Wamrêmé Za'ra, nossa palavra. Mito e história do povo Xavante

Novos tempos, velhas histórias* * Uma versão abreviada desta resenha foi publicada no Jornal de Resenhas, nº 46, Folha de S. Paulo, 9/1/1999.

Sereburã, Hipru, Rupawe, Serezabdi e Sereñimirãmi. Wamrêmé Za'ra, nossa palavra. Mito e história do povo Xavante. São Paulo, Editora do SENAC, 1998. 179 páginas.

Aracy Lopes da Silva

No quadro geral do Brasil indígena desta última década do milênio, uma novidade histórica é a maciça constituição e consolidação de associações e organizações indígenas locais e regionais. Se a possibilidade legal foi dada pela Constituição de 1988, cujos termos, no tocante aos direitos indígenas, representaram o reconhecimento de processos de organização política e participação indígena crescentes no cenário nacional desde o decênio anterior, o ritmo e a amplitude do surgimento de novas associações indígenas nos anos 90 revelam um valor que se afirma: a busca de autonomia. Paralelamente ao enxugamento do Estado e à diminuição da capacidade assistencial da Fundação Nacional do Índio (Funai), crescem projetos de autoria indígena em todo o país, formulados com assessoria especializada, mediante parcerias com grupos não-indígenas ou de composição mista e financiados com recursos de organizações não-governamentais, órgãos do governo, universidades e fundos de pesquisa.

Os projetos cobrem um amplo campo: vão da ecologia à economia, do manejo da fauna e da flora nativas ao desenvolvimento sustentado; de programas de assistência à saúde à divulgação de padrões estéticos (plásticos, dramáticos, musicais) próprios; da construção de currículos escolares diferenciados a projetos educacionais destinados à formação de recursos humanos para a autogestão em diferentes campos da vida social.

A pesquisa é, nesses casos, uma ferramenta indispensável. Equipes indígenas ou interétnicas levantam conhecimentos sobre as espécies naturais, a geografia, a história, a arte, a religião, a filosofia. A memória dos mais velhos é uma das fontes mais procuradas. O saber concretizado nos objetos, nas práticas de exploração e transformação de recursos naturais, assim como os conhecimentos lingüísticos, estéticos e esotéricos de especialistas indígenas também são alvo freqüente dos pesquisadores índios e seus assessores. Rituais, reuniões, assembléias políticas, situações de conflito fundiário ou de outra natureza são igualmente objeto de atenção privilegiada.

Cada vez mais, dadas as condições das relações econômicas e políticas no mundo atual, o cotidiano da maior parte dos povos indígenas no Brasil desenrola-se em meio a algum grau de tensão entre os conhecimentos indígenas e os ocidentais, entre políticas públicas e a política das aldeias, entre tendências políticas internacionais (pela via de informações relativas a organismos como a ONU, a Unesco e o Conselho Mundial dos Povos Indígenas, entre outros, por exemplo) e a definição de estratégias e de opções de vida e de futuro por populações indígenas específicas.

As transformações em curso no plano mundial e regional afetam diretamente as populações indígenas. No plano local, registre-se a multiplicação dos atores em interação, a complexificação das relações sociais, políticas e econômicas e a ampliação do universo social indígena, com novas informações, novas alianças, novos parceiros, novas e diversificadas formas de organização e estratégias de construção e reconstrução simbólicas e identitárias.

Dentre os projetos indígenas em curso, muitos podem ser corretamente definidos como culturais: compreendem o registro em vídeo, em áudio, em CDs ou em livros de saberes e manifestações próprias. São materiais destinados ao consumo interno, como recurso de uma política de vitalização da identidade e da memória com vistas aos jovens de hoje e às gerações futuras, a quem igualmente se destinam os materiais didáticos elaborados por professores índios em línguas indígenas; ou têm por alvo o consumidor externo, não-índio, brasileiro ou não. Muitos desses produtos têm um duplo público e não é pequeno o valor simbólico dessas produções culturais nos diferentes contextos sociais onde se inserem. Trata-se de um movimento em franca expansão: a produção de material próprio com o recurso a tecnologias não-indígenas, para fins definidos autonomamente.

