RESUMO
Esta pesquisa teve por objetivo o desenvolvimento de instrumento de avaliação da qualidade de instalações esportivas de esporte de participação sob o ponto de vista do usuário. Foram realizados dois grupos focais, a matriz de categorias resultou no questionário, que passou por validação de conteúdo por três experts e calculado IVC de cada item, e validação de constructo, por meio de uma Survey com 88 usuários de instalações esportivas. Foi realizada análise fatorial exploratória e cálculo do Apha de Cronbach. Da análise resultaram a extração de três fatores: Serviços de Suporte, Infraestrutura e Esportivo. Foi possível o desenvolvimento e validação de um instrumento de avaliação da qualidade de instalações esportivas para o esporte de participação voltado à realidade brasileira.
Palavras-chave:
Instalação esportiva; Gestão do esporte; Gestão de instalações; Serviços esportivos
ABSTRACT
This research aimed to develop an instrument to assess the quality of sports facilities for participatory sports from the user's point of view. Two focus groups were held, the matrix of categories resulted in the questionnaire, which underwent content validation by three experts and calculated the IVC of each item, and construct validation, through a survey with 88 sports facilities users. Exploratory factor analysis and calculation of Cronbach's Apha were performed. The analysis resulted in the extraction of three factors: Support Services, Infrastructure and Sports. It was possible to develop and validate an instrument to assess the quality of sports facilities for participatory sports focused on the Brazilian reality.
Keywords:
Sports facility; Sports management; Facilities management; Sports services
RESUMEN
Esta investigación tuvo como objetivo desarrollar un instrumento para evaluar la calidad de las instalaciones deportivas para deportes de participación desde el punto de vista del usuario. Se realizaron dos grupos focales, de la matriz de categorías resultó el cuestionario, el cual fue sometido a validación de contenido por tres expertos y cálculo del IVC para cada ítem, y validación de constructo, a través de una Encuesta a 88 usuarios de instalaciones deportivas. Se realizaron análisis factorial exploratorio y cálculo del Apha de Cronbach. El análisis resultó en la extracción de tres factores: Servicios de Apoyo, Infraestructura y Deportes. Fue posible desarrollar y validar un instrumento de evaluación de la calidad de las instalaciones deportivas para deportes de participación enfocado en la realidad brasileña.
Palabras-clave:
Instalación deportiva; Gestión deportiva; Gestión de instalaciones; Servicios deportivos
INTRODUÇÃO
As instalações esportivas estão presentes nas diferentes esferas do esporte e para sua gestão, exigem do gestor do esporte conhecimentos sistematizados em diferentes contextos (Fried e Kastel, 2025). A gestão de uma instalação esportiva deve garantir o funcionamento e sustentabilidade da mesma no cenário esportivo, de forma a garantir o melhor aproveitamento dos espaços, envolvendo os processos de tomada de decisão do gestor e da coordenação das mais diversas áreas envolvidas na gestão da instalação (Cunha, 2007). Um dos aspectos a serem considerados na gestão de uma instalação esportiva é a gestão de qualidade da mesma (Amaral, 2019).
A qualidade tem muitos significados, podendo ser considerada multidirecional e multinível (Ko e Pastore, 2004). Isto porque o significado de qualidade pode variar dependendo de quem a está avaliando (Chelladurai e Chang, 2000) e pode ser um atributo de um produto ou serviço, o trabalho em si, os processos envolvidos no trabalho (Ko e Pastore, 2004; Spencer, 1994) ou a performance da organização (Deighton, 1992).
Iversen e Cuskelly (2015) indicam que a literatura em instalações esportivas que tenta compreender o desempenho (grau de utilização) de uma instalação tem focado principalmente na mensuração da performance financeira e da satisfação do consumidor das instalações. Essas duas variáveis (performance financeira e satisfação dos usuários) parecem também ser as mais utilizadas pelos centros esportivos para realizar a avaliação de sua performance (Howat et al., 2005).
A avaliação é base no processo de gestão das organizações esportivas, como parte do planejamento estratégico ou análise de ambiente (Bastos et al., 2018). Na literatura, principalmente internacional, já existem alguns instrumentos que avaliam a qualidade das instalações esportivas sob o ponto de vista do consumidor (Howat et al., 1996; Moreno e Gutiérrez, 1997; Romá et al., 1989; Wakefield et al., 1996) e também sob o ponto de vista da equipe gestora da instalação esportiva (Bareta et al., 2015; Rial-Boubeta et al., 2010), embora alguns estudos sejam específicos se certos tipos de instalações esportivas.
