Open-access Quem fundamenta a simulação na educação médica brasileira? Revisão de escopo sobre autores e teorias

RESUMO

Introdução:  O ensino baseado em simulação (EBS) tem se consolidado como uma estratégia pedagógica relevante na educação médica brasileira. Assim, compreender as teorias que o fundamentam pode tornar mais efetivas as atividades para a formação ou para a atualização do médico, especialmente diante da diversidade regional e institucional do país.

Objetivo:  Este estudo teve como objetivo mapear aspectos bibliométricos da produção nacional sobre EBS na educação médica, identificando teorias pedagógicas e autores mais frequentemente citados, os tipos de atividades realizadas, as áreas da medicina envolvidas e a distribuição geográfica dos pesquisadores.

Método:  Trata-se de uma revisão de escopo com buscas nas bases de dados SciELO, Portal de Periódicos da Capes e Portal Regional da BVS, utilizando os descritores “simulação” e “ensino médico”, com recorte temporal de 2014 a 2025. Foram incluídos artigos com texto completo publicados nas bases de dados supracitadas e relacionados especificamente à educação médica com fundamentação teórica identificável.

Resultado:  Dos 251 artigos inicialmente identificados, 23 compuseram a amostra final. A região Sudeste concentrou 65% das publicações, e a Revista Brasileira de Educação Médica respondeu por 47% dos artigos. Os estudos quantitativos predominaram, com destaque para revisões de literatura e relatos de experiência. George Miller, David Ausubel, Lev Vygotsky, Ronald Harden, Benjamin Bloom, David Kolb e Paulo Freire foram os autores mais citados. Simuladores de pacientes e de baixa tecnologia concentraram 61% das atividades descritas. Cirurgia e emergência foram as áreas mais representadas. Praticamente inexistiram referências ao conectivismo e a autores brasileiros.

Conclusão:   A produção nacional sobre o EBS na educação médica apresenta concentração geográfica, predominância de estudos quantitativos e tendência à validação de modelos pedagógicos consolidados em outros contextos. A baixa frequência de teorias socioculturais, humanistas e conectivistas, assim como a quase ausência de referenciais nacionais, alerta para possíveis lacunas teóricas relevantes diante das demandas contemporâneas da formação médica brasileira.

Palavras-chave:
Educação Médica; Simulação Realística; Formação Profissional em Saúde

ABSTRACT

Introduction:  Simulation-Based Education (SBE) has consolidated itself as a relevant pedagogical strategy in Brazilian medical education. Understanding the theories that underpin it may enhance the effectiveness of activities aimed at both the training and continuing education of physicians, particularly given the regional and institutional diversity of the country.

Objective:   To map bibliometric aspects of national production on SBE in medical education, identifying the most frequently cited pedagogical theories and authors, the types of activities carried out, the areas of medicine involved, and the geographical distribution of researchers.

Method:  A scoping review was conducted with searches in the SciELO, CAPES Periodicals Portal, and BVS Regional Portal databases, using the descriptors “SIMULATION” AND “MEDICAL EDUCATION”, covering the period from 2014 to 2025. Articles with full text published in the aforementioned databases and specifically related to medical education with identifiable theoretical frameworks were included.

Results:   Of the 251 articles initially identified, 23 composed the final sample. The Southeast Region concentrated 65% of the publications, and the Brazilian Journal of Medical Education accounted for 47% of the articles. Quantitative studies predominated, with emphasis on literature reviews and experience reports. George Miller, David Ausubel, Lev Vygotsky, Ronald Harden, Benjamin Bloom, David Kolb, and Paulo Freire were the most frequently cited authors. Patient simulators and low-technology simulators accounted for 61% of the described activities. Surgery and Emergency Medicine were the most represented areas. References to Connectivism and Brazilian authors were virtually nonexistent.

Conclusion:  National production on SBE in medical education shows geographical concentration, a predominance of quantitative studies, and a tendency toward the validation of pedagogical models consolidated in other contexts. The low frequency of sociocultural, humanistic, and connectivist theories, as well as the near absence of national theoretical frameworks, points to potentially significant theoretical gaps in light of the contemporary demands of Brazilian medical education.

Keywords:
Medical Education; Simulation Training; Health Human Resource Training

INTRODUÇÃO

A educação médica de qualidade exige um processo de contínua tentativa de autoaperfeiçoamento para que as novas tecnologias envolvidas no cuidado destinado às pessoas sejam incorporadas já aos processos formativos da sua graduação e aos eventos relacionados à educação permanente e continuada1)-(3.

