes também se apresentam nesta análise. Por exemplo, um fato muito destacado nos debates foi que a maioria dos(as) estudantes não conheciam essas influenciadoras e não tinham costume ou interesse de seguir pessoas com deficiência nas redes sociais. Essa aproximação com diversas formas de ser e estar no mundo pode fomentar novas perspectivas para construir relações mais inclusivas que excludentes.
Essas interrelações entre os dados oriundos de pesquisas científicas no âmbito acadêmico e outras fontes que provém do cotidiano, mesmo advindo das redes sociais, tem sua relevância no sentido de ajustar as lentes de análise interseccional para fomentar as reflexões que podem ser molas propulsoras de ações transformadoras de cunho inclusivo. Percebi nas discussões com os(as) licenciandos(as) que essa tarefa os fez refletir sobre se reconhecer capacitista, racista, machista ou lgbtfóbico pois as vozes visibilizadas pelas postagens das influenciadoras denunciavam isso e muitos(as) refletiram sobre esse preconceito enraizado na nossa sociedade.
Rejeitar essa falsa divisão entre academia e ativismo, ou o pensar e o fazer, sugere que a interseccionalidade como forma de investigação e práxis críticas pode ocorrer em qualquer lugar. O pensamento crítico certamente não se limita à academia, assim como o engajamento político não se encontra apenas nos movimentos sociais ou nos movimentos sociais comunitários. [...]quando as pessoas imaginam a interseccionalidade, elas tendem a imaginar uma ou outra, ou a investigação ou a práxis, em vez de enxergar as interconexões entre as duas. (Collins e Bilge, 2021, pp. 58-59).
A interseccionalidade surge dos movimentos sociais e não deve se distanciar disso. A perspectiva ampla de inclusão aqui defendida reconhece os direitos de todas as pessoas, especialmente as que são excluídas por serem quem são, representadas por diversos marcadores sociais da diferença em intersecção, posto que estes não afetam a(s) pessoa(s) separadamente. Collins e Bilge (2021, p. 51) assinalam que “O que faz com que um projeto seja interseccional crítico é sua conexão com a justiça social”. Essa preocupação perpassa as reflexões sobre intersecções que nos atravessam e atravessam as pessoas que nos cercam, bem como a complexidade nas nossas práticas docentes.
Nos últimos anos, à medida que os debates sobre raça e racismo foram aceitos em ambientes acadêmicos, pessoas negras/de cor ficaram, até certo ponto, psicologicamente aterrorizadas com a distância bizarra entre teoria e prática. Por exemplo: uma professora branca bem-intencionada pode escrever um livro relevante sobre intersecções entre raça e gênero, mas continuar permitindo que preconceitos racistas influenciem a maneira como ela responde pessoalmente a mulheres de cor. Talvez ela tenha uma noção pretensiosa de si mesma, ou seja, a confiança de que é antirracista sem se manter atenta às conexões que transformariam seu comportamento e não apenas seu pensamento. (Hooks, 2021, p. 52).
Esse exercício de escrita e de socialização das nossas produções também se situam como um alerta a mim e a todes nós para uma percepção atenta e sensível sobre nossas escolhas, nossas reflexões, nossas atitudes para efetivar cotidianamente a lição de coerência que Freire (2011) nos ensinou diminuindo a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática.
REFLEXÕES QUE NÃO SE FINDAM…
Esse artigo objetivou refletir sobre as articulações entre inclusão, interseccionalidade e marcadores sociais da diferença operacionalizadas nas ações de ensino, pesquisa e extensão. Todas as ações aqui socializadas retratam falas potentes reconhecendo as diferenças em intersecção que as compõem, o que nos leva a reflexões para a construção de uma form(ação) mais inclusiva na Educação Física e na Educação. Estas experiências retratam inspirações freireanas do fazer com as pessoas e não para ou sobre elas, numa proposição dialógica e horizontalizada ao encontro da perspectiva inclusiva
Compreender a inclusão de modo dialético, amplo, processual e infindável se articula com a interseccionalidade como ferramenta analítica pois possibilita reconhecer e denunciar as opressões, mas principalmente o argumento central desse texto: visibilizar as potentes vozes que emergem dessas interseções, que historicamente são minorizadas, mas que são potências como vimos aqui.
Não bastam ações pontuais, esse tema deve perpassar todas as dinâmicas de form(ação) docente. Há muito o que fazer, especialmente no campo da Educação Física marcada historicamente por opressores e exclusões que ainda reverberam nas escolas e nas universidades, para mobilizar práxis que considerem corpos subalternizados ao longo dos tempos.
A lente dialética inclusiva/excludente pela qual percebemos e analisamos as relações interseccionais permitem essa dinâmica e nossa função social, em que pese o sistema excludente que estamos submetidos, é insurgir para que essas histórias sejam contadas, visibilizadas e valorizadas.
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FINANCIAMENTO
O presente trabalho não contou com apoio financeiro de nenhuma natureza para sua realização.
REFERÊNCIAS
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