Os estudos que tratam da avaliação de programas de atividade física e esportiva mostram que os fatores relacionados à infraestrutura (aspectos estruturais da instalação), aos profissionais que dirigem as atividades e à comunicação da gerência da instalação com o público (aspectos gerenciais), parecem ser aqueles que mais tem influência na qualidade percebida pelos usuários (Chueca et al., 2018; Elasri Ejjaberi et al., 2015; Lee, 2017, 2018; Lentell, 2000; Liu et al., 2008), e mais recentemente questões relacionadas à segurança dos usuários também aparece com alta relação com a disposição destes em pagar um preço razoável pela utilização das instalações esportivas (Nandakumar et al., 2020). A modernização ou manutenção de equipamentos e instalações esportivas devem ser aspectos que a gestão deve levar em consideração para garantia da satisfação dos usuários (Abusamra et al., 2020; Duclos-Bastías et al., 2024) Estes aspectos demonstram a importância da avaliação da qualidade de instalações esportivas de forma específica e aprofundada, levando em consideração diferentes aspectos que influenciem sua qualidade.
Segundo Le et al. (2025), a fidelidade de um usuário de instalação esportiva está atrelada à qualidade dos serviços oferecidos na instalação, impactando também na imagem da instalação esportiva. Segundo os autores, o investimento em ações para melhorar a imagem das instalações (como manter uma reputação sólida, fornecer excelente infraestrutura e sediar eventos) podem contribuir para fidelizar os usuários (Le et al., 2025). Sob a perspectiva da gestão do esporte, Tsitskari et al. (2009) indicam a necessidade de se identificar as dimensões ou fatores importantes em termos de qualidade e também mapear a expectativa dos usuários de forma a garantir que estes usuários tenham uma experiência positiva nas vivências esportivas na instalação. Ao identificar os fatores que podem influenciar a experiência na instalação esportiva, estes podem dar uma direção para a equipe gestora em termos de tomada de decisão de onde investir esforços e recursos para aumentar a satisfação desses usuários (Tsitskari et al., 2009). Ainda, a tomada de decisão numa instalação esportiva não pode se basear apenas em um pequeno número de indicadores de performance, sendo desejável que os gestores considerem também o contexto em que a instalação está inserida, a opinião dos funcionários e usuários (Howat et al., 2005).
Alguns estudos se propõem a realizar uma avaliação mais multidimensional, como a pesquisa de Ramchandani et al. (2018), que realizaram estudo sobre a performance de instalações esportivas públicas do Reino Unido em diferentes momentos (antes e no período de recessão e austeridade financeira) sob o ponto de vista de diferentes óticas: acesso à instalação esportiva; financeiro; utilização da instalação; e satisfação do consumidor.
Na realidade brasileira, é possível citar o estudo de Bareta et al. (2015), que avaliou a percepção que profissionais, de diferentes níveis hierárquicos de um complexo aquático de Santa Catarina, possuem a respeito de aspectos gerenciais da instalação esportiva. Os resultados mostram que professores, bolsistas e gestores possuem diferentes percepções de qualidade para os aspectos analisados no estudo. Já Oliveira (2013) propõem uma ficha técnica de avaliação de infraestrutura esportiva, com foco na descrição das mesmas, e posteriormente a recomendação de que estes dados devem compor um censo de infraestrutura esportiva. Há também na literatura nacional apontamentos metodológicos indicando os principais elementos que devem ser analisados para a realização de um diagnóstico nacional do esporte no que diz respeito à infraestrutura (Oliveira et al., 2014). Porém nenhum destes instrumentos e métodos apresentam um foco na qualidade das instalações esportivas, assim, quando nos referimos à realidade brasileira, não há instrumentos, sejam adaptados e validados de estudos internacionais ou desenvolvidos com enfoque em nosso contexto, que tenham como objetivo a avaliação da qualidade de instalações esportivas sobre a ótica dos usuários. Segundo Opris e Necsulescu (2020), a avaliação de instalações esportivas deve levar em consideração o contexto territorial, o contexto socioeconômico e da necessidade de desenvolvimento de um arcabouço legal obrigatório em nível nacional.
Levando em consideração que o acesso da população geral à atividades físicas/esportivas depende da disponibilidade de instalações esportivas, uma vez que grande parte dos praticante indicam utilizarem estes espaços em suas atividades (Brasil, 2015), garantir a qualidade destes locais é importante. Assim, o estabelecimento de critérios para avaliação da qualidade desses espaços pode ser um subsídio importante para gestores. Desta forma, o problema de pesquisa que norteia esta investigação se relaciona com quais elementos devem ser considerados na avaliação de uma instalação esportiva?