Dessa forma, a compreensão das teorias que fundamentam o ensino e a aprendizagem pode tornar mais efetivas as atividades desenhadas para a formação ou para a atualização do médico, e o seu domínio se torna uma necessidade para os profissionais que coordenam ou planejam esses momentos, tanto para selecionar quanto para respaldar eventuais mudanças nos caminhos pedagógicos quando estes não se apresentarem alinhados aos seus objetivos educacionais4),(5.

Dentre as novas metodologias utilizadas para qualificar a educação médica, a literatura demonstra o crescente interesse no ensino baseado em simulação (EBS), justificado pelas inúmeras potencialidades relacionadas a essa técnica que encontram ressonância nos pilares da educação moderna6),(7.

O EBS é definido como “uma técnica - não uma tecnologia - que substitui ou amplifica experiências reais por experiências guiadas, interativas e controladas, que replicam aspectos significativos da realidade, proporcionando um ambiente seguro para o desenvolvimento de competências técnicas e não técnicas”8(p.1).

O uso das teorias fundamentais da pedagogia no EBS pode ser exemplificado na utilização do conceito de zona de desenvolvimento proximal descrito por Lev Vygotsky, embasando a supervisão de atividades simuladas por um facilitador mais experiente e indicando estratégias para a formação de competências profissionais9.

Pode ser observado também na utilização dos princípios da andragogia para o desenho de atividades contextualizadas que atendam às expectativas e aos interesses reais dos seus participantes, como descrito por Malcolm Knowles, ou ainda na estruturação de cenários que contemplem as fases de experiência concreta, observação reflexiva, conceituação abstrata e experimentação ativa propostas pelo ciclo de aprendizagem experiencial de David Kolb.

Como visto, o EBS está embasado por vários pilares pedagógicos estruturantes, com uma grande variedade de autores e de contribuições das linhas de pensamento que também fundamentam as bases da educação geral e que, no âmbito da pedagogia contemporânea, podem ser agrupadas em seis vertentes principais: 1. behaviorismo, 2. cognitivismo, 3. construtivismo, 4. teoria sociocultural, 5. humanismo e 6. Conectivismo10.

O domínio dos princípios pedagógicos que fundamentam tecnologias educacionais como o EBS pode ser estratégico para garantir a sua implementação otimizada nas escolas médicas, principalmente quando algumas pesquisas sugerem que um dos maiores desafios para a sua concretização, além da questão estrutural, está relacionado à insegurança docentes para utilizá-lo, relatando ausência de capacitações ou não familiaridade com o método como justificativas para não aplicá-lo na sua prática corrente11.

Dessa forma, este artigo que parte de uma tese de doutorado conduzida sobre EBS no ensino médico tem como objetivos compreender aspectos bibliométricos relacionados à produção acadêmica sobre essa técnica no Brasil (como a distribuição geográfica das publicações, o tipo de estudo escolhido e as principais revistas que os veicularam) e também mapear os principais autores e as fundamentações teóricas utilizados nas pesquisas publicadas em alguns dos principais bancos de dados visitados por autores brasileiros.

MÉTODO

Para o desenvolvimento desta pesquisa, optou-se pela realização de uma revisão de escopo, compreendida como uma abordagem metodológica que visa mapear os conceitos-chave de uma área de conhecimento, identificar lacunas na literatura e examinar a natureza e extensão das evidências disponíveis sobre um tema12.

Com esse propósito, a descrição dos passos para esta pesquisa se alinha com a estratégia descrita na declaração PRISMA13.

Pergunta da pesquisa

A pergunta norteadora foi estruturada em consonância com as diretrizes do Joanna Briggs Institute para as revisões de escopo12, adotando o formato população, conceito e contexto: “Quais são os autores e as teorias pedagógicas utilizados como fundamentação teórica nas pesquisas sobre EBS na educação médica brasileira publicadas entre 2014 e 2025?”.

Nesse enquadramento, a população corresponde aos estudos publicados sobre o tema indexados nas bases de dados SciELO, Portal de Periódicos da Capes e Portal Regional da BVS; o conceito refere-se às teorias e aos referenciais pedagógicos empregados para fundamentar o EBS; e o contexto compreende publicações produzidas por autores vinculados a instituições de ensino ou assistenciais brasileiras, indexadas nas bases supracitadas, no período entre 2014 e 2025.

