Open-access Perfil dos egressos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso, campus Cuiabá

RESUMO

Introdução:   O conhecimento da trajetória e atuação dos egressos de um curso de Medicina, assim como sua percepção sobre o ensino oferecido durante a graduação, possibilita a identificação das necessidades e falhas no processo de formação médica.

Objetivo:  Este estudo objetivou descrever o perfil socioeconômico, de qualificação e de atuação profissional dos egressos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (FM/UFMT), campus Cuiabá.

Método:  Trata-se de um estudo descritivo, exploratório e transversal, cujos participantes são médicos formados pela FM/UFMT, entre os anos de 1986 (turma 1) e 2021 (turma 57). Para a coleta de dados, utilizou-se um questionário online, disponibilizado pela plataforma Google Forms e enviado aos egressos via e-mail.

Resultado:  Do total de 1.670 egressos, 344 (21%) participaram do estudo, sendo 55% do sexo masculino, 51% casados e com média de idade de 39,6 anos. Entre os entrevistados, 78,2% demonstraram satisfação com a formação recebida e 72,7% atuam como especialistas. Além disso, 82,3% cursaram ou estão cursando residência médica, e apenas 19,5% cursaram mestrado ou doutorado. Em termos de competências, 43,6% se consideram proficientes em gestão de saúde e 54,3% em educação em saúde.

Conclusão:   O estudo revelou que os egressos, predominantemente do sexo masculino e com idades entre 30 e 40 anos, atuam majoritariamente como especialistas. Identificou-se uma percepção positiva dos ex-alunos em relação à formação oferecida pelo curso e ao preparo para o mercado de trabalho. Recomenda-se a realização periódica de levantamentos sobre o perfil dos egressos, visando promover uma avaliação constante da formação proporcionada pela instituição.

Palavras-chave:
Educação Médica; Avaliação Educacional; Educação de Graduação em Medicina; Área de Atuação Profissional

ABSTRACT

Introduction:   The knowledge of the career trajectory and performance of graduates from a medical course, along with their perception of the education provided during their undergraduate studies, allows for the recognition of the needs and shortcomings in the medical training process.

Objective:   This study aimed to describe the socioeconomic profile, qualifications, and professional activities of graduates from the Faculty of Medicine of the Federal University of Mato Grosso (FM/UFMT), Cuiabá campus.

Method:  This is a descriptive, exploratory, and cross-sectional study involving physicians who graduated from FM/UFMT, between 1986 (class 1) and 2021 (class 57). Data was collected through an online questionnaire, available via Google Forms, and sent to the graduates via email.

Results:   Out of a total of 1,670 graduates, 344 (21%) participated in the study. Of these, 55% were male, 51% were married, and the average age was 39.6 years. Among the respondents, 78.2% expressed satisfaction with the education they received, and 72.7% work as specialists. Additionally, 82.3% have completed or are currently enrolled in a medical residency, and only 19.5% have completed or are pursuing a master’s or doctoral degree. In terms of competencies, 43.6% consider themselves proficient in health management and 54.3% in health education.

Conclusion:  The study revealed that the graduates, predominantly male and aged between 30 and 40 years, mostly work as specialists. There was a positive perception among alumni regarding the education provided by the program and their preparation for the job market. It is recommended to conduct periodic surveys on the profile of graduates to continually evaluate the training provided by the institution.

Keywords:
Medical Education; Educational Measurement; Undergraduate Medical Education; Professional Practice Location

INTRODUÇÃO

A carreira médica, bem como a de outras profissões, é repleta de desafios e rápidas transformações ao longo do tempo. Nesse sentido, a avaliação dos egressos das escolas médicas se torna importante para a análise da formação dos estudantes ao identificar as potencialidades e fragilidades do curso e promover o aprimoramento das habilidades dos futuros médicos1.

No Brasil, desde 2000, o número de profissionais médicos cresceu 156%. Somente entre 2018 e 2023, a taxa nacional de profissionais inscritos nos Conselhos Regionais de Medicina (CRM) por mil habitantes cresceu de 2,18 para 2,60. Entre 2013 e 2022, houve a maior expansão do ensino médico no Brasil, e o país passou a contar com 389 escolas médicas que oferecem 41.805 vagas de graduação em Medicina2.

O conhecimento da trajetória e atuação do egresso é considerado uma relevante estratégia institucional para a obtenção de informações acerca da qualidade da formação discente. Essa estratégia pode ser considerada um ponto-chave para a identificação das falhas de educação e de sua adequação às novas exigências da sociedade e do mercado de trabalho3),(4.