Sendo a prática esportiva na vertente participação aquela que predomina no país (Brasil, 2016), será foco deste estudo a qualidade de instalações esportivas que abriguem atividades esportivas de participação (Brasil, 1998), ou seja, que tem a finalidade de contribuir para a integração dos praticantes na plenitude da vida social, na promoção da saúde e educação, promovendo o esporte nas mais diversas faixas etárias, e em conformidade com o entendimento de “esporte para toda vida” indicada na Nova Lei Geral do Esporte (14.595/23) (Brasil, 2023). Ainda, considerou-se instalação esportiva, o espaço previamente concebido para a prática esportiva (Fried e Kastel, 2025), sendo excluídos espaços como praças, parques e demais estruturas que não possuem a finalidade específica da prática do esporte. Assim, esta pesquisa teve por objetivo o desenvolvimento de um instrumento de avaliação da qualidade de instalações esportivas para o esporte de participação sob o ponto de vista do consumidor.
MÉTODO
Dada a complexidade do fenômeno a ser estudado, opta-se por uma abordagem de métodos mistos (Creswell e Plano Clark, 2013). Levando-se em consideração a lacuna existente a respeito do fenômeno estudado, principalmente na literatura nacional, optou-se pelo método misto exploratório, com intenção de iniciar as coletas através dos dados qualitativos, e posteriormente realizando a adição de métodos quantitativos, que reduzirá a subjetividade dos resultados da primeira fase e possibilitará o desenvolvimento e validação do instrumento proposto. Portanto, a pesquisa se estruturou em duas fases: Fase 1: qualitativa; Fase 2: quantitativa.
Fase 1 – Grupo focal
Na fase 1, de abordagem qualitativa, o objetivo foi a construção de conceitos que embasaram o desenvolvimento do instrumento/questionário para a Fase 2. Para tanto, foi utilizado o método de Grupo Focal, ou Focus Group (Li et al., 2008).
Foram realizadas duas coletas utilizando-se o método grupo focal, com dois grupos distintos de indivíduos. O primeiro grupo focal foi composto por um pesquisador doutor, especialista na área de gestão de eventos e instalações esportivas, uma pesquisadora mestre especialista em arquitetura e gestão de instalações esportivas, uma pesquisadora mestre e gestora de eventos esportivos, e três profissionais que atuam na gestão de instalações esportivas de esporte de participação, de diferentes níveis hierárquicos (cargos) e setores de atuação, sendo todos maiores de 18 anos. O segundo grupo focal foi formado por seis usuários de instalações esportivas de esporte de participação, de diferentes faixas etárias (maiores de 18 anos), sexo e região do Brasil (Nordeste, Sul e Sudeste). Os participantes dos dois grupos focais foram informados e esclarecidos a respeito dos objetivos do estudo, apresentada a Carta de Informação ao Participante da Pesquisa ao ser enviado o convite para participação.
A condução das duas sessões de grupo focal foi realizada com base em roteiro elaborados com base na literatura existente da área (Amaral, 2019; Howat et al., 1996; Rial-Boubeta et al., 2010) e versaram sobre os pontos primordiais e pertinentes a serem considerados na avaliação da qualidade de instalações esportivas para o esporte de participação. As sessões foram realizadas no formato on-line para facilitar/viabilizar a participação de membros que eram de outras cidades ou estados através do Google Meet. Os áudios das sessões foram gravados para posterior auxílio na análise do documento gerado.
Foi realizada análise de conteúdo das comunicações, utilizando a abordagem dedutiva e indutiva na análise das categorias (Bardin, 2006). A matriz de categorias utilizada e que deu base para o processo de análise categorização foi a pesquisa de Amaral (2019). Após análise dos documentos, os pontos discutidos com os dois grupos focais serviram de base para a construção do questionário de avaliação, através do estabelecimento do modelo teórico e seleção das variáveis a serem pesquisadas na fase seguinte.
Fase 2 – Pesquisa metodológica e survey
O questionário foi elaborado após análise de conteúdo. A Fase 2 do estudo, de abordagem quantitativa, deu-se através de pesquisa metodológica e de campo (Li et al., 2008). O questionário foi composto inicialmente de duas sessões, a primeira referente à percepção de qualidade sob o ponto de vista do usuário e a segunda referente a caracterização da amostra, e contou com 21 questões no total.