Fontes de informação e estratégias de busca

A Figura 1 apresenta o fluxo para a seleção dos artigos incluídos na revisão.

Figura 1
Fluxograma de identificação, triagem, seleção e inclusão dos artigos.

Para a seleção dos artigos, em agosto de 2025 foram consultadas as bases de dados SciELO, Portal de Periódicos da Capes e Portal Regional da BVS, e selecionaram-se aqueles publicados entre 2014 e 2025.

Para cada uma das bases de dados, utilizaram-se os seguintes e mesmos descritores: “simulação” e “ensino médico”. Como filtro, pesquisaram-se artigos com textos completos em português, inglês ou espanhol, revisados por pares, publicados nas bases supracitadas entre 2014 e 2025, por autores vinculados a instituições de ensino ou assistenciais no território brasileiro.

Variáveis estudadas na tabela de extração tiveram como propósito responder a questões essenciais da pesquisa, categorizadas nas seguintes dimensões: 1. revistas com publicações sobre o tema e ano de publicação dos artigos, 2. autores e teorias fundamentais de educação identificados no artigo, 3. tipos de atividades de simulação envolvidas ou descritas no estudo, 4. tipo de estudo realizado, 5. principal área da medicina relacionada ao estudo e 6. estado e região brasileiros do local de trabalho do autor principal.

  1. 1) Critérios de elegibilidade:
    • Conteúdo completo disponível.

    • Conteúdo relacionado à fundamentação teórica do EBS e/ou às teorias de ensino e aprendizagem (de acordo com a categorização adaptada de Squires et al.(10)).

    • Artigos realizados por autores brasileiros ou residentes no país.

    • Artigos relacionados ao EBS para os cursos de Medicina.

  2. 2) Critérios para exclusão:
    • Não abordar a fundamentação teórica ou autores relacionados ao EBS.

    • Conteúdo completo não disponibilizado.

    • Artigos realizados por autores não vinculados a instituições de ensino ou assistenciais brasileiras.

    • Artigos não relacionados especificamente à educação médica.

Por tratar-se de um estudo documental, com base de dados secundários, entendemos que não seria necessária a submissão prévia do projeto a um Comitê de Ética em Pesquisa, como disposto na Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (CNS).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Inicialmente foram selecionados 251 artigos: 16 da SciELO, 69 do Portal de Periódicos da Capes e 166 do Portal Regional da BVS.

Cada pesquisador procedeu de modo independente à análise, excluindo, num primeiro momento, artigos duplicados e aqueles cujos resumos ou leituras preliminares não se enquadrassem nos critérios de elegibilidade propostos.

Em sequência, cada pesquisador procedeu à leitura dos conteúdos dos artigos restantes e definiu aqueles que comporiam a revisão, preenchendo a tabela com as cinco dimensões propostas para análise.

Feito isso, as tabelas dos pesquisadores foram comparadas e discutidas para a observação de possíveis incongruências ou inobservâncias. Ao final, superados esses passos, restaram 23 artigos para a composição da base para esta revisão, conforme a síntese do Quadro 1.

Quadro 1
Extração dos dados da revisão.

Destaca-se, contudo, que, em parte da produção analisada - como no estudo de 2021 que associa o arco de Maguerez a simulações de alta fidelidade -, ocorre uma transposição não mediada de referenciais teóricos. Essa apropriação direta pode gerar confusão conceitual, pois a problematização pressupõe a análise da realidade vivida, enquanto a simulação opera a partir de ambientes e situações controlados. Essa lacuna impõe fundamentação mais rigorosa ao vincular teorias pedagógicas ao desenho de atividades simuladas, evitando incongruências entre o referencial teórico e a prática educacional.

Quanto aos aspectos bibliométricos da pesquisa, a distribuição geográfica do estado da Federação do autor principal apresentou a seguinte distribuição: dez de São Paulo, dois de Minas Gerais, dois do Rio de Janeiro, dois do Rio, Grande do Sul, um do Paraná, quatro do Ceará, um do Rio Grande do Norte, um de Pernambuco e um do Pará.