Os egressos oferecem feedbacks essenciais para fortalecer o elo entre a formação acadêmica e a prática médica e tornam-se agentes ativos no processo de implementação de adequações curriculares5),(6. No entanto, mesmo que o acompanhamento dos ex-alunos seja preconizado pelo Ministério da Saúde, há escassez de estudos publicados sobre essa temática1),(7.

O curso de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) foi reconhecido pela Portaria MEC nº 658, de 10 de setembro de 1986, e até o momento não houve nenhuma forma de avaliação de seus egressos. Assim, este trabalho se propôs a realizar um estudo descritivo do perfil de qualificação e atuação dos egressos da Faculdade de Medicina (FM) da UFMT, campus Cuiabá.

MÉTODO

Realizou-se um estudo descritivo, exploratório e transversal no qual todos os médicos formados pela FM/UFMT, entre a turma 1 (1986) e 57 (2021), foram considerados possíveis participantes. Elaborou-se um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido juntamente ao questionário, ambos de aplicação pela internet. O questionário foi elaborado no Google Forms e enviado aos egressos via e-mail, cujos endereços foram fornecidos pela secretaria da FM/UFMT ou por contato via Whatsapp ou Instagram. O questionário foi dividido em três partes: a primeira com abordagem sobre o perfil sociodemográfico; a segunda sobre o perfil de formação; e, por fim, a terceira sobre a prática profissional dos egressos. Este trabalho teve como público-alvo o total de 1.670 profissionais médicos graduados pela FM/UFMT no período do estudo. Para o cálculo amostral, consideraram-se nível de significância de 5%, poder estatístico de 90%, erro esperado de 5%, proporção esperada de 50% de resposta não vazia no bloco de questões sobre a atuação profissional atual e efeito de desenho de 1,5. Assim sendo, amostra estimada foi de 322 médicos, segundo o cálculo de amostragem apresentado a seguir4:

n 0 = 1 / E 2

n = N x n 0 / N + n 0

onde:

  • n0 é a primeira aproximação do tamanho da amostra;

  • E2 é a margem de erro (por exemplo: 5% = 0,05);

  • N é o número de elementos da população;

  • n é o tamanho da amostra.

Para o presente estudo, adotou-se a definição de egresso como sendo o ex-aluno diplomado pelo curso de Medicina da FM/UFMT.

Considerações éticas

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE nº 35543920.0.0000.8124). A participação dos sujeitos da pesquisa que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi mantida em sigilo a fim de garantir a confidencialidade das respostas.

RESULTADOS

Do total de 1.670 graduados elegíveis, 344 (21,0%) participaram do estudo. Em relação aos dados sociodemográficos, 55% dos respondentes declararam ser do sexo masculino e 44,2% do sexo feminino. A média de idade encontrada foi de 39,6 anos e 51,0% do total dos egressos se encontram casados (Tabela 1).

Tabela 1
Características demográficas dos egressos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso - Cuiabá (n = 344).

Em relação à percepção de que o curso de Medicina proporcionou uma formação humanística, a maioria (45,6%) dos egressos respondeu que, em grande parte, isso positivo. NO que concerne à formação como médico generalista, 46,5% responderam que favoreceu em grande parte; 32,6%, totalmente. Já na formação como médico crítico-reflexivo, novamente 46,5% afirmaram que a faculdade favoreceu em grande parte. No aspecto ética, quase metade dos participantes (44,2%) declarou que a faculdade a favoreceu totalmente.

Em relação à satisfação com o curso, em uma escala de notas de 1 (“totalmente insatisfeito”) a 5 (“totalmente satisfeito”), 78,25% dos egressos participantes deram nota 4 e 5. Do total dos entrevistados, 72,7% atuam como especialistas. Além disso, 57,6% acreditam que foram totalmente preparados para o mercado de trabalho (Tabela 2).

Tabela 2
Atuação profissional atual e percepção de preparo para o mercado de trabalho dos egressos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (n = 344).

Após a graduação, 283 egressos (82,3%) cursaram ou está cursando residência médica. Desses, 213 (75,0%) ingressaram em menos de um ano em algum programa de residência médica (Tabela 3). As residências médicas mais cursadas são clínica médica (18%), pediatria (14,1%) e cirurgia geral (13,4%). Do total de entrevistados, 45,2% cursaram alguma subespecialidade, com destaque para cardiologia (6%), cirurgia plástica (5,2%) e endocrinologia (4,7%).