É nesse contexto que os Xavante Sereburã, Hipru, Rupawe, Serezabdi e Sereñimirãmi e sua equipe de apoio nos brindam com seu livro Wamrêmé Za'ra, nossa palavra. Mito e história do povo Xavante. Trata-se de uma belíssima edição, ilustrada com desenhos originais de jovens Xavante e fotos históricas localizadas através de pesquisa em arquivos realizada pela equipe assessora do projeto (Núcleo de Cultura Indígena, São Paulo). O processo de produção da obra durou cerca de três anos, incluindo gravações de narrativas orais na aldeia de Pimentel Barbosa (MT), o trabalho dos tradutores xavante e a pesquisa fotográfica e bibliográfica

O livro compõe-se de duas partes, já identificadas no título. A primeira, "Antes de tudo", reúne as narrativas relativas às origens: os clássicos mitos xavante1 1 Já publicados em Giaccaria e Heide (1974), Lopes da Silva (1986), Maybury-Lewis (1984), Graham (1995) e Carrara (1997). Ao lado da primeira destas obras (cujas narrativas foram republicadas em Wilbert e Simoneau, 1984), o livro aqui resenhado apresenta uma das mais completas coletâneas de narrativas xavante. em novas versões, assinadas, contando sobre o começo da humanidade, das plantas cultivadas, dos animais, a obtenção do fogo pelos humanos, a origem das mulheres indígenas e dos homens brancos. Há um evidente trabalho de edição da tradução (embora os bastidores não sejam trazidos ao leitor), visando tornar os textos compreensíveis por um público não-Xavante. O esforço é bem-sucedido, já que não há adulteração dos sentidos originais e que o resultado final é um texto conciso e de leitura agradável. É graficamente muito bem solucionada a apresentação bilíngüe das narrativas.

A segunda parte do livro é dedicada à "história" e trata do contato dos Xavante com outros povos indígenas e, principalmente, com os não-índios. Como a vida xavante é marcada por intenso facciosismo construído a partir da divisão da população em clãs, o livro, inevitavelmente, traz uma versão da história do contato em que o ponto de vista da facção dominante (e seu respectivo clã) na aldeia Pimentel Barbosa é predominante. Há, certamente, outras histórias, contadas, entre os Xavante, de outras perspectivas. Isso, porém, em nada desmerece o livro. Ao contrário: toda história xavante será sempre narrada a partir de uma posição claramente definida por relações de poder, e a possibilidade de outras histórias está prevista no texto de abertura do livro.

A versão publicada tem o mérito de ser, dentre as publicações sobre a história deste povo, a primeira elaborada a partir de narrações destinadas a este fim específico e reconhecida como sua pelos narradores xavante. É, portanto, a única publicação que traz uma visão xavante sobre o processo do contato. As fotos das frentes de atração, dos primeiros encontros e presentes trocados, tiradas e arquivadas por não-índios, contrastam com a perspectiva indígena: os brancos foram atraídos por meio de recursos mágicos para que trouxessem os desejados instrumentos, os machados e facas. Atração e contato são vistos pelos Xavante como processos controlados por eles, por seus sonhos, por seus poderes.

Nos relatórios do Serviço de Proteção ao Índio, nas reportagens de época, na memória dos não-índios, os Xavante é que foram atraídos e "pacificados". Eram tempos de Getúlio. A "marcha para o Oeste" e a Fundação Brasil Central atingiriam em cheio o território habitado então (como hoje) pelos Xavante de Pimentel Barbosa: as margens do rio das Mortes e a serra do Roncador.2 2 Os Xavante habitam hoje seis áreas descontínuas no Leste matogrossense (Terra Indígena (TI) Rio das Mortes — onde se situa a aldeia conhecida como Pimentel Barbosa —; TI Areões; TI Parabubure; TI Batovi; TI São Marcos e TI Sangradouro), nas regiões de Nova Xavantina, Canarana, Barra do Garças e Paranatinga. Somam aproximadamente 9 mil pessoas, que vivem em cerca de 55 aldeias e falam a língua A'uwe, da família lingüística Jê. Poriam fim a um período de isolamento voluntário dos Xavante, que já haviam experimentado o convívio interétnico em séculos anteriores, notadamente no século XIX, em aldeamentos pombalinos na então Província de Goiás.

A data oficial do primeiro contato pacífico neste século é 1946, após vários anos de tentativas missionárias e governamentais, às quais os Xavante sempre reagiram em defesa de seus territórios. É sobre estes mais de 50 anos que os Xavante discorrem detalhadamente na segunda parte do livro, permitindo um interessante contraponto com a história documental até agora levantada (Ravagnani, 1991; Chaim, 1983; Carneiro da Cunha, 1992).