Os dados se assemelham aos do estudo de Ferreira et al.6 no qual também foi evidenciado um maior número de autores das regiões Sul e Sudeste do Brasil em 82% das publicações, com apenas 18% de estudos originados da região Nordeste e sem registros do Centro-Oeste ou do Norte do país.

Essa desproporcionalidade marcante não é novidade nos achados sobre esse item. Analisando especificamente as publicações na Revista Brasileira de Educação Médica entre 2006 e 2010, Hamamoto Filho et al.14 encontraram resultado bastante semelhante acerca da distribuição geográfica dos trabalhos publicados no periódico. Neste estudo, 80% dos autores também eram das regiões Sul e Sudeste. Essa assimetria foi justificada como reflexo da maior quantidade de programas de pós-graduação nessas regiões do Brasil.

Em relação aos periódicos, 87% dos artigos foram publicados em revistas Qualis A, nas áreas de educação, de ensino ou da medicina, de acordo com a categorização da Capes para o quadriênio 2021-2024. A Revista Brasileira de Educação Médica, Qualis A1 em educação, recebeu o maior número, 11, correspondendo a aproximadamente 47% dos estudos.

Nos artigos listados na revisão, apenas seis (26%) utilizaram o método qualitativo de abordagem, e os tipos mais realizados foram revisão da literatura ou relatos de experiência, eminentemente quantitativos, que juntos corresponderam a quase 47% dos trabalhos.

A preferência pela realização de estudos quantitativos parece ser ainda uma característica da pesquisa em educação para o campo da saúde no Brasil15),(16, e isso talvez possa estar associado ao percurso formativo no modelo biomédico e tecnicista dos cursos de graduação nessa área, especialmente na Medicina. A formação dos futuros médicos expostos a uma visão predominantemente positivista e binária de interpretação do mundo e de análise dos dados pode reforçar uma posição enviesada de que a pesquisa qualitativa seria desprovida de rigor científico significativo por incorporar a subjetividade no seu método.

Numa outra perspectiva, Conceição et al.15 questionam se o modelo avaliativo dos programas de pós-graduação, no qual o número de publicações em um tipo categorizado de revista, pode ter uma contribuição para um maior número de estudos quantitativos na área da saúde, já que a necessidade de produção é um pré-requisito essencial para a sobrevivência desses programas, e a mudança de paradigma para outro modelo de pesquisadores levaria a um investimento de tempo e de formação de que estes não dispõem.

A maior busca pela objetividade da pesquisa quantitativa, em detrimento da qualitativa na área médica, pode ser uma variável capaz de exercer influência relevante no tipo de referência educacional dos pesquisadores nacionais e direcionar a simulação mais como prática pedagógica do que um fenômeno formativo complexo, que precisa ser investigado com mais profundidade e sob novas perspectivas.

A respeito das teorias educacionais e de seus fundamentos, a análise da nuvem de palavras dos autores citados (Figura 2), que traz como destaques pela frequência de citações George Miller (seis), David Ausubel (cinco), Lev Vygotsky (quatro), Ronald Harden (quatro), David Kolb (três), Benjamin Bloom (três) e Paulo Freire (três), reforça essa percepção.

Figura 2
Nuvem de palavras com os principais autores citados nas publicações.

A predominância de autores identificados com a epistemologia da avaliação reforça a leitura de que há um foco preferencial dos trabalhos no “como avaliar” os alunos (no qual se destacam Miller e Harden, por exemplo), em detrimento da compreensão dos processos pedagógicos no geral, com os quais de conectam alguns autores menos citados, como Kolb ou Ausubel.

Essa perspectiva dialoga com a análise de Hamamoto Filho et al.14(p.481), segundo os quais as publicações nacionais sobre educação médica “investigam mudanças curriculares e métodos de ensino com base na opinião dos estudantes ou no desempenho de estudantes em avaliações [...]”.

É imprescindível uma reflexão sobre o que pode e sobre o que pretende alcançar essa produção científica predominantemente feita a partir de um lócus mais específico (da visão discente) e por meio de uma metodologia que habitualmente mergulha de forma mais superficial em características específicas dos fenômenos educacionais (a pesquisa quantitativa).

Pode-se inferir que analisar a eficiência ou a aplicação de modelos preestabelecidos de estratégias de ensino e aprendizagem tem maior chance de reforçar ou apenas reproduzir metodologias vigentes do que abrir espaço para análises que poderiam levantar questionamentos ou apontar caminhos para inovações.