Tabela 3
Tempo gasto para ingresso na residência médica após concluída a graduação dos egressos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (n = 283).

A maior parte (80,5%) dos egressos não optou por fazer mestrado e/ou doutorado. Após a formação, 52% afirmaram ter submetido algum tipo de resumo em congresso, mas somente 27% publicaram em periódicos (Tabela 4).

Tabela 4
Qualificação profissional e acadêmica dos egressos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (n = 344).

Ao serem questionados sobre a pandemia da covid-19, 80,8% afirmaram que atuaram no atendimento e/ou manejo de pacientes com diagnóstico suspeito ou confirmado da doença. Desses, 50,5% acreditam que o curso de graduação em Medicina na FM/UFMT tenha influenciado positivamente na forma como lidaram com o atendimento na prática médica durante a pandemia.

Com relação à capacidade de gestão em saúde, 43,6% afirmaram ser competentes para a gestão em saúde. Na competência em relação à educação em saúde, que inclui aptidão em aprender continuamente, socializar o conhecimento e participar da formação de futuros profissionais, mais da metade (54,4%) afirmou ser competente. Ao serem questionados sobre gestão de empresas, 64,5% responderam que não exercem essa atividade.

Quanto à participação atual em atividades de ensino e pesquisa em universidades públicas ou privadas, a maioria (66,6%) respondeu negativamente.

DISCUSSÃO

Um meio fundamental de analisar a qualidade do ensino de qualquer instituição é a avaliação da inserção dos egressos no mercado de trabalho, assim como o seu nível de satisfação. O presente estudo foi o primeiro a ser realizado na FM/UFMT, campus Cuiabá, desde sua criação. Entre as principais dificuldades, pode-se citar a quantidade de respostas obtidas, levando em consideração a população de egressos de 1.670 profissionais; entretanto, o número se manteve proporcional ao cálculo de amostra. Além disso, não foi possível constatar participantes de todas as turmas, em razão da dificuldade de contato e localização de egressos das primeiras turmas.

Entre as respostas obtidas, houve equilíbrio entre os sexos, com a participação masculina ligeiramente maior (55,8%) em comparação ao feminino. Esse dado vai ao encontro dos estudos demográficos de medicina, os quais contabilizam 54,4% do total de profissionais do sexo masculino no país8. Em relação à idade, a média aqui apresentada (39,6 anos) é menor que a nacional (45,2 anos), cuja diferença pode ser atribuída tanto ao fato de a maior parte dos participantes ter sua formação mais recente, uma vez que o curso de Medicina da UFMT foi reconhecido há menos de 40 anos, e também à atual tendência nacional à juvenilização da graduação médica8),(9.

Quanto aos aspectos da formação médica, levando em consideração a parte humanista, generalista, crítico-reflexiva e ética, a maioria dos egressos considerou que a graduação supriu em grande parte ou totalmente esses aspectos, corroborando os objetivos propostos pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) do curso de Medicina de 2014. Tal resultado é expressivo, uma vez que, como a formação médica atual é bastante tecnicista, enraizada na própria cultura médica, o reforço da humanização deve ser desenvolvido e aplicado ainda durante a graduação10.

O nível de satisfação dos ex-acadêmicos em relação ao curso de Medicina foi considerado positivo, uma vez que, em uma escala de 1 (“totalmente insatisfeito”) a 5 (“totalmente satisfeito”), obteve-se um resultado de aproximadamente 79% de “4” e “5”. Em relação ao preparo para o mercado de trabalho, 57,6% dos egressos se sentem totalmente preparados.

No que tange à residência médica, entende-se que é de suma importância para a continuidade da formação profissional, principalmente devido à grande quantidade de novos médicos ingressando no mercado de trabalho. Com isso, há uma enorme procura pela especialização por parte dos formandos em Medicina, fato que é evidenciado pelos 82,3% que afirmaram estar cursando ou ter cursado algum programa de residência médica. Desses, é importante destacar que cerca de 75% ingressaram em até um ano após a formação. Cabe ressaltar que, como o ingresso em programas de residência médica é muito competitivo, a alta taxa de aprovação de egressos em um curto período de tempo após a formação pode ser considerada um indicador indireto da qualidade da formação acadêmica oferecida durante a graduação4.