Após desenvolvimento do questionário, o mesmos foi submetido a validação de conteúdo por três experts (pesquisadores doutores na área de Gestão do Esporte), que avaliaram o questionário quanto sua clareza e a sequência das questões, ao tempo de preenchimento, e a pertinência do conteúdo (Alexandre e Coluci, 2011). Cada questão (variável) proposta para a validação foi apresentada em tabela, que continha os parâmetros a serem avaliados, em escala Likert de 1 (nada claro) a 4 (muito claro) e de 1 (nada pertinente) a 4 (muito pertinente), seguidos de um campo para o(a) avaliador(a) tecer observação(ões)/sugestão(ões) que julgasse pertinente(s) para a adequação ou melhoria de cada item avaliado.
As respostas para cada variável em escala Likert, foram analisadas de acordo com o Índice de Validade de Conteúdo (IVC = soma das respostas 3 e 4/número total de respostas), sendo considerados válidos os itens que obtiveram valor maior ou igual a 80%, como indicado por Alexandre e Coluci (2011), que também recomendam que no caso de algum item atingir um índice abaixo desse valor, o mesmo deve ter a sua escrita reformulada para aprimorar a sua compreensão ou excluído do constructo final.
Na validade de conteúdo, foram sugeridas inclusões dos questionários e alterações de redação para maior clareza das questões. O instrumento final desta forma se compôs de: 17 questões sobre qualidade da instalação esportiva e 5 questões de caracterização da amostra (totalizando 22 questões). As questões foram aplicadas de forma sequencial, sem haver divisão entre as seções.
Posterior à validade de conteúdo, iniciou-se a validade de constructo. Nesta fase o método de pesquisa e de coleta de dados que embasou a pesquisa foi a Survey (Li et al., 2008). A amostra foi composta de 88 usuários de instalações esportivas para o esporte de participação, e sua constituição se deu por conveniência (Creswell, 2007), sendo considerados critérios de inclusão: possuir mais de 18 anos e ser usuário de instalação esportiva. A caracterização das amostras é descrita no Tabela 1.
A aplicação do questionário se deu em plataforma online. Foi realizada divulgação via redes sociais e em eventos relacionados à temática de Gestão do Esporte. Os questionários foram compostos apenas de questões fechadas, e foi solicitado ao respondente que indicasse, em relação aos aspectos elencados no questionário, qual a avaliação que ele faz de cada item, segundo uma escala tipo Likert: 1) Muito Ruim; 2) Ruim; 3) Razoável; 4) Bom; 5) Muito Bom.
Os dados obtidos foram analisados através de análise multivariada de dados, utilizando-se inicialmente da análise fatorial exploratória (AFE) pelo método de componentes principais com objetivo de verificar as covariâncias entre as variáveis, na tentativa de encontrar conjuntos de fatores que exprimam o que as variáveis originais tem em comum, indicando quais variáveis devem ser mantidas ou excluídas do questionário/instrumento final (Hair et al., 2009), assim sendo realizada a validade de constructo.
Foram calculados os índices de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) e a verificação dos valores dos testes de esfericidade (teste de Bartlett) para os conjuntos de variáveis, com os resultados se mostrando adequados para prosseguir com a análise. A AFE foi realizada usando o método dos componentes principais, seguido de uma rotação VARIMAX (Hair et al., 2009). O número de fatores obtidos foi aquele cujos autovalores foram maiores ou iguais a 1. Foram considerados válidas as variáveis com cargas fatoriais e comunalidade acima de 0,45. Para todos os fatores extraídos, foram calculadas as consistências internas para aferir a precisão da medida de cada um dos fatores da área, utilizando-se o cálculo do Alpha de Cronbach (Hair et al., 2009).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Fase 1 – Grupo focal
Na análise de conteúdo das comunicações dos grupos focais, foi possível identificar 25 categorias no total, sendo 2 categorias identificadas apenas pelos usuários, 13 identificadas apenas por gestores e 10 categorias identificadas por ambos os grupos (Tabela 2).
Foi possível observar semelhanças entre os 2 grupos focais, em especial para as variáveis “Segurança”, “Infraestrutura - Manutenção”, “Comunicação da Programação”, “Banheiros e Vestiários”, “Diversidade de práticas” e “Qualidade dos profissionais”, que foram citadas um maior número de vezes por ambos os grupos. A literatura internacional nos mostra que fatores relacionados à infraestrutura da instalação, a qualidades dos profissionais que dirigem as atividades e a comunicação da instalação com o público parecem ser aqueles que mais tem influência na qualidade percebida pelos usuários (Chueca et al., 2018; Lentell, 2000; Liu et al., 2008; Nadri, 2015), o que vai ao encontro com os resultados dos grupos focais de ambos os grupos analisados (usuários e gestores).