Tal perspectiva assume uma maior importância quando são consideradas as particularidades do território brasileiro, o segundo país com a maior quantidade de Faculdade de Medicina do mundo. Parte significativa dessas escolas foi implantada recentemente, em diferentes regiões do país, cada uma com as suas características geográficas, culturais e estruturais (no que se refere à rede de assistência à saúde e infraestrutura geral). Especialmente em cenários ainda em amadurecimento, o ensino médico pode requerer individualizações para potencializar o seu processo formativo que eventualmente podem ainda não ter sido contempladas em nossas trilhas atuais de fundamentação teórica pedagógica17.

Convém salientar o dinamismo do processo educacional atual, o qual já demanda por validações e por novos olhares para tecnologias recém-desenvolvidas, como inteligência artificial e big data, ou para as redes neurais artificiais e os questionamentos sobre como e de que forma estas serão cada vez mais incorporadas ao ensino, já previstos inclusive no regulatório para a formação médica brasileira18.

Apesar da diversidade de autores ligados à fundamentação teórica do EBS listados neste estudo (27), a quase inobservância ou a baixa frequência da citação de teorias associadas a vertentes pedagógicas como conectivismo (Gráfico 1), corrente baseada em teorias tradicionais de aprendizagem para compreender o aprendizado na era digital, pode indicar uma defasagem teórica em relação às transformações tecnológicas contemporâneas.

Gráfico 1
Distribuição das principais linhas pedagógicas que fundamentam a educação (adaptada de Squires et al.10) listadas na revisão.

Contudo, observa-se uma predominância de teóricos ligados a processos avaliativos, cujos princípios no campo da análise das competências psicomotoras fazem uma maior conexão com o behaviorismo, representado na frequência elevada de citações relacionadas a Miller, Bloom e Harden.

A convergência entre os referenciais de Benjamin Bloom, George Miller e Ronald Harden evidencia esse peso relevante de um eixo estruturante da avaliação por competências na educação médica contemporânea brasileira, reforçando uma tradição na educação médica que valoriza a mensuração objetiva da performance como estratégia para assegurar validade, confiabilidade e segurança na formação profissional.

Enquanto a taxonomia dos objetivos educacionais de Bloom buscou organizar os domínios cognitivos em níveis crescentes de complexidade, a pirâmide de Miller operacionalizou essa progressão no campo da prática clínica ao distinguir as dimensões “saber”, “saber como”, “demonstrar” e “fazer”.

Tal articulação teórica reforça a centralidade e a demanda por verificação de desempenhos observáveis, sobretudo a partir do terceiro nível da pirâmide, no qual o estudante deve demonstrar habilidades em contexto controlado e, principalmente, antes de ser exposto a uma avaliação em cenário real (quarto nível). Esse aspecto racional agrega inclusive uma preocupação ética com a segurança do paciente à progressão dos processos avaliativos e educacionais19.

Por conseguinte, o Objective Structured Clinical Examination (OSCE), proposto por Harden em 1975, emerge como instrumento metodologicamente coerente com esse arcabouço. Ao estruturar estações padronizadas que avaliam competências psicomotoras, comunicacionais e atitudinais, o OSCE traduz em prática avaliativa os níveis superiores da taxonomia de Bloom e da pirâmide de Miller, consolidando uma abordagem alinhada a princípios de objetividade, reprodutibilidade e foco no desempenho20),(21.

A sinergia entre esses três referenciais contribuiu para a disseminação do OSCE nas escolas médicas, particularmente no âmbito do EBS, ao oferecer bases conceituais e ferramentas operacionais para a avaliação sistematizada da prática clínica na graduação.

Tal perspectiva vai ao encontro dos resultados do trabalho de Ferreira et al.6 acerca da simulação na formação do médico brasileiro, com 55% dos estudos sobre o tema sendo realizados em laboratórios de habilidades e simulação. Nestes, o OSCE desponta como uma das principais referências para processos avaliativos de habilidades práticas e atitudinais. Os resultados sobre o tipo de atividade de simulação obtidos na presente revisão trazem associações com esse cenário preferencial.

Foram observados 14 artigos (61%) que se referiam a pesquisas com pacientes padronizados (três), simuladores baseados em computadores de mesa (três), simuladores de tarefas complexas (dois) ou simuladores de pacientes (seis).