No que concerne à comparação com médicos especialistas e médicos generalistas no país, 72% dos egressos da FM/UFMT seguem a tendência nacional de especialização (62,5%)². A crescente busca por especialização pode estar relacionada com maior ganho e qualidade de vida de médicos especializados em detrimento dos médicos generalistas, principalmente no que tange às condições médicas de trabalho e à capacidade financeira do profissional11.

As especialidades mais escolhidas pelos ex-alunos são clínica médica (18%), pediatria (14,1%) e cirurgia geral (13,4%), o que corrobora os resultados apresentados em Demografia médica no Brasil 20232. Vale ressaltar que, por tratar-se de pré-requisitos básicos para cursar outras especialidades e áreas de atuação, clínica médica e cirurgia geral podem apresentar uma maior taxa de preferência4),(6. No que tange à subespecialização, as escolhas se mostraram mais diversificadas e sem a presença de uma predominante sobre as outras.

Paralelamente, apenas 20% dos entrevistados afirmaram possuir alguma formação em programas stricto sensu (mestrado e doutorado), e 27% afirmaram ter publicado em periódicos após a graduação. Esses dados corroboram os estudos de Catellanos et al13, para os quais esse grau de instrução tende a ser buscado pelos profissionais que desejam seguir na carreira acadêmica, a qual não é em geral considerada uma área relevante de atuação pelos egressos de Medicina.

As DCN esclarecem a importância de o profissional estar comprometido com a educação e o treinamento de futuros profissionais em saúde, além de administrar e gerenciar força de trabalho e recursos, bem como ser gestor, empregador ou líder na equipe de saúde12. Em relação à capacidade de gestão em saúde e em educação, a maioria dos egressos se considera competente ou muito competente. Entretanto, há uma deficiência na formação de gestores de empresas, haja vista que mais da metade dos egressos respondeu não participar na gestão de corporações, seja pública ou privada. Além disso, contrariamente às competências de educação permanente das DCN, 66,6% dos ex-alunos não participam de atividades de ensino e pesquisa em universidades públicas ou privadas.

Devido ao momento pandêmico vivido mundialmente, foi abordada a atuação médica durante a pandemia da covid-19 ocorrida nos anos de 2020 e 2021. Observa-se que 80% dos egressos atuaram na assistência médica a pacientes suspeitos ou confirmados com a doença, e metade deles acredita que a graduação afetou positivamente sua conduta. Porém, 31% dos entrevistados não perceberam influência direta de sua formação sobre seu desempenho, dado que se relaciona com a percepção de outras publicações. Segundo Fernandez et al.14, a preparação médica, mesmo que direcionada para lidar com emergências, não é totalmente suficiente para enfrentar situações como a pandemia da covid-19.

CONCLUSÕES

O estudo permitiu descrever o perfil sociodemográfico, de qualificação e atuação dos egressos da FM/UFMT. Os dados sociodemográficos obtidos mostraram que a população desses ex-alunos é composta em sua maioria por homens, casados e com idade entre 30 e 40 anos.

Em relação à formação profissional, a maioria dos entrevistados se considera satisfeita, contudo é notável a necessidade de mudanças de rumo para que os egressos se sintam mais bem preparados para atuar no mercado de trabalho. A alta porcentagem de ex-alunos que cursaram ou cursam programas de residência médica segue a tendência de busca pela especialização entre os profissionais. Entretanto, constata-se uma baixa procura pela realização de programas de mestrado ou doutorado, assim como atividades de educação em saúde preconizadas pelas DCN, evidenciando a necessidade de ampliar a discussão sobre a temática.

Destacam-se também o número relevante de egressos que atuaram na pandemia da covid-19 e a percepção positiva dos entrevistados sobre a influência da graduação em seu desempenho.

Para o futuro, recomenda-se a realização de novos estudos que acompanhem o perfil dos médicos egressos, a fim de manter uma constante autorreflexão e o aprimoramento da formação oferecida aos futuros profissionais.

AGRADECIMENTO

Agradecemos ao Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso (CRM-MT).

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  • 3
    Avaliado pelo processo de double blind review.
  • FINANCIAMENTO
    Declaramos não haver financiamento.
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento Research data is available in the body of the document.

Editado por

  • Editora-chefe:
    Rosiane Viana Zuza Diniz.
  • Editor associado:
    Aristides Palhares Neto.

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    09 Dez 2024
  • Aceito
    25 Abr 2025
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