Uma certa tensão se estabelece entre o tom dos Xavante em suas narrativas, revelando os índios como condutores dos processos em tela, senhores de seu destino, e a perspectiva presente principalmente no texto da quarta capa e, muito mais sutilmente, no prefácio do livro (ambos escritos por autores não-índios), que enfatiza as ameaças do contato, as perdas culturais, a "tradição" que pode acabar sob "o efeito descaracterizador do contato agressivo entre culturas". Do mesmo modo, é difícil entender o porquê de a grafia escolhida para as palavras em língua indígena não incorporar um som característico e freqüentemente presente na língua xavante. Refiro-me ao e nasalizado, invariavelmente grafado no livro como ê (com acento circunflexo, o que o transforma em outro fonema, acarretando alteração de sentido). Dificuldades de ordem gráfica (os computadores habitualmente não aceitam o til sobre a vogal e) em absoluto justificam essa "acomodação", em choque direto com todo o espírito do livro, qual seja, o de afirmação da voz, da sabedoria, da experiência e da perspectiva própria aos Xavante de Pimentel Barbosa. O livro destina-se ao público em geral, não-índio, mas destina-se também — e isso o dizem tanto as autoras do Prefácio quanto os narradores xavante — aos jovens Xavante do presente e do futuro. Por isso é também pena que o padrão de apresentação bilíngüe das narrativas, obedecido na primeira parte do livro, seja suprimido na segunda, em favor do uso exclusivo do português.

Se esses são pontos passíveis de crítica, são muitas as virtudes do livro. Além das já mencionadas, quero ressaltar o fato fundamental de que uma obra como essa permite uma interlocução desejada pelos Xavante com um público amplo e também o acesso mais próximo e direto dos não-índios a uma perspectiva indígena de mundo. Além disso, sela uma colaboração entre distintas gerações, constitui-se em um projeto coletivo. Os Xavante da aldeia de Pimentel Barbosa já gravaram um CD com canções próprias (Eteñiritipa — Cantos da tradição indígena xavante), um videoclipe (Wanoridobê) para divulgação nacional e internacional do CD, e foram parceiros da banda de rock Sepultura (Roots) em faixas gravadas na aldeia. Estabeleceram intercâmbios com estudantes estrangeiros, montaram exposições, espetáculos de dança e canto em centros urbanos e criaram um Centro Cultural na sede do município mais importante da região que habitam.

Considerando a população Xavante de modo geral, é possível dizer que são muitas as suas estratégias em face dos processos globais e regionais em curso e das novas situações que fazem, hoje, parte de suas vidas. Muitas referem-se a processos de redefinição dos termos em que são vivenciadas as relações interétnicas em que estão envolvidos; outras destinam-se à construção de alternativas econômicas; outras, ainda, reivindicam o acesso a implementos urbanos ou ao conhecimento científico e tecnológico. Dentre elas, e diversamente das escolhas feitas por outros povos indígenas no país, estão uma grande valorização da educação escolar e a formação, sob a orientação dos mais velhos, de jovens intelectualmente preparados para a interlocução com os não-índios. A autonomia política e econômica e o respeito geral à sua especificidade étnica e cultural são objetivos que se expressam claramente por meio da formação de associações indígenas locais e da produção dos já citados bens culturais para consumo em mercados urbanos nacionais e internacionais, inclusive o livro que examino aqui.

Uma breve menção a alguns dos projetos hoje em curso entre os Xavante de diferentes localidades pode ilustrar as atuais frentes de atuação indígena. Um deles, financiado pela World Wildlife Foundation, propõe o manejo de animais cinegéticos nativos do ambiente habitado pelos Xavante, historicamente consumidos por essa população mas que hoje estão ameaçados; outro, financiado pelo Banco Mundial, combina igualmente a pesquisa epidemiológica e nutricional com ações no campo da saúde; um terceiro, promovido por uma organização pan-indígena, almeja o manejo de plantas frutíferas nativas, enquanto um outro, de autoria indígena e financiado por empresas sediadas no Brasil, busca na apicultura um caminho para a autonomia econômica da aldeia que o idealizou. Projetos no campo da educação escolar (governamentais e não-governamentais) têm, invariavelmente, a adesão dos Xavante. Professores xavante têm forte atuação no Projeto TUCUM, de formação continuada, promovido pelo governo do Estado do Mato Grosso. Na outra ponta, uma pesquisa antropológica proposta individualmente por um pesquisador sobre a classificação indígena de aves é autorizada pelos Xavante sob a condição da elaboração posterior de um livro didático contendo seus resultados, para registro do conhecimento indígena e para uso nas escolas das aldeias.