Os referidos tipos de atividades de simulação estão habitualmente relacionados a uma maior necessidade de investimento financeiro das instituições de ensino para a sua utilização. Isso pode limitar a replicação das experiências positivas publicadas encontradas nesses trabalhos por instituições com limitações de recursos para a compra, para a manutenção dos aparelhos ou para a atualização de softwares6.

Quanto à nacionalidade dos autores de referência, a citação do pernambucano Paulo Freire, referência mundial no âmbito da educação e “patrono da educação brasileira”, em apenas três publicações chama bastante a atenção pela sua baixa frequência. Uma das suas linhas educacionais, a pedagogia da autonomia, foi a única fundamentação teórica nacional encontrada nos estudos da revisão.

A ausência de outros pesquisadores brasileiros, como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro ou Maria Nilde Mascellani, reforça a ideia de que a produção nacional sobre educação médica e também aquela produzida sobre o ensino médico baseado em simulação entre os anos de 2014 e 2025 têm se proposto mais a validar estratégias já fundamentadas em outro contexto e relacionadas basilarmente a outras nacionalidades do que aprofundar olhares ou apontar novos ou caminhos próprios para a educação nacional22.

A menor frequência de autores das correntes da teoria sociocultural (oito) e do humanismo (quatro) pode sinalizar uma preocupação menor com as dimensões social e política da formação médica, mesmo que estas estejam previstas nas Diretrizes Nacionais Curriculares para a graduação em Medicina, conforme disposto no seu artigo 2º que afirma que o perfil do egresso do curso deve objetivar um profissional comprometido com “princípios éticos, humanísticos, científicos e princípios éticos, humanísticos, científicos e sociais da Medicina”18.

Essa lacuna teórica torna-se particularmente sensível quando se observa a adoção crescente de metodologias ativas (incluindo o EBS), frequentemente implementadas sob a premissa de centralidade do estudante, mas nem sempre acompanhadas de uma reflexão aprofundada sobre as bases epistemológicas que sustentam tal centralidade.

Nesse contexto, o resgate de autores como Paulo Freire, Lev Vygotsky e Malcolm Knowles contribui para qualificar o debate sobre o papel docente nas metodologias ativas. Longe de reduzir o professor a uma figura secundária, as abordagens sociointeracionistas e os princípios da andragogia reafirmam a sua função como mediador, organizador de experiências significativas e agente intencional do processo educativo.

O protagonismo discente, nessa perspectiva, não implica ausência de direção pedagógica, mas pressupõe uma condução qualificada, ética e contextualizada do processo formativo.

Como sintetiza o pensamento freiriano, “ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”, reafirmando que a aprendizagem é um fenômeno relacional, socialmente situado e pedagogicamente orientado.

Para contextualizar as vivências e para promover a reflexão após estas, a participação do professor ainda é imprescindível, especialmente no EBS. Desde a preparação de experiências significantes, o briefing e até o debriefing, a interlocução docente qualificada se soma ao engajamento do aluno para a obtenção dos melhores resultados educacionais e consequentemente de profissionais mais bem habilitados para atuar na rede de saúde23)-(25.

Quanto às áreas da medicina com mais trabalhos desenvolvidos, mais uma assimetria. Esse resultado reflete achados similares a outras dimensões investigadas. Na presente revisão, apenas um trabalho (4%) foi realizado no campo da pediatria, e somente três estudos (13%) fizeram referência ao campo da ginecologia e obstetrícia (Gráfico 2).

Gráfico 2
Distribuição dos artigos com base na área da medicina envolvida.

Em uma revisão que mapeou estudos publicados entre 2014 e 2024 sobre o EBS, Sohrabi et al.26 observaram que as atividades direcionadas para as áreas básicas, a clínica médica e a cirurgia geral correspondiam a 77% das experiências (excluindo os aperfeiçoamentos relacionados à enfermagem). Os estudos sobre formação para a ginecologia e obstetrícia corresponderam a apenas 8% dos trabalhos, o que não difere muito do resultado da revisão aqui apresentada e da literatura corrente27.

É possível considerar que a maior predominância da cirurgia, da emergência e da clínica médica pode estar relacionada ao perfil de parte dos médicos pesquisadores envolvidos nos estudos, associando o EBS a cenários de aprendizagem e áreas médicas de atuação que comumente envolvem tecnologias densas e maior concentração de equipamentos28.