É possível observar que aquelas categorias relacionadas à área de Gestão Econômico Administrativa (como planejamento estratégico, modelo de gestão, fonte de recursos, etc.) são percebidas apenas pelo grupo relacionado à gestão, enquanto que usuários dão um foco maior às categorias relacionadas à Serviços de Suporte tais como “Bebida e Alimentação”, “Área Verde”.
Duas categorias que não encontramos em instrumentos internacionais (Bareta et al., 2015; Howat et al., 1996; Moreno; Gutiérrez, 1997; Rial-Boubeta et al., 2010; Romá et al., 1989; Wakefield et al., 1996) estão relacionadas a espaços não propriamente esportivos. O primeiro deles foi a necessidade da existência de “Área Verde” nas instalações esportivas, enfatizado no grupo focal usuários:
Quando eu penso na beira da praia, que a gente consegue parar, se encostar, respirar um pouco. Ou qualquer que seja, o clube, a instalação esportiva, um ginásio, uma pista que tenha algum espaço assim, sabe, por perto. Então, pode ser uma árvore, pode ser, não sei, uma área arborizada. Não precisa de muita coisa, mas eu sinto falta disso. Então, eu procuro espaços que tenham esses lugares de calmaria, no meio da prática esportiva, no fim da prática esportiva [Participante A - Usuário].
A segunda, foi a necessidade da existência de “Espaço de Convivência” indicado pelo grupo focal de Gestores:
A [Participante R] comentou e você falou muito bem, que é essa questão de convivência. Porque quando a gente fala de alto fluxo de pessoas, a gente tem que pensar que se é esporte de participação, uma criança, quem leva é um adulto, um idoso. Então, ele precisa ter um espaço para esperar, para aguardar. Se é uma mulher ou um adulto, ele leva o filho, a criança. Aonde que essas pessoas vão, o que essas pessoas vão fazer para aguardar, não é? E aí eu também chamei uma atenção para essa questão de expandir também só quando a gente fala do fenômeno esportivo. Porque não também o espaço ser um elemento de cultura, um espaço positivo, um espaço de encontro, que a [Participante L] falou, para que a gente consiga levar também algo que fuja da prática esportiva, não é? Um espaço mais agregador, mais amplo também, não é? [Participante J - Equipe Gestora].
Estes aspectos podem ter surgido em razão de nosso contexto brasileiro. Em relação à “Área Verde”, podemos destacar que o Brasil possui um clima com temperaturas médias altas em relação à países da Europa e Estados Unidos da América (de onde são provenientes a maior parte dos instrumentos de avaliação de instalações esportivas). A necessidade da existência de espaços arborizados, com sombra e que proporcionem uma qualidade térmica para a prática de atividade esportiva parece aos usuários muito importante. Aspectos climáticos são um aspecto importante na concepção de uma instalação esportiva, e seus projetos arquitetônicos devem levar em consideração os aspectos locais (contexto local) para a construção, sendo o clima um fator preponderante no desenho de uma instalação esportiva (Forcellini, 2017).
A partir da análise de conteúdo, as categorias citadas pelos participantes em ambos Grupos Focais realizados foram transformadas em variáveis do questionário. Para as categorias que não foram citadas pelos dois grupos focais, foi analisada a pertinência e acesso de informação pelo usuário. Após a finalização, passou-se para a Fase 2 da pesquisa.
Fase 2 – Pesquisa metodológica e survey
A partir do instrumento inicial, e após a análise dos três experts acerca da pertinência e clareza dos itens, levando-se em conta o cálculo do IVC e de seus comentários, é apresentada uma síntese dos aspectos relativos as recomendações de inclusão, adequação de termos e necessidade de reformulação.
O IVC obtido relativo à pertinência e clareza dos itens analisados pelos experts é apresentado nas Tabelas 3 e 4. Verifica-se que a maioria dos itens obtiveram o índice total de concordância (100%) para a pertinência, confirmando a adequação da estrutura conceitual que embasou a elaboração dos itens, construídos com base na literatura. Assim, nenhuma questão foi excluída dos questionários.
Quanto à clareza, é possível observar que para duas questões do ficaram abaixo do índice de 80% aceitável. Ainda os experts sugeriram que uma questão estava abrangente, e, portanto, deveriam sofrer alteração de redação e transformadas em dois itens. Assim, para estas questões a redação das mesmas foi alterada conforme recomendado pelos experts, e indicado no Quadro 1.