Se a última década trouxe novidades no cenário do Brasil indígena, foi também marcada por ganhos teóricos importantes no campo da etnologia. Um deles refere-se ao refinamento da análise das situações de contato: a comprovação etnológica e discursiva da historicidade dos povos nativos, revelada tanto em sua memória como em suas reflexões próprias sobre a história, o passado, o tempo. Comprovada, também, na capacidade criativa que se exercita nas concepções, nas reelaborações e nas práticas simbólicas e sociais, nas formas de organização, nas inovações rituais.

A história xavante narrada em Wamrêmé Za'ra é também a história de um crescente envolvimento desse povo indígena com setores cada vez mais numerosos e variados da população brasileira, com a economia e com a política do país. À medida que aumenta o conhecimento mútuo e se ampliam os campos da interação recíproca, é possível compreender, sob novos ângulos, princípios e componentes de uma certa "filosofia do contato", definida pelos Xavante a partir do interior de seu universo sociocultural e de sua memória histórica.

Partindo dessas concepções, uma compreensão mais acurada da experiência Xavante no mundo atual exige a revisão de certas posturas analíticas: no lugar dos blocos "sociedade indígena"/"sociedade envolvente", cabe pensá-la como processo em curso no âmbito de um complexo sociocosmológico mais amplo; no lugar da difundida (e simplista) idéia da "aculturacão", a consideração da ação indígena sobre o mundo como fator de construção da história. São os processos dessa construção que o material narrativo reunido neste livro pelos Xavante permite apreender. Tem-se em Wamrêmé Za'ra a oferta, tanto ao especialista como ao leitor em geral, de matéria viva para conhecimento, pesquisa e reflexão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. (1992), História dos índios no Brasil. São Paulo, Companhia das Letras/FAPESP/Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

CARRARA, Eduardo. (1997), Tsi Te Wara. Um vôo sobre o cerrado xavante. São Paulo, dissertação de mestrado em Antropologia, FFLCH/USP.

CHAIM, Marivone. (1983), Aldeamentos indígenas: Goiás 1749/1811. São Paulo, Nobel.

GIACCARIA, Bartolomeo e HEIDE, Alberto. (1974), Jerônimo conta. Campo Grande, Editorial Dom Bosco.

GRAHAM, Laura. (1995), Performing dreams. Austin, University of Texas Press.

LOPES DA SILVA, A. (1986), Nomes e amigos. São Paulo, FFLCH/USP, Coleção Antropologia.

MAYBURY-LEWIS, David. (1984), A sociedade xavante. Rio de Janeiro, Francisco Alves.

RAVAGNANI, Oswaldo. (1991), A experiência xavante com o mundo dos brancos. Araraquara, Unesp.

WILBERT, Johannes e SIMONEAU, Karin. (1984), Folk literature of the Gê indians. vol. 2. University of California Publications.

ARACY LOPES DA SILVA

é professora do Departamento de Antropologia da Unicamp e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da USP.

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    Uma versão abreviada desta resenha foi publicada no
    Jornal de Resenhas, nº 46,
    Folha de S. Paulo, 9/1/1999.
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    Já publicados em Giaccaria e Heide (1974), Lopes da Silva (1986), Maybury-Lewis (1984), Graham (1995) e Carrara (1997). Ao lado da primeira destas obras (cujas narrativas foram republicadas em Wilbert e Simoneau, 1984), o livro aqui resenhado apresenta uma das mais completas coletâneas de narrativas xavante.
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    Os Xavante habitam hoje seis áreas descontínuas no Leste matogrossense (Terra Indígena (TI) Rio das Mortes — onde se situa a aldeia conhecida como Pimentel Barbosa —; TI Areões; TI Parabubure; TI Batovi; TI São Marcos e TI Sangradouro), nas regiões de Nova Xavantina, Canarana, Barra do Garças e Paranatinga. Somam aproximadamente 9 mil pessoas, que vivem em cerca de 55 aldeias e falam a língua A'uwe, da família lingüística Jê.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Maio 2000
  • Data do Fascículo
    Jun 1999
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