Essas tecnologias são habitualmente mais comuns no cotidiano desses campos da assistência médica, que se utilizam com mais frequência de um arsenal diversificado de exames complementares e de procedimentos invasivos cirúrgicos ou diagnósticos em suas subespecialidades, não coincidentemente os que parecem ser mais desenvolvidos em laboratórios de habilidades6 em um padrão similar ao que foi observado também em nosso estudo.

Sobre o tema, Sohrabi et al.26) observaram que 72% dos trabalhos envolveram algum tipo de hardware (simulação baseada em computador, realidade virtual ou simuladores de alta fidelidade) em contraste com apenas 28% dos estudos que não utilizavam esse recurso (pacientes simulados ou usos de modelos simples/manequins).

Numa outra perspectiva, esses resultados inicialmente desafiadores sinalizam um espaço ainda fértil para um maior crescimento do EBS por meio do desenvolvimento de cenários que utilizem menos equipamentos e mais tecnologias leves, como o role play para habilidades de comunicação ou manequins simples para o treinamento de desobstrução de vias aéreas por corpos estranhos na pediatria.

Xie et al.27 refletem sobre a importância da implementação do EBS relacionado à ginecologia e obstetrícia, área com alta demanda para o aprendizado de competências voltadas ao cuidado de pacientes de alto risco ou de emergências obstétricas, em contraste com a baixa disponibilidade de formação destas antes das práticas clínicas27),(29.

Parte significativa dessa lacuna poderia ser resolvida com tecnologias educacionais leves significativas, como as que foram relatadas nas experiências de Zaconeta30 ou de Guida et al.31 para o desenvolvimento de competências assistenciais destinadas a uma atenção mais qualificada à violência contra mulheres ou diante de casos de síndromes hipertensivas gestacionais (a principal causa de mortalidade materna no Brasil).

Como uma das limitações da presente pesquisa, entendemos que a tentativa de caracterizar a produção nacional com maior precisão e restringir a busca de revistas ou bancos de dados internacionais pode levar a uma sub-representação de trabalhos de autores brasileiros publicados em periódicos estrangeiros.

Outro ponto limitante é a adaptação da categorização das teorias educacionais e a inclusão de autores não contemplados originalmente pela referência utilizada, o que pode levar a um viés de posicionamento devido à subjetividade de interpretação na correlação entre autor e teoria. Esse aspecto representa uma lacuna nesse campo que pode ser uma sinalização para um maior aprofundamento de estudos com esse propósito.

Por fim, por tratar-se de uma revisão que restringiu o seu escopo a trabalhos relacionados exclusivamente ao ensino de simulação na educação médica, o estudo não permite comparação ou se aproveita de experiências de abordagens de outras áreas da saúde, o que limita considerações no âmbito multidisciplinar.

CONCLUSÃO

O EBS tem apresentado um número significativo de publicações nas bases de dados habitualmente mais utilizadas por autores brasileiros, ainda predominantemente realizadas em estados localizados nas regiões Sul e Sudeste do país.

A despeito da necessidade de que toda a realidade e diversidade do território nacional sejam contempladas nas preocupações investigativas sobre o tema, a produção sobre o EBS tem aparentemente se proposto mais a validar modelos educacionais vigentes e importados muitas vezes reproduzindo incompreensões teóricas, como a aplicação não crítica de conceitos de problematização a cenários de simulação sem adaptação metodológica, do que analisar de forma mais aprofundada desafios e caminhos próprios relacionados ao tema. Isso parece ser o que tem indicado o tipo preferencial de estudo realizado (quantitativo), as teorias educacionais e os principais autores contemplados na presente revisão.

Dessa forma e considerando que o próprio modelo formativo pode ter impacto no modo de buscar ou de comprovar novas evidências na área da saúde, repensar o modelo educacional das escolas médicas, as teorias que são as suas referências e os autores que as sustentam pode ser uma estratégia para estimular novas formas de pensar a pesquisa em saúde e por consequência uma educação mais emancipadora.

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3

Avaliado pelo processo de double blind review.

FINANCIAMENTO

Declaramos não haver financiamento.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

Editora-chefe:

Rosiane Viana Zuza Diniz.

Editor associado:

Aristides Palhares Neto.

CONFLITO DE INTERESSES

Declaramos não haver conflito de interesses.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Out 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    26 Maio 2026
  • Aceito
    23 Jul 2026
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