Por fim, foi sugerido incluir na apresentação do questionário a indicação de que caso a instalação esportiva que o usuário frequenta não realizar ou não possuir algum dos itens mencionados no questionário, o usuário deveria optar pela resposta 1 “Muito ruim”.
Após a análise por experts para a Validação de Conteúdo, os instrumentos passaram a ter a seguinte estrutura: 17 questões sobre qualidade da instalação esportiva e 5 questões de caracterização da amostra (totalizando 22 questões). A seguir serão apresentados os resultados das análises de Validação de Constructo após a aplicação do questionário.
Para o conjunto de variáveis, foi calculada a comunalidade e todas as variáveis que apresentaram índices satisfatórios. Calculou-se o KMO e realizou-se o teste de Bartlett, ambos satisfatórios para a continuidade da AFE, que, após realizada, revelou a extração de quatro fatores para o conjunto de variáveis, que explicaram 68,14% da variância total do construto. Entretanto, notou-se que o Fator 4 foi composto de apenas 1 variável (Possui ambiente de área verde para uso dos frequentadores). Como recomendado pela literatura (Hair et al., 2009), este fator foi excluído do modelo e nova AFE foi realizada sem a variável citada. Novamente calculou-se a comunalidade, o KMO e o teste de Bartlett, e todos os índices foram considerados satisfatórios. Após realizada, revelou a extração de três fatores para o conjunto de variáveis, que explicaram 63,15% da variância total do construto. A porcentagem de variância de cada fator, a carga fatorial de cada variável e o Alpha de Cronbach dos fatores podem ser visualizados na Tabela 4.
Três variáveis apresentam carga fatorial considerável em mais de um fator. Embora alguns autores sugiram a exclusão de variáveis quando esta possui carga fatorial dividida (presença em mais de um fator), para este modelo optou-se pela manutenção destas variáveis, uma vez que as mesmas tratam de itens comumente discutidos na literatura como essenciais para a qualidade de instalações esportivas (Amaral, 2019; Howat et al., 2005; Rial-Boubeta et al., 2010). Assim, foi decidido que para o modelo final apresentado, seria considerado a variável naquele Fator que ela possuísse maior carga fatorial. A variável “Estacionamento”, embora integre o Fator 1 para o modelo final proposto, também possui carga fatorial considerável no Fator 2. Assim, foi mantida no modelo no Fator 1, onde encontra-se sua maior carga fatorial. A variável “Manutenção” possui carga fatorial relevante no Fator 2, e por este motivo não integra o Fator 1, embora tenha relação com algumas variáveis que serão destacadas logo em seguida. E a variável “Diversidade de Programação”, foi mantida no Fator 3, por possuir maior carga fatorial neste e por apresentar maio aderência a este constructo de variáveis.
Foi possível identificar que o Fator 1, “Serviços de Suporte”, se constitui de oito variáveis que explicam 28,55% do modelo, que se caracterizam por itens relacionados aos serviços que são prestados na instalação esportiva, mas que não possuem relação direta com a prática esportiva, tais como limpeza, alimentação, segurança, ambiente de convivência, condições dos banheiros, etc.
Algumas variáveis relacionadas ao fator “Serviços de Suporte” também estão presentes em instrumentos internacionais de avaliação de qualidade de instalações esportivas, tais como estacionamento, limpeza, a existência de local para alimentação, existência de vestiários ou banheiros (Howat et al., 1996; Rial-Boubeta et al., 2010). Já os itens como a existência de pontos de hidratação, segurança, iluminação (que está relacionado ao item segurança) e ambiente de convivência, parecem ser demandas com relevância para nosso contexto nacional.
A segurança e a gestão de risco, são tópicos prioritários nos cadernos de encargos que direcionam a construção e regulamentação de novas instalações esportivas (Amaral, 2019), e sempre são levadas em consideração por engenheiros e profissionais da construção civil. Porém quanto se trata de uma instalação esportiva que atende a população, é importante pensar na integridade das pessoas que frequentam o espaço e não só na segurança da infraestrutura. Neste quesito, os itens relacionados a piso seguro, instrutores qualificados, sinais de alerta nas salas e vistorias periódicas nos equipamentos esportivos são os itens mais importantes que afetam a segurança em instalações esportivas (Zarei et al., 2017).
Esta organização do fator nos confirma que serviços para além do programa esportivo devem ser considerados na gestão de uma instalação esportiva, porque estes elementos mostram-se relevantes para os usuários. Para este fator foi calculado o Alpha de Cronbach para a consistência interna e avaliado como excelente.
O Fator 2 foi nomeado “Infraestrutura” e é composto por 3 variáveis: “Manutenção”, “Comunicação: Placas de orientação” e “Acessibilidade”, que explicam 17,43% do modelo, e se caracterizam por itens relacionados especialmente com a estrutura da instalação esportiva, ou seja, se a instalação está adequada para o uso esportivo, tanto do ponto de vista da conservação das instalações, como a forma de acessar esta instalação (acessibilidade para todo tipo de público que frequenta a instalação bem como sinalização para que seja possível encontrar os espaços e acessar a estrutura de forma correta). Ainda cabe ressaltar a relação direta das variáveis deste fator com a variável “Segurança”.
A manutenção em instalações esportivas está relacionada aos procedimentos e intervenções que tem como objetivo a preservação das infraestruturas de modo a garantir sua funcionalidade, conforto e segurança aos usuários (Cunha, 2007). O correto funcionamento de uma instalação implica no cumprimento dos padrões de segurança e acessibilidade, garantindo a integridade de todos os usuários, independentemente de suas características físicas e a idade (Gallardo et al., 2009). Além disso, a acessibilidade é garantida por lei no contexto brasileiro (Brasil, 2000, 2004), assim a acessibilidade deve ser garantida nas instalações esportivas, de modo que toda a população tenha acesso à prática esportiva, independentemente de sua característica física.
Ainda, a sinalização também possui relação direta com a segurança dos espaços, haja visto que ela vai para além da instrução de locais de práticas esportivas, banheiros ou local para alimentação hidratação, mas também garante o abandono da edificação com segurança caso haja alguma intercorrência. Para este fator foi calculado o Alpha de Cronbach para a consistência interna e avaliado como aceitável.
Já o Fator 3 é constituído de 5 variáveis que explicam 17,16% do modelo proposto, e relaciona aquelas variáveis que possuem estrita relação com as atividades esportivas. A diversidade diz respeito ao oferecimento de uma ampla gama de atividades esportivas aos usuários, já prevista por Howat et al. (1996) como um dos fatores que afetam a percepção de qualidade dos usuários.
Já o planejamento das atividades esportivas, que se relaciona com o embasamento teórico das atividades e a sua organização, são elementos que dão base para a execução dos programas e projetos esportivos das instalações esportivas (Amaral, 2019), assim elemento essencial para garantir a qualidade também da prática esportiva. A comunicação destas atividades (programa esportivo) para a população de usuários da instalação esportiva também é indicada por Amaral (2019) como um dos elementos essenciais para a difusão dos programas e projetos realizados na instalação esportiva. Para tanto, é necessário um alinhamento constante entre a área que programa as atividades esportivas (normalmente constituída pelos profissionais do esporte e da educação física) e os profissionais da área de comunicação (responsáveis pelos meios de divulgação da instalação).
A qualidade dos equipamentos esportivos utilizados na prática, tais como bolas, redes, colchonetes, pesos, etc., também integra este fator, sendo necessário considerar as condições de uso e disponibilidade destes materiais. E por fim, a eficácia e profissionalismo dos funcionários responsáveis pela instrução das atividades esportivas na instalação é um elemento já destacado em outros instrumentos (Howat et al., 1996; Rial-Boubeta et al., 2010), como também indicado como um dos elementos principais a serem considerados ao avaliar a qualidade das instalações esportivas.
Tendo os resultados apresentados, o modelo que compõem a versão final do Questionário, é composto de 15 questões, divididas em 3 áreas: Serviços de Suporte, Infraestrutura e Esportivo. O questionário completo encontra-se disponível no Anexo A.
CONCLUSÕES
Ao realizar esta pesquisa, foi possível o desenvolvimento e validação de um instrumento (questionário) de avaliação da qualidade de instalações esportivas para o esporte de participação voltado à realidade brasileira. Este questionário permite avaliar a qualidade da instalação esportiva brasileiras sob o ponto de vista da percepção e satisfação do usuário. Destaca-se neste instrumento que as áreas a serem avaliadas estão relacionadas à Infraestrutura, aos serviços Esportivos e aos Serviços de Suporte.
Este instrumento de avaliação poderá impactar na discussão acadêmica a respeito da qualidade de instalações esportivas para o esporte de participação e aplicação de pesquisas em diferentes contextos brasileiros, assim como contribuir com a prática, ao disponibilizar instrumento que poderá ser utilizado como parâmetro para avaliações. Assim como propor a discussão da qualidade desses espaços também em âmbito prático.
Tendo em vista o crescimento e consolidação da área de gestão do esporte no Brasil e internacionalmente, e considerando que o desenvolvimento do esporte no país passa pelas condições para a prática esportiva de participação, que engloba todas as faixas etárias e práticas esportivas, e da importância de se manter em boa qualidade de uso os espaços e instalações esportivas construídas no país, esta pesquisa poderá contribuir com a qualificação de locais de prática esportiva de acesso a todos, já que possui foco em instalações esportivas para o esporte de participação.
Tendo em conta o número de instalações esportivas construídas nos últimos anos no país, e da necessidade de existências das mesmas para garantir espaço de prática físico-esportiva para a população em geral, a disponibilidade de um instrumento que avalie a qualidade desses espaços pode ser subsídio para condução de uma gestão mais eficiente e mais alinhada com as necessidades daqueles que usufruem do espaço. Podendo ser utilizado tanto pelo setor público quanto pela iniciativa privada, a pesquisa pode impactar consideravelmente no oferecimento de infraestrutura adequada para a prática de atividade física e esportiva.
Além disso, há uma inerente contribuição teórica do estudo, haja visto que oferece um instrumento para futuras pesquisas na área, além de trazer um percurso metodológico que poderá também servir de base para estudos na área de Gestão do Esporte. Portanto, a discussão com a sociedade e com pesquisadores do tema, o desenvolvimento de um instrumento devidamente validado e a publicação deste material em periódicos científicos contribui para o desenvolvimento da área científica de forma considerável.
Como limitação da pesquisa, destaca-se a dificuldade em se coletar dados com os usuários de instalações. Esta limitação é comumente enfrentada por pesquisadores da área de Gestão do Esporte.
Para estudos futuros, sugere-se uma abordagem mais abrangente com gestores de instalações esportivas para a discussão da qualidade destes espaços sob o ponto de vista da gestão. Além disso, a condução de outras análises estatísticas pode enriquecer e tornar mais robusto o modelo. Sugere-se também a ampla aplicação do questionário em território nacional, a fim de consolidarmos o instrumento e também termos parâmetros de comparação entre regiões.
ANEXOS
Anexo A – Questionário (versão final)
Questionário – Qualidade percebida em Instalações Esportivas
Usuários
Caracterização do respondente:
1. Sexo: () Masculino () Feminino
2. Idade:
3. Raça: () Branca () Preta () Parda () Amarela () Indígena () sem declaração
4. Deficiência: () Sim () Não
5. Escolaridade:
() Pós-Graduação (mestrado/doutorado)
() Pós-Graduação (especialização)
() Ensino Superior completo ou equivalente
() Ensino médio completo ou equivalente
() Ensino fundamental completo ou equivalente
() Sem instrução / menos de 1 ano de estudo
Em relação a instalação esportiva que você utiliza para a prática de atividade esportiva, avalie os itens pontuados abaixo, numa escala de 1 a 5 (“Muito ruim”; “Ruim”; “Regular”; “Bom” e “Muito bom”). Nos casos da instalação esportiva que você frequenta não realizar ou não possuir algum dos itens, marque a opção 1.
A instalação esportiva:
1. Comunica a programação esportiva com frequência/periodicidade.
2. Possui placas de localização e indicações de uso dos espaços.
3. A infraestrutura é acessível (em termos arquitetônicos) para todos os públicos (incluindo deficientes, idosos, crianças).
4. Possui equipamentos esportivos (como bolas, redes, colchonetes, pesos, etc.) em condições de uso.
5. Possui iluminação adequada em todos os ambientes.
6. Realiza manutenção da infraestrutura com a frequência necessária (não apresenta infraestruturas quebradas ou que oferecem risco aos usuários).
7. A programação esportiva é diversa (oferece atividades e modalidades diferentes).
8. A programação esportiva é planejada.
9. Os instrutores são profissionais e eficazes.
10. Oferece banheiros e/ou vestiários adequados.
11. Oferece ambientes para hidratação (bebida) adequados.
12. Oferece ambientes de alimentação adequados.
13. Oferece ambientes de convivência adequados.
14. Oferece estacionamento adequado.
15. Oferece limpeza de ambientes adequada.
16. Oferece segurança adequada.
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FINANCIAMENTO
O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), por meio de auxílio financeiro recebido por meio do edital Chamada FAPEMIG 01/2021 Demanda Universal sob o processo número APQ-02161-